sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Caetera desiderantur: centenário da morte de Barão Corvo

A obscura obra literária de Frederick Rolfe (o apelido deve pronunciar-se Rofe, como o autor preferia), autodenominado Barão Corvo, pode (para efeito simplificativo) classificar-se como sendo um synallagmatikós entre o romance histórico e a autobiografia; porém, a ficção autobiográfica de Corvo não possui nenhum grau de parentesco com aquelas ficções interinsulares sobre escrevinhadores que lutam contra hipsobatimétricos bloqueios criativos, sempre desfeitos no último momento do prazo de entrega do texto por alguma inspiração que musos providenciais lhes insuflam quase por acidente. De facto, em romances como Nicholas Crabbe: or, The One and the Many, escrito, provavelmente, em 1904, mas somente publicado em 1958, e na sua sequela The Desire and Pursuit of the Whole, escrito entre 1909 e 1913, mas apenas publicado em 1934, é mostrado ao pormenor o dia-a-dia loxodrómico deste autor que, mesmo morrendo de fome nas ruas de Londres e Veneza, nunca deixou de trabalhar que nem um "taylorista" nos seus manuscritos, por ele caligrafados e encadernados com requinte - na verdade, poucas vezes uma palavra poderá ser tão bem aplicada como neste caso, pois caligrafia significa escrita bela (ou estilo admirável, se quisermos ser um pouco mais poéticos) e a letra de Corvo é belíssima, sempre desenhada com cores incomuns.

Nessa actividade maníaca é sedutor ver-se a herança rigorosa dos monges miniaturistas medievais, até porque Rolfe nunca aceitou o facto de lhe ter sido recusada uma carreira eclesiástica no seio da igreja católica: antes de ser escritor (e pintor e fotógrafo), apenas quis ser padre, mas foi, prematuramente, expulso do Scotts College de Roma, onde estudava os preceitos sacerdotais. Privado de ingressar num ofício sagrado, Corvo atravessou uma espécie de processo teantrópico: ou seja, do Divino para o Humano - do sacerdócio para a criação artística, entenda-se. Pioneiro da fotografia a cores e subaquática, foi nas letras que revelou ser um artista de elevada qualidade, criando desde cedo um estilo autoral distinto, mas incompreendido pelo grande público em virtude da sua ornamentalidade, que mescla referências clássicas, trechos compostos em latim e grego (sem tradução), uso de um verbomaníaco vocabulário, pejado de palavras crípticas e neologismos, mas, sobretudo, remordente no imperdoável ferrão com que espicaça os seus adversários. Melhor que ferrão: pinças!, pois o caranguejo foi seu signo zodiacal e avatar (a personagem Nicholas Crabbe é a corporização mais reconhecível). Mas, em italiano, a palavra corvo significa, gulosamente, escritor de cartas anónimas - geralmente, as verrinosas. O poeta Wystan Hugh Auden apelidou Rolfe de «mestre da vituperação», aludindo às famosas cartas (não-anónimas) com que este esfiapava os seus adversários do meio literário, da alta sociedade e da ICAR.

O estilo erudito e arisco às estruturas convencionais de enredo plasmado nos seus romances e a visibilidade catacáustica que estes foram reunindo ao longo das suas provisórias publicações têm afastado o Barão Corvo de gerações de leitores que, hoje, mais do que ontem, talvez não possuam as chaves necessárias para decifrá-lo. O mundo literário tarda em reconhecê-lo, em parte porque Corvo não teve campeões da crítica: é, sobretudo, um escritor que é lido e admirado por escritores - quando é lido, de todo.
Enquanto conhecedor e admirador da obra de Corvo, sublinho que ela se encontrava muito à frente do seu tempo, na hábil concatenação de modos diversificados de escrever: como o (autêntico) romance histórico e a ficção biográfica, que já citei, mas, também, prolepticamente, o romance neológico "joyceano" ou "proustiano". Autónoma à adversidade que o animou contra a igreja católica, enquanto instituição, a fé que professou foi intensa, mas esta nunca influíu sobre a sua obra literária: nenhum romance de Corvo apresenta as ideias de perdição e de perdão que podem ler-se nos redentoristas romances "católicos". Também não foi um decadentista, embora a sua obra toque tangencialmente nessas temáticas. Em maior espessura, Corvo poderá inscrever-se na mesma família de autores autobiográficos, como Thomas De Quincey - ou George Gissing, autor do pungente New Grub Street, que, nem de propósito, partilha proeminências com o mundo de Nicholas Crabbe: em ambos os títulos, é descrita a difícil vida dos escritores eduardianos e, em ambos, os desfechos são terríveis, embora em Nicholas Crabbe se sublevante uma maior sinistralidade, porque personagem e autor se encontram aí separados por uma membrana muito mais transparente que em New Grub Street. E isto é dizer muitíssimo, porque o final de New Grub Street é um dos mais dispépsicos que já li.
Passados cem anos após a sua morte, Corvo e a obra que deixou permanecem excêntricos - no sentido de fora do centro. Dificilmente poderia ser de outra forma: hoje, para ter sucesso, basta estar onde está o mercado - e, para isso, ser-se bom não interessa nada, quando não consiste, até, num obstáculo.

A maioria das biografias existentes sobre Frederick Rolfe (são apenas quatro - e uma foi publicada no passado mês de Abril) insistem em vê-lo como um verrinista que injustiçou aqueles que, no fundo, até o quiseram ajudar, mas observando com atenção as informações factuais e as correspondências que chegaram até nós é flagrante que Corvo estaria, de facto, nas listas negras de algumas publicações, editoras e até de certas esferas católicas. O seu feitio frontal e a intolerância que tinha à mediocridade facilmente o faziam cair em desgraça diante dos bonzos da altura. Fascinado pela sua queda, o biógrafo A. J. A. Symons compôs em The Quest For Corvo um retrato empático, ainda influente, mas algo pseudoepigráfico - faz-me lembrar a biografia de Fernando Pessoa escrita por João Gaspar Simões, que até é uma leitura empolgante, mas nubivagante. Robert Scoble, autor de Raven: The Turbulent World of Baron Corvo, beneficia de informações mais apuradas e corrigidas, mas, ainda assim, desenha um perfil psicológico assente na crença de que o autor de Hadrian The Seventh sofria de um transtorno de personalidade paranóide, para o qual não existia medicação.
Com maior ou menor razão para isso é sempre tentador ver sinais de doença mental no comportamento dos artistas, porque dessa maneira o seu carácter único - que o têm - excresce de uma deficiência e não do génio. A verdade é que os homens pequenos não gostam dos homens grandes - se estes forem doentes, encontrar-se-ão mais próximos da pequenez daqueles. É possível que Rolfe padecesse de paranóia - ou até de transtorno de personalidade limítrofe, sabemos lá -, mas eu acho que aquilo que o atormentava e que, concomitantemente, o levava à depressão, era o simples facto de ter plena consciência de que era um gigante entre anões; era o simples facto de, por culpa desse isolamento intelectual, ter de tolerar, consentir, deixar passar, o comportamento, a boçalidade e a deslealdade de homens de menor qualidade.

Poucos escritores declararam a sua admiração por Corvo: Ronald Firbank, Evelyn Waugh, Graham Greene e Alexander Theroux serão, provavelmente, os casos mais conhecidos - e entusiastas. Descobri a obra de Rolfe com o romance Hadrian The Seventh, publicado em 1904, que tem como protagonista outro avatar corvino: a personagem George Arthur Rose, amigo de Nicholas Crabbe, que, numa reviravolta inesperada, é eleito Papa. Há poucas linhas escrevi que Rolfe passara por um processo teantrópico e, na verdade, o Humano que encontrou ao descer do Divino foi ele próprio: Rose, ou Hadrian VII, não perde tempo com assuntos espirituais, como os Papas comuns; antes prefere moldar "maquiavelicamente" os assuntos seculares (e é bom que haja tabaco suficiente até o mundo ser refeito à sua imagem). Aquilo que me atrai na obra de Rolfe é a sua omnivagância, a sua visuriência, o sentimento libertador de que se está a ler um autor que não está preocupado com mais nada a não ser a indulgência de imergir-se completamente no seu próprio mundo.
Este texto, publicado neste dia, é a minha contribuição para que se mantenha viva a memória e a obra deste criador único, que, como poucos, foi movido por um fogo interior de uma enormíssima resistência.    

Frederick Rolfe, o Barão Corvo, morreu em 25 de Outubro de 1913, num quarto do hotel Palazzo Marcello, à beira do Grande Canal, em Veneza. Conseguira convencer o dono do hotel a dar-lhe, finalmente, guarida, depois de passar meses a dormir na rua, onde contraíu bronquite e foi constantemente mordido por ratazanas. No entanto, nunca deixou de escrever e, ao falecer, deixou terminado mais um romance: The Desire and Pursuit of the Whole - um título aristotélico que dá o sopro de vida a uma espécie de sequela, com final feliz, de Nicholas Crabbe. Mas Corvo não teve um final feliz. Morreu sozinho, ignorado e sem ver a sua obra reconhecida. Está sepultado no cemitério veneziano de San Michele e serão pouquíssimos aqueles que o visitam.
Todos os homens morrem sozinhos - mas existem alguns que têm tanta solidão dentro deles que morrem mais sozinhos que os outros. Caetera desiderantur - ainda falta o resto.
A verdade é que ainda falta o resto todo.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Entrevista em duas partes


À aproximação do Amadora BD, dei uma grande entrevista (em duas partes) para o blogue sobre banda desenhada Acalopsia.

A tónica desta entrevista é colocada sobre a minha faceta de autor de BD, mas também se aproxima de outras, como verão.
É uma entrevista onde falo pela primeira vez sobre uma série de questões, por conseguinte é de todo o interesse para os meus leitores.

 
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

«Palmas Para o Esquilo» nomeado para três Prémios Nacionais de Banda Desenhada


Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, está nomeado para três Prémios Nacionais de Banda Desenhada:

- Melhor Álbum Português
- Melhor Argumento Para Álbum Português
- Melhor Desenho Para Álbum Português

Os vencedores desta edição dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada, atribuídos pelo Amadora BD, serão conhecidos no dia 2 de Novembro.


 


Exposição e autógrafos no 24º Amadora BD


Na próxima sexta-feira 25, abrirá ao público a vigésima quarta edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora - ou Amadora BD - no Fórum Luís de Camões. Este festival terminará no dia 10 de Novembro.

Este ano, os meus leitores poderão ver uma grande exposição dedicada à minha obra em banda desenhada, intitulada David Soares: O Acto da Escrita é Um Acto de Autor.
Esta exposição especial consistirá numa viagem pelo meu processo de criação de BD e nela ver-se-ão vários materiais referentes a diferentes etapas desse processo: desde apontamentos e esboços pré-argumentos dactilografados, passando por layouts (planificações pormenorizadas que faço de cada prancha) de diversos livros de banda desenhada que escrevi - como É de Noite Que Faço as Perguntas (Saída de Emergência, 2011. Desenhos de Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel Silverstre da Silva e Richard Câmara), O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011. Desenho de Pedro Serpa) e Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013. Desenho de Pedro Serpa) - até, claro, os argumentos dactilografados, disponíveis para leitura.
De igual modo, estarão expostas pranchas originais de diferentes bandas desenhadas que escrevi, desde Mucha (Kingpin Books, 2009. Desenho de Osvaldo Medina e arte-final de Mário Freitas) até Palmas Para o Esquilo, assim como pranchas originais dos livros Sammahel (Círculo de Abuso, 2001) e A Última Grande Sala de Cinema (Círculo de Abuso, 2003) que escrevi e desenhei - evocando, desta forma, o período a solo da minha carreira na BD, para surpresa de leitores mais recentes que, provavelmente, ignorem que eu também desenho.
Todos os livros supramencionados estarão disponíveis para leitura na exposição.

Apesar da tónica ser colocada na minha obra em banda desenhada, mais surpresas, alusivas a outras facetas do meu trabalho, irão marcar presença; entre as quais um posto de escuta onde os visitantes da exposição poderão ouvir o meu segundo disco de spoken word Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), que conta com produção e música de Charles Sangnoir (La Chanson Noire, Karuniiru). Os textos dos capítulos deste disco também estarão disponíveis para leitura. Quem me acompanha desde os primeiros anos lembrar-se-á que o meu primeiro disco de spoken word foi lançado em 2002 e intitula-se Lisboa, contando com produção e misturas de Fernando Matias (F.E.V.E.R., Mourning Lenore). 
David Soares: O Acto da Escrita é Um Acto de Autor será, no fundo, uma oportunidade única para o público, no geral, e para os meus leitores, em particular, descobrirem com maior profundidade um pouco dos bastidores de algumas facetas da minha obra, que faz treze anos de publicação ininterrupta.

Também estarei presente no Amadora BD para assinar exemplares dos meus livros, entre os quais o novo Palmas Para o Esquilo. Os dias e as horas em que poderão encontrar-me na zona dos autógrafos são os seguintes:
- Sábado 26 de Outubro, das 17H00 às 19H00
- Domingo 3 de Novembro, das 16H00 às 18H00
- Sábado 9 de Novembro, das 16H00 às 18H00

Vemo-nos por lá.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Diário Plutónico #2: O Gato Que Tinha Estrelas


O rabo do gato preto e branco mete respeito: inteiriçado como um ponto de exclamação, lustroso como orleã, não é uma cauda verdadeira, mas uma lembrança do nascimento do universo.
No princípio era o miado!
Um miado assertivo.
Birrento.
Um miado primitivo que pôs a poeira estelar em marcha – o miado divino.
Soou há pouco tempo, quando a Grande Mãe Gata teve uma nova ninhada. Dar à luz universos cansa, porém os gatinhos têm toda a energia – toda a que existe e que alguma vez existirá.
O nosso gato preto e branco, de cauda alçada, coça-se: este felino cosmogónico não tem pulgas, mas estrelas – polvilhadas pela pelagem lorigada e coruscantes como corindo em pó. Uma pata risca essa escuridão, faiscando um cometa sob a abóbada extramundana, feita de pêlo, e a comichão fulgente mergulha no mar como um ex-voto extinto. Saibam que é quando os gatinhos pretos e brancos andam no encalço das suas estrelas, com as garras e com os dentes, que nascem todas as estrelas cadentes.
Os sábios sabem que o universo está em expansão, mas desconhecem a razão.
É porque ele é um gato preto e branco que enfuna o pêlo para parecer maior… É um universo bebé, o gatinho, e na sua pequenez encontra-se a grandeza do Todo: planetas, meteoritos e constelações – borboletas, manuscritos e tubarões.
Que nome tem, este hipnopompo? O único que lhe serve: Plutão. Repousa (como lousa) num volume de velo venusto. Empandeira o rabo – pompadourante –, chilreando, longitroante.

sábado, 12 de outubro de 2013

Gravitas


Acho que Gravidade, de Alfonso Cuarón, é um bom filme, mas não fui capaz de emocionar-me como esperava. Para começar, o argumento é quase inexistente e a maioria dos diálogos só existe para preencher o silêncio sepulgrave do cosmos: ainda no preâmbulo da provação que se seguirá, a personagem interpretada por George Clooney alerta a personagem interpretada por Sandra Bullock sobre a conveniência de estar-se sempre a falar, mesmo que não se diga nada de concreto, de modo a que a estação terrena da NASA dê pelas suas presenças. E, com efeito, a maioria dos diálogos surge somente como um farol que vai piscando no meio do breu, embora, na minha opinião, isso não seja o maior problema do filme, porque, desde o início, somos levados pela mão com inegável mestria por uma história de pura sobrevivência, na qual a própria sobrevivência, num ambiente ultra-hostil, é, sem decorações, o único móbil. Mas, nesse sentido, o filme deveria assumi-lo sem complexos: ou seja, a haecceitas de Gravidade é, sem dúvida, a luta pela vida travada pela cosmonauta corporizada por Bullock que, ultrapassando o velho tropo do "homem (ou da mulher) contra o mundo", surge como alguém que precisa de derrotar o universo. Escreveu Catão-o-Velho, «rem tene, verbas sequentur» («agarra o tema e as palavras seguir-se-ão»), mas, em específico, o tema da sobrevivência solitária não precisa de palavras. Talvez não sejam os exemplos ideais de comparação para este caso, mas filmes como Few of Us (1996) de Sharunas Bartas ou Mãe e Filho (1997) de Aleksandr Sokurov já demonstraram como o silêncio pode ser tão conducivo da contemplação como inquietante e aquilo que falta a Gravidade é, sobretudo, inquietação. No seu quasi-hibridismo entre o ficcional e o documental, o filme de Cuarón falha em inquietar o espectador, constantemente posto fora do filme por culpa dessa indecisão que rompe toda a cumplicidade, e, por ironia, o momento mais perturbador dos seus noventa minutos de duração passa-se na Terra.
A duração do filme é, de facto, outro problema: Gravidade precisava de mais espaço - e isto não é nenhum trocadilho. Porém, é possível que o público contemporâneo não esteja preparado para fôlegos "kubrickianos", porque aos primeiros minutos do "longo" plano de sequência do início dei por mim a ouvir murmúrios de impaciência de outros espectadores - a montagem frenética dos vídeos musicais que foi transposta para o cinema na segunda metade dos anos noventa do século passado formatou toda uma geração à velocidade vertiginosa do teledisco e do videojogo, obrigando muitos realizadores a caminhar cada vez mais nessa direcção. À luz disso, este esforço de Cuarón até é heróico, contextualizado no espectro do cinema norte-americano, produzido pelos grandes estúdios: será, provavelmente, o filme-contemplativo possível, hoje em dia... Aliás, Cuarón é um cineasta de grande calibre: falando em planos de sequência, recorde-se o exemplo notável de equilíbrio de tempo e de espaço, e muitíssimo bem interpretado por Clive Owen, que pode ser visto perto da conclusão de Os Filhos do Homem (2006). De igual modo, Bullock e Clooney (ambos capazes da pior canastrice) são exemplares na composição das personagens semi-unidimensionais que lhes são dadas, granjeando sem dificuldade a nossa empatia, ficando provada a qualidade de Cuarón como director de actores.
Feito com o rigor científico possível (contornando-o quando este poderia tornar-se um obstáculo à própria linguagem do cinema, porque, no espaço, aquilo que apelidamos de "senso comum" não existe e seguir a realidade resultaria num espectáculo bizarro para o espectador), suportado por interpretações desarmantes e filmado com muita arte, Gravidade é o filme que eu ansiava por ver há bastante tempo (sóbrio, maduro, inteligente), mas, ainda assim, é demasiado curto e circunspecto para que brilhe todo o potencial que encerra, o que é uma pena. No entanto, para quem achou que Avatar, de James Cameron, foi um fiasco de filme (eu acho que Avatar é péssimo), Gravidade será o colírio certo: eye candy de elevadíssima qualidade, embora servido com um inesperado sentido de discrição.
  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

'Fan art' de «O Pequeno Deus Cego»?


Este graffiti pintado numa parede da estação de caminho-de-ferro de Santarém será um retrato de fan art do dragão Wang, o Castrador, personagem do livro de banda desenhada O Pequeno Deus Cego, escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa (Kingpin Books, 2011)? 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Morto há cem anos: Barão Corvo


No próximo dia 25 deste mês far-se-ão cem anos desde a morte de Frederick Rolfe, o autodenominado Barão Corvo, um dos meus heróis literários e um dos mais extraordinários ourives de palavras que já existiram. Será, infelizmente, uma efeméride que passará despercebida, porque Rolfe é um escritor desconhecido pela maioria, somente lido e apreciado por um grupo (muito) restrito de conhecedores. Rolfe morreu pobre, numa altura em que vivia nas ruas de Veneza, e encontra-se sepultado no cemitério da pequena ilha de San Michele. Já escrevi várias vezes sobre a minha admiração por este autor (nesta ligação, por exemplo), que, mesmo sem tecto e possuindo apenas a roupa que trazia vestida, nunca deixou de escrever e ainda foi capaz de deixar completo um último romance antes de perecer (The Desire and Pursuit of the Whole). Poucos anos após a morte, o Barão Corvo quase caiu no esquecimento, mas é com alegria que declaro que faço parte dos leitores pertinazes que não deixam morrer a sua obra. Por conseguinte, prometo escrever algo especial para celebrar o centenário da morte de Corvo no próximo dia 25.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Diário plutónico #1

Há catorze dias que sou dono de um gato preto e branco, com (mais ou menos) três meses de idade, a que chamei Plutão. Embora tenha alguma experiência a lidar com gatos, este é o primeiro que possuo e o mais novo com que contactei até hoje: foi-me oferecido por uns amigos, que o recolheram da rua.

No que concerne aos feitios, existem dois tipos de gatos: os tímidos e os curiosos. Plutão é muitíssimo curioso, o que é óptimo, porque, em regra, os gatos curiosos são os mais amistosos. Escrevi «mais amistosos», porque um certo grau de indocilidade será sempre de esperar. Os gatos não são como os cães: não fazem nada para agradar aos donos e é inútil castigá-los quando se portam mal. Estas idiossincrasias relacionam-se com um facto muito simples: os gatos comuns ainda não foram totalmente domesticados e retêm todos os comportamentos do gato selvagem africano, do qual descendem.
Qualquer domesticador de grandes felinos (leões, tigres, leopardos) sabe que castigar esses animais durante os treinos é uma perigosa perda de tempo, porque eles não entendem o conceito e apenas se tornam mais violentos. Os animais selvagens (incluindo os semi-selvagens gatos comuns) só reagem bem diante de reforços positivos: comida e carícias (preferem comida, todavia).
Os cães, por exemplo, foram domesticados muitíssimo antes dos gatos serem adoptados como animais de companhia e o apuramento de diversas raças domésticas de gatos é uma prática que remonta há, apenas, cento e cinquenta anos - é por essa razão que os gatos comuns e os gatos selvagens africanos são, praticamente, idênticos (inversamente aos cães e aos lobos).
Os cães foram seleccionados artificialmente para serem bons soldados, para terem um elevado sentido de obediência e tolerância total para com os caprichos dos donos que, hierarquicamente, lhes são superiores. Evoluíram para criar relações verdadeiramente simbióticas com as pessoas, ao ponto de algumas raças caninas terem desenvolvido sobrancelhas proeminentes de modo a serem capazes de comunicarem com mais eficácia: estes animais sabem interpretar expressões faciais humanas e como agir em conformidade com elas, mesmo que nenhum comando verbal ou gestual lhes seja dado pelos donos. Por outro lado, os gatos têm rostos inexpressivos e também não distinguem os rostos humanos uns dos outros, por isso é inútil avaliar o comportamento ou o estado emocional de um gato através do seu rosto ou tentar que ele nos entenda por via das nossas expressões faciais.
Os gatos comunicam connosco, quase em exclusivo, através de linguagem corporal: temos de aprender a interpretar os gestos que fazem com as orelhas e com as caudas. Alguns são idênticos aos da linguagem corporal canina, mas os significados são muito diferentes; por exemplo, os cães abanam horizontalmente as caudas para demonstrar contentamento, mas quando os gatos fazem o mesmo gesto estão a demonstrar irritabilidade ou ansiedade. Ao contrário dos cães, os gatos não entendem o gesto humano de apontar-se com um dedo certos objectos ou locais: apenas fitam o dedo, como se seguissem uma presa (e, às vezes, atiram-se a ele). Quando se quer chamar a atenção de um gato para alguma coisa é preciso olhar directamente para ela ou atraí-lo nessa direcção com um brinquedo para gatos.
É verdade que são muito teimosos, porque os lobos frontais dos seus cérebros são pequenos, o que significa que quando se fixam num determinado comportamento demoram muito tempo para esquecê-lo, porque não são capazes de pensar em mais nada - o multitasking não é para eles. Um gato assustado ou furioso é capaz de permanecer nesses estados durante um dia inteiro. 

Porém, os gatos são criaturas sociais, embora de uma ordem diferente da dos cães. O gato selvagem africano evoluiu para caçar presas pequenas, como insectos, pássaros e ratos, e é por essa razão que os gatos, ao contrário dos leões - ou dos lobos - não caçam em grupo: não faz sentido caçar-se um rato em grupo, porque ele é uma presa que, por culpa do seu tamanho, somente alimentará um predador. Ora, quando não existe a necessidade de caçar em grupo, deixa de existir a necessidade de organizar o bando numa hierarquia rígida (como uma tropa) e é por essa razão que as colónias de gatos selvagens e as de gatos ferais (gatos outrora domésticos que reverteram para o estado selvagem) possuem estruturas sociais muito mais plásticas que as alcateias. Ainda assim, os gatos comuns são animais territoriais e hierárquicos e os donos que tenham cautela ao ignorar essas naturezas.
Ainda não se sabe como é que gatos e pessoas se aproximaram, mas é possível que tenham sido úteis para manter pragas à margem dos núcleos habitacionais. Esta explicação é satisfatória, porque esclarece a razão pela qual os gatos ainda hoje se mantém semi-selvagens: em essência, foram adoptados para fazerem por nós aquilo que já faziam por eles próprios; logo, nunca existiu pressão para tornarem-se mais sociais. Adoptámos os gatos para serem caçadores, o que tem funcionado bem, porque os gatos vivem para matar pequenas presas - sempre. É a alegria deles. Se não têm presas pequenas à disposição, irão inventá-las. Para caçá-las, têm garras muito afiadas.
Os gatos não têm unhas: têm garras - tal como os leões e os tigres. Elas são como anzóis, evoluíram para a predação e irão ser usadas, dê por onde der. Extrair cirurgicamente as garras de um gato é um acto bárbaro que implica a amputação das falanges e cria animais mutilados e miseráveis que nem sequer são capazes de usar uma caixa de areia para eliminarem os seus dejectos: quem não quiser ter um gato com garras é melhor não ter um gato.

Os gatos bebés (até um ano de idade) são muito rebeldes, mas, ao crescerem, criam laços emocionais intensos com os donos, principalmente com os indivíduos que os alimentam. (É o reforço positivo de que falei há umas linhas.) São criaturas sensíveis que somente dão o que recebem: nesse aspecto, um animal inesperado com o qual podem ser comparados é o camelo. De todos os animais semidomesticados, os camelos são extremamente intolerantes a maus tratos e vingam-se sem hesitações de quem se esquece de abordá-los com delicadeza. (Talvez ferver em pouca água seja uma prerrogativa de animais que evoluíram em climas quentes.)

Seja como for, ter um gato é como ter em casa um pedacinho de um mundo ainda selvagem: um mundo onde felinos intrépidos subjugam répteis lendários.
   

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Lançamento de «Palmas Para o Esquilo» este Sábado


Palmas Para o Esquilo, o meu novo livro de banda desenhada, com desenhos de Pedro Serpa, será lançado amanhã às 17H00, na livraria Kingpin Books (Rua Quirino da Fonseca, nº16-B), em Lisboa.
Eu, o Pedro Serpa e o editor Mário Freitas estaremos presentes, assim como os nossos amigos imaginários - por isso não correrão o risco de morrer entre três canibais, como a mosca do poema de Shapiro.

Apareçam que o esquilo agradece.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

«Ancient Aliens»: limpando o lixo


Depois de ter publicado no passado dia 28 de Agosto o artigo Hoje Há Pirâmides, no qual enunciei as essências das teorias pseudo-históricas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, fui surpreendido por descobrir que alguns dos meus contactos olham com credulidade para essas ficções descabeladas. Não demorei muito tempo a perceber que a culpada dessas situações bizarras é, pela medida grande, a série televisiva Ancient Aliens, transmitida actualmente pelo Canal História.
Já vi um punhado de episódios de algumas temporadas desse seriado e o que tenho a dizer sobre ele é que consiste num produto televisivo tóxico que deveria ter um aviso no início do genérico, e depois de cada intervalo, para informar constantemente os espectadores de que estão a assistir a flagrantes manipulações e ocultações de factos históricos e científicos que breves leituras de livros escolares do ensino secundário seriam suficientes para desmistificar. Ancient Aliens não é uma série preocupada com a verdade: é um programa sensacionalista que usa aparências de rigor e de autoridade, emprestadas pela circunstância de ser emitido por um canal chamado Canal História, para disseminar daninhas ideias pseudocientíficas que, de outro modo, nunca chegariam ao grande público, nem tão-pouco seriam olhadas com respeitabilidade.
Os meus contactos de que falei há poucas linhas são indivíduos inteligentes e informados, representativos daquilo a que posso chamar, à falta de designação melhor, de "público normal": não são, de maneira nenhuma, teoristas das conspirações, entusiastas de ovniologia ou crentes no sobrenatural. Contudo, são receptivos à imitação de rigor e autoridade científicas com que a série se mascara e ao formato empolgante com o qual ela passa as suas pseudo-informações. Acredito que esta é a maior deformação conseguida por Ancient Aliens: a popularização, junto de espectadores comuns - num canal que, à partida, lhes parece ser fidedigno -, de ideias irracionais e radicais que eram coutada quase exclusiva de um minoritário segmento de público acrítico e hostil à razão.
Escrevi este texto para os espectadores que estão a ser enganados por lixo como Ancient Aliens: em seguida, de uma forma sucinta, vou esclarecer a origem dessas ideias estúpidas e demonstrar como os teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre vos estão a puxar, paulatina, mas inexoravelmente, para longe da razão e da realidade. Veiculadas como se fossem factos, essas teorias não são inofensivas, porque servem de Cavalo de Tróia para a instituição de um modelo irracional de olhar para o mundo; uma vez instalado esse modelo, os indivíduos tornam-se presas de todo o tipo de charlatanices - algumas muitíssimo dispendiosas, no que concerne ao tempo, dinheiro e relações pessoais. Em suma: o género de aldrabices avançadas por produtos como Ancient Aliens é nóxio, pegue-se por onde calhar.

H. P. Lovecraft
A história sobre a origem das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre não é complexa, mas é pormenorizada; para explaná-la detalhadamente seria necessário introduzir um manancial de informação específica, subordinada aos campos da pseudo-história, do esoterismo ocidental, das sociedades ocultistas que apareceram nos Estados Unidos e na Europa durante o século XIX e da literatura dita fantástica que despontou em inícios do século XX, que, com franqueza, confundiria os leitores que não estão familiarizados com esses assuntos. Como escrevi acima, este texto não é para especialistas, nem para quem já tem umas "luzes" sobre estas teorias tresloucadas, mas para aqueles que apenas ouviram falar delas em séries como Ancient Aliens e outros produtos parecidos. Este é um desmascaramento directo dessas teorias, a partir do qual se poderá investir numa observação aprofundada de todos os detalhes sobre a origem delas, mas, para já, irei concentrar-me no fundamental. E o fundamental é isto: as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, popularizadas como factos por veículos mentirosos como Ancient Aliens, têm origem nos contos de horror do autor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, nascido em 1890, na cidade de Providence, capital do estado de Rhode Island, e falecido em 1937, com um cancro no intestino delgado.

Hoje, a herança literária de Lovecraft é uma das mais influentes (e lucrativas), mas, enquanto viveu, o escritor, que passou fome e foi muito pobre, nunca conheceu o prestígio que as gerações posteriores lhe reconheceram e, infelizmente, morreu convencido de que fracassara. Porém, Lovecraft foi um espantoso epistológrafo, apenas ultrapassado pelo filósofo francês Voltaire na profusão de milhares de cartas que escreveu a amigos e colegas autores com quem manteve constante correspondência. Esse assombroso acervo permite traçar com minúcia o retrato psicológico de uma personalidade imaginativa, artística e intrincada, que, mais do que qualquer outra coisa, se pautou por um conservadorismo severo na juventude, e nos primeiros anos da idade adulta, mas que se tornou muitíssimo mais liberal, tolerante e positiva nas últimas décadas de vida. O perfil de absoluto racista virulento que lhe é traçado pelos detractores não se sustenta diante da documentação existente: Lovecraft desgostava das massas, mas não de raças; o seu preconceito sempre se dirigiu à plebe e nunca aos indivíduos. Se tivesse sido um autêntico xenófobo nunca teria casado com uma emigrante russa de religião judaica que, ainda por cima, era mais velha que ele (depois de se divorciarem, permaneceram amigos). Lovecraft foi uma criança doente que não chegou a terminar o liceu, mas compensou essa lacuna dedicando a vida inteira à leitura e à procura do mais actualizado conhecimento científico: ateu e grande desmistificador das práticas ocultistas do seu tempo (como o espiritismo, a adivinhação, a astrologia, etc.), Lovecraft escreveu histórias de horror em que as personagens fantásticas têm uma origem física, em vez de sobrenatural - e é nesta escolha autoral que reside a origem das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre.
Nas histórias mais representativas de Lovecraft, aquelas que, hoje, se apelidam em conjunto por "mitologia lovecraftiana" (a popular designação Cthulhu Mythos, inventada pelo escritor norte-americano August Derleth - que salvou do esquecimento a obra de Lovecraft - está a ser abandonada pelos especialistas, por culpa do lastro cristão que Derleth imprimiu sobre esse corpo literário ateu e amoral), os deuses antigos, responsáveis pela construção de primitivas cidades e de estruturas enigmáticas que, aparentemente, as civilizações de outrora não poderiam ter sido capazes de levantar sozinhas, são, afinal de contas, entidades extraterrestres que os homens tomaram por deuses.
Esses seres extraterrestres são, em regra, indiferentes às vontades humanas, mas essa indiferença logra, não obstante, o nosso infortúnio. A história basilar da mitologia lovecraftiana, na qual os deuses antigos não passam de criaturas extraterrestres, tão açaimadas pelas leis da física quanto nós, intitula-se The Call of Cthulhu (A Invocação de Cthulhu) e foi publicada pela primeira vez no número de Fevereiro de 1928 da revista bimestral norte-americana Weird Tales.

   The Call of Cthulhu foi uma ficção inovadora - e Lovecraft o primeiro a postular, de modo fictício, que os antigos deuses eram entidades extraterrestres, nas suas histórias de horror -, mas que se arquitecta sobre as ideias pseudo-históricas dos ocultistas e dos pseudo-arqueólogos do século XIX, como o político norte-americano Ignatius Donnelly, que, em 1882, escreveu Atlantis: The Antediluvian World (Atlântida: O Mundo Antidiluviano), livro seminal para a popularização e consolidação da tese atlante sobre as origens da humanidade, pugnada por correntes hiperdifusionistas (o Hiperdifusionismo é uma teoria pseudo-histórica que defende que todas as civilizações existentes descendem de uma primordial civilização-matriz, tecnologicamente avançada e espiritualmente desenvolvida, entretanto desaparecida num cataclismo, como um terramoto, um maremoto ou uma erupção vulcânica). Esse livro de Donnelly iniciou um tsunami de pseudoliteratura sobre antigos continentes perdidos, entre os quais o de Lemúria e o de Mu, e a sua influência sobre Lovecraft e, consequentemente, sobre os teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, está na ideia de que os deuses antigos não foram invenções das mentes dos homens, mas entidades reais que com eles contactaram e, em alguns casos, conviveram (no caso de Donnelly, seriam os patriarcas desaparecidos da extinta Atlântida).
Em 1864, ao observar que existiam lemúres (espécie de primata) na costa oriental de África (Ilha de Madagáscar) e na costa ocidental da Índia, o zoólogo inglês Philip Lutley Sclater teorizou que deveria ter existido, algures numa era vetusta, uma ligação terrestre entre os dois continentes: a esse hipotético estreito deu o nome sugestivo de Lemúria, porque era a passagem dos lemúres. Hoje, achamos ridículo este tipo de ideias, porque conhecemos o modo como os continentes se formaram, por movimento das placas tectónicas, logo continentes afundados só poderão conceber-se no domínio da ficção; porém, na altura, as coisas passaram-se de outro modo. Em 1870, o cientista alemão Ernst Haeckel inventou que a tal Lemúria deveria ser o local onde a espécie humana tinha nascido, teorizando que os símios, como os gorilas, chimpanzés e orangotangos, tinham evoluído dos lemúres e, por conseguinte, disseminado para a África e para a Ásia a partir desse hipotético território. Abreviando: a ideia de Lemúria não vingou na geologia, nem na antropologia, mas o mesmo não pode dizer-se do campo do esoterismo, no qual Lemúria se transformou num continente perdido.

Helena Blavatsky
No seu livro The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta), de 1888, a ocultista russa Helena Blavatsky (criadora, em 1875, da Sociedade Teosófica, em Nova Iorque) alegou ter canalizado espiritualmente os ensinamentos secretos de um misterioso volume, anterior ao nascimento da própria humanidade, intitulado Livro de Dzyan, que lhe fora revelado por entidades superiores (a que chamou Mahatmas): essa narrativa espúria, meio-argolada em textos religiosos indianos, desvenda que os antepassados do homem apareceram na Terra há dezoito milhões de anos, sob a forma de criaturas invertebradas, semivegetais, que, há três milhões de anos (sem se perceber muito bem como), deram origem a uma raça de gigantes andróginos; esses gigantes relacionaram-se sexualmente com animais (?) e deram origem aos híbridos monstruosos da mitologia clássica. (É a versão blavatskiana da queda bíblica da Graça, porque, a partir desse episódio, a reprodução deixou de ser espiritual para passar a ser carnal.) Segundo a "sabedoria secreta" dos Mahatmas, a Lemúria - que, como vimos, foi inventada pelo zoólogo Philip Sclater - era o berço primordial de toda a Criação: um continente perdido onde tinham aparecido as raças antigas e, também, o local onde originou a humanidade. No sistema pseudo-histórico de Blavatsky, que, acredite-se ou não, influenciou muitíssimo diversas correntes do esoterismo ocidental (incluindo a gnose sexual-racista de Lanz von Liebenfels, editor da revista neocristã e anti-semita Ostara), a humanidade contemporânea era, apenas, a quinta "raça" de uma série de Sete Raças que governariam a Terra. (A quarta raça fora, obviamente, a Atlante; entretanto, destruída por forças ocultas que instrumentalizaram magia negra para o efeito.) Mas todas as Sete Raças teriam origem em Lemúria, o berço, que emergiria e submergiria, regularmente, até a sétima raça reinar no mundo.
Contemporâneo de Blavatsky, o ocultista inglês James Churchward agarrou nos "ensinamentos" teosóficos e popularizou o seu próprio continente perdido: Mu, a «Mátria da Humanidade» (apesar disso, Mu fora inventado, uns anos antes, pelo arqueólogo amador anglo-americano Augustus Le Plongeon, que acreditava na ideia muito bizarra de que a Maçonaria tinha sido criada pelos Maias e por eles introduzida no Egipto). Embora tenha passado vários anos a teorizar sobre Mu, somente em 1926 é que Churchward publicou um livro sobre o assunto: The Lost Continent of Mu (O Continente Perdido de Mu), cuja existência e história lhe haviam sido provadas por monges hinduístas, num mosteiro perdido dos Himalaias. Segundo Churchward, Mu tinha sido um continente-ilha do Oceano Pacífico, uma civilização-matriz da qual todas as outras derivaram; incluindo a Atlante e, a partir dessa, a Egípicia. Os vestígios de Mu seriam as ruínas polinésias do Pacífico - as mesmas ruínas que, curiosamente, foram usadas por Lovecraft em The Call of Cthulhu para servirem de ruínas da cidade fictícia de R'Lyeh, em quais subterrâneos dormia a entidade extraterrestre Cthulhu, à espera do momento em que as estrelas se alinhassem correctamente, de maneira a emergir do seu cativeiro (o que acontece no final da história).

Em resumo: H. P. Lovecraft foi ateu, daí ter sentido a necessidade de, nos seus contos de horror, escrever sobre agentes fantásticos que fossem físicos, em vez de sobrenaturais; para o efeito, fundou o seu universo ficcional sobre o cadinho cultural da altura - as pseudo-histórias e narrativas esotéricas sobre continentes perdidos, ruínas e monumentos construídos por deuses antigos -, mas nos papéis desempenhados pelas divindades colocou entidades extraterrestres, oriundas de outros planetas. Até inventou um nono planeta: Yuggoth, um pequeno mundo, habitado pela civilização extraterrena dos Mi-Go, que ficava nas fímbrias do sistema solar - planeta inventado pouco tempo antes da descoberta de Plutão. No entanto, a ficção de Lovecraft, publicada em revistas periódicas de contos, não alcançou grande popularidade nos Estados Unidos nessa altura. A grande influência de Lovecraft sobre as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre ocorreu na Europa, no rescaldo da Segunda Grande Guerra; em principal, na França.
Para entreter os soldados destacados para o estrangeiro, o exército norte-americano criou uma colecção de livros de bolso, na qual incluíu vários títulos de géneros diferentes, como o western, o policial, a ficção científica e o horror; entre os livros de horror contava-se The Dunwich Horror and Other Weird Tales (O Horror de Dunwich e Outros Contos Estranhos), da autoria de um autor, algo obscuro, chamado H. P. Lovecraft. Foi através desses livros de bolso que o público europeu contactou com diversos autores norte-americanos de ficção científica: género que, em pouco tempo, alcançou uma popularidade enorme em França - assim como a obra de Lovecraft, cujas histórias mais volumosas, como The Call of Cthulhu e At the Mountains of Madness (Nas Montanhas da Loucura), foram publicadas, a partir de meados dos anos cinquenta, pelas Éditions Denoël.
At the Mountains of Madness é particularmente importante para a consubstanciação da Teoria da Génese Extraterrestre, porque é a primeira história que apresenta a ideia de que a raça humana foi criada em laboratório por engenheiros genéticos alienígenas. Nesse texto, os astronautas extraterrestres (as Coisas Antigas - de blavatskiana consistência vegetalóide) foram os criadores de toda a vida da Terra, entre a qual se destacam duas importantes espécies antagónicas: a dos Shoggoths, escravos capazes de adquirir qualquer forma e que foram usados pelas Coisas Antigas para construir as cidades e os monumentos de outrora; e a humana, criada por simples curiosidade científica.
Esta noção de uma espécie criada por extraterrestres para servir de escrava foi usada pelo autor azerbeijano-americano Zecharia Sitchin no seu infame sequestro de elementos e destraduções da mitologia suméria, reunidos na amálgama intitulada The Twelfth Planet (O Décimo Segundo Planeta), editado em 1976. Este livro de Sitchin pretende ser uma tradução fidedigna (na realidade, apresenta-se como a "única" tradução fidedigna) de placas de escrita cuneiforme suméria que contam como uma alegada espécie extraterrestre, chamada Anunnaki, veio à Terra, aterrando na região da antiga Mesopotâmia, e criou a espécie humana para ser sua escrava em escavações de ouro, sem o qual os Anunnaki não seriam capazes de regenerar a atmosfera do seu planeta, chamado Nibiru (o título do livro relaciona-se com o "facto", descoberto por Sitchin, de que os antigos sumérios consideravam o Sol e a Lua como planetas, daí que o dos Anunnaki passava a ser o décimo segundo - ou seja, nesta história, sem pés nem cabeça, os antigos sumérios, além do Sol e da Lua, já conheciam os nove planetas do sistema solar).
Em certos círculos de teoristas das conspirações e ovniologistas marginais, os Anunnaki de Sitchin são equivalentes aos Reptilianos: répteis extraterrestres de feitio antropomórfico, ao jeito dos invasores fictícios da série televisiva V: A Batalha Final, que, segundo o doentio David Icke, ex-locutor desportivo inglês, tornado "filho de Deus" e denunciador do plano reptiliano pelo controlo mundial, provêm (adequadamente) da constelação Alfa Draconis e, tal como os Shoggoths de Lovecraft, têm o poder de trasmutar de forma - os seus disfarces preferidos são os de monarcas europeus, líderes políticos mundiais e actores de Hollywood. Talvez não seja coincidência que uma das influências para a construção do mito reptiliano extraterrestre seja a dos homens-serpentes das histórias dos bárbaros Kull e Conan, inventados pelo escritor norte-americano Robert Ervin Howard, grande amigo epistolar de Lovecraft: essas criaturas, de origem enublada nas eras pré-dinossáuricas, têm como objectivo infiltrarem-se entre os homens, assumindo os seus semblantes, de maneira a governarem na sombra para ganhar o controlo do mundo. (À beira de o conseguirem, foram derrotadas por Kull, um sobrevivente da Atlântida.) No entanto, a Teoria da Génese Extraterrestre, popularizada por Sitchin, entre outros, e inventada por Lovecraft, como vimos, foi apresentada pela primeira vez ao público como "factual", em 1960, no livro Le Matin des Magiciens (O Despertar dos Mágicos), de Louis Pauwles e Jacques Bergier.          

Escrito pelos editores da revista de ficção científica Planète, criada no início de 1960 e que publicou muitos contos de Lovecraft, Le Matin des Magiciens pode resumir-se como uma viagem alucinante pela cultura marginal de meados do século passado, desde várias teorias da conspiração, pseudo-arqueologia, piramidologia, misticismo nazi, teorias sobre Antigos Astronautas e Génese Extraterrestre. Aliás, o próprio Lovecraft é referido em Le Matin des Magiciens como tendo sido um observador dos extraterrestres ocultos (em conjunto com o escritor inglês Arthur Machen, que Lovecraft admirou e emulou), por conseguinte a influência lovecraftiana sobre Pauwles e Bergier é inegável. O livro provou ser muito influente, principalmente na Europa, e esteve na origem de outro título, mais influente ainda, que se tornou a Bíblia dos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre. Esse trabalho, publicado em 1968, largamente responsável pelo estado das coisas a que chegámos, foi escrito por um recepcionista suíço de hotel, chamado Erich von Däniken.

Erich von Däniken e Giorgio Tsoukalos
 Menos conhecido por ter sido preso por desfalcar dinheiro ao hotel onde trabalhava, Von Däniken é o Papa dos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; juntamente com Giorgio Tsoukalos, Sitchin e outros chicaneiros, é um convidado regular da série Ancient Aliens. Copiando trechos da edição alemã de Le Matin des Magiciens, editada em 1963, e de livros do francês Robert Charroux - outro pseudo-historiador de que os conhecedores destas matérias deverão lembrar-se; autor de, entre outros, Histoire Inconnue des Hommes Depuis Cent Mille Ans (História Desconhecida dos Homens) -, Von Däniken escreveu o livro mais popular e influente do género: Erinnerungen an die Zukunft, que significa Memórias do Futuro, mas que foi traduzido para inglês com o título Chariots of the Gods? (Carruagens dos Deuses?), pelo qual ficou conhecido internacionalmente. No fundo, Erinnerungen an die Zukunft nada tem de original: é um apanhado de tudo o que foi escrito sobre o tema até à data da sua edição, mas, inversamente a Le Matin des Magiciens e aos livros de Charroux (que só chegaram aos Estados Unidos na década de Setenta), tornou-se, de imediato, um sucesso de vendas norte-americano, com milhões de exemplares vendidos num curto período, beneficiando de uma publicidade televisiva estonteante. Não demorou muito até que o próprio livro fosse adaptado à televisão num "documentário" de três horas de duração, intitulado In Search of Ancient Astronauts (À Procura de Antigos Astronautas), produzido por Alan Landsburg e narrado pelo famoso Rod Serling, criador da série The Twilight Zone (A Quinta-Dimensão) - ambos crentes nas revelações de Von Däniken (Landsburg até escreveu a sua própria imitação de Chariots of the Gods?).
Von Däniken foi, finalmente, desmascarado como o mentiroso que é, quando confessou ter forjado as "provas" da existência de uma subtérrea cidade extraterrestre, escondida numa selva do Equador: foi o próprio Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, que liderou a expedição científica para desmistificar esse dito achado pseudo-arqueológico. Armstrong não encontrou nada, como seria de esperar, e Von Däniken teve de admitir que inventara a história. Ainda assim, a memória do público é de curta duração e ei-lo, novamente, nos ecrãs, a repetir as mesmas charadas e as mesmas aldrabices para ouvidos novos.
 
Em 2011, o cineasta inglês Ridley Scott disse que o seu filme Prometheus, espécie de prequela de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) se debruça sobre algumas ideias de Von Däniken, no que concerne à génese extraterrestre da vida terrena, mas, na verdade, seria mais correcto dizer que se debruça sobre algumas ideias de Lovecraft sobre a génese extraterrestre da vida terrena: aliás, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro foi impedido de seguir com a produção da sua adaptação cinematográfica de At the Mountains of Madness, história onde essa ideia surge pela primeira vez, porque o estúdio Universal Pictures percebeu que o enredo era demasiado parecido com o de Prometheus (com efeito, Prometheus é que é um desgraçado arremedo de At the Mountains of Madness).


No clímax de Prometheus, um dos monstros transmutáveis criado pela negra fórmula líquida dos engenheiros extraterrestres - arma bioquímica que perverte o ADN dos organismos com que contacta - impugna um dos próprios engenheiros, numa evidente colagem à linha narrativa de At the Mountains of Madness que conta como os Shoggoths se revoltaram contra os seus criadores, as Coisas Antigas. Scott até pode achar, por desconhecimento, talvez, que o seu filme vai, de facto, ao encontro de temas dänikianos, mas o resultado final é totalmente lovecraftiano. O problema, porém, não são filmes medíocres como Prometheus (por mais anticiência que sejam), nem histórias intrigantes e provocantes como At the Mountains of Madness (por mais pró-ciência que sejam), porque são apresentados ao público tal qual como são: ficções. Em oposição, produtos pestíferos como Ancient Aliens são apresentados ao público como sendo factuais. Ora, cada um tem direito a ter as suas próprias ficções, sejam elas opiniões ou fantasias, mas não se pode ter factos próprios.

É compreensível que a maioria do público desconheça que as teorias principais de Ancient Aliens provêm da ficção de horror imaginada por H. P. Lovecraft, que, por sua vez, foi inspirada pelas teorias pseudo-históricas dos pseudo-arqueólogos, antiquários e ocultistas do século XIX. Com efeito, haverá bastantes leitores especializados que não fazem ideia destas ligações, porque elas são, na verdade, muito exclusivas. Só quem se dedica, em conjunto, ao estudo do esoterismo ocidental, às origens da literatura fantástica e à história da cultura popular, dita marginal, como as teorias das conspirações e ovniologia, poderá ter capacidade de reunir as ferramentas necessárias para visualizar todo o espectro. No entanto, o que não é compreensível é que os indivíduos ponham de lado o pensamento crítico e sejam tão lestos a acreditar em vendedores de banha-de-cobra (trocadilho não-intencional, no que diz respeito aos Reptilianos) - ou, no mínimo, a dar-lhes atenção - e, ao mesmo tempo, desdenhar ou recusar liminarmente teorias verdadeiramente científicas.
É verdade que os leigos não têm capacidade para acompanhar a linguagem e o ritmo das descobertas científicas se não devotarem muito tempo a essa aprendizagem, mas isso não é desculpa para virar-se costas à ciência e adoptar de braços abertos o pseudoconhecimento por ela rejeitado só porque oferece "respostas" simples (simplórias) e imediatas (falsas). A influência de séries televisivas como Ancient Aliens é muito maior do que eu pensava e isso chocou-me. Este texto nasceu desse choque e procurei que fosse um desmascaramento directo, entendível e, sobretudo, eficaz. Tracei, sem superfluidades, a cronologia principal das origens das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre que suportam o edifício de Ancient Aliens. Indivíduos como Von Däniken, Zecharia Sitchin ou Giorgio Tsoukalos são aldrabões sem vergonha que fazem dinheiro vendendo pseudoconhecimento ao público entusiasta (e ingénuo). Através de parques temáticos, livros, filmes, séries de televisão e palestras, estes bandidos e outros do mesmo jaez, como o abjecto David Icke, deformam o pensamento crítico do público, jovem e adulto, para vender o evangelho da irracionalidade. Não é conhecimento, nem é ciência: é um negócio - vocês estão a ser enganados e colonizados por ideias infectas. Está nas vossas mãos a escolha de aceitá-las ou extirpá-las.

 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

«Lisboa Triunfante» na Noite de Literatura Europeia


No próximo dia 21 de Setembro (sábado), das 18H00 às 23H00, irá ocorrer na cidade polaca de Wroclaw uma edição do evento Noite de Literatura Europeia, na qual o público amante de literatura terá oportunidade de ouvir a leitura de excertos das obras de diversos escritores europeus, entre os quais Philippe Claudel (França), Colm Tóibin (Irlanda) e Zadie Smith (Inglaterra). Portugal estará representado por mim. Um dos mais prestigiados actores polacos, Bartłomiej Topa, lerá um excerto do meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), que consiste nas primeiras dez páginas do terceiro capítulo "O Reino do Sol".


A Noite de Literatura Europeia de Wroclaw terá lugar no complexo comercial e artístico Passagem Pokoyhof (para quem estiver na vizinhança, a morada é a seguinte: ul. Sw. Antoniego 2-4)
Envio um agradecimento especialíssimo a Milka Jankowska pelo gentil convite e Jakub Jankowski pela excelente tradução para polaco que fez do meu texto: dziękuję.


Os homens de aço (cirúrgico)


O número de Setembro da revista LOUD! (para a qual escrevo a crónica bimestral Consultor Funerário) é, já, uma edição histórica, em virtude da entrevista que publica nas suas páginas centrais, com Jeff Walker (vocalista e baixista) e Bill Steer (guitarrista), da banda inglesa Carcass. Estreados em 1988, com a edição do disco Reek of Putrefaction, os Carcass foram, em conjunção com os Napalm Death (com os quais Steer também tocou), os pioneiros da sonoridade apelidada de Grindcore: aliança de elementos Metal, Punk e Jazz (o característico blast beat que, hoje, se associa, de imediato, aos estilos mais extremos de música, já era executado pelos bateristas de Jazz) que, com rapidez, se tornou um dos estilos metálicos mais plásticos e receptivos à experimentação com influências musicais muito distintas. Esse primeiro disco, prejudicado por uma produção muito fraca, mostrava, contudo, um grupo com uma personalidade incomum e tornou-se um favorito do programa de rádio da BBC Peel Sessions, do mítico apresentador John Peel. Ainda assim, poucos poderiam ter previsto a influência e a importância que o terceiro disco da banda, Necroticism - Descanting the Insalubrious (1991) iria exercer sobre o espectro das sonoridades mais extremas.

Em Fevereiro de 1991, estreou nos cinemas o filme The Silence of the Lambs, obra perturbante que revolucionou, totalmente, a cultura popular: um efeito imediato foi a aceitação pelo mainstream de ideias e personagens muito macabras que, até à data, eram coutada exclusiva da ficção de horror e de suspense, seguindo-se a instauração de uma constante estética umbrosa e sóbria, presente até hoje em produções visuais (desde filmes, séries televisivas e vídeos musicais). Editado em Outubro de 1991, Necroticism - Descanting the Insalubrious foi o The Silence of the Lambs do Metal: em 2000, a revista Terrorizer classificou-o como sendo o disco de Metal mais importante da década de 90. Com efeito, tanto The Silence of the Lambs como Necroticism - Descanting the Insalubrious demonstram o quão a cultura contemporânea, tanto nas artes como no entretenimento, deve às imagens e às harmonias mais extremas, provenientes do universo do horror. O terceiro disco de Carcass é, de facto, uma obra tocada pelo génio, que gerou um sem-número de epígonos e imitadores.

Mas os Carcass estão de volta (somente Walker e Steer pertencem à formação original), passados dezassete anos desde a edição de Swansong, com um inesperado novo disco, que será editado a 13 de Setembro: Surgical Steel. A sua capa evoca, directamente, a do EP Tools of the Trade (1992), um dos meus registos favoritos da banda (a seguir a Necroticism - Descanting the Insalubrious), e a música Captive Bolt Pistol que, entretanto, foi disponibilizada, é, inequivocamente, um tema fresco que não soa a plágio do passado, nem a homenagem póstuma. É um disco que aguardo com muita expectativa, porque os Carcass sempre foram uma das minhas bandas preferidas (ouvi a cassete original - naquele tempo ainda se compravam cassetes - de Symphonies of Sickness até à exaustão): os meus leitores que são fãs desta banda terão, certamente, dado pela pequena homenagem que lhe fiz na página 195 do meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), com a escrita do pequeno interlúdio em verso Matéria Médica, Pelo Doutor Jacob de Castro Sarmento (à maneira dos ilustres cirurgiões Jeffrey Walker e William G. Steer de Nottingham).

Convido-vos, pois, a lerem a entrevista destes cirurgiões na LOUD! de Setembro.


 


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Hoje há pirâmides


A imagem que ilustra este artigo é uma alusão humorística ao extremo de irracionalidade a que os seguidores de teorias pseudo-arqueológicas podem chegar, quando, por ennui, ingenuidade ou ignorância, substituem a sua crença numa primordial e tecnologicamente avançada civilização-matriz pela crença na intervenção de Antigos Astronautas no desenvolvimento das sociedades primitivas. Vou descrever em poucas linhas estas crenças de maneira a informar os leitores que não estejam familiarizados com estes universos pseudo-históricos/arqueológicos.

A supra-enunciada primeira crença pode adquirir, em essência, duas formas: a do Difusionismo e a do Hiperdifusionismo. O Difusionismo consiste na crença de que as civilizações antigas, por mais afastadas geograficamente ou cronologicamente que tenham estado umas das outras, mantiveram, de alguma forma, contactos e permutaram comportamentos culturais e importantes segredos tecnológicos; alegadamente, segredos que, hoje, ainda não foram descobertos pelo homem contemporâneo. Por outro lado, o Hiperdifusionismo propõe a existência de uma primordial e tecnologicamente avançada civilização-matriz, da qual difundiram todas as sociedades existentes. Essa conjectural antiquíssima civilização-matriz (Atlântida, Lemúria, etc.) é sempre apresentada pelos pseudo-historiadores como tendo sido uma iluminada cultura superior que, subitamente, desapareceu por culpa de um cataclismo - um terramoto, um maremoto ou uma erupção vulcânica -, mas não sem que um punhado de sobreviventes se tenha dispersado no último momento para, nos milénios seguintes, instruir e guiar as remanescentes, mas grosseiras civilizações (descritas desse modo pelos pseudo-historiadores, porque, segundo eles, seriam civilizações pouco desenvolvidas espiritualmente - seja lá isso o que for, o certo é que a partir daqui está-se no território da pura charlatanice). Para os hiperdifusionistas, os mitos e as religiões existentes conservam, inequivocamente, memórias desses supostos antigos patriarcas desaparecidos, mas sob a forma de deuses e de outras personagens pseudo-epigráficas.
Neste ponto, coincide-se com a supra-enunciada segunda crença: a Teoria dos Antigos Astronautas, que defende que os protagonistas mitológicos das diversas culturas globais são configurações erróneas - ou codificadas - de visitantes extraterrestres que, em algum momento de um passado muitíssimo distante, desceram à Terra para instruir e guiar os povos primitivos. Em acrescento, quando esses fictícios visitantes extraterrestres são apresentados pelos pseudo-historiadores como tendo sido antepassados ou criadores da humanidade fala-se da Teoria da Génese Extraterrestre: crença que defende a criação do Homem em laboratório por engenheiros genéticos extraterrestres. Assim como no caso dos patriarcas desaparecidos, nos quais acreditam os hiperdifusionistas, os geneticistas extraterrestres também foram entendidos como deuses pelos povos primitivos.

Estas ideias (e outras do mesmo jaez) não são recentes - algumas provêm do final do século XVIII -, mas nos últimos anos têm crescido com uma popularidade que não conheciam desde meados dos anos setenta do século passado. Em principal, as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre beneficiam de uma exposição mediática constante que contamina as mentes dos espectadores mais influenciáveis e ingénuos. Séries "documentais" televisivas como Ancient Aliens, transmitida pelo Canal História (cheia de deformações e ocultações de factos para efeitos espectaculares e sensacionalistas), ou os livros e as palestras de chicaneiros como Zecharia Sitchin (autor de, entre outros, The Twelfth Planet) ou David Icke (que muito antes de tornar-se a coqueluche dos adeptos das teorias das conspirações se apresentou ao público como sendo o filho de Deus), são, somente, alguns dos nomes mais populares, mas nem por isso menos danosos, de uma classe de gurus sem vergonha que ganha a vida manipulando emoções e expectativas e espalhando o evangelho da irracionalidade.
A pseudociência e a pseudo-história oferecem soluções simples para problemas intrincados e relacionados com assuntos que a maioria do público não é capaz de avaliar com precisão, porque, desde a segunda metade do século XX, os campos da ciência e da história têm-se especializado e compartimentalizado, enroupando-se em linguagens e preceitos técnicos complexos que os leigos não têm capacidade de acompanhar. Provavelmente, sentindo-se excluídos por uma elite académica que comunica de modo, aparentemente, indecifrável, muitos indivíduos sem conhecimentos científicos, históricos, arqueológicos ou etnológicos voltam-se para o pseudoconhecimento que é rejeitado pelo mundo académico. Esse pseudoconhecimento é sincrético, constituído por retalhos e leituras feitas pela rama de materiais mitológicos e esotéricos, e, muitas vezes, apenas serve de Cavalo de Tróia a doutrinas que se aproximam daquilo a que pode chamar-se novas religiões populares. Com efeito, as supracitadas teorias pseudo-históricas têm em comum a recusa do mundo real, apresentado como sendo um artificial plano de existência dominado pelo cientismo (uma espécie de concepção neognóstica, mas com a academia em jeito de Demiurgo), em benefício de mundos falsos, algo infantis, em que cada um pode ajudar a solucionar alguns dos mistérios. Os leitores não-versados nas temáticas pseudo-históricas ou pseudo-arqueológicas dificilmente terão ideia do superlativo grau de irracionalidade que permeia essas teorias alternativas, mas prometo escrever sobre elas num futuro próximo. Para já, o meu objectivo é, a partir desta introdução, comentar uma notícia recente que me despertou a atenção.

Foi com estupefacção que li a notícia de que se tinha descoberto cento e quarenta pirâmides na Ilha do Pico, no arquipélago dos Açores - construções que, alegadamente, antecedem em muitíssimos anos a chegada dos portugueses à ilha. A descoberta foi anunciada esta semana pelos arqueólogos Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA), que estudaram essas estruturas, feitas de rocha basáltica e a que os populares chamam de maroiços, encontrando indícios de orientação espacial relacionada com as estações do ano e até de ritos funerários. O arqueólogo Romeo Hristov, docente na universidade norte-americana do Novo México e que visitou essas pirâmides do Pico, terá declarado que nelas «há uma orientação astronómica rigorosa, rampas de acesso e escadas associadas ao conceito de estrutura sagrada».


Só estive uma vez na Ilha do Pico, enquanto fazia o transbordo para outro avião que me levaria à Ilha Terceira, e, infelizmente, não tive tempo de deslocar-me ao concelho da Madalena para ver estas pirâmides - aliás, até há poucas horas, nem sabia que elas existiam. No entanto, depois de observar as fotos disponibilizadas na Internet, concluo que essas estruturas não me parecem pirâmides nenhumas, mas simples socalcos, feitos por muros de contenção. Os muros de contenção são erguidos para suster o deslizamento dos solos em terrenos que apresentam um grau elevado de inclinação. (Em relação ao que escrevi no quarto parágrafo, alguns dos mais impressionantes muros de contenção construídos pelos romanos, como o existente nas ruínas da cidade de Heliopólis, no Líbano, são descritos pelos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, como sendo antigas plataformas para a aterragem e descolagem de naves espaciais.) Quando se fala em socalcos, vêm logo à memória os da região vinhateira do Douro - e, nem de propósito, a paisagem da Madalena, na Ilha do Pico, também tem servido para esse fim: aliás, em 2004 até foi considerada Património Mundial pela UNESCO em virtude da viticultura. Segundo a notícia do jornal Expresso, cuja ligação adicionei acima, o já citado Romeo Hristov disse «sinto-me no México» ao observar as pirâmides do Pico. De facto, as pirâmides do México foram todas consideradas Património Mundial pela UNESCO: por que razão é que a região da Madalena na Ilha do Pico foi considerada Património Mundial por mérito da viticultura e não por mérito das suas pirâmides que, segundo Hristov, até fazem lembrar as do México? Será porque não existem pirâmides nenhumas na Madalena, para começar? É uma interrogação que deixo para ser respondida por quem entenda de arqueologia.
 

Quem tiver curiosidade de ler alguns artigos académicos assinados por Hristov, pode fazê-lo através desta ligação. Nesta altura, chamo a atenção para que recordem as definições de Difusionismo e Hiperdifusionismo.

Sobre a tentação de ver-se pirâmides onde elas não existem e de declarar que foram construídas por patriarcas desaparecidos, quiçá de Marte, gostava de recordar o logro das pirâmides bósnias (as do Sol, da Lua e do Dragão) inventado por Semir Osmanagich, arqueólogo "amador" que não só viu pirâmides onde elas nunca existiram, como ainda tentou fabricá-las: «Osmanagich said Visocica's conglomerate blocks were made of concrete that ancient builders had poured on-site. This theory was endorsed by Joseph Davidovits, a French materials scientist who, in 1982, advanced another controversial hypothesis—that the blocks making up the Egyptian pyramids were not carved, as nearly all experts believe, but cast in limestone concrete. Osmanagich dubbed Pljesevica's sandstone plates "paved terraces," and according to Schoch, workers carved the hillside between the layers—to create the impression of stepped sides on the Pyramid of the Moon. Particularly uniform blocks and tile sections were exposed for viewing by dignitaries, journalists and the many tourists who descended on the town».

 
É trágico que o público que diz não ter tempo para aprender ciência, história e arqueologia seja tão listo em decorar listas de desinformação pseudo-histórica e esotérica que, no fundo, o deixam indefeso diante dos perigos do pseudoconhecimento. Poderá não saber como as células metabolizam os hidratos de carbono, nem de que maneira a informação genética codificada no ADN se traduz em proteínas, tão-pouco como a selecção natural funciona, mas saberá que as pirâmides eram câmaras transdimensionais que enviavam os faraós ao encontro dos chefes extraterrestres, que esses extraterrestres criaram o ser humano e que, afinal de contas, tudo começou na Atlântida.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Lançamento de «Palmas Para o Esquilo»


Palmas Para o Esquilo, o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, será lançado a 14 de Setembro (sábado), às 17H00, na loja da Kingpin Books, em Lisboa (Rua Quirino da Fonseca, 16-B).

Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013) consiste numa observação sobre a distância que existe entre a imaginação e a loucura.

Conto com a vossa presença no dia 14, às 17H00, na loja da Kingpin Books, e agradeço a divulgação.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sugestões musicais

Duas sugestões musicais, em que se destacam colaborações de amigos.

O ilustrador André Coelho, que trabalhou comigo no livro É de Noite Que Faço as Perguntas (Saída de Emergência, 2011) e que está, neste momento, a desenhar Sepulturas dos Pais, uma nova banda desenhada escrita por mim que irá ser editada em 2014 pela Kingpin Books, foi o criativo responsável pelo grafismo do vídeo musical da banda portuense de rock Ghosts of Port Royal: a música intitula-se 50.000 Dead Starfish e abre o apetite para o próximo disco da banda (a anunciar). A animação da arte de Coelho foi feita por Augusto Lado, vocalista do grupo.



De um registo também endiabrado é feita a nova proposta de Karuniiru, banda liderada por Domino Pawo e que conta com Charles Sangoir, de La Chanson Noire (com quem trabalhei em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense), como um dos guitarristas. É Sangnoir que produz Cyberpunk, novo disco do grupo, que será editado em Setembro. Jorra é o título do primeiro single, cujo vídeo é realizado por Charles Sangnoir.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

O segredo da arte



Desvalorize-se o que está em baixo
e nunca se verá o que poderia estar em cima.



sábado, 10 de agosto de 2013

Recordações para este fim de semana


Ontem, após obras de restauro, o Arco do Triunfo da Rua Augusta abriu, definitivamente, ao público, apelidado de novo miradouro de Lisboa. Equipado com um elevador, para auxiliar a ascenção de quem não quiser subir (ou não for capaz de subir) a estreita escadaria em caracol que dá acesso à câmara do relógio que está voltado para Norte, para a Rua Augusta, o arco promete apaixonar tanto os turistas como os lisboetas. Aliás, é certo que raríssimos lisboetas tiveram oportunidade de subir ao terraço do Arco do Triunfo da Rua Augusta, logo esta iniciativa é mais do que louvável, porque devolve aos cidadãos o usufruto de um dos seus mais emblemáticos monumentos: espero, com toda a sinceridade, que seja acarinhado e compreendido.

Num passeio por Lisboa que organizei, há uns tempos, mostrei a um pequeno grupo de amigos o terraço do Arco do Triunfo da Rua Augusta, ainda este restrito equipamento cultural não sonhava sequer em abrir as portas ao grande público. Posteriormente, escrevi um artigo sobre o arco, que vos convido a reler ou, no caso de serem novos leitores, a descobrir.

E, finalmente, porque se relaciona com o local, em principal com a Praça do Comércio, para a qual o Arco do Triunfo da Rua Augusta se volta, recordo a minha participação na música «Fado Mau» que integra o disco Macumba Stereo de La Chanson Noire (Necrosymphonic Entertainment, 2013): no segmento de spoken word que gravei para esse tema, é lembrado o episódio em que os conjurados defenestraram Miguel de Vasconcelos para o Terreiro do Paço.