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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Novas rotas de medo e interdição


 A cultura de entretenimento agiliza-se em detectar renovações prototípicas nos procedimentos psicossociais das comunidades; sob esse enunciado, uma tendência que está a consolidar-se, em determinados filmes e livros de terror e de ficção científica, é a comutação do espaço, enquanto porosa fronteira do desconhecido, pela – igualmente inescrutável – imensidão virtual contemporânea; somando-se-lhe todo o costumeiro repertório de acessórios tecnológicos que a ela estão associados, como robôs, computadores, programas informáticos.

Provavelmente, a mais incontestável exteriorização desta mudança de pólo magnético encontra-se nos filmes que Ridley Scott se encontra a realizar actualmente no âmbito do mundo das personagens que concebera no filme Alien (1979): a nova grelha de referências aplicada em Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017) flutua como escuma sobre a nova psique global que, aceleradamente, abandona a noção de que o perigo reside sob formas extraterrestres no bioma espacial, em favor do fatalismo sentido à aproximação de ameaças procedentes de supositícios progressos nos campos da robótica e da inteligência artificial. Não deixa de ser curioso que a efeméride dos duzentos anos da publicação de Frankenstein de Mary Shelley escorregue neste momento por baixo da baia que delimita um terror do outro, à guisa de emblema do período neo-paracelsiano que atravessamos, no qual o horror homuncular se cifra como astro-rei – pois o que são os antropomorfizados cérebros electrónicos e robôs da hodiernidade, plenos de percepções, instintos e motivações puramente humanos, senão novíssimas representações do mito da concepção na retorta?

O labéu que perpassa toda a condenação moral do ofício paracelsiano sustenta-se na noção que a criação de um homem artificial – ou de uma inteligência artificial – por outro homem será sempre um empreendimento torpe e ímpio, destinado ao fracasso; mas, facto que não escapará aos observadores atentos, o processo da selecção natural depende, em exclusivo, de fracassos pontuais: leia-se, de mutações – imperfeições.
Em suma, a vida deseja a imperfeição; em última análise, nem sequer existe sem ela.

O que diferencia as diversificadas criações naturais das criações operadas por mão humana não é, como se poderia pensar, a imperfeição destas face àquelas, mas o problema de uma delineação inicial: é que no mundo sujeito à selecção natural, a forma antecede a função; no sentido que uma qualquer imprevista imperfeição numa cópia de material genético pode apresentar-se vantajosa para que, num curto intervalo de tempo, o indivíduo que dela concorra possa antecipar-se aos outros na propagação do seu próprio material genético imperfeito. Ora, no múnus da criação paracelsiana – artificial, mecânica, industrial, científica – é sempre a função que antecede as formas: não existe desenho sem objectivo, a forma subordina-se à função. Porém, na natureza, não existe nenhuma contiguidade pré-planeada ou fabricada que aproxime, a priori, objectos tão dissemelhantes como causa e consequência, forma e função. A beleza e o sucesso da criação por selecção natural reside na sua cega arbitrariedade: de facto, a forma vem primeiro – depois logo se verá o que é possível fazer-se com ela.

Na tradição esotérica, os homúnculos costumam, em regra, ser representados como tendo somente quatro dedos em cada mão: a razão para que isto aconteça relaciona-se directamente com a ideia numinosa de o número de cinco dedos ser a marca do ser humano – logo, um homem artificial, fruto da concepção laboratorial, seria imperfeito, exibindo apenas quatro dedos. Os velhos caricaturistas e autores de banda desenhada conheciam esta noção e é por isso que as personagens mais antigas, em particular homúnculos de jaez zoomórfico, como o Rato Mickey ou o Pato Donald, para restringir a amostra a algumas das mais conhecidas, só têm quatro dedos em cada mão. Pelo contrário, homúnculos actuais, como os robôs David 8 e Walter 1 dos recentes filmes de Scott, assumem uma extrema contiguidade com o molde humano – ao ponto de, no caso de Walter 1, serem capazes de digerir alimentos orgânicos sólidos, truque que, dispensado pela ausência de biologia, só se justifica pela função de mimarem, na perfeição, o humano. Na criação paracelsiana, artificial, a função precede e subordina a forma.

À medida que, gradualmente, o elemento robótico (que aqui nem sequer nada tem de orgânico, compondo-se, totalmente, de constituintes sintéticos) vai ocupando o espaço outrora reservado aos antagonistas alienígenas, compreende-se a mudança que efervesce na mente do público, habitante num mundo globalizado por canais virtuais de comunicação: já não é o mundo que é estranho, muito menos o espaço, mas os próprios canais. Estes, virtuais, ariscos, volúveis, é que são, em simultâneo, as rotas recém-descobertas e as áreas em branco povoadas por dragões.
O xenomorfo mete menos medo que o robô. Este é um poderoso sinal dos tempos.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Canivete-suíço digital


O smartphone actual é, bem avaliadas as coisas, uma espécie de reinvenção digital do canivete-suíço: uma panóplia portátil de um florilégio de funções (entre outras, relógio, calculadora, bloco de notas, câmara fotográfica, rádio, vídeo, navegador de Internet, gravador de voz, mapa, e, claro, telefone), reunidas num único aparelho muitíssimo transportável, cujas dimensões o tornam afectuoso e intimíssimo -- contudo, a palavra "funções" deve ser considerada com cristalina prioridade; ao contrário de um canivete-suíço, em toda a glória victorinoxidável, não existem objectos num smartphone. Apenas existem funções desincorporadas dos objectos (como fantasmas capturados por uma armadilha de muões).

No que concerne às morfologias física e digital, o smartphone (designação criada em meados da década de noventa do século passado), na sua, já arquetípica, encarnação desenhada pelo quimérico Jonathan Ive, vai ao encontro da comum calculadora: em especial, mimetiza a aparência da calculadora desenhada por Dieter Rams para a outrora teutónica e titânica Braun, uma pequena maravilha de elegância e depuração. É provável que essa ausência de objectos num smartphone nunca passe, sequer, pelas cabeças dos utilizadores; no entanto, quando se pensa nela, curiosas questões ontológicas medram na mente.

Por exemplo: até que ponto são utilizáveis essas funções-fantasmas?

Pense-se no tradicional canivete-suíço: serão os seus objectos, ocultos em estreitas bainhas (que nem pinturas escondidas em cortes dianteiros de livros, relevadas quando se repelam as páginas) -- frágeis ersatzs miniaturizados de ferramentas úteis, como tesouras, chave de fendas, saca-rolhas, abre-latas, corta-unhas, alicate, palitos e talheres --, verdadeiramente úteis? Ou, por outro ponto de vista, serão uma selecta sincrética que, somente, tem como objectivo compor um objecto singular para fetichistas de MacGyver? Conservem esta concepção enquanto observam as funções desincorporadas que um smartphone possui e a problemática adquire uma perspectiva totalmente nova: esses aparelhos estão cheios de funções que nunca são usadas -- ou usadas uma ou duas vezes. Ninguém, realmente, usa essas funções para realizar trabalhos sérios: elas são, como os objectos algo caricaturais de um canivete-suíço, um conjunto de características curiosas.

Funções desincorporadas dão-me pistas importantes para pensar na demanda pela inteligência artificial: é absurdo achar que um programa informático venha a reunir as condições necessárias para desenvolver uma inteligência de tipo humano sem que o seu hardware seja humanizado primeiro. O temporizador do smartphone informa-nos sobre as horas, é muito certo, mas não é nenhum relógio: é, isso sim, a função desincorporada de um relógio. Logo, não será possível criar uma mente humana artificial, sem criar-se, primeiro, um invólucro antropomórfico para a albergar, porque a mente humana é o somatório do cérebro e do corpo humanos -- se fosse possível transplantar-se com sucesso um determinado cérebro para um corpo diferente, em pouco tempo esse órgão, em parceria com o novo corpo, reestruturaria uma nova mente e passaria a pensar de uma maneira diferente. O cérebro evoluiu para pensar, tal como os pulmões evoluíram para oxigenar o sangue, mas não pensa sozinho. No limite, poderá imitar-se a função dessa inteligência, mas, obviamente, ela nunca será real. Apenas um palito de canivete-suíço.

Não deixará de ser anacrónirónico que, daqui a umas duas ou três gerações, nenhum indivíduo terá conhecimento algum dos objectos analógicos para os quais as funções desincorporadas dos seus aparelhos digitais remetem: habituámo-nos a ver objectos obsoletos nos museus, mas as nossas casas já são museus.

Vós sois livres de pensar se isso é uma coisa boa ou uma coisa má.

(Foto do meu canivete-suíço, tirada com a função de câmara fotográfica do meu smartphone e dulcificada na aplicação Instagram.)