Sepulturas dos Pais (Kingpin Books, 2014) foi lançado no passado dia 25 (sábado) no festival internacional de banda desenhada Amadora BD e é escrito por mim e desenhado por André Coelho.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
«O Homem-Javali Vai Casar» na antologia «Crumbs» da Kingpin Books
A Kingpin Books prepara-se para publicar uma antologia em inglês de bandas desenhadas inéditas, escritas e desenhadas por autores portugueses, que irá apresentar em Novembro no festival de banda desenhada Thought Bubble Festival, em Leeds. A antologia, cuja capa divulgo acima (desenhada por André Pereira e colorida por Afonso Ferreira), intitula-se Crumbs - e, posso garantir, é espectacular. No próximo dia 9 de Novembro, no auditório do Amadora BD, às 16H30, ocorrerá uma antevisão desta antologia, com a presença do editor Mário Freitas e de alguns dos autores participantes.
Neste livro, participo com a banda desenhada O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa: uma banda desenhada que tem a particularidade de ter sido escrita por mim directamente em inglês. Fiquem com algumas pranchas de amostra.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Fotos de lançamento e autógrafos de «Sepulturas dos Pais»
Algumas fotos tiradas no AMADORA BD, no lançamento e sessão de autógrafos de Sepulturas dos Pais, livro de banda desenhada escrito por mim e desenhado por André Coelho (Kingpin Books, 2014). Obrigado a todos os leitores e amigos que apareceram: areia nas vossas almas!
André Coelho, David Soares e Mário Freitas (editor).
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Lançamento de «Sepulturas dos Pais» + Sessões de autógrafos
O lançamento de Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado por André Coelho, com legendagem de Mário Freitas, ocorrerá no auditório do 25º Amadora BD (Fórum Luís de Camões, Brandoa) no próximo dia 25 (sábado), às 16H30.
Nesse dia, das 17H00 às 19H00, eu e André Coelho estaremos na zona de autógrafos para assinar livros aos leitores.
Também estarei disponível para autógrafos no dia 8 de Novembro (sábado), das 16H00 às 18H00.
Estas duas datas e horários serão os únicos em que irei estar no 25º Amadora BD.
Informo, porque esta questão tem-me sido perguntada muitas vezes, por email e pessoalmente, que, pese o facto deste ser um evento ligado à banda desenhada, assinarei todos os meus livros, tanto os de prosa como os de BD.
Reitero que não estarei no 25º Amadora BD em nenhuma outra altura ou hora, por isso marquem nas vossas agendas e apareçam. Será um prazer estar convosco. Até lá, poderão ler as primeiras onze pranchas de Sepulturas dos Pais nesta ligação.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Teaser de «Sepulturas dos Pais»
O lançamento de Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado por André Coelho, com legendagem de Mário Freitas, ocorrerá no próximo dia 25 (sábado) no Amadora BD deste ano (Fórum Luís de Camões, Brandoa). Até lá, poderão ler as primeiras onze pranchas de Sepulturas dos Pais e criar as vossas expectativas: preparem-se para magia e miséria - sendo que delimitar onde uma começa e a outra acaba é algo que deixo à vossa posterior interpretação.
«Encontrará outros sonhos em que se manifestar.
E os significados tornar-se-ão insignificantes.»
E os significados tornar-se-ão insignificantes.»
sábado, 20 de setembro de 2014
Primeira prancha de «O Homem-Javali Vai Casar; ou, Leng Tch'e»
Primeira prancha de O Homem-Javali Vai Casar; ou, Leng Tch'e, banda desenhada curta, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa, que será editada este ano pela Kingpin Books. Preparem-se que vai haver sangue.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Lisboa, a cobaia
Estou habituado a ter opiniões que vão no sentido oposto ao da moda: para o efeito, não existe da minha parte nenhuma inclinação, nem nenhum apetite singular - simplesmente, recuso observar o mundo pelas lentes que o populismo e a transitoriedade impõem.
Hoje é notícia que Lisboa irá proibir no centro da cidade a circulação de veículos automóveis com matrículas anteriores ao ano 2000: medida que prossegue a proibição gradual de circulação automóvel na Baixa e centro da cidade iniciada em 2011 com outras medidas, igualmente restritivas, que, somadas a esta, só poderão ter como objectivo de curto-prazo a proibição completa de circulação automóvel no centro da cidade, excepto transportes públicos. Não deixa de ser curioso ler esta notícia em paralelo com outra, publicada ontem, que anunciou a expansão das coroas da rede de transportes públicos, assim como o aumento dos preços dos passes para os utentes.
Os transportes públicos de Lisboa são caros. Já andei de transportes públicos em diversas capitais europeias, de países do Sul e do Norte, e, provavelmente, Lisboa será aquela que, à luz do valor do salário mínimo nacional e da média dos restantes ordenados, tem os títulos de transportes públicos mais caros - e sublinhe-se que consiste numa rede de transportes públicos de percursos planeados de modo pedestre (trocadilho não-intencional).
Um bilhete de autocarro custa 1,85 euros, um bilhete de eléctrico custa 2,85 euros e um bilhete de ascensor custa 3,60 euros (preços de uma única viagem; ou seja, caso se pretenda efectuar uma viagem de ida e volta, o custo duplica). Um bilhete de metro custa 1,40 euros e tem um prazo de validade de sessenta minutos: caso se pretenda mais tempo de viagem existe a modalidade do bilhete diário, que custa 6,00 euros. Preços nas proximidades dos 3,00 ou dos 4,00 euros poderão parecer baratos, mas, na verdade, são preços turísticos cobrados a utentes que, na maioria, não são nenhuns turistas: são residentes de Lisboa que utilizam diariamente os transportes públicos no decurso das suas habituais rotinas.
Os percursos dos autocarros de Lisboa são demasiado longos - e, em alguns casos, até suburbanos -, logo não causará nenhum espavento que um cidadão prefira deslocar-se no seu automóvel dentro da cidade para ser capaz de chegar com maior rapidez ao seu destino. Aliás, as diferenças entre as médias dos preços dos bilhetes, dos passes e dos parques subterrâneos de estacionamento são tão ténues que mais vale uma deslocação de carro e pagar-se o estacionamento no parque, porque isso poderá corresponder a uma economia de tempo na ordem dos quarenta e cinco minutos a sessenta minutos de viagem - principalmente nas horas de ponta. Quem não entende isto não sabe o que é morar numa grande cidade.
Não me escapa a eventualidade de eu estar errado sobre este assunto e, por ignorância temporária ou limitação intelectual de longa duração, manter-me do lado negro da linha que separa os pragmáticos dos idealistas. Na realidade, não encontro idealismo nenhum na moda de, forçosamente, se querer ser popular sendo "verde", seja lá isso o que for.
A quasi-isotrópica demonização dos automóveis e a conspícua elegia das bicicletas, descritas nas bulas da comunicação social como sendo um remédio saudável e moral (a tónica colocada na moralidade é mais importante do que, à partida, se poderá pensar - andar de bicicleta à solta entre automóveis, sem respeitar o código da estrada, é um modo barato de indivíduos sem imaginação se sentirem superiores aos outros) contra a miríade de malefícios do mundo contemporâneo, irá, espero, estilhaçar-se como o pé de barro que é quando se compreender que as bicicletas são anticomércio e anti-serviços. (Já se levou alguém para o hospital numa bicicleta?)
Se, no que concerne à circulação de veículos automóveis, o objectivo é transformar Lisboa numa cidade como Londres, na qual é inaudito ver-se no centro da cidade um veiculo automóvel que não seja um transporte público (autocarros e táxis), terá de se reformular a totalidade do desenho dos actuais percursos de autocarros de Lisboa, de modo a garantir, tal como em Londres, um fluxo ininterrupto de transportes à disposição, situação que não é aquela que os utentes verificam diariamente. Verifica-se, até, o oposto: a semana passada, por exemplo, estive quase uma hora à espera de um autocarro - numa hora "morta" e numa popular zona da cidade com um volumoso trânsito turístico.
O sangue de uma cidade não são os turistas. São os habitantes e os lisboetas precisam de melhores condições de usufruto dos seus transportes públicos: bilhetes e passes mais baratos - e estacionamentos mais baratos para os automóveis - seria um excelente começo. A alternativa a soluções destas naturezas e à insistência na cristalização de uma Lisboa exclusivamente para turistas poderá ser um êxodo gradual dos jovens lisboetas (principalmente) para as vilas de dormitórios da periferia, agravando ainda mais a desertificação de uma cidade outrora vicejante, mas tornada em sede de escritórios extintos, centros comerciais fantasmas e domicílios devolutos que se erguem como dentes cariados ao lado de renovados blocos de apartamentos de luxo, acessíveis apenas a quem, em última análise, se estará nas tintas para Lisboa enquanto autêntico local de residência.
A Lisboa actual é uma Lisboa deformada: cobaia que, cada vez mais, agoniza em comportamentos absurdos.
Quem quer ser "verde" fará melhor em deixar os veículos automóveis em paz e preocupar-se, antes, com a questão do lixo electrónico, que é o grande flagelo invisível do século XXI, contaminando, a ritmos avassaladores, lagos, rios, oceanos e solos com um espectro assustador de metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio, entre outros) e materiais plásticos muitíssimo resistentes à erosão.
Pensem nisso sempre que, a cada seis meses, mais ou menos, pedalarem de bicicleta até à Baixa para comprar mais um novo modelo de smartphone ou tablet - deixem de ser ridículos e pensem. Bem sei que pensar poderá ser difícil, sobretudo para quem não está habituado, mas, em suma, é como andar de bicicleta: uma vez aprendido como se faz, nunca mais se esquece.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
De novo sobre Lovecraft e o seu suposto racismo
Com efeito, não imaginei que o texto que escrevi no passado dia 4 de Julho sobre o escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft fosse, infelizmente, ganhar uma pertinência ainda maior ao ser cotejado com o burburinho que circula presentemente uma patética petição pública, iniciativa de Daniel José Older (quem?), objectivando a reconfiguração da imagem dos prémios World Fantasy Awards (que consiste num caricatural busto de Lovecraft) para uma estatueta modelada segundo o rosto da escritora norte-americana de ficção científica Octavia Butler. A "lógica" por trás deste desiderato agasalha-se na repulsa que a escritora nigero-americana Nnedi Okorafor (vencedora, em 2011, de um World Fantasy Award para Melhor Romance) sentiu ao descobrir que Lovecraft era, segundo dizem, racista. Ficou com o prémio estragado, está visto. Temos pena.
A pseudoditadura do chamado politicamente-correcto provoca-me náuseas e tenho tantas coisas para dizer sobre isso que nem sei por onde começar. Assim, não começo, sequer: vou por outro caminho, que é, factualmente, o de reiterar que o mito do racismo lovecraftiano é uma criação muitíssimo insuflada - por leitores, críticos e editores que não gostam da obra de Lovecraft, pelas mais variadíssimas razões; sendo que a mais óbvia - e a mais frequente - será a de que sentem uma inveja insuportável diante do facto de que nunca serão tão influentes e tão reconhecidos quanto ele.
A pequenez dos homenzinhos (e das mulherzinhas) de má qualidade é sempre inversamente proporcional à grandeza de quem eles vituperam ou tentam ignorar: sempre. Disso, nos garante a história - e a vida comum de todos os dias, acrescente-se.
Desde que o escritor francês Michel Houellebecq, autor da (deficientíssima de fontes primárias, secundárias, terciárias, quaternárias e por aí adiante) biografia H. P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie (1991), elevou o emblema do racismo contra Lovecraft e sua obra, que uma turba tonitruante de corifeus segue, cantando e rindo, esse plasma, modelando-o a seu bel-prazer, sempre que precisa de ganhar protagonismo - algo que, aparentemente, não é capaz de alcançar através da criação artística. Não obstante a tenacidade dessa pobre gentalha para quem as costas largas dos indivíduos mais talentosos do seu ofício são apenas trampolins para o sucesso fácil, Lovecraft esteve muito longe da astigmática silhueta de racista enfurecido com que alguns o adoram delinear.
Para não repetir o que escrevi anteriormente, deixo a ligação para o meu texto do passado dia 4 de Julho, no qual desmonto esse mito.
sábado, 13 de setembro de 2014
Nova entrevista
Nesta ligação podem ler uma entrevista que dei para o blogue Que a Estante Nos Caia Em Cima, conduzida por Rui Bastos. Entre outros assuntos, são abordados algumas das minhas
preocupações e métodos autorais, assim como ainda se dedicam algumas
palavras ao meu novo livro Sepulturas dos Pais (Kingpin Books),
escrito por mim e desenhado por André Coelho.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Um impiedoso ataque ao cliché
Estive a reler Sepulturas dos Pais de
fresco: fico feliz por dizer que consiste num impiedoso ataque ao
cliché. Escrito por mim, desenhado por André Coelho e legendado por
Mário Freitas, será editado no próximo mês pela Kingpin Books. É um livro duríssimo: um uivo alto que nunca tranquiliza. Vocês não fazem ideia do que aí vem.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Contos de horror com o Jornal i
Em parceria com a Escritório Editora, o Jornal i vai disponibilizar alguns livros de contos em que participei: Contos de Terror do Homem-Peixe, Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos e Ficções Científicas e Fantásticas. Na minha opinião, os contos de horror que publiquei nestes livros (Réptil, Um Erro do Sol e O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho, respectivamente) contém algumas das minhas ideias mais subversivas e, claro, recomendo-os com entusiasmo. Por conseguinte, de 17 de Setembro a 1 de Outubro, poderão levar estes livros convosco para casa.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Descoberta a identidade de Jack, o Estripador?
Esta é uma fotografia de Dorset Street, no
distrito londrino de Whitechapel, tirada em 1888: ano em que, de Agosto a
Novembro, um assassino apenas conhecido pela alcunha de Jack, o
Estripador, matou cinco prostitutas com elevado grau de selvajaria.
Vale a pena olhar para esta imagem por duas razões: 1) porque Mary Kelly, a última vítima canónica desse criminoso, e aquela cujo corpo foi mais severamente mutilado (quase para além da forma humana), foi assassinada aqui, na sua casa; e 2) porque é preciso recordar que este sítio e estas pessoas nada têm a ver com Hollywood ou com atracções turísticas contemporâneas - foram indivíduos reais e viveram em condições miseráveis. Os obstáculos das vidas destas mulheres poderão ficar melhor ilustrados pelo facto terrível de Catherine Eddowes, a quarta vítima, ter penhorado os sapatos nas vésperas de ser assassinada (o flagelo social do "pé descalço", como era conhecido em Portugal, ainda era um problema gravíssimo em meados do século passado em cidades como Lisboa e Porto, por isso pode ter-se uma ténue ideia de como seriam as reais condições de higiene e segurança na Londres vitoriana). Lanço luz sobre isto para desmistificar a pátina nostálgica que encortiça os crimes de Jack, o Estripador, que, avaliadas as coisas, foi, somente, um asqueroso assassino que predava os elementos mais frágeis da sociedade do seu tempo. Não existe nenhum glamour nisto.
Dito isto, a revelação feita recentemente pelo inglês Russel Edwards, um investigador amador, e pelo finlandês Jari Louhelainen, geneticista na universidade John Moores de Liverpool, de que Aaron Kosminski foi, de facto, Jack, o Estripador, é, em simultâneo, totalmente credível e altamente especulativa.
É verossímil, porque Kosminski, um polaco de religião judaica que, na altura dos crimes, tinha cerca de vinte a vinte e cinco anos de idade, sempre foi apontado pelas autoridades e pelos aficionados destes crimes como um dos suspeitos mais plausíveis. Até há um relato testemunhal, de Israel Schwartz, que relatou à polícia ter visto um homem parecido com Kosminski a atacar Elizabeth Stride, a terceira vítima, assassinada na mesma noite que Catherine Eddowes. No seu livro Mind Hunter, John Douglas, agente especial do FBI e um dos pais da contemporânea psicologia forense, estudou os ficheiros da Scotland Yard e concluiu que o suspeito mais provável de ser Jack, o Estripador, era Kosminski. Escreveu Douglas que «of all the possibilities we were presented, Kosminski fit the profile far better than the others». As informações disponíveis sobre Kosminski sugerem que ele foi um indivíduo bizarro e violento, obcecado com sangue menstrual e masturbação e que residia a cerca de quinze minutos a pé de quase todos os locais em que foram assassinadas as cinco vítimas canónicas de Jack, o Estripador. Será que foi ele que ejaculou no xaile descoberto por Russel Edwards e do qual Jari Louhelainen foi capaz de extrair vestígios de ADN e, ainda, vestígios epiteliais - com uma técnica nova, chamada "aspiração" (o nome induz em erro), desenvolvida pelo próprio? Xaile que, esclareça-se, terá pertencido ou a Kosminski ou a Catherine Eddowes e que foi guardado por um dos sargentos da polícia que descobriu o corpo, permanecendo como herança de família até ser comprado por Edwards?
Para ser honesto, do que li sobre as revelações extraordinárias de Edwards e Louhelainen, a história do xaile parece-me quase credível e, em última análise, estou aberto à possibilidade dela ser verdade. O meu cepticismo entra por outra via: a de que o ADN encontrado no xaile é mitocondrial e, sendo assim, dificilmente pode provar que Kosminski foi Jack, o Estripador. De facto, nem sequer pode provar que Kosminski agarrou no xaile, sequer.
Sem entrar em detalhes, o ADN mitocondrial é o ADN que se encontra nas mitocôndrias das células e é herdado por via materna. Também é muitíssimo resistente à passagem das eras: assim, é possível analisar vestígios forenses muito antigos e perceber se determinado suspeito poderá ou não estar relacionado com eles, mas esse reconhecimento é, com efeito, muito lato, porque o ADN mitocondrial não permite identificações personalizadas: apenas sugere que alguém de deteminada descendência está relacionado com os vestígios. No caso do xaile descoberto por Edwards não só Kosminski é um potencial suspeito, assim como uma porção muito numerosa de londrinos seus contemporâneos. Como pode ler-se no site do próprio FBI (eu poderia citar passagens do meu livro de biologia do ciclo preparatório, mas se o site do FBI está disponível à distância de um clique, para quê complicar): «Since mtDNA [ADN mitocondrial] is maternally inherited and multiple individuals can have the same mtDNA type, unique identifications are not possible using mtDNA analyses».
Em suma: o patético Aaron Kosminski é um suspeito perfeitamente credível, apontado tanto pela New Scotland Yard e pelo FBI como o provável Jack, o Estripador. Na verdade, muitos polícias vitorianos morreram convencidos de que esta personagem poderia mesmo ter sido Jack, o Estripador. No entanto, a história do xaile ejaculado descoberto por Edwards e a análise forense de Louhelainen são demasiado especulativas para serem aceites de imediato.
Vale a pena olhar para esta imagem por duas razões: 1) porque Mary Kelly, a última vítima canónica desse criminoso, e aquela cujo corpo foi mais severamente mutilado (quase para além da forma humana), foi assassinada aqui, na sua casa; e 2) porque é preciso recordar que este sítio e estas pessoas nada têm a ver com Hollywood ou com atracções turísticas contemporâneas - foram indivíduos reais e viveram em condições miseráveis. Os obstáculos das vidas destas mulheres poderão ficar melhor ilustrados pelo facto terrível de Catherine Eddowes, a quarta vítima, ter penhorado os sapatos nas vésperas de ser assassinada (o flagelo social do "pé descalço", como era conhecido em Portugal, ainda era um problema gravíssimo em meados do século passado em cidades como Lisboa e Porto, por isso pode ter-se uma ténue ideia de como seriam as reais condições de higiene e segurança na Londres vitoriana). Lanço luz sobre isto para desmistificar a pátina nostálgica que encortiça os crimes de Jack, o Estripador, que, avaliadas as coisas, foi, somente, um asqueroso assassino que predava os elementos mais frágeis da sociedade do seu tempo. Não existe nenhum glamour nisto.
Dito isto, a revelação feita recentemente pelo inglês Russel Edwards, um investigador amador, e pelo finlandês Jari Louhelainen, geneticista na universidade John Moores de Liverpool, de que Aaron Kosminski foi, de facto, Jack, o Estripador, é, em simultâneo, totalmente credível e altamente especulativa.
É verossímil, porque Kosminski, um polaco de religião judaica que, na altura dos crimes, tinha cerca de vinte a vinte e cinco anos de idade, sempre foi apontado pelas autoridades e pelos aficionados destes crimes como um dos suspeitos mais plausíveis. Até há um relato testemunhal, de Israel Schwartz, que relatou à polícia ter visto um homem parecido com Kosminski a atacar Elizabeth Stride, a terceira vítima, assassinada na mesma noite que Catherine Eddowes. No seu livro Mind Hunter, John Douglas, agente especial do FBI e um dos pais da contemporânea psicologia forense, estudou os ficheiros da Scotland Yard e concluiu que o suspeito mais provável de ser Jack, o Estripador, era Kosminski. Escreveu Douglas que «of all the possibilities we were presented, Kosminski fit the profile far better than the others». As informações disponíveis sobre Kosminski sugerem que ele foi um indivíduo bizarro e violento, obcecado com sangue menstrual e masturbação e que residia a cerca de quinze minutos a pé de quase todos os locais em que foram assassinadas as cinco vítimas canónicas de Jack, o Estripador. Será que foi ele que ejaculou no xaile descoberto por Russel Edwards e do qual Jari Louhelainen foi capaz de extrair vestígios de ADN e, ainda, vestígios epiteliais - com uma técnica nova, chamada "aspiração" (o nome induz em erro), desenvolvida pelo próprio? Xaile que, esclareça-se, terá pertencido ou a Kosminski ou a Catherine Eddowes e que foi guardado por um dos sargentos da polícia que descobriu o corpo, permanecendo como herança de família até ser comprado por Edwards?
Para ser honesto, do que li sobre as revelações extraordinárias de Edwards e Louhelainen, a história do xaile parece-me quase credível e, em última análise, estou aberto à possibilidade dela ser verdade. O meu cepticismo entra por outra via: a de que o ADN encontrado no xaile é mitocondrial e, sendo assim, dificilmente pode provar que Kosminski foi Jack, o Estripador. De facto, nem sequer pode provar que Kosminski agarrou no xaile, sequer.
Sem entrar em detalhes, o ADN mitocondrial é o ADN que se encontra nas mitocôndrias das células e é herdado por via materna. Também é muitíssimo resistente à passagem das eras: assim, é possível analisar vestígios forenses muito antigos e perceber se determinado suspeito poderá ou não estar relacionado com eles, mas esse reconhecimento é, com efeito, muito lato, porque o ADN mitocondrial não permite identificações personalizadas: apenas sugere que alguém de deteminada descendência está relacionado com os vestígios. No caso do xaile descoberto por Edwards não só Kosminski é um potencial suspeito, assim como uma porção muito numerosa de londrinos seus contemporâneos. Como pode ler-se no site do próprio FBI (eu poderia citar passagens do meu livro de biologia do ciclo preparatório, mas se o site do FBI está disponível à distância de um clique, para quê complicar): «Since mtDNA [ADN mitocondrial] is maternally inherited and multiple individuals can have the same mtDNA type, unique identifications are not possible using mtDNA analyses».
Em suma: o patético Aaron Kosminski é um suspeito perfeitamente credível, apontado tanto pela New Scotland Yard e pelo FBI como o provável Jack, o Estripador. Na verdade, muitos polícias vitorianos morreram convencidos de que esta personagem poderia mesmo ter sido Jack, o Estripador. No entanto, a história do xaile ejaculado descoberto por Edwards e a análise forense de Louhelainen são demasiado especulativas para serem aceites de imediato.
domingo, 7 de setembro de 2014
Antologia «The Ironic Fantastic»
O terceiro número da antologia de ficção The Ironic Fantastic,
série criada pelo escritor galês Rhys Hughes, já se encontra disponível para download gratuito: esta edição, com capa do ilustrador português
Esgar Acelerado, foi organizada e editada por Paulo Brito e recomendo-a efusivamente. Entre conteúdos de
enorme interesse, contém duas críticas a dois livros meus pelo crítico
norte-americano Larry Nolen, assim com algumas sugestões minhas de
leituras de não-ficção. Inclui, ainda, diversas fotos de Gisela Monteiro.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
«Sepulturas dos Pais»: capa e data de lançamento
Capa de Sepulturas dos Pais, escrito por mim e desenhado por André Coelho. Uma edição da Kingpin Books, com lançamento previsto para 25 de Outubro, no Amadora BD.
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terça-feira, 2 de setembro de 2014
«Sepulturas dos Pais» em Outubro
Sepulturas dos Pais, livro escrito por mim e desenhado por André Coelho, está quase a ser editado: mar e magia numa história que é, acima de tudo, um mapa do fracasso. O soco no estômago (e no cérebro) será dado em Outubro, cortesia da Kingpin Books.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Contracultura satânica e feiticeira na revista LOUD! de Setembro
No número de Setembro da revista LOUD!,
quase a chegar às bancas, assino um pequeno ensaio histórico sobre o
fenómeno da contracultura satânica e feiticeira ocidental, partindo do
imaginário lírico e musical da banda de capa, os Electric Wizard
- grupo que, para esta edição, deu uma excelente entrevista conduzida
por Ricardo S. Amorim. Além desse texto, deixo cinco sugestões
contraculturais, relacionadas com a banda de Dorset e com o imaginário
satânico e feiticeiro que interrogo com rigor no ensaio.
Este ano, a rentrée é endiabrada - e conta com todos na apresentação deste número da LOUD! no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, no próximo dia 9, às 18H30. Lá estarei para dois dedos de conversa. Agradeço a divulgação.
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terça-feira, 19 de agosto de 2014
Monstruosidades contra a língua portuguesa
O infame AO90 (Novo Acordo Ortográfico) está a abrir precedentes para que outras mentes imaginem protocolos ainda piores, porque, aparentemente, ele não foi suficientemente longe na "simplificação" da língua portuguesa: neste caso, o Movimento Simplificando a Ortografia, idealizado e encabeçado pelo professor brasileiro Ernani Pimentel (na imagem), que intenta substituir na teoria e na prática o AO90 por um programa que, entre outros objectivos, quer abolir o hífen, a letra h (no início das palavras), as letras ç, ch e os dois ss, assim como transformar em j todos os g seguidos de e ou i (assim, passar-se-ia a escrever ferrujem e jenjiva, por exemplo), para ir ao encontro desse desiderato, almejado pelo próprio senado brasileiro que quer dar vida a este monstro até 2016. Além de que casa também se poderá escrever com z, segundo diz Pimentel nesta entrevista dada ao jornal brasileiro Zero Hora e transcrita no site ILC Contra o Acordo Ortográfico:
Se burros houvesse que a zurrar conseguissem criar novos acordos ortográficos, este seria, em definitivo, o arquétipo de todos os acordos aberrantes, pois nenhum ser racional será (até ver) capaz de alcançar tão elevados graus de demência e abjecção.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Sadomasoquismos novos e velhos
Ao abrigo da temática tortural, iniciada com a
publicação anterior, abro um pequeno intermezzo tragicómico para
comentar o nádir em que, mais uma vez, se escava a cultura popular, qual
escaravelho coprófago, em busca de húmus ainda mais fétido;
desta feita, com a estreia anunciada para breve (Fevereiro de 2015) do
filme sadomasoquista 50 Shades of Grey, adaptação cinematográfica do
pasquim pseudoporno cozinhado sem gosto e sem requinte pela maître de
cuisine inglesa Erika Leonard James: originalmente uma receita que
consistia numa fanfiction da tetralogia Twilight de Stephenie Meyer.
O trailer já disponibilizado é uma explosão de cabotinice como há muito não se via, pelo simples facto de se querer levar totalmente a sério. O filme erótico será sempre, por natureza, um produto saloio: o
género pornográfico é mais honesto e, às vezes, um barro esteticamente
mais interessante para se moldar (as experiências cinematográficas de
Catherine Breillat, Lars Von Trier, entre outros, vêm à memória), embora
também se esgote em si mesmo nas suas evidentes limitações. No entanto,
aquilo que provoca maior estupefacção em objectos da estirpe de 50
Shades of Grey é um certo discurso invisível que transmitem, segundo o
qual vêm quebrar com pompa e circunstância todos os tabus erguidos
diante da sexualidade por uma sociedade bafienta e timorata.
Apresentam-se como campeões da liberdade (e da libertinagem). Ora, isto
não podia estar mais longe da verdade: filmes e livros como 50 Shades
of Grey não só se inserem na esteira de uma longa tradição de obras
populares pornográficas, como, ainda por cima, perdem na comparação com
estas no que concerne à malandrice e à perversidade.
Nem sequer vale a pena ir buscar os exemplos mais conhecidos - e mais escabrosos. Recupero umas transcrições de um curioso opúsculo que, infelizmente ou felizmente, tem andado um bocado esquecido, autorado em 1799 pelo frade oratoriano Teodoro de Almeida e intitulado Elogio da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Xavier de Assis Mascarenhas, Baronesa de Alvito e Condessa de Oriola. Esta narrativa conta como a referida senhora «ocultava ao seu ilustre esposo as penitências que ela fazia» e que consistiam em «tomar disciplina na companhia de umas devotas mulheres», em usar «frequentemente de cilícios de ferro e nos seus tenros e ainda bem delicados membros os apertava com estranha crueldade». Mas há mais: «havendo de fazer uma jornada a cavalo levava o cilício cingido na cintura: e usava dele nas circunstâncias em que esta penitência era mais penosa...» [leia-se, quando estava grávida]. A luxúria masoquista da baronesa-condessa não ficava por aqui: «quando se lhe descobria e tirava o instrumento das frequentes disciplinas, inventava outras das quais ninguém suspeitou o ministério para que se deputavam, tomando com eles novenas de disciplinas de sangue». Embriagado de embevecimento, Teodoro de Almeida expõe ainda que a baronesa-condessa «usava de uma pequena tenaz de ferro, que com os dentes agudos prende onde a largam por causa de uma mola, que continuamente força» e ainda que havia um outro instrumento do qual ela «se valia com muita frequência, buscando de propósito partes onde a sensação fosse mais delicada». A nossa baronesa-condessa setecentista faz engolir em seco as personagens de 50 Shades of Grey, com a vantagem acrescida que, na sua situação, a figura de poder é ela: sozinha ou entre as tais «devotas mulheres». Ou seja: o relato do oratoriano Teodoro de Almeida consegue ser mais feminista e subversivo que as fantasias ingénuas com que sonham as Anastasias Steeles contemporâneas, desejosas de encontrar uns Christians Greys que lhes abram as portas das suas câmaras secretas das dores prazerosas (basta ver o trailer do filme para entender o que isto é).
Os únicos tabus que filmes e livros como 50 Shades of Grey vêm quebrar são os da ignorância, quando alguém (como eu fiz agora) olha para o passado e diz nihil novi ub sole.
Nem sequer vale a pena ir buscar os exemplos mais conhecidos - e mais escabrosos. Recupero umas transcrições de um curioso opúsculo que, infelizmente ou felizmente, tem andado um bocado esquecido, autorado em 1799 pelo frade oratoriano Teodoro de Almeida e intitulado Elogio da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Xavier de Assis Mascarenhas, Baronesa de Alvito e Condessa de Oriola. Esta narrativa conta como a referida senhora «ocultava ao seu ilustre esposo as penitências que ela fazia» e que consistiam em «tomar disciplina na companhia de umas devotas mulheres», em usar «frequentemente de cilícios de ferro e nos seus tenros e ainda bem delicados membros os apertava com estranha crueldade». Mas há mais: «havendo de fazer uma jornada a cavalo levava o cilício cingido na cintura: e usava dele nas circunstâncias em que esta penitência era mais penosa...» [leia-se, quando estava grávida]. A luxúria masoquista da baronesa-condessa não ficava por aqui: «quando se lhe descobria e tirava o instrumento das frequentes disciplinas, inventava outras das quais ninguém suspeitou o ministério para que se deputavam, tomando com eles novenas de disciplinas de sangue». Embriagado de embevecimento, Teodoro de Almeida expõe ainda que a baronesa-condessa «usava de uma pequena tenaz de ferro, que com os dentes agudos prende onde a largam por causa de uma mola, que continuamente força» e ainda que havia um outro instrumento do qual ela «se valia com muita frequência, buscando de propósito partes onde a sensação fosse mais delicada». A nossa baronesa-condessa setecentista faz engolir em seco as personagens de 50 Shades of Grey, com a vantagem acrescida que, na sua situação, a figura de poder é ela: sozinha ou entre as tais «devotas mulheres». Ou seja: o relato do oratoriano Teodoro de Almeida consegue ser mais feminista e subversivo que as fantasias ingénuas com que sonham as Anastasias Steeles contemporâneas, desejosas de encontrar uns Christians Greys que lhes abram as portas das suas câmaras secretas das dores prazerosas (basta ver o trailer do filme para entender o que isto é).
Os únicos tabus que filmes e livros como 50 Shades of Grey vêm quebrar são os da ignorância, quando alguém (como eu fiz agora) olha para o passado e diz nihil novi ub sole.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Sobre instrumentos medievais e modernos de tortura
Neste momento, no Edifício da Alfândega do Porto, o público pode ver mais uma das exposições de ditos objectos e mecanismos medievais e modernos de tortura, usados, alegadamente, entre
outros organismos, pelas inquisições. Exposições desta natureza
são frequentes e eu já visitei muitas, em Portugal e no estrangeiro:
todas muito parecidas - algumas até davam a ideia de apresentarem as
mesmas colecções, com um punhado de peças diferentes, consoante os
locais de mostra ao público. O problema destas exposições - que são um
excelente entretenimento, para quem aprecia a temática tétrica (eu, sem
dúvida, que aprecio) - é que fortalecem e divulgam continuamente ideias
erradas sobre a história medieval e a história das inquisições. A
verdade é que a maioria dos comuns instrumentos medievais e modernos de
tortura que preenchem o imaginário popular, graças a este e outros tipos
de veículos de entretenimento, NUNCA EXISTIRAM: são absolutamente
FALSOS.
Nunca - NUNCA - existiu a Dama de Ferro, a Pêra de Tortura, a Cadeira Inquisitorial (que ilustra o anúncio da exposição) e tantos outros artifícios angustiantes. As inquisições nunca os usaram para extrair confissões. De facto, aquilo que o público pensa que sabe sobre tortura inquisitorial ESTÁ ERRADO. Sim, as inquisições torturavam indivíduos para extrair confissões - e detinham engenhosos estratagemas legais para que as sessões de tortura de um determinado indivíduo se pudessem repetir (isto, porque de acordo com os regimentos cada indivíduo só podia ser torturado uma vez) -, mas somente usaram dois métodos: a polé e o potro - métodos que não vertiam sangue, porque as inquisições estavam proibidas de verter sangue.
As torturas na polé e no potro estavam muitíssimo longe de ser arbitrárias: eram reguladas com rigidez por um conjunto intrincado de correspondências entre a solidez das suspeitas e a gravidade das acusações, sendo que a cada sessão de tortura era atribuído um grau em especial; por exemplo, um indivíduo podia ser sentenciado a uma tortura de grau três no potro, o que corresponderia, somente, a que tivesse as cordas amarradas no corpo sem que estas fossem apertadas. Na maioria das vezes, os acusados eram condenados a, simplesmente, olhar para os instrumentos de tortura - o que, quase sempre, resultava em confissões (verdadeiras ou inventadas). A tortura na polé era, de certa forma, mais violenta: quem não teria hipótese de aguentá-la (um médico avaliava sempre o estado de saúde dos acusados antes das sessões de tormento) era condenado a ser torturado em grau equivalente no potro. Não estou a branquear as inquisições: isto é a mais pura verdade histórica e todos estes factos podem ser comprovados. As torturas no potro e na polé eram terríveis, que isso fique retido, e os indivíduos podiam ficar estropiados para o resto da vida, mas a lenda negra do sadismo inquisitorial, tal como é veiculada pela indústria cinematográfica e por exposições como a que serve de mote a este artigo, é uma completa e desavergonhada ficção.
Os falsos instrumentos medievais e modernos de tortura foram inventados nos séculos XVIII e XIX por alguns antiquários e outros brincalhões, provavelmente com a intenção de titilar as audiências e lucrar com a sua exposição: em pleno decurso do Iluminismo (que não foi igual por toda a Europa, note-se; nem sequer foi sempre deísta ou "libertino", como se chamava a um pensador-livre - um "enciclopedista" - na altura: também houve Iluminismo Católico) essas criações serviriam de contraponto ideal, colocando em paralelo o barbarismo medievo com a justiça social e o progresso cultural dos novos tempos. Foram tão eficazes que ainda hoje a maioria do público acredita que foram reais.
Recomendo a visita a este tipo de exposições - umas mais fidedignas que outras, é certo -, porque são excelente entretenimento, mas no que diz respeito ao rigor e à veracidade histórica estão para estes como o antigo Comboio Fantasma da Feira Popular de Lisboa estaria.
Nunca - NUNCA - existiu a Dama de Ferro, a Pêra de Tortura, a Cadeira Inquisitorial (que ilustra o anúncio da exposição) e tantos outros artifícios angustiantes. As inquisições nunca os usaram para extrair confissões. De facto, aquilo que o público pensa que sabe sobre tortura inquisitorial ESTÁ ERRADO. Sim, as inquisições torturavam indivíduos para extrair confissões - e detinham engenhosos estratagemas legais para que as sessões de tortura de um determinado indivíduo se pudessem repetir (isto, porque de acordo com os regimentos cada indivíduo só podia ser torturado uma vez) -, mas somente usaram dois métodos: a polé e o potro - métodos que não vertiam sangue, porque as inquisições estavam proibidas de verter sangue.
As torturas na polé e no potro estavam muitíssimo longe de ser arbitrárias: eram reguladas com rigidez por um conjunto intrincado de correspondências entre a solidez das suspeitas e a gravidade das acusações, sendo que a cada sessão de tortura era atribuído um grau em especial; por exemplo, um indivíduo podia ser sentenciado a uma tortura de grau três no potro, o que corresponderia, somente, a que tivesse as cordas amarradas no corpo sem que estas fossem apertadas. Na maioria das vezes, os acusados eram condenados a, simplesmente, olhar para os instrumentos de tortura - o que, quase sempre, resultava em confissões (verdadeiras ou inventadas). A tortura na polé era, de certa forma, mais violenta: quem não teria hipótese de aguentá-la (um médico avaliava sempre o estado de saúde dos acusados antes das sessões de tormento) era condenado a ser torturado em grau equivalente no potro. Não estou a branquear as inquisições: isto é a mais pura verdade histórica e todos estes factos podem ser comprovados. As torturas no potro e na polé eram terríveis, que isso fique retido, e os indivíduos podiam ficar estropiados para o resto da vida, mas a lenda negra do sadismo inquisitorial, tal como é veiculada pela indústria cinematográfica e por exposições como a que serve de mote a este artigo, é uma completa e desavergonhada ficção.
Os falsos instrumentos medievais e modernos de tortura foram inventados nos séculos XVIII e XIX por alguns antiquários e outros brincalhões, provavelmente com a intenção de titilar as audiências e lucrar com a sua exposição: em pleno decurso do Iluminismo (que não foi igual por toda a Europa, note-se; nem sequer foi sempre deísta ou "libertino", como se chamava a um pensador-livre - um "enciclopedista" - na altura: também houve Iluminismo Católico) essas criações serviriam de contraponto ideal, colocando em paralelo o barbarismo medievo com a justiça social e o progresso cultural dos novos tempos. Foram tão eficazes que ainda hoje a maioria do público acredita que foram reais.
Recomendo a visita a este tipo de exposições - umas mais fidedignas que outras, é certo -, porque são excelente entretenimento, mas no que diz respeito ao rigor e à veracidade histórica estão para estes como o antigo Comboio Fantasma da Feira Popular de Lisboa estaria.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Geração Única
O jornal Público
está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas
de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro
artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o
título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa
a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de
1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à
geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X,
referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra:
designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje
lhe é atribuído.
Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.
Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.
A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.
Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.
Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.
A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.
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