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segunda-feira, 20 de maio de 2013

«Os Anormais»: «O Plutão da Pena» integral


Muitas vezes, recebo por email pedidos de leitores que me perguntam se lhes posso enviar ou disponibilizar os textos de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), spoken word escrito e interpretado por mim e musicado por Charles Sangnoir: um ensaio sobre a monstruosidade e a marginalidade, erguido sobre as vidas dos indivíduos excêntricos e deformados que viveram em Lisboa, ao longo de séculos. Sem excepções, a minha resposta tem sido sempre "não", porque este trabalho foi concebido para ser ouvido e não para ser lido; contudo, porque, de facto, recebo muitos pedidos, decidi publicar os quatro textos, aqui nos Cadernos de Daath.
Acompanhado do texto integral, segue-se o segundo capítulo, intitulado «O Plutão da Pena», cujo protagonista - ou tóteme - é o Anão dos Assobios: figura típica lisboeta, que morreu nos inícios do século XIX.

O Plutão da Pena

A plúmbea antemanhã assemelha-se ao fundo encardido de um crisol abandonado por um alquimista inepto; a chuvarada dos seus nimbos enodoa que nem anitmonium os telhados e abstrai-se pelas áleas azafamadas como uma lavagem que separa as partes heterogéneas da matéria-prima que é a própria cidade. Metade da gente é “setembrista”, metade é “cartista”, mas tanto uma como a outra levam muito a sério o início do século: ligas arsenalistas, lojas maçónicas e modernos tributários do Antigo Regime – todos se vêem como poetas da política, como sonetistas da sedição; e a pobre Lisboa, ensombrada por anticirros que, em jeito de contracédulas, se sucedem uns aos outros numa simetrização sinistra, é presa por ter cão – e por não ter.

Enquanto o aguaceiro matinal metamorfoseia em lama o solo do terrádego do Rossio e alguns galegos cobrem com tábuas essa papa terrenta para que as damas não sujem as solas quando forem buscar bric-à-brac às barracas dos negociantes, tremem os topetes dos cavalos ao som de aguçados trinados, vindos da boca de uma criança. Depois de uma noitada de pândega, e gingando as ancas como uma vespilheira, o garotelho atravessa a praça em direcção a casa, soltando assobios gasólitos que embatem nas vidraças como em címbalos. É um miúdo desassossegado, de gestos quasi-garrettianos, porém uma observação atenta desvenda que ele não é miúdo nenhum, mas uma criatura saída do solo ensopado: um diabrete olhando de esguelha para as gotas de chuva que lhe alfinetam o rosto inchado por um maxilar prognático.

Entre o labirinto formado pela multidão que, àquela hora, já compressa a cota mais abatida de Lisboa, esta entidade diminuta, enfarpelada com uma sobrecasaca de saragoça e um chapéu comprido de feltro, mais parece um hectograma impresso pela precipitação na mole superfície da terra. Alguns moradores da freguesia da Pena, onde ele reside, riem alto ao vê-lo regressar e fingem querer deitar-lhe o chapeirão ao chão: sem perder a compostura, o leviano liliputiano devolve-lhes o troco das truculências na forma de assobios estridentes que dá com dois dedos metidos (como burneiros) na boca. Assobios fortes o suficiente para deitar abaixo casas. Ou reis…

Cinquenta e cinco anos antes do Grande Terramoto servir de antegare à cidade-templo pombalina, morreu em Madrid o burlesco Carlos II de Espanha: último soberano da linhagem espanhola da Casa de Habsburgo e padecente do mesmo prognatismo que faz os homens parecerem cachorros. Tão acromegálico quanto o Anão dos Assobios é hipotónico, este impotente imperador, sucessor de Filipe III de Portugal, mandava exumar os antecessores para procurar padrões haruscópicos – as únicas perguntas que era capaz de fazer, dado que a deficiência antropométrica não o deixava falar: este rei enfeitiçado, como veio a ser cognominado, só conseguia assobiar.

Que idioma sibilino é este, que evoca El Sibo, dialecto de silvos inventado pelos indígenas Guanches da ilha vulcânica de La Gomera no arquipélago canarino? Este linguajar é a gramática de Guayota, senhor infernal do vulcão Echeyde, o intróito sulfúrico de um mundo inferior feito de tórridas torrentes de lava onde habitam os Tibicenas: diabólicos anões cinocéfalos com corpos cobertos de lanugem negra. Outras culturas partilharam visões heterogéneas de anões de cabelos fulvos que, como os Guanches de La Gomera, assobiavam com aspereza: na selva amazónica, tanto os nativos como os colonos temiam o pruriginoso Curupira, de cabeleira ruiva – às vezes de fogo –, cujos assobios agudos provocavam psicolepsia. A linguagem trinada é hipocáustica – lausperénica: autêntico pleroma do qual emanam os entes elementares deste plutónico meristema. Enroupado de lã preta, o Anão dos Assobios da paróquia da Pena é um hodierno e cinocefálico Tibicena que sopra arcanos por Lisboa naquilo a que os comerciantes ingleses chamam de “assobios-de-lobo”: estrídulas gaitadas produzidas com os dedos enfiados na boca.

Quem são estes anões cuspidos pelo ventre da terra?

Para que participações plexiformes foram projectados?

Amoldados na forja de Hefesto, vejam-nos emergir desse estrato plutoniano em períodos de pestilência e guerra. Os assobios deles mimam os esguichos gasosos solfejados por extrusivas salpinges vulcânicas: comunicações de silfos do submundo de buchos cheios de ferrugem – a língua de animais com ferro na alma, pois estas criaturas fenocristalóides assenhoreiam a arte de extrair metais dos minérios: o magistério metalogénico.

Na mitologia norte-europeia, os anões, seres sapudos que povoam as partes privadas das serranias, apresentam-se como mestres metalúrgicos; tropo transmitido até aos nossos dias pelo mago suíço Paracelsus que, no século XVI, criou a – até aí inédita – figura do gnomo: elemental imaginário que reside nas cavidades intestinas e é capaz de passar por paredes de pedra. Segundo Paracelsus, os gnomos, cuja etimologia por ele inventada significa habitantes da terra, evitavam a companhia dos homens, mas nas Eddas, escritas pelo historiador islandês Snorri Sturlson, os homens são criados, justamente, pelos anões: o homem e a mulher originais – Ask e Embla –, feitos de terra e casca de árvore. Os gnomos paracelsianos são os ínfimos humanóides que, nas histórias infantis, se encovam no mundo quotidiano. Há magia velha por trás dos rodapés, por baixo dos tapetes e entre as ervas mais altas dos jardins – existem espíritos milenares entre as nossas almas bebés: e quando finalmente perecem, cansados de carregarem tanta sabedoria, convertem-se em árvores; como aquela em que foram talhados Ask e Embla.

De acordo com a dendrolatria pré-diluviana, já tivemos corpos vegetais: existem ecos da jornada de preguiçosa vida vegetal para impetuosa vida animal no espantoso livro Hypnerotomachia Poliphili do dominicano italiano Francesco Collona; existem ecos desta ligação dendrológica nas mitocôndrias que residem nas nossas células e na hemoglobina que, pasme-se!, pode encontrar-se nos caules mais carnudos das plantas. Existe ferro nos veios das montanhas e nas nossas veias… Não é a toa que, nas lendas de outrora, os anões fruam já formados das fragas: eles e nós somos descendentes da prole goblinesca dos Telamones: titãs condenados a serem cariátides das estruturas mais densas do planeta e que, com o inexorável avançar do tempo, se integraram em definitivo na própria rocha. De pedra a planta e de planta a bicho. De Pedra Bruta a Pedra Cúbica. Os ritmos da selecção natural e os da matéria amalgamada no fundo do crisol são sempre os mesmos: inícios morosos que dão lugar a cadências cada vez mais aceleradas. Caminhando pelas bulhentas ruas da freguesia da Pena com a ajuda de uma bengala – tirso recheado de fogo prometeico –, o desfigurado e fedentino Anão dos Assobios é um mercurial mensageiro metassomático: é um anão que nos lembra uma idade em que andavam gigantes sobre a terra.

Mais por pseudomorfose que por pseudonímia, o Anão dos Assobios foi perfilhado como apelido pelo perverso padre José Agostinho de Macedo nos panfletos anónimos que publicava contra todos aqueles que iam em sentido contrário ao seu maníaco miguelismo anti-maçónico: a cada investida viperina chamava-lhe gaitada, em referência aos famigerados assobios do proverbial anão. Uma das mais famosas gazetilhas acusatórias, que este rival do respício poeta Bocage escreveu, intitula-se Ritornello do Pardal; impressa em 1825, quando o Anão dos Assobios tinha trinta e três anos. Mas até a este polemista setecentista, até a este vicioso “desiniciado”, o mito não foi mudo, porque o que é um ritornello senão um pequeno retorno e o que é um pardal senão uma águia anã? Este “pequeno retorno” e esta “pequena águia” evocam a alegoria desenhada por Leonardo Da Vinci, na qual pode observar-se um boi indo num barco ao retorno de uma águia coroada que tem um orbe como poleiro – e, surpreendentemente, o mastro da embarcação é uma árvore de copado prolixo. Consiste numa alegoria do princípio ctónico – o boi – transformado pelo elemento fogo – a águia – em substância humana – a coroa. Esta é que é a verdadeira riqueza guardada pelos míticos anões mineralomórficos nas furnas mais fundas da terra – tesouro tão precioso que até um anão pseudonímico tem o dever de tutelar: o talento de transmutar a pedra em carne e a carne em imaginação.

Quantos tolos perderam a razão e a vida em vã obsessão pelo ouro, em traiçoeiros enleios de territórios subterrâneos, sem encontrarem uma única pepita? Porém, o raro e valiosíssimo ouro, metal tão notável que só pode ser dissolvido pela nobre água-régia, é, afinal de contas, alienígena: não é proveniente deste planeta e só foi aqui derramado há cerca de 4 mil milhões de anos por desapiedadas tempestades de meteoritos. Nessa altura, o caroço de ferro e fogo já cá estava: ele é que é a águia bicéfila do mundo – o ouro extraterreno é apenas a auréola dourada que a circula.

Mas existe ouro dentro de nós.

Existe ouro nas estátuas que esculpimos, nos quadros que pintamos e nos livros que escrevemos – e a arte, como o ouro, é impossível de falsificar. Aquilo que produzimos de mais precioso é, como o ouro, raríssimo. Sim, há minério dentro de nós: fundações de ferro e pedra, vigas de faia e pinheiro, mas sem o nimbo refulgente que nos coroa nada disso faria sentido, por mais bem arquitectado que fosse, por mais belíssimo que se apresentasse ou por mais perdurável que provasse ser. Existe ouro dentro de nós: não somos derrelictos. Não fomos lançados no mundo sem outra perspectiva além da morte, porque através da arte – do ouro – podemos transcendê-la. Todos somos, bem vistas as coisas, Anões dos Assobios: mestres metalurgistas daquele que é o metal mais magnífico que temos, o metal mais brilhante de todos – mas quantas vezes escolhemos abandonar ou destruir os nossos melhores quilates? Quantas vezes desistimos de extrair o ouro da nossa alma, porque faz demasiado calor nessa mina profunda e a aragem aparente nos arenga com sacarinas promessas de pirite?

Quasi-ressumbrante, como se fosse feito de gelo, o esqueleto do Anão dos Assobios foi apresentado no acabado Museu de Anatomia do Hospital de São José, onde faleceu em meados do século XIX, condizentemente ao período em que a Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás instalou os primeiros vinte e oito candeeiros públicos em Lisboa – luzes que a gente intimidada logo intintulou de “luciferinas”, sem compreender o quanto essa alcunha, de facto, era adequada do ponto de vista etimológico. Diminuto, o esqueleto do Anão dos Assobios foi o Plutão do acervo de anormais ossaturas humanas, do qual fez parte a da tenebrosa Estanqueira do Loreto.

Plutão, possuidor da chave que todos os protagonistas procuram, mas que pouquíssimos são capazes de usar, é a caliginosa divindade da profundez que benzeu com o seu nome aquele que já foi o mais pequeno planeta do sistema solar, entretanto destituído dessa categoria por culpa da falta de volume: somente seis pontos decimais do da Terra – ainda mais pequeno que a Lua. Que maravilhoso magnetismo afluíu na Cintura de Kuiper, a mais de oito mil milhões de quilómetros de distância do Sol, para desovar tão grandiosa miudeza? Que sigilos guarda a crosta gelada de Plutão, a não ser gaitadas feitas de metano, nitrogénio e monóxido de carbono – atmosfera tão hadesiana quanto a do mitológico podredouro vigiado por Cérbero?

Existe ferro, aqui, no negro calcinatório do cosmos; e existe ouro, também, mais perto de nós, para lá de Mercúrio – e entre estes dois ventos, entre o fervescente Siroco solar e a glacial Nortada plutónica, estamos nós, milagrosa matéria viva: o único verdadeiro grande milagre do universo, pois que outro nome se poderá dar ao acidente em que proteínas anarquizadas deram origem a genes civilizados? Ou será que foram os genes a dar origem às proteínas? A verdade é que uns não podem existir sem os outros, por isso… Quem nasceu primeiro? O caos ou a ordem? O ovo ou a galinha? Esta cósmica diprosopia, este universal desespero é que é o verdadeiro Inferno: aquele em que o poeta florentino Dante pôs Plutão a roer as unhas; aquele em que Carlos II de Espanha babuja para cima das tripas mumificadas dos seus antepassados, arrancando os cabelos com astral pavor do porvir e assobiando ininterruptamente como se fosse uma chaleira ao lume; aquele em que, à morte do Anão dos Assobios, “setembristas” e “cartistas” se estoqueiam, esfaqueiam e espingardam uns aos outros na pequena guerra civil que ficará conhecida como a Patuleia. Tudo isto são paráfises da História; tão filamentosas e indiferentes quanto caudas de cometas.

Na paróquia da Pena perderam-se os restos mortais de Camões, a uma pedrada de distância do local onde se perderam os do Anão dos Assobios e os da Estanqueira do Loreto. Este sorvedouro de mártires da pátria é a Cintura de Kuiper de Lisboa. Aqui, a gravidade é tão rarefacta que nada persiste, nada tem hipótese de perdurar. Nem sequer o matadouro que aí fizeram no século XVI, nem sequer o manicómio oitocentista de Rilhafoles, mais tarde Hospital Miguel Bombarda, com o seu panóptico também em forma de sorvedouro. Aqui, nesta terra negra onde apenas corpúsculos são capazes de desforrar-se, de medrar, todas as hipóteses são fúteis fosforescências: luzidias e pontiagudas num imprevisto instante, mas repentinamente esvaecidas.

Faíscam em lentíssimas órbitas plutónicas, como serenas moedas no fundo de um poço. Tremeluzem tibiamente, como resíduos no fundo encardido de um crisol abandonado por um alquimista inepto.

Como chuva escorrendo pelos telhados numa manhã sem luz.

            Ruínas tornadas invisíveis pela corrosão da fantasia.

(Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense. Copyright © David Soares, Charles Sangnoir, 2012.)

sábado, 18 de maio de 2013

«Os Anormais»: «Terra Incógnita» integral


Muitas vezes, recebo por email pedidos de leitores que me perguntam se lhes posso enviar ou disponibilizar os textos de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), spoken word escrito e interpretado por mim e musicado por Charles Sangnoir: um ensaio sobre a monstruosidade e a marginalidade, erguido sobre as vidas dos indivíduos excêntricos e deformados que viveram em Lisboa, ao longo de séculos. Sem excepções, a minha resposta tem sido sempre "não", porque este trabalho foi concebido para ser ouvido e não para ser lido; contudo, porque, de facto, recebo muitos pedidos, decidi publicar os quatro textos, aqui nos Cadernos de Daath.
Assim, começo com a publicação da faixa «Terra Incógnita», primeiro capítulo do disco - acompanhado do texto integral respectivo. Em breve, seguir-se-ão os restantes.

Terra Incógnita

Quando uma cidade quer nascer, ela escolhe o local – aquilo que os homens desejam não interessa nada. A metrópole molda-se, eternamente, à semelhança de uma divindade – e na sua configuração residem todas as dimensões da vida; inclusive as invisíveis. As laborações que têm lugar dentro dos seus muramentos são momentâneas, contingentes e dialipetálicas, mas o traçado urbícola sobre as quais se extinguem, era após era, encerra persistência cósmica. Na cidade, uma cultura cunha carácter, abre alicerces, alcança esquadria e transporta-nos da selva selvagem para a civilização. O burgo é como um mundo dentro do mundo e este interjeita-se no texto da história de acordo com o protótipo cosmopolita.

Além das casas e das praças, longe da muralha feita de cheiro e ruído, difunde-se um desolado terral desconhecido: a terra ignota, denunciada pela primeira vez no ano 150 por Cláudio Ptolemeu na sua Geografia. Subúrbios umbrícolas – sílabas soltas da urdidura urbanita, habitadas por hipopótamos, elefantes e escorpiões, canibais e outros vira-casacas: «aqui há leões». Os monstros dos mapas são marginais imaginários que vinculam a fronteira entre a terra incógnita e a realidade dos indivíduos que é, em exclusivo, composta pelos territórios dominados pelo seu rei – aquele que governa, graças ao beneplácito sagrado, e cujo título substantiva as regiões conhecidas. 
 
A anatomia da realidade é influenciada por um importante conceito aristotélico, sob o qual uma coisa só existe quando a forma é adicionada à matéria: esta é passiva, prisioneira da potencialidade, e a forma activa liberta-a. Por este ponto de vista, só existem as coisas que possuem formas definidas. Mas as formas aristotélicas não são os fenótipos dos organismos e dos objectos: são os seus tipos essenciais e já contém o desígnio final. Todas procuram constantemente a nobre ideia nelas contida – e quanto mais próximas dela, mais etéreas se tornam, porque a ideia ideal é Deus: ditatorial manancial de movimento que modela o mundo à Sua imagem. Este é o significado da serpente ourobórica e do lema dos alquimistas «o uno é o todo», mas é aqui, também, que se aloja a convicção discriminante de que os deformados monstrengos, avessos às formas ideais, não têm almas, porque, segundo Agostinho de Hipona, elas têm nojo de formas imperfeitas. De formas indefinidas. No extremo, de formas anormais.

A palavra anormal significa, literalmente, sem esquadria e entenda-se que o anormal é marginal, porque não há lugar para ele no centro; daí que se oculte nas fímbrias dos mapas e nos subúrbios, onde se ocupa do papel de estandarte de perigos vários, como um vulgar sinal de trânsito. A força gravítica do centro é o ritual, nos seus mais diversos feitios, mas o anormal é, por natureza, anti-ritual, em virtude da sua essência extraordinária – extraordinária no sentido de fora da rotina. Para desenhar-se o mapa da realidade é, antes de tudo, indispensável depreender o que é a forma e o que é a falta dela. Em suma, o que é ordem e o que é caos – e como aquela pode, com facilidade, transformar-se neste. A presença no centro do anormal, esse monstro diário – trivializado –, cancela o conceito de comunidade como agregador de potência civilizacional – afronta a lei natural que assiste ao nascimento da ordem e mostra-nos um espelho que somente reflecte a balbúrdia da biologia.

No anormal, tudo é orgânico, corpóreo, elementar – grotesco. A doença, por exemplo, é um estado excepcional de anormalidade, mas o enfermo retorna saudável ao centro quando é sanado. Em oposição, a anormalidade é uma genuína irregularidade que, quando irrompe, imediatamente questiona a lei – revê-a. O indivíduo anormal é um híbrido de humano e animal, logo uma monstruosidade. É um ser interstício, como os leões dos mapas, que tanto pode evocar a pena do observador como a sua repugnância, porque nada é mais repulsivo que algo que desafia a norma; algo que se apresenta de um modo inteiramente oposto ao previsto – algo em que tom, textura e temperatura são contrários ao que era esperado.

Os mecanismos de correcção voltados contra os anormais almejam mais a sua ocultação que a sua integração. Ninguém aceita beber o próprio cuspo, vertido antes para dentro de um copo, mesmo sabendo que o fluído é seu e que não contactou, em momento algum, com agentes poluentes: uma vez proscrito – descentrado – o elemento anormal, seja ele qual for, humano ou não-humano, nunca poderá regressar ao local de onde procedeu. A verdade é que quando as cidades são iluminadas pela glória do seu deus, que nem a Jerusalém Celeste – local restrito de bem-aventurança –, nelas não entrará ninguém considerado impuro, mas unicamente quem estiver inscrito no Livro da Vida do Cordeiro.

Só os inscritos poderão entrar – nunca os proscritos.

Sob as resplandecentes muralhas de jaspe da Jerusalém Celeste, incrustadas de berilo, safira, ametista e sardónica, erguem-se as – nada celestes – barracas dos excluídos: bairros da lata do sagrado onde a anormalidade, conspícua, quase se torna normal.

Vamos visitar os volutabros imaginais de Lisboa.

Vamos ver que anormais ela excluiu para a cercania – para os arrabaldes dos anais. Não será tanto etnologia, como reologia, pois falamos de gente deformada que foi repassada e escoada pela memória da história, mas como observar essa memória e essa história? De acordo com os fundamentos da “história total”, propostos por Braudel e, antes dele, por Michelet?

É melhor confiar na diacronia.

É melhor assumir que, tal como astrónomos, estamos a olhar para luzes pré-históricas, emitidas por estrelas extintas.

Estrelas defuntas como o desgraçado setecentista Gracioso das Bexigas que, com as suas patetices e o incessante berro de «arre-burrinho», regalava os transeuntes nos dias de procissões. Estrelas defuntas como o Poeta de Xabregas, obeso frade mariano que, em meados do século XVIII, agarrando um relicário e uma imagem da Virgem, andava de tasca em tasca a reclamar contra as touradas que roubavam público às missas: «está tudo com os cornos e a Casa de Deus sem ninguém», vociferava para gáudio da garotada e dos inebriados. Estrelas defuntas como o infeliz pai que, no século XIX, arrastava todos os dias o filho doente de igreja em igreja para assistirem ao maior número possível de sacramentos: debilóide, o rapazinho anexava o seu riso aos dos múltiplos paroquianos que troçavam do homem, apelidando-o de Papa-Missas, e, virando-se para o pai, gritava repetidas vezes «não é Papa-Missas, é Papa-Merda». Estrelas defuntas como as infelizes irmãs órfãs Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, que, em meados do século XIX, depois de serem exploradas até à exaustão por um canalha desprezível que lhes deu a ridícula alcunha, tornaram-se injustamente no arquétipo da dondoca, antes de morrerem de fome na maior das misérias. Estrelas defuntas como o inexplicavelmente indigente José das Caixinhas, o Mano das Manas, sujeito magérrimo, escalavrado e esfarrapado, que vendia lindíssimas caixas coloridas feitas com arte em cartão e papel encontrados no lixo. «É para as manas, muita pobreza», apregoava: «comprem que é para as manas». Quem eram as manas? Ninguém sabia – e, a quem lhe perguntava, o Mano das Manas somente respondia: «estão muito doentes… Muito trabalho. Muita miséria». Ninguém acreditava nele e riam-se-lhe na cara, desprezando as fabulosas caixinhas multicolores que ele acarretava penosamente às costas, sem nunca as amarrotar; às vezes, até aos últimos andares dos prédios mais altos, à procura de clientes. E, no entanto, as manas – duas – existiam mesmo: no número 22 da Rua do Carrião, na freguesia de São José. Foram descobertas, já falecidas de fome, pouco tempo depois do Mano ter morrido e deixado de sustentá-las com o artesanato amoroso.

Vergonha, amargura, tristeza. Plangências profundas que envolvem os espíritos.
Que cidade é esta?

Esta não é a Lisboa que nos foi prometida à esplêndida portada, feita de jaspe.

Estas não são as personagens castiças do folclore que ela engendra para gazofilar turistas.

Há angústia autêntica aqui. Mensagens de sofrimento real, escrevinhadas no pó. Dor e raiva verdadeiros – espremendo corações nos peitos.

Quando uma cidade quer nascer, ela escolhe o local – aquilo que os homens desejam não interessa nada. A metrópole molda-se, eternamente, à semelhança de uma divindade – e na sua configuração residem todas as dimensões da vida; inclusive as invisíveis.

E nós estamos no invisível cosmos dos anormais.

Um Inferno inescrutável.

Antes de chegarmos, nada perturbava este espaço morrinhento, mas agora é possível distinguir dois distantes lampejos que nos iluminarão o caminho. Despertámos duas melancólicas presenças do passado que, como dois quasares que o vácuo não teve forças para apagar, possuem luz suficiente, balastro memorativo suficiente, para serem a voz de todos aqueles que já a perderam. Para serem nossos Virgílios.

A escuridão dilui-se à aproximação destas luzes inseguras. Os contornos indistintos dos séculos transactos acentuam-se, como estampas talhadas de fresco. Passando o estável proscénio em que nos achamos, vamos cobrir os narizes e avançar para estes pestíferos panoramas.

            O que é isto? Está?… Está a chover?!...


(Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense. Copyright © David Soares, Charles Sangnoir, 2012.)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Essa voz fala connosco



«A jarreta e repugnante Estanqueira do Loreto, calhandro com voz de sirena das excreções mais abomináveis, é Helena, a belíssima esposa de Menelau, rei de Esparta, prometida por Afrodite ao tíbio Páris e efectiva semeadora do pomo erístico da discórdia que despertou o derribamento da cidade de Tróia. É Helena, a luminosa mãe do imperador romano Constantino, salvadora dos destroços do Santo Lenho que, no século IV, em peregrinação à cidade galileia de Nazaré, encontrou intacto o humilde casebre em que Maria nasceu e mandou edificar uma basílica que o albergasse. Esta barraca inteira dentro do invólucro que é o novo templo, qual pérola dentro de uma ostra, é que é a Santa Casa do Loreto: aquela que, carregada por anjos através do Céu nos desenhos mais delirantes dos dominicanos, se alicerça sempre nos locais mais lastimosos. O estanco de Helena é esta casa de cura: úvula valiosa, envolvida pelo vil véu palatino que são os destroços mariálvicos, assolados pelo sismo e pelo abrasamento – e tal como na lenda da Santa Casa do Loreto a representação de Maria resiste imaculada a abalos e a incêndios, que nem uma gota de espermacete cingida pela corrupção, a estanqueira olisiponense persiste incólume numa imaginal tabacaria: um rosto beatífico, de tão monstruoso que é – carantonha que faz gargalhar os poetas, mas cuja riqueza de voz torna paupérrimos os versos deles.

Essa voz fala connosco.

Diz-nos que há pureza entre a escória e a escumalha; diz-nos que há definição entre a desordem e o desespero – diz-nos que se procurarmos atentamente, se olharmos sem receio à nossa volta, veremos que na mesma valeta onde se abatem os cães também desabrocha aquilo que os homens encerram de mais cintilante, porque no meio do breu refulge a crosta estéril da Lua – e, afinal, o nome da Estanqueira do Loreto, gema soterrada na turfa delinquente, é Helena: palavra que significa Lua. A Lua tripartida em Crescente, Plenilúnio e Minguante nos avatares de Virgem, Mãe e Velha – pintadas com supranaturalismo pelo artista alemão Hans Baldung Grien, em 1510: vaidosas e alheias à proximidade da Morte. Mas será a Lua um astro tão supérfluo quanto a vaidade? Uma moeda falsa com a qual somente se compra a loucura e a licantropia? 

Sem a ascendência gravítica da Lua, torpe satélite que se apresenta eczemático no velo nocturno, nunca se teria agitado as águas primordiais: foi ela o pilão babayaguiano que revolveu a matéria no almofariz que é o globo e que impediu que os ingredientes da vida sedimentassem infecundos no fundo dos oceanos. Sem a Lua, arrancada da própria Terra, há cerca de cinco mil milhões de anos por uma bestial colisão com um corpo astral do tamanho de Marte, nenhum de nós existiria e o mundo seria como a Lua: um infrutífero planeta, magoado por máculas magmáticas. Sem ela, o orbe seria uma árida Aceldama: espaço horripilante de ausência e desolação, eternamente sôfrego por intestinos e cinzas. Mas foi Helena, criadora da Santa Casa do Loreto, quem se lembrou de usar a terra hostil de Aceldama para construir, para dar moradas pacíficas aos mortos… Ela é Helena, claro, como já vimos, mas também Selena, irmã do Sol: amante de pastores como Endímio e Elmano, musa de poetas como Bocage e Camões, e cujo nome significa…

               Luz
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Eles trazem ouro. Trazem ouro nas almas.


«Aqui, a realidade não é a dominada pelos reis, nem a demarcada por racimosos reinos a eles consagrados pelos navegadores pós-medievais, mas a de um vastíssimo continente impossível de cartografar e onde convergem desiguais grandezas de lengalenga e fantasmagoria. Há música aqui, arreigada às vozes destes mortos simultâneos que parecem falar num prolépsico dialecto que soa a preguear de penas e brindes em copos de cristal. E, sobre todos, sobre a estupefacção esperançosa que os anima, está o Sol só deles.


O Sol invicto.

Invicto pelo sarcasmo e pela sordidez, mas também invicto pela violência e pela injustiça. Um Sol perfeito para uma insólita e rutilante ocasião; comburente e, por isso, inapreciável. Olhando para além das mulheres, dos homens e do asno, é possível ver que, como fósseis outrora cativos por grades estratigráficas ainda mais fundas, muitos outros anormais de Lisboa se aliaram à invencível convocação.

Antes dos anormais entrarem novamente em Lisboa, sem terem a certeza de que voltam para ficar, o trofoneurótico Mano das Manas aproxima-se de nós e oferece-nos com amabilidade uma caixinha de papelão pintado: as suas mãos aleijadas são pútridas, consumidas pelos sarcofamintos, mas a caixa resplandece com a luz imensa do Sol Invicto em escalas mais excelsas que as das jóias da Jerusalém Celeste. A pulcritude desse presente é tremenda – chamejante – e espiritualiza-nos os corações.

             Eles trazem ouro. Trazem ouro nas almas.»

(De «Sol Invicto» em «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense», spoken word escrito e interpretado por David Soares e musicado por Charles Sangnoir.)
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Aleister Crowley: 1 de Dezembro de 1947



Além de ser o Dia da Restauração da Independência de Portugal, 1 de Dezembro também é a data da morte do mago inglês Aleister Crowley (no ano de 1947). Para lembrar esse homem tão incompreendido - não foi satanista, ou satânico, por exemplo, como tantas vezes aparece descrito na comunicação social sensacionalista -, cujas crenças pessoais até o aproximavam do ateísmo, partilho a minha leitura de um excerto do meu romance «A Conspiração dos Antepassados» (Saída de Emergência, 2007), no qual ele, juntamente com Fernando Pessoa, é protagonista.

domingo, 4 de novembro de 2012

Nova entrevista


O leitor Paulo Brito teve a amabilidade de me convidar para fazer uma entrevista sobre o meu trabalho e colocou-me perguntas bastante interessantes que serviram de ponto de partida para uma conversa de fundo. Agradeço ao Paulo as suas perguntas e publico a ligação para a entrevista: https://www.facebook.com/notes/paulo-brito/david-soares-a-entrevista/424802574239647

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

«Os Anormais» disponível no 23º Amadora BD


Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, spoken word com textos e voz meus e música de Charles Sangnoir, vai estar disponível durante o 23º Amadora BD no stand da livraria Dr. Kartoon e amanhã, entre as 17H00 e as 19H00, eu estarei no espaço dos autógrafos para personalizar essa e outras obras minhas. Fica a ligação para ouvirem o segundo capítulo de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, intitulado O Plutão da Pena, assim como um excerto desse texto: http://necrosymphonic.bandcamp.com/track/o-plut-o-da-pena
«Enroupado de lã preta, o Anão dos Assobios da paróquia da Pena é um hodierno e cinocefálico Tibicena que sopra arcanos por Lisboa naquilo a que os comerciantes ingleses chamam de “assobios-de-lobo”: estrídulas gaitadas produzidas com os dedos enfiados na boca.

Quem são estes anões cuspidos pelo ventre da terra?

Para que participações plexiformes foram projectados?

Amoldados na forja de Hefesto, vejam-nos emergir desse estrato plutoniano em períodos de pestilência e guerra. Os assobios deles mimam os esguichos gasosos solfejados por extrusivas salpinges vulcânicas: comunicações de silfos do submundo de buchos cheios de ferrugem – a língua de animais com ferro na alma, pois estas criaturas fenocristalóides assenhoreiam a arte de extrair metais dos minérios: o magistério metalogénico.

Na mitologia norte-europeia, os anões, seres sapudos que povoam as partes privadas das serranias, apresentam-se como mestres metalúrgicos; tropo transmitido até aos nossos dias pelo mago suíço Paracelsus que, no século XVI, criou a – até aí inédita – figura do gnomo: elemental imaginário que reside nas cavidades intestinas e é capaz de passar por paredes de pedra. Segundo Paracelsus, os gnomos, cuja etimologia por ele inventada significa habitantes da terra, evitavam a companhia dos homens, mas nas Eddas, escritas pelo historiador islandês Snorri Sturlson, os homens são criados, justamente, pelos anões: o homem e a mulher originais – Ask e Embla –, feitos de terra e casca de árvore. Os gnomos paracelsianos são os ínfimos humanóides que, nas histórias infantis, se encovam no mundo quotidiano. Há magia velha por trás dos rodapés, por baixo dos tapetes e entre as ervas mais altas dos jardins – existem espíritos milenares entre as nossas almas bebés: e quando finalmente perecem, cansados de carregarem tanta sabedoria, convertem-se em árvores; como aquela em que foram talhados Ask e Embla.

De acordo com a dendrolatria pré-diluviana, já tivemos corpos vegetais: existem ecos da jornada de preguiçosa vida vegetal para impetuosa vida animal no espantoso livro Hypnerotomachia Poliphili do dominicano italiano Francesco Collona; existem ecos desta ligação dendrológica nas mitocôndrias que residem nas nossas células e na hemoglobina que, pasme-se!, pode encontrar-se nos caules mais carnudos das plantas. Existe ferro nos veios das montanhas e nas nossas veias… Não é a toa que, nas lendas de outrora, os anões fruam já formados das fragas: eles e nós somos descendentes da prole goblinesca dos Telamones: titãs condenados a serem cariátides das estruturas mais densas do planeta e que, com o inexorável avançar do tempo, se integraram em definitivo na própria rocha. De pedra a planta e de planta a bicho. De Pedra Bruta a Pedra Cúbica. Os ritmos da selecção natural e os da matéria amalgamada no fundo do crisol são sempre os mesmos: inícios morosos que dão lugar a cadências cada vez mais aceleradas. Caminhando pelas bulhentas ruas da freguesia da Pena com a ajuda de uma bengala – tirso recheado de fogo prometeico –, o desfigurado e fedentino Anão dos Assobios é um mercurial mensageiro metassomático: é um anão que nos lembra uma idade em que andavam gigantes sobre a terra.»

terça-feira, 2 de outubro de 2012

«A Lua do Loreto» na Biblioteca Municipal Camões


A interpretação de A Lua do Loreto, por David Soares e Charles Sangnoir, na passada sexta-feira, dia 28, na Biblioteca Municipal Camões, durante a apresentação do disco de spoken word «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012).

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

«Os Anormais» na revista LOUD nº 139.

Excelente crítica a Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, de David Soares e Charles Sangnoir (Necrosymphonic Entertainment/raging planet, 2012) na revista LOUD! deste mês.
Podem ouvir e adquirir o disco nesta ligação: http://necrosymphonic.bandcamp.com/album/os-anormais



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

«A Lua do Loreto» em «Os Anormais»


A repugnante Estanqueira do Loreto é outra das personagens principais de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, o meu novo disco de spoken word, com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir (La Chanson Noire).

Dona de um estanco setecentista (hoje diz-se tabacaria) construído nos insalubres Casebres do Loreto (as ruínas do Palácio dos Marqueses de Marialva, outrora situadas no local onde hoje se encontra a Praça Luís de Camões), a deformada Estanqueira foi alvo das partidas e das chacotas cruéis da populaça e dos poetas, acabando a vida no vizinho Largo do Calhariz, no início do século XIX, em condições miseráveis de desumanidade. Em meados desse século, a Estanqueira já adquirira aura de criatura lendária e tornou-se, até, ícone de produtos relacionados com o negócio do estanque, como comprova a pintura da tampa de uma caixa de rapé que pertenceu ao rei D. Pedro V e que se encontra na imagem acima.

Em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, a desfigurada Estanqueira do Loreto é a Lua desse universo composto por indivíduos marginalizados: antropomórfica pietra del paragone que, entre a escória dos Casebres do Loreto, revela-nos o verdadeiro ouro oculto na nossa alma.
Nesta ligação, na qual o disco se encontra à venda, poderão ouvir o capítulo A Lua do Loreto: http://necrosymphonic.bandcamp.com/track/a-lua-do-loreto

A apresentação de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense será na próxima sexta-feira, dia 28, às 19H30, na Biblioteca Municipal Camões: lugar preenchido de significado, pois situa-se no Largo do Calhariz, onde a Estanqueira do Loreto terminou os seus dias.
Marquem nas vossas agendas, passem a palavra e apareçam: Charles Sangnoir tocará ao vivo, num lindíssimo piano oitocentista, enquanto eu, numa sessão de necropsia psicogeográfica, interpretarei A Lua do Loreto, em memória da Estanqueira e de todos os "anormais" que viveram em Lisboa.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Entrevista no programa Livraria Ideal


A entrevista que dei a João Paulo Sacadura no meu regresso ao programa Livraria Ideal (TVI24) já se encontra disponível para visualização nesta ligação: http://www.tvi24.iol.pt/programa/3494/90

Uma retrospectiva de todos os livros que escrevi nos últimos dois anos e meio, assim como a apresentação do meu trabalho mais recente: o disco de spoken word «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» (este com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir, de La Chanson Noire).

sábado, 22 de setembro de 2012

«Os Anormais»: O Plutão da Pena


A apresentação do meu novo disco de spoken word, Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (texto e voz meus e música de Charles Sangnoir, de La Chanson Noire), observação erudita, simultaneamente tenebrosa e luminosa, sobre os volutabros imaginais de Lisboa, nos quais habitaram os indivíduos excêntricos e deformados que, neste trabalho, são reunidos sob a designação colectiva de "os anormais", será no próximo dia 28 (sexta-feira), às 19H30, na Biblioteca Municipal Camões. Este equipamento cultural emerge com uma significante importância simbólica, posto que se situa no Largo do Calhariz: nódoa psicogeográfica em que uma das personagens principais do disco, a horrenda Estanqueira do Loreto, acabou, miseravelmente, os seus dias.

Mas outra personagem importantíssima para este título é o Anão dos Assobios: indivíduo singular que, passeando pela zona mais movimentada da cidade, assustava os distraídos com assobios estridentes que produzia com dois dedos enfiados na boca. Os esqueletos do Anão dos Assobios e da Estanqueira do Loreto foram exibidos ao público no Museu de Patologia do Hospital de São José, na freguesia da Pena, e, hoje, os seus paradeiros permancem envoltos em mistério.

Em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, o rigor histórico entretece-se com o hermetismo e o meu universo autoral para, a partir destas e outras personagens, interrogar temas como a marginalidade e a nossa necessidade de transcendência.
Nesta ligação, na qual o disco se encontra disponível para venda, poderão ouvir o capítulo O Plutão da Pena, alusivo ao Anão dos Assobios: http://necrosymphonic.bandcamp.com/track/o-plut-o-da-pena


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nova data para a apresentação do disco «Os Anormais»

 

A apresentação do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense será no dia 28 (sexta-feira) às 19H30 na Biblioteca Municipal Camões.

Spoken word com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir, sobre os indivíduos excêntricos e deformados que viveram em Lisboa, ao longo dos séculos. Uma viagem simultaneamente negra e luminosa aos volutabros imaginais de Lisboa, na qual se entretece universo autoral, rigor histórico e hermetismo.

O disco encontra-se disponível para audição e venda nesta ligação: http://necrosymphonic.bandcamp.com/album/os-anormais

sábado, 1 de setembro de 2012

«Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» à venda a partir de hoje


Já é dia 1 de Setembro, a data oficial de edição de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (spoken word erudito com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir) e este disco está, a partir de hoje, à venda. Em breve, poderão encontrá-lo nas lojas, mas o site da editora já o disponibiliza: http://necrosymphonic.bandcamp.com/album/os-anormais


terça-feira, 28 de agosto de 2012

«Terra Incógnita», o primeiro capítulo de «Os Anormais» + Pré-venda


Terra Incógnita, o primeiro capítulo de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, já está disponível integralmente para audição no site da editora Necrosymphonic Entertainment: http://necrosymphonic.bandcamp.com/track/terra-inc-gnita

Na mesma página, também se encontra disponível a ligação para pré-encomendas do disco. Spoken word erudito com textos e voz meus e música de Charles Sangnoir (de La Chanson Noire), este título é uma viagem mágica que vai transformar as vossas almas. Atrevam-se, pois, a convidar «Os Anormais».

Uma edição conjunta Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet.

sábado, 25 de agosto de 2012

Trailer de «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense»


Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, spoken word com textos e voz meus e música de Charles Sangnoir (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet) chegará às lojas a partir de dia 1 de Setembro, mas, até lá, podem ver o trailer: atrevam-se a visitar os volutabros imaginais de Lisboa. Nunca mais os esquecerão. Uma viagem erudita, simultaneamente tenebrosa e luminosa, cheia de personagens reais e fascinantes, como o Anão dos Assobios e a Estanqueira do Loreto. 


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Pré-venda de "Os Anormais" + vencedor do passatempo


Obrigado a todos os participantes no passatempo que promovi, aqui nos Cadernos de Daath, no qual podiam ganhar um exemplar de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense: spoken word com textos e voz meus e música de Charles Sangnoir, de La Chanson Noire (uma edição conjunta da Necrosymphonic Entertainment e da Raging Planet).
As respostas certas às perguntas são, respectivamente, 1) Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes e 2) Cabaret Portugal. A vencedora do passatempo foi a leitora Susana Borges: parabéns!

Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense chegará às lojas a partir do dia 1 de Setembro, mas encontra-se, a partir de hoje, disponível para pré-venda. Quem desejar pré-encomendar um exemplar pode fazê-lo, por exemplo, a partir desta página das edições Saída de Emergência: http://www.saidadeemergencia.com/produto/-o-202434/os-anormais-necropsia-de-um-cosmos-olisiponense/