terça-feira, 18 de novembro de 2008

Chegar a Lisboa

O companion para o meu novo romance, Lisboa Triunfante, está disponível para download gratuito através do site das edições Saída de Emergência.
Trata-se de um trabalho que colige apontamentos que apresentam os diversos temas e personagens do livro, sem conter elementos que possam revelar pormenores sobre o enredo: ou seja, tanto pode ser lido por quem já conhece o romance, como por quem ainda o vai descobrir.

«Desembarcando com um nó na garganta como se fosse Santa Úrsula trespassada na goela por uma seta, Antónia pensou que talvez pudesse cantar se o gorgomilo apertado não a deixasse falar; afinal, as visões surgiam-lhe na mente legendadas em verso. A trilha musical seria a algazarra que tanto confundia os estrangeiros acabados de chegar à cidade: o ruído contínuo dos carrilhões das capelas; das campanas das cabras; dos guizalhos dos burros; dos martelos nas quilhas nos barcos em reparação; do ranger das rodas das carretas pelos pavimentos de terra batida; dos cinzéis dos canteiros; dos vaticínios das peixeiras na Pampulha e dos vendedores de hortaliça no Mercado da Ribeira. Olhando de esguelha para o céu, os sapateiros batiam solas debaixo dos fórnices das igrejas, sob a protecção de santos deteriorados.
Empurrada pelo clérigo que continuava a enxugar o pus com o paninho, ela desceu da prancha de desembarque e passou por um bloco de pedra bruta em que alguns marinheiros estendiam roupa molhada – todo o cais fazia lembrar um acampamento. Um tocador de realejo com o mono ao ombro passou perto da linha da água e cuspiu para o mar. Um preto velho estava a ser arrastado pelos pulsos por dois soldados que o queriam embarcar à força; o homem chorava e berrava “Como vou sustentar a minha família se me puserem fora da cidade? Duas refeições por dia e um tecto é tudo o que peço.” Impressionada pela violência, a mulher não se apercebeu da presença de um mendigo que se aproximara de Leal para lhe pedir uma esmola. O prior deu-lhe cinco réis, mas exigiu troco: o pobre agradeceu com uma vénia e apressou-se a devolver-lhe a diferença.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Três: "O Reino do Sol".)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lisboa Triunfante: a partir de hoje nas livrarias

O meu novo romance, Lisboa Triunfante, estreia-se hoje nas livrarias.
Se têm acompanhado Os Cadernos de Daath, já sabem que a edição conta com duas capas diferentes, dedicadas às personagens principais: a Raposa e o Lagarto.

Trata-se de um livro que conta a história da rivalidade que existe entre essas duas figuras e o modo como ambas usam a cidade de Lisboa para alcançar os seus objectivos (antagónicos); em tangência, fala-se de outras rivalidades: daquela que existe entre a cultura erudita e a cultura popular; ou entre mulheres e homens; e mesmo entre a religião e a imaginação.

Desde a pré-história até aos nossos dias, o enredo de Lisboa Triunfante contém personagens como Aquilino Ribeiro (escritor e revolucionário), D. João V (o nosso "Imperador do Ocidente"), Frei Gil de Santarém (o nosso "Doutor Fausto") e Mestre Boytac (mestre de obras de D. Manuel I e arquitecto do Mosteiro dos Jerónimos).

É, em essência, um livro sobre escolhas perigosas, lutas secretas e o modo como a História é feita de Horror e Fantasia.
É, também, sobre alguns animais que falam, sobre alguns homens que não pensam e sobre uma cidade que vive para sempre.


sábado, 15 de novembro de 2008

Portas para o Céu e para o Inferno

«Avançaram em silêncio pelo caminho poeirento; esburacada pela escuridão, a nuvem de pó levantada pelos cascos dos burros dispersou-se sobre a erva como um grupo de estrelas desmaiadas. Os viajantes viram meia-dúzia de casebres encostados à muralha e vários ovis com carneiros à frente deles; ao contrário dos porcos, que comiam os restos atirados para as ruas, esses animais eram demasiado preciosos para andar à solta. Os pastores que moravam naquelas casas miseráveis, mais os agricultores que viviam para os lados do Mosteiro de São Vicente de Fora, haviam sido recrutados para reparar um troço da muralha que tinha derrocado, o que não ajudava a dissipar o sentimento de inferioridade que sentiam diante dos habitantes do espaço intramurado; um porta-voz fizera queixa a D. Afonso III sobre a humilhação em que consistia a prestação da anúduva, que, ainda por cima, interrompia os trabalhos dos campos sem os quais a cidade não podia subsistir, mas ninguém sabia se o rei aboliria esse imposto. Valadares e Guterres aproximaram-se do arrabalde contíguo à Porta do Sol, cujas casas formavam uma via chamada pelos cidadãos de Rua da Porta do Sol, e observaram as construções de madeira: só podiam ser sustentadas pela vontade indómita de algum génio doméstico descendente dos lares romanos porque eram tão assimétricas que os dois homens obrigaram os burros a andar mais depressa com medo que elas lhes caíssem em cima. Aproximaram-se da Porta do Sol e Valadares percebeu que o cheiro desagradável derivava da esterqueira para a qual os cidadãos despejavam os detritos; não deveriam estar longe desse local isolado onde os bandidos se escondiam durante o dia, o que significava que era arriscado andar sozinho àquela hora. Esticando o braço, o frade puxou a corda para chamar o porteiro; nas proximidades da porta uma figueira enorme servia de abrigo a três andrajosos que dormiam: a passagem para a cidade custava caro e nem toda a gente que se deslocava a Lisboa conseguia entrar. Instantes depois, o porteiro abriu um postigo e observou os visitantes. Perguntou-lhes ao que iam e o que é que traziam.»

«Descobriu um esqueleto encostado ao altar e aproximou-se dele. Parecia ter pertencido a um homem entroncado e deformado: os ossos, pretos como pedra, estavam desmontados, mas distribuídos com minudência de modo a montar a estrutura óssea como ela deveria ter sido. Valadares sentiu-se confundido pelo crânio volumoso e pelo grossíssimo ressalto sobranceiro às órbitas. Enrolado nas clavículas, encontrava-se um cordel com um boneco de osso. Valadares inclinou-se para o examinar. Parecia… Parecia ser uma raposa!... (...) Nesse instante olhou para a parede e gemeu.
(…)
O rosto horrendo do Cristo Lagarto, encortinado pelo fulgor fulvo daquela pedra oculta no interior da terra, possuía um poder fascinante. Nesse momento, o frade notou um movimento inesperado pelo rabo do olho. Olhou para o lado e viu um lagarto sair de um buraco no chão.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Cinco: "Pythonomorpha Pentadactyla".)
Nas livrarias a partir de 17 de Novembro. Uma publicação das edições Saída de Emergência.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Fantasia

«Usando o guarda-chuva como um cajado, Aquilino continuou a subir. A tarde escurecia e ele sentou-se debaixo de uma árvore. Tirou uma sanduíche de chouriço, enrolada num pano verde, do bolso do casaco. O chouriço tinha pouca gordura e o pimentão picava na língua; o pão que já começara a enrijecer estava a deixar-lhe a camisa preta cheia de farinha. Lamentou não ter trazido um livro para ler.
Estava sentado num altinho de onde abarcava um vasto horizonte sobre a cidade. Estreitando a vista podia decifrar os contornos da outra banda; à sua volta o vento rinchante abanava a copa das árvores. Não se descobria vivalma; só os rumores próprios dos bosques: o ramalhar da erva; dois ramos secos a baterem um no outro – tactac – uma bolota que caía.
Então, passo a passo, entre os arbustos, como se deitasse o olho ao chouriço, apareceu uma raposa.
Aquilino não a viu romper da vegetação.
O bicho aproximou-se com orelhas altivas; baixando a cabeça, desconfiado, e farejando com o focinho fino. Assim que a viu, Aquilino matou um soluço de surpresa e deixou-se estar quieto. A raposa ergueu a cabeça e olhou para ele: era um animal pequeno, magrinho, de pêlo arrepiado pelo vento. Devagarinho, Aquilino retirou uma rodela de chouriço de dentro do pão e descaindo a mão com gentileza atirou-a à raposa. Ela seguiu a morcela bamboleante com o olhar, mas não se mexeu, continuando a olhar para Aquilino com a cabeça alta.
‘Olha a minha catita’, disse Aquilino com suavidade. ‘Come, linda, come.’
A raposa girou as orelhas e inclinou a cabeça.
O cheiro da carne tentou-a a dar um passo em frente. Aquilino não se mexeu. Vagarosamente, a raposa lambeu o beiço: o focinho afilado, talhado em malícia pura e sonsice, que a saliva anediava. No afago da sombra, sobre a erva fria, a raposa filou a rodela de chouriço e mordiscou, piscando os olhos de satisfação. Aquilino sorriu e procurou uma rodela menos esburgada para lhe oferecer. Atirou-a e a raposa apanhou o naco no ar com um pinote. Aquilino estava a divertir-se.
‘Raposeta vermelheta’, disse, sorrindo. ‘De onde és tu, santinha?’
Entretido, Aquilino falou com a raposa – e, naquele fim de tarde em Lisboa, a poucas horas do espectáculo de fogo-de-artifício, viu algo extraordinário acontecer: entretida, a raposa sorriu para ele.
Olhos amarelos semicerrados numa careta inteligente – o focinho arregaçado num sorriso: um sorriso humano.
Confundido, Aquilino franziu o sobrolho e olhou-a com mais atenção. A ilusão de óptica desapareceu e a raposa voltou a apresentar uma aparência comum: tinha sido uma fantasia insignificante; um truque produzido pela luz moribunda. A raposa mordeu mais uma rodela de chouriço que Aquilino lhe atirou e foi-se embora engolfando-se nos arbúsculos.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Dois: "Fantasia". Edições Saída de Emergência.)

Nas livrarias a 17 de Novembro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lançamentos da Canto Escuro (mas às claras)

A editora Canto Escuro, do poeta Vítor Vicente, irá lançar dois novos livros no próximo sábado, dia 15: Grafipoesis de Rui Carlos Souto e Odes de Ana Salomé. As apresentações terão lugar na Livraria Trama, às 17H00 (ao Largo do Rato em Lisboa, na Rua São Filipe Nery, nº25B).
Souto já deu à estampa o livro A Poesia dos Pequenos Insectos (Canto Escuro, 2006) e Salomé publicou o livro Anáfora (Edições Pena Perfeita, 2006).

Mas não é tudo: em conjunto, será lançado o novo livro de Vítor Vicente, intitulado Histórias com Pénis e Cabeça, numa publicação das Edições Mortas. (A capa é da autoria de Ana Biscaia.)
Quem está familiarizado com a poesia e a prosa do Vítor terá mais uma oportunidade para levar para casa um novo trabalho que é, simultaneamente, divertido, sensível e que faz pensar. Para aqueles que ainda não conhecem o registo acutilante do autor de As Noites Contadas ou O Tríptico do Narciso, fica o convite para aparecerem (ouçam a entrevista que o Vítor deu a Gilda Castro da TV Universitária de Uberaba, aquando da publicação no Brasil de As Noites Contadas pela Editora O Clássico, que vale a pena).

Consultem o weblog da Canto Escuro e o site das Edições Mortas para saberem mais pormenores destes lançamentos.
Apareçam!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fungágá da bicharada



O booktrailer do novo romance de José Saramago: A Viagem do Elefante. O livro já se encontra nas livrarias, numa publicação da Editorial Caminho.

***

Parece que Novembro será um mês no qual a bicharada vai tomar de assalto as livrarias: começa com um elefante, mas podem crer que, no dia 17, uma certa raposa e um certo lagarto também vão fazer das suas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Apresentações no FIBDA

É já no próximo sábado, dia 8, que a Kingpin Books vai apresentar, às 16H00 no auditório do Fórum Luís de Camões (local que acolhe a 19ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora), o primeiro volume de A Fórmula da Felicidade: história de banda desenhada, escrita por Nuno Duarte e desenhada por Osvaldo Medina. A apresentação contará com as presenças dos autores e do editor Mário Freitas.

«Filho de uma vendedora hippie de marijuana e de um pedaço de vinil de um álbum de Jimmy Hendrix, a vida de Victor, um jovem génio enterrado algures no Baixo Alentejo, ganha um novo alento quando descobre a fórmula matemática da felicidade.»

A Fórmula da Felicidade é um álbum com uma arte fabulosa, cortesia de Medina, e estará disponível em breve.

E no domingo seguinte, às 18H00, no auditório do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), Leonardo de Sá, estudioso de banda desenhada, irá apresentar o seu novo livro: uma biografia sobre o autor António Cardoso Lopes Júnior, mais conhecido pela alcunha de Tiotónio; fundador do mítico jornal de BD O Mosquito (1936). O livro faz parte da colecção NonArte, editada pelo CNBDI.

Duas boas razões para visitarem o FIBDA (e o CNBDI) no último fim de semana de exposições.

Michael Crichton morreu

O escritor norte-americano Michael Crichton morreu na passada terça-feira, com sessenta e seis anos, depois de vários anos a lutar contra um cancro.

Só li um livro de Crichton (o famosíssimo Jurassic Park), há muitos anos, mas lembro-me que, nessa altura, fiquei surpreendido com o modo como o autor conseguia criar um ambiente intenso com muita facilidade e, mais que isso, como não se esquivava de descrever cenas violentíssimas naquilo que era um livro mainstream. Também me lembro de ter visto na televisão, quando era miúdo, o filme Westworld, escrito e realizado pelo próprio Crichton, e de o ter achado fantástico.

Nos últimos anos, o escritor viu-se envolvido em algumas controvérsias, em virtude das suas opiniões impopulares sobre temas como o aquecimento global. Deixo-vos com uma entrevista que ele deu a Charlie Rose, aquando da saída do romance Next. Vale a pena.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vintage? Qual vintage, qual carapuça!

A revista LER deste mês traz uma excelente entrevista (e de muita piada) com Miguel Esteves Cardoso: não percam!

«Outra mentira é dizer: "Ai, o meu próximo livro é que vai ser o melhor". As pessoas têm de manter aquela ficção de que vão melhorando com a idade. Isso é uma ficção terrível. Toda a gente sabe que é quando se é novo que se escrevem os melhores livros.»

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sugestões para o Dia das Bruxas

Com tantas cegadas pagãs que nós temos, lá tivemos de importar o Dia das Bruxas, como é festejado de acordo com o modelo norte-americano... Este ano vou-me mascarar de quê? Enquanto não me lembro de nada que valha a pena fazer-me sair do sofá, deixo-vos com duas sugestões de meter medo ao susto.

A primeira é a exposição Endoscopia do Medo, que é inaugurada daqui a umas horas (19H00) na Galeria Articula, em Alfama. Trata-se de uma mostra de peças de joalharia, inspiradas no tema do Horror, produzidas no âmbito de um concurso de ourivesaria organizado pelo Cineclube de Terror de Lisboa durante o pretérito MOTELx 08. As jóias foram criadas por finalistas da Escola Secundária de Ensino Artístico António Arroio.

Nenhuma profissão actual evoca sentimentos de angústia e desespero tão fortes quanto a de professor e, à chegada do Dia das Bruxas, período em que essas emoções adquirem maior cunho libertário, recomendo uma ida ao cinema para verem A Turma, o novo filme de Laurent Cantet (Recursos Humanos, O Emprego do Tempo).
Consiste num misto de documentário e ficção, cujo enredo se desenvolve em órbita de uma turma vulgar numa comum escola secundária de um bairro problemático de Paris. Baseado no livro Entre Les Murs de François Bégaudeau (cuja edição em português será assegurada pela Dom Quixote), o filme continua a progressão do cinema de Cantet, todo ele centrado no drama entre o indivíduo e a instituição, e foi premiado com a Palma de Ouro na passada edição do Festival de Cinema de Cannes.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Witchfinder

O cientista Richard Dawkins, académico cujo trabalho muito aprecio (e que se encontra disponível em diversos títulos de divulgação científica e, finalmente, em DVD), parece ter encontrado uma plataforma de entendimento com os criacionistas: é que, aparentemente, ambos acreditam que os livros de Harry Potter podem exercer uma má influência nas crianças.

Fico surpreendido ao ler que Dawkins, criador do (correctíssimo) conceito da Meme (no final do livro The Selfish Gene), parece, aos sessenta e sete anos de idade, não compreender que está a ser, ele próprio, influenciado pela meme do racionalismo radical.

As ciências apresentam-nos as únicas ferramentas válidas para entender o mundo, mas nós somos animais imaginativos e o alimento da imaginação é a fantasia.
Enquanto ateu (não acredito na alma, na vida após a morte, em sincronicidades, na homeopatia e no poder laxante dos cristais) não encontro nenhuma fricção em, ao mesmo tempo, validar o conhecimento científico e alimentar a imaginação com o fantástico; não fosse escritor de ficção fantástica, os meus hábitos de leitura continuariam a ser os mesmos. Penso que um dos problemas das religiões é mesmo esse: querer fazer-nos acreditar que os mitos servem para explicar o mundo.
O Mito e a Fantasia são linguagens que falam com a Imaginação: com o nosso pensamento onírico e contemplativo. Precisamos delas para nos fazer sonhar, assim como precisamos da Ciência para nos mostrar como o mundo funciona.

Dirijo o meu discurso à necessidade de transcendência que nós temos.
Essa necessidade é, em última análise, um produto da biologia (não poderia ser outra coisa...) e não deve ser ignorada. Na minha opinião, esse dimanar da Razão é, com mais eficácia, alcançado pela Arte, pela Fantasia, que pela Ciência. É um sentimento que se prende com um certo atavismo, talvez, desde os tempos em que começámos a imaginar deuses por todo o lado. Penso que essa noção quase metafísica não passa, de todo, pela busca pelo conhecimento, mas pela eterna tentativa de transgredir os limites da carne. E como não passa pelo conhecimento, per se, não vejo nenhuma contradição em que ela coexista com a ciência. Não competem.

Somos criaturas que vivem em duas dimensões: uma objectiva e uma subjectiva. Precisamos de linguagens que comuniquem com as duas. Precisamos de ciência e de fantasia, portanto. Se não formos capazes de as integrar, cada qual na sua especificidade, correremos sempre o risco de nos deixar levar pelo disparate e fazer figuras deste género:

Carne rebelde

Uma curta-metragem de animação intitulada Meat Love, realizada por Jan Svankmajer.


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Histórias com letras

O vencedor da primeira edição do prémio literário Leya é o jornalista brasileiro Murilo António Carvalho e o manuscrito premiado intitula-se O Rastro do Jaguar.



No seu novo livro, o provocante Russel A. Berman reflecte sobre o papel da literatura de ficção no desenvolvimento da sociedade ocidental. O trabalho tem como título Fiction Sets You Free: Literature, Liberty and Western Culture.

A historiadora Irene Flunser Pimentel editou um novo livro, Biografia de um inspector da PIDE: Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português, pela Esfera dos Livros. Para quem está familiarizado com as personagens do regime salazarista, o nome de Fernando de Araújo Gouveia não é inédito, até porque o próprio, em 1979, editou uma espécie de auto-biografia, anti-comunista, sob o título Memórias de Um Inspector da Pide. A Organização Clandestina do PCP (Roger Delraux). Recomendo a leitura dos dois, assim como a do livro A Hisória da Pide (Temas & Debates, 2007), também da autoria de Pimentel.

The thing that should be

A Cinemateca de Lisboa está a exibir um ciclo dedicado às longas-metragens de John Carpenter, mestre do horror. Vejam no programa os dias e as horas em que são mostrados os vossos clássicos predilectos e não faltem.

Pela imagem, já devem ter adivinhado qual é o meu.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O dia da rádio

O que é que poderá apresentar, no mesmo intervalo de tempo, a lamechice doom-pop dos Depeche Mode, a chinfrinada ultra-técnica dos Suffocation, os berros de quatro oitavas da Diamanda Galás, a algaraviada decadente dos Mão Morta e o satanismo de pacotilha do filme The Exorcist de William Friedkin? Acertaram! É a próxima emissão do programa virtual de rádio Invisual, de Marcos Farrajota, cujo convidado serei eu.
A emissão, transmitida online pela Rádio Zero, tem início às 20H00 da próxima quarta-feira e repete-se no sàbado seguinte às 13H00.
Se sentirem o tempo a pesar-vos nas mãos, ouçam.

domingo, 26 de outubro de 2008

Uma leitura

Na passada sexta-feira, no decurso da mesa redonda promovida pela Bedeteca de Lisboa, falei sobre a minha experiência enquanto autor de banda desenhada e da forma como me relaciono com a crítica especializada que observa os meus trabalhos. Como expus à assistência, a minha carreira de autor possui duas faces: a de autor de BD e a de escritor; e foi nesse contexto que esclareci que entendo a crítica como uma espécie de meta-leitura da obra. Diante da impossibilidade de conhecer a opinião individual de cada leitor, a análise crítica pode oferecer pistas para se perceber como o trabalho é recebido. Ou seja, o agente crítico acaba por representar, nesse instante reflexivo, o pensamento da massa anónima que se compõe pelo conjunto de potenciais leitores.

Em seguida, e para responder a uma pergunta sobre o problema da falta de hábitos de leitura de banda desenhada manifestada pelas novíssimas gerações, descrevi uma ideia com a qual já andava a brincar há algum tempo: ela correlaciona-se com a questão da iliteracia (aparentemente, lê-se cada vez menos, apesar de se venderem mais livros), mas apenas à superfície, porque acredito que o livro e o álbum de BD acabam, na verdade, por ser objectos estranhos e pouco apelativos para as crianças, sobretudo se não forem habituadas a contactar com eles desde a infância. Adicionando isso a um naturalíssimo bias pelo estímulo visual, pela imagem, é também natural que a leitura de banda desenhada pelos jovens tenha sido regular durante a década de oitenta do século passado, mas que se tenha deteriorado nos períodos seguintes. Dá-me a impressão que a BD se vendia mais nessa altura porque, com efeito, consistia no único produto de merchandising disponível para comércio que possibilitava aos miúdos o contacto com as personagens que viam nos desenhos animados.

A influência que a televisão opera sobre o espectador é muito grande e tudo aquilo que é anunciado por esse meio de comunicação adquire uma auréola de importância enorme; um único anúncio televisivo é muitíssimo mais eficaz que um spot de rádio repetido a cada hora ou uma publicidade de meia-página publicada num jornal durante um mês. Prosseguindo por este caminho, basta um breve exercício de memória para perceber que todas as séries de animação transmitidas na televisão durante essa década, desde aquelas que apresentavam as personagens de Walt Disney às criadas pelos estúdios Warner Bros e Hanna-Barbera, passando por adaptações de histórias franco-belgas do Tintin e dos Estrumpfes até aos heróis da Marvel, possuíam um reflexo impresso em papel sob a forma de revistas e álbuns de banda desenhada. Em suma: num esforço para prolongar a vida útil da personagem televisionada, a compra dos álbuns e revistas era, em última analise, o único desfecho possível; uma procura esporeada pelo televisionamento. É claro que o hábito da leitura, mesmo que a leitura per se, não seja o móbil (o objectivo pode ser, somente, prolongar a vida útil da personagem televisionada), acaba por criar efeitos secundários: o gosto pelos livros, a valorização do conhecimento e o alcance que a cultura é útil na vida diária. Mesmo assim, todas essas qualidades, por mais nobres que sejam, são, de igual modo, colaterais a uma actuação que não as ambicionou.

Mais ou menos no início da década de noventa, quando o merchandising em órbita das personagens animadas começou a ser feito com action-figures, perfeitamente miméticas, e com jogos virtuais, que reproduzem com grande verosimilhança a aparência da animação televisiva, o livro perdeu peso porque se trata de um objecto informe, no que diz respeito à aproximação que faz às personagens animadas: é fraco enquanto simulacro da personagem preferida e perde para com a action-figure e o jogo enquanto objecto de afecto, simplesmente porque estes são mais rápidos a criar emoções fortes. Perde, até injustamente, por culpa da biologia: jogar computador com regularidade liberta uma quantidade excessiva do neurotransmissor dopamina no nucleus accumbens do cérebro; a hiper-estimulação do córtex pré-frontal que ocorre em consequência disso irá traduzir-se, a médio prazo, em efeitos análogos aos manifestados por indivíduos viciados em heroína. A tolerância anormal à dopamina, e a necessidade de doses cada vez mais elevadas para que o córtex pré-frontal seja excitado, cria sintomas como a desatenção, a perda de memória e, mais importante, a incapacidade de relacionar um item com outro – ou seja, perde-se a capacidade de viver no tempo inteiro (planear o futuro) para se viver somente no presente. Todas as actividades que não se cifrem num estímulo imediato (algo que ofereça uma recompensa rápida) são, liminarmente, rejeitadas. Actividades como a leitura, portanto.

No seguimento deste raciocínio, concluí a minha participação na mesa redonda com o argumento que a banda desenhada é, provavelmente, uma arte em vias de extinção: pois se os jovens não a lêem (não lêem BD nem coisa nenhuma, na pior das hipóteses) como é que podemos estar à espera que alguns deles venham a querer ser autores de BD? Ou até a possuir a habilidade necessária para o efeito, já que a leitura é fundamental à cristalização de uma voz autoral forte? Acredito que a ilustração e o cartoon, tantas vezes confundidos com a banda desenhada, irão estar connosco por mais tempo: em primeiro lugar, têm a vantagem de ser artes visuais, e as novas gerações são as da imagem (a BD é, sobretudo, uma linguagem narrativa); em segundo lugar, são áreas que absorvem de modo célere e hábil as aplicações técnicas que as ferramentas digitais possibilitam, e este fascínio tecnófilo é bastante importante porque a tecnologia irá transformar os mundos da arte, do entretenimento e do trabalho. A fronteira entre aquilo que é trabalho e aquilo que é lazer encontra-se cada vez mais diluída e as noções de sacrifício e de dever são alienígenas para quem, hoje, tem menos de vinte anos. Nessa óptica não é falacioso projectar que a escola irá mudar bastante, porque se trata uma instituição que acompanhou sempre as sismografias da esfera laboral.

É (muito) fácil olhar para a escola com alguma poesia, mas convém lembrar que a sua função de origem é, apenas, formar peças para a engrenagem social: sejam elas médicos, advogados, técnicos de contabilidade ou, simplesmente, outros professores. A escola não tem, à priori, o intuito de transmitir conhecimento de um modo desinteressado ou até altruístico: a escola modela trabalhadores para o futuro – ou assim esperamos. O facto de um aluno poder desenvolver uma carreira intelectual, individual, e, graças a essa valorização, tornar-se alguém que se destaque da média é uma contingência da escola lhe ter oferecido um meio conveniente ao estudo, à experiência e ao refinamento do conhecimento; contudo, isso não deixa de ser transversal. O objectivo principal da escola, desde que esse conceito foi criado, é formar os acessórios que a sociedade precisa para se sustentar. Lembrem-se que as massas só começaram a aprender a ler quando se tornou necessário decifrar as instruções das máquinas inventadas após a Revolução Industrial.

"Quem é que sabe dizer de cor quais são todos os rios de Moçambique?"
"Eu, eu, Senhor Professor! São o Búzi, o Pungué, o Limpopo, o..."
Na escola do Estado Novo, por exemplo, a transmissão de conhecimento estava subordinada à agenda política do regime.

Se o mercado de trabalho se tornar, definitivamente, diferente daquilo que é hoje (o que irá acontecer, de certeza absoluta), o modelo de escola plasmado pelo cânone do século XX vai desaparecer. De facto, manter uma escola física exige um orçamento anual tão elevado que várias instituições encontram-se já a desenvolver feições de implementar, de uma maneira perdurável, a escola virtual (o b-learning e o e-learning) na qual cada aluno estudará em casa, através do computador, as disciplinas que irão ao encontro dos seus interesses; ou, in the long run, às exigências de um mercado de trabalho virtual. O trabalho do futuro será virtual, especializado e suportado pela prática de outsourcing: será um sistema feito de pequenos pólos complementares, altamente especializados, invés de grandes complexos empresariais, como os que ainda hoje subsistem. Não é fácil pensar sobre qual será o futuro do livro num ambiente dessa natureza, mas tenho uma ideia.

Assumindo que continuará a ser possível fabricar papel (ou uma imitação eficaz), acho que o livro poderá sobreviver enquanto veículo de contra-cultura, impresso de modo artesanal em pequenas e anacrónicas tipografias, mas nunca como produto de entretenimento e de transmissão de conhecimento porque esses, e o modo como os entendemos agora, não serão os mesmos. Nada disto é novo: pensem na quantidade de ofícios, artes e métodos de transmitir conhecimento que se perderam ao longo da história; de certeza que houve, durante anos a fio, incas saudosistas da linguagem quipu que foi descartada em favor da introdução da escrita na região andina pelos conquistadores espanhóis. É uma pena que os hábitos de leitura venham a desaparecer, mas isso é, até ao momento, um caminho inevitável.
Um futuro sem leitores, mas, também, sem livros para ler poderá ser, em verdade, um futuro equilibrado.