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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Estrangeiro do presente


Somos holoedros anfíbios: vivemos multifacetadamente, em simultâneo, no presente e em outro tempo — no tempo exterior e num tempo interior. Um mede-se pelos ponteiros e é afectado pela atracção da força gravítica; o outro não se deixa agrilhoar pela física e mede-se com hieróglifos secretos que desenhámos a lápis e a giz na infância, mede-se através da aceleração do músculo cardíaco cada vez que rompemos num mergulho essa membrana feita de memórias. A relação axissimétrica entre ambos os tempos define o modo particular como nos comportamos no plano espacial: em harmonia com o presente ou estrangeiros do presente. O presente e nós como capitéis perclaramente nivelados ou, então, parêntesis afastados por sucessivos graus de infinitude.
O tempo interior é congénito, cronóvoro, eléctrico-resinoso de tanto se esfregar no âmbar em que se cristalizaram os nossos diversos eus: a genealogia das nossas identidades e idades é feita da impressão dessa cromatófora faísca com o pó das nossas células mortas, à guisa de dendrites lichtenberguianas — à primeira observação tão confusa quanto a turfa de Dürer, na remistura de ramagens, caules e raízes, mas única, com a singeleza e a autoridade mansa de um equinodermado borrão de tinta, pejado de fiordes, rombos e escolhos microscópicos que algum tipo de forma de vida, à sua escala, irá um dia navegar. Essas amorfidades falam connosco. Dizem-nos que o nosso tempo não é o tempo do mundo. O tempo do mundo será o nosso caixão, mas não foi o nosso berço, pois de outros tempos interiores nascemos — e para um outro tempo seu cognato viajaremos.
Por conseguinte, a obsessão em ser-se do tempo do mundo, um tempo que não é nosso, é uma moléstia bem miserável.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Nota sobre o Absoluto


 
Ao ler neste momento sobre o problema filosófico do Absoluto, lembrei-me, de modo absoluto (isto é, acabado em si mesmo, não-contingente), de determinados espaços que vi poucas vezes na minha infância, mas que sempre considerei fascinantes: a estância e a drogaria. Na minha geografia mental, eles nunca contêm pessoas (tal como as melhores pinturas de Hammershoi), somente um florilégio de objectos e briquebraques, como espelhos, escovas, panos, louças; ali, na estância de atmosfera seca — tão grande que parecia uma imperfeição para a qual a ortogonal malha cosmopolita consistia em pérola — estão suspensas sobre o longo balcão de madeira dezenas de alfaias esqualomórficas, lemniscatas de ferro e cobre cujo uso nunca determinei: que estranha física, aquela que elevava o metal ao tecto e agarrava papel, areia e plástico ao chão, nas formas mais dóceis e perceptíveis de lixas, serraduras e mangueiras. Porém, na recendente drogaria todos os artefactos derivavam uns dos outros, em estonteante reprodução assexuada — amebas de vidro e tecido, de borracha e cortiça, dispostas nas escadas, nas paredes e nas portas. Infenitesimais parafusos coabitavam com colossais misturadoras de cimento, cujo antracíticos ventres davam ares de gigantes caldeirões caligráficos numa lista medieval. Cheira a cera e a suor e a farinha creme que se desprende de contraplacado serrado vai misturar-se como cacau em pó com a luz projectada da rua pela porta. E, no entanto, não existem pessoas nestes espaços atafulhados. Todos os sons, cores e formas estão lá por si só. E ao lado da caixa registadora vê-se um calendário cheio de pó e lascas de ferrugem: sem utilidade num espaço intemporal que é o da mente, é livre para existir por si mesmo, sem a contingência que o unia à marcação do tempo. Tóteme do absoluto num interior tão desértico e relevante quanto uma paisagem marciana.