À
semelhança daquilo que acontece em outras cidades europeias, em Lisboa
já está a ser aplicada a nova hierarquia de recolha semanal de lixo,
segundo a qual cada condomínio é presenteado com dois recipientes para
resíduos recicláveis de plástico e de papel (substitutos dos anteriores
contentores de rua), enfileirados junto ao caixote de lixo que tinham
nos seus rés-do-chão e que, a partir de agora, serve, em exclusivo, de
recipiente de lixo doméstico não-reciclável.
Tenho tantas coisas
para dizer sobre isto que, sinceramente, nem sei bem por onde começar.
Para já, servirá a breve constatação de que quando falo em hierarquia de
recolha semanal de lixo, é mesmo essa palavra que desejo empregar, pois
subjacente à política europeia de gestão do
desperdício doméstico
(atenção que a palavra-chave desta designação oficial é
desperdício:
não é lixo, não é resíduos, mas
desperdício, que carrega um mais
pesado lastro "moralizante") encontra-se uma criação bem interessante,
saída dos campos sempre férteis dos pseudoconhecimentos, chamada
hierarquia de desperdícios: uma inovação da velha tríade de
«reduzir,
reutilizar, reciclar», que foi moda até há bem pouco tempo, e que tem
como objectivo alcançar a utopia urbana de
desperdício zero. Ou seja: a
ideia é que os indivíduos façam menos lixo; neste caso, que não façam
nenhum.
Considerando que o ser humano e a maioria dos animais não
possuem poderes autotróficos, o que significa que não são capazes de
produzir os seus próprios alimentos, tal como as plantas, será muito
difícil não produzir, também, algum lixo.
De acordo com o
cardápio desanimador da
hierarquia de desperdícios, o lixo orgânico
passa a ser recolhido pelos serviços camarários de limpeza somente às
terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados. Por conseguinte, se
tiverem amigos ou família para jantar num sábado à noite, somente na
terça-feira seguinte é que poderão deitar fora o lixo produzido no fim
de semana. De facto, isto é um problema, porque obriga os indivíduos a
pensar num modo de conservar com segurança em casa o lixo orgânico
durante quase três dias (porque a recolha de lixo é nocturna). Só na
minha área de residência tenho encontrado caixotes a transbordar de lixo
não-recolhido, caixotes cheios de lixo que estão "trancados" com as
faixas adesivas aplicadas pelos serviços de fiscalização, por terem sido
colocados na via pública em dias nos quais não está programada a
recolha de lixo orgânico (corrijo,
não-reciclável) e, o que é pior,
sacos, saquinhos e lixo espalhados pelos passeios - situações que nunca
ocorreram no período anterior à aplicação destas novas recolhas
hierarquizadas. É óbvio: os indivíduos precisam de deitar fora o seu
lixo todos os dias e as cozinhas e as despensas não foram desenhadas
para ser lixeiras. Bem sei que em certos países do Norte da Europa não
existe o hábito de cozinhar comida fresca todos os dias e que, nesses
sítios, a maioria do lixo é composta por embalagens (de comida de
micro-ondas, maioritariamente, mas também latas, frascos, pacotes de
bolachas, etc.), logo a gestão hierárquica de
desperdício será um
pouco mais fácil de conseguir; porém, em países como Portugal, que tem
hábitos domésticos e alimentares diferentes (ou vai tendo), a medida
surge como artificial e impraticável (falando em países do Norte da
Europa, a Dinamarca, por exemplo, o caso paradigmático que tantos países
tentam emular, em tantos aspectos diferentes, está-se borrifando para
esta história e incinera todos os seus resíduos - talvez por ter
compreendido que os métodos recorrentes de reciclagem são muitíssimo
onerosos, consomem mais energia e acabam por poluir mais do que aquilo
que se pensa. Já agora, a reciclagem, esse cavaleiro-branco dos verdes
de pacotilha, que transforma não-sei-quantas tampinhas de garrafas de
plástico em vinte e cinco elefantes ou qualquer monstruosidade
semelhante, figura bem baixo na pirâmide da
hierarquia de
desperdícios: o ápice é ocupado pela
«prevenção», ou seja, por não se
fazer lixo de todo).
O mais tragicómico é que a tal
hierarquia
de desperdícios e a
teoria do desperdício zero (é mesmo a sua
definição:
teoria) são, somente,
media darlings, filosofias vápidas
embandeiradas em arco por quem acha que iniciativas como a Hora da Terra
servem para resolver problemas de contaminação ambiental e de escassez
de recursos energéticos, mas continua a trocar de
smartphone ou de
tablet a cada seis meses, contribuindo vigorosamente para a enchente
muito insustentável de metais pesados que são enterrados
clandestinamente em certos países africanos, onde envenenam lençóis de
água e vão matar mais leões e elefantes que os caçadores parolos que as
redes sociais adoram vilipendiar, ou, simplesmente, são deitados no
Índico ou no Pacífico. Outra situação bem caricata é a de que o criador e
principal pugnador desta fantochada da
teoria do desperdício zero é
um senhor que aparece pouquíssimo na televisão, chamado
Paul Connett,
autor do livro
«A Solução do Desperdício Zero»: um obcecado por diversas
teorias das conspirações, em principal a de que os governos esterilizam
os indivíduos e lhes diminuem as capacidades mentais recorrendo ao
flúor na água canalizada. Por conseguinte, alguém credível que merece
toda a nossa atenção.
Algumas ligações interessantes para quem
estiver, minimamente, preocupado em saber de que cabeças vêm
determinadas ideias que nos afectam a todos:
- «Towards a circular economy: A zero waste programme for Europe»:
http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?qid=1415352499863&uri=CELEX:52014DC0398R%2801%29
- Site da organização Zero Waste International Alliance:
http://zwia.org/
- Sobre Paul Connett no reputado
site Quackwatch:
http://www.quackwatch.org/11Ind/connett.html