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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quando o Falso Profeta é, também, a Besta

(Moisés diante da Sarça Ardente não se interrogaria melhor.)

A boçalidade do discurso de Miguel Gonçalves, o miriápode do neoempreendedorismo, agora mercenário do miserável governo de Pedro Passos Coelho, cristaliza toda a saloiice, a rudez e a doblez que nunca abandonaram a cartilha de quem, com panegíricos, lauda as virtudes da dita "escola da vida" ao mesmo tempo que denuncia os vícios do "saber livresco" e da cultura "inútil": "Isso é para intelectuais", costuma ouvir-se nessas situações, "fala-me de algo que eu possa entender", não como quem tem vergonha das suas lacunas, mas como quem não deseja contaminar-se com essa coisa esquisita que não pode ser comprada por um euro para ser vendida por dois.

Recordo alguns dos textos que já escrevi sobre "empreendedorismo":


A Selecção Natural Segundo o Governo 

domingo, 10 de março de 2013

O lado ventral do empreendedorismo

Nos dias que correm, em plena embriaguez neoliberal, somos bombardeados desde há dois anos na comunicação social com o quasi-truísmo de que ser-se "empreendedor" é pertencer a uma classe moralmente superior que pugna por um "empreendedorismo" de iniciativa - mais do quixotesca, contra uma sociedade lapidada pela austeridade e em progressiva deterioração - cruzadesca e orientada pela fé cega na mão invisível do mercado, que se põe por baixo, não do menino e do borracho, como no pregão popular, mas dos meninos que criam o seu próprio emprego e não têm medo de «bater punho», como é esclarecido no vídeo abaixo.   



A mão invisível de Adam Smith e o «bater punho» de Miguel Caetano perfilham uma tradição de audaciosas alegorias e alusões, liberais e neoliberais, associadas à mão e ao trabalho de que ela é o símbolo mais representativo. Na tónica que coloca nas recompensas do trabalho árduo, o capitalismo contemporâneo de feição norte-americana não se dissocia da ética religiosa anglicana e protestante de que radica (veja-se, como um exemplo entre tantos, as Leis dos Pobres inglesas, que, desenvolvidas desde o século XVI, obrigavam os sem-abrigo e os desempregados ao internamento em casas de trabalhos forçados para banir o pecado da preguiça e reduzir o peso desses indivíduos sobre o estado) e cujo mote foi e continua a ser "as mãos ociosas são o instrumento do Diabo".
O ócio sempre foi mais tolerado pelo catolicismo romano, do qual os professos se colocam em outra mão, a da Providência Divina, que nem os pardais no Evangelho de Mateus (6:26). É possível observar o orgulho sentido pela olímpica herança do "empreendedorismo" numa série televisiva, produzida o ano passado para o Canal História, intitulada The Men Who Built America, que foi transmitida recentemente: em apenas quatro episódios, aprendemos como os grandes empreendedores norte-americanos (Cornelius Vanderbilt, J. P. Morgan, John D. Rockfeller, Andrew Carnegie e Henry Ford) vindos praticamente do nada, subiram a pulso (outra alegoria relacionada com a mão inefável) e, por virtude da sua astúcia e sentido de oportunidade, guiados por uma fé, dir-se-ia calvinista, na sua predestinação para o sucesso, ergueram os impérios que fizeram dos Estados Unidos uma super-potência global. Com efeito, a verdade histórica está longe dessa versão higienizada dos factos.


Para não alongar demasiado este artigo, vamos, somente, concentrar atenções no banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), magnata que não fez fortuna aliando-se ao inventor norte-americano Thomas Edison na campanha feroz pela implementação da corrente contínua contra a corrente alternada do inventor austríaco Nikola Tesla (como sabem, a corrente alternada impôs-se), nem combatendo contra o político democrata William Jennings Bryan, que queria acabar com os monopólios e a especulação, mas com negociatas lucrativas, muitíssimo suspeitas. Aliás, o exemplo de Morgan é, em muitas faces, paradigmático, pois foi graças ao advento da Guerra Civil norte-americana, que opôs o Norte contra o Sul (1861-1865), que estes heróis do empreendedorismo, como o já mencionado Vanderbilt e outros menos conhecidos, como Philip Danforth Armour e as dinastias Du Pont e Studebaker, endeusados como sendo aqueles que construíram a América, fizeram as suas riquezas, enganando o governo e explorando ingenuidades e misérias alheias.
Tirando partido da grande necessidade que os militares tinham por armamento, Morgan, com apenas vinte e três anos de idade, engendrou um plano fraudulento para vender ao exército as armas que os seus inspectores rejeitavam como sendo defeituosas: através de um cúmplice, chamado Arthur Eastman, que sabia duas ou três coisas sobre armas, comprou cinco mil espingardas rejeitadas, a três dólares e cinquenta cêntimos cada, a um armazém militar situado em Governor's Island, a sul da ilha de Manhattan; em seguida, vendeu as armas defeituosas - que já tinham estropiado vários atiradores durante os testes de balística - de volta ao exército, pelo preço de vinte e dois dólares cada uma. Quando o logro foi descoberto, o caso foi julgado, evidentemente, mas o tribunal considerou válido o contrato de venda e quem ganhou o dia foi Morgan, que recebeu uma fortuna como indemnização.

Esta é que foi a verdadeira face do empreendedorismo prometeico dos tais homens que construíram a América: às armas defeituosas de Morgan e aos contratos milionários de Vanderbilt de venda e aluguer de navios podres ao exército, pintados de fresco para parecerem novos, outros exemplos poderíamos reunir sobre a falsidade do mito do trabalho árduo destes "empreendedores". Sob esse maldito canto de sereia, esconde-se, não poucas vezes, um oportunismo hipócrita e a mais elementar função de comprar por um para vender por dois: é a velha meta de "fazer dinheiro". «Money Matters», como dizem os monetaristas neoliberais da escola miltonfriedmaniana. Existe outra alegoria relacionada com a mão que se aplica aqui com muito mais correcção: "meter a mão ao bolso".


Outra face negra do mito do "empreendedorismo" - desta espécie de capitalismo redentor da ociosidade social - foi a progressiva substituição dos escravos por crianças, nos trabalhos forçados e tarefas industriais mais pesadas, depois das abolições das escravaturas.
Os "criadores de emprego" perceberam que as crianças podiam ser uma mão de obra tão especializada quanto os adultos, com a vantagem de ser muito mais barata: foi assim, através da aplicação em massa da exploração do trabalho infantil e dos seus salários "competitivos" - nas fábricas, nos campos e nas minas -, que os "empreendedores" setecentistas e oitocentistas, norte-americanos e europeus, foram acumulando fortunas anuais superiores aos produtos internos brutos de muitos países. Já no século XVII, os "criadores de empregos" compravam anualmente por ninharias aos orfanatos centenas de «meninos e meninas sem laços» para pô-las a trabalhar. O sociólogo e fotógrafo norte-americano Lewis Hine foi instrumental na mudança de mentalidades face à exploração do trabalho infantil quando, na primeira década do século passado, viajou pelos Estados Unidos para documentar as condições miseráveis em que milhões de crianças viviam e trabalhavam, mas hoje ainda existem cerca de trezentos milhões de crianças exploradas pelo "empreendedorismo", que não vão à escola e morrem prematuramente. A estas, espalhadas pelos países ditos em desenvolvimento (Índia, Bangladesh, Malásia, Tailândia, etc.), a mão invisível do mercado não se põe por baixo.

Numa nota mais negra ainda, para a nossa realidade interna, o documentarista inglês Peter Lee-Wright, reconhecido pelos seus trabalhos de denúncia sobre violações dos direitos humanos, coloca Portugal nesta lista terrível no seu livro Child Slaves (2009), no Capítulo 7 «A Storm at Any Port: Portugal Fails European Standards», no qual diz que «in Portugal, 12-year-olds manufacture clothes destined for British chain-stores». O livro foi publicado originalmente em 1990, mas, segundo o Eurostat, cerca de dois milhões e meio de portugueses vivem hoje no limiar da pobreza: números chocantes a que não são inocentes as medidas de austeridade sob as quais somos obrigados a viver e às quais adivinha-se a chegada da tão desejada baixa do salário mínimo nacional, que está fixa nos 485 euros mensais, para tornar a nossa economia mais "competitiva". Torná-la mais competitiva que as economias da Índia, do Bangladesh, da Malásia e da Tailândia, certamente.
 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Contra o "empreendedorismo"


Parece-me que a tónica que tem sido colocada nos tempos mais recentes sobre a palavra "empreendedorismo" é um pouco perigosa, porque não só cria expectativas falsas nos indivíduos como ainda os divide em dois grupos artificiais: o dos supostos criadores de empregos e o dos comedores inúteis. Ora, o "empreendedorismo" também pode ser inútil, pois, só por si, não encerra nenhuma qualidade em especial; e, na maioria das vezes, só existe enquanto faixa cosmética para mascarar a pura ganância e o oportunismo mais miserável.

Os discursos populistas de que cada um de nós precisa de ser mais "empreendedor", como se transformar-se num arremedo de Donald Trump e comprar coisas por um euro para vendê-las por dois fosse dever de cada um, revela um modelo mental que valoriza o humano pelo numerário: nos Estados Unidos, por exemplo, é costume perguntar-se às pessoas quanto elas "fazem" por ano e, a partir daí, nivelam-se relações interpessoais baseadas em posições mais ou menos hierárquicas.

Esta nova obsessão pelo "empreendedorismo" que assistimos faz-me lembrar a velha obsessão pelo corpo perfeito: todos querem ser mais bonitos, mais bronzeados, mais perfeitos - agora também todos querem ser mais empreendedores e mais ricos. Qualquer ideia saloia de formar-se uma pequena ou média empresa é vista como sendo um fabuloso escadote de progresso e todas as facilidades lhe são oferecidas, mesmo que a dita empresa seja uma inutilidade, tão inútil quanto, na visão dos "criadores de emprego", são os "comedores inúteis".

O descrédito do estado português no ensino e nas vias culturais, estas cada vez mais subordinadas ao peso asinino da cartilha mercantilista - que nunca pensa a longo prazo - é a verdadeira erosão da identidade e do espírito da população, que preencherá o vazio por eles deixado com as falsas luzes do tal "empreendedorismo", engodo açucarado de milhares de jovens licenciados sem perspectivas.

Não se trata da demonização bacoca do capitalismo, mas da recusa em que a sociedade, que não é nem nunca poderá ser uma empresa, possa ser governada como uma. É, sim, a recusa da formação de uma sociedade que "despede" os seus cidadãos, porque estes não se encaixam no padrão do "empreendedor", como se ser-se empresário seja moralmente superior.