Na próxima sexta-feira treze, a Fundação Marquês de Pombal acolherá a quinta sessão da segunda temporada do ciclo de palestras Sustos às Sextas, dedicado ao terror sobrenatural. Será a última sessão desta temporada, com a palestra O Medo na Tradição Popular Portuguesa, de Fernando Casqueira, como cerne. Destaco, ainda, o Questionário Temático (Quiz) que encerrará a sessão e no qual todo o público é convidado a participar. Não faltem: divulguem e apareçam.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Ainda sobre a estátua destruída de D. Sebastião
O Jornal da Noite, da SIC (foi o telejornal que vi), não falou - nem
sequer em rodapé - do crime de lesa-património em que consistiu a
destruição da estátua de D. Sebastião (colocada na fachada da estação
ferroviária do Rossio, em Lisboa) por um debilóide que a atirou ao chão
ao guindar-se à consola que a sustentava para tirar uma selfie com a
câmara fotográfica do telemóvel. Também já circulam pela Internet e sua
nativas redes sociais diversas paródias feitas em Photoshop alusivas ao
crime, nas quais se veiculam mensagens aviltantes à figura de D.
Sebastião, transmitindo a ideia de que quebrar-se uma sua estátua é
coisa engraçada ou sem importância; noção que se correlacionará,
suspeita-se facilmente, com a noção errónea de que D. Sebastião foi um
rei que submergiu o país nas trevas filipinas e que é, de alguma forma
atávica, o culpado pela(s) subsequente(s) crise(s) portuguesa(s).
O problema português não reside na figura de D. Sebastião - da qual,
aliás, devíamos ter comiseração, porque teve uma vida miserável -, mas
na incapacidade dos portugueses aprenderem a história do seu país, o que
os leva, demasiadas vezes, a trocarem o factual pelo anedótico e o
racional pelo emocional. D. Sebastião não foi um rei perfeito (até
fisicamente seria muito desproporcionado - consequência de vários
casamentos consanguíneos na família), mas a verdade é que não existiram
reis portugueses perfeitos, logo eleger D. Sebastião como arquétipo do
Mau Rei Português é precipitado e até errado, porque houve soberanos
piores que, hoje, passam no exame dos portugueses com notas mais
elevadas (basta falar em D. Afonso VI, para citar um caso extremo de
incapacidade). De facto, o desastre de Alcácer-Quibir, em 1578, teve
como principal motor ideológico o facto de a nobreza da altura nunca ter
sido capaz de engolir o sapo das praças portuguesas baldadas no Norte
de África por D. João III - praças que não eram precisas para nada.
Ansiosa por glórias anacrónicas e saques imaginários, essa nobreza de
câmara fez constantemente em água a cabeça de D. Sebastião até que,
enfim, lá apareceu uma oportunidade para se ir em grande número até
Marrocos para a desforra. Em seguimento, o advento filipino poderia ter
sido evitado por quem de direito, se tivesse existido espírito para tal
(mas isso são outros quinhentos); de qualquer forma, D. Filipe II de
Espanha e I de Portugal, que era tio de D. Sebastião - logo, candidato
legítimo à sucessão - não só não foi nenhum usurpador espanhol, como nem
sequer era espanhol, de todo: era meio-alemão e português. De espanhol
não tinha nada. É fácil de ver que a maior ameaça à soberania portuguesa
teria sido D. FIlipe V de Anjou: para este, que era francês (o nome dá a
entender, caso não se tenha percebido), todos os peninsulares eram
espanhóis (inclusive os portugueses, presume-se), daí que quando se
sentou no trono em Castela principiou logo em tratar da saúde à
brincadeira de existirem diversos reinos peninsulares, que isto de haver
um só reino era bem mais simples. É a partir daqui (século XVIII) que
começa a despontar a ideia de uma Espanha verdadeiramente una: a Espanha
só é Espanha, propriamente dita, desde 1856, porque somente em Junho
desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente «España». Até aí
era o "Reino das Espanhas", que é a designação que surge nas
constituições espanholas de 1812, 1814, 1834, 1837 e 1845: só na de
1856, como disse, é que aparece a designação «dominios de España» em vez
da tradicional «las Españas».
Ou seja: até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma - existiram, sim, vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Desde o século XVI que existe documentação portuguesa (e não só) em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de 'marketing' político.
Felizmente, quando D. FIlipe V ascendeu ao
trono castelhano nós já tínhamos feito a Restauração, defenestrando no
Terreiro do Paço o castelhanófilo Miguel de Vasconcelos (em 1640), e
vencido a Batalha dos Montes Claros, perto de Borba (em 1665), que
solidificou em definitivo - até quando, logo se verá - a independência
portuguesa. Por isso é precipitado e até errado dizer que D. Sebastião
nos introduziu nas trevas espanholas.
Usar essa incorrecção para desculpabilizar - ou justificar - a destruição da sua estátua por um paspalho é apanágio de atraso mental misturado com má-fé. Na verdade, nem que fosse uma estátua de Miguel de Vasconcelos: a história faz-se com aqueles que a constroem, não com aqueles que a destroem.
Quebrada a estátua de D. Sebastião da estação ferroviária do Rossio
Ontem à noite, um energúmeno de vinte e quatro anos de idade destruiu
totalmente a estátua de D. Sebastião, esculpida em 1887 por Simões de
Almeida, que se encontrava na fachada da entrada fronteira da estação
ferroviária do Rossio, em Lisboa. Dizem as agências de comunicação que a
deitou ao chão quando tentou empoleirar-se na consola que sustentava a
escultura para tirar uma selfie. Sinto-me chocado com este crime de
lesa-património contra um dos ícones mais queridos e distintivos da
cidade de Lisboa.
Pelas inefáveis caixas de comentários dos sites de Internet de diversos jornais que, entretanto, noticiaram o crime, já pode ler-se opiniões desculpantes que colocam sobre o acontecimento uma tónica digna de dó, argolada na suposta falta de segurança pública em que consistia uma estátua que caiu tão facilmente, ignorando que em quase cento e trinta anos de existência foi preciso esperar que um debilóide se guindasse na peanha em que a escultura assentava para que esta, de facto, caísse ao chão e se quebrasse em pedaços. Não duvido que se o paspalho se tivesse lembrado de trepar, por exemplo, pela estátua do Eusébio e a tivesse danificado de algum modo, por mais incipiente que fosse, as opiniões expressas nas caixas de comentários seriam bem diferentes; pois não me liberto da ideia de que neste abjecto período que atravessamos, em que a história é observada como sendo inútil e se faz diariamente a apoteose de outro tipo de expressões e (des)valores, como a promoção contínua da vapidez, da cupidez e da estupidez pelos vários veículos da comunicação social e pela indústria do entretenimento, se perdeu totalmente a vergonha e, pior!, a noção mais rudimentar do que é importante, salutar, vivífico. Para mim, que vivo constantemente de imaginário pajão na mão a tentar - às vezes, sem êxito, o que é angustiante - afastar da minha pessoa as tais vapidez, cupidez e estupidez, é cada vez mais difícil viver - conviver, então, é absolutamente penoso - num mundo que, por culpa de crimes deste tipo e por culpa da indulgência com que são observados e punidos, se torna inexoravelmente mais pequeno, mais homogéneo, mais irrelevante. Gostava que o pedaço de asno que destruiu a estátua tivesse uma punição exemplar - repito, uma punição exemplar -, mas, enfim, não criar expectativas em relação a nada tem-me servido bem, daí que farei o mesmo neste caso.
Quanto à escolha difícil das imagens aqui publicadas, a razão foi a seguinte: mostrar a escultura de D. Sebastião, tal como ela, até esta data, deveria ser para a maioria dos indivíduos - ou seja: uma coisa antiga, nebulosa, sem valor que por ali estava, sem sequer se dar por ela - e confrontar esse imago com os cacaréus em que foi transformada por um marginal mental. Em anexo, fica, para quem ainda reserva um pingo de indignação, a imagem que resta, também da autoria de Simões de Almeida, de um D. Sebastião, ainda infante, lendo Os Lusíadas, esculpida dez anos antes da estátua colocada na fachada da estação ferroviária do Rossio e que pode ser vista no Museu do Chiado.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Os veros "anormais" de Lisboa
O dia em que Carolina e Josefina visitaram o Mosteiro dos Jerónimos.
Lembram-se delas? Encontraram-nas em Os Anormais: Necropsia De Um
Cosmos Olisiponense:
«Vamos visitar os volutabros imaginais de Lisboa.
Vamos ver que anormais ela excluiu para a cercania – para os arrabaldes dos anais. Não será tanto etnologia, como reologia, pois falamos de gente deformada que foi repassada e escoada pela memória da história, mas como observar essa memória e essa história? De acordo com os fundamentos da “história total”, propostos por Braudel e, antes dele, por Michelet?
É melhor confiar na diacronia.
É melhor assumir que, tal como astrónomos, estamos a olhar para luzes pré-históricas, emitidas por estrelas extintas.
(…)
Estrelas defuntas como as infelizes irmãs órfãs Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, que, em meados do século XIX, depois de serem exploradas até à exaustão por um canalha desprezível que lhes deu a ridícula alcunha, tornaram-se injustamente no arquétipo da dondoca, antes de morrerem de fome na maior das misérias.
(…)
Vergonha, amargura, tristeza. Plangências profundas que envolvem os espíritos.
Que cidade é esta?
Esta não é a Lisboa que nos foi prometida à esplêndida portada, feita de jaspe.
Estas não são as personagens castiças do folclore que ela engendra para gazofilar turistas.
Há angústia autêntica aqui. Mensagens de sofrimento real, escrevinhadas no pó. Dor e raiva verdadeiros – espremendo corações nos peitos.»
(SOARES, David, “Terra Incógnita”, in SOARES, David (textos, voz); SANGNOIR, Charles (música), Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, Seixal/Lisboa, Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012).
terça-feira, 26 de abril de 2016
Redescobrindo a Rua Nova dos Mercadores
No ano passado foi editado um excelente livro sobre a quinhentista Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa, intitulado The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon, editado por Annemarie J. Gschwend e Kate J. P. Lowe (Paul Holberton Publishing). Nesse actualizado e apurado volume pode ver-se, no capítulo "Reconstructing the Rua Nova: The Life of a Global Street in Renaissance Lisbon", de Annemarie J. Gschwend (pp. 101-119), diversas primorosas reconstruções digitais da Rua Nova, feitas por Laura Fernández-González e Harry Kirkham, das quais mostro aqui dois exemplos. Escolhi essas imagens, porque me deixaram emocionado: em primeiro lugar, por consistirem em perclaras janelas para o passado de Lisboa, cidade a cujo estudo tenho devotado tanto labor e amor; em segundo, porque são instantâneos perfeitos da cidade que imaginei quando escrevi os meus romances Lisboa Triunfante e O Evangelho do Enforcado. Baseei as minhas descrições da Rua Nova em iconografia e relatos de época, mas observar como estas recentes reconstruções digitais da Rua Nova se aproximam muitíssimo do que escrevi é comovedor. Assim, para recordação ou descoberta de leitores e amigos, deixo aqui umas transcrições dos meus romances, ilustradas pelas reconstruções digitais da Rua Nova.
«Apesar da abundância de gente que enchera a arena do Terreiro do Paço para ver o combate dos colossos, a Rua Nova dos Mercadores estava pejada de pessoas aquela hora. O mercado da hortaliça e da fruta, mais o do pão, enchiam-se de citadinos que queriam comprar o maior número possível de alimentos antes que os preços voltassem a subir; os novos-ricos saíam e entravam nas joalharias e das ourivesarias, ora para comprar, ora para penhorar. A vozearia de comerciantes e clientes ecoava pelas arcadas harmoniosas que serviam de lojas e sustinham os edifícios de três andares; nas paredes coloridas podia ver-se palavrões e caricaturas garatujadas a carvão e giz. A estrada de terra batida estava atulhada de detritos e emporcalhada pela água suja que as escravas despejavam para o chão, mas em nenhum lado o pivete era pior que na praça e no açougue – era impossível não passar pelas bancadas do peixe e da carne sem ficar sujo de sangue e escamas. Vendilhões ambulantes furavam caminho entre os indivíduos, incluindo os magríssimos mestiços do Norte de África que deambulavam com um pequeno forno de ferro à cabeça e assavam línguas de borrego por três reais e meio; traziam-nas dentro de um saco que levavam as costas, mas também cozinhavam a carne e o peixe que os clientes compravam no mercado. Quando o elefante invadiu a rua ninguém deu por ele até se ouvirem os gritos das primeiras pessoas a serem empurradas.»(In SOARES, David, Lisboa Triunfante, Parede, Saída de Emergência, 2008, pp. 268-269.)«Casas de pedra e madeira erguiam-se voltadas para o rio Tejo, tão tortas quanto as próprias elevações sobre as quais se equilibravam; em direcção à linha da água, a pouquíssima distância das muralhas coroadas de líquenes, as ruas estreitas tornavam-se exíguas e a imundície sedimentava-se em estratos graúdos que encapotavam o chão de terra batida. Algumas artérias de maiores dimensões, como a eritematosa Rua Nova, possuíam pavimentos; mesmo assim, se apresentassem uma cota mais elevada, os caminhos calcetados costumavam ser cobertos com areia para que as ferraduras das bestiúnculas não deslizassem nas lajes de pedra. O barulho era ininterrupto: sinos e chocalhos vascolejantes, guinchos das rodas de carroças e carretas, cerca de quarenta mil pessoas a conversar, a berrar e a rir. Baratas saltavam de frinchas. Cães bebiam os próprios reflexos em poças de água choca. Homens agarravam em copos de vinho.(…)'A alma é um mecanismo, sujeita aos fins para os quais foi criada', pensou Nuno, ao caminhar sozinho pelas ruas de Lisboa, pela primeira vez em cinco anos. 'Essa é uma verdade que deve ser levada muito a sério.' O Sol forte magoava-lhe a vista, mas que dor tão doce era essa. Como mel – e tão dourada quanto ele. 'Acho que… que vou passar na Rua Nova.'Encontrou uma nova Rua Nova, pintada de tons quentes e cheia de casas soberbas, suportadas por arcadas que ainda luziam dos polimentos; o pavimento era o mesmo, contudo – sujo como o fundo de um barril. Observou os rostos dos indivíduos como se fossem criaturas de outro mundo: até eram, pois o mundo dele ruíra com a velha rua e com o regedor.Aquela Lisboa e aquele tempo não lhe pertenciam.Pôs-se de frente para o sitio onde ficava o seu armazém e descobriu que fora ocupado por uma nova casa. Passou por baixo do arco e olhou para cima: viu um pombo a dormitar em cima de um capitel; a sombra era fresca e o ar, recheado de ruídos cristalinos, cheirava a fruta fresca.'Como é que posso voltar a ser um pintor?', pensou Nuno, pousando a mão num pilar e sentindo a pedra fria. 'Estive separado da minha mão durante cinco anos…' Olhou para o fundo da rua apinhada de gente. 'Como é que vou recuperar os jeitos dessa vida?'»(In SOARES, David, O Evangelho do Enforcado, Parede, Saída de Emergência, 2010, pp. 74-75, 337.)
Em meditação
Born April 26, 121 AD, roman emperor Marcus Aurelius was a lover of
philosophy of the stoic stirpe and penned (in koine greek) one of my
favorite books, The Meditations (circa 175 AD). It's a title I
regularly return to, specialy when my abhorrement for the present-time
established set of attiudes hits red. (Regrettably, in Aurelius case,
the apple did fall far from the tree: his son, Commodus, was a racketeer
and a villain.)
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Sobre a origem das tatuagens em Lisboa
Fracção integrante da imagética da cultura musical a que pertencem os diversificados universos sonoros que a revista LOUD! referencia são as tatuagens, plasmadas nas peles de artistas, fãs e jornalistas, produtores, editores e promotores, desde logótipos de bandas e reproduções de capas de discos, até desenhos de variadas estirpes que, uns desde os primórdios, outros de adopção mais recente, se tornaram universalmente identificáveis como incumbentes das estéticas e atitudes relacionadas, de maneira geral, com o Metal. Pese a frequência desanimadora de um punhado de lugares-comuns e ideias pré-fabricadas sobre as tatuagens que, ainda, teimam em criar ruído junto da opinião colectiva, é salutar observar-se que nas passadas décadas evoluiu muitíssimo o discurso antropofilosófico que sobre elas discorre, caminhando em consonância com a vulgarização das próprias tatuagens pelo grande público, consequência da sua popularidade entre as mais espectaculares estrelas de cinema e as do mundo do desporto. De mérito desigual, as lojas e as oficinas de tatuadores amadores e profissionais fixaram-se como parte indelével da contemporânea paisagem cosmopolita, assim como da versão açucarada da realidade que é encenada por dezenas de reality-shows, transmitidos pelos canais televisivos. Porém, a esta distância, impõe-se – ou, pelo menos, imponho eu, por gosto e inclinação pessoais – uma inquietação, que é a de especular sobre quais serão as origens das tatuagens nas nossas vistas urbanas portuguesas: a esse respeito, sou capaz de puxar o lustro aos umbrosos limiares históricos das tatuagens em Lisboa, um tema que, certamente, será tão aliciante quanto obscuro.
Os primeiros tatuadores de Lisboa, artistas anónimos que nasceram e morreram nos tempos anteriores ao grande terramoto de 1 de Novembro de 1755, foram viajantes castelhanos que se dedicaram ao ofício algo ingrato da “picadura” e que se fixaram na vizinhança da Ribeira Velha, ao Terreiro do Paço; para utilizar um pionés mais cirúrgico, é válido desvendar que montaram os seus ateliês ao ar livre no adro da quinhentista – e inexistente – Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia: sumptuoso templo de contextura e recorte manuelinos, nessa altura somente secundarizado pelo Mosteiro dos Jerónimos e situado não muito longe do local onde, hoje, na Rua da Alfândega, se pode admirar o soberbo portal da fachada da Igreja da Conceição Velha. (Na verdade, esse trabalho compósito foi montado com porções, arquivoltas e tímpano do portal lateral da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, destruída quase totalmente pelo magno terramoto.)
Aí, sentados no muro raso que circundava o adro da igreja, os “picadores”, munidos de agulhas com cabos de madeira e pigmentos feitos à base de pólvora moída, tatuaram os lisboetas de seiscentos e início de setecentos. Penduradas em cravos de galeota pregados nas frinchas da silharia da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, encontrava-se em exposição o catálogo de tabuinhas decoradas, pelas quais os clientes escolhiam os desenhos que desejavam ver tatuados: cruzes ornamentais de diversificados feitios ocidentais e orientais, signos-saimões, rostos crísticos, alegorias religiosas, corações incendiados e motivos relacionados com a cultura do mar. Os aristocráticos adoptaram a prática – chique nesse tempo – de serem “picados” nas costas das mãos, entre as bases do dedo indicador e do polegar. Ontem, como hoje, não faltou quem se arrependesse posteriormente de desenhos escolhidos aleatoriamente ou de maneira apressada e esfregava-se furiosamente com sumo de limão a pele “picada” para tentar apagá-los – popular recurso mezinheiro de ineficácia quase completa.
Versáteis, os adros das igrejas fizeram de fórum, mercado, miradouro da vida diária e cemitério: o da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia parece ter sido especialmente predestinado às profissões ligadas à cromofilia, pois fora, desde o século XVI, o principal mercado lisboeta de venda de flores e, depois dos tatuadores o deixarem, em definitivo, acolheu os ambíguos passarinheiros alemães – que aproveitaram os cravos abandonados pelos tatuadores para pendurar as gaiolas, algumas com aves pintadas com pigmentos garridos para passarem por exóticas. Outro tipo de tatuagem, portanto, mas, até este momento, a vocação histórica dessa geografia mantém-se interrompida: o terramoto de 1755 foi o liquidante epitáfio das energias histológicas.
(Crónica publicada originalmente na revista LOUD! de Abril de 2015.)
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sábado, 23 de abril de 2016
Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor
Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou dia do nascimento do
dramaturgo inglês William Shakespeare - que, pese as teorias das
conspirações pugnadas por indivíduos que, na maioria, não têm a mais
ténue noção sobre o que é escrever, realmente existiu e foi o autor das
famosas peças teatrais que lhe são justamente atribuídas.
Mas sobre a formulação da efeméride supracitada inicialmente, há um interessante erro de percepção; pois se a primeira parte do enunciado consiste em «Dia Mundial do Livro», porque não se redigiu deste modo a segunda?: «e dos Direitos do Escritor». É que autores há de vários tipos, mas só uma determinada estirpe desse conjunto escreve livros: os escritores. Infelizmente, não falta e não faltará quem seja tão escritor quanto uma cadeira se possa denominar ainda de árvore, mas isso são outros quinhentos.
Gostava de esclarecer que na minha relação com os livros não me considero um bibliófilo, porque, no meu livro de estilo, um bibliófilo é, sobretudo, um coleccionador que procura e adquire livros segundo exigências muito específicas: primeiras edições; encadernações de um ou outro feitio ou oficina exclusivos; somente edições diferentes do mesmo título ou apenas edições dos trabalhos de um único autor ou temática. Seja em que caso for, o labor do coleccionismo comporta-se como um percolador, que distingue particularismos restritos. A minha relação com os livros faz-se pela via do conteúdo: eu procuro o conhecimento; o que me interessa num livro não é o livro como objecto, mas a erudição. Assim, gostava de evocar aqui a ideia de que o Dia Mundial do Livro deverá ser de todos os livros, sem quaisquer tipos de cegueira ditados por decíduas modas, cartilhas de fátuos fazedores-de-opiniões ou constrangimentos mercantilistas - desde o livro de bolso ao incunábulo. E escolham com sabedoria, porque não há tempo para ler-se tudo.
Mas sobre a formulação da efeméride supracitada inicialmente, há um interessante erro de percepção; pois se a primeira parte do enunciado consiste em «Dia Mundial do Livro», porque não se redigiu deste modo a segunda?: «e dos Direitos do Escritor». É que autores há de vários tipos, mas só uma determinada estirpe desse conjunto escreve livros: os escritores. Infelizmente, não falta e não faltará quem seja tão escritor quanto uma cadeira se possa denominar ainda de árvore, mas isso são outros quinhentos.
Gostava de esclarecer que na minha relação com os livros não me considero um bibliófilo, porque, no meu livro de estilo, um bibliófilo é, sobretudo, um coleccionador que procura e adquire livros segundo exigências muito específicas: primeiras edições; encadernações de um ou outro feitio ou oficina exclusivos; somente edições diferentes do mesmo título ou apenas edições dos trabalhos de um único autor ou temática. Seja em que caso for, o labor do coleccionismo comporta-se como um percolador, que distingue particularismos restritos. A minha relação com os livros faz-se pela via do conteúdo: eu procuro o conhecimento; o que me interessa num livro não é o livro como objecto, mas a erudição. Assim, gostava de evocar aqui a ideia de que o Dia Mundial do Livro deverá ser de todos os livros, sem quaisquer tipos de cegueira ditados por decíduas modas, cartilhas de fátuos fazedores-de-opiniões ou constrangimentos mercantilistas - desde o livro de bolso ao incunábulo. E escolham com sabedoria, porque não há tempo para ler-se tudo.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Sobre gatos
Em movimentações semiaéreas, impressas em claudicantes carimbadas, os gatos suplantam o cingel gravítico, dardejando que nem intenções interrompidas; suspensos em translúcidos tótemes, sobreexpostos no mesmo pensamento – como meditações de prata numa placa de cobre, negativas e positivas em velocíssima alternância.
Quem modelou de que substância os vorazes sicários das selvas, oxidados em ferrugentas variegações de castanho e laranja e negro, que povoaram os pesadelos dos nossos pré-históricos precedentes? Quem afeiçoou de que espécie desses celerados aqueles pequenos e peludos duendes que, ronronando, nos escondem os sapatos e nos roubam os corações? Cães são lobos bebés, mas gatos não são leões infantis – são um segredo. Do mesmo modo que na mitologia Deus se tornou Cristo para descobrir o que significava ser-se um homem, os gatos são a forma que a cólera da Natureza encontrou para conciliar-se: de não sentir vergonha de ser dócil; para, em preciosos instantes, íntimos e nocturnais, ser capaz de dormir entre as presas.
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quarta-feira, 13 de abril de 2016
Quarta sessão do segundo ciclo de Sustos às Sextas
Na próxima sexta-feira, dia 15, às 21H30, na sede da Fundação Marquês de Pombal, ocorrerá a quarta sessão deste segundo ciclo de Sustos às Sextas,
evento devotado ao horror sobrenatural, nas suas diversas expressões.
Do programa destaco a palestra Como Escrever Uma História de Terror em
Dez Lições de António Monteiro e a inauguração da exposição de pranchas
originais de banda desenhada sobre terror, comissariada por Geraldes
Lino e Bruno Caetano. Divulguem e apareçam!
terça-feira, 29 de março de 2016
Triple review treat
Duas excelentes críticas a O Poema Morre (2015) e uma excelente crítica a Sepulturas dos Pais (2014), escritos por mim e desenhados por Sónia Oliveira e André Coelho, respectivamente (ambas edições da Kingpin Books). Podem lê-las nas seguintes ligações:
1) O Poema Morre (crítica de Pedro Cleto): http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/2016/03/o-poema-morre.html#more
2) O Poema Morre (crítica de Artur Coelho): http://www.acalopsia.com/poema-morre-david-soares-sonia-oliveira/
3) Sepulturas dos Pais (crítica de Bruno Campos): http://www.acalopsia.com/sepulturas-dos-pais-david-soares-e-andre-coelho/
segunda-feira, 21 de março de 2016
Poesia tafófila de Edward Young e James Hervey
Este estuosíssimo Dia Mundial da Poesia parece ter sido criado ad
hoc (ou seja, com o significado de em específico - e não com o de arbitrariamente, como, infelizmente, se costuma dizer) para que eu
divulgue as minhas traduções das poesias tafófilas, pertencentes à
chamada Graveyard School, que li na minha palestra, dada na passada sexta-feira, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da programação da terceira sessão da segunda edição do ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas.
Assim, publico agora algumas das peças lidas e apresentadas nessa
altura, assim como um dos excertos que não tive oportunidade de ler; em
breve, seguir-se-ão os restantes.
Neste primeiro grupo seguem dois excertos da obra Night Thoughts (1742) do clérigo e poeta inglês Edward Young e dois excertos da obra Meditations Among the Tombs (1746) do clérigo e escritor inglês James Hervey.
Neste primeiro grupo seguem dois excertos da obra Night Thoughts (1742) do clérigo e poeta inglês Edward Young e dois excertos da obra Meditations Among the Tombs (1746) do clérigo e escritor inglês James Hervey.
«Morte!, grã proprietária de todos! É tua regalia
espezinhar os impérios e extinguir as estrelas.
O próprio sol, por tua permissão brilha;
hás de extirpá-lo de sua esfera, um dia.
Porquê, oberada com tal saque soberano,
disparar tantas flechas a um alvo humano?
Porquê os peculiares rancores contra mim?»«O que é o próprio mundo?, o teu mundo? – Um túmulo.
Onde está, pois, um pó que nunca viveu?
A pá e o arado perturbam os nossos antepassados;
do mofo humano colhemos o pão de cada dia.»«Céus! A cena infunde respeito!, como é severa a penumbra! Aqui é a perpétua escuridão; e é de noite, mesmo ao meio-dia. Tão pesarosa é esta solidão! Nem um vestígio de gaia comunhão, onde a tristeza e o terror parecem ter feito a sua temida morada. Ouçam!, como a cúpula oca ressoa a cada passo. Os ecos, tanto tempo adormecidos, são, agora, despertados; e, em suspiros, lamentam-se ao longo das paredes.
Um feixe ou dois de luz abrem caminho através das grades, reflectindo o brilho mais fraco dos pregos dos caixões. Muitos destes tristes espectáculos, meio escondidos pelas sombras, e só vagamente vistos entre o crepúsculo funesto, adicionam um horror profundo a este tipo de mansões lutuosas. Perscruto por entre as inscrições, que mal vislumbro, e descubro que são os restos mortais de gente rica e famosa. Nenhuns mortos vulgares estão aqui depositados. Os mais ilustres e de honrada ascendência reclamaram este espaço para seu último refúgio. E, de facto, eles conservam uma umbrosa pré-eminência: organizados em desanimada disposição, sob os arcos deste amplo sepulcro, repousam numa espécie de pompa silenciosa; enquanto os cadáveres mais humildes, sem cerimónias, descem até as pedras da cova.»«A mortalha e o caixão são a derradeira fronteira de todos os desígnios terrenos. Neles, os filhos do prazer dirão o último adeus aos seus queridos deleites; nunca mais serão ungidos de perfumes, os sensualistas, nem coroados de botões de rosas. Jamais cantarão mais melodias ao violino, nem pandegarão novamente em festins de vinho. Em vez de terem mesas sumptuosas, com doçuras deleitosas, esses pobres voluptuários serão, eles mesmos, banquetes para engordar insectos: os répteis regozijarão com suas carnes e os vermes farão deles as suas delícias. Na mortalha e no caixão também fracassará a beleza – a beleza brilhante perderá o lustro. Oh!, como as suas rosas murcharão e os seus lírios definharão nesse solo sombrio! Veja-se como o grande nivelador derrama desprezo sobre aqueles que nos encantaram os corações; como transforma em deformidade aquilo que, antes, cativara o mundo.
Pudesse, então, o amante ter uma visão da sua adorada, outrora formosa – que inesperada surpresa o assaltaria! "Será que este é o ente que eu, não há muito tempo, admirava apaixonadamente? Eu costumava dizer que ela era divinamente bela e pensei que ela seria um pouco mais do que mortal. (...) Como é que isto, que apenas há algumas semanas era adorável aos sentidos, pode agora ser tão insuportavelmente repugnante? Onde estão as bochechas coradas? Os lábios coralinos – onde? Para onde foi o ebúrneo pescoço no qual a melena encaracolava em cachos reluzentes? (...) Assombrosa adulteração! Felicidade enganadora! Carinhosamente, andei eu maravilhado com este meteoro cintilante: ele brilhava e eu, pensando que para o bem, confundia-o com uma estrela. Que desgraçado sobejo, caído de uma esfera que não era à sua! Tudo o que posso entrever dele é esta massa pútrida."»
domingo, 20 de março de 2016
Vídeo da palestra «Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica»
Para ver ou rever, o registo em vídeo da minha palestra Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica, sobre a importância, nesse campo, da obra poética da chamada Graveyard School; e, também, uma reflexão final sobre uma nova etimologia da palavra "gótico". Palestra dada na passada sexta-feira, dia 18, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da programação da terceira sessão do segundo ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas.
domingo, 13 de março de 2016
Palestra minha na próxima sexta-feira no ciclo Sustos às Sextas
Plutão examina os livros dos quais lerei excertos na minha palestra Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica: próxima
sexta-feira, dia 18, às 21H30, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da terceira sessão do segundo ciclo de Sustos às Sextas. Divulguem e apareçam.
sexta-feira, 4 de março de 2016
Palestra minha sobre literatura na próxima sessão de Sustos às Sextas
Fãs e amigos: informo que na próxima sexta-feira, dia 18, às 21H30, serei o
convidado da terceira sessão do segundo ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas (que decorrerá no Palácio dos Aciprestes, na Fundação Marquês de Pombal), na qual irei dar uma palestra heterodoxa, intitulada Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica.
Estão todos convidados: divulguem e apareçam. Os fantasmas agradecem e eu também.
Estão todos convidados: divulguem e apareçam. Os fantasmas agradecem e eu também.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
A sabedoria das árvores
Por horas excepcionais tenho sentido no ar deste Fevereiro pálido, ainda
hesitante entre uma Primavera matura e um Inverno senescente, a
rescendência do cio das árvores, derriçadas pela temperatura: um eflúvio
flexuoso, que bóia a custo no espaço castigador entre os copados e o
chão. Sem cérebro, são as árvores mais sábias que nós – os pensantes –,
pois, por mais palinologia que nos pule aos ombros, não compreendemos
(quanto mais antevemos) os metamorfismos que nos vão demudando. Nada nos
prepara para o fatal cair das folhas, nem para os nossos pouquíssimos
reverdecimentos. Pode ser-se alérgico a esse estro dendrítico, abafadiço
da garganta, e, no entanto, não se é alérgico à morte.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Sobre a sobrevivência da Calçada Portuguesa em Lisboa
Extrair a chamada Calçada Portuguesa dos pavimentos públicos pedonais
de Lisboa com base no argumento de que é legítimo fazê-lo porque ela
não é tão antiga quanto se pensa, como se apregoa nos meios de
comunicação, é, com efeito, errado, já que uma maior distância temporal
que separe um determinado objecto histórico deste momento presente não
confere nenhuma especial autoridade a esse objecto em relação a outros
que sejam de lavra mais recente: sobretudo no que concerne à
transformação do espaço urbano, ao longo das eras, pelos indivíduos que o
foram habitando – tudo é histórico.
Por conseguinte, numa
perspectiva histórica, a oitocentista calçada portuguesa, composta por
mosaicos decorativos feitos de pedras calcárias pretas e brancas, é tão
importante quanto o quinhentista Mosteiro dos Jerónimos: monumento cujo
recorte inconfundível para todos os observadores locais e todos os
visitantes estrangeiros deve, hoje, muito mais a profundos restauros
oitocentistas do que ao seu desenho original – assim como a
acarinhadíssima Torre de Belém, ainda mais totalmente reincorporada de
elementos decorativos e estruturais oitocentistas que, para a maioria
dos lisboetas e demais portugueses, são ainda vistos como sendo
iniciais. Nestes casos, em que pouquíssimo resta de original – leia-se
quinhentista – nas suas composições, também será legítimo removê-los – o
Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém – por consistirem em
recriações recentes (e absolutamente contemporâneas dos primeiros
assentamentos lisboetas de Calçada Portuguesa)?
Justificações de
remoção de um objecto histórico baseadas na suposta autoridade ou
não-autoridade concedidas pela calandragem do tempo são espúrias.
Suspeito que o facto de, cada vez mais, existirem pouquíssimos
calceteiros qualificados para fazer a conservação de um objecto tão
ornamental e difícil de burilar como a Calçada Portuguesa torne muito
caro o seu emprego; assim, imagino que cada vez que se rompa um rego na
Calçada Portuguesa para remendar um cano, ou cada vez que tenha de
desfazer-se o puzzle da Calçada Portuguesa para obras de natureza
diversa, seja mais utilitário (vulgo, barato) substitui-la por prosaicos
pavimentos lisos, de cimento branco.
Soluções rápidas e simples deste jaez quase nunca se relacionam com motivos mais nobres que o elementar economicismo: é este – e não outro – que subjaz à sanha sarcótica de querer remover a Calçada Portuguesa das ruas de Lisboa. Nesta óptica, o tal argumento de que não faz mal que a Calçada Portuguesa desapareça, porque ela não é assim tão antiga quanto isso ainda poderá servir para derrubar o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém quando os corifeus do economicismo aprenderem um pouco de história e ganharem a noção de que esses monumentos também são reconstruções oitocentistas, coevas das primeiras pavimentações de Calçada Portuguesa em Lisboa.
Onde se traça, afinal de contas, a
linha temporal aceitável para que um objecto histórico tenha licença
para continuar a existir? Aparentemente, nem objectos mais antigos
escapam à cupidez e à estupidez: basta lembrar que a escadaria
seiscentista do ducentista Mosteiro de Alcobaça foi quase totalmente
coberta de cimento quando, há uns anos, se produziu a nova praça que lhe
é dianteira.
A beleza da Calçada Portuguesa revela-se com
deslumbrância quando é contemplada de cima, mas aí reside outro grande
obstáculo à sua sobrevivência no período que, infelizmente,
atravessamos: é que gente menor é incapaz de olhar seja o que for de um
ponto de vista elevado.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
«O Poema Morre» na lista dos Melhores de 2015
O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, foi escolhido pelo crítico Pedro Vieira de Moura como um dos melhores livros portugueses de banda desenhada editados em 2015 para a lista internacional de Melhores do Ano, publicada anualmente pelo crítico inglês Paul Gravett. Nesta ligação podem aceder directamente às escolhas de Moura.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Inspector Literário
My literary inspector scrutinizing two new chapbooks I bought today -
World Cat Day (in Europe, at least). Hard readers pet better.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Mesa-redonda e exposição de BD na Leituria
No próximo sábado, dia 6, às 17H30, decorrerá na livraria Leituria
uma mesa-redonda subordinada ao tema Expansão e Desafios da BD
Portuguesa, que contará com as presenças dos autores André Oliveira,
Carlos Pedro, David Soares, Joana Afonso, Mário Freitas, Nuno Duarte,
Osvaldo Medina e Sónia Oliveira (os autores, todos publicados pela Kingpin Books, estarão disponíveis para
autografar os seus livros e pranchas originais). Este debate inaugurará
uma exposição de pranchas originais de banda desenhada, dos diversos
autores presentes, que estará patente na Leituria até ao dia 3 de Março.
Divulguem e apareçam: obrigado.
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