Nesta ligação podem ler uma entrevista que dei para o blogue Que a Estante Nos Caia Em Cima, conduzida por Rui Bastos. Entre outros assuntos, são abordados algumas das minhas
preocupações e métodos autorais, assim como ainda se dedicam algumas
palavras ao meu novo livro Sepulturas dos Pais (Kingpin Books),
escrito por mim e desenhado por André Coelho.
sábado, 13 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Um impiedoso ataque ao cliché
Estive a reler Sepulturas dos Pais de
fresco: fico feliz por dizer que consiste num impiedoso ataque ao
cliché. Escrito por mim, desenhado por André Coelho e legendado por
Mário Freitas, será editado no próximo mês pela Kingpin Books. É um livro duríssimo: um uivo alto que nunca tranquiliza. Vocês não fazem ideia do que aí vem.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Contos de horror com o Jornal i
Em parceria com a Escritório Editora, o Jornal i vai disponibilizar alguns livros de contos em que participei: Contos de Terror do Homem-Peixe, Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos e Ficções Científicas e Fantásticas. Na minha opinião, os contos de horror que publiquei nestes livros (Réptil, Um Erro do Sol e O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho, respectivamente) contém algumas das minhas ideias mais subversivas e, claro, recomendo-os com entusiasmo. Por conseguinte, de 17 de Setembro a 1 de Outubro, poderão levar estes livros convosco para casa.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Descoberta a identidade de Jack, o Estripador?
Esta é uma fotografia de Dorset Street, no
distrito londrino de Whitechapel, tirada em 1888: ano em que, de Agosto a
Novembro, um assassino apenas conhecido pela alcunha de Jack, o
Estripador, matou cinco prostitutas com elevado grau de selvajaria.
Vale a pena olhar para esta imagem por duas razões: 1) porque Mary Kelly, a última vítima canónica desse criminoso, e aquela cujo corpo foi mais severamente mutilado (quase para além da forma humana), foi assassinada aqui, na sua casa; e 2) porque é preciso recordar que este sítio e estas pessoas nada têm a ver com Hollywood ou com atracções turísticas contemporâneas - foram indivíduos reais e viveram em condições miseráveis. Os obstáculos das vidas destas mulheres poderão ficar melhor ilustrados pelo facto terrível de Catherine Eddowes, a quarta vítima, ter penhorado os sapatos nas vésperas de ser assassinada (o flagelo social do "pé descalço", como era conhecido em Portugal, ainda era um problema gravíssimo em meados do século passado em cidades como Lisboa e Porto, por isso pode ter-se uma ténue ideia de como seriam as reais condições de higiene e segurança na Londres vitoriana). Lanço luz sobre isto para desmistificar a pátina nostálgica que encortiça os crimes de Jack, o Estripador, que, avaliadas as coisas, foi, somente, um asqueroso assassino que predava os elementos mais frágeis da sociedade do seu tempo. Não existe nenhum glamour nisto.
Dito isto, a revelação feita recentemente pelo inglês Russel Edwards, um investigador amador, e pelo finlandês Jari Louhelainen, geneticista na universidade John Moores de Liverpool, de que Aaron Kosminski foi, de facto, Jack, o Estripador, é, em simultâneo, totalmente credível e altamente especulativa.
É verossímil, porque Kosminski, um polaco de religião judaica que, na altura dos crimes, tinha cerca de vinte a vinte e cinco anos de idade, sempre foi apontado pelas autoridades e pelos aficionados destes crimes como um dos suspeitos mais plausíveis. Até há um relato testemunhal, de Israel Schwartz, que relatou à polícia ter visto um homem parecido com Kosminski a atacar Elizabeth Stride, a terceira vítima, assassinada na mesma noite que Catherine Eddowes. No seu livro Mind Hunter, John Douglas, agente especial do FBI e um dos pais da contemporânea psicologia forense, estudou os ficheiros da Scotland Yard e concluiu que o suspeito mais provável de ser Jack, o Estripador, era Kosminski. Escreveu Douglas que «of all the possibilities we were presented, Kosminski fit the profile far better than the others». As informações disponíveis sobre Kosminski sugerem que ele foi um indivíduo bizarro e violento, obcecado com sangue menstrual e masturbação e que residia a cerca de quinze minutos a pé de quase todos os locais em que foram assassinadas as cinco vítimas canónicas de Jack, o Estripador. Será que foi ele que ejaculou no xaile descoberto por Russel Edwards e do qual Jari Louhelainen foi capaz de extrair vestígios de ADN e, ainda, vestígios epiteliais - com uma técnica nova, chamada "aspiração" (o nome induz em erro), desenvolvida pelo próprio? Xaile que, esclareça-se, terá pertencido ou a Kosminski ou a Catherine Eddowes e que foi guardado por um dos sargentos da polícia que descobriu o corpo, permanecendo como herança de família até ser comprado por Edwards?
Para ser honesto, do que li sobre as revelações extraordinárias de Edwards e Louhelainen, a história do xaile parece-me quase credível e, em última análise, estou aberto à possibilidade dela ser verdade. O meu cepticismo entra por outra via: a de que o ADN encontrado no xaile é mitocondrial e, sendo assim, dificilmente pode provar que Kosminski foi Jack, o Estripador. De facto, nem sequer pode provar que Kosminski agarrou no xaile, sequer.
Sem entrar em detalhes, o ADN mitocondrial é o ADN que se encontra nas mitocôndrias das células e é herdado por via materna. Também é muitíssimo resistente à passagem das eras: assim, é possível analisar vestígios forenses muito antigos e perceber se determinado suspeito poderá ou não estar relacionado com eles, mas esse reconhecimento é, com efeito, muito lato, porque o ADN mitocondrial não permite identificações personalizadas: apenas sugere que alguém de deteminada descendência está relacionado com os vestígios. No caso do xaile descoberto por Edwards não só Kosminski é um potencial suspeito, assim como uma porção muito numerosa de londrinos seus contemporâneos. Como pode ler-se no site do próprio FBI (eu poderia citar passagens do meu livro de biologia do ciclo preparatório, mas se o site do FBI está disponível à distância de um clique, para quê complicar): «Since mtDNA [ADN mitocondrial] is maternally inherited and multiple individuals can have the same mtDNA type, unique identifications are not possible using mtDNA analyses».
Em suma: o patético Aaron Kosminski é um suspeito perfeitamente credível, apontado tanto pela New Scotland Yard e pelo FBI como o provável Jack, o Estripador. Na verdade, muitos polícias vitorianos morreram convencidos de que esta personagem poderia mesmo ter sido Jack, o Estripador. No entanto, a história do xaile ejaculado descoberto por Edwards e a análise forense de Louhelainen são demasiado especulativas para serem aceites de imediato.
Vale a pena olhar para esta imagem por duas razões: 1) porque Mary Kelly, a última vítima canónica desse criminoso, e aquela cujo corpo foi mais severamente mutilado (quase para além da forma humana), foi assassinada aqui, na sua casa; e 2) porque é preciso recordar que este sítio e estas pessoas nada têm a ver com Hollywood ou com atracções turísticas contemporâneas - foram indivíduos reais e viveram em condições miseráveis. Os obstáculos das vidas destas mulheres poderão ficar melhor ilustrados pelo facto terrível de Catherine Eddowes, a quarta vítima, ter penhorado os sapatos nas vésperas de ser assassinada (o flagelo social do "pé descalço", como era conhecido em Portugal, ainda era um problema gravíssimo em meados do século passado em cidades como Lisboa e Porto, por isso pode ter-se uma ténue ideia de como seriam as reais condições de higiene e segurança na Londres vitoriana). Lanço luz sobre isto para desmistificar a pátina nostálgica que encortiça os crimes de Jack, o Estripador, que, avaliadas as coisas, foi, somente, um asqueroso assassino que predava os elementos mais frágeis da sociedade do seu tempo. Não existe nenhum glamour nisto.
Dito isto, a revelação feita recentemente pelo inglês Russel Edwards, um investigador amador, e pelo finlandês Jari Louhelainen, geneticista na universidade John Moores de Liverpool, de que Aaron Kosminski foi, de facto, Jack, o Estripador, é, em simultâneo, totalmente credível e altamente especulativa.
É verossímil, porque Kosminski, um polaco de religião judaica que, na altura dos crimes, tinha cerca de vinte a vinte e cinco anos de idade, sempre foi apontado pelas autoridades e pelos aficionados destes crimes como um dos suspeitos mais plausíveis. Até há um relato testemunhal, de Israel Schwartz, que relatou à polícia ter visto um homem parecido com Kosminski a atacar Elizabeth Stride, a terceira vítima, assassinada na mesma noite que Catherine Eddowes. No seu livro Mind Hunter, John Douglas, agente especial do FBI e um dos pais da contemporânea psicologia forense, estudou os ficheiros da Scotland Yard e concluiu que o suspeito mais provável de ser Jack, o Estripador, era Kosminski. Escreveu Douglas que «of all the possibilities we were presented, Kosminski fit the profile far better than the others». As informações disponíveis sobre Kosminski sugerem que ele foi um indivíduo bizarro e violento, obcecado com sangue menstrual e masturbação e que residia a cerca de quinze minutos a pé de quase todos os locais em que foram assassinadas as cinco vítimas canónicas de Jack, o Estripador. Será que foi ele que ejaculou no xaile descoberto por Russel Edwards e do qual Jari Louhelainen foi capaz de extrair vestígios de ADN e, ainda, vestígios epiteliais - com uma técnica nova, chamada "aspiração" (o nome induz em erro), desenvolvida pelo próprio? Xaile que, esclareça-se, terá pertencido ou a Kosminski ou a Catherine Eddowes e que foi guardado por um dos sargentos da polícia que descobriu o corpo, permanecendo como herança de família até ser comprado por Edwards?
Para ser honesto, do que li sobre as revelações extraordinárias de Edwards e Louhelainen, a história do xaile parece-me quase credível e, em última análise, estou aberto à possibilidade dela ser verdade. O meu cepticismo entra por outra via: a de que o ADN encontrado no xaile é mitocondrial e, sendo assim, dificilmente pode provar que Kosminski foi Jack, o Estripador. De facto, nem sequer pode provar que Kosminski agarrou no xaile, sequer.
Sem entrar em detalhes, o ADN mitocondrial é o ADN que se encontra nas mitocôndrias das células e é herdado por via materna. Também é muitíssimo resistente à passagem das eras: assim, é possível analisar vestígios forenses muito antigos e perceber se determinado suspeito poderá ou não estar relacionado com eles, mas esse reconhecimento é, com efeito, muito lato, porque o ADN mitocondrial não permite identificações personalizadas: apenas sugere que alguém de deteminada descendência está relacionado com os vestígios. No caso do xaile descoberto por Edwards não só Kosminski é um potencial suspeito, assim como uma porção muito numerosa de londrinos seus contemporâneos. Como pode ler-se no site do próprio FBI (eu poderia citar passagens do meu livro de biologia do ciclo preparatório, mas se o site do FBI está disponível à distância de um clique, para quê complicar): «Since mtDNA [ADN mitocondrial] is maternally inherited and multiple individuals can have the same mtDNA type, unique identifications are not possible using mtDNA analyses».
Em suma: o patético Aaron Kosminski é um suspeito perfeitamente credível, apontado tanto pela New Scotland Yard e pelo FBI como o provável Jack, o Estripador. Na verdade, muitos polícias vitorianos morreram convencidos de que esta personagem poderia mesmo ter sido Jack, o Estripador. No entanto, a história do xaile ejaculado descoberto por Edwards e a análise forense de Louhelainen são demasiado especulativas para serem aceites de imediato.
domingo, 7 de setembro de 2014
Antologia «The Ironic Fantastic»
O terceiro número da antologia de ficção The Ironic Fantastic,
série criada pelo escritor galês Rhys Hughes, já se encontra disponível para download gratuito: esta edição, com capa do ilustrador português
Esgar Acelerado, foi organizada e editada por Paulo Brito e recomendo-a efusivamente. Entre conteúdos de
enorme interesse, contém duas críticas a dois livros meus pelo crítico
norte-americano Larry Nolen, assim com algumas sugestões minhas de
leituras de não-ficção. Inclui, ainda, diversas fotos de Gisela Monteiro.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
«Sepulturas dos Pais»: capa e data de lançamento
Capa de Sepulturas dos Pais, escrito por mim e desenhado por André Coelho. Uma edição da Kingpin Books, com lançamento previsto para 25 de Outubro, no Amadora BD.
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terça-feira, 2 de setembro de 2014
«Sepulturas dos Pais» em Outubro
Sepulturas dos Pais, livro escrito por mim e desenhado por André Coelho, está quase a ser editado: mar e magia numa história que é, acima de tudo, um mapa do fracasso. O soco no estômago (e no cérebro) será dado em Outubro, cortesia da Kingpin Books.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Contracultura satânica e feiticeira na revista LOUD! de Setembro
No número de Setembro da revista LOUD!,
quase a chegar às bancas, assino um pequeno ensaio histórico sobre o
fenómeno da contracultura satânica e feiticeira ocidental, partindo do
imaginário lírico e musical da banda de capa, os Electric Wizard
- grupo que, para esta edição, deu uma excelente entrevista conduzida
por Ricardo S. Amorim. Além desse texto, deixo cinco sugestões
contraculturais, relacionadas com a banda de Dorset e com o imaginário
satânico e feiticeiro que interrogo com rigor no ensaio.
Este ano, a rentrée é endiabrada - e conta com todos na apresentação deste número da LOUD! no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, no próximo dia 9, às 18H30. Lá estarei para dois dedos de conversa. Agradeço a divulgação.
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terça-feira, 19 de agosto de 2014
Monstruosidades contra a língua portuguesa
O infame AO90 (Novo Acordo Ortográfico) está a abrir precedentes para que outras mentes imaginem protocolos ainda piores, porque, aparentemente, ele não foi suficientemente longe na "simplificação" da língua portuguesa: neste caso, o Movimento Simplificando a Ortografia, idealizado e encabeçado pelo professor brasileiro Ernani Pimentel (na imagem), que intenta substituir na teoria e na prática o AO90 por um programa que, entre outros objectivos, quer abolir o hífen, a letra h (no início das palavras), as letras ç, ch e os dois ss, assim como transformar em j todos os g seguidos de e ou i (assim, passar-se-ia a escrever ferrujem e jenjiva, por exemplo), para ir ao encontro desse desiderato, almejado pelo próprio senado brasileiro que quer dar vida a este monstro até 2016. Além de que casa também se poderá escrever com z, segundo diz Pimentel nesta entrevista dada ao jornal brasileiro Zero Hora e transcrita no site ILC Contra o Acordo Ortográfico:
Se burros houvesse que a zurrar conseguissem criar novos acordos ortográficos, este seria, em definitivo, o arquétipo de todos os acordos aberrantes, pois nenhum ser racional será (até ver) capaz de alcançar tão elevados graus de demência e abjecção.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Sadomasoquismos novos e velhos
Ao abrigo da temática tortural, iniciada com a
publicação anterior, abro um pequeno intermezzo tragicómico para
comentar o nádir em que, mais uma vez, se escava a cultura popular, qual
escaravelho coprófago, em busca de húmus ainda mais fétido;
desta feita, com a estreia anunciada para breve (Fevereiro de 2015) do
filme sadomasoquista 50 Shades of Grey, adaptação cinematográfica do
pasquim pseudoporno cozinhado sem gosto e sem requinte pela maître de
cuisine inglesa Erika Leonard James: originalmente uma receita que
consistia numa fanfiction da tetralogia Twilight de Stephenie Meyer.
O trailer já disponibilizado é uma explosão de cabotinice como há muito não se via, pelo simples facto de se querer levar totalmente a sério. O filme erótico será sempre, por natureza, um produto saloio: o
género pornográfico é mais honesto e, às vezes, um barro esteticamente
mais interessante para se moldar (as experiências cinematográficas de
Catherine Breillat, Lars Von Trier, entre outros, vêm à memória), embora
também se esgote em si mesmo nas suas evidentes limitações. No entanto,
aquilo que provoca maior estupefacção em objectos da estirpe de 50
Shades of Grey é um certo discurso invisível que transmitem, segundo o
qual vêm quebrar com pompa e circunstância todos os tabus erguidos
diante da sexualidade por uma sociedade bafienta e timorata.
Apresentam-se como campeões da liberdade (e da libertinagem). Ora, isto
não podia estar mais longe da verdade: filmes e livros como 50 Shades
of Grey não só se inserem na esteira de uma longa tradição de obras
populares pornográficas, como, ainda por cima, perdem na comparação com
estas no que concerne à malandrice e à perversidade.
Nem sequer vale a pena ir buscar os exemplos mais conhecidos - e mais escabrosos. Recupero umas transcrições de um curioso opúsculo que, infelizmente ou felizmente, tem andado um bocado esquecido, autorado em 1799 pelo frade oratoriano Teodoro de Almeida e intitulado Elogio da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Xavier de Assis Mascarenhas, Baronesa de Alvito e Condessa de Oriola. Esta narrativa conta como a referida senhora «ocultava ao seu ilustre esposo as penitências que ela fazia» e que consistiam em «tomar disciplina na companhia de umas devotas mulheres», em usar «frequentemente de cilícios de ferro e nos seus tenros e ainda bem delicados membros os apertava com estranha crueldade». Mas há mais: «havendo de fazer uma jornada a cavalo levava o cilício cingido na cintura: e usava dele nas circunstâncias em que esta penitência era mais penosa...» [leia-se, quando estava grávida]. A luxúria masoquista da baronesa-condessa não ficava por aqui: «quando se lhe descobria e tirava o instrumento das frequentes disciplinas, inventava outras das quais ninguém suspeitou o ministério para que se deputavam, tomando com eles novenas de disciplinas de sangue». Embriagado de embevecimento, Teodoro de Almeida expõe ainda que a baronesa-condessa «usava de uma pequena tenaz de ferro, que com os dentes agudos prende onde a largam por causa de uma mola, que continuamente força» e ainda que havia um outro instrumento do qual ela «se valia com muita frequência, buscando de propósito partes onde a sensação fosse mais delicada». A nossa baronesa-condessa setecentista faz engolir em seco as personagens de 50 Shades of Grey, com a vantagem acrescida que, na sua situação, a figura de poder é ela: sozinha ou entre as tais «devotas mulheres». Ou seja: o relato do oratoriano Teodoro de Almeida consegue ser mais feminista e subversivo que as fantasias ingénuas com que sonham as Anastasias Steeles contemporâneas, desejosas de encontrar uns Christians Greys que lhes abram as portas das suas câmaras secretas das dores prazerosas (basta ver o trailer do filme para entender o que isto é).
Os únicos tabus que filmes e livros como 50 Shades of Grey vêm quebrar são os da ignorância, quando alguém (como eu fiz agora) olha para o passado e diz nihil novi ub sole.
Nem sequer vale a pena ir buscar os exemplos mais conhecidos - e mais escabrosos. Recupero umas transcrições de um curioso opúsculo que, infelizmente ou felizmente, tem andado um bocado esquecido, autorado em 1799 pelo frade oratoriano Teodoro de Almeida e intitulado Elogio da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Xavier de Assis Mascarenhas, Baronesa de Alvito e Condessa de Oriola. Esta narrativa conta como a referida senhora «ocultava ao seu ilustre esposo as penitências que ela fazia» e que consistiam em «tomar disciplina na companhia de umas devotas mulheres», em usar «frequentemente de cilícios de ferro e nos seus tenros e ainda bem delicados membros os apertava com estranha crueldade». Mas há mais: «havendo de fazer uma jornada a cavalo levava o cilício cingido na cintura: e usava dele nas circunstâncias em que esta penitência era mais penosa...» [leia-se, quando estava grávida]. A luxúria masoquista da baronesa-condessa não ficava por aqui: «quando se lhe descobria e tirava o instrumento das frequentes disciplinas, inventava outras das quais ninguém suspeitou o ministério para que se deputavam, tomando com eles novenas de disciplinas de sangue». Embriagado de embevecimento, Teodoro de Almeida expõe ainda que a baronesa-condessa «usava de uma pequena tenaz de ferro, que com os dentes agudos prende onde a largam por causa de uma mola, que continuamente força» e ainda que havia um outro instrumento do qual ela «se valia com muita frequência, buscando de propósito partes onde a sensação fosse mais delicada». A nossa baronesa-condessa setecentista faz engolir em seco as personagens de 50 Shades of Grey, com a vantagem acrescida que, na sua situação, a figura de poder é ela: sozinha ou entre as tais «devotas mulheres». Ou seja: o relato do oratoriano Teodoro de Almeida consegue ser mais feminista e subversivo que as fantasias ingénuas com que sonham as Anastasias Steeles contemporâneas, desejosas de encontrar uns Christians Greys que lhes abram as portas das suas câmaras secretas das dores prazerosas (basta ver o trailer do filme para entender o que isto é).
Os únicos tabus que filmes e livros como 50 Shades of Grey vêm quebrar são os da ignorância, quando alguém (como eu fiz agora) olha para o passado e diz nihil novi ub sole.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Sobre instrumentos medievais e modernos de tortura
Neste momento, no Edifício da Alfândega do Porto, o público pode ver mais uma das exposições de ditos objectos e mecanismos medievais e modernos de tortura, usados, alegadamente, entre
outros organismos, pelas inquisições. Exposições desta natureza
são frequentes e eu já visitei muitas, em Portugal e no estrangeiro:
todas muito parecidas - algumas até davam a ideia de apresentarem as
mesmas colecções, com um punhado de peças diferentes, consoante os
locais de mostra ao público. O problema destas exposições - que são um
excelente entretenimento, para quem aprecia a temática tétrica (eu, sem
dúvida, que aprecio) - é que fortalecem e divulgam continuamente ideias
erradas sobre a história medieval e a história das inquisições. A
verdade é que a maioria dos comuns instrumentos medievais e modernos de
tortura que preenchem o imaginário popular, graças a este e outros tipos
de veículos de entretenimento, NUNCA EXISTIRAM: são absolutamente
FALSOS.
Nunca - NUNCA - existiu a Dama de Ferro, a Pêra de Tortura, a Cadeira Inquisitorial (que ilustra o anúncio da exposição) e tantos outros artifícios angustiantes. As inquisições nunca os usaram para extrair confissões. De facto, aquilo que o público pensa que sabe sobre tortura inquisitorial ESTÁ ERRADO. Sim, as inquisições torturavam indivíduos para extrair confissões - e detinham engenhosos estratagemas legais para que as sessões de tortura de um determinado indivíduo se pudessem repetir (isto, porque de acordo com os regimentos cada indivíduo só podia ser torturado uma vez) -, mas somente usaram dois métodos: a polé e o potro - métodos que não vertiam sangue, porque as inquisições estavam proibidas de verter sangue.
As torturas na polé e no potro estavam muitíssimo longe de ser arbitrárias: eram reguladas com rigidez por um conjunto intrincado de correspondências entre a solidez das suspeitas e a gravidade das acusações, sendo que a cada sessão de tortura era atribuído um grau em especial; por exemplo, um indivíduo podia ser sentenciado a uma tortura de grau três no potro, o que corresponderia, somente, a que tivesse as cordas amarradas no corpo sem que estas fossem apertadas. Na maioria das vezes, os acusados eram condenados a, simplesmente, olhar para os instrumentos de tortura - o que, quase sempre, resultava em confissões (verdadeiras ou inventadas). A tortura na polé era, de certa forma, mais violenta: quem não teria hipótese de aguentá-la (um médico avaliava sempre o estado de saúde dos acusados antes das sessões de tormento) era condenado a ser torturado em grau equivalente no potro. Não estou a branquear as inquisições: isto é a mais pura verdade histórica e todos estes factos podem ser comprovados. As torturas no potro e na polé eram terríveis, que isso fique retido, e os indivíduos podiam ficar estropiados para o resto da vida, mas a lenda negra do sadismo inquisitorial, tal como é veiculada pela indústria cinematográfica e por exposições como a que serve de mote a este artigo, é uma completa e desavergonhada ficção.
Os falsos instrumentos medievais e modernos de tortura foram inventados nos séculos XVIII e XIX por alguns antiquários e outros brincalhões, provavelmente com a intenção de titilar as audiências e lucrar com a sua exposição: em pleno decurso do Iluminismo (que não foi igual por toda a Europa, note-se; nem sequer foi sempre deísta ou "libertino", como se chamava a um pensador-livre - um "enciclopedista" - na altura: também houve Iluminismo Católico) essas criações serviriam de contraponto ideal, colocando em paralelo o barbarismo medievo com a justiça social e o progresso cultural dos novos tempos. Foram tão eficazes que ainda hoje a maioria do público acredita que foram reais.
Recomendo a visita a este tipo de exposições - umas mais fidedignas que outras, é certo -, porque são excelente entretenimento, mas no que diz respeito ao rigor e à veracidade histórica estão para estes como o antigo Comboio Fantasma da Feira Popular de Lisboa estaria.
Nunca - NUNCA - existiu a Dama de Ferro, a Pêra de Tortura, a Cadeira Inquisitorial (que ilustra o anúncio da exposição) e tantos outros artifícios angustiantes. As inquisições nunca os usaram para extrair confissões. De facto, aquilo que o público pensa que sabe sobre tortura inquisitorial ESTÁ ERRADO. Sim, as inquisições torturavam indivíduos para extrair confissões - e detinham engenhosos estratagemas legais para que as sessões de tortura de um determinado indivíduo se pudessem repetir (isto, porque de acordo com os regimentos cada indivíduo só podia ser torturado uma vez) -, mas somente usaram dois métodos: a polé e o potro - métodos que não vertiam sangue, porque as inquisições estavam proibidas de verter sangue.
As torturas na polé e no potro estavam muitíssimo longe de ser arbitrárias: eram reguladas com rigidez por um conjunto intrincado de correspondências entre a solidez das suspeitas e a gravidade das acusações, sendo que a cada sessão de tortura era atribuído um grau em especial; por exemplo, um indivíduo podia ser sentenciado a uma tortura de grau três no potro, o que corresponderia, somente, a que tivesse as cordas amarradas no corpo sem que estas fossem apertadas. Na maioria das vezes, os acusados eram condenados a, simplesmente, olhar para os instrumentos de tortura - o que, quase sempre, resultava em confissões (verdadeiras ou inventadas). A tortura na polé era, de certa forma, mais violenta: quem não teria hipótese de aguentá-la (um médico avaliava sempre o estado de saúde dos acusados antes das sessões de tormento) era condenado a ser torturado em grau equivalente no potro. Não estou a branquear as inquisições: isto é a mais pura verdade histórica e todos estes factos podem ser comprovados. As torturas no potro e na polé eram terríveis, que isso fique retido, e os indivíduos podiam ficar estropiados para o resto da vida, mas a lenda negra do sadismo inquisitorial, tal como é veiculada pela indústria cinematográfica e por exposições como a que serve de mote a este artigo, é uma completa e desavergonhada ficção.
Os falsos instrumentos medievais e modernos de tortura foram inventados nos séculos XVIII e XIX por alguns antiquários e outros brincalhões, provavelmente com a intenção de titilar as audiências e lucrar com a sua exposição: em pleno decurso do Iluminismo (que não foi igual por toda a Europa, note-se; nem sequer foi sempre deísta ou "libertino", como se chamava a um pensador-livre - um "enciclopedista" - na altura: também houve Iluminismo Católico) essas criações serviriam de contraponto ideal, colocando em paralelo o barbarismo medievo com a justiça social e o progresso cultural dos novos tempos. Foram tão eficazes que ainda hoje a maioria do público acredita que foram reais.
Recomendo a visita a este tipo de exposições - umas mais fidedignas que outras, é certo -, porque são excelente entretenimento, mas no que diz respeito ao rigor e à veracidade histórica estão para estes como o antigo Comboio Fantasma da Feira Popular de Lisboa estaria.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Geração Única
O jornal Público
está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas
de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro
artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o
título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa
a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de
1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à
geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X,
referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra:
designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje
lhe é atribuído.
Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.
Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.
A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.
Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.
Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.
A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.
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quarta-feira, 30 de julho de 2014
Cinco sugestões de leitura (ficção)
Geralmente, não leio ficção, mas isso não
significa que eu não goste de ficção. Na realidade, a única razão pela
qual vale a pena escrever é a de passar-se uma temporada em excusivo
retiro mental num mundo totalmente fictício - sobretudo quando
o mundo real falha em alcançar padrões de excelência aceitáveis. Assim,
deixo uma pequena lista com cinco livros de ficção, lidos durante os
últimos quatro ou cinco anos, que me emocionaram. Neste momento, as
escolhas são estas - em outro, seriam, certamente, diferentes. Não elenco
estes títulos em nenhuma ordem preferencial ou parecida.
1) Stoner, de John Williams. Um livro extraordinário, escrito com uma subtileza surpreendente, sobre um filho de agricultores que se torna professor universtário. Grande parte da narrativa tem de ser percebida nas entrelinhas, porque não é descrita. Uma história sobre o valor redentor da cultura, da inteligência e da inexpugnável integridade de carácter. Um belo livro triste.
2) Nicholas Crabbe, de
Frederick Rolfe (Barão Corvo). Terrível relato sobre as agruras de um
escritor em início de carreira, mais angustiante ainda por ser, em maior
espessura, autobiográfico. A linguagem é luxuriante e o final é
castigador. Um livro essencial.
3) Sirius, de Olaf Stapledon.
Excelente romance sobre um cão com inteligência humana, que consegue
falar (de modo um pouco tosco, mas os donos entendem-no). Misto de
noveleta de ficção científica e ensaio filosófico wittgensteiniano,
provocante e pertinente, que nunca, em momento algum, escorrega para a
caricatura ou para o artificialismo, o que, considerando o tema, é
impressionante.
4) The Sot-Weed Factor, de John Barth. Romance
(verdadeiramente) picaresco, escrito sem concessões ou facilitismos em
linguagem seiscentista, sobre as graças e as desgraças de um pobre diabo
a quem convenceram ser o poeta laureado da colónia de Maryland. Uma
obra-prima que mistura, em partes iguais, comédia desbragada e uma fina
sensibilidade. Em português, o título pode ser traduzido como O
Contratador de Tabaco.
5) Ada, or Ardor, de Vladimir Nabokov.
Na minha opinião, o melhor romance de Nabokov, escrito com a habitual
prosa pirotécnica, mas em grau superlativo de delícia. Sátira filosófica
ao chamado bildungsroman, com laivos de ficção fantástica. Um livro
complexo e fascinante que, misteriosamente, passa sempre abaixo do
radar, comparado com o (também genial, mas) mais famoso Lolita.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Estrompa (1942-2014)
É com tristeza que informo que faleceu recentemente (na passada sexta-feira, dia 18 de Julho) João Estrompa, autor português de banda desenhada, conhecido, entre outros trabalhos, pela personagem Tornado. Foi criador e editor do importante fanzine Shock (publicado pela primeira vez em 1983), no qual colaboraram diversos autores portugueses de banda desenhada.
(Capa do nº0 do fanzine Shock.)
Recordarei o seu entusiasmo, a simpatia, o optimismo e o humor. O mundo da BD portuguesa ficou mais pobre.
Segundo o weblog Divulgando BD, de Geraldes Lino, o velório de Estrompa terá lugar amanhã, a partir das 18H00, na Igreja de Arroios (Rua de Arroios), em Lisboa.
Segundo o weblog Divulgando BD, de Geraldes Lino, o velório de Estrompa terá lugar amanhã, a partir das 18H00, na Igreja de Arroios (Rua de Arroios), em Lisboa.
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sábado, 19 de julho de 2014
«O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e» de David Soares e Pedro Serpa
Eu e o Pedro Serpa começámos uma nova colaboração homicida em banda desenhada que sairá este ano pela Kingpin Books.
Ainda é cedo para revelar pormenores, mas posso avançar com a informação de que consistirá numa história (mais ou menos) curta, intitulada O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e que, simplesmente, só posso definir como sendo um delírio que Buñuel arquitectaria se decidisse criar um híbrido de The Elephant Man de David Lynch e You've Got Mail de Nora Ephron. Aguardem...
Ainda é cedo para revelar pormenores, mas posso avançar com a informação de que consistirá numa história (mais ou menos) curta, intitulada O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e que, simplesmente, só posso definir como sendo um delírio que Buñuel arquitectaria se decidisse criar um híbrido de The Elephant Man de David Lynch e You've Got Mail de Nora Ephron. Aguardem...
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Sobre Lovecraft
Não sou um fã fervoroso dos contos de H. P.
Lovecraft, mas não pertenço ao campo dos seus detractores literários,
nem tão-pouco ao dos seus assassinos de carácter, que, com odiosa
curiosidade, o querem reduzir à caricatura de racista virulento
(como o escritor francês Michel Houellebecq, autor da biografia H.P.
Lovecraft: Contre le monde, contre la vie, que, no mínimo, pode ser
caracterizada como carente de fontes fidedignas). Quero acreditar que a
maioria desta gente, de facto, não conhece a vida e a obra de Lovecraft
e, pela rama, escreve e fala sobre o que não sabe.
O racismo de Lovecraft foi um racismo de pechisbeque: um arremedo adolescente de alguém que, inserido num contexto muito provinciano, cresceu a pensar de um modo tradicionalista e ultra-conservador. Orientado por um elitismo de inspiração aristocrática, a que, em dada altura, quis almejar, Lovecraft desgostava e desconfiava das massas, mas - o que tem piada! - nunca rejeitou o indivíduo - fosse ele branco, negro ou de outra etina, algo que a sua profusa correspondência pessoal demonstra com clareza.
Outra coisa que a sua obra (é numerosa e literariamente significante para ser assim considerada) epistolar demonstra sem margem para dúvida é que o escritor, ao longo dos anos, afastou-se da matriz ultramontana e isolacionista da Direita norte-americana do seu tempo para tornar-se um homem aberto, mais positivo, menos pessimista e, sobretudo, menos precipitado nos seus julgamentos de sofá - até porque já se atrevia a sair de casa, de quando em quando, para visitar alguns amigos epistolares.
De facto, nas vésperas da morte, Lovecraft tornou-se um simpatizante da Esquerda e escreveu com entusiasmo sobre a democracia. Estamos, por conseguinte, muitíssimo longe dos textos intolerantes que escreveu na juventude e nos primeiros anos da idade adulta (como as histórias The Horror of Red Hook e He, por exemplo). A sua ficção patenteia essa viragem. Se nos primeiros contos ele observou com horror a proximidade do Outro - se desejarmos ler a obra dessa forma (a obra permite mais do que uma leitura) -, nos contos finais o contacto com o Outro - com o alienígena (em inglês, alien também significa imigrante) - é procurado como uma hipótese transformadora e até redentora: ao ponto de escrever, em At the Mountains of Madness, que os Outros «radiates, vegetables, monstrosities, star spawn — whatever they had been, they were men!». Quando o narrador de The Shadow Over Innsmouth descobre que é um mestiço e que tem sangue do Outro nas veias reage com maravilhamento, em vez de sentir repulsa: «the tense extremes of horror are lessening, and I feel queerly drawn toward the unknown sea-deeps instead or fearing them. I hear and do strange things in sleep, and awake with a kind of exaltation instead of terror. Stupendous and unheard of splendours await me below, and I shall seek them soon. (...) in that lair of the Deep Ones, I shall dwell amidst wonder and glory forever».
Dificilmente este será o ponto de vista de quem encara com repúdio uniões multiétnicas.
Sobre essa questão, acrescente-se o casamento de Lovecraft com Sonia Greene, uma judia ucraniana, sete anos mais velha que ele. A união de Lovecraft com Sonia fez-se de verdadeira cumplicidade e afeição, embora esta se tenha dissolvido, de modo amigável, por culpa das circunstâncias laborais de Greene, obrigada a viajar de um lado para o outro, ficando Lovecraft muito tempo sozinho no pequeno apartamento que ambos tinham alugado numa zona muito pobre de Brooklyn, em Nova Iorque. Com efeito, em segredo, Lovecraft nunca assinou o documento do divórcio, na sincera esperança de que ele e a mulher, em breve, voltassem a viver juntos. Se este é o comportamento de um racista virulento, anti-semita e misógino, então eu não sei qual é o comportamento de alguém de sinais opostos.
Ainda assim, mesmo que Lovecraft correspondesse à caricatura racista que dele alguns querem fazer (até existe um jogo na Internet que o compara com Hitler), o que é que isso tem a ver com a autêntica apreciação literária da sua obra? É óbvio que somos livres de não querer ler obras de autores que não admiramos pelos mais variados motivos (eu, por exemplo, recuso ler livros escritos por quem escreve mal), mas recusarmos ver o valor literário que as obras têm, por culpa do nosso desgosto ou preconceito sobre os autores, é totalmente errado.
Lovecraft viveu toda a vida como um indigente, que mal tinha dinheiro para comer e, pese essas dificuldades, preferia gastá-lo em livros e em papel de carta para se corresponder com os seus múltiplos amigos epistolares - que, genuinamente, o admiravam e acarinhavam. Foi, em suma, alguém que recusou uma vida normal, fácil, com um emprego banal, das nove às cinco, para se entregar com toda a alma à criação literária de mundos imaginários que, hoje, reverberam com uma força imensa. Quando penso em Lovecraft, não é a imagem do racista a espumar da boca que evoco, mas a do escritor esforçado - e culto - que se sacrificou diariamente para deixar obra feita: a obra que ele quis e não aquela que as modas do seu tempo poderiam ter ditado.
Hoje como ontem, o preço a pagar pela integridade, pela ética e pelo sacrifício é sempre o isolamento. Não direi sobre Lovecraft o que Pierre Klossowski disse sobre Sade, mas posso dizer que, para mim, Lovecraft é um exemplo luminoso: se eu, enquanto autor, me juntasse ao coro de detractores lovecraftianos, rapidamente me vergaria até aos calcanhares sobre o peso insuportável da vergonha mais desonrosa. Aviltar de modo tão cobarde quem amou tanto as letras e o mundo imaginal que criou de maneira tão especial é uma veleidade de homens pequenos.
O racismo de Lovecraft foi um racismo de pechisbeque: um arremedo adolescente de alguém que, inserido num contexto muito provinciano, cresceu a pensar de um modo tradicionalista e ultra-conservador. Orientado por um elitismo de inspiração aristocrática, a que, em dada altura, quis almejar, Lovecraft desgostava e desconfiava das massas, mas - o que tem piada! - nunca rejeitou o indivíduo - fosse ele branco, negro ou de outra etina, algo que a sua profusa correspondência pessoal demonstra com clareza.
Outra coisa que a sua obra (é numerosa e literariamente significante para ser assim considerada) epistolar demonstra sem margem para dúvida é que o escritor, ao longo dos anos, afastou-se da matriz ultramontana e isolacionista da Direita norte-americana do seu tempo para tornar-se um homem aberto, mais positivo, menos pessimista e, sobretudo, menos precipitado nos seus julgamentos de sofá - até porque já se atrevia a sair de casa, de quando em quando, para visitar alguns amigos epistolares.
De facto, nas vésperas da morte, Lovecraft tornou-se um simpatizante da Esquerda e escreveu com entusiasmo sobre a democracia. Estamos, por conseguinte, muitíssimo longe dos textos intolerantes que escreveu na juventude e nos primeiros anos da idade adulta (como as histórias The Horror of Red Hook e He, por exemplo). A sua ficção patenteia essa viragem. Se nos primeiros contos ele observou com horror a proximidade do Outro - se desejarmos ler a obra dessa forma (a obra permite mais do que uma leitura) -, nos contos finais o contacto com o Outro - com o alienígena (em inglês, alien também significa imigrante) - é procurado como uma hipótese transformadora e até redentora: ao ponto de escrever, em At the Mountains of Madness, que os Outros «radiates, vegetables, monstrosities, star spawn — whatever they had been, they were men!». Quando o narrador de The Shadow Over Innsmouth descobre que é um mestiço e que tem sangue do Outro nas veias reage com maravilhamento, em vez de sentir repulsa: «the tense extremes of horror are lessening, and I feel queerly drawn toward the unknown sea-deeps instead or fearing them. I hear and do strange things in sleep, and awake with a kind of exaltation instead of terror. Stupendous and unheard of splendours await me below, and I shall seek them soon. (...) in that lair of the Deep Ones, I shall dwell amidst wonder and glory forever».
Dificilmente este será o ponto de vista de quem encara com repúdio uniões multiétnicas.
Sobre essa questão, acrescente-se o casamento de Lovecraft com Sonia Greene, uma judia ucraniana, sete anos mais velha que ele. A união de Lovecraft com Sonia fez-se de verdadeira cumplicidade e afeição, embora esta se tenha dissolvido, de modo amigável, por culpa das circunstâncias laborais de Greene, obrigada a viajar de um lado para o outro, ficando Lovecraft muito tempo sozinho no pequeno apartamento que ambos tinham alugado numa zona muito pobre de Brooklyn, em Nova Iorque. Com efeito, em segredo, Lovecraft nunca assinou o documento do divórcio, na sincera esperança de que ele e a mulher, em breve, voltassem a viver juntos. Se este é o comportamento de um racista virulento, anti-semita e misógino, então eu não sei qual é o comportamento de alguém de sinais opostos.
Ainda assim, mesmo que Lovecraft correspondesse à caricatura racista que dele alguns querem fazer (até existe um jogo na Internet que o compara com Hitler), o que é que isso tem a ver com a autêntica apreciação literária da sua obra? É óbvio que somos livres de não querer ler obras de autores que não admiramos pelos mais variados motivos (eu, por exemplo, recuso ler livros escritos por quem escreve mal), mas recusarmos ver o valor literário que as obras têm, por culpa do nosso desgosto ou preconceito sobre os autores, é totalmente errado.
Lovecraft viveu toda a vida como um indigente, que mal tinha dinheiro para comer e, pese essas dificuldades, preferia gastá-lo em livros e em papel de carta para se corresponder com os seus múltiplos amigos epistolares - que, genuinamente, o admiravam e acarinhavam. Foi, em suma, alguém que recusou uma vida normal, fácil, com um emprego banal, das nove às cinco, para se entregar com toda a alma à criação literária de mundos imaginários que, hoje, reverberam com uma força imensa. Quando penso em Lovecraft, não é a imagem do racista a espumar da boca que evoco, mas a do escritor esforçado - e culto - que se sacrificou diariamente para deixar obra feita: a obra que ele quis e não aquela que as modas do seu tempo poderiam ter ditado.
Hoje como ontem, o preço a pagar pela integridade, pela ética e pelo sacrifício é sempre o isolamento. Não direi sobre Lovecraft o que Pierre Klossowski disse sobre Sade, mas posso dizer que, para mim, Lovecraft é um exemplo luminoso: se eu, enquanto autor, me juntasse ao coro de detractores lovecraftianos, rapidamente me vergaria até aos calcanhares sobre o peso insuportável da vergonha mais desonrosa. Aviltar de modo tão cobarde quem amou tanto as letras e o mundo imaginal que criou de maneira tão especial é uma veleidade de homens pequenos.
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A bodega de Lisboa
Não há outra forma de dizê-lo e tentá-lo seria, ao mesmo tempo, uma hipocrisia e uma perda de tempo: este texto que o The New York Times publicou sobre Lisboa é uma bela bodega.
Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.
Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.
Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.
Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.
E aqui está, como complemento, uma bucólica cena recente, observada pela manhãzinha no último Mega Picnic, na Avenida da Liberdade. (O The New York Times iria gostar.)
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quinta-feira, 3 de julho de 2014
XII Troféus Central Comics: Nomeação Melhor Argumentista Nacional
O meu livro de banda desenhada Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, está nomeado para a categoria de Melhor Argumentista Nacional na décima segunda edição dos Troféus Central Comics: prémios anuais de banda desenhada, promovidos pelo site Central Comics, que têm a particularidade de ser escolhidos por votação dos leitores. Para esta edição, a votação dos leitores terminará no dia 10 de Julho.
A entrega dos prémios ocorrerá no dia 12 de Julho (sábado), às 17H30, no auditório principal do Hard Club do Porto (antigo Mercado Ferreira Borges): cerimónia inserida na programação do evento Central Comics Fest.
Caros leitores, Palmas Para o Esquilo é, neste momento, o meu livro de banda desenhada preferido - e se ele é tão especial para vocês como para mim ajudem-me a ganhar este prémio, porque o livro merece: podem votar até ao dia 10 de Julho nesta ligação (é a Categoria nº9). Para o efeito, só têm de preencher os campos de identificação indicados na página e votar, no mínimo, em cinco das categorias a concurso. Agradeço, em avanço, a vossa participação e a divulgação.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Coincidentia oppositorum
A gente vai envelhecendo e dá conta da
fenomenicidade que é viver-se em tempo histórico e que, daqui a uma
década ou duas, no mínimo, se irá ler sobre a actualidade do mesmo modo
que, hoje, se lê sobre os meados do século XX. Quando somos jovens
não nos apercebemos disso, porque o tempo demora muito a passar e tudo
parece cristalizado num eterno presente - é um tempo de vista larga. Em
oposição, quando o tempo passa mais depressa coarcta-nos o horizonte do
visível; daí que as coisas terríveis e as coisas belas que, a esta
altura, parecem ser produzidas por propulsões irreconciliáveis serão
reunidas pela história do futuro próximo numa espécie de coincidentia
oppositorum - menos mística que a boehmeana, mas, ainda assim,
espera-se, liberta do ludíbrio.
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terça-feira, 1 de julho de 2014
«Imundo Bizarro» em «Larvas» de Holocausto Canibal
Larvas, o novo disco (EP) dos Holocausto Canibal,
já se encontra disponível. Chamo a atenção para mais uma colaboração
lírica (em todos os significados da palavra), no feitio da letra da
música Imundo Bizarro, que idealizei e escrevi, propositadamente,
a convite da banda. Na ligação em anexo poderão ouvir a música, uma das
estrelas do disco, com um solo de guitarra muitíssimo venenoso, e
acompanhar a audição com a leitura da letra (integral) que publico no
parágrafo seguinte. Aviso: só para estômagos fortes e mentes com sentido
de humor (negro).
IMUNDO BIZARRO (música: Holocausto Canibal; letra: David Soares)
Repuxos vagais laríngicos – cessam as inibições.
Inalando matéria regurgitada – surgem alucinações.
Psicótico, desviante:
não estou só nesta parafilia.
Hipnótico, excitante:
o vicio da minha emetofilia.
O vómito inflama a fantasia.
Total fadiga epiglótica – depois da quietação orgástica.
Hidropisia pulmicórtica – efeitos da inspiração cáustica.
Perigoso, glorificante:
um epicurismo singular.
Asqueroso, exaltante:
ejaculo em lixo hospitalar.
Prazeres a não depreciar.
Delírio e desritmia – infecção bactérica do sistema.
Fibrilação ventricular – colapso cardíaco com edema.
Relapsa, a lascívia é activa: imagino uma delícia putrescina.
Fétida, a fecalidade é vomitiva: besunto-me com bilirrubina.
(Indignante –
a minha presença mete nojo.
Sevandijante –
não há outro verme tão sujo.)
Nódoas no corpo, nódoas na mente. Imundo bizarro!
Sexualidade misófila e indecente. Imundo bizarro!
IMUNDO BIZARRO (música: Holocausto Canibal; letra: David Soares)
Repuxos vagais laríngicos – cessam as inibições.
Inalando matéria regurgitada – surgem alucinações.
Psicótico, desviante:
não estou só nesta parafilia.
Hipnótico, excitante:
o vicio da minha emetofilia.
O vómito inflama a fantasia.
Total fadiga epiglótica – depois da quietação orgástica.
Hidropisia pulmicórtica – efeitos da inspiração cáustica.
Perigoso, glorificante:
um epicurismo singular.
Asqueroso, exaltante:
ejaculo em lixo hospitalar.
Prazeres a não depreciar.
Delírio e desritmia – infecção bactérica do sistema.
Fibrilação ventricular – colapso cardíaco com edema.
Relapsa, a lascívia é activa: imagino uma delícia putrescina.
Fétida, a fecalidade é vomitiva: besunto-me com bilirrubina.
(Indignante –
a minha presença mete nojo.
Sevandijante –
não há outro verme tão sujo.)
Nódoas no corpo, nódoas na mente. Imundo bizarro!
Sexualidade misófila e indecente. Imundo bizarro!
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