quinta-feira, 26 de março de 2009

Sobre Futebol

Como exprimi, a determinada altura, no meu álbum de banda desenhada A Última Grande Sala de Cinema, o futebol foi criado pelos chineses.
Faltavam dois séculos para Cristo (por suppositu) nascer, quando, sob o reinado da dinastia Tsin, foi criado na China um exercício para treinar soldados chamado Tsu Chu. Este nome significa, literalmente, jogar uma bola com os pés. Durante o período dominante da dinastia seguinte, a Han, o Tsu Chu também passou a ser praticado como folgança, em virtude de Liu Bang, o fundador dessa nova série de soberanos, ser um veemente admirador do jogo.

Não é intrigante que o futebol tenha sido inventado na China, porque os chineses possuem toda uma cultura de fetiche dirigida aos pés como objectos de desejo, de cobiça e de formosura. Assim como a prática dolorosa de apertar os pés das mulheres, desde a infância delas até à idade adulta, para que fiquem reduzidos a apêndices arredondados, também o futebol concentra neles as suas atenções, mas enquanto símbolos de vigor, de destreza; qualidades essencialmente masculinas, diametralmente opostas à posição que ocupam as virtudes que assistem ao exemplo prévio, pertencentes a um mundo recluso e feminino.
Yeh-hsien, a primeira encarnação da personagem Cinderela, surgiu na China; e a sua história, que cresceu em órbita da cena nuclear na qual o pé descalço é desvendado, brinca com características culturais chinesas: a nudez do pé, ostentando a fragilidade feminina, mas, de igual modo, convidando à investida sexual livre de sentimentos culposos, já que o sapato foi perdido por "acidente"; um mecanismo semelhante à fantasia de violação, em que a sexualidade feminina pode ser assumida sem vergonha pela mulher que a imagina, porque o comburente do desejo é exterior — logo ilibador.
Na tradição judaico-cristã, o pé aparece muitas vezes como símbolo para os órgãos genitais, como no Serafim que Isaías viu e que possuía seis asas: duas para lhe cobrir os pés (os genitais). Na cultura chinesa, as maneiras como os pés das mulheres e dos homens são observados contingenciam-se aos papéis sexuais e sociais de cada sexo. O pé feminino é uma criatura lunar, doméstica — de estimação —, apertada com faixas de pano e sapatos de reduzidas dimensões para que o crescimento não se cumpra: existe um desejo masculino de querer conservar a meninice na mulher, de purificá-la, transformando-a numa relíquia viva de uma idade pretérita — num bibelô. Em sentido contrário ao papel que está fixado para o pé masculino, que é solar, activo e robusto.
O pé é o suporte do corpo e através dele oferecemo-nos ao caminho (um caminho muito diferente, consoante os sexos); é a nossa identidade sobre a terra — a pegada é a primeira impressão digital — logo, os pés das mulheres e dos homens não podem deixar dúvidas a respeito das suas identidades.

Uma forma diferente de futebol, evoluída do Tsu Chu, que emigrou pelo continente asiático em direcção ao europeu, clandestino nas caravanas comerciais, foi introduzida pelos romanos na Grã-Bretanha, após a invasão desse território pelos exércitos de Júlio César: o Harpastum greco-romano; também ele um exercício militar com características lúdicas, jogado com os pés e com as mãos. Após o abandono dos colonizadores romanos e finado um intervalo de tempo de alguns séculos, os povos ditos celtas criaram a sua própria versão do jogo e no século VIII um proto-futebol, sem equipas, com um número de jogadores que poderia ir até um milhar de indíviduos, já se encontrava popularizado por toda a ilha. Famoso pela sua violência, esse futebol primitivo practicado pelos ingleses assemelhava-se mais a um combate anárquico que a um jogo e era desprezado pelas classes superiores como sendo uma actividade rural e bárbara. O desporto demorou bastante tempo a chegar às cidades e atravessou um período de proibição durante o reinado dos reis Eduardos para, em seguida, voltar a ser proibido por Oliver Cromwell, no século XVII, em conjunto com o teatro, as festas populares e o Natal. As origens do hooliganism traçam-se a partir desse vector que originou revoltas populares contra o puritanismo e distúrbios violentos associados à prática do futebol clandestino.

Não me interessa reproduzir aqui uma resenha histórica do futebol moderno, mas sim compreender as origens do jogo e descobrir onde reside o fascínio que sempre operou nos seus seguidores e apoiantes.
Penso que o segredo do sucesso do futebol passa, mesmo, pelos pés.
Existe algo de sedutor na habilidade de dominar uma bola, um objecto tão arisco, com algo tão inábil como um pé, de constituição rígida e cujos dedos não servem para manusear nada. É por esse motivo que o basquetebol nunca teve um sucesso tão grande quanto o futebol: por que, à superfície, é mais fácil. Podemos não pensar nisto de um modo objectivo, mas, implicitamente, esse raciocínio está no nosso subconsciente: se jogar uma bola com os pés enquanto se corre fosse fácil, o futebol nunca teria sido criado como um exercício de perícia militar... Quem observa o jogo experimenta um deslumbre quase infantil, diante da destreza do malabarismo - e malabarismo é a palavra correcta, porque um jogador é, sobretudo, um malabarista que precisa de aprender a realizar na perfeição uma série de truques, antes de se poder considerar um futebolista. O fascínio do futebol, neste sentido, é quasi-circense; juízo suportado pelas indumentárias e memorabilia das claques que suportam os clubes preferidos, pelo estádio em que o jogo tem lugar: um local que evoluíu do coliseu clássico — coliseu significa circo. É por isso que o futebol feminino nos parece uma brincadeira - uma levianice? Porque na nossa óptica falocrata, as mulheres não são tão hábeis quanto os homens?
Outrossim, mais factores se concentram para fortalecer o êxito do futebol: é um jogo com muitas regras, mas, em última análise, todas muito simples e de compreensão imediata. Trata-se de um confronto directo entre duas equipas, o que permite uma clara situação de Us vs Them, na qual os clubes funcionam à guisa de exércitos defensores da honra de um bairro, de uma cidade ou de um país. Por se ter tornado tão popular consiste numa modalidade desportiva que possui uma máquina promocional desmedida e que, exponencialmente, aumenta ainda mais a já existente popularidade do jogo (sem mencionar o facto de os clubes se terem transformado em sociedades anónimas, elevando os desafios a autênticas guerras corporativas).

(The Scapegoat, de William Holman Hunt. 1854.)

Existe, ainda, a figura do árbitro como agente (à partida) neutro que conduz o desafio de futebol e cuida da acertada aplicação das regras — o que se trata de uma ilusão, porque o árbitro não é ubíquo e só lá está para servir de bode do Yom Kipur, sobre o qual os adeptos podem colocar o peso da derrota. É o árbitro que torna a derrota suportável, por vezes contribuindo de maneira preponderante para que ela ocorra - como se não quisesse desapontar ninguém. E ainda bem! É que se essa figura estivesse ausente, os jogadores derrotados seriam atacados desapiedadamente pelos espectadores.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Work in progress

Mucha, o meu novo álbum de banda desenhada está escrito e o argumento já foi entregue ao desenhador, o talentoso Osvaldo Medina. Estou bastante entusiasmado com esta pequena história de horror que será editada pela Kingpin Books. Deve estar impresso a tempo de ser apresentado no próximo Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Depois digo-vos.

Estou a escrever o meu novo romance, que já tem título (mas é cedíssimo para o revelar), e a pesquisa avolumou imenso; mas as coisas são mesmo assim: comecei por querer falar num determinado assunto e vou ter de escrever sobre uma data de coisas. A sua narrativa está toda delineada com pormenor maníaco e vou tentar terminá-lo este ano, mas como se trata de uma história muito grande, e com muitas camadas, não tenho a certeza se isso será possível. O tom é diferente dos livros anteriores, mas o espírito é semelhante, contudo. Se gostaram desses, vão adorar este (espero).
Daqui a uns tempos, prometo publicar um excerto: fiquem atentos.

terça-feira, 24 de março de 2009

Entrar a matar

Shanna, the She-Devil é uma banda desenhada que comunica, sem intermediários, e de modo pungente, com a massa diencefálica. O revamp que o desenhador Frank Cho criou para esta personagem da Marvel Comics, imaginada pelos argumentistas Carole Seuling e Steve Gerber e desenhada pelo artista Greg Tuska, no início da década de setenta, não se assemelha em nada com o modelo original. A personagem Shanna O'Hara Plunder era uma veterinária, filha do dono de uma mina africana de diamantes, que decide combater os caçadores furtivos; ora, a Shanna de Cho é a única sobrevivente de uma série de clones produzidos pelos geneticistas do III Reich: espécie de Eva nazi, programada para ser uma máquina de matar. E ainda bem que sabe como quebrar pescoços, porque o mundo dela encontra-se infestado por uma macrofauna com muito mau-feitio.

O livro vale pela arte de Cho, já que o argumento é muitíssismo linear (apesar de não escorregar para o boçal, o que, numa história deste género, é uma vantagem): Shanna é descoberta, e libertada, por um grupo de soldados norte-americanos; e após estes ficarem infectados por uma arma biológica desenvolvida pelos nazis, ela tem de os ajudar a encontrar um antídoto, escondido num bunker perdido no meio da selva. Este é o ponto de partida para uma série de sequências de acção de grande fôlego, nas quais vemos a nossa valquíria à bordoada com tiranossauros e velociraptores. Acreditem que a arte de Frank Cho é surpreendente e bastante imaginativa.
Shanna, the She-Devil deveria ter saído pela imprint MAX, cujos conteúdos se dirigem a leitores maduros, mas foi a versão censurada que acabou por ser impressa e editada. Ou seja, a nudez de Shanna foi velada, mas não as centenas de litros de sangue e tripas que se desenrolam em catadupa pelas páginas.

Este livro é o que é e nada mais que isso: uma aventura honesta, na qual aquilo que interessa é ver a Shanna à porrada com dinossauros - obra híbrida de fita de Leni Riefenstahl com Jurassic Park. Vale a pena? Bastante: é grotesco, está muito bem desenhado e as sequências de acção são do outro mundo. Gostava de ver uma aventura da Shanna escrita por um argumentista mais sofisticado, porque existe, aqui e ali, nas atitudes e gestos dessa personagem, uma inesperada sensibilidade que merecia ser tratada de outra maneira.

(Capa do primeiro número da série original de Shanna, the She-Devil, desenhada pelo grande Jim Steranko.)

Poe integral

Amanhã, às 18H30, estarei no fórum da loja FNAC do Chiado para, em conjunto com Helena Barbas, apresentar o livro Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe, que reúne num só volume todos os poemas que o praecursore do "gótico americano" nos deixou. Com tradução de Margarida Vale de Gato e ilustrações de Filipe Abranches, esta é uma edição da tinta-da-china.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O novo do Pynchon

Um dos meus escritores preferidos (correcção: um dos escritores que escreve alguns dos meus livros preferidos) vai publicar um novo romance este ano. O primeiro chama-se Thomas Pynchon e o segundo intitula-se Inherent Vice. Parece que é uma história com surfistas - mas estou a falar de um livro de Thomas Pynchon, por isso essa premissa é equivalente a dizer-se que a vida na Terra é apenas uma coisa esquisita baseada no carbono. Como sempre achei que a vida e os livros do Pynchon são alótropos, talvez possa sugerir que Deus criou a inteligência para este escritor e depois raspou o tacho para distribuir o que sobrou pela remanescente humanidade. É um pensamento consolador, porque, assim, a estupidez deixa de ser um defeito inato para se transformar numa contingência da primordial má gestão divina de recursos.

Seja como for, já tirei a senha e estou na bicha. A quem me passar à frente, amaldiçoo-o com um emaranhamento quântico com o Evil Halfwit.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sobre Poe e sobre outras coisas

Na próxima quarta-feira, às 17H00, vou participar num debate sobre a obra e a vida de Edgar Allan Poe, que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em conjunto com Hélia Correia, José Luís Peixoto, Pedro Mexia e Luís Filipe Silva.
Esta tertúlia insere-se no programa integral do evento Poe and Gothic Creativity, a decorrer entre os dias 18 e 20 deste mês. Consultem a programação para ficarem a saber quais são as restantes palestras e actividades que poderão assistir.

Estou a escrever uma nova banda desenhada que será publicada este ano pela Kingpin Books. O desenhador será o fabuloso Osvaldo Medina, ilustrador do eye candy que é o álbum A Fórmula da Felicidade. Escrito por Nuno Duarte, o segundo volume deste título também será editado este ano. Quero escrever sobre ele, aqui nos Cadernos de Daath (assim como quero escrever sobre outros livros que me ofereceram nas últimas calendas). A ver se tenho tempo, porque todos eles merecem ser falados -nenhum está esquecido.

A minha nova banda desenhada, que consistirá num comic book ágil, intenso e despudorado, intitula-se Mucha e será uma história madura de horror. Não é o meu regresso à BD porque, desde a publicação de A Última Grande Sala de Cinema (premiado com uma bolsa de criação literária do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas) até agora, já escrevi diversas coisas (como esta), mas, com efeito, é o regresso em álbum. Estou muito entusiasmado. Prometo-vos emoções fortes...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Uma espécie nova?

Sou o primeiro a admitir que, muitas vezes, sou atraiçoado pelo meu solipsismo; isso costuma acontecer, por exemplo, quando fico estupefacto cada vez que encontro algo que me era estranho, mas que, aparentemente, todos os cães e gatos conheciam. E cães e gatos não são criaturas inocentes; pelo menos, os gatos. Eu explico.

Ontem precisei de ir à minha Junta de Freguesia. Enquanto esperava por ser atendido, tive o privilégio de ler um cartaz que lá estava afixado e que anunciava o preçário das diversas licenças a adquirir para todas as espécies de animais de estimação. Bom, todas, todas, não. Só para canídeos e... gatídeos!...
Ainda pensei que estivesse a ler mal, mas depressa dei conta que a palavra existia e não só estava à minha frente como pertencia ao léxico vulgar, podendo ser encontrada numa miríade de documentação institucional sobre tarecos. Porém, a minha dúvida persistiu: mas que raio é um gatídeo?!..., fui eu a pensar a caminho de casa. Se os cães pertencem à família dos canídeos, os gatos pertencem à família dos felídeos. Da família dos gatídeos é que eu nunca tinha ouvido falar.

O sufixo ídeo provém do étimo grego eidos que se traduz por similar. Nesse caso, um "gatídeo" poderá querer significar "semelhante a gato"?!... Engenhoso, não haja dúvida, mas, se era para isso, já existe a palavra felídeo que significa semelhante a felino; sendo que felino tem origem no nome latino feles que quer dizer gato. É que as coisas são mesmo assim: no que diz respeito à terminologia científica, a base de todos os nomes é a língua grega. Isto quer dizer duas coisas: 1) na maioria das vezes não é preciso inventar nada, porque já foi tudo inventado, há bastante tempo, e 2) quando é preciso classificar e nominar novas espécies é preciso ler a gramática com muitíssima atenção.

Se eu quisesse baptizar a família do híbrido que ilustra esta argumentação o mais indicado poderia ser algo como jocusidae. Mas quê? Agora teria de se atender à etimologia para criar nomenclaturas? Até o Diabo se ria! Neste caso, basta saber o nome vulgar da bicharada e carregar o mosquete pela boca: se um cão é canídeo e um gato é gatídeo, então um periquito passa a ser um periquitídeo, um ornitorrinco passa a ser um ornitorrinquitídeo e uma sardinha passa a ser uma sardinhídea. É tão simples, não é? Deve ter sido assim que raciocinou o glossólogo que se lembrou de criar o neologismo gatídeo: «Se cão é canídeo, então gato é gatídeo, pronto. O que interessa é que tenha o ídeo lá pelo meio.»

segunda-feira, 9 de março de 2009

Who (wants to) watch the Watchmen (film)?

Fui ver a adaptação cinematográfica do álbum de banda desenhada Watchmen, escrito por Alan Moore e desenhado por Dave Gibbons, que estreou na passada quinta-feira, e gostei. Vou esperar que a versão de três horas e meia saia em DVD para rever o filme, com as inclusões dos desenhos animados Tales of the Black Freighter (a história de pirataria que, no livro, é contada em paralelo à narrativa principal) e da morte de Hollis Mason (o primeiro Nite Owl). Porém, considero que esta versão comercial de Watchmen, o filme, consegue passar muito bem sem essas adições; não só consiste numa boa adaptação como acaba por ser um filme sintonizado de modo perfeito com o espírito deste tempo.

Não me tentem impingir as tretas do costume: eu conheço o álbum de banda desenhada Watchmen de trás para a frente e já o li e reli dezenas de vezes (até comecei a traduzi-lo para português para a editora Devir quando ela manifestou interesse em o publicar, há uns anos, na altura em que o mercado de edição de BD em Portugal vivia o seu último momento de vacas gordas). Por conseguinte, estou mais que à vontade para dizer que a adaptação para cinema, realizada por Zack Snyder, mesmo não sendo perfeita, é excelente.
Não me interpretem mal: não acho, de forma alguma, que os filmes sejam o apex dos formatos artísticos (a minha opinião anda muitíssimo longe disso, até...), mas, já que falamos de um filme - deste filme -, então que se faça justiça e diga-se, à boca cheia, que kicks ass: o casting é correctíssimo (actores a sério e não carinhas larocas), os diálogos são decalcados verbatim das páginas do livro (assim como a maioria do storyboard), o ritmo é trepidante e, melhor que tudo, o espectador não é tratado como um atrasado mental. O que é que se pode pedir mais? Que o final fosse uma réplica exacta do original? Eu, que li por acidente uma sinopse detalhadíssima num site sobre o filme, antes da estreia, entrei cheio de reservas na sala de cinema e sai convencido: o novo final funciona (ainda bem). Trata-se, sobretudo, de um update e não de uma tentativa de upgrade. Existem outras (pouquíssimas) mudanças, perfeitamente justificadas quando se pensa que, desde que o álbum de banda desenhada foi publicado até agora, já se fizeram milhares de filmes e que algumas coisas que foram inovadoras na BD já foram, infelizmente, exploradas ad nauseum da pior maneira em veículos cinemáticos. Nesse sentido, Snyder e os seus argumentistas souberam evitar repetições. Parabéns!

Desviando-me do filme, por uns momentos, o que tenho a dizer sobre alguns comentários de índole arrogante e que, associados a esta obra (e outras do mesmo calibre), se fazem ler e ouvir, um pouco por todo o lado, e procuram dar a entender que é seguro (para os detractores da linguagem da banda desenhada) gostar de Watchmen porque, à superfície, apresenta uma sofisticação incomum na área da BD, é o seguinte: essa espécie de comentários revela várias coisas, entre as quais ignorância no que à leitura de banda desenhada diz respeito. É que não só existem carradas de títulos que são capazes de competir com este álbum em maturidade de conteúdos, como aquilo que faz de Watchmen um livro tão especial é que ele consiste, desavergonhadamente, numa história de super-heróis!... É graças a esse desiderato que, habilmente, consegue transcender-se e pressionar em vários botões ao mesmo tempo. Ou seja, não é nenhum "romance gráfico" alegórico que, numa lógica quasi-dadaística, usa o lixo que é a BD para alcançar propósitos literários mais elevados (para quem está fora do círculo da BD é quase impossível compreender a carga negativa que vem associada ao conceito de "romance gráfico", mas prometo escrever sobre isto um dia destes): é um álbum de banda desenhada, ponto. Só se surpreendem os leitores que não conhecem mais banda desenhada nenhuma...

Um exemplo ainda mais perfeito dessa premissa de contenção, à priori, são os primeiros dez números que Alan Moore escreveu para a personagem Marvelman (desenhados por Gary Leach e Alan Davis): numa perspectiva de preferência pessoal, considero que possuem ideias de uma subtileza que está ausente em Watchmen (as primeiras páginas do primeiro número são de arrepiar a espinha, assim como a revelação final do plano do arqui-inimigo da personagem principal). A série Marvelman de Moore foi, posteriormente, retomada por Neil Gaiman e Mark Buckingham.

Em suma: Watchmen é o livro gigante que é porque se trata de uma história de super-heróis, pura e dura. Como todas as obras genuínas é um livro que só se preocupa consigo próprio: em nos falar de Nite Owl, de Rorschach, de Dr. Manatthan - as interpretações posteriores, boas ou más, pertencem a quem as pensam. Aqueles que elevam Watchmen aos píncaros (se calhar sem o ter lido, muitas vezes...) e desdenham, na generalidade, a linguagem da banda desenhada, não se dando sequer ao trabalho de aprender a gostar dela, são bem capazes de dizer cobras e lagartos do filme de Snyder. Diriam sempre, mesmo sem o ver. Agora... Aqueles que são fãs do álbum Watchmen, que são fãs de banda desenhada, que conhecem a obra integral de Moore e de outros autores igualmente importantes, vão gostar bastante do filme.

(Alan Moore.)

(Dave Gibbons.)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Back to school (com Pessoa e Poe)

Ontem fui à Escola Secundária Augusto Cabrita, no Barreiro, para falar a alunos e professores sobre o meu romance A Conspiração dos Antepassados.
Descobrir o modo como receberam o livro foi muito interessante, assim como perceber que, com efeito, se trata de um título que lhes diz bastante - a vários níveis. Foi recompensador sentir tanto entusiasmo. Agradeço à docente Natália Nunes, professora de português que me convidou, como à aluna Ana Sofia que realizou uma bem documentada apresentação, prévia à minha exposição, e que muito gostei de assistir.

Daqui a uns dias, vou regressar à escola, mais uma vez, para participar num colóquio sobre o autor Edgar Allan Poe, no âmbito do evento Poe e a Criatividade Gótica, que terá lugar entre os dias 18 e 20 deste mês na Universidade de Lisboa. Consultem a programação para ficarem a saber quais as palestras e intervenções, organizadas em órbita da obra desse autor norte-americano, em que poderão estar presentes.
Eu participarei num debate a ocorrer no dia 18, às 17H30, na Faculdade de Letras, juntamente com os escritores Hélia Correia, José Luís Peixoto, Pedro Mexia e Luís Filipe Silva.
Esta celebração do bicentenário do nascimento de Edgar Allan Poe é organizada pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (CEAUL/ULICES).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Crítica a "Lisboa Triunfante"

«Lisboa Triunfante é um grande e extraordinário romance.
David Soares regressa à sua cidade, Lisboa, como no romance anterior, e, daí, parte para a construção simbólica de uma cosmovisão do mundo. O pretexto é, de facto, pertença da sua identidade cultural, mas, num tour de force bem conseguido, David Soares junta-se ao grupo dos grandes criadores do Fantástico.
Num tempo longínquo, na Terra das Serpentes, um animal astucioso, rapace e ferino, salva-se de todos os predadores: é a Raposa, elemento que faz a ligação a toda a estrutura narrativa de Lisboa Triunfante. Pergunta: resume-se a isso, e só a isso, este romance? Bem pelo contrário! Vamos assistir, em Lisboa Triunfante, a uma girândola criativa com doses de imaginação ao alcance de poucos.
A narrativa vai escolher núcleos poderosos da nossa história e da nossa cultura: Aquilino Ribeiro, D. João V, o reinado de D. Manuel I, D. Afonso III – não, também não é uma ucronia: é ficção da mais apurada e cristalina. A estabelecer a ligação entre todos eles temos a presença enigmática, fugidia, ladina e irónica da Raposa.
Todos estes episódios possuem um ritual de passagem: de iniciação. Todos eles possuem, também, um tempo de viver e pensar – de forma livre –, que é um hino à criatividade. No entanto, Lisboa Triunfante possui episódios e momentos narrativos que são, a nosso ver, fabulosos e de criatividade única. O momento da construção do Mosteiro dos Jerónimos, com a figura enigmática de Boytac (que concentra em si toda a vitalidade e pujança da criação): só por si, este núcleo ficcional é já, para nós, Livros Com Rum, um dos grandes tempos da nossa literatura. O outro, no reinado de D. Afonso III, com as figuras eclesiásticas: umas, ortodoxas, inquisidoras e mortíferas; outras, também religiosas, apologistas do livre pensar, do espírito crítico e de tudo submeter à inteligência humana – são elas Gil Valadares, Guterres e Tomás Scoto.
No último episódio temos a viagem de Paula com a Raposa, para o combate final com o Lagarto: símbolo, este, da lascívia inconsciente. Muito mais haveria a dizer sobre este fabuloso romance. No entanto, de Lisboa Triunfante, fica uma das grandes obras literárias de 2008, servida por uma construção ficcional perfeita e uma prosa delicada, sensível e poética que torna David Soares um dos grandes nomes da moderna literatura portuguesa. É um romance notável, sem uma única falha.
Uma pequena nota final: os dois romances de David Soares, A Conspiração dos Antepassados e Lisboa Triunfante, são servidos por uma bibliografia final monumental que será de grande utilidade aos nossos leitores que queiram aprofundar as duas temáticas. É o rigor a funcionar na sua plenitude.»

António Ferreira, Livros Com Rum. Janeiro 2009.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O que é que eu ando a fazer?

Parece que anda tudo doido com a trampa do Twitter; ainda me lembrei de abrir uma conta nisso, mas depois pensei: Neste momento, os meus dias são passados a ler... Que raio vou eu escrever no Twitter, se já tenho um weblog?... "Olha, agora estou a ler a linha 23 da página 403 do livro-tal-e-coiso..."? O que é que isso interessa?!... Com toda a sinceridade, não há paciência para estes animais de estimação virtuais que nos roubam o pouco tempo que já temos, hoje em dia. Comigo, o Twitter não passará, pronto! (Até o nome é foleiro.)

Um livro que eu traduzi e anotei há uns tempos vai sair este mês; em dois volumes: O Caderno Secreto de Da Vinci - A Catedral da Memória, de Jack Dann (Saída de Emergência). Comprem que é bom: é intenso, inteligente e está bem feito. Acham que vos iria enganar? Quando forem à livraria, investiguem.

A escrita do meu novo romance está a correr bem. Estou a estruturar a narrativa ao pormenor, a ler material de referência, a falar sozinho com as personagens (que são muitas). Acho que vai ser um bom livro; vocês depois lêem. Se gostaram d'A Conspiração dos Antepassados e de Lisboa Triunfante vão adorar este, também. Prometo-vos alguns sustos e... E mais não digo.

Mas não deixem de vir espreitar os Cadernos de Daath; apesar de actualizar o weblog espaçadamente, em virtude de andar ocupado com a escrita, preciso sempre de passar por aqui para monologar um bocado.
Convosco, claro.

Adão e Ivo

(O beijo de Judas. Um beijo na boca entre dois homens pode ser uma coisa muito, muito marota.)

Quando George Weinberg popularizou a palavra homofobia no seu livro Society and the Healthy Homossexual, publicado em 1972 (até esse momento era raríssimo o uso dela), como nominativo para o medo e a repulsa sentida contra os homossexuais, ele estava longe de compreender o quanto a etimologia eleita era acertada: em grego, o nome homo significa idêntico e phobo traduz-se por medo; logo, homofobia tem o significado de medo daquilo que é idêntico.
Nada poderia ser mais certo.
É que os homossexuais não são as caricaturas excêntricas que os meios de comunicação nos mostram em tantos veículos cinemáticos ou televisivos: eles são os nossos amigos, os nossos irmãos, os nossos colegas de trabalho e, em muitos casos, os nossos pais.
Às vezes parece que não somos capazes de ver isso.

Aqui fica um link para as declarações proferidas pelo cardeal D. José Saraiva Martins sobre a anormalidade da homossexualidade.

(O homossexual: vejam como ele não é como nós.)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Casamento civil entre dois homossexuais

Sou a favor da celebração do casamento civil entre dois adultos do mesmo sexo e considero que se trata de uma questão cuja aprovação é essencial para tornar a nossa sociedade mais justa e tolerante. Discriminar um indivíduo com base na orientação sexual é errado; não só porque discriminar é, sempre, errado, mas porque a sexualidade, enquanto formadora da personalidade, pertence à esfera privada de quem a pratica.

Nem sempre foi assim: até há poucos séculos, era normal os familiares e os amigos acompanharem os noivos nus até ao leito e darem a bênção à consumação do casamento (e, em outras situações, não seria invulgar a existência de uma intromissão menos superficial de amigos e parentes nas vidas sexuais uns dos outros), mas a aproximação que a sexualidade cumpre com o moderno conceito ocidental de liberdade individual é muito importante e, em última análise, aquele que mais interessa para esta exposição de ideias. Penso que será útil discorrer com um pouco de rigor histórico sobre a questão do próprio acto do casamento, enquanto sacramento eclesiástico, para, em seguida, contextualizar a argumentação subsequente.

Para ser o mais breve possível, porque escrever neste formato virtual de apontamentos bloguísticos é hostil à profusão de linhas, e em vez de recuar aos tempos mais primitivos, nos quais o casamento era observado, na maioria das vezes, como sendo um estádio temporário, prefiro avançar de imediato para o período da antiguidade clássica europeia, no qual se encontra a matriz da vulgar cerimónia de casamento que, mais tarde, foi apropriada pela igreja católica.
Na alvorada da idade cristã do Império Romano, o casamento corriqueiro era, mais que um contrato, um encontro privado de vontades entre dois indivíduos; encontro esse que não necessitava de nenhuma bênção eclesiástica, de espécie alguma. Por vezes, a presença do sacerdote podia ser requerida, somente como testemunha, mas, no próprio cânone, não existia nenhum rito especializado para se celebrar um casamento eclesiástico. A presença de uma ou mais testemunhas era desejável para evitar futuras confusões desagradáveis, caso marido e mulher se viessem a desentender, mas nem todos os noivos, em especial os mais confiantes, achavam necessário a presença delas. Em suma: para duas pessoas se casarem, bastava que dissessem uma à outra que se recebiam como marido e mulher; esta noção era tão sólida – e aceite – que mesmo depois da igreja ter ordenado que um casamento deveria ser celebrado por um sacerdote para ser legal (isso durante a contra-reforma), os casamentos ilegais (os chamados esposais) continuavam a ser legítimos: encorajava-se era a sua legalização, mas não a legitimação… Só no século XVI se tornou obrigatório que a cerimónia do casamento decorresse dentro de uma igreja.

Um dos efeitos que teve a reforma operada pela igreja, no século XI, foi o controlo insistente sobre todas as áreas seculares da vida dos indivíduos. Muitos senhores feudais olhavam para o casamento como sua prerrogativa: era uma política essencial para garantir que os seus bens não eram alienados depois da morte; nessa perspectiva, se uma mulher provava ser infértil (nessa altura era impensável conceber o conceito de infertilidade masculina…), o senhor podia mandá-la embora e casar com outra. Ora, a igreja veio retirar ao senhor feudal o direito de repudiar a mulher, se a consumação do casamento deles não frutificasse. Mais que se tratar de uma medida progressista, no sentido da defesa das mulheres ditas inférteis, consistiu na oficialização do privilégio eclesiástico em decidir sobre quem poderia estar casado com quem. Basta olhar para tantos exemplos de casamentos que continuaram a ser desfeitos depois dessa aplicação, mas desta vez pela igreja (dos quais o mais célebre será, talvez, o de Luís VII de França com Leonor de Aquitânia), para compreendermos que o que esteve em causa não foi a sacralidade do casamento, mas a regalia do poder da igreja em decidir sobre ele.

Durante o século seguinte, o debate sobre aquilo que consistia um casamento legítimo ou ilegítimo acalentou opiniões violentas. Para resumir, pode-se dizer que existiram duas facções principais: uma dizia que o casamento só era legítimo quando consumado; a outra defendia que o consentimento dos noivos bastava, apoiando-se na, hipotética, virgindade de Maria. Contudo, mesmo um casamento legal, e legítimo, não se encontrava liberto de pecado. Tanto que a igreja advogou que um homem que amasse demasiado a mulher estava a pecar. Nem me vou dar ao trabalho de enumerar os dias nos quais o coito era proibido pela igreja porque são, mesmo, demasiados. As relações sexuais dentro do casamento estavam, obrigadas pela igreja, a cingir-se ao objectivo da procriação; e até nesses momentos, os indivíduos deveriam usar do estoicismo e renunciar ao prazer. É aqui que chegamos a um dos tópicos que mais nos interessa.

O problema da igreja com o sexo homossexual é o mesmo que ela tem com o sexo heterossexual quando este se encontra apartado da função reprodutora: o facto do sexo se transformar, em exclusivo, num acto de prazer. É ingénuo pensar-se que a igreja tem o desiderato de proteger a santidade do casamento heterossexual (que, como já vimos, não tem santidade nenhuma, a não ser aquela que lhe quiseram imprimir à força). A igreja não está, de todo, interessada no amor; seja ele heterossexual ou homossexual. O móbil continua a ser a subtracção do prazer, à luz que o carnal é mau e o espiritual é bom. Quase que dava para rir se não fosse trágico: é que a maioria das seitas heréticas, como a dos Cátaros, por exemplo, foi perseguida e exterminada por dizer o mesmo (de facto, a razão verdadeira da perseguição foi a igualdade entre os sexos, mas isso é outra história…). Ainda mais risível é perceber que a maioria dos textos e códigos escritos sobre o casamento e os seus problemas foi escrita por indivíduos que 1) não foram casados, 2) desconfiavam de pessoas casadas e 3) não gostavam de sexo. A igreja não é tanto pró-vida como é “pró-vida vivida sem interferência humana”. Ora, a sexualidade humana é um assunto que nos diz muito respeito.
Gostava de terminar com a lembrança que existiram cerimónias eclesiásticas de união entre duas pessoas do mesmo sexo: uma delas, a chamada adelphopoiia.

A adelphopoiia (costume da igreja ortodoxa que apenas os mais curiosos em história da sexualidade devem conhecer) consiste na união, supostamente fraternal, de dois homens, ministrada por um sacerdote. O historiador John Boswell escreveu sobre ela, ao pormenor, no livro Same-Sex Unions in Premodern Europe (Vintage Books, 1995). Na página 301 desse livro pode ler-se a oração ritual para unir dois homens e ela diz, a certa altura: «For their joining together in union of love and life, we pray to the Lord. / For these servants of God,_____ and _____, and for their union in Christ we pray to the Lord.» As páginas seguintes contém as orações e os ritos integrais, assim como esclarecimento da etimologia de algumas das palavras usadas, como por exemplo as já citadas joining together que, explica Boswell, no antigo texto eslavo significam copular, quando usadas reflexivamente.

Ainda vale a pena dar a conhecer as figuras de Sérgio e Bacchus, dois soldados romanos, amantes, que foram martirizados e tornados santos: Sérgio foi decapitado enquanto Bacchus observava; em seguida, este foi espancado até à morte. Os dois haviam sido cristãos e unidos pelo amor homossexual. Acabaram por provocar a ira do Imperador, não por serem homossexuais, mas por serem cristãos (podem ler a história destes santos no livro de Boswell, págs. 145-161).

Espanta-me que ainda ninguém se tenha lembrado desta matéria, durante a discussão pública sobre o casamento civil homossexual: é uma indicação que a igreja ortodoxa, em última análise, já praticava este género de uniões há muito tempo, existindo, ainda, uma iconografia reconhecida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Entrevista #2

A segunda parte da minha entrevista para o programa Livros Com Rum, da Rádio Universitária do Minho, pode ser ouvida aqui.
Trata-se do seguimento da conversa que mantive com o jornalista e académico António Ferreira sobre os meus romances. Esta segunda parte concentra-se no título Lisboa Triunfante.
No final poderão ouvir a crítica literária de António Ferreira sobre esse livro; uma exposição pontuada pela leitura de excertos realizada por Sérgio Xavier.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Entrevistas #1

Podem ouvir neste link a primeira parte da entrevista que dei para o programa Livros com Rum, de António Ferreira e Marie Silva (da Rádio Universitária do Minho). É mais de meia-hora de conversa, temperada por momentos musicais nos quais se pode ouvir a leitura de poemas de Fernando Pessoa.
A segunda parte é transmitida na próxima quinta-feira, às 21H00 (podem ouvir a emissão online aqui).

Também podem ouvir a entrevista que dei para o programa À Volta dos Livros, de Ana Aranha (da Antena 1). Sigam este link e ouçam o podcast disponível na lista.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Fotos de Braga e Porto

A entrevista que dei para o programa Livros Com Rum, de António Ferreira e Marie Silva, transmitido pela Rádio Universitária do Minho, de Braga, correu muitíssimo bem e será transmitida em duas partes. A primeira pode ser ouvida na próxima quinta-feira, às 21H00 (repete no domingo, às 20H00). Falei, em pormenor, sobre o novo romance Lisboa Triunfante e, também, sobre A Conspiração dos Antepassados.
Seguiu-se uma tertúlia literária no estaleiro cultural bracarense Velha-A-Branca, conduzida por António Ferreira (foto), na qual falei sobre os temas dos meus romances, o meu método criativo e literatura fantástica.
Agradeço ao António Ferreira, à Rádio Universitária do Minho, à associação cultural Velha-A-Branca e, ainda, ao Diogo e ao Alexandre, todos os esforços para que a minha estadia se pautasse pelo melhor possível: obrigado por tudo!

No dia seguinte, juntamente com João Seixas (foto), apresentei Lisboa Triunfante no fórum da loja FNAC de Santa Catarina, no Porto. Agradeço ao João e à Carla pela amizade e entusiasmo, assim como ao Pedro da loja FNAC: obrigado!

Pode ser que escreva um Porto Triunfante, um dia destes... Quero dar um agradecimento especial ao Luís e à Safaa das edições Saída de Emergência e à Gisela: é bom contar convosco.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Em Braga e no Porto com Lisboa (Triunfante)

No próximo dia 16 de Janeiro, estarei no fórum da loja FNAC de Santa Catarina, no Porto, às 18H00, para falar sobre Lisboa Triunfante, o meu novo romance. A apresentação do livro será realizada pelo crítico e autor João Seixas (Os Meus Livros).

No dia anterior (quinta-feira), pelas 22H00, serei o convidado das Conversas no Tanque, organizadas pela associação cultural Velha-a-Branca, de Braga. Falarei com os leitores sobre o meu trabalho e autografarei os livros que levarem.
Quatro horas antes, serei entrevistado pelo jornalista e académico António Ferreira para o programa Livros com Rum da Rádio Universitária do Minho.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano Novo, Livros Novos

Pensei em escrever uma súmula daquilo que eu considero ser o melhor que li e vi no ano passado, mas achei que seria mais interessante anunciar que iniciei o novo ano a trabalhar num novo romance: a ler material de pesquisa e a tomar notas. Festa, álcool e passas? Sim, claro. Disciplina? Sempre.
Acho que vocês vão gostar deste livro, também. Lá para o final do ano poderão lê-lo.

Em Fevereiro, as edições Saída de Emergência vão publicar uma edição especial d'A Conspiração dos Antepassados. Fixe, não é? Fiquem atentos porque vai ter surpresas.

Entretanto, a revista Os Meus Livros escolheu Lisboa Triunfante como um dos melhores livros editados no ano passado. Daqui a uns dias divulgarei as datas de uma pequena tour promocional que irei fazer acima do Tejo, por terras mais frias, para falar sobre esse livro. Lisboa triunfará no Porto? Espero que sim.

Até já! Gosto de vos ter desse lado.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Lançamento na FNAC

(Eu, Rui Tavares e Luís Corte Real.)


Depois de alguns dias sem internet, já posso publicar algumas fotos do lançamento de Lisboa Triunfante, o meu novo romance.
Agradeço ao Rui pela apresentação inspirada e ao meu editor, Luís Corte Real, pelo entusiasmo contagiante que devota aos meus livros: obrigado!
Uma palavra de apreço, também, aos leitores que compareceram e que levaram exemplares personalizados do livro para casa.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Lançamento de "Lisboa Triunfante"



Na próxima quarta-feira, às 19H00, no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa.
Com apresentação realizada pelo historiador Rui Tavares.
Uma publicação das edições Saída de Emergência.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Chegar a Lisboa

O companion para o meu novo romance, Lisboa Triunfante, está disponível para download gratuito através do site das edições Saída de Emergência.
Trata-se de um trabalho que colige apontamentos que apresentam os diversos temas e personagens do livro, sem conter elementos que possam revelar pormenores sobre o enredo: ou seja, tanto pode ser lido por quem já conhece o romance, como por quem ainda o vai descobrir.

«Desembarcando com um nó na garganta como se fosse Santa Úrsula trespassada na goela por uma seta, Antónia pensou que talvez pudesse cantar se o gorgomilo apertado não a deixasse falar; afinal, as visões surgiam-lhe na mente legendadas em verso. A trilha musical seria a algazarra que tanto confundia os estrangeiros acabados de chegar à cidade: o ruído contínuo dos carrilhões das capelas; das campanas das cabras; dos guizalhos dos burros; dos martelos nas quilhas nos barcos em reparação; do ranger das rodas das carretas pelos pavimentos de terra batida; dos cinzéis dos canteiros; dos vaticínios das peixeiras na Pampulha e dos vendedores de hortaliça no Mercado da Ribeira. Olhando de esguelha para o céu, os sapateiros batiam solas debaixo dos fórnices das igrejas, sob a protecção de santos deteriorados.
Empurrada pelo clérigo que continuava a enxugar o pus com o paninho, ela desceu da prancha de desembarque e passou por um bloco de pedra bruta em que alguns marinheiros estendiam roupa molhada – todo o cais fazia lembrar um acampamento. Um tocador de realejo com o mono ao ombro passou perto da linha da água e cuspiu para o mar. Um preto velho estava a ser arrastado pelos pulsos por dois soldados que o queriam embarcar à força; o homem chorava e berrava “Como vou sustentar a minha família se me puserem fora da cidade? Duas refeições por dia e um tecto é tudo o que peço.” Impressionada pela violência, a mulher não se apercebeu da presença de um mendigo que se aproximara de Leal para lhe pedir uma esmola. O prior deu-lhe cinco réis, mas exigiu troco: o pobre agradeceu com uma vénia e apressou-se a devolver-lhe a diferença.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Três: "O Reino do Sol".)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lisboa Triunfante: a partir de hoje nas livrarias

O meu novo romance, Lisboa Triunfante, estreia-se hoje nas livrarias.
Se têm acompanhado Os Cadernos de Daath, já sabem que a edição conta com duas capas diferentes, dedicadas às personagens principais: a Raposa e o Lagarto.

Trata-se de um livro que conta a história da rivalidade que existe entre essas duas figuras e o modo como ambas usam a cidade de Lisboa para alcançar os seus objectivos (antagónicos); em tangência, fala-se de outras rivalidades: daquela que existe entre a cultura erudita e a cultura popular; ou entre mulheres e homens; e mesmo entre a religião e a imaginação.

Desde a pré-história até aos nossos dias, o enredo de Lisboa Triunfante contém personagens como Aquilino Ribeiro (escritor e revolucionário), D. João V (o nosso "Imperador do Ocidente"), Frei Gil de Santarém (o nosso "Doutor Fausto") e Mestre Boytac (mestre de obras de D. Manuel I e arquitecto do Mosteiro dos Jerónimos).

É, em essência, um livro sobre escolhas perigosas, lutas secretas e o modo como a História é feita de Horror e Fantasia.
É, também, sobre alguns animais que falam, sobre alguns homens que não pensam e sobre uma cidade que vive para sempre.


sábado, 15 de novembro de 2008

Portas para o Céu e para o Inferno

«Avançaram em silêncio pelo caminho poeirento; esburacada pela escuridão, a nuvem de pó levantada pelos cascos dos burros dispersou-se sobre a erva como um grupo de estrelas desmaiadas. Os viajantes viram meia-dúzia de casebres encostados à muralha e vários ovis com carneiros à frente deles; ao contrário dos porcos, que comiam os restos atirados para as ruas, esses animais eram demasiado preciosos para andar à solta. Os pastores que moravam naquelas casas miseráveis, mais os agricultores que viviam para os lados do Mosteiro de São Vicente de Fora, haviam sido recrutados para reparar um troço da muralha que tinha derrocado, o que não ajudava a dissipar o sentimento de inferioridade que sentiam diante dos habitantes do espaço intramurado; um porta-voz fizera queixa a D. Afonso III sobre a humilhação em que consistia a prestação da anúduva, que, ainda por cima, interrompia os trabalhos dos campos sem os quais a cidade não podia subsistir, mas ninguém sabia se o rei aboliria esse imposto. Valadares e Guterres aproximaram-se do arrabalde contíguo à Porta do Sol, cujas casas formavam uma via chamada pelos cidadãos de Rua da Porta do Sol, e observaram as construções de madeira: só podiam ser sustentadas pela vontade indómita de algum génio doméstico descendente dos lares romanos porque eram tão assimétricas que os dois homens obrigaram os burros a andar mais depressa com medo que elas lhes caíssem em cima. Aproximaram-se da Porta do Sol e Valadares percebeu que o cheiro desagradável derivava da esterqueira para a qual os cidadãos despejavam os detritos; não deveriam estar longe desse local isolado onde os bandidos se escondiam durante o dia, o que significava que era arriscado andar sozinho àquela hora. Esticando o braço, o frade puxou a corda para chamar o porteiro; nas proximidades da porta uma figueira enorme servia de abrigo a três andrajosos que dormiam: a passagem para a cidade custava caro e nem toda a gente que se deslocava a Lisboa conseguia entrar. Instantes depois, o porteiro abriu um postigo e observou os visitantes. Perguntou-lhes ao que iam e o que é que traziam.»

«Descobriu um esqueleto encostado ao altar e aproximou-se dele. Parecia ter pertencido a um homem entroncado e deformado: os ossos, pretos como pedra, estavam desmontados, mas distribuídos com minudência de modo a montar a estrutura óssea como ela deveria ter sido. Valadares sentiu-se confundido pelo crânio volumoso e pelo grossíssimo ressalto sobranceiro às órbitas. Enrolado nas clavículas, encontrava-se um cordel com um boneco de osso. Valadares inclinou-se para o examinar. Parecia… Parecia ser uma raposa!... (...) Nesse instante olhou para a parede e gemeu.
(…)
O rosto horrendo do Cristo Lagarto, encortinado pelo fulgor fulvo daquela pedra oculta no interior da terra, possuía um poder fascinante. Nesse momento, o frade notou um movimento inesperado pelo rabo do olho. Olhou para o lado e viu um lagarto sair de um buraco no chão.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Cinco: "Pythonomorpha Pentadactyla".)
Nas livrarias a partir de 17 de Novembro. Uma publicação das edições Saída de Emergência.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Fantasia

«Usando o guarda-chuva como um cajado, Aquilino continuou a subir. A tarde escurecia e ele sentou-se debaixo de uma árvore. Tirou uma sanduíche de chouriço, enrolada num pano verde, do bolso do casaco. O chouriço tinha pouca gordura e o pimentão picava na língua; o pão que já começara a enrijecer estava a deixar-lhe a camisa preta cheia de farinha. Lamentou não ter trazido um livro para ler.
Estava sentado num altinho de onde abarcava um vasto horizonte sobre a cidade. Estreitando a vista podia decifrar os contornos da outra banda; à sua volta o vento rinchante abanava a copa das árvores. Não se descobria vivalma; só os rumores próprios dos bosques: o ramalhar da erva; dois ramos secos a baterem um no outro – tactac – uma bolota que caía.
Então, passo a passo, entre os arbustos, como se deitasse o olho ao chouriço, apareceu uma raposa.
Aquilino não a viu romper da vegetação.
O bicho aproximou-se com orelhas altivas; baixando a cabeça, desconfiado, e farejando com o focinho fino. Assim que a viu, Aquilino matou um soluço de surpresa e deixou-se estar quieto. A raposa ergueu a cabeça e olhou para ele: era um animal pequeno, magrinho, de pêlo arrepiado pelo vento. Devagarinho, Aquilino retirou uma rodela de chouriço de dentro do pão e descaindo a mão com gentileza atirou-a à raposa. Ela seguiu a morcela bamboleante com o olhar, mas não se mexeu, continuando a olhar para Aquilino com a cabeça alta.
‘Olha a minha catita’, disse Aquilino com suavidade. ‘Come, linda, come.’
A raposa girou as orelhas e inclinou a cabeça.
O cheiro da carne tentou-a a dar um passo em frente. Aquilino não se mexeu. Vagarosamente, a raposa lambeu o beiço: o focinho afilado, talhado em malícia pura e sonsice, que a saliva anediava. No afago da sombra, sobre a erva fria, a raposa filou a rodela de chouriço e mordiscou, piscando os olhos de satisfação. Aquilino sorriu e procurou uma rodela menos esburgada para lhe oferecer. Atirou-a e a raposa apanhou o naco no ar com um pinote. Aquilino estava a divertir-se.
‘Raposeta vermelheta’, disse, sorrindo. ‘De onde és tu, santinha?’
Entretido, Aquilino falou com a raposa – e, naquele fim de tarde em Lisboa, a poucas horas do espectáculo de fogo-de-artifício, viu algo extraordinário acontecer: entretida, a raposa sorriu para ele.
Olhos amarelos semicerrados numa careta inteligente – o focinho arregaçado num sorriso: um sorriso humano.
Confundido, Aquilino franziu o sobrolho e olhou-a com mais atenção. A ilusão de óptica desapareceu e a raposa voltou a apresentar uma aparência comum: tinha sido uma fantasia insignificante; um truque produzido pela luz moribunda. A raposa mordeu mais uma rodela de chouriço que Aquilino lhe atirou e foi-se embora engolfando-se nos arbúsculos.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Dois: "Fantasia". Edições Saída de Emergência.)

Nas livrarias a 17 de Novembro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lançamentos da Canto Escuro (mas às claras)

A editora Canto Escuro, do poeta Vítor Vicente, irá lançar dois novos livros no próximo sábado, dia 15: Grafipoesis de Rui Carlos Souto e Odes de Ana Salomé. As apresentações terão lugar na Livraria Trama, às 17H00 (ao Largo do Rato em Lisboa, na Rua São Filipe Nery, nº25B).
Souto já deu à estampa o livro A Poesia dos Pequenos Insectos (Canto Escuro, 2006) e Salomé publicou o livro Anáfora (Edições Pena Perfeita, 2006).

Mas não é tudo: em conjunto, será lançado o novo livro de Vítor Vicente, intitulado Histórias com Pénis e Cabeça, numa publicação das Edições Mortas. (A capa é da autoria de Ana Biscaia.)
Quem está familiarizado com a poesia e a prosa do Vítor terá mais uma oportunidade para levar para casa um novo trabalho que é, simultaneamente, divertido, sensível e que faz pensar. Para aqueles que ainda não conhecem o registo acutilante do autor de As Noites Contadas ou O Tríptico do Narciso, fica o convite para aparecerem (ouçam a entrevista que o Vítor deu a Gilda Castro da TV Universitária de Uberaba, aquando da publicação no Brasil de As Noites Contadas pela Editora O Clássico, que vale a pena).

Consultem o weblog da Canto Escuro e o site das Edições Mortas para saberem mais pormenores destes lançamentos.
Apareçam!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fungágá da bicharada



O booktrailer do novo romance de José Saramago: A Viagem do Elefante. O livro já se encontra nas livrarias, numa publicação da Editorial Caminho.

***

Parece que Novembro será um mês no qual a bicharada vai tomar de assalto as livrarias: começa com um elefante, mas podem crer que, no dia 17, uma certa raposa e um certo lagarto também vão fazer das suas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Apresentações no FIBDA

É já no próximo sábado, dia 8, que a Kingpin Books vai apresentar, às 16H00 no auditório do Fórum Luís de Camões (local que acolhe a 19ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora), o primeiro volume de A Fórmula da Felicidade: história de banda desenhada, escrita por Nuno Duarte e desenhada por Osvaldo Medina. A apresentação contará com as presenças dos autores e do editor Mário Freitas.

«Filho de uma vendedora hippie de marijuana e de um pedaço de vinil de um álbum de Jimmy Hendrix, a vida de Victor, um jovem génio enterrado algures no Baixo Alentejo, ganha um novo alento quando descobre a fórmula matemática da felicidade.»

A Fórmula da Felicidade é um álbum com uma arte fabulosa, cortesia de Medina, e estará disponível em breve.

E no domingo seguinte, às 18H00, no auditório do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), Leonardo de Sá, estudioso de banda desenhada, irá apresentar o seu novo livro: uma biografia sobre o autor António Cardoso Lopes Júnior, mais conhecido pela alcunha de Tiotónio; fundador do mítico jornal de BD O Mosquito (1936). O livro faz parte da colecção NonArte, editada pelo CNBDI.

Duas boas razões para visitarem o FIBDA (e o CNBDI) no último fim de semana de exposições.

Michael Crichton morreu

O escritor norte-americano Michael Crichton morreu na passada terça-feira, com sessenta e seis anos, depois de vários anos a lutar contra um cancro.

Só li um livro de Crichton (o famosíssimo Jurassic Park), há muitos anos, mas lembro-me que, nessa altura, fiquei surpreendido com o modo como o autor conseguia criar um ambiente intenso com muita facilidade e, mais que isso, como não se esquivava de descrever cenas violentíssimas naquilo que era um livro mainstream. Também me lembro de ter visto na televisão, quando era miúdo, o filme Westworld, escrito e realizado pelo próprio Crichton, e de o ter achado fantástico.

Nos últimos anos, o escritor viu-se envolvido em algumas controvérsias, em virtude das suas opiniões impopulares sobre temas como o aquecimento global. Deixo-vos com uma entrevista que ele deu a Charlie Rose, aquando da saída do romance Next. Vale a pena.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vintage? Qual vintage, qual carapuça!

A revista LER deste mês traz uma excelente entrevista (e de muita piada) com Miguel Esteves Cardoso: não percam!

«Outra mentira é dizer: "Ai, o meu próximo livro é que vai ser o melhor". As pessoas têm de manter aquela ficção de que vão melhorando com a idade. Isso é uma ficção terrível. Toda a gente sabe que é quando se é novo que se escrevem os melhores livros.»