Finalmente, no meu canal de YouTube, a versão integral do meu disco de spoken word Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir, é um dos meus trabalhos favoritos. Uma negra e erudita viagem psicogeográfica a vários tempos e realidades, sobre os indivíduos deformados e marginais que viveram em Lisboa, em diversos períodos. A (re)descdobrir.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Ruínas
No último par de dias tenho passado ao longe por um local de Lisboa que é muito especial para mim e é com amargura que suspeito que está a ser mutilado com demolições, na perspectiva de obras de remodelação. Tenho aprendido com o tipo de brutalidade inveterada da natureza que esta é, de facto, a infelicidade de residir num local - neste caso, numa cidade - que é, em simultâneo, entidade co-responsável num tempo e num espaço e álbum de memórias: indivíduo e pólis consorcizam-se, pois, em frágil polisarcia - fortuita e rúptil como um sonho que se deslaça com o despertar. Em confronto com essa frígida crueldade, que é a da indiferente calandragem das eras, só a cultura pode remir uma mente ferida. Nesta incerteza, evoco palavras que já plasmei em outra ocasião, também sobre memória, cidade e indivíduo; sobre aquilo em que consiste esse laço precioso entre um território e o nosso ser.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
A sentir-me anormal.
Há um mês assinalou-se o Dia Mundial da Voz. Com demora, lhe faço menção, recordando um dos meus trabalhos preferidos, com textos e voz meus e música de Charles Sangnoir.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Os veros "anormais" de Lisboa
O dia em que Carolina e Josefina visitaram o Mosteiro dos Jerónimos.
Lembram-se delas? Encontraram-nas em Os Anormais: Necropsia De Um
Cosmos Olisiponense:
«Vamos visitar os volutabros imaginais de Lisboa.
Vamos ver que anormais ela excluiu para a cercania – para os arrabaldes dos anais. Não será tanto etnologia, como reologia, pois falamos de gente deformada que foi repassada e escoada pela memória da história, mas como observar essa memória e essa história? De acordo com os fundamentos da “história total”, propostos por Braudel e, antes dele, por Michelet?
É melhor confiar na diacronia.
É melhor assumir que, tal como astrónomos, estamos a olhar para luzes pré-históricas, emitidas por estrelas extintas.
(…)
Estrelas defuntas como as infelizes irmãs órfãs Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, que, em meados do século XIX, depois de serem exploradas até à exaustão por um canalha desprezível que lhes deu a ridícula alcunha, tornaram-se injustamente no arquétipo da dondoca, antes de morrerem de fome na maior das misérias.
(…)
Vergonha, amargura, tristeza. Plangências profundas que envolvem os espíritos.
Que cidade é esta?
Esta não é a Lisboa que nos foi prometida à esplêndida portada, feita de jaspe.
Estas não são as personagens castiças do folclore que ela engendra para gazofilar turistas.
Há angústia autêntica aqui. Mensagens de sofrimento real, escrevinhadas no pó. Dor e raiva verdadeiros – espremendo corações nos peitos.»
(SOARES, David, “Terra Incógnita”, in SOARES, David (textos, voz); SANGNOIR, Charles (música), Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, Seixal/Lisboa, Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012).
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Entrevista para o 'podcast' Falar Criativo
Na ligação em anexo podem ouvir a entrevista que dei ao podcast Falar Criativo,
com perguntas de Rui Branco. Como o nome do programa indica, a tónica
da entrevista foi colocada em questões sobre a criatividade, resultando
numa conversa muito completa sobre o meu processo criativo, as minhas
inquietações e abordagens às diversas expressões com as quais desenvolvo
os meus trabalhos. A entrevista é longa, mas penso que ficou muito
dinâmica e interessante. Se também gostarem, partilhem - obrigado: http://falarcriativo.com/episodio-108-david-soares/
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terça-feira, 24 de junho de 2014
Hoje, prosa e poesia no Bairro Alto
Hoje, às 21H30, haverá tertúlia e spoken word no espaço cultural Buédalouco Pharmácia de Cultura
(Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa, comigo e com Charles
Sangnoir. O Bairro Alto será alvo de uma pós-cirurgia e revisitar-se-á
um lado mais humano e menos conhecido de
Fernando Pessoa, com a interpretação musicada de trechos escolhidos a
dedo. Por conseguinte, divulguem e apareçam. Para evocar a aura do
espectáculo de hoje, deixo um registo em vídeo de parte do espectáculo
de apresentação do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos
Olisiponense (2012), escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por
Charles Sangnoir.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Tertúlia literária de amanhã adiada
Caros, a tertúlia literária Poesia e Arte agendada para amanhã, às 21H30, comigo e com Charles Sangnoir, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), foi adiada para dia 24 de Junho, à mesma hora, por motivo de última hora. Reagendem e divulguem, por favor. Obrigado.
Bairro Alto: Uma Pós-Cirurgia - amanhã às 21H30
Lembro que amanhã, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte, que se reúne todas as terças-feiras no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa. Iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia (escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir), composta originalmente para as comemorações do quinto centenário do Bairro Alto e apresentada ao público no Palácio Quintela, em Dezembro de 2013. Também se irá ler poesia e prosa de Fernando Pessoa (figura sobre a qual já escrevi no meu romance A Conspiração dos Antepassados). Apareçam.
Deixo-vos com um excerto de Bairro Alto: Uma Cirurgia:
«O Bairro Alto podia muito bem ter
definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho
na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros
e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da
história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago
e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros
desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que
nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se
até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade,
remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa
volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos
pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco.
Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade;
tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.
Escalavraduras estendendo-se pelo
estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo,
próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal,
mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e
repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que
nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas
apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão,
espalham-se graffiti nas paredes:
equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que
medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos.
Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à
guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a
boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios
de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço
dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que
comunica connosco em código.
O Bairro Alto é uma cirurgia.
Mas que cirurgia é esta?
Por que é que somos, irresistivelmente,
atraídos por ela?
Estas ruas centenárias, que resistiram
incólumes a vários terramotos, moradas mórbidas de desesperos e desejos, são os
liçaróis e os liços da urdidura central olisiponense: sem o Bairro Alto como
tear, a manta de retalhos que é a Lisboa contemporânea nunca teria sido
meselada; nunca teria perseguido, sôfrega, o Sol na sua libitina trajectória ocidental.
Sem esse primitivo modelo, o levantamento da Lisboa Pombalina não teria acontecido:
toda a Lisboa imitou o Bairro Alto, olhou para ele e ficou estupefacta com o
futuro que ela própria já encerrava – ficou de queixo caído à margem do Tejo e
nem Cristino da Silva nem França Borges foram fortes o suficiente para o
lacerar. Persistindo incólume às calamidades provocadas por deuses e homens, ele
é o único grande fóssil vivo de Lisboa – tão assombroso e anacrónico quanto um
variegado celacanto. Mas não se pode compreender essa cirurgia sem uma
iniciática diérese territorial.»
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Tertúlia literária com David Soares e Charles Sangnoir
Na próxima terça-feira, dia 17 de Junho, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte que se reúne regularmente no Bairro Alto, em Lisboa, sempre às terças-feiras, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60): iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia, escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir, que apresentámos pela primeira vez no Palácio Quintela, no âmbito das comemorações do quinto centenário do Bairro Alto. Desta vez, a componente musical será tocada ao piano, num formato acústico, conveniente ao intimismo do evento. Acrescento que esta edição da tertúlia Poesia e Arte centrar-se-á na obra poética de Fernando Pessoa, que revisitarei em interpretações também musicadas.
Quem ainda não conhece a força e originalidade da parceria entre mim e Sangnoir poderá descobri-las, por exemplo, ouvindo o nosso disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Deixo-vos a ligação para o tema A Lua do Loreto, pertencente a esse trabalho, e convido-vos a assistir à nossa interpretação na próxima terça-feira.
sábado, 14 de dezembro de 2013
«Bairro Alto: Uma Cirurgia» - fotos e texto
O espectáculo Bairro Alto: Uma Cirurgia, actuação em spoken word interpretada por mim (texto e voz) e por Charles Sangnoir (música) foi um êxito e quem não foi nunca saberá o que perdeu.
No belo vestíbulo do Palácio Quintela, misto de templo e salão artístico, invocou-se a história e a lenda do Bairro Alto, numa cirurgia psicogeográfica que se iniciou com a apresentação de uma canção original de Charles Sangnoir, composta propositadamente para este evento e intitulada Marinheiro de Aguardente, uma toada melancólica, de muitíssimo bom gosto; depois (e sem anestesia), seguiu-se a interpretação do meu texto, Bairro Alto: Uma Cirurgia, escalpelização erudita de quinhentos anos de história bairro-altina, exumatória de locais e personagens, como Fernando Pessoa, Aleister Crowley, Padre António Vieira, António José da Silva, o Judeu, Eça de Queirós e Júlio Verne.
Deixo-vos umas fotos do espectáculo e o texto que interpretei.
Bairro Alto: Uma Cirurgia
Tão longe deste lugar, que mais parece pertencer a um universo imaginário, repousa a imensa massa de gelo do Oceano Árctico, cujas águas frígidas cingem o norte da Islândia. Se o hostil panorama glacial é incontrastável, a vulcaniana paisagem islandesa é negra, gabra, quasilunar. Vista do espaço é uma vasta e ominosa vitiligem perdida num pélago preto – catarata no olho do mundo. Esta é a Última Thule descrita pelo geógrafo grego Píteas de Massalia, o primeiro explorador a intuir a intimidade entre os movimentos das marés e a robustez gravítica da Lua. É um território terrível, obstruído por omálgios monstros marinhos que blasonam vapor quando rompem a superfície de uma água que, segundo Píteas, não é líquida, nem sólida, mas dúctil como polpa de alforreca. Os monstros, claro, não existem: sabemo-lo, porque não foram descobertos em 2006 pela equipa científica que desbravou os ctónicos segredos dessas profundezas. No entanto, esses investigadores descobriram algo tão invulgar, tão extraordinário, que até lhe deram um nome. Chamaram-lhe Ming.
Ming é uma amêijoa.
O oceano, com todo o seu peso, envergonha-se defronte do sofrimento contido numa única lágrima e a morte de uma estrela não se compara à ruína de uma mente moribunda: existe uma especialidade nas coisas pequenas; um lirismo minimalista que, tantas vezes, oculta a linguagem encoberta que nos permite falar com ciclópicas e inflexíveis forças. O arco-íris só tem sete cores. Oito notas permitem-nos compor toda a música existente. Com vinte e seis letras escrever-se-ão todos os livros que existirão até à morte do mundo. Porém, a concha mate de Ming, vincada pelo entrecruzar das estrias radiais com as características caneluras de crescimento, esconde o maior arcano do cosmos: o da longevidade. Este molusco lamelibrânquio, achado numa das regiões mais inóspitas do planeta, morreu quando tinha quinhentos e sete anos de idade: é o animal mais velho jamais encontrado – um diminuto coração calcárico, sumido entre o abismo. Quando germinou, Cristóvão Colombo ainda não tinha chegado à América do Norte e Luís de Camões e William Shakespeare não tinham nascido.
Qual é o segredo da longevidade?
Como é que algo tão insignificante pôde viver durante mais de meio século?
Que outros tipos de organismos ditosos serão capazes de bater esse olímpico recorde?
Observemos o Bairro Alto, quase tão velho quanto a amêijoa. A calandragem do tempo desgasta os detalhes e as datas. Só sabemos que os loteamentos se iniciaram em 1513 e que catorze anos depois contava com quatrocentos e oito edifícios e com mil moradores. Em 1551, ano em que os jesuítas aí assentaram, já existia a Rua do Norte, a dos Calafates, a da Atalaia, a da Salgadeira, a de São Roque, a da Rosa das Partilhas e a das Gáveas, mas esta história poderá ter começado um pouco antes. A cirurgia, afinal de contas, é sempre o último recurso, tantas vezes olhado com preconceito, principalmente em finais do século XV – outros métodos, não-invasivos, menos rústicos, diga-se, teriam, necessariamente, de ser tentados primeiro. Não se duvide que o Bairro Alto foi uma cirurgia. Lisboa estava muito doente.
A mesa de operação foi o terreno apelidado de Cotovia: montureira que, abarcando a área dos presentes Largo do Rato, Jardim do Príncipe Real e Praça da Alegria, estendia-se na direcção do Tejo, circunscrevendo em plenitude a encosta de um planalto abatido abruptamente a Norte, mas declinado com doçura para Sul. O proprietário desse arredado arrabalde, atapetado de oliveiras e alcandorado a ocidente da austera muralha fernandina, foi Mestre Guedelha Palaçano, intrigante físico e astrólogo judeu de D. Afonso V. O compêndio oitocentista Monstruosidades do Tempo e da Fortuna assinala um episódio de anti-semitismo olisiponense que consistiu na anexação na porta da Igreja de São Roque de uma pasquinada de protesto pela pretensa diligência do regente Infante D. Pedro querer edificar uma enorme sinagoga em Lisboa no ano de 1673. Nessa altura, grupos de cristãos embuçados bateram as ruas da cidade, gritando «viva Cristo» e «morte ao judaísmo», ecoando os libelos que, em 1487, tinham coagido a viúva de Guedelha Palaçano a aforar os terrenos da Cotovia ao cristão Filipe Gonçalves, estribeiro de D. Manuel I; todavia, passados onze anos, na sequência da expulsão dos judeus de Portugal, a mulher vendeu as terras ao fidalgo Luís Atouguia. Em 1513, o seu filho, Lopo de Atouguia, acordou com o aforador Bartolomeu de Andrade, genro do tal estribeiro Gonçalves, o sub-aforamento em talhões dessas herdades, aderindo ao protótipo que fora principiado poucos anos antes com o ensaio da Vila Nova da Oliveira, edificada contiguamente à cerca do vizinho Convento da Trindade. Essa afinação urbanística ganhou maior sofisticação no traçado do novo bairro que foi cognominado com o apelido do aforador: Vila Nova do Andrade. A gente pobre – pescadores, em principal – que, entretanto, se fixara fora da muralha à margem do rio, olhou para cima, pelas janelas das suas choças, e encantou-se por aquele sítio que, no proémio do século XVII, o clérigo Baltazar Teles classificou como «se não o mais frequentado, ao menos o mais gabado; o sítio mais alto da cidade (…) mais lavado dos ventos, e mais purificado dos ares». A nobreza, claro, não tardou em seguir o exemplo dos pescadores – e, poucos anos depois, o clero também aderiu, na comparência dos jesuítas. Os frades inacianos polarizaram sobre o local um magnetismo poderoso, rasurando com rapidez o anódino apelido Andrade para impor o nome Bairro Alto de São Roque.
Qual é o segredo da longevidade? Será que um bairro sonha?
Como é que este pôde viver durante meio século?
O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.
O Bairro Alto é uma cirurgia.
Mas que cirurgia é esta?
Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?
Estas ruas centenárias, que resistiram incólumes a vários terramotos, moradas mórbidas de desesperos e desejos, são os liçaróis e os liços da urdidura central olisiponense: sem o Bairro Alto como tear, a manta de retalhos que é a Lisboa contemporânea nunca teria sido meselada; nunca teria perseguido, sôfrega, o Sol na sua libitina trajectória ocidental. Sem esse primitivo modelo, o levantamento da Lisboa Pombalina não teria acontecido: toda a Lisboa imitou o Bairro Alto, olhou para ele e ficou estupefacta com o futuro que ela própria já encerrava – ficou de queixo caído à margem do Tejo e nem Cristino da Silva nem França Borges foram fortes o suficiente para o lacerar. Persistindo incólume às calamidades provocadas por deuses e homens, ele é o único grande fóssil vivo de Lisboa – tão assombroso e anacrónico quanto um variegado celacanto. Mas não se pode compreender essa cirurgia sem uma iniciática diérese territorial.
Existem signos secretos sob o solo, somente sentidos com órgãos feitos de tempo: gritam-nos com as vozes dos nossos falecidos, mas vociferam tão alto que só animais e anjos conseguem ouvi-los. Somos surdos – estamos anestesiados. Extirpámos a morte das nossas vidas e, por culpa disso, padecemos de superficialidade, incapazes de nos reconciliar com a nossa intransmissível efemeridade. Observada pelo fio do nosso bisturi, a Lisboa quatrocentista, engelhada e rubiforme, já mostrava sintomas de trofopatia que a cinta fernandina era incapaz de calcar. A densidade populacional da Lisboa dessa época, com mais de vinte mil habitantes, cifrou-se como uma das mais elevadas da Europa e o extramurado Bairro Alto foi a lâmina que lancetou a dilatação, facultando um novo fôlego à cidade: nem de propósito, a morfologia bairro-altina ainda é a de uma sica – de ponta para baixo, como que embainhada após a inaugural incisura. Porém, levante-se o sudário cirúrgico que protege essa porção incruenta e descubra-se que as linhas ortogonais do Bairro Alto já estavam traçadas na terra, indelevelmente em tinta invisível, para serem radiografadas. Observe-se esses raios-X na mesa de luz – aí, tão madreperolados como respingos de ectoplasma, expõem-se oito diamantóides que ainda orlam o território: o Palácio do Cunhal das Bolas, o Miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, a Igreja de São Roque, a Igreja do Loreto, a Igreja das Chagas de Cristo, a Igreja de Santa Catarina, a Ermida dos Fiéis de Deus e a Igreja da Nossa Senhora das Mercês. Este vigoroso octógono, sigilo que cruza o visível com o invisível, concentra todas as potências mistéricas do local.
Em 1707, a Porta de Santa Catarina foi demolida para permitir a passagem do cortejo da rainha D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V. Segundo a tradição, a imagem de Santa Catarina que, até à data, encumeava essa porta derrocada está num dos nichos da fachada da Igreja da Encarnação, apresentando-se com a roda com que tentaram martirizá-la. Porém, a imagem de Santa Catarina que se encontra no templo homónimo, na Calçada do Combro, não agarra nenhum inútil instrumento de tortura, mas um livro, arma que melhor a caracteriza: esta guerreira do conhecimento, cujo vulto e vestimentas lembram uma mistura da deusa grega Atena com a artista mexicana Frida Kahlo, é a padroeira da Irmandade dos Livreiros, profissão típica do Bairro Alto e remanescente freguesia da Misericórdia.
Onde se lê livros, mormente se lê jornais e no primeiro dia de 1865 a imprensa portuguesa industrializou-se com a publicação do primeiro número do Diário de Notícias, cujo director Eduardo Coelho, imortalizado no miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, inventou a figura remendada e respondona do ardina lisboeta: no início, eram trinta os garotos maltrapilhos que mercadejavam o diário pelo dédalo olisiponense, saídos, de sacolas carregadas e pés descalços, da redacção na Rua dos Calafates, mas passados três meses o seu número aumentou para uma centena. Nomes transmeáveis como Manuel Dias, Carlos dos Jornais e Papo-Seco alcançaram a maior das longitudes no universo estenobático do ardina, figura típica do Bairro Alto, representada no monumento de homenagem ao director do jornal com o qual Joaquim Seabra Pessoa, pai do poeta Fernando Pessoa, colaborou como crítico musical.
Fernando Pessoa foi, precisamente, o peregrino mais prodigioso do Palácio do Cunhal das Bolas, expirando entre essas paredes no ano de 1935, já o solar se transformara há muito no Hospital de São Luís dos Franceses. Situado a norte, acostado à Rua da Rosa, o enigmático Palácio do Cunhal das Bolas é mais antigo que o Bairro Alto – quiçá construído pelo místico Guedelha Palaçano, com o ócio cabalastrológico no pensamento. Era nesse paço, de singular grandiosidade, que, no final do século XVII, D. Francisco de Meneses, 4º Conde da Ericeira, presidia à tertúlia cultural da Academia dos Generosos: grupo heterodoxo de eruditos que, em jeito italianizante, se reunia para analisar autores clássicos, teorizar sobre novos progressos científicos e recitar poesia; dele fez parte o clérigo poliglota Rafael Bluteau, fantástico filólogo que inventou a denominação “linguagem chula” para designar o modo imaturo e imoral de falar que se tornou apanágio do Bairro Alto, habitado por marinheiros, michelas e seus rufiões e boémios de diversos temperamentos.
Um pouco antes, o Imperador da Língua Portuguesa que Pessoa mais admirava, o Padre António Vieira, entrou na Igreja de São Roque e, entre os túmulos dos sebastianistas aí sepultados, como D. Francisco Tregian e Simão Gomes, pregou o Sermão das 40 Horas, no qual declamou: «ponha-se neste formoso teatro a memória defronte da vista, e a vista defronte da memória (…) Digam, agora, os olhos e a memória, se é isto o que vimos, e o que vemos. Mas, porque ainda visto parece fábula, vejamos em um espelho, também fabuloso, a causa de tão estranha mudança». É possível que este inaciano iluminado se referisse ao milenarismo quinto-imperial que lhe foi tão precioso, mas, sob outro ponto de vista, tão adequadas que são estas palavras ao próprio Bairro Alto, que alcança a «estranha mudança» que é permanecer imudável.
Talvez a inalterabilidade seja o mistério abscôndito pela alegoria azulejar que pode ver-se no debrum mais ocidental à banda do bairro, na Igreja da Nossa Senhora das Mercês, e que mostra um raro basilisco, misto de galo e serpentão, a mirar-se num espelho; na legenda em latim que encima uma das mais secretas e singulares imagens de Lisboa, lê-se «ipse peribit», que significa ele mata-se, mas não é verdade que o basilisco é imune à sua toxicidade? Quando se olha para um espelho contempla-se sempre o infinito – e este basilisco olisiponense, entre o vaidoso e o suicida, refractário ao seu olhar venefícuo, pode ser percebido como uma parábola para a perdurabilidade.
Qual é o segredo da longevidade? Será que o Bairro Alto sonha?
E com quê, há meio século? Com D. Maria Ana de Áustria derrubando uma porta e uma santa para abrir caminho ao Chiado moderno? Com ardinas, correndo, que nem pequenos Mercúrios, de jornais aos ombros e asas nos pés, na «constante ginástica da rua» como a descreveu Christo Anil? Talvez com os intelectivos debates glotológicos da generosa academia ou com o cataléptico catarro de Fernando Pessoa. Sonhará com as ornadas orações de António Vieira ou com as vaidades suicidárias de um clandestino basilisco que, em boa verdade, poderia ter sido invocado por algum salomónico rito realizado por Guedelha Palaçano. Oniromancia. Necrordenamento territorial. Práticas preternaturais que os mais espaventados confundem com magia negra.
Para Eça de Queirós, o Bairro Alto era somente o dos cafés de leppe, dos chulos bluteaunianos e da amantezinha do Visconde da Ermidinha, que não queria abandonar o mister de meretriz-fadista, mas para Júlio Verne, um dos seus ídolos literários, que chegou a simular em O Mandarim, o Bairro Alto era apenas o dócil domicílio do seu editor David Corazzi. Editor de As Farpas, dardejadas por Queirós e Ramalho Ortigão, Corazzi recebeu Verne duas vezes no seu gabinete na Rua da Atalaia; na segunda ocasião teve de ir com ele de emergência comprar carvão e óleo a uma carvoaria das redondezas, porque ao contrário do célebre submarino Nautilus, o iate do escritor não operava com futurísticas baterias de mercúrio.
Bairro Alto: existem imaginais polvos gigantes sob a sua calçada, muito mais arcifinais que os cefalópodes vernianos – e se é possível dar uma volta ao mundo em oitenta dias, uma volta à freguesia da Misericórdia, na qual o bairro, arctofiláxio, se tauxia desde o ano passado, faz-se em mais de oitenta ruas, que só peripatéticos, psicogeógrafos e feiticeiros poderão agrimensurar. Uma oportunidade para que tivesse sido feito esse sortilégio ocorreu na noite de 9 de Setembro de 1930, quando o truculento mago inglês Aleister Crowley, virgiliado pelo não menos truculento Fernando Pessoa, se dirigiu até à casa do nérveo poeta Raul Leal, na Rua da Salgadeira. Nessa altura, Sodoma Divinizada, a obra mais controversa do «único verdadeiro doido do Orpheu», já havia sido incinerada pelo governo civil de Lisboa, marionetado por uma associação de estudantes católicos formada por futuros ministros de Salazar. É crível que somente uma cirurgia psicosexual praticada por Crowley – e por «via nefanda», segundo eufemismo do próprio bruxo – fosse capaz de fazer renascer das cinzas a chamada Literatura de Sodoma. Mas segundo o histerómano Henoch, que era como Leal gostava de se chamar, a cirurgia megatheriana, fosse ela qual fosse, correu muito mal: despertou-lhe uma doença mortífera; ainda assim, com fantasmática funestice ou sem ela, Leal viveu mais trinta e seis anos e viu publicada a segunda edição de Sodoma Divinizada. Sincronismo ou iniciação? Sodomia ou magia? No Bairro Alto, estúrdia e encantamento são sinónimos. Poucos territórios serão tão generosos quanto este, que é pai dos desditosos e um anfitrião para os afortunados. Intelectuais e iletrados, artistas e artesãos, santas e prostitutas, visionários e vigaristas: ele é de todos e todos lhe pertencem. Já lá vão quinhentos anos.
Mas qual será o segredo dessa longevidade?
Como é que organismos tão insignificantes quanto amêijoas e bairros vivem durante meio século?
Existe uma especialidade nas coisas pequenas; um lirismo minimalista que, tantas vezes, oculta a linguagem encoberta que nos permite falar com ciclópicas e inflexíveis forças. Aquilo que a amêijoa Ming tem para nos revelar sobre nós próprios é uma verdade tão antiga quanto a aracnóide estelar que reveste a arca do cosmos: a longevidade, e porque não a imortalidade?, relaciona-se com a fertilidade. Comprimida por toneladas de água friíssima, Ming viveu uma vida livre, longa e lucrativa, dando o ser a milhões de descendentes e só morreu quando ficou estéril. Quando termina o período fértil de uma criatura, ela verte vertiginosamente para a morte e aquelas que vivem mais anos são, precisamente, aquelas que adiam a sua reprodução ou que são capazes de conservar a fertilidade na velhice, à guisa de vetustos patriarcas veterotestamentários. Que nem estafetas estafados passando os testemunhos a velocistas cheios de fôlego, nós começamos a morrer quando transmitimos genes às nossas descendências – e a diátese é veloz, total e irreversível. Estranhos mecanismos movimentam-se nas nossas células e o efeito é que envelhecemos: na verdade, oxidamos – enferrujamos. O segredo da longevidade é, pois, ser-se fecundo, produtivo, inventivo. Tudo isso é o Bairro Alto e é por essa razão que ele, na sua constância, ainda está tão jovem: é o mais vigoroso genésico de variedade que Lisboa tem – é o seu coração florescente, próspero, feliz. Felizes estão, também, muitas personagens bairro-altinas preteridas pelo tempo, mas que, agora, se juntam a nós nesta prosopopeia cirúrgica que as animou dos sedimentos mais opacos do passado.
A atarracada, mas ágil silhueta de Chico Áú, o aguadeiro-poeta mais famoso do Bairro Alto, que fingia ser galego para angariar balastro mítico, surge ao saltinhos, como um pardal, carregando um barril cheio de água às costas e ululando o usual mimologismo que lhe deu a alcunha. Atrás dele vem o velhaco Diogo Alves, falsamente acusado de ter sido o assassino em série do Aqueduto das Águas Livres, mas que chegou a ser boleeiro no Loreto; desumano com as bestas e ainda mais bestial com os clientes, a sua cabeça contempla-nos de dentro de um frasco de formol na Faculdade de Medicina de Lisboa. Na sege desquiciada que este decapitado dirige, senta-se Alda Gracinda de Carvalho, a mais famosa meretriz-fadista do Bairro Alto, imortalizada n’O Livro de Alda, escrito pelo seu vizinho Abel Botelho, pai da bandeira da república portuguesa e autor de O Barão de Lavos, primeiro romance gay português; ao lado dela encontra-se o irrequieto Bombinhas, formidável chulo com o Santo-Cristo sempre em riste, de calça justa e casaco de astracã, atirando fulminantes para o interior da taberna Tacão para meter medo aos embriagados que fadistam. Entre estes, encontra-se o Pirilau, assim cognominado por ter sido serviçal de um célebre palhaço que tinha esse nome artístico: exímio tocador de pífaro e bêbedo extraordinário, ficou famoso por ter gasto em vinho um grande prémio que ganhou numa lotaria. A pouca distância deste simpósio vulgar, passa a pé por nós Andresa do Nascimento, a Preta Fernanda, que foi uma das cocotes mais requisitadas do bas-fond bairrista; esta deslumbrante ninfa negra vem de braço dado com Helena, a repugnante Estanqueira do Loreto, mas ambas são douradas por dentro. D. Catarina de Bragança, embaixadora do chá na corte inglesa e inspiração para o nome do maior distrito da cidade de Nova Iorque, intervém vestida com roupa de homem, como gostava de apresentar-se: é acompanhada pelo malquisto dramaturgo António José da Silva, o Judeu, carbonizado pela Inquisição por culpa das suas peças heréticas de teatro, representadas por fabulares fantoches no Teatro do Bairro Alto, antigo Palácio dos Condes de Soure, que foi onde D. Catarina tomou residência quando voltou viúva de Inglaterra. Os dois entram novamente nesse palacete imaginal, seguidos pelos maravilhosos bonifrates Gil Vaz, Fuas, Clóris, Nise, Semicúpio e Sevadilha, personagens criadas para a peça Guerras do Alecrim e Manjerona, que aí foi estreada no Carnaval de 1737. Apercebendo-se da celebração, o Cinco Réis, moço de fretes reconhecido no Bairro Alto pela sua extrema somiticaria, tenta entrar no teatro sem pagar bilhete, pulando por uma janela partida, mas desajeita-se e pisa um caco de vidro com o calcanhar, repetindo um incidente pelo qual ficou famoso. Entretanto, à porta, a gaivota Rita, vitripénico talismã da Tasca do Manel, dócil com o dono, mas autêntico terror dos cães e dos gatos que tentam capturá-la, persegue com prudência os fios que as marionetas arrojam pelo chão. Sobre o palco estão todos os galegos aguadeiros que foram expulsos da rua que tinha o seu nome e que passou, a partir de 1867, a chamar-se Rua do Duque, um dos balaústres do Bairro Alto, entalhado entre este e a Calçada do Carmo; quem os conduz, extravagante, num coro de baixos profundos é Théophile Dupineant, utopista francês que, em 1693, riscou um plano mirabolante para abastecer de água todo o bairro, sem o recurso a nenhuns mecanismos.
Cheira a éter.
Como nas salas de operações. Como nos andares superiores do empíreo.
Os homens e as horas são unos quando a história é feita.
E os bairros são todos mistérios – cada um é toda uma cidade a sós.
Tão perto que, muitas vezes, nem lhe prestamos atenção, viceja a imensa massa urbanadmirável do Bairro Alto, cujas vernantes vielas cingem o norte do centro histórico de Lisboa. Esta é a soberba discissão que impediu a implosão lisboeta e lhe deu a cofragem arquitectotémica para os seus alicerces actuais. Zenónico, o Bairro Alto conserva um estoicismo zenital que é prerrogativa dos poetas, dos ascetas e dos valdevinos. A nossa cirurgia chegou ao fim: suture-se o terreno intervencionado, retire-se os hemostátos para que o sangue volte a circular. Sobre a nudez forte da verdade, coloquemos, como escreveu Eça, cuja estátua aqui perto nos serve de farol, o manto diáfano da fantasia – e escutemos com atenção.
Ele bate.
O coração do bairro bate, sob esse telurismo: ruidoso como água de seltz – fértil, cornucopiante, semibárbaro.
E infatigável.
Infatigável o bastante para concluir um milénio.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Antevisão de «Bairro Alto: Uma Cirurgia»
Na próxima sexta-feira, dia 13, às 19H00, eu e Charles Sangnoir iremos actuar no Palácio Quintela, em Lisboa (Rua do Alecrim, 70), interpretando a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia, escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir (que compôs uma canção original para ser apresentada propositadamente neste espectáculo). Será uma invocação psicogeográfica, agendada nas Comemorações dos Quinhentos Anos do Bairro Alto.
A entrada é livre e estão todos convidados: apareçam e divulguem.
Até lá, fiquem com uma antevisão do texto que irei interpretar:
«O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.O Bairro Alto é uma cirurgia.Mas que cirurgia é esta?Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?»
sábado, 30 de novembro de 2013
«Bairro Alto: Uma Cirurgia»
No próximo dia 13 de Dezembro, às 19H00, o Palácio Quintela, em Lisboa (Rua do Alecrim, 70), irá acolher o espectáculo Bairro Alto: Uma Cirurgia: actuação em spoken word com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir (que também irá interpretar uma canção original, composta propositadamente para este espectáculo).
Bairro Alto: Uma Cirurgia consistirá numa erudita invocação psicogeográfica sobre esse local lisboeta inconfundível, interpretada no âmbito das Comemorações dos Quinhentos Anos do Bairro Alto. Será uma actuação única e exclusiva.
Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação do espectáculo.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
David Soares e Charles Sangnoir celebram os 500 anos do Bairro Alto
Para os fãs de epitrópicas emoções clinofóbicas, informo que eu e Charles Sangnoir iremos, novamente, unir em palco os nossos talentos para ofertar ao público insuspeito mais uma hemicubação sonora - desta feita, no âmbito das comemorações dos quinhentos anos do Bairro Alto, em Lisboa, que, para enriquecer o conhecimento dos culturalmente carentes que por aí andem, faz este ano a bonita idade de meio milénio.
A data - apropriadíssima - do nosso castigo será a sexta-feira 13 de Dezembro (em breve darei notícia do local e hora). Até lá, ponham a jeito o Fenergan - no dia do azar, virá tudo abaixo no Bairro Alto.
Agradecimentos especiais a Manuel J. Gandra pelo seu gentil convite.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
«Os Anormais»: «Sol Invicto» integral
Muitas vezes, recebo por email pedidos de leitores que me perguntam se lhes posso enviar ou disponibilizar os textos de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), spoken word escrito e interpretado por mim e musicado por Charles Sangnoir:
um ensaio sobre a monstruosidade e a marginalidade, erguido sobre as
vidas dos indivíduos excêntricos e deformados que viveram em Lisboa, ao
longo de séculos. Sem excepções, a minha resposta tem sido sempre
"não", porque este trabalho foi concebido para ser ouvido e não para
ser lido; contudo, porque, de facto, recebo muitos pedidos, decidi
publicar os quatro textos, aqui nos Cadernos de Daath.
O quarto e último capítulo, intitulado «Sol Invicto», consiste numa generosa invocação de todos os anormais olisiponenses que, aqui, após séculos de esquecimento, retornam numa procissão "grand-guignolesca" à cidade que os rejeitou, mas à qual nunca deixaram de pertencer.
Espero que a publicação dos textos integrais de «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» tenha oferecido uma dimensão ainda mais palpável e especial ao universo plasmado no disco; um universo que, embora não pareça, também é o nosso.
Vêm ao nosso encontro.
Vemo-los ao longe, saindo da sombra para a claridade.
Os fazedores de poesia – os fazedores de sonhos.
O que está em cima contemplará o que esteve em baixo.
Eles vêm ao nosso encontro!
Outrora navegantes isolados no oceano do oblívio, gente rejeitável que a civilização abandonou, ei-los a regressar a esta restritiva Jerusalém Celeste que lhes foi cruel – a esta Lisboa madrasta que se enegrece à estimação destes subordinacionistas inseparáveis para quem o Verbo não é uma criatura perfeita, mas irregular, sutural, defeituosa.
Despertados pela nossa digressão diacrónica neste monturo, do fundo da escória para a qual foram lançados pelos inscritos, todos os anormais de Lisboa se juntam ao plutónico Anão dos Assobios e à lunícola Estanqueira do Loreto neste entremeio que diferencia a história da memória, separa a ficção do facto e está a meio-caminho da lenda. A acústica admirável da algazarra dos residentes deste arrabalde ad-rectal adossa a alvenaria da muralha olisiponense e fá-la mesurar numa vénia a estes vetustos vagabundos. Uma sucessão detonante de espectros que um a um contagiam a capital com a praga da relembrança.
Pode a inexpugnável Lisboa Celeste ser conquistada – aqui?
Num lance faustoso? Por esta gente destemida?
Oh, Lisboa! Cabeça da Europa, janela do Ocidente, porto do Graal – os anormais, escumalha que o refluxo do tempo trouxe novamente às tuas muralhas, vão regenerar-te.
Vão regenerar-te, porque trazem ouro.
Trazem ouro nas almas.
Vestidas com as mais chiques saias de folhos, casacos (um pouco coçados) com rosas nas botoeiras e agarrando pequeninas malas-de-mão, Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, apresentam-se à cabeça do cortejo – tornadas ainda mais coquetes pela pele polvilhada por fécula cemiterial. Atrás delas, o escaveirado Papa-Missas sorri pela primeira vez em séculos ao ver que o seu filho ri, não de loucura, que é coisa dos vivos, mas de alegria. Quem lhe põe uma mão amiga e descarnada num ombro é o Poeta de Xabregas, feito magro pela putrefacção; na outra mão, ostenta a velhíssima imagem da Virgem que foi com ele para o caixão e essa estátua, despoluída de caruncho, nunca pareceu tão sublime. De braços dados ao deteriorado José das Caixinhas vão as suas duas Manas, melhor conservadas: os três entreolham-se, enlevados, e só a ardência emitida pelas expressões de felicidade fraternal iluminam todo o baldio, como se trouxessem um Sol só seu.
Um Sol invicto.
Invicto pela mesquinhez e pela miséria, mas também invicto pela infortuna e pela inveja. Um novo Sol para um inédito e coruscante instante; irrepetível e, por isso, inestimável. Olhando para além dos irmãos é possível ver que muitos outros antigos anormais de Lisboa se juntaram ao irresistível chamamento.
Um deles, de cabelo ainda tão amarelo quanto cristais de wagnerite, é o indescritível Joaquim Oliveira, o famigerado Barata Loura, cuja ambição maior na vida foi “dar nas vistas” e que chegou a ser caricaturado por Rafael Bordallo Pinheiro no jornal satírico O António Maria; vem com a sua famosa bengala de duas libras e meia, na altura a mais cara, que comprou só para mandar cortar-lhe o castão ao meio. Ainda fedendo a esgoto, o putrescente Luciano das Ratas observa intrigado esse bordão mutilado enquanto vai contando, com dedos ossudos e experientes, quantas moedas extraviadas recobrou dos enredados labirintos de caneiros; guarda-as numa bolsa que tem dependurada à cintura, anexa às dezenas de ratazanas liquidadas que são os reclames do seu ofício. Achando que o raticida não amealhou o suficiente, o bexigoso e vesgo Rei Wamba, não dos Visigodos, mas dos arrendatários do Chiado, imortalizado por Eça de Queirós no livro póstumo A Capital, quer oferecer-lhe uma mão cheia de meias-coroas e vermes que encontrou num dos bolsos, fazendo jus à generosidade pela qual ficou conhecido em vida. De semblante mais bisonho, porque lhe falta a mandíbula, vem atrás deles o inquieto Traga-Bolas, extravagante vadio que, pelo Bairro Alto, acabava as noitadas em intensa porrada com os pretendentes a fadistas e o rapazio armado de navalhas que iam beber o pequeno-almoço aos botequins da Calçada da Bica Grande; nos braços escanifrados que foram os piores pesadelos de quem andou com ele à bulha, carrega com doçura o esqueleto do pobre polícia que matou com um único soco. Matador e matado são um Dióscuro, porque aqui, na grandiosa agregação dos banidos, todos os crimes são perdoados e todos os indivíduos são absolvidos. Aqui a relva é sempre verde – e cada momento é uma lança arremessada pelo Sol.
Quase ficando para trás por culpa de um dos achaques convulsionários do costume, o zinzilulante Homem-Macaco, que costumava saltar com espantosa energia para as varandas das casas durante os episódios de, lá está!, macacoas, está a receber das mãos do curandeiro benevolente Barão de Catânia um titanífero balde de água para apaziguar a sede tremenda de que sempre padeceu; a água choca escorre-lhe pelo queixal e pelos alvéolos abertos pelo apodrecimento nas prelúcidas costelas. Montada no seu inconfundível jerico, vestida de cores farfalhudas, com uma touca de folhos sobre a qual colocou um velho e desmedido chapéu de palha, passa por eles a Madame Collaço, incompetente preceptora de meninas que foi pioneira do feminismo, juntamente com a respeitadíssima Preta Fernanda, a quem dá boleia por causa dos dolorosos joanetes; esta cadaverina comparsa cabo-verdiana, de nome Andressa do Nascimento, predilecta de Eça de Queirós nas saídas nocturnas para os teatros e para as tertúlias intelectuais, foi imortalizada numa estátua de bronze no pedestal do monumento ao Marquês de Sá da Bandeira, abolidor da escravatura. Ao lado delas, sem vultuosidade e puxando as rédeas do jumento, vai a pé José Collaço, o filho da cavaleira, que expirou doido numa cela exígua do manicómio de Rilhafoles; é seguido pelo Gracioso das Bexigas, esse macrocéfalo mais-que-tudo, que, aos saltos e batendo com os metacarpos nas ancas, alenta o asno com o seu habitual adágio de «arre-burrinho». Sobre uma rocha, junto à entrada principal da cidade e beneficiando de um ponto de vista elevado, encarrapita-se o estupendo Sempre-Noivo pintando a óleo a comitiva completa numa tela do tamanho de um selo; pasmoso pintor da Lisboa nocturna, ele é capaz de, literalmente, estampar sem olhos a cena.
Aqui, a realidade não é a dominada pelos reis, nem a demarcada por racimosos reinos a eles consagrados pelos navegadores pós-medievais, mas a de um vastíssimo continente impossível de cartografar e onde convergem desiguais grandezas de lengalenga e fantasmagoria. Há música aqui, arreigada às vozes destes mortos simultâneos que parecem falar num prolépsico dialecto que soa a preguear de penas e brindes em copos de cristal. E, sobre todos, sobre a estupefacção esperançosa que os anima, está o Sol só deles.
O Sol invicto.
Invicto pelo sarcasmo e pela sordidez, mas também invicto pela violência e pela injustiça. Um Sol perfeito para uma insólita e rutilante ocasião; comburente e, por isso, inapreciável. Olhando para além das mulheres, dos homens e do asno, é possível ver que, como fósseis outrora cativos por grades estratigráficas ainda mais fundas, muitos outros anormais de Lisboa se aliaram à invencível convocação.
Antes dos anormais entrarem novamente em Lisboa, sem terem a certeza de que voltam para ficar, o trofoneurótico Mano das Manas aproxima-se de nós e oferece-nos com amabilidade uma caixinha de papelão pintado: as suas mãos aleijadas são pútridas, consumidas pelos sarcofamintos, mas a caixa resplandece com a luz imensa do Sol Invicto em escalas mais excelsas que as das jóias da Jerusalém Celeste. A pulcritude desse presente é tremenda – chamejante – e espiritualiza-nos os corações.
Eles trazem ouro. Trazem ouro nas almas.
As horas avançam.
O que esteve em baixo é como o que está em cima.
A procissão dos anormais é mais longa do que parecia – e a luz do Sol Invicto descasca-se agora como desgastado papel de parede sobre o horizonte. A noite aproxima-se, mas a caixa variegada, ainda por abrir, é leve nas nossas mãos.
Tão leve que parece vazia.
Mas não está.
Abrimo-la.
Olhamos lá para dentro.
Não está vazia. Está cheia.
Cheia de significado.
Cheia de revelação.
(Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense. Copyright © David Soares, Charles Sangnoir, 2012.)
Espero que a publicação dos textos integrais de «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» tenha oferecido uma dimensão ainda mais palpável e especial ao universo plasmado no disco; um universo que, embora não pareça, também é o nosso.
Sol Invicto
Vêm ao nosso encontro.
Vemo-los ao longe, saindo da sombra para a claridade.
Os fazedores de poesia – os fazedores de sonhos.
O que está em cima contemplará o que esteve em baixo.
Eles vêm ao nosso encontro!
Outrora navegantes isolados no oceano do oblívio, gente rejeitável que a civilização abandonou, ei-los a regressar a esta restritiva Jerusalém Celeste que lhes foi cruel – a esta Lisboa madrasta que se enegrece à estimação destes subordinacionistas inseparáveis para quem o Verbo não é uma criatura perfeita, mas irregular, sutural, defeituosa.
Despertados pela nossa digressão diacrónica neste monturo, do fundo da escória para a qual foram lançados pelos inscritos, todos os anormais de Lisboa se juntam ao plutónico Anão dos Assobios e à lunícola Estanqueira do Loreto neste entremeio que diferencia a história da memória, separa a ficção do facto e está a meio-caminho da lenda. A acústica admirável da algazarra dos residentes deste arrabalde ad-rectal adossa a alvenaria da muralha olisiponense e fá-la mesurar numa vénia a estes vetustos vagabundos. Uma sucessão detonante de espectros que um a um contagiam a capital com a praga da relembrança.
Pode a inexpugnável Lisboa Celeste ser conquistada – aqui?
Num lance faustoso? Por esta gente destemida?
Oh, Lisboa! Cabeça da Europa, janela do Ocidente, porto do Graal – os anormais, escumalha que o refluxo do tempo trouxe novamente às tuas muralhas, vão regenerar-te.
Vão regenerar-te, porque trazem ouro.
Trazem ouro nas almas.
Vestidas com as mais chiques saias de folhos, casacos (um pouco coçados) com rosas nas botoeiras e agarrando pequeninas malas-de-mão, Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, apresentam-se à cabeça do cortejo – tornadas ainda mais coquetes pela pele polvilhada por fécula cemiterial. Atrás delas, o escaveirado Papa-Missas sorri pela primeira vez em séculos ao ver que o seu filho ri, não de loucura, que é coisa dos vivos, mas de alegria. Quem lhe põe uma mão amiga e descarnada num ombro é o Poeta de Xabregas, feito magro pela putrefacção; na outra mão, ostenta a velhíssima imagem da Virgem que foi com ele para o caixão e essa estátua, despoluída de caruncho, nunca pareceu tão sublime. De braços dados ao deteriorado José das Caixinhas vão as suas duas Manas, melhor conservadas: os três entreolham-se, enlevados, e só a ardência emitida pelas expressões de felicidade fraternal iluminam todo o baldio, como se trouxessem um Sol só seu.
Um Sol invicto.
Invicto pela mesquinhez e pela miséria, mas também invicto pela infortuna e pela inveja. Um novo Sol para um inédito e coruscante instante; irrepetível e, por isso, inestimável. Olhando para além dos irmãos é possível ver que muitos outros antigos anormais de Lisboa se juntaram ao irresistível chamamento.
Um deles, de cabelo ainda tão amarelo quanto cristais de wagnerite, é o indescritível Joaquim Oliveira, o famigerado Barata Loura, cuja ambição maior na vida foi “dar nas vistas” e que chegou a ser caricaturado por Rafael Bordallo Pinheiro no jornal satírico O António Maria; vem com a sua famosa bengala de duas libras e meia, na altura a mais cara, que comprou só para mandar cortar-lhe o castão ao meio. Ainda fedendo a esgoto, o putrescente Luciano das Ratas observa intrigado esse bordão mutilado enquanto vai contando, com dedos ossudos e experientes, quantas moedas extraviadas recobrou dos enredados labirintos de caneiros; guarda-as numa bolsa que tem dependurada à cintura, anexa às dezenas de ratazanas liquidadas que são os reclames do seu ofício. Achando que o raticida não amealhou o suficiente, o bexigoso e vesgo Rei Wamba, não dos Visigodos, mas dos arrendatários do Chiado, imortalizado por Eça de Queirós no livro póstumo A Capital, quer oferecer-lhe uma mão cheia de meias-coroas e vermes que encontrou num dos bolsos, fazendo jus à generosidade pela qual ficou conhecido em vida. De semblante mais bisonho, porque lhe falta a mandíbula, vem atrás deles o inquieto Traga-Bolas, extravagante vadio que, pelo Bairro Alto, acabava as noitadas em intensa porrada com os pretendentes a fadistas e o rapazio armado de navalhas que iam beber o pequeno-almoço aos botequins da Calçada da Bica Grande; nos braços escanifrados que foram os piores pesadelos de quem andou com ele à bulha, carrega com doçura o esqueleto do pobre polícia que matou com um único soco. Matador e matado são um Dióscuro, porque aqui, na grandiosa agregação dos banidos, todos os crimes são perdoados e todos os indivíduos são absolvidos. Aqui a relva é sempre verde – e cada momento é uma lança arremessada pelo Sol.
Quase ficando para trás por culpa de um dos achaques convulsionários do costume, o zinzilulante Homem-Macaco, que costumava saltar com espantosa energia para as varandas das casas durante os episódios de, lá está!, macacoas, está a receber das mãos do curandeiro benevolente Barão de Catânia um titanífero balde de água para apaziguar a sede tremenda de que sempre padeceu; a água choca escorre-lhe pelo queixal e pelos alvéolos abertos pelo apodrecimento nas prelúcidas costelas. Montada no seu inconfundível jerico, vestida de cores farfalhudas, com uma touca de folhos sobre a qual colocou um velho e desmedido chapéu de palha, passa por eles a Madame Collaço, incompetente preceptora de meninas que foi pioneira do feminismo, juntamente com a respeitadíssima Preta Fernanda, a quem dá boleia por causa dos dolorosos joanetes; esta cadaverina comparsa cabo-verdiana, de nome Andressa do Nascimento, predilecta de Eça de Queirós nas saídas nocturnas para os teatros e para as tertúlias intelectuais, foi imortalizada numa estátua de bronze no pedestal do monumento ao Marquês de Sá da Bandeira, abolidor da escravatura. Ao lado delas, sem vultuosidade e puxando as rédeas do jumento, vai a pé José Collaço, o filho da cavaleira, que expirou doido numa cela exígua do manicómio de Rilhafoles; é seguido pelo Gracioso das Bexigas, esse macrocéfalo mais-que-tudo, que, aos saltos e batendo com os metacarpos nas ancas, alenta o asno com o seu habitual adágio de «arre-burrinho». Sobre uma rocha, junto à entrada principal da cidade e beneficiando de um ponto de vista elevado, encarrapita-se o estupendo Sempre-Noivo pintando a óleo a comitiva completa numa tela do tamanho de um selo; pasmoso pintor da Lisboa nocturna, ele é capaz de, literalmente, estampar sem olhos a cena.
Aqui, a realidade não é a dominada pelos reis, nem a demarcada por racimosos reinos a eles consagrados pelos navegadores pós-medievais, mas a de um vastíssimo continente impossível de cartografar e onde convergem desiguais grandezas de lengalenga e fantasmagoria. Há música aqui, arreigada às vozes destes mortos simultâneos que parecem falar num prolépsico dialecto que soa a preguear de penas e brindes em copos de cristal. E, sobre todos, sobre a estupefacção esperançosa que os anima, está o Sol só deles.
O Sol invicto.
Invicto pelo sarcasmo e pela sordidez, mas também invicto pela violência e pela injustiça. Um Sol perfeito para uma insólita e rutilante ocasião; comburente e, por isso, inapreciável. Olhando para além das mulheres, dos homens e do asno, é possível ver que, como fósseis outrora cativos por grades estratigráficas ainda mais fundas, muitos outros anormais de Lisboa se aliaram à invencível convocação.
Antes dos anormais entrarem novamente em Lisboa, sem terem a certeza de que voltam para ficar, o trofoneurótico Mano das Manas aproxima-se de nós e oferece-nos com amabilidade uma caixinha de papelão pintado: as suas mãos aleijadas são pútridas, consumidas pelos sarcofamintos, mas a caixa resplandece com a luz imensa do Sol Invicto em escalas mais excelsas que as das jóias da Jerusalém Celeste. A pulcritude desse presente é tremenda – chamejante – e espiritualiza-nos os corações.
Eles trazem ouro. Trazem ouro nas almas.
As horas avançam.
O que esteve em baixo é como o que está em cima.
A procissão dos anormais é mais longa do que parecia – e a luz do Sol Invicto descasca-se agora como desgastado papel de parede sobre o horizonte. A noite aproxima-se, mas a caixa variegada, ainda por abrir, é leve nas nossas mãos.
Tão leve que parece vazia.
Mas não está.
Abrimo-la.
Olhamos lá para dentro.
Não está vazia. Está cheia.
Cheia de significado.
Cheia de revelação.
terça-feira, 21 de maio de 2013
«Os Anormais»: «A Lua do Loreto» integral
Muitas vezes, recebo por email pedidos de leitores que me perguntam se lhes posso enviar ou disponibilizar os textos de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), spoken word escrito e interpretado por mim e musicado por Charles Sangnoir:
um ensaio sobre a monstruosidade e a marginalidade, erguido sobre as
vidas dos indivíduos excêntricos e deformados que viveram em Lisboa, ao
longo de séculos. Sem excepções, a minha resposta tem sido sempre
"não", porque este trabalho foi concebido para ser ouvido e não para
ser lido; contudo, porque, de facto, recebo muitos pedidos, decidi
publicar os quatro textos, aqui nos Cadernos de Daath.
O terceiro capítulo, intitulado «A Lua do Loreto», dedicado à desgraçada Estanqueira do Loreto, figura típica lisboeta que morreu no início do século XIX, é, como o capítulo anterior, uma viagem intelectemporal.
A Lua do Loreto
Circulares como um ponto final, embebidas em
amnésico ruído de rua, as ruínas invisíveis dos Casebres do Loreto são uma Lua
que ainda emulsiona os elementos de Lisboa: buzinas de automóveis, risos de
mulheres, sabores artificiais provenientes de uma adjacente gelataria – mas
também pedras extintas, sangue antigo – tão alucinatório quanto mênstruo
estroboscópico – e surtos fantasmas de sofrimento.
Sob estes rios de turismo e
alcatrão, lado a lado aos pisos inferiores do parque de estacionamento do
Chiado, hibernam esqueletos de soldados ducentistas, alguns agarrando teimosamente
a tecnologia do seu tempo: lâminas fósseis, exóticas quanto cascas de
pré-históricos coleóides vampiromorfos, tão entorpecidas quantos os sestércios
que polvilham como pimenta a sedimentar estratocracia da Praça Luís de Camões.
Pudendágrico, o vulto desse vate é um cenotáfio de seres esquecidos pelas
gentes que, animadas por atavismo psicogeográfico, se conglutinam nas actuais noites
de fins-de-semana para elucubrarem ébrios elmanismos: a topografia é destino e
a freguesia da Encarnação é a morada celeste do satiríaco Bocage, que dela fez uma
Nova Arcádia de deboche e deleitação.
Do alto do seu sadino
monumento, erguido em 1871 na Praça de Bocage, imunizante mausoléu de destroços
romanos relacionados com a confecção de garum, a imagem do autor de Queixumes do Pastor Elmano Contra a
Falsidade da Pastora Urselina parece um gémeo alabastrino do antracítico Camões,
esculpido quatro anos antes. Societários nas estaturas estatuárias e poéticas, estes
leptocéfalos partilham o túmulo incógnito que aquartela todas as ossaturas
tresmalhadas pelo tempo: nem um, nem outro, das alturas em que se empoleiram, como
tótemes de religiões secretas ou páreos muitíssimo escantilhados, vislumbram os
seus restos mortais. Desidratados pela sequidão das eras, os ossos de Bocage e
Camões são palinfrasias – paronomásicos aos do bardo irlandês William Butler
Yeats, esmadrigados num ossuário occitano.
Qual o siderismo que
supervisiona o destino dos ossos dos poetas?
Versos que nem vértebras – e,
no entanto, outro esqueleto, mais importante para esta história, ganha pó no Museu
de Anatomia do Hospital de São José: desfigurado pela ancilose, o crânio
grotesco já não apresenta o nariz apossemático, cujos espirros Bocage definira
como sendo autênticos terramotos. A sua signografia tecidual, quasi-lunar de
tão craterizada, testemunha uma vida lamentável, findada entre o entulho e as
esmolas no Largo do Calhariz, situado a pouca distância dos deploráveis Casebres
do Loreto onde estes ossos, enquanto sustentáculo de carne de mulher, foram
donos de um estanco. Exibido como se fosse o esqueleto de um macaco, indigno é
o tributo prestado – pelos que dela se riram – à Estanqueira do Loreto. À horrível
Estanqueira do Loreto.
Quem é esta corcunda, de dedos
torcidos como caudas de ratazanas, que fede ao tabaco que mercadeja no seu cubículo
apertado onde mal lhe cabe a alma? O seu retrato, a preto-e-branco, publicado
na revista Ilustração Portuguesa de
Dezembro de 1923, no artigo “Retratos
d’Alguns Tipos Populares Portugueses”, que também conjectura sobre como
seria a fisionomia do Anão dos Assobios, copia, de modo ainda mais hediondo, a
imagem colorida que decorava uma tampa de caixa de rapé pertencente ao rei D.
Pedro V: nessa efígie, a Estanqueira do Loreto supera em feiura a Duquesa Margarete
do Tirol, pintada em 1513 pelo artista holandês Quentin Matsys, normalmente
considerada a “mulher mais feia da História”. Todavia, este quadro medonho de
Matsys poderá ser somente uma alegoria da Vaidade, talvez inspirada pela
leitura de Elogio da Loucura, escrito
dois anos antes pelo seu compatriota Erasmus de Roterdão, o que fará da
Estanqueira do Loreto a verdadeira “mulher mais feia da História”. Pagética,
dissimétrica, retinacular e embrulhada como se fosse a cabeça decepada de
Medusa, a carranca pintada para a caixa de rapé evoca a Terceira das Idades
Femininas popularizadas pelo escritor inglês Robert Graves no livro A Deusa Branca: o estádio a que chamou de
Velha. O nome inglês desta Velha,
comparada por Graves ao Quarto Minguante, é crone,
nome que deriva da palavra francesa caroigne
que tem a dupla significação de carne
morta e mulher molesta. A Velha
que estiola a luxúria masculina é equivalente à carne morta: «Aquele que comer essa carne morta ficará
impuro». De útero inútil, a Estanqueira do Loreto é Elli, a Velha capaz de
derrotar campeões priápicos da estirpe de Thor; é Baba Yaga, a estriga canibal
do folclore eslavo que voa agarrada a um pilão num almofariz – é, pois, uma
bruxa, cujas tetas são balofas almofadas, recheadas de esterco, que nasce no
estrume e vive para o estrume. E, no entanto, sob o medonho córtex que lhe
envolve as entranhas, espantoso eidolon
de espavento que faz tremelicar de nojo os fregueses mais influenciáveis, soa
uma verdadeira voz de ouro.
O verbo de fada da repelente
Estanqueira do Loreto resplandece mais que as setecentistas fitas de Sol que
iluminam o estanco pelas frinchas nas madeiras, pois estas poluem-se com o pó
que revoa, mas nada emporcalha a voz da vendedora de tabaco, porque o espírito dela
é o oposto do seu feio aspecto. É esta Befana crisóstoma que os boémios e os poetas,
saídos das tabernas, apupam quando passam à entrada do estanco – mas quando a
ouvem falar com eles, uma vergonha incómoda, macia como bosta, escorrega-lhes
pelas espinhas abaixo e sentem-se insignificantes. «A luminária do corpo é o olho, se o teu olho estiver são, todo o teu
corpo andará cheio de Luz; porém se o teu olho for mau, todo o teu corpo andará
cheio de Treva.» Os olhos da Estanqueira do Loreto são luminárias que
reflectem a luz: os infelizes clientes que torcem o nariz ao pôr-lhe a vista em
cima, os rapazinhos que desfezam e urinam à sua porta e os valdevinos que dela
escarnecem nos finais das tardes são incapazes de compreender que ela é o génio
daquele sítio calamitoso; um coração que desofusca as sombras do palácio
descalabrado dos Marqueses de Marialva, no qual as famílias mais pobres daquela
freguesia montaram com mendicância as moradas.
Em frente às igrejas da
Encarnação e do Loreto, levantam-se as choças dos energúmenos, porcos
prostíbulos e casas clandestinas de jogo que os bem-aventurados chamam de
Casebres do Loreto: triste desmoronamento do Grande Terramoto de 1755,
convertido em dezenas de barracas infectas que fariam Vitrúvio vagir de
confrangimento e Euclides engolir em seco de incredulidade. Mas sob este
desolado imundo – imundo no sentido
de fora deste mundo –, demolido em
definitivo em 1859, há vozes brilhantes ressoando do íntimo da terra: tons
telúricos que a Estanqueira do Loreto escuta e responde com a doçura das suas
palavras. Oh, Estanqueira! És a minha
filha favorita, o meu melhor invento: quem são estes uxoricidas que, grunhindo,
galhofam da tua fealdade? Desgraçados dos que olham para a Luz e lhe chamam Sombra,
porque estão doentes e os seus olhos já não têm lágrimas para amar. Erguidas
por biltres e galdérias, as alfurjas ordinárias, fedentes a entulho e sucos
sexuais, que cingem a tua espelunca são, no todo, um elemento sagrado. Ai dos
falsos afortunados que por aqui passam e não entendem que és tu, Estanqueira,
que suga a peçonha deste maquiavélico sorvedouro de misérias e o transmuta de
Casebres do Loreto para Santa Casa do Loreto. Eles não entendem o teu mistério
e não sabem o teu nome: Helena.
A Estanqueira do Loreto tem um
nome, afinal de contas.
Helena.
Existem santos secretos cujos
nomes não foram listados pelos sábios em nenhum hagiológio: são hieróglifos
heróicos, estreitas passagens que da tenebrosidade levam à luminosidade.
Helena. O nome evoca
uma significação mais profunda que se superioriza ao plano terreno, mas qual? O
certo é que a Estanqueira do Loreto desapareceu.
Vaporizada para o campo
nublado da mitografia, somente através de perigosos protocolos preternaturais
poderá ser reassumida. Pelo poder da palavra falada, por que não?: arma
oscilobatente dos feiticeiros paleolíticos que verbalizaram magia no âmago das
grutas mais húmidas – tem de tornar-se gasto pela repetição o nome desta mulher
que, nas vésperas da morte, já apartada do estanco anquilosante, sobreviveu
vendendo o corpo no Largo do Calhariz a bêbedos e a rapazes esfomeados de morbidez.
Todos procuravam o narigão para as suas crueldades lascivas; e ora ejaculavam, ora
defecavam, no apendículo harpágico popularizado por Bocage que, segundo um
soneto satírico, tinha tolos sebastianistas como burriés: «montanhoso nariz que ao mundo espantas!». Limpando do «montanhoso nariz» os sémenes e os
excrementos de indivíduos tão desgraçados que, eles próprios, erravam que nem
espectros pelas quelhas da paróquia da Encarnação, a Estanqueira do Loreto, que
nem uma bruxa que vive para o estrume, senta-se no chão, sob o luarejar
lisboeta, e conta as auferidas moedas: mister miserabilíssimo que manteve a
fome à margem nestes últimos resquícios de vida. Oh, Helena! És a minha filha favorita, o meu melhor invento: quem são
estes desprezíveis que, grunhindo, regozijam com a tua deformidade? Eles não
entendem o teu mistério e não sabem o significado do teu nome: Helena.
A jarreta e repugnante
Estanqueira do Loreto, calhandro com voz de sirena das excreções mais
abomináveis, é Helena, a belíssima esposa de Menelau, rei de Esparta, prometida
por Afrodite ao tíbio Páris e efectiva semeadora do pomo erístico da discórdia
que despertou o derribamento da cidade de Tróia. É Helena, a luminosa mãe do
imperador romano Constantino, salvadora dos destroços do Santo Lenho que, no
século IV, em peregrinação à cidade galileia de Nazaré, encontrou intacto o
humilde casebre em que Maria nasceu e mandou edificar uma basílica que o
albergasse. Esta barraca inteira dentro do invólucro que é o novo templo, qual
pérola dentro de uma ostra, é que é a Santa Casa do Loreto: aquela que,
carregada por anjos através do Céu nos desenhos mais delirantes dos dominicanos,
se alicerça sempre nos locais mais lastimosos. O estanco de Helena é esta casa
de cura: úvula valiosa, envolvida pelo vil véu palatino que são os destroços mariálvicos,
assolados pelo sismo e pelo abrasamento – e tal como na lenda da Santa Casa do
Loreto a representação de Maria resiste imaculada a abalos e a incêndios, que
nem uma gota de espermacete cingida pela corrupção, a estanqueira olisiponense
persiste incólume numa imaginal tabacaria: um rosto beatífico, de tão
monstruoso que é – carantonha que faz gargalhar os poetas, mas cuja riqueza de voz
torna paupérrimos os versos deles.
Essa voz fala connosco.
Diz-nos que há pureza entre a
escória e a escumalha; diz-nos que há definição entre a desordem e o desespero
– diz-nos que se procurarmos atentamente, se olharmos sem receio à nossa volta,
veremos que na mesma valeta onde se abatem os cães também desabrocha aquilo que
os homens encerram de mais cintilante, porque no meio do breu refulge a crosta
estéril da Lua – e, afinal, o nome da Estanqueira do Loreto, gema soterrada na
turfa delinquente, é Helena: palavra
que significa Lua. A Lua tripartida
em Crescente, Plenilúnio e Minguante nos avatares de Virgem, Mãe e Velha –
pintadas com supranaturalismo pelo artista alemão Hans Baldung Grien, em 1510: vaidosas
e alheias à proximidade da Morte. Mas será a Lua um astro tão supérfluo quanto
a vaidade? Uma moeda falsa com a qual somente se compra a loucura e a
licantropia?
Sem a ascendência gravítica da
Lua, torpe satélite que se apresenta eczemático no velo nocturno, nunca se
teria agitado as águas primordiais: foi ela o pilão babayagano que revolveu a
matéria no almofariz que é o globo e que impediu que os ingredientes da vida
sedimentassem infecundos no fundo dos oceanos. Sem a Lua, arrancada da própria
Terra, há cerca de cinco mil milhões de anos por uma bestial colisão com um
corpo astral do tamanho de Marte, nenhum de nós existiria e o mundo seria como
a Lua: um infrutífero planeta, magoado por máculas magmáticas. Sem ela, o orbe
seria uma árida Aceldama: espaço horripilante de ausência e desolação,
eternamente sôfrego por intestinos e cinzas. Mas foi Helena, criadora da Santa
Casa do Loreto, quem se lembrou de usar a terra hostil de Aceldama para
construir, para dar moradas pacíficas aos mortos… Ela é Helena, claro, como já
vimos, mas também Selena, irmã do Sol: amante de pastores como Endímio e Elmano,
musa de poetas como Camões e Bocage, e cujo nome significa…
Luz.
Oh, Lua! És a minha filha favorita, o meu melhor invento: desgraçados dos
que olham para a tua Luz e lhe chamam Sombra.
É esta luz lunar, esta alvura argêntea,
que descai sobre a matéria mortífera, entenebrecida nas horas em que o Sol se
esconde, e a transmuta espagiricamente em substância salvífica. É por essa
razão que as inócuas imagens de Maria cavalgam uma meia-lua. Sem Lua, meia ou
inteira, não haveria poetas – e Bocage, intuindo essas afinidades antigas,
orbitou em redor de uma antropomórfica lua loretiana, classificando-a como uma
das “Sete Maravilhas do Chiado”. Helena, a Estanqueira do Loreto, a Velha que
minguará em Virgem, é todas as Helenas e todas as luas que existiram e
existirão.
É ela que ilumina os nossos
passos na longa noite da alma. É ela que nos enxota o medo. E, com ingratidão,
é sempre para o seu rosto paligorsquítico que enxotamos os vitupérios vinários,
as secreções sensualistas e os conteúdos coprofílicos, mas a sua imaculabilidade
é refractária a esse refugo. Os olhos da Estanqueira do Loreto são luminárias.
Não há Lágrima nesses olhos, nem Pranto, nem Gritos, nem Dor, porque eles só
reflectem a luz. Reflectem-na e retêm a treva. Assim, renovam todas as coisas.
Qual o siderismo que
supervisiona o destino dos ossos dos poetas? E dos versejados? Outrora mofento
na masmorra museológica, o esqueleto da Estanqueira do Loreto também
desapareceu: esse alicerce do templo que foi o corpo de Helena encontra-se no
mesmo túmulo incógnito que aquartela todas as ossaturas tresmalhadas pelo tempo
– como as dos lunáticos Yeats, Camões e Bocage. Versos que nem vértebras – e,
no entanto, outros alicerces, mais importantes para esta história, ganham força,
em exclusivo, nas nossas imaginações. Estão connosco.
Circulares como um ponto
final, embebidos em amnésico ruído de rua, são uma Lua que ainda emulsiona os
elementos de Lisboa: os nossos destinos individuais, as nossas histórias
colectivas, reunidas numa única e radiante dimensão; como água acumulada num
cálice ou numa sarjeta: num Crescente ou num Minguante.
Estão connosco.
São os alicerces do Santo
Estanco de Helena – a Estanqueira do Loreto: sórdida e sagrada, em simultâneo.
Estão connosco, porque nunca
somos nós que vamos à procura deles.
Não somos.
(Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense. Copyright © David Soares, Charles Sangnoir, 2012.)
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