sexta-feira, 20 de junho de 2014

Laranjada*


Confesso o meu mau feitio: não considero que países cujas formas de governo se apresentem como sendo monarquias constitucionais sejam democracias autênticas. São monarquias: somente não são absolutistas, mas não deixam de ser monarquias. No entanto, a democracia é, mais do que um sistema de governo, o múnus de um certo estado de coisas. Por exemplo, Portugal, que é um país democrático - para ser mais preciso, é uma república semipresidencialista - ainda possui certos tiques pouquíssimo democráticos (como, aliás, se pode ir vendo, infelizmente). Tudo isto para comentar os recentes acontecimentos políticos de Espanha.

Ora, a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1876, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente Espanha: até aí era o Reino das Espanhas, que é algo bem diferente. De facto, até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma: existiram vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar no século XVI a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Existe documentação portuguesa (e não só) coeva em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de marketing - que funcionou. Existem países que ainda pensam que Portugal faz parte de Espanha ou que se tornou independente dela há pouco tempo, mas a verdade é que a Espanha é que foi criada "ontem" e colada com pouquíssima convicção, como se torna evidente pelos actuais ânimos catalães e outros (Madrid já se pronunciou contra o referendo que a Catalunha quer fazer a 9 de Novembro pela sua independência).
Enfim, a cerimónia de proclamação de Felipe VI foi algo anacrónica, um pouco beata, mas "democracia" não foi palavra que, em definitivo, me veio à lembrança, apesar de ser conspícua no discurso da comunicação social que, deslumbrada, comentava o evento.


E a imagem do Manuel Godoy é só para lembrar aos mais distraídos que existe ainda uma questão chamada Olivença. Parecendo que não, aborrece um bocadito.

* Em calão quinhentista português, uma laranjada não é a bebida feita com o sumo de laranjas espremidas, mas o nome que se dá ao acto de atirar uma laranja - podre, de preferência - à cara de alguém. Isto em referência à chamada Guerra das Laranjas, que os mais historicamente atentos deverão conhecer.
 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Tertúlia literária de amanhã adiada

Caros, a tertúlia literária Poesia e Arte agendada para amanhã, às 21H30, comigo e com Charles Sangnoir, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), foi adiada para dia 24 de Junho, à mesma hora, por motivo de última hora. Reagendem e divulguem, por favor. Obrigado.


Homens sem mestres


O modo como a história, de Portugal, em principal, é tratada nestas linhas assoma a uma leviandade que quase se transfigura em objurgação, bem vistas as coisas: só quem não sabe nada sobre a história oitocentista de Portugal pode ser tentado a levar a sério este discurso que, entre outras coisas, pretende transplantar para esse período um ponto de vista, maioritariamente, contemporâneo sobre o que significa ser-se de Direita, que neste artigo se encontra reduzido ao prosaico conservadorismo. Neste momento, naquilo que é, acima de tudo, uma partilha, não terei espaço para explanar, nem sequer superficialmente, o quanto o artigo erra quando vai por esses caminhos quasi-revisionistas (bastaria, para o efeito, lembrar uma data - 1828 - e um número - 12.000 indivíduos exilados, enforcados e decapitados), mas tenho latitude para lançar uma interrogação: existem intelectuais de Direita e intelectuais de Esquerda ou, por outro lado, existem intelectuais, ponto? Com efeito, quando o pensamento se põe ao serviço da política passa a chamar-se propaganda: até pode ser uma propaganda que vai na direcção dos nossos gostos, mas não deixa de sê-lo.

Para mim, um verdadeiro intelectual, público ou não-público, de Direita ou de Esquerda, define-se - sempre - por aquilo que John dos Passos chamou a Thorstein Veblen na biografia The Bitter Drink que sobre ele escreveu: «um homem sem mestres». O resto são fogos-de-vista lançados ao ar para vender jornais e para, como sempre foi o objectivo das forças reaccionárias portuguesas, desde os tempos do absolutismo, saciar as vontades das classes hegemónicas cultivando a total alienação daquilo a que elas chamam plebe. Não mudámos nada - nada.


Bairro Alto: Uma Pós-Cirurgia - amanhã às 21H30

 
 
Lembro que amanhã, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte, que se reúne todas as terças-feiras no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa. Iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia (escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir), composta originalmente para as comemorações do quinto centenário do Bairro Alto e apresentada ao público no Palácio Quintela, em Dezembro de 2013. Também se irá ler poesia e prosa de Fernando Pessoa (figura sobre a qual já escrevi no meu romance A Conspiração dos Antepassados). Apareçam.

Deixo-vos com um excerto de Bairro Alto: Uma Cirurgia:

«O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.
      
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.

O Bairro Alto é uma cirurgia.

Mas que cirurgia é esta?

Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?

Estas ruas centenárias, que resistiram incólumes a vários terramotos, moradas mórbidas de desesperos e desejos, são os liçaróis e os liços da urdidura central olisiponense: sem o Bairro Alto como tear, a manta de retalhos que é a Lisboa contemporânea nunca teria sido meselada; nunca teria perseguido, sôfrega, o Sol na sua libitina trajectória ocidental. Sem esse primitivo modelo, o levantamento da Lisboa Pombalina não teria acontecido: toda a Lisboa imitou o Bairro Alto, olhou para ele e ficou estupefacta com o futuro que ela própria já encerrava – ficou de queixo caído à margem do Tejo e nem Cristino da Silva nem França Borges foram fortes o suficiente para o lacerar. Persistindo incólume às calamidades provocadas por deuses e homens, ele é o único grande fóssil vivo de Lisboa – tão assombroso e anacrónico quanto um variegado celacanto. Mas não se pode compreender essa cirurgia sem uma iniciática diérese territorial.»


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa no próximo Domingo


Os vencedores do desafio relacionado com o meu romance Lisboa Triunfante já foram anunciados. Entretanto, aqui fica, também, uma foto minha, tirada enquanto escrevia esse romance, algures no primeiro semestre de 2008.
É uma boa imagem para lembrar que no próximo Domingo, dia 15, estarei na Feira do Livro de Lisboa, junto ao pavilhão da distribuidora Europress, adjacente à Praça Amarela, entre as 17H30 e as 19H00, para assinar os meus livros, os de prosa e os de BD. Apareçam.

Vencedores do desafio «Lisboa Triunfante»


Os vencedores do desafio que lancei esta semana, relacionado com o meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), foram os leitores Inês Duarte (Torres Vedras), Marta Mortágua (Alcabideche), Inês Raquel (Agualva) e Humberto Morais (Beja). Parabéns - e, como diz a Raposa, atrevam-se a imaginar.

(Inês Duarte)

(Marta Mortágua)

(Inês Raquel)

(Humberto Morais)

Em breve, receberão pelo correio um exemplar do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), escrito e interpretado por mim e musicado por Charles Sangnoir (de La Chanson Noire), que, tal como Lisboa Triunfante, consiste numa autópsia psicogeográfica sobre essa cidade.


Entretanto, informo todos os leitores que no site das edições Saída de Emergência está disponível para download gratuito um companion que escrevi sobre Lisboa Triunfante, no qual discorro com profundidade - e sem spoilers - sobre as temáticas e escolhas que nortearam a escrita desse romance: para o efeito, basta que se registem, também gratuitamente, no site da editora para descarregar o ficheiro nesta ligação.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Tertúlia literária com David Soares e Charles Sangnoir


Na próxima terça-feira, dia 17 de Junho, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte que se reúne regularmente no Bairro Alto, em Lisboa, sempre às terças-feiras, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60): iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia, escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir, que apresentámos pela primeira vez no Palácio Quintela, no âmbito das comemorações do quinto centenário do Bairro Alto. Desta vez, a componente musical será tocada ao piano, num formato acústico, conveniente ao intimismo do evento. Acrescento que esta edição da tertúlia Poesia e Arte centrar-se-á na obra poética de Fernando Pessoa, que revisitarei em interpretações também musicadas.

Quem ainda não conhece a força e originalidade da parceria entre mim e Sangnoir poderá descobri-las, por exemplo, ouvindo o nosso disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Deixo-vos a ligação para o tema A Lua do Loreto, pertencente a esse trabalho, e convido-vos a assistir à nossa interpretação na próxima terça-feira.

terça-feira, 10 de junho de 2014

«Terminal Tower» de André Coelho e Manuel João Neto


O meu cúmplice André Coelho acaba de publicar um novo livro de banda desenhada, em colaboração com Manuel João Neto, intitulado Terminal Tower, uma observação apocalíptica que, certamente, J. G. Ballard ou até Thomas Pynchon gostariam de ter imaginado. Eu li e recomendo. Aliás, já escrevi sobre ele para o catálogo do Festival Internacional de BD de Beja deste ano. Deixo-vos com esse texto, intitulado O Apocalipse é Fácil. Em seguida, leiam Terminal Tower, que é bom que se farta (uma edição Associação Chili Com Carne, 2014).

O Apocalipse é Fácil

A vida é líquida: derrama do corpo quando este fica repleto de memórias e cheio de perguntas. Não haverá dias melhores: apenas ausência. E confusão para quem permanece.

Quando os organismos morrem, ficam mais pequenos. Que lhes falta? Alma? Ou, apenas, informação? Vimos ao mundo somente para largar informação: genes e obras de arte – crianças, livros. Fósseis resgatados pelos corifeus do progressismo como provas de passados gloriosos; no entanto, quem os deixou não manteve nenhuma revivescência como horizonte. Não pode predicar-se o passado – nem o futuro – dessa forma.

Todas as culturas atribuíram um papel ominoso à ameaçativa estrutura que é a torre, símbolo da húbris, da catástrofe – cunha que se intromete nas rachas da cultura de modo a alargar o estrago e acelerar a queda das sociedades. Capciosamente, transformámos essa representação em transmissor de informação. Contrário ao sinal, o ruído é unidimensional. Contrária à vida, a morte é unidimensional. A vida é um esforço para criar relevo. Isto é Babel: relevo na desértica paisagem achatada; alto o suficiente para alcançar o empíreo. Os batimentos cardíacos no ecrã retinto do monitor são pequenas torres, coruscantes sismografias, avisando que ainda se está vivo, que ainda se comunica. E o mais admirável é a nossa inflexível esperança de que ALGUÉM ESTÁ A OUVIR!...

A esfera, o sólido perfeito, o corpúsculo, o ponto, o elemento constituinte da matéria, é, afinal de contas, unidimensional. Todos os mitos recipiendários têm origem no surgimento da esfera – nunca existiu uma tabula rasa, mas uma orbis rasa. A esfera e a torre são a estilização gráfica da iniciática emissão que perdura em nós. Somos ecos. Somos apenas cópias. Imperfeitas, mas algumas são ainda mais defeituosas. Algumas são monstros.

Os monstros habitam as margens dos sistemas e invadem o centro quando este adoece. Ciápodes – ciclopes: o monstruoso representa uma deformação da unicidade, uma visão unária, indeclinável. Autocrática. Não é à toa que os ditadores são monstros, turiferando um discurso monossilábico até que a informação se transforme em ruído. A forma mentis do monstro fá-lo surgir no folclore como arauto do cataclismo, como mordomo do apocalipse, porém, na vida verdadeira, os monstros não irrompem antes, mas depois. Depois da bomba, os estropiados – depois da expilação nuclear, os mutantes. A monstruosidade é uma sátira cruel à diversidade, uma fantochada feita de ruído. Não tem beleza. Não tem significado. A não ser a beleza do aleatório e o significado que decidimos impor. Criar relevo é inventar significados: vivemos numa realidade imaginada, mas as ficções que criamos não são mentiras, são exofenótipos – não se pode ser humano sem uma torre, mas aceitar a torre é aceitar o monstro. Aceitar o apocalipse. Nada é mais fácil.

Nada é mais terminante.



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Passatempo «Lisboa Triunfante» com a revista Sábado


Na próxima quinta-feira, dia 12, a revista Sábado irá dar aos seus leitores a oportunidade de levarem para casa o meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008).
Nesse sentido, desafio os meus leitores com o seguinte passatempo:

- os três primeiros leitores que me enviarem no dia 12 uma selfie sua com o livro irão receber um disco original autografado do meu spoken word Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment, 2012).

Para o efeito, basta enviarem as selfies, mais as vossas moradas, assim como uma autorização por escrito em como posso divulgar as imagens aqui no blogue e na minha página de Facebook, para o seguinte endereço de email: cadernosdedaath@gmail.com



sábado, 7 de junho de 2014

«Lisboa Triunfante» com a revista Sábado


A partir da próxima semana, a revista Sábado irá dar aos seus leitores a oportunidade de levarem para casa um romance publicado pelas edições Saída de Emergência. Até ao dia 3 de Julho, a Sábado irá disponibilizar quatro romances diferentes por semana, sendo que no dia 12 de Junho (próxima quinta-feira) um deles será o meu Lisboa Triunfante (2008).

Agora que decorre a Feira do Livro de Lisboa, esta iniciativa é apenas mais outra excelente oportunidade para (também a um preço muito simpático) os leitores que ainda não conhecem Lisboa Triunfante o levarem para casa. A Raposa e o Lagarto agradecem.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Breve observação sobre a santa que derrubou uma constituição

 
Não se pense que o desgosto pela constituição é um fenómeno contemporâneo. Na realidade, desde que Manuel Fernandes Tomás redigiu a primeira constituição portuguesa, em 1822, que diversas facções direitistas, conservadoras, reaccionárias e tradicionalistas tentaram, unanimemente, por vários meios contra-ideológicos, desde o púlpito aos pasquins de contrafacção política, desacreditar o projecto constitucional e difamar os seus defensores. O que existiu nessa altura é, em suma, aquilo que ainda pode ser observado hoje: um conflito irreconciliável entre duas visões de fazer política, sendo que uma apoia-se na edificação de um estado de direito, no qual o poder político se subordina à lei - e a expressão máxima dessa lei é a constituição -, e outra que crê num neo-absolutismo, legitimado pressurosamente pelo sufrágio democrático, como se a concepção de democracia aí se esgotasse - uma espécie de "democracia possível" (sendo que possível, aqui, deva ser lido à lente do significado que lhe imprimiu Lucien Goldmann) que recua, de imediato, ao mínimo entrechoque com a vontade do poder.

Esse primevo esforço constitucional de oitocentos terminou, em definitivo, com a chamada Vilafrancada, uma insurreição direitista, contra-revolucionária, liderada por D. Miguel, a 27 de Maio de 1823. Porém, cerca de um ano antes, a 28 de Maio de 1822, ocorreu um espaventoso milagre que serviu de rastilho à imaginação popular e fortaleceu muitíssimo a ressonância reaccionária das massas, travejando o terreno para se reerguer o empoeirado absolutismo. Hoje, esse acontecimento está quase esquecido, mas eu venho lembrá-lo, porque considero-o de uma pertinência acutilante. Para comodidade de leitura, abrevio a sequência dos acontecimentos numa linha cronológica simples.
O bispo de Vila Viçosa e o cardeal-patriarca de Lisboa recusaram jurar as bases da novíssima constituição e o segundo calhou a ser deportado para fora do reino por culpa disso; em seguida, numa lapa do chamado Sítio da Rocha (hoje, Linda-a-Pastora, no concelho de Oeiras), à margem do Rio Jamor, foi encontrada uma imagem espectacular da Nossa Senhora da Conceição, entidade que é padroeira de Portugal desde 1646. A descoberta da imagem foi, num ápice, interpretada pelos rústicos e pelos escribas direitistas como sendo um sinal de que a padroeira estava descontente com o desterro do cardeal-patriarca e com o curso das mudanças politico-sociais do seu reino: até porque a imagem original da padroeira encontrava-se (e encontra-se) no santuário de Vila Viçosa; logo, era uma demonstração de santa solidariedade pelas posições políticas do bispo de Vila Viçosa e do cardeal-patriarca de Lisboa. Tanto que a imagem foi transladada da mefítica margem jamoriana para o interior da Sé de Lisboa - não antes da lapa se ter transformado num popular ponto de culto contra-revolucionário: a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, como foi cognominada, convertera-se em vera padroeira da contra-revolução, granjeando até a devoção de D. Miguel, cuja mãe, D. Carlota Joaquina, também se recusara (em Outubro de 1822) a jurar a constituição (a imagem que ilustra este artigo mostra-o, mais as irmãs, a rezar à Nossa Senhora da Conceição da Rocha, na Sé de Lisboa).
Este popularíssimo culto religioso contra-revolucionário insuflou velas largas e foi, ao seu advento, descrito e romanceado em dezenas de folhetins e artigos de jornais, consistindo num dos acontecimentos simbólicos que contribuíram com mais importância para a queda do Vintismo. Não é claro de que forma foi forjado este culto, nem por quem, mas, como se costuma dizer, foi a ideia certa no momento certo (infelizmente).

Creio que será prematuro rirmos dos nossos antepassados, que, com diligência, ingenuidade ou manha, acreditaram prontamente neste milagre forjado para fins políticos, instrumentalizando-se para o efeito a superstição e a bisonhice em que os portugueses, exauridos e analfabetos, estavam ensopados. Centro e quatro anos depois, em outro 28 de Maio, outros santos contra-revolucionários (também de inspiração mariana, curiosamente) foram inventados para derrubar o governo republicano presidido por António Maria da Silva, aproveitando, novamente, o misoneísmo dos portugueses. No fundo, os nossos pontuais episódios democráticos costumam ser interrompidos pelo avanço de energias conjuntas de sinal oposto e de maior duração.
Estamos, pois, a pouco mais de uma década de mais um aniversário desta bonita tradição hagiológica que mescla o sagrado de pendor popular e a política de pendor populista - os santos contemporâneos contra-revolucionários que espumam vitupérios contra a obstaculizante constituição estão todos na praça pública a competir pelo altar. Quem sabe qual deles será a nova Nossa Senhora da Conceição da Rocha e quem sabe qual deles será o novo Salazar?


quinta-feira, 5 de junho de 2014

«Sepulturas dos Pais», um teaser + Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa

Lembro que no próximo domingo, dia 8, das 17H30 às 19H00, estarei na Praça Amarela da Feira do Livro de Lisboa para assinar exemplares dos meus livros. Aí perto, encontra-se o stand da distribuidora Europress, no qual poderão encontrar algumas das minhas obras mais recentes em banda desenhada, publicadas pela editora Kingpin Books, como O Pequeno Deus Cego (2011) e Palmas Para o Esquilo (2013). Estes títulos foram desenhados por Pedro Serpa.
Também na Feira do Livro de Lisboa se encontram os stands da editora Saída de Emergência, onde poderão encontrar os meus romances Batalha (2011), O Evangelho do Enforcado (2010), Lisboa Triunfante (2008), A Conspiração dos Antepassados (2007) e, também, o livro de banda desenhada É de Noite Que Faço as Perguntas (2011).

No que concerne ao meu próximo livro, Sepulturas dos Pais, escrito por mim, desenhado por André Coelho e legendado por Mário Freitas, deixo este teaser, feito com as primeiras cinco páginas. Sepulturas dos Pais consiste numa observação negríssima sobre o facto de que nem sempre o maravilhoso oferece redenção (será editado em Novembro pela Kingpin Books).








quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vídeo da tertúlia literária "Letras e Ideias"



Quem não foi à tertúlia literária "Letras e Ideias", agendada na programação da passada terceira edição do festival Livros a Oeste, na Lourinhã, pode ver este vídeo dessa conversa, com a minha participação, a participação de Rui Tavares e com moderação de João Morales (organizador do festival). Uma verdadeira conversa sobre letras e sobre ideias: desfrutem.

domingo, 1 de junho de 2014

Livros a Oeste 2014: muitas letras e ainda mais ideias

No 3º Festival Livros a Oeste (Lourinhã), na tertúlia literária "Letras e Ideias", comigo, Rui Tavares e João Morales (moderador). Quem não foi não sabe o que perdeu.
Para reflexão à lente dos acontecimentos políticos europeus dos últimos dias (que se debateram e sobre os quais escrevi nesta ligação e, ainda, aqui), deixo-vos com um dos conceitos que imaginei durante a conversa: a despolitização da esfera pública é, na verdade, uma politização radical por via do conformismo.



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Autógrafos meus na Feira do Livro de Lisboa


Autógrafos meus na 84ª Feira do Livro de Lisboa (que abriu ontem, no Parque Eduardo VII):
- As feiras do livro são bons locais para os escritores divulgarem os seus livros e falarem com leitores que, de outro modo, nunca conheceriam, mas, falando do conceito em si, nunca gostei de feiras do livro. Odeio ver as barracas com os livros expostos como se fossem peixes nas lotas, as roulotes de farturas e as animações cafonas que se inventam para divertir gente que, durante o resto do ano, nunca se lembra, sequer, de pôr os pés numa livraria. (Ponto positivo para a feira do livro de Lisboa, contudo: há sempre um quiosque qualquer com boas bicas a poucos passos de distância de qualquer sítio onde se esteja.)

Dito isto, informo que estarei na feira do livro de Lisboa para assinar exemplares dos meus livros:
- nos dias 8 e 15 de Junho, sempre das 17H30 às 19H00, na Praça Amarela, adjacente ao stand da distribuidora Europress, no qual poderão, entre outros títulos de minha autoria, adquirir Palmas Para o Esquilo, escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa (Kingpin Books, 2013).


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Para que se entenda do que se fala quando se fala em extrema-direita

Repudio com veemência o discurso de exculpação com que alguma comunicação social e a opinião pública nas redes sociais indulgem aqueles que votaram em partidos de extrema-direita nas passadas eleições europeias, caracterizando esses votos como sendo de protesto por um sistema partidário incompetente ou corrupto que não resolve os problemas dos cidadãos. Em sinal contrário, eu caracterizo esses votos em partidos extremo-direitistas como sendo atestados de ignorância política e histórica, alimentados pelos mesmos impulsos volúveis que estiveram na origem dos movimentos reaccionários de massas que, agora, esses partidos extremo-direitistas imitam nos modos, nas propagandas e nos programas.
Sob o selo da segurança da nação, do discurso anti-imigração e do agitamento de fobias etnocêntricas, que variam de alvos e grau de violência consoante os países, velhas ideias (como a esterilização obrigatória de indivíduos considerados inaptos para a reprodução e o aborto de fetos com síndrome de Down e espinha bífida) estão a ressurgir, diante da complacência, da falta de informação e da cumplicidade de todos aqueles que acreditam em soluções simples, personalizadas nas vontades de certos líderes mais ou menos carismáticos (na visão de quem os segue), para problemas complexos, compostos por diversas forças sociais e económicas agindo em conjunto. O discurso do autoritarismo é, sempre, o do monossílabo.
Parece-me que o cultivo da memória e a transmissão do conhecimento tem falhado e produzido os seus monstros, daí que será útil olhar, sem máscaras, aquilo que, de facto, se está a falar quando se fala em extrema-direita. Para o efeito, recolhi umas imagens que considero representativas de um período que não deve regressar. Escolhi imagens relacionadas com os crimes de guerra e flagelos sociais realizados pelos nacionais-socialistas, na primeira metade do século XX, porque é o movimento reaccionário de massas que conheço com maior profundidade - assim como me parece ser este o movimento reaccionário de massas que mais escola tem feito nos cernes dos vários partidos extremo-direitistas contemporâneos. Em rigor, quando se fala em extrema-direita não se está a falar em votos de protesto - está a falar-se disto:


Cartaz de propaganda eugénica nacional-socialista contra a «vida inadmissível de viver»: o texto doutrina que um indivíduo doente custará 50 000 marcos ao estado até que chegue aos sessenta anos de idade. O slogan maior diz, explicitamente, que «são vocês [o público] que suportam este custo». A demonização dos doentes físicos e mentais e dos idosos, entre outros, desumanizando-os como vidas inúteis, serviu o propósito de anediar a tolerância das massas aos extermínios etnocêntricos e religiosos que, em breve, se seguiriam. 


Os campos de concentração e os campos de extermínio começaram por ser pequenos, mas, em poucos anos, cresceram muitíssimo, tornando-se fábricas de morte que poderiam alcançar diversos quilómetros quadrados. Em cima: a entrada do gigantesco campo de concentração e extermínio Auschwitz II - Birkenau; em baixo: uma vista aérea do imenso campo de concentração de Dachau. Os campos de extermínio foram construídos com o único objectivo de serem rápidas e eficientes fábricas de genocídio, embora os campos de concentração também fossem campos de tortura e execução maciços.




Raparigas e mulheres grávidas enforcadas em praça pública: consistiu na eliminação de mulheres para impedir a reprodução da «vida inadmissível de viver». Muitos crimes desta natureza foram perpretados por civis, encorajados por milícias paramilitares e pela SS, veiculando, assim, os preconceitos e ódios de estimação das povoações. Quando a cúpula age de um determinado modo, as bases comportam-se de acordo com esse exemplo. 


Milhares de famílas consideradas indignas de viver pelos padrões do regime foram fuziladas por milícias paramilitares e populares.


Prisioneiros morrendo lentamente nos campos de concentração nacionais-socialistas.


O suicídio foi uma realidade tangível no dia-a-dia dos campos de concentração nacionais-socialistas.


Escravos de um campo de extermínio nacional-socialista arrastam um indivíduo assassinado na câmara de gás até aos fornos crematórios.


Fornos crematórios do campo de concentração e extermínio de Majdanek, com cinzas e ossadas de prisioneiros incinerados, em primeiro plano, na metade inferior da imagem.


Quando os inúmeros fornos eram, ainda assim, insuficientes para incinerar a quantidade de indivíduos assassinados nas câmaras de gás, os corpos eram incinerados em grandes valas, como pode ver-se na imagem acima, tirada no campo de Auschwitz II - Birkenau.


Corpos empilhados no campo de Dachau, num pátio adjunto aos fornos crematórios, à espera de serem transportados para o interior, de molde a serem incinerados.








Livros de que o meu gato gosta


Plutão, o meu gato, gosta de esconder-se nos espaços exíguos entre as prateleiras e os livros. Adora o cheiro deles e, às vezes, selecciona uns quantos, deitando-os ao chão e puxando-os das estantes com as garrinhas. Eis alguns dos livros que, até este momento, ele já escolheu e assinalou como seus preferidos, espojando-se sobre eles:

- Rats: A Year With New York’s Most Unwanted Inhabitants, de Robert Sullivan (este até o caçou – será pelo título?)

- A Perfect Red: Empire, Espionage and the Quest For the Colour of Desire, de Amy Butler Greenfield

- Sex Crimes From Renaissance to Enlightment, de William Naphy

- Stories Toto Told Me, de Frederick Rolfe (Barão Corvo)

- Don Renato, de Frederick Rolfe (Barão Corvo)

- Against the Day, de Thomas Pynchon

- Gravity’s Rainbow, de Thomas Pynchon

- História da História em Portugal, de Luís Reis Torgal, José Maria Mendes e Fernando Catroga (na imagem)