terça-feira, 28 de outubro de 2014

Fotos de lançamento e autógrafos de «Sepulturas dos Pais»


Algumas fotos tiradas no AMADORA BD, no lançamento e sessão de autógrafos de Sepulturas dos Pais, livro de banda desenhada escrito por mim e desenhado por André Coelho (Kingpin Books, 2014). Obrigado a todos os leitores e amigos que apareceram: areia nas vossas almas!

André Coelho, David Soares e Mário Freitas (editor).









sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lançamento de «Sepulturas dos Pais» + Sessões de autógrafos


O lançamento de Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado por André Coelho, com legendagem de Mário Freitas, ocorrerá no auditório do 25º Amadora BD (Fórum Luís de Camões, Brandoa) no próximo dia 25 (sábado), às 16H30.
Nesse dia, das 17H00 às 19H00, eu e André Coelho estaremos na zona de autógrafos para assinar livros aos leitores.
Também estarei disponível para autógrafos no dia 8 de Novembro (sábado), das 16H00 às 18H00.

Estas duas datas e horários serão os únicos em que irei estar no 25º Amadora BD.
Informo, porque esta questão tem-me sido perguntada muitas vezes, por email e pessoalmente, que, pese o facto deste ser um evento ligado à banda desenhada, assinarei todos os meus livros, tanto os de prosa como os de BD.

Reitero que não estarei no 25º Amadora BD em nenhuma outra altura ou hora, por isso marquem nas vossas agendas e apareçam. Será um prazer estar convosco. Até lá, poderão ler as primeiras onze pranchas de Sepulturas dos Pais nesta ligação.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Teaser de «Sepulturas dos Pais»

 
O lançamento de Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado por André Coelho, com legendagem de Mário Freitas, ocorrerá no próximo dia 25 (sábado) no Amadora BD deste ano (Fórum Luís de Camões, Brandoa). Até lá, poderão ler as primeiras onze pranchas de Sepulturas dos Pais e criar as vossas expectativas: preparem-se para magia e miséria - sendo que delimitar onde uma começa e a outra acaba é algo que deixo à vossa posterior interpretação.












«Encontrará outros sonhos em que se manifestar.
E os significados tornar-se-ão insignificantes.»



sábado, 20 de setembro de 2014

Primeira prancha de «O Homem-Javali Vai Casar; ou, Leng Tch'e»

Primeira prancha de O Homem-Javali Vai Casar; ou, Leng Tch'e, banda desenhada curta, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa, que será editada este ano pela Kingpin Books. Preparem-se que vai haver sangue.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Lisboa, a cobaia


Estou habituado a ter opiniões que vão no sentido oposto ao da moda: para o efeito, não existe da minha parte nenhuma inclinação, nem nenhum apetite singular - simplesmente, recuso observar o mundo pelas lentes que o populismo e a transitoriedade impõem.

Hoje é notícia que Lisboa irá proibir no centro da cidade a circulação de veículos automóveis com matrículas anteriores ao ano 2000: medida que prossegue a proibição gradual de circulação automóvel na Baixa e centro da cidade iniciada em 2011 com outras medidas, igualmente restritivas, que, somadas a esta, só poderão ter como objectivo de curto-prazo a proibição completa de circulação automóvel no centro da cidade, excepto transportes públicos. Não deixa de ser curioso ler esta notícia em paralelo com outra, publicada ontem, que anunciou a expansão das coroas da rede de transportes públicos, assim como o aumento dos preços dos passes para os utentes.

Os transportes públicos de Lisboa são caros. Já andei de transportes públicos em diversas capitais europeias, de países do Sul e do Norte, e, provavelmente, Lisboa será aquela que, à luz do valor do salário mínimo nacional e da média dos restantes ordenados, tem os títulos de transportes públicos mais caros - e sublinhe-se que consiste numa rede de transportes públicos de percursos planeados de modo pedestre (trocadilho não-intencional).
Um bilhete de autocarro custa 1,85 euros, um bilhete de eléctrico custa 2,85 euros e um bilhete de ascensor custa 3,60 euros (preços de uma única viagem; ou seja, caso se pretenda efectuar uma viagem de ida e volta, o custo duplica). Um bilhete de metro custa 1,40 euros e tem um prazo de validade de sessenta minutos: caso se pretenda mais tempo de viagem existe a modalidade do bilhete diário, que custa 6,00 euros. Preços nas proximidades dos 3,00 ou dos 4,00 euros poderão parecer baratos, mas, na verdade, são preços turísticos cobrados a utentes que, na maioria, não são nenhuns turistas: são residentes de Lisboa que utilizam diariamente os transportes públicos no decurso das suas habituais rotinas.
Os percursos dos autocarros de Lisboa são demasiado longos - e, em alguns casos, até suburbanos -, logo não causará nenhum espavento que um cidadão prefira deslocar-se no seu automóvel dentro da cidade para ser capaz de chegar com maior rapidez ao seu destino. Aliás, as diferenças entre as médias dos preços dos bilhetes, dos passes e dos parques subterrâneos de estacionamento são tão ténues que mais vale uma deslocação de carro e pagar-se o estacionamento no parque, porque isso poderá corresponder a uma economia de tempo na ordem dos quarenta e cinco minutos a sessenta minutos de viagem - principalmente nas horas de ponta. Quem não entende isto não sabe o que é morar numa grande cidade.

Não me escapa a eventualidade de eu estar errado sobre este assunto e, por ignorância temporária ou limitação intelectual de longa duração, manter-me do lado negro da linha que separa os pragmáticos dos idealistas. Na realidade, não encontro idealismo nenhum na moda de, forçosamente, se querer ser popular sendo "verde", seja lá isso o que for.
A quasi-isotrópica demonização dos automóveis e a conspícua elegia das bicicletas, descritas nas bulas da comunicação social como sendo um remédio saudável e moral (a tónica colocada na moralidade é mais importante do que, à partida, se poderá pensar - andar de bicicleta à solta entre automóveis, sem respeitar o código da estrada, é um modo barato de indivíduos sem imaginação se sentirem superiores aos outros) contra a miríade de malefícios do mundo contemporâneo, irá, espero, estilhaçar-se como o pé de barro que é quando se compreender que as bicicletas são anticomércio e anti-serviços. (Já se levou alguém para o hospital numa bicicleta?)
Se, no que concerne à circulação de veículos automóveis, o objectivo é transformar Lisboa numa cidade como Londres, na qual é inaudito ver-se no centro da cidade um veiculo automóvel que não seja um transporte público (autocarros e táxis), terá de se reformular a totalidade do desenho dos actuais percursos de autocarros de Lisboa, de modo a garantir, tal como em Londres, um fluxo ininterrupto de transportes à disposição, situação que não é aquela que os utentes verificam diariamente. Verifica-se, até, o oposto: a semana passada, por exemplo, estive quase uma hora à espera de um autocarro - numa hora "morta" e numa popular zona da cidade com um volumoso trânsito turístico.

O sangue de uma cidade não são os turistas. São os habitantes e os lisboetas precisam de melhores condições de usufruto dos seus transportes públicos: bilhetes e passes mais baratos - e estacionamentos mais baratos para os automóveis - seria um excelente começo. A alternativa a soluções destas naturezas e à insistência na cristalização de uma Lisboa exclusivamente para turistas poderá ser um êxodo gradual dos jovens lisboetas (principalmente) para as vilas de dormitórios da periferia, agravando ainda mais a desertificação de uma cidade outrora vicejante, mas tornada em sede de escritórios extintos, centros comerciais fantasmas e domicílios devolutos que se erguem como dentes cariados ao lado de renovados blocos de apartamentos de luxo, acessíveis apenas a quem, em última análise, se estará nas tintas para Lisboa enquanto autêntico local de residência.
A Lisboa actual é uma Lisboa deformada: cobaia que, cada vez mais, agoniza em comportamentos absurdos.

Quem quer ser "verde" fará melhor em deixar os veículos automóveis em paz e preocupar-se, antes, com a questão do lixo electrónico, que é o grande flagelo invisível do século XXI, contaminando, a ritmos avassaladores, lagos, rios, oceanos e solos com um espectro assustador de metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio, entre outros) e materiais plásticos muitíssimo resistentes à erosão.
Pensem nisso sempre que, a cada seis meses, mais ou menos, pedalarem de bicicleta até à Baixa para comprar mais um novo modelo de smartphone ou tablet - deixem de ser ridículos e pensem. Bem sei que pensar poderá ser difícil, sobretudo para quem não está habituado, mas, em suma, é como andar de bicicleta: uma vez aprendido como se faz, nunca mais se esquece.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

De novo sobre Lovecraft e o seu suposto racismo


Com efeito, não imaginei que o texto que escrevi no passado dia 4 de Julho sobre o escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft fosse, infelizmente, ganhar uma pertinência ainda maior ao ser cotejado com o burburinho que circula presentemente uma patética petição pública, iniciativa de Daniel José Older (quem?), objectivando a reconfiguração da imagem dos prémios World Fantasy Awards (que consiste num caricatural busto de Lovecraft) para uma estatueta modelada segundo o rosto da escritora norte-americana de ficção científica Octavia Butler. A "lógica" por trás deste desiderato agasalha-se na repulsa que a escritora nigero-americana Nnedi Okorafor (vencedora, em 2011, de um World Fantasy Award para Melhor Romance) sentiu ao descobrir que Lovecraft era, segundo dizem, racista. Ficou com o prémio estragado, está visto. Temos pena.

A pseudoditadura do chamado politicamente-correcto provoca-me náuseas e tenho tantas coisas para dizer sobre isso que nem sei por onde começar. Assim, não começo, sequer: vou por outro caminho, que é, factualmente, o de reiterar que o mito do racismo lovecraftiano é uma criação muitíssimo insuflada - por leitores, críticos e editores que não gostam da obra de Lovecraft, pelas mais variadíssimas razões; sendo que a mais óbvia - e a mais frequente - será a de que sentem uma inveja insuportável diante do facto de que nunca serão tão influentes e tão reconhecidos quanto ele.
A pequenez dos homenzinhos (e das mulherzinhas) de má qualidade é sempre inversamente proporcional à grandeza de quem eles vituperam ou tentam ignorar: sempre. Disso, nos garante a história - e a vida comum de todos os dias, acrescente-se.

Desde que o escritor francês Michel Houellebecq, autor da (deficientíssima de fontes primárias, secundárias, terciárias, quaternárias e por aí adiante) biografia H. P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie (1991), elevou o emblema do racismo contra Lovecraft e sua obra, que uma turba tonitruante de corifeus segue, cantando e rindo, esse plasma, modelando-o a seu bel-prazer, sempre que precisa de ganhar protagonismo - algo que, aparentemente, não é capaz de alcançar através da criação artística. Não obstante a tenacidade dessa pobre gentalha para quem as costas largas dos indivíduos mais talentosos do seu ofício são apenas trampolins para o sucesso fácil, Lovecraft esteve muito longe da astigmática silhueta de racista enfurecido com que alguns o adoram delinear.


   

sábado, 13 de setembro de 2014

Nova entrevista


 Nesta ligação podem ler uma entrevista que dei para o blogue Que a Estante Nos Caia Em Cima, conduzida por Rui Bastos. Entre outros assuntos, são abordados algumas das minhas preocupações e métodos autorais, assim como ainda se dedicam algumas palavras ao meu novo livro Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por André Coelho.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um impiedoso ataque ao cliché


Estive a reler Sepulturas dos Pais de fresco: fico feliz por dizer que consiste num impiedoso ataque ao cliché. Escrito por mim, desenhado por André Coelho e legendado por Mário Freitas, será editado no próximo mês pela Kingpin Books. É um livro duríssimo: um uivo alto que nunca tranquiliza. Vocês não fazem ideia do que aí vem.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Contos de horror com o Jornal i

Em parceria com a Escritório Editora, o Jornal i vai disponibilizar alguns livros de contos em que participei: Contos de Terror do Homem-Peixe, Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos e Ficções Científicas e Fantásticas. Na minha opinião, os contos de horror que publiquei nestes livros (Réptil, Um Erro do Sol e O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho, respectivamente) contém algumas das minhas ideias mais subversivas e, claro, recomendo-os com entusiasmo. Por conseguinte, de 17 de Setembro a 1 de Outubro, poderão levar estes livros convosco para casa.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Descoberta a identidade de Jack, o Estripador?




Esta é uma fotografia de Dorset Street, no distrito londrino de Whitechapel, tirada em 1888: ano em que, de Agosto a Novembro, um assassino apenas conhecido pela alcunha de Jack, o Estripador, matou cinco prostitutas com elevado grau de selvajaria.

Vale a pena olhar para esta imagem por duas razões: 1) porque Mary Kelly, a última vítima canónica desse criminoso, e aquela cujo corpo foi mais severamente mutilado (quase para além da forma humana), foi assassinada aqui, na sua casa; e 2) porque é preciso recordar que este sítio e estas pessoas nada têm a ver com Hollywood ou com atracções turísticas contemporâneas - foram indivíduos reais e viveram em condições miseráveis. Os obstáculos das vidas destas mulheres poderão ficar melhor ilustrados pelo facto terrível de Catherine Eddowes, a quarta vítima, ter penhorado os sapatos nas vésperas de ser assassinada (o flagelo social do "pé descalço", como era conhecido em Portugal, ainda era um problema gravíssimo em meados do século passado em cidades como Lisboa e Porto, por isso pode ter-se uma ténue ideia de como seriam as reais condições de higiene e segurança na Londres vitoriana). Lanço luz sobre isto para desmistificar a pátina nostálgica que encortiça os crimes de Jack, o Estripador, que, avaliadas as coisas, foi, somente, um asqueroso assassino que predava os elementos mais frágeis da sociedade do seu tempo. Não existe nenhum glamour nisto.

Dito isto, a revelação feita recentemente pelo inglês Russel Edwards, um investigador amador, e pelo finlandês Jari Louhelainen, geneticista na universidade John Moores de Liverpool, de que Aaron Kosminski foi, de facto, Jack, o Estripador, é, em simultâneo, totalmente credível e altamente especulativa.

É verossímil, porque Kosminski, um polaco de religião judaica que, na altura dos crimes, tinha cerca de vinte a vinte e cinco anos de idade, sempre foi apontado pelas autoridades e pelos aficionados destes crimes como um dos suspeitos mais plausíveis. Até há um relato testemunhal, de Israel Schwartz, que relatou à polícia ter visto um homem parecido com Kosminski a atacar Elizabeth Stride, a terceira vítima, assassinada na mesma noite que Catherine Eddowes. No seu livro Mind Hunter, John Douglas, agente especial do FBI e um dos pais da contemporânea psicologia forense, estudou os ficheiros da Scotland Yard e concluiu que o suspeito mais provável de ser Jack, o Estripador, era Kosminski. Escreveu Douglas que «of all the possibilities we were presented, Kosminski fit the profile far better than the others». As informações disponíveis sobre Kosminski sugerem que ele foi um indivíduo bizarro e violento, obcecado com sangue menstrual e masturbação e que residia a cerca de quinze minutos a pé de quase todos os locais em que foram assassinadas as cinco vítimas canónicas de Jack, o Estripador. Será que foi ele que ejaculou no xaile descoberto por Russel Edwards e do qual Jari Louhelainen foi capaz de extrair vestígios de ADN e, ainda, vestígios epiteliais - com uma técnica nova, chamada "aspiração" (o nome induz em erro), desenvolvida pelo próprio? Xaile que, esclareça-se, terá pertencido ou a Kosminski ou a Catherine Eddowes e que foi guardado por um dos sargentos da polícia que descobriu o corpo, permanecendo como herança de família até ser comprado por Edwards?

Para ser honesto, do que li sobre as revelações extraordinárias de Edwards e Louhelainen, a história do xaile parece-me quase credível e, em última análise, estou aberto à possibilidade dela ser verdade. O meu cepticismo entra por outra via: a de que o ADN encontrado no xaile é mitocondrial e, sendo assim, dificilmente pode provar que Kosminski foi Jack, o Estripador. De facto, nem sequer pode provar que Kosminski agarrou no xaile, sequer.

Sem entrar em detalhes, o ADN mitocondrial é o ADN que se encontra nas mitocôndrias das células e é herdado por via materna. Também é muitíssimo resistente à passagem das eras: assim, é possível analisar vestígios forenses muito antigos e perceber se determinado suspeito poderá ou não estar relacionado com eles, mas esse reconhecimento é, com efeito, muito lato, porque o ADN mitocondrial não permite identificações personalizadas: apenas sugere que alguém de deteminada descendência está relacionado com os vestígios. No caso do xaile descoberto por Edwards não só Kosminski é um potencial suspeito, assim como uma porção muito numerosa de londrinos seus contemporâneos. Como pode ler-se no site do próprio FBI (eu poderia citar passagens do meu livro de biologia do ciclo preparatório, mas se o site do FBI está disponível à distância de um clique, para quê complicar): «Since mtDNA [ADN mitocondrial] is maternally inherited and multiple individuals can have the same mtDNA type, unique identifications are not possible using mtDNA analyses».

Em suma: o patético Aaron Kosminski é um suspeito perfeitamente credível, apontado tanto pela New Scotland Yard e pelo FBI como o provável Jack, o Estripador. Na verdade, muitos polícias vitorianos morreram convencidos de que esta personagem poderia mesmo ter sido Jack, o Estripador. No entanto, a história do xaile ejaculado descoberto por Edwards e a análise forense de Louhelainen são demasiado especulativas para serem aceites de imediato.


domingo, 7 de setembro de 2014

Antologia «The Ironic Fantastic»

 
O terceiro número da antologia de ficção The Ironic Fantastic, série criada pelo escritor galês Rhys Hughes, já se encontra disponível para download gratuito: esta edição, com capa do ilustrador português Esgar Acelerado, foi organizada e editada por Paulo Brito e recomendo-a efusivamente. Entre conteúdos de enorme interesse, contém duas críticas a dois livros meus pelo crítico norte-americano Larry Nolen, assim com algumas sugestões minhas de leituras de não-ficção. Inclui, ainda, diversas fotos de Gisela Monteiro.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

«Sepulturas dos Pais»: capa e data de lançamento

Capa de Sepulturas dos Pais, escrito por mim e desenhado por André Coelho. Uma edição da Kingpin Books, com lançamento previsto para 25 de Outubro, no Amadora BD.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

«Sepulturas dos Pais» em Outubro

Sepulturas dos Pais, livro escrito por mim e desenhado por André Coelho, está quase a ser editado: mar e magia numa história que é, acima de tudo, um mapa do fracasso. O soco no estômago (e no cérebro) será dado em Outubro, cortesia da Kingpin Books.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Contracultura satânica e feiticeira na revista LOUD! de Setembro


No número de Setembro da revista LOUD!, quase a chegar às bancas, assino um pequeno ensaio histórico sobre o fenómeno da contracultura satânica e feiticeira ocidental, partindo do imaginário lírico e musical da banda de capa, os Electric Wizard - grupo que, para esta edição, deu uma excelente entrevista conduzida por Ricardo S. Amorim. Além desse texto, deixo cinco sugestões contraculturais, relacionadas com a banda de Dorset e com o imaginário satânico e feiticeiro que interrogo com rigor no ensaio.

Este ano, a rentrée é endiabrada - e conta com todos na apresentação deste número da LOUD! no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, no próximo dia 9, às 18H30. Lá estarei para dois dedos de conversa. Agradeço a divulgação.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Monstruosidades contra a língua portuguesa


O infame AO90 (Novo Acordo Ortográfico) está a abrir precedentes para que outras mentes imaginem protocolos ainda piores, porque, aparentemente, ele não foi suficientemente longe na "simplificação" da língua portuguesa: neste caso, o Movimento Simplificando a Ortografia, idealizado e encabeçado pelo professor brasileiro Ernani Pimentel (na imagem), que intenta substituir na teoria e na prática o AO90 por um programa que, entre outros objectivos, quer abolir o hífen, a letra h (no início das palavras), as letras ç, ch e os dois ss, assim como transformar em j todos os g seguidos de e ou i (assim, passar-se-ia a escrever ferrujem e jenjiva, por exemplo), para ir ao encontro desse desiderato, almejado pelo próprio senado brasileiro que quer dar vida a este monstro até 2016. Além de que casa também se poderá escrever com z, segundo diz Pimentel nesta entrevista dada ao jornal brasileiro Zero Hora e transcrita no site ILC Contra o Acordo Ortográfico:


 Se burros houvesse que a zurrar conseguissem criar novos acordos ortográficos, este seria, em definitivo, o arquétipo de todos os acordos aberrantes, pois nenhum ser racional será (até ver) capaz de alcançar tão elevados graus de demência e abjecção.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sadomasoquismos novos e velhos

 
Ao abrigo da temática tortural, iniciada com a publicação anterior, abro um pequeno intermezzo tragicómico para comentar o nádir em que, mais uma vez, se escava a cultura popular, qual escaravelho coprófago, em busca de húmus ainda mais fétido; desta feita, com a estreia anunciada para breve (Fevereiro de 2015) do filme sadomasoquista 50 Shades of Grey, adaptação cinematográfica do pasquim pseudoporno cozinhado sem gosto e sem requinte pela maître de cuisine inglesa Erika Leonard James: originalmente uma receita que consistia numa fanfiction da tetralogia Twilight de Stephenie Meyer. O trailer já disponibilizado é uma explosão de cabotinice como há muito não se via, pelo simples facto de se querer levar totalmente a sério. O filme erótico será sempre, por natureza, um produto saloio: o género pornográfico é mais honesto e, às vezes, um barro esteticamente mais interessante para se moldar (as experiências cinematográficas de Catherine Breillat, Lars Von Trier, entre outros, vêm à memória), embora também se esgote em si mesmo nas suas evidentes limitações. No entanto, aquilo que provoca maior estupefacção em objectos da estirpe de 50 Shades of Grey é um certo discurso invisível que transmitem, segundo o qual vêm quebrar com pompa e circunstância todos os tabus erguidos diante da sexualidade por uma sociedade bafienta e timorata. Apresentam-se como campeões da liberdade (e da libertinagem). Ora, isto não podia estar mais longe da verdade: filmes e livros como 50 Shades of Grey não só se inserem na esteira de uma longa tradição de obras populares pornográficas, como, ainda por cima, perdem na comparação com estas no que concerne à malandrice e à perversidade.

Nem sequer vale a pena ir buscar os exemplos mais conhecidos - e mais escabrosos. Recupero umas transcrições de um curioso opúsculo que, infelizmente ou felizmente, tem andado um bocado esquecido, autorado em 1799 pelo frade oratoriano Teodoro de Almeida e intitulado Elogio da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Xavier de Assis Mascarenhas, Baronesa de Alvito e Condessa de Oriola. Esta narrativa conta como a referida senhora «ocultava ao seu ilustre esposo as penitências que ela fazia» e que consistiam em «tomar disciplina na companhia de umas devotas mulheres», em usar «frequentemente de cilícios de ferro e nos seus tenros e ainda bem delicados membros os apertava com estranha crueldade». Mas há mais: «havendo de fazer uma jornada a cavalo levava o cilício cingido na cintura: e usava dele nas circunstâncias em que esta penitência era mais penosa...» [leia-se, quando estava grávida]. A luxúria masoquista da baronesa-condessa não ficava por aqui: «quando se lhe descobria e tirava o instrumento das frequentes disciplinas, inventava outras das quais ninguém suspeitou o ministério para que se deputavam, tomando com eles novenas de disciplinas de sangue». Embriagado de embevecimento, Teodoro de Almeida expõe ainda que a baronesa-condessa «usava de uma pequena tenaz de ferro, que com os dentes agudos prende onde a largam por causa de uma mola, que continuamente força» e ainda que havia um outro instrumento do qual ela «se valia com muita frequência, buscando de propósito partes onde a sensação fosse mais delicada». A nossa baronesa-condessa setecentista faz engolir em seco as personagens de
50 Shades of Grey, com a vantagem acrescida que, na sua situação, a figura de poder é ela: sozinha ou entre as tais «devotas mulheres». Ou seja: o relato do oratoriano Teodoro de Almeida consegue ser mais feminista e subversivo que as fantasias ingénuas com que sonham as Anastasias Steeles contemporâneas, desejosas de encontrar uns Christians Greys que lhes abram as portas das suas câmaras secretas das dores prazerosas (basta ver o trailer do filme para entender o que isto é).

Os únicos tabus que filmes e livros como
50 Shades of Grey vêm quebrar são os da ignorância, quando alguém (como eu fiz agora) olha para o passado e diz nihil novi ub sole.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sobre instrumentos medievais e modernos de tortura


Neste momento, no Edifício da Alfândega do Porto, o público pode ver mais uma das exposições de ditos objectos e mecanismos medievais e modernos de tortura, usados, alegadamente, entre outros organismos, pelas inquisições. Exposições desta natureza são frequentes e eu já visitei muitas, em Portugal e no estrangeiro: todas muito parecidas - algumas até davam a ideia de apresentarem as mesmas colecções, com um punhado de peças diferentes, consoante os locais de mostra ao público. O problema destas exposições - que são um excelente entretenimento, para quem aprecia a temática tétrica (eu, sem dúvida, que aprecio) - é que fortalecem e divulgam continuamente ideias erradas sobre a história medieval e a história das inquisições. A verdade é que a maioria dos comuns instrumentos medievais e modernos de tortura que preenchem o imaginário popular, graças a este e outros tipos de veículos de entretenimento, NUNCA EXISTIRAM: são absolutamente FALSOS.

Nunca - NUNCA - existiu a Dama de Ferro, a Pêra de Tortura, a Cadeira Inquisitorial (que ilustra o anúncio da exposição) e tantos outros artifícios angustiantes. As inquisições nunca os usaram para extrair confissões. De facto, aquilo que o público pensa que sabe sobre tortura inquisitorial ESTÁ ERRADO. Sim, as inquisições torturavam indivíduos para extrair confissões - e detinham engenhosos estratagemas legais para que as sessões de tortura de um determinado indivíduo se pudessem repetir (isto, porque de acordo com os regimentos cada indivíduo só podia ser torturado uma vez) -, mas somente usaram dois métodos: a polé e o potro - métodos que não vertiam sangue, porque as inquisições estavam proibidas de verter sangue.

As torturas na polé e no potro estavam muitíssimo longe de ser arbitrárias: eram reguladas com rigidez por um conjunto intrincado de correspondências entre a solidez das suspeitas e a gravidade das acusações, sendo que a cada sessão de tortura era atribuído um grau em especial; por exemplo, um indivíduo podia ser sentenciado a uma tortura de grau três no potro, o que corresponderia, somente, a que tivesse as cordas amarradas no corpo sem que estas fossem apertadas. Na maioria das vezes, os acusados eram condenados a, simplesmente, olhar para os instrumentos de tortura - o que, quase sempre, resultava em confissões (verdadeiras ou inventadas). A tortura na polé era, de certa forma, mais violenta: quem não teria hipótese de aguentá-la (um médico avaliava sempre o estado de saúde dos acusados antes das sessões de tormento) era condenado a ser torturado em grau equivalente no potro. Não estou a branquear as inquisições: isto é a mais pura verdade histórica e todos estes factos podem ser comprovados. As torturas no potro e na polé eram terríveis, que isso fique retido, e os indivíduos podiam ficar estropiados para o resto da vida, mas a lenda negra do sadismo inquisitorial, tal como é veiculada pela indústria cinematográfica e por exposições como a que serve de mote a este artigo, é uma completa e desavergonhada ficção.

Os falsos instrumentos medievais e modernos de tortura foram inventados nos séculos XVIII e XIX por alguns antiquários e outros brincalhões, provavelmente com a intenção de titilar as audiências e lucrar com a sua exposição: em pleno decurso do Iluminismo (que não foi igual por toda a Europa, note-se; nem sequer foi sempre deísta ou "libertino", como se chamava a um pensador-livre - um "enciclopedista" - na altura: também houve Iluminismo Católico) essas criações serviriam de contraponto ideal, colocando em paralelo o barbarismo medievo com a justiça social e o progresso cultural dos novos tempos. Foram tão eficazes que ainda hoje a maioria do público acredita que foram reais.

Recomendo a visita a este tipo de exposições - umas mais fidedignas que outras, é certo -, porque são excelente entretenimento, mas no que diz respeito ao rigor e à veracidade histórica estão para estes como o antigo Comboio Fantasma da Feira Popular de Lisboa estaria.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Geração Única


O jornal Público está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de 1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X, referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra: designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje lhe é atribuído.

Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.

Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.

A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cinco sugestões de leitura (ficção)

Geralmente, não leio ficção, mas isso não significa que eu não goste de ficção. Na realidade, a única razão pela qual vale a pena escrever é a de passar-se uma temporada em excusivo retiro mental num mundo totalmente fictício - sobretudo quando o mundo real falha em alcançar padrões de excelência aceitáveis. Assim, deixo uma pequena lista com cinco livros de ficção, lidos durante os últimos quatro ou cinco anos, que me emocionaram. Neste momento, as escolhas são estas - em outro, seriam, certamente, diferentes. Não elenco estes títulos em nenhuma ordem preferencial ou parecida.


1) Stoner, de John Williams. Um livro extraordinário, escrito com uma subtileza surpreendente, sobre um filho de agricultores que se torna professor universtário. Grande parte da narrativa tem de ser percebida nas entrelinhas, porque não é descrita. Uma história sobre o valor redentor da cultura, da inteligência e da inexpugnável integridade de carácter. Um belo livro triste.



2) Nicholas Crabbe, de Frederick Rolfe (Barão Corvo). Terrível relato sobre as agruras de um escritor em início de carreira, mais angustiante ainda por ser, em maior espessura, autobiográfico. A linguagem é luxuriante e o final é castigador. Um livro essencial.


3) Sirius, de Olaf Stapledon. Excelente romance sobre um cão com inteligência humana, que consegue falar (de modo um pouco tosco, mas os donos entendem-no). Misto de noveleta de ficção científica e ensaio filosófico wittgensteiniano, provocante e pertinente, que nunca, em momento algum, escorrega para a caricatura ou para o artificialismo, o que, considerando o tema, é impressionante.


4) The Sot-Weed Factor, de John Barth. Romance (verdadeiramente) picaresco, escrito sem concessões ou facilitismos em linguagem seiscentista, sobre as graças e as desgraças de um pobre diabo a quem convenceram ser o poeta laureado da colónia de Maryland. Uma obra-prima que mistura, em partes iguais, comédia desbragada e uma fina sensibilidade. Em português, o título pode ser traduzido como O Contratador de Tabaco.


5) Ada, or Ardor, de Vladimir Nabokov. Na minha opinião, o melhor romance de Nabokov, escrito com a habitual prosa pirotécnica, mas em grau superlativo de delícia. Sátira filosófica ao chamado bildungsroman, com laivos de ficção fantástica. Um livro complexo e fascinante que, misteriosamente, passa sempre abaixo do radar, comparado com o (também genial, mas) mais famoso Lolita.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Estrompa (1942-2014)

É com tristeza que informo que faleceu recentemente (na passada sexta-feira, dia 18 de Julho) João Estrompa, autor português de banda desenhada, conhecido, entre outros trabalhos, pela personagem Tornado. Foi criador e editor do importante fanzine Shock (publicado pela primeira vez em 1983), no qual colaboraram diversos autores portugueses de banda desenhada.

 (Capa do nº0 do fanzine Shock.)

Recordarei o seu entusiasmo, a simpatia, o optimismo e o humor. O mundo da BD portuguesa ficou mais pobre.
Segundo o weblog Divulgando BD, de Geraldes Lino, o velório de Estrompa terá lugar amanhã, a partir das 18H00, na Igreja de Arroios (Rua de Arroios), em Lisboa.


sábado, 19 de julho de 2014

«O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e» de David Soares e Pedro Serpa


Eu e o Pedro Serpa começámos uma nova colaboração homicida em banda desenhada que sairá este ano pela Kingpin Books.
Ainda é cedo para revelar pormenores, mas posso avançar com a informação de que consistirá numa história (mais ou menos) curta, intitulada O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e que, simplesmente, só posso definir como sendo um delírio que Buñuel arquitectaria se decidisse criar um híbrido de The Elephant Man de David Lynch e You've Got Mail de Nora Ephron. Aguardem...

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sobre Lovecraft


Não sou um fã fervoroso dos contos de H. P. Lovecraft, mas não pertenço ao campo dos seus detractores literários, nem tão-pouco ao dos seus assassinos de carácter, que, com odiosa curiosidade, o querem reduzir à caricatura de racista virulento (como o escritor francês Michel Houellebecq, autor da biografia H.P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie, que, no mínimo, pode ser caracterizada como carente de fontes fidedignas). Quero acreditar que a maioria desta gente, de facto, não conhece a vida e a obra de Lovecraft e, pela rama, escreve e fala sobre o que não sabe.

O racismo de Lovecraft foi um racismo de pechisbeque: um arremedo adolescente de alguém que, inserido num contexto muito provinciano, cresceu a pensar de um modo tradicionalista e ultra-conservador. Orientado por um elitismo de inspiração aristocrática, a que, em dada altura, quis almejar, Lovecraft desgostava e desconfiava das massas, mas - o que tem piada! - nunca rejeitou o indivíduo - fosse ele branco, negro ou de outra etina, algo que a sua profusa correspondência pessoal demonstra com clareza.

Outra coisa que a sua obra (é numerosa e literariamente significante para ser assim considerada) epistolar demonstra sem margem para dúvida é que o escritor, ao longo dos anos, afastou-se da matriz ultramontana e isolacionista da Direita norte-americana do seu tempo para tornar-se um homem aberto, mais positivo, menos pessimista e, sobretudo, menos precipitado nos seus julgamentos de sofá - até porque já se atrevia a sair de casa, de quando em quando, para visitar alguns amigos epistolares.

De facto, nas vésperas da morte, Lovecraft tornou-se um simpatizante da Esquerda e escreveu com entusiasmo sobre a democracia. Estamos, por conseguinte, muitíssimo longe dos textos intolerantes que escreveu na juventude e nos primeiros anos da idade adulta (como as histórias The Horror of Red Hook e He, por exemplo). A sua ficção patenteia essa viragem. Se nos primeiros contos ele observou com horror a proximidade do Outro - se desejarmos ler a obra dessa forma (a obra permite mais do que uma leitura) -, nos contos finais o contacto com o Outro - com o alienígena (em inglês, alien também significa imigrante) - é procurado como uma hipótese transformadora e até redentora: ao ponto de escrever, em At the Mountains of Madness, que os Outros «radiates, vegetables, monstrosities, star spawn — whatever they had been, they were men!». Quando o narrador de The Shadow Over Innsmouth descobre que é um mestiço e que tem sangue do Outro nas veias reage com maravilhamento, em vez de sentir repulsa: «the tense extremes of horror are lessening, and I feel queerly drawn toward the unknown sea-deeps instead or fearing them. I hear and do strange things in sleep, and awake with a kind of exaltation instead of terror. Stupendous and unheard of splendours await me below, and I shall seek them soon. (...) in that lair of the Deep Ones, I shall dwell amidst wonder and glory forever».
Dificilmente este será o ponto de vista de quem encara com repúdio uniões multiétnicas.

Sobre essa questão, acrescente-se o casamento de Lovecraft com Sonia Greene, uma judia ucraniana, sete anos mais velha que ele. A união de Lovecraft com Sonia fez-se de verdadeira cumplicidade e afeição, embora esta se tenha dissolvido, de modo amigável, por culpa das circunstâncias laborais de Greene, obrigada a viajar de um lado para o outro, ficando Lovecraft muito tempo sozinho no pequeno apartamento que ambos tinham alugado numa zona muito pobre de Brooklyn, em Nova Iorque. Com efeito, em segredo, Lovecraft nunca assinou o documento do divórcio, na sincera esperança de que ele e a mulher, em breve, voltassem a viver juntos. Se este é o comportamento de um racista virulento, anti-semita e misógino, então eu não sei qual é o comportamento de alguém de sinais opostos.

Ainda assim, mesmo que Lovecraft correspondesse à caricatura racista que dele alguns querem fazer (até existe um jogo na Internet que o compara com Hitler), o que é que isso tem a ver com a autêntica apreciação literária da sua obra? É óbvio que somos livres de não querer ler obras de autores que não admiramos pelos mais variados motivos (eu, por exemplo, recuso ler livros escritos por quem escreve mal), mas recusarmos ver o valor literário que as obras têm, por culpa do nosso desgosto ou preconceito sobre os autores, é totalmente errado.

Lovecraft viveu toda a vida como um indigente, que mal tinha dinheiro para comer e, pese essas dificuldades, preferia gastá-lo em livros e em papel de carta para se corresponder com os seus múltiplos amigos epistolares - que, genuinamente, o admiravam e acarinhavam. Foi, em suma, alguém que recusou uma vida normal, fácil, com um emprego banal, das nove às cinco, para se entregar com toda a alma à criação literária de mundos imaginários que, hoje, reverberam com uma força imensa. Quando penso em Lovecraft, não é a imagem do racista a espumar da boca que evoco, mas a do escritor esforçado - e culto - que se sacrificou diariamente para deixar obra feita: a obra que ele quis e não aquela que as modas do seu tempo poderiam ter ditado.

Hoje como ontem, o preço a pagar pela integridade, pela ética e pelo sacrifício é sempre o isolamento. Não direi sobre Lovecraft o que Pierre Klossowski disse sobre Sade, mas posso dizer que, para mim, Lovecraft é um exemplo luminoso: se eu, enquanto autor, me juntasse ao coro de detractores lovecraftianos, rapidamente me vergaria até aos calcanhares sobre o peso insuportável da vergonha mais desonrosa. Aviltar de modo tão cobarde quem amou tanto as letras e o mundo imaginal que criou de maneira tão especial é uma veleidade de homens pequenos.


A bodega de Lisboa

Não há outra forma de dizê-lo e tentá-lo seria, ao mesmo tempo, uma hipocrisia e uma perda de tempo: este texto que o The New York Times publicou sobre Lisboa é uma bela bodega.

Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.

Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.


E aqui está, como complemento, uma bucólica cena recente, observada pela manhãzinha no último Mega Picnic, na Avenida da Liberdade. (O The New York Times iria gostar.)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

XII Troféus Central Comics: Nomeação Melhor Argumentista Nacional

O meu livro de banda desenhada Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, está nomeado para a categoria de Melhor Argumentista Nacional na décima segunda edição dos Troféus Central Comics: prémios anuais de banda desenhada, promovidos pelo site Central Comics, que têm a particularidade de ser escolhidos por votação dos leitores. Para esta edição, a votação dos leitores terminará no dia 10 de Julho.
A entrega dos prémios ocorrerá no dia 12 de Julho (sábado), às 17H30, no auditório principal do Hard Club do Porto (antigo Mercado Ferreira Borges): cerimónia inserida na programação do evento Central Comics Fest.

Caros leitores, Palmas Para o Esquilo é, neste momento, o meu livro de banda desenhada preferido - e se ele é tão especial para vocês como para mim ajudem-me a ganhar este prémio, porque o livro merece: podem votar até ao dia 10 de Julho nesta ligação (é a Categoria nº9). Para o efeito, só têm de preencher os campos de identificação indicados na página e votar, no mínimo, em cinco das categorias a concurso. Agradeço, em avanço, a vossa participação e a divulgação.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coincidentia oppositorum

 
A gente vai envelhecendo e dá conta da fenomenicidade que é viver-se em tempo histórico e que, daqui a uma década ou duas, no mínimo, se irá ler sobre a actualidade do mesmo modo que, hoje, se lê sobre os meados do século XX. Quando somos jovens não nos apercebemos disso, porque o tempo demora muito a passar e tudo parece cristalizado num eterno presente - é um tempo de vista larga. Em oposição, quando o tempo passa mais depressa coarcta-nos o horizonte do visível; daí que as coisas terríveis e as coisas belas que, a esta altura, parecem ser produzidas por propulsões irreconciliáveis serão reunidas pela história do futuro próximo numa espécie de coincidentia oppositorum - menos mística que a boehmeana, mas, ainda assim, espera-se, liberta do ludíbrio.


terça-feira, 1 de julho de 2014

«Imundo Bizarro» em «Larvas» de Holocausto Canibal



Larvas, o novo disco (EP) dos Holocausto Canibal, já se encontra disponível. Chamo a atenção para mais uma colaboração lírica (em todos os significados da palavra), no feitio da letra da música Imundo Bizarro, que idealizei e escrevi, propositadamente, a convite da banda. Na ligação em anexo poderão ouvir a música, uma das estrelas do disco, com um solo de guitarra muitíssimo venenoso, e acompanhar a audição com a leitura da letra (integral) que publico no parágrafo seguinte. Aviso: só para estômagos fortes e mentes com sentido de humor (negro).

IMUNDO BIZARRO (música: Holocausto Canibal; letra: David Soares)

Repuxos vagais laríngicos – cessam as inibições.
Inalando matéria regurgitada – surgem alucinações.

Psicótico, desviante:
não estou só nesta parafilia.
Hipnótico, excitante:
o vicio da minha emetofilia.
O vómito inflama a fantasia.

Total fadiga epiglótica – depois da quietação orgástica.
Hidropisia pulmicórtica – efeitos da inspiração cáustica.

Perigoso, glorificante:
um epicurismo singular.
Asqueroso, exaltante:
ejaculo em lixo hospitalar.
Prazeres a não depreciar.

Delírio e desritmia – infecção bactérica do sistema.
Fibrilação ventricular – colapso cardíaco com edema.

Relapsa, a lascívia é activa: imagino uma delícia putrescina.
Fétida, a fecalidade é vomitiva: besunto-me com bilirrubina.

(Indignante –
a minha presença mete nojo.
Sevandijante –
não há outro verme tão sujo.)

Nódoas no corpo, nódoas na mente. Imundo bizarro!
Sexualidade misófila e indecente. Imundo bizarro!

sábado, 28 de junho de 2014

A língua portuguesa não faz 800 anos de idade...

 
...ao contrário do que anda por aí a dizer-se, sobre o aniversário da assinatura do testamento de D. Afonso II (27 de Junho de 1214).
Só para esclarecer que o mais antigo documento escrito em linguagem* portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto (pergaminho nº2 do maço nº10): consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu («Pelágio», na grafia original), um dos senhores de Paiva e hipotético avô materno do pregador franciscano Fernando Martins - também conhecido por Santo António de Lisboa.

Por conseguinte, a língua portuguesa não faz 800 anos de idade: faz 839.
Isto, claro, se tivermos, mesmo, de encontrar uma data de nascimento para ela; algo um pouco artificial, na minha opinião, mas, enfim, sempre é mais rigorosa a data de 1175 que a de 1214. 

Como rebuçado, ainda deixo a informação que Gondomar significa cavalo de guerra.

* Linguagem era a designação que se dava a todas as línguas que não fossem latim erudito. Nunca é demais sublinhar isto, porque, às vezes, a este respeito, lê-se com cada disparate que até faz doer a vista.