quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os veros "anormais" de Lisboa


O dia em que Carolina e Josefina visitaram o Mosteiro dos Jerónimos. Lembram-se delas? Encontraram-nas em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense:
«Vamos visitar os volutabros imaginais de Lisboa.
Vamos ver que anormais ela excluiu para a cercania – para os arrabaldes dos anais. Não será tanto etnologia, como reologia, pois falamos de gente deformada que foi repassada e escoada pela memória da história, mas como observar essa memória e essa história? De acordo com os fundamentos da “história total”, propostos por Braudel e, antes dele, por Michelet?
É melhor confiar na diacronia.
É melhor assumir que, tal como astrónomos, estamos a olhar para luzes pré-históricas, emitidas por estrelas extintas.
(…)
Estrelas defuntas como as infelizes irmãs órfãs Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, que, em meados do século XIX, depois de serem exploradas até à exaustão por um canalha desprezível que lhes deu a ridícula alcunha, tornaram-se injustamente no arquétipo da dondoca, antes de morrerem de fome na maior das misérias.
(…)
Vergonha, amargura, tristeza. Plangências profundas que envolvem os espíritos.
Que cidade é esta?
Esta não é a Lisboa que nos foi prometida à esplêndida portada, feita de jaspe.
Estas não são as personagens castiças do folclore que ela engendra para gazofilar turistas.
Há angústia autêntica aqui. Mensagens de sofrimento real, escrevinhadas no pó. Dor e raiva verdadeiros – espremendo corações nos peitos.»
(SOARES, David, “Terra Incógnita”, in SOARES, David (textos, voz); SANGNOIR, Charles (música), Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, Seixal/Lisboa, Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012).

terça-feira, 26 de abril de 2016

Redescobrindo a Rua Nova dos Mercadores


No ano passado foi editado um excelente livro sobre a quinhentista Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa, intitulado The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon, editado por Annemarie J. Gschwend e Kate J. P. Lowe (Paul Holberton Publishing). Nesse actualizado e apurado volume pode ver-se, no capítulo "Reconstructing the Rua Nova: The Life of a Global Street in Renaissance Lisbon", de Annemarie J. Gschwend (pp. 101-119), diversas primorosas reconstruções digitais da Rua Nova, feitas por Laura Fernández-González e Harry Kirkham, das quais mostro aqui dois exemplos. Escolhi essas imagens, porque me deixaram emocionado: em primeiro lugar, por consistirem em perclaras janelas para o passado de Lisboa, cidade a cujo estudo tenho devotado tanto labor e amor; em segundo, porque são instantâneos perfeitos da cidade que imaginei quando escrevi os meus romances Lisboa Triunfante e O Evangelho do Enforcado. Baseei as minhas descrições da Rua Nova em iconografia e relatos de época, mas observar como estas recentes reconstruções digitais da Rua Nova se aproximam muitíssimo do que escrevi é comovedor. Assim, para recordação ou descoberta de leitores e amigos, deixo aqui umas transcrições dos meus romances, ilustradas pelas reconstruções digitais da Rua Nova.

«Apesar da abundância de gente que enchera a arena do Terreiro do Paço para ver o combate dos colossos, a Rua Nova dos Mercadores estava pejada de pessoas aquela hora. O mercado da hortaliça e da fruta, mais o do pão, enchiam-se de citadinos que queriam comprar o maior número possível de alimentos antes que os preços voltassem a subir; os novos-ricos saíam e entravam nas joalharias e das ourivesarias, ora para comprar, ora para penhorar. A vozearia de comerciantes e clientes ecoava pelas arcadas harmoniosas que serviam de lojas e sustinham os edifícios de três andares; nas paredes coloridas podia ver-se palavrões e caricaturas garatujadas a carvão e giz. A estrada de terra batida estava atulhada de detritos e emporcalhada pela água suja que as escravas despejavam para o chão, mas em nenhum lado o pivete era pior que na praça e no açougue – era impossível não passar pelas bancadas do peixe e da carne sem ficar sujo de sangue e escamas. Vendilhões ambulantes furavam caminho entre os indivíduos, incluindo os magríssimos mestiços do Norte de África que deambulavam com um pequeno forno de ferro à cabeça e assavam línguas de borrego por três reais e meio; traziam-nas dentro de um saco que levavam as costas, mas também cozinhavam a carne e o peixe que os clientes compravam no mercado. Quando o elefante invadiu a rua ninguém deu por ele até se ouvirem os gritos das primeiras pessoas a serem empurradas.»
(In SOARES, David, Lisboa Triunfante, Parede, Saída de Emergência, 2008, pp. 268-269.)

«Casas de pedra e madeira erguiam-se voltadas para o rio Tejo, tão tortas quanto as próprias elevações sobre as quais se equilibravam; em direcção à linha da água, a pouquíssima distância das muralhas coroadas de líquenes, as ruas estreitas tornavam-se exíguas e a imundície sedimentava-se em estratos graúdos que encapotavam o chão de terra batida. Algumas artérias de maiores dimensões, como a eritematosa Rua Nova, possuíam pavimentos; mesmo assim, se apresentassem uma cota mais elevada, os caminhos calcetados costumavam ser cobertos com areia para que as ferraduras das bestiúnculas não deslizassem nas lajes de pedra. O barulho era ininterrupto: sinos e chocalhos vascolejantes, guinchos das rodas de carroças e carretas, cerca de quarenta mil pessoas a conversar, a berrar e a rir. Baratas saltavam de frinchas. Cães bebiam os próprios reflexos em poças de água choca. Homens agarravam em copos de vinho.
(…)
'A alma é um mecanismo, sujeita aos fins para os quais foi criada', pensou Nuno, ao caminhar sozinho pelas ruas de Lisboa, pela primeira vez em cinco anos. 'Essa é uma verdade que deve ser levada muito a sério.' O Sol forte magoava-lhe a vista, mas que dor tão doce era essa. Como mel – e tão dourada quanto ele. 'Acho que… que vou passar na Rua Nova.'
Encontrou uma nova Rua Nova, pintada de tons quentes e cheia de casas soberbas, suportadas por arcadas que ainda luziam dos polimentos; o pavimento era o mesmo, contudo – sujo como o fundo de um barril. Observou os rostos dos indivíduos como se fossem criaturas de outro mundo: até eram, pois o mundo dele ruíra com a velha rua e com o regedor.
Aquela Lisboa e aquele tempo não lhe pertenciam.
Pôs-se de frente para o sitio onde ficava o seu armazém e descobriu que fora ocupado por uma nova casa. Passou por baixo do arco e olhou para cima: viu um pombo a dormitar em cima de um capitel; a sombra era fresca e o ar, recheado de ruídos cristalinos, cheirava a fruta fresca.
'Como é que posso voltar a ser um pintor?', pensou Nuno, pousando a mão num pilar e sentindo a pedra fria. 'Estive separado da minha mão durante cinco anos…' Olhou para o fundo da rua apinhada de gente. 'Como é que vou recuperar os jeitos dessa vida?'»
(In SOARES, David, O Evangelho do Enforcado, Parede, Saída de Emergência, 2010, pp. 74-75, 337.)




Em meditação



Born April 26, 121 AD, roman emperor Marcus Aurelius was a lover of philosophy of the stoic stirpe and penned (in koine greek) one of my favorite books, The Meditations (circa 175 AD). It's a title I regularly return to, specialy when my abhorrement for the present-time established set of attiudes hits red. (Regrettably, in Aurelius case, the apple did fall far from the tree: his son, Commodus, was a racketeer and a villain.)


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sobre a origem das tatuagens em Lisboa


Fracção integrante da imagética da cultura musical a que pertencem os diversificados universos sonoros que a revista LOUD! referencia são as tatuagens, plasmadas nas peles de artistas, fãs e jornalistas, produtores, editores e promotores, desde logótipos de bandas e reproduções de capas de discos, até desenhos de variadas estirpes que, uns desde os primórdios, outros de adopção mais recente, se tornaram universalmente identificáveis como incumbentes das estéticas e atitudes relacionadas, de maneira geral, com o Metal. Pese a frequência desanimadora de um punhado de lugares-comuns e ideias pré-fabricadas sobre as tatuagens que, ainda, teimam em criar ruído junto da opinião colectiva, é salutar observar-se que nas passadas décadas evoluiu muitíssimo o discurso antropofilosófico que sobre elas discorre, caminhando em consonância com a vulgarização das próprias tatuagens pelo grande público, consequência da sua popularidade entre as mais espectaculares estrelas de cinema e as do mundo do desporto. De mérito desigual, as lojas e as oficinas de tatuadores amadores e profissionais fixaram-se como parte indelével da contemporânea paisagem cosmopolita, assim como da versão açucarada da realidade que é encenada por dezenas de reality-shows, transmitidos pelos canais televisivos. Porém, a esta distância, impõe-se – ou, pelo menos, imponho eu, por gosto e inclinação pessoais – uma inquietação, que é a de especular sobre quais serão as origens das tatuagens nas nossas vistas urbanas portuguesas: a esse respeito, sou capaz de puxar o lustro aos umbrosos limiares históricos das tatuagens em Lisboa, um tema que, certamente, será tão aliciante quanto obscuro.

Os primeiros tatuadores de Lisboa, artistas anónimos que nasceram e morreram nos tempos anteriores ao grande terramoto de 1 de Novembro de 1755, foram viajantes castelhanos que se dedicaram ao ofício algo ingrato da “picadura” e que se fixaram na vizinhança da Ribeira Velha, ao Terreiro do Paço; para utilizar um pionés mais cirúrgico, é válido desvendar que montaram os seus ateliês ao ar livre no adro da quinhentista – e inexistente – Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia: sumptuoso templo de contextura e recorte manuelinos, nessa altura somente secundarizado pelo Mosteiro dos Jerónimos e situado não muito longe do local onde, hoje, na Rua da Alfândega, se pode admirar o soberbo portal da fachada da Igreja da Conceição Velha. (Na verdade, esse trabalho compósito foi montado com porções, arquivoltas e tímpano do portal lateral da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, destruída quase totalmente pelo magno terramoto.)

Aí, sentados no muro raso que circundava o adro da igreja, os “picadores”, munidos de agulhas com cabos de madeira e pigmentos feitos à base de pólvora moída, tatuaram os lisboetas de seiscentos e início de setecentos. Penduradas em cravos de galeota pregados nas frinchas da silharia da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, encontrava-se em exposição o catálogo de tabuinhas decoradas, pelas quais os clientes escolhiam os desenhos que desejavam ver tatuados: cruzes ornamentais de diversificados feitios ocidentais e orientais, signos-saimões, rostos crísticos, alegorias religiosas, corações incendiados e motivos relacionados com a cultura do mar. Os aristocráticos adoptaram a prática – chique nesse tempo – de serem “picados” nas costas das mãos, entre as bases do dedo indicador e do polegar. Ontem, como hoje, não faltou quem se arrependesse posteriormente de desenhos escolhidos aleatoriamente ou de maneira apressada e esfregava-se furiosamente com sumo de limão a pele “picada” para tentar apagá-los – popular recurso mezinheiro de ineficácia quase completa.

Versáteis, os adros das igrejas fizeram de fórum, mercado, miradouro da vida diária e cemitério: o da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia parece ter sido especialmente predestinado às profissões ligadas à cromofilia, pois fora, desde o século XVI, o principal mercado lisboeta de venda de flores e, depois dos tatuadores o deixarem, em definitivo, acolheu os ambíguos passarinheiros alemães – que aproveitaram os cravos abandonados pelos tatuadores para pendurar as gaiolas, algumas com aves pintadas com pigmentos garridos para passarem por exóticas. Outro tipo de tatuagem, portanto, mas, até este momento, a vocação histórica dessa geografia mantém-se interrompida: o terramoto de 1755 foi o liquidante epitáfio das energias histológicas.

(Crónica publicada originalmente na revista LOUD!​ de Abril de 2015.)


sábado, 23 de abril de 2016

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor


Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou dia do nascimento do dramaturgo inglês William Shakespeare - que, pese as teorias das conspirações pugnadas por indivíduos que, na maioria, não têm a mais ténue noção sobre o que é escrever, realmente existiu e foi o autor das famosas peças teatrais que lhe são justamente atribuídas.
Mas sobre a formulação da efeméride supracitada inicialmente, há um interessante erro de percepção; pois se a primeira parte do enunciado consiste em «Dia Mundial do Livro», porque não se redigiu deste modo a segunda?: «e dos Direitos do Escritor». É que autores há de vários tipos, mas só uma determinada estirpe desse conjunto escreve livros: os escritores. Infelizmente, não falta e não faltará quem seja tão escritor quanto uma cadeira se possa denominar ainda de árvore, mas isso são outros quinhentos.
Gostava de esclarecer que na minha relação com os livros não me considero um bibliófilo, porque, no meu livro de estilo, um bibliófilo é, sobretudo, um coleccionador que procura e adquire livros segundo exigências muito específicas: primeiras edições; encadernações de um ou outro feitio ou oficina exclusivos; somente edições diferentes do mesmo título ou apenas edições dos trabalhos de um único autor ou temática. Seja em que caso for, o labor do coleccionismo comporta-se como um percolador, que distingue particularismos restritos. A minha relação com os livros faz-se pela via do conteúdo: eu procuro o conhecimento; o que me interessa num livro não é o livro como objecto, mas a erudição. Assim, gostava de evocar aqui a ideia de que o Dia Mundial do Livro deverá ser de todos os livros, sem quaisquer tipos de cegueira ditados por decíduas modas, cartilhas de fátuos fazedores-de-opiniões ou constrangimentos mercantilistas - desde o livro de bolso ao incunábulo. E escolham com sabedoria, porque não há tempo para ler-se tudo.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Sobre gatos


Em movimentações semiaéreas, impressas em claudicantes carimbadas, os gatos suplantam o cingel gravítico, dardejando que nem intenções interrompidas; suspensos em translúcidos tótemes, sobreexpostos no mesmo pensamento – como meditações de prata numa placa de cobre, negativas e positivas em velocíssima alternância.
Quem modelou de que substância os vorazes sicários das selvas, oxidados em ferrugentas variegações de castanho e laranja e negro, que povoaram os pesadelos dos nossos pré-históricos precedentes? Quem afeiçoou de que espécie desses celerados aqueles pequenos e peludos duendes que, ronronando, nos escondem os sapatos e nos roubam os corações? Cães são lobos bebés, mas gatos não são leões infantis – são um segredo. Do mesmo modo que na mitologia Deus se tornou Cristo para descobrir o que significava ser-se um homem, os gatos são a forma que a cólera da Natureza encontrou para conciliar-se: de não sentir vergonha de ser dócil; para, em preciosos instantes, íntimos e nocturnais, ser capaz de dormir entre as presas.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Quarta sessão do segundo ciclo de Sustos às Sextas




Na próxima sexta-feira, dia 15, às 21H30, na sede da Fundação Marquês de Pombal, ocorrerá a quarta sessão deste segundo ciclo de Sustos às Sextas, evento devotado ao horror sobrenatural, nas suas diversas expressões. Do programa destaco a palestra Como Escrever Uma História de Terror em Dez Lições de António Monteiro e a inauguração da exposição de pranchas originais de banda desenhada sobre terror, comissariada por Geraldes Lino e Bruno Caetano. Divulguem e apareçam!

terça-feira, 29 de março de 2016

Triple review treat


Duas excelentes críticas a O Poema Morre (2015) e uma excelente crítica a Sepulturas dos Pais (2014), escritos por mim e desenhados por Sónia Oliveira e André Coelho, respectivamente (ambas edições da Kingpin Books). Podem lê-las nas seguintes ligações:
2) O Poema Morre (crítica de Artur Coelho): http://www.acalopsia.com/poema-morre-david-soares-sonia-oliveira/
3) Sepulturas dos Pais (crítica de Bruno Campos): http://www.acalopsia.com/sepulturas-dos-pais-david-soares-e-andre-coelho/


segunda-feira, 21 de março de 2016

Poesia tafófila de Edward Young e James Hervey


Este estuosíssimo Dia Mundial da Poesia parece ter sido criado ad hoc (ou seja, com o significado de em específico - e não com o de arbitrariamente, como, infelizmente, se costuma dizer) para que eu divulgue as minhas traduções das poesias tafófilas, pertencentes à chamada Graveyard School, que li na minha palestra, dada na passada sexta-feira, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da programação da terceira sessão da segunda edição do ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas. Assim, publico agora algumas das peças lidas e apresentadas nessa altura, assim como um dos excertos que não tive oportunidade de ler; em breve, seguir-se-ão os restantes.
Neste primeiro grupo seguem dois excertos da obra Night Thoughts (1742) do clérigo e poeta inglês Edward Young e dois excertos da obra Meditations Among the Tombs (1746) do clérigo e escritor inglês James Hervey.

«Morte!, grã proprietária de todos! É tua regalia
espezinhar os impérios e extinguir as estrelas.
O próprio sol, por tua permissão brilha;
hás de extirpá-lo de sua esfera, um dia.
Porquê, oberada com tal saque soberano,
disparar tantas flechas a um alvo humano?
Porquê os peculiares rancores contra mim?»

«O que é o próprio mundo?, o teu mundo? – Um túmulo.
Onde está, pois, um pó que nunca viveu?
A pá e o arado perturbam os nossos antepassados;
do mofo humano colhemos o pão de cada dia.»

«Céus! A cena infunde respeito!, como é severa a penumbra! Aqui é a perpétua escuridão; e é de noite, mesmo ao meio-dia. Tão pesarosa é esta solidão! Nem um vestígio de gaia comunhão, onde a tristeza e o terror parecem ter feito a sua temida morada. Ouçam!, como a cúpula oca ressoa a cada passo. Os ecos, tanto tempo adormecidos, são, agora, despertados; e, em suspiros, lamentam-se ao longo das paredes.
Um feixe ou dois de luz abrem caminho através das grades, reflectindo o brilho mais fraco dos pregos dos caixões. Muitos destes tristes espectáculos, meio escondidos pelas sombras, e só vagamente vistos entre o crepúsculo funesto, adicionam um horror profundo a este tipo de mansões lutuosas. Perscruto por entre as inscrições, que mal vislumbro, e descubro que são os restos mortais de gente rica e famosa. Nenhuns mortos vulgares estão aqui depositados. Os mais ilustres e de honrada ascendência reclamaram este espaço para seu último refúgio. E, de facto, eles conservam uma umbrosa pré-eminência: organizados em desanimada disposição, sob os arcos deste amplo sepulcro, repousam numa espécie de pompa silenciosa; enquanto os cadáveres mais humildes, sem cerimónias, descem até as pedras da cova

«A mortalha e o caixão são a derradeira fronteira de todos os desígnios terrenos. Neles, os filhos do prazer dirão o último adeus aos seus queridos deleites; nunca mais serão ungidos de perfumes, os sensualistas, nem coroados de botões de rosas. Jamais cantarão mais melodias ao violino, nem pandegarão novamente em festins de vinho. Em vez de terem mesas sumptuosas, com doçuras deleitosas, esses pobres voluptuários serão, eles mesmos, banquetes para engordar insectos: os répteis regozijarão com suas carnes e os vermes farão deles as suas delícias. Na mortalha e no caixão também fracassará a beleza – a beleza brilhante perderá o lustro. Oh!, como as suas rosas murcharão e os seus lírios definharão nesse solo sombrio! Veja-se como o grande nivelador derrama desprezo sobre aqueles que nos encantaram os corações; como transforma em deformidade aquilo que, antes, cativara o mundo.
Pudesse, então, o amante ter uma visão da sua adorada, outrora formosa – que inesperada surpresa o assaltaria! "Será que este é o ente que eu, não há muito tempo, admirava apaixonadamente? Eu costumava dizer que ela era divinamente bela e pensei que ela seria um pouco mais do que mortal. (...) Como é que isto, que apenas há algumas semanas era adorável aos sentidos, pode agora ser tão insuportavelmente repugnante? Onde estão as bochechas coradas? Os lábios coralinos – onde? Para onde foi o ebúrneo pescoço no qual a melena encaracolava em cachos reluzentes? (...) Assombrosa adulteração! Felicidade enganadora! Carinhosamente, andei eu maravilhado com este meteoro cintilante: ele brilhava e eu, pensando que para o bem, confundia-o com uma estrela. Que desgraçado sobejo, caído de uma esfera que não era à sua! Tudo o que posso entrever dele é esta massa pútrida."»

domingo, 20 de março de 2016

Vídeo da palestra «Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica»



Para ver ou rever, o registo em vídeo da minha palestra Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica, sobre a importância, nesse campo, da obra poética da chamada Graveyard School; e, também, uma reflexão final sobre uma nova etimologia da palavra "gótico". Palestra dada na passada sexta-feira, dia 18, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da programação da terceira sessão do segundo ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas.


domingo, 13 de março de 2016

Palestra minha na próxima sexta-feira no ciclo Sustos às Sextas


Plutão examina os livros dos quais lerei excertos na minha palestra Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica: próxima sexta-feira, dia 18, às 21H30, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da terceira sessão do segundo ciclo de Sustos às Sextas. Divulguem e apareçam.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Palestra minha sobre literatura na próxima sessão de Sustos às Sextas


Fãs e amigos: informo que na próxima sexta-feira, dia 18, às 21H30, serei o convidado da terceira sessão do segundo ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas (que decorrerá no Palácio dos Aciprestes, na Fundação Marquês de Pombal), na qual irei dar uma palestra heterodoxa, intitulada Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica.
Estão todos convidados: divulguem e apareçam. Os fantasmas agradecem e eu também.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

A sabedoria das árvores


Por horas excepcionais tenho sentido no ar deste Fevereiro pálido, ainda hesitante entre uma Primavera matura e um Inverno senescente, a rescendência do cio das árvores, derriçadas pela temperatura: um eflúvio flexuoso, que bóia a custo no espaço castigador entre os copados e o chão. Sem cérebro, são as árvores mais sábias que nós – os pensantes –, pois, por mais palinologia que nos pule aos ombros, não compreendemos (quanto mais antevemos) os metamorfismos que nos vão demudando. Nada nos prepara para o fatal cair das folhas, nem para os nossos pouquíssimos reverdecimentos. Pode ser-se alérgico a esse estro dendrítico, abafadiço da garganta, e, no entanto, não se é alérgico à morte.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sobre a sobrevivência da Calçada Portuguesa em Lisboa



Extrair a chamada Calçada Portuguesa dos pavimentos públicos pedonais de Lisboa com base no argumento de que é legítimo fazê-lo porque ela não é tão antiga quanto se pensa, como se apregoa nos meios de comunicação, é, com efeito, errado, já que uma maior distância temporal que separe um determinado objecto histórico deste momento presente não confere nenhuma especial autoridade a esse objecto em relação a outros que sejam de lavra mais recente: sobretudo no que concerne à transformação do espaço urbano, ao longo das eras, pelos indivíduos que o foram habitando – tudo é histórico.

Por conseguinte, numa perspectiva histórica, a oitocentista calçada portuguesa, composta por mosaicos decorativos feitos de pedras calcárias pretas e brancas, é tão importante quanto o quinhentista Mosteiro dos Jerónimos: monumento cujo recorte inconfundível para todos os observadores locais e todos os visitantes estrangeiros deve, hoje, muito mais a profundos restauros oitocentistas do que ao seu desenho original – assim como a acarinhadíssima Torre de Belém, ainda mais totalmente reincorporada de elementos decorativos e estruturais oitocentistas que, para a maioria dos lisboetas e demais portugueses, são ainda vistos como sendo iniciais. Nestes casos, em que pouquíssimo resta de original – leia-se quinhentista – nas suas composições, também será legítimo removê-los – o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém – por consistirem em recriações recentes (e absolutamente contemporâneas dos primeiros assentamentos lisboetas de Calçada Portuguesa)?

Justificações de remoção de um objecto histórico baseadas na suposta autoridade ou não-autoridade concedidas pela calandragem do tempo são espúrias. Suspeito que o facto de, cada vez mais, existirem pouquíssimos calceteiros qualificados para fazer a conservação de um objecto tão ornamental e difícil de burilar como a Calçada Portuguesa torne muito caro o seu emprego; assim, imagino que cada vez que se rompa um rego na Calçada Portuguesa para remendar um cano, ou cada vez que tenha de desfazer-se o puzzle da Calçada Portuguesa para obras de natureza diversa, seja mais utilitário (vulgo, barato) substitui-la por prosaicos pavimentos lisos, de cimento branco.

Soluções rápidas e simples deste jaez quase nunca se relacionam com motivos mais nobres que o elementar economicismo: é este – e não outro – que subjaz à sanha sarcótica de querer remover a Calçada Portuguesa das ruas de Lisboa. Nesta óptica, o tal argumento de que não faz mal que a Calçada Portuguesa desapareça, porque ela não é assim tão antiga quanto isso ainda poderá servir para derrubar o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém quando os corifeus do economicismo aprenderem um pouco de história e ganharem a noção de que esses monumentos também são reconstruções oitocentistas, coevas das primeiras pavimentações de Calçada Portuguesa em Lisboa.

Onde se traça, afinal de contas, a linha temporal aceitável para que um objecto histórico tenha licença para continuar a existir? Aparentemente, nem objectos mais antigos escapam à cupidez e à estupidez: basta lembrar que a escadaria seiscentista do ducentista Mosteiro de Alcobaça foi quase totalmente coberta de cimento quando, há uns anos, se produziu a nova praça que lhe é dianteira.

A beleza da Calçada Portuguesa revela-se com deslumbrância quando é contemplada de cima, mas aí reside outro grande obstáculo à sua sobrevivência no período que, infelizmente, atravessamos: é que gente menor é incapaz de olhar seja o que for de um ponto de vista elevado.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

«O Poema Morre» na lista dos Melhores de 2015

O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, foi escolhido pelo crítico Pedro Vieira de Moura como um dos melhores livros portugueses de banda desenhada editados em 2015 para a lista internacional de Melhores do Ano, publicada anualmente pelo crítico inglês Paul Gravett. Nesta ligação podem aceder directamente às escolhas de Moura.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Inspector Literário


My literary inspector scrutinizing two new chapbooks I bought today - World Cat Day (in Europe, at least). Hard readers pet better.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mesa-redonda e exposição de BD na Leituria

No próximo sábado, dia 6, às 17H30, decorrerá na livraria Leituria uma mesa-redonda subordinada ao tema Expansão e Desafios da BD Portuguesa, que contará com as presenças dos autores André Oliveira, Carlos Pedro, David Soares, Joana Afonso, Mário Freitas, Nuno Duarte, Osvaldo Medina e Sónia Oliveira (os autores, todos publicados pela Kingpin Books, estarão disponíveis para autografar os seus livros e pranchas originais). Este debate inaugurará uma exposição de pranchas originais de banda desenhada, dos diversos autores presentes, que estará patente na Leituria até ao dia 3 de Março. Divulguem e apareçam: obrigado.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Sustos às Sextas estão de regresso

A partir de 15 de Janeiro, o ciclo mensal de palestras sobre horror Sustos às Sextas está de volta à sede da Fundação Marquês de Pombal. Até Maio, o Palácio dos Aciprestes andará assombrado por tertúlias, contos e palestras, músicas, dramatizações e muitos espíritos inquietos. Confiram no programa abaixo e vejam o teaser horripilante realizado pela Thinkers, organizadora do evento, juntamente com o professor António Monteiro.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Sherlock castrado, não


Sabemos que o nível de atenção do público está atingindo o nádir quando a maioria das críticas publicadas pela Internet a «The Abominable Bride», novo episódio da intermitente série Sherlock (do canal inglês BBC One), possui como aglutinador a acusação de que o enredo foi demasiado confuso. A minha opinião é que não foi demasiado confuso, nem demasiado simplista: manteve um nível razoável de complexidade; mas o problema desta séria - que existe um problema com ela - não passa por graus de intrincacia, mas por uma abrupta e intensa vontade dos produtores em dar ao público aquilo que ele mais aprecia: telenovela.

A temporada mais recente (a terceira) é uma lúcida demonstração de como o investimento telenovelesco em relações informais (à falta de palavra melhor) entre personagens, quase sempre pautadas pelo humor, ainda por cima, deslocando para segundo plano (ou para terceiro plano) aquilo que foi o cerne da primeira e da segunda temporadas - o mistério policial - e que fez, com toda a justiça, a fama e a fortuna da série e dos seus actores principais, está a transformar Sherlock num produto que corre o risco de alienar todos os espectadores que, enfim, gostam verdadeiramente do conceito de Sherlock Holmes: ou seja, aqueles que querem, de facto, ver Sherlock e Watson a resolver mistérios complexos, de laivos exóticos, que é o apanágio do cânone, e se estão nas tintas para os ditos problemas de inteligência emocional ou da vida amorosa das personagens. Aliás, aquilo que torna fundamental a série produzida nos anos oitenta e noventa pelo canal inglês ITV Granada, interpretada por Jeremy Brett (ainda o Sherlock perfeito) e David Burke e Edward Hardwicke (ambos o Dr. Watson, com Hardwicke a compor, sem esforço, a caracterização definitiva), é a formalidade cúmplice entre os protagonistas - formalidade, essa, que serve de absoluta "fourth wall" para o público: quebrada essa fina barreira em Sherlock, a série está a banalizar-se vertiginosamente, com o titular Sherlock apenas a passear-se com um ar de "I-do-my-little-turn-on-the-catwalk" e a desgastar muito depressa uma imagem conquistada com grande credibilidade. Já se esperava isto, quando Watson, às tantas, lhe diz no segundo episódio da terceira temporada: "-You are not a puzzle solver; you never have been. You're a drama queen." É o Sherlock que o público quer ver, está tudo dito. Quem prefere outro estilo, que reveja os episódios com Jeremy Brett (eu revi-os todos para tirar o gosto a telenovela que a terceira temporada de Sherlock me deixou na boca, na altura em que foi transmitida, e recomendo).

E no que diz respeito à suposta inovação cénica de Sherlock, em cruzar no mesmo palco personagens de diferentes linhas narrativas ou de tempos afastados uns dos outros, vale a pena recordar (que esta coisa da memória anda, também, pela sarjeta) a saudosa série The Storyteller de Jim Henson que foi a primeira - e a única até agora, que eu tenha ideia - a fazer a mesma coisa e de um modo ainda mais hibridizado. Sherlock precisa urgentemente de recuperar a fortitude testicular que assinalou as duas primeiras temporadas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Palestra na Escola Superior Artística do Porto-Guimarães


No próximo sábado, dia 9, das 10H00 às 13H00, estarei na Escola Superior Artística do Porto-Guimarães para dar uma palestra sobre a minha obra literária e de banda desenhada aos alunos de mestrado de BD e Ilustração, no âmbito da disciplina de História dos Sistemas Icónico-Verbais, do Professor Doutor João Miguel Lameiras (a quem devo o amável convite).

(Imagem: vinheta de O Poema Morre, livro de banda desenhada escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira. Kingpin Books, 2015.)