sexta-feira, 10 de junho de 2016

Sardinhada à romana: sobre o garum

Tirando proveito do período das festas populares que decorrem em Lisboa (e não só), caracterizadas por planturosos banquetes de sardinhas assadas, lambiscadas luculianamente no pão ou no prato, ao ar solto junto dos grelhadores ou em interiores sobre mesas tapizadas de vistosas variedades de verde e vermelho, cortesia do macramé de pimentos que, em regra, enfeita e revigora estes ágapes populares, publico aqui um extracto de um texto inédito que escrevi há uns tempos sobre a indústria romana de salga de peixe na Baixa de Lisboa - da qual a sardinha, claro está!, foi protagonista principal. Sardinha e Lisboa continuam a estar, ainda, indissoluvelmente coligadas.


Sobre o Garum
 
«Os romanos nunca foram, verdadeiramente, um povo inovador e, no seu ultra-pragmatismo, primaram por uma certa preguiça imaginativa; mas foram um povo extraordinariamente renovador: ou seja, foram mestres a absorver tecnologias e culturas das populações que iam subjugando e a examiná-las com minúcia para refinarem-lhes as possibilidades a inéditos níveis de eficiência. Nesse sentido, a indústria da conserva e salga de peixe por eles reformulada não foi nenhuma excepção e a diversidade de produtos que conceberam chegou até nós em nomes cuja interpretação é o pesadelo dos etimologistas; como Isidoro de Sevilha, que, no final do terceiro capítulo do Livro XX das suas Etimologias, discorreu sobre o assunto: muria, allec, liquamen, e, em destaque, garum.

Garum: nome que, foneticamente, bem podia ser algo ronronado por um delambido gato a esfregar-se nos tornozelos do dono, evoca, logo à partida, uma imagem de algo aquoso e antracítico – uma versão orgânica do basalto, pedra usada na “típica” calçada portuguesa. Que produto foi este, confeccionado nas cetárias revestidas de opus signinum (argamassa feita de areia, cal e calcário britado) que se encontram no subsolo dos nossos hodiernos edifícios, como a sede do banco Millennium BCP, mas também da Casa dos Bicos/Fundação José Saramago, na Rua dos Bacalhoeiros, e da loja Napoleão, na Rua dos Fanqueiros – a topologia é destino e esta casa, vendedora de finos azeites, vinhos e queijos portugueses, parece prosseguir a tradição gastronómica de que a Baixa foi o efervescente cadinho, porque o garum, desde o início, cifrou-se como produto gourmet: o principal molho salgado de peixe.

Era transportado em ânforas (...) as de transporte de azeite e vinho eram delgadas, enquanto que esta é gorda. Se há objecto universalmente identificável com a cultura romana é a ânfora, mas, mais uma vez, não foram eles que a inventaram e o nome, que é grego, significa com dois transportadores (os “transportadores” são as pegas laterais): projectadas para serem usadas apenas uma vez, foram a louça de plástico da época. Com mais de trinta metros de altura, o verdejante Monte Testaccio, em Roma, parece ser uma elevação natural, mas é totalmente artificial, formado por sedimentos sucessivos de cacos de mais de cinquenta milhões de ânforas: terra tornada barro, tornado terra; há rebeldia, aqui, nesta fímbria cosmopolita, porque não basta aos homens moverem montanhas, mas têm de ser capazes de construi-las. Este é o único Olimpo que vale a pena idolatrar.

(…)

É provável que algumas das receitas romanas mais “herméticas” sejam exageros literários, mas, mesmo assim, de acordo com as fontes mais credíveis, é inegável que os romanos adoravam iguarias extravagantes e não poupavam esforços e despesas para confeccioná-las – até inventaram uma palavra para isso: abligurire, que significa, em bom português, “gastar rios de dinheiro em comes-e-bebes”. Todavia, também adoravam sal; tanto que até salgavam o vinho – e eles bebiam imenso vinho – com um molho salgado chamado defrutum, feito de propósito para o efeito.

Que se esconde detrás desta obsessão com molhos salgados, como o defrutum e o garum?
A resposta reside no facto de que os romanos não usavam pedrinhas de sal para cozinhar ou temperar os pratos. Hoje, quando queremos salgar a comida, agarramos num saleiro e polvilhamos a gosto; ora, os romanos também tinham saleiros, mas, praticamente, não os usavam, porque preferiam salgar a comida com molhos salgados. Molhos salgados de peixe, neste caso; foram, em simultâneo, condimentos e remédios, porque os físicos coevos achavam que eles continham todas as propriedades medicinais do sal, mais as do peixe. Tomava-se garum contra a ciática, contra as enxaquecas e até contra problemas respiratórios ainda por diagnosticar convenientemente, como a asma e a tuberculose. Deste modo, não é surpreendente que a indústria de produtos piscícolas tenha transformado Lisboa na segunda capital da Lusitânia. Tão bem temperado era o sentido do negócio dos romanos que até vendiam uma versão kosher do garum para o mercado israelita, chamado garum castimoniale, feita em exclusivo com peixes escamados; de qualquer forma, o garum feito em Lisboa era kosher por excelência, feito de carapau e, principalmente, de sardinha (conhece-se esse facto, graças às análises feitas às espinhas e aos resíduos do preparativo, encontrados nas cetárias e nas ânforas).»


Sobre Camões - no dia dele



Na data que se convencionou ser a da morte do poeta Luís de Camões (cujo dia e ano ainda não foram apurados com rigor) - e que, também por convenção, começando em 1910, modificando-se em 1933 e, em principal, em 1978, se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas -, não resisto a recordar uma trova satírica que Camões compôs para escarnecer de D. António de Castro, senhor da vila de Cascais, depois de este lhe ter faltado ao prometido.

Esclarece Hernâni Cidade, nas notas que escreveu para o primeiro volume das obras completas de Camões (Livraria Sá da Costa, 1972), que, certo dia, Castro pediu a Camões que lhe redigisse uns versos e prometeu que os pagaria com meia-dúzia de galinhas recheadas. Vivendo sempre em condições precárias, o poeta aceitou a combinação, mas, no final, o senhor de Cascais pagou-lhe apenas com meio-frango. Sem perder o sentido de humor, Camões satirizou-o nestes versos que ficaram célebres: «cinco galinhas e meia / deve o senhor de Cascais, / e a meia vinha cheia / de apetite para mais».

A pobreza de Camões é um assunto "polémico", com diversos pontos de vista antagónicos a discorrer sobre ele, mas, tudo somado, pode avançar-se com a hipótese segura de que estaria, evidentemente, mais perto da penúria do que do pecúlio; logo, oferecendo uma severa dimensão trágica ao picaresco apontamento que aqui publico para convidar à reflexão neste Dia de Camões.

Imagem: cópia de Luís de Resende de um retrato de Camões feito por Fernão Gomes (algures entre 1573 e 1575), considerado o único retrato fidedigno, pois pintado em vida do poeta.

Coda: quanto ao apelido Camões, ele entra no nosso léxico, no século XIV, com Vasco Pires de Camões, um nobre galego que se refugiou em Portugal. Foi, provavelmente, o bisavô de Luís Vaz de Camões.
A etimologia do apelido talvez se relacione com uma freguesia galega chamada Santa Eulália de Camós, pronunciada camones pelos populares, o que reproduz a sua grafia medieval ducentista. Também não se pode ignorar-se o nome hispânico calamón, do qual deriva o catalão galmon e o nosso camão: todos nomes para o galeirão comum, ave aquática, aparentada com a abetarda, que habita junto aos rios. Ainda no século XVIII se dizia camão em vez de galeirão; não obstante a palavra galeirão existir desde o século XIII, sem dúvida com outro significado.
Resta esclarecer que camões ainda ganhou o significado de zarolho, por culpa do acidente que feriu um dos olhos do poeta: acidente que consistiu no disparo aziago de um estilhaço de uma peça de artilharia - quase de certeza, um pequeno canhão, embora se especule quanto às circunstâncias do acidente: se no Norte de África ou em Lisboa.
O dia 10 de Junho ainda foi durante muito tempo chamado de Dia de São Camões.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Enterrando sardinhas


Agora que chegou o intermezzo da ictiofagia bairrista - e não só em Lisboa -, vale a pena dar o alvitre sobre a espantável tradição do Enterro da Sardinha (quarta-feira de cinzas): misto de piedade popular e Carnaval, que, infelizmente, tem andado um bocado esquecido. Cortesia de Francisco Goya é o chinfrineiro charivari que aqui publico, pintado em 1819 no dealbar da realização da série das Pinturas Negras pelas quais o quasimodiano artista ficou famoso no nosso tempo - e, com efeito, já há muito de pintura negra nesta caliginosa composição - na qual, curiosamente, o pelágico clupeiforme está ausente. Já foi enterrado, provavelmente.

Coda:
1) o Enterro da Sardinha é uma espécie de Enterro do Bacalhau, também praticado na quarta-feira de cinzas;

2) nas Posturas Antigas sobre o pescado na cidade de Lisboa, três posturas, pelo menos, falam exclusivamente sobre problemas relacionados com o comércio e pesca de sardinhas; a minha preferida é a «Postura do Preço das Sardinhas e Contadeiras que Sejam Casadas e Não Solteiras» que regula tanto a mercadoria como o estado civil de quem a pode ou não vender;

3) além de servir para a confecção de pastas e acepipes de variável grau de requinte e exigência, a sardinha era usada pelo vulgo como ingrediente principal em mezinhas muitíssimo curiosas (lia-se as vísceras das sardinhas para adivinhar quase tudo, mas, em principal, o sexo dos bebés era adivinhado lançando-se uma espinha de sardinha ao lume e observando como se comportava - se levantasse, nasceria um rapaz). Aliás, nem só pelo vulgo, pois o Dr. Cipriano de Pina Pestana, médico da câmara de D. João V e físico-mor do reino (houve três médicos de câmara neste reinado, mas penso que este é o nome certo para o caso), saudava o efeito expurgante da cabeça de sardinha quando empregada como supositório em casos de prisão de ventre.
 

terça-feira, 7 de junho de 2016

About Chiado / Sobre Chiado


In my investigations about Lisbon's history I might have found the probable true origin of this poet's nickname: Chiado. However, I'll play this very close to the chest until I manage to gather more information - which will take some time. In any event, sooner or later, I'll let you all know if I'm wrong or right. (Pic: Costa Mota's 1925 bronze statue of Chiado in Largo do Chiado, Lisbon.)

Nas minhas investigações sobre a história de Lisboa talvez tenha encontrado uma provável verdadeira origem para a alcunha deste poeta: Chiado. No entanto, prefiro ter cautela e reunir mais informação para perceber a validade da hipótese - o que levará algum tempo. Seja como for, mais tarde ou mais cedo, logo vos direi se estava errado ou se estou certo. (Foto: estátua de bronze do poeta Chiado, de 1925, no Largo do Chiado.)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dose dupla na 86ª Feira do Livro de Lisboa


Lembro que amanhã, sábado dia 4, estarei às 16H00 no auditório da 86ª Feira do Livro de Lisboa (Parque Eduardo VII, à Praça do Marquês de Pombal) para apresentar o livro A Liga dos Cavalheiros Extraordinários: Século (Editora Devir), de Alan Moore e Kevin O'Neill. No dia seguinte, domingo dia 5, estarei novamente na Feira do Livro, entre as 14H30 e as 17H00, no stand da Europress (B11), para uma sessão de autógrafos na companhia de Sónia Oliveira: o nosso livro O Poema Morre (Kingpin Books) será o Livro do Dia. Divulguem e apareçam.


terça-feira, 31 de maio de 2016

Sobre a banda desenhada "portuguesa"


Agora que decorre, até 12 de Junho, o XIIº Festival Internacional de BD de Beja, lembrei-me de anotar aqui algumas inquietações sobre a banda desenhada portuguesa.

Em primeiro plano, uma inquietação relacionada com essa designação de «portuguesa», como se houvesse, de facto, uma "escola", diga-se assim, ou um estilo reconhecível que cunhasse com um carácter distintivo, genuinamente português, a banda desenhada feita por autores portugueses. Acredito que não existe nenhum carácter distintivo ou escola dessa natureza, daí que, provavelmente, em toadas mais rigorosas, fosse mais proveitoso falar-se em banda desenhada feita por autores portugueses, embora reconheça, evidentemente, a facilidade comunicacional/discursiva de «banda desenhada portuguesa».

Com efeito, quando se fala em «banda desenhada francesa», «banda desenhada norte-americana» ou «banda desenhada japonesa», pese a diversidade de registos que, tantas vezes, escapam à atenção do público não-especializado, é possível falar-se, nessas latitudes, de escolas ou estilos reconhecíveis - de identidades colectivas.

Ora, não acho que a banda desenhada feita por autores portugueses seja particularizável desse modo; embora me lembre de, pelo menos, quatro algoritmos que têm regulado a produção de banda desenhada feita por autores portugueses:

1) adaptações de clássicos literários e versões de histórias de Portugal (actualmente com pouca expressão);

2) fortíssimo pendor para histórias passadas em ambientes exclusivamente - e abafadoramente - urbanos ou suburbanos, muitas vezes com alguma imagética devedora dos géneros policial ou noir (em principal nos fanzines);

3) domínio quase exclusivo de banda desenhada de autor, auto-editada ou não, com pouquíssimas incursões na banda desenhada comercial ou em que figurem personagens principais seriadas;

4) tendência para forte representação de autores portugueses de banda desenhada em produções originais estrangeiras - vulgo, personagens cujos direitos são detidos pelos grupos Marvel Comics-Disney, DC Comics-Time Warner, etc. (situação cada vez mais frequente, mercê da acessibilidade e facilidade de comunicação que a Internet proporciona).

(Imagem: um dos doze painéis sequenciais de azulejos do dito Padrão do Senhor Roubado, em Lisboa (1744), um dos múltiplos exemplos históricos - neste caso, português - de banda desenhada avant la lettre.)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Sobre os livros de bolso em Portugal

À aproximação da Feira do Livro de Lisboa, algumas observações de relance sobre um assunto que ainda me estupefacta e para o qual ainda não encontrei uma resposta satisfatória (e acreditem que tenho pensado muitíssimo nisto, desde há anos): porque é que em Portugal não há um mercado saudável de livros de bolso?

A natureza do livro de bolso é ser um livro barato, que possa ser lido durante o dia-a-dia: nos transportes públicos enquanto se vai para o trabalho; nos bancos de jardim, à hora-de-almoço; e, evidentemente, em casa. É um livro feito a pensar em quem, de facto, deseja o conteúdo e não a forma; embora se possa privilegiar uma edição de bolso anotada ou comentada por especialistas, se for caso disso - facto que, em regra, não encarece em nada a publicação. Com efeito, são as sumptuosas tiragens dos livros de bolso - na ordem das dezenas ou das centenas de milhares de exemplares impressos - que baixam totalmente os custos de produção; os quais decrescem pelo facto de que, como consistem em livros de pequeno formato - octvavos ou quartos, por exemplo (e o quarto não é assim tão pequeno quanto isso) -, não precisam de encadernações robustas (que são caras). Basta-lhes uma simples capa de cartolina, colada na lombada. Olhando por cima do ombro para o passado recente lembro-me de algumas editoras que fizeram um magnífico trabalho na edição de livros de bolso, mas quando olho em frente, para o presente, não vejo um labor idêntico (em número de editoras e em número de edições). O livro comum posto à venda em Portugal é um livro de médio formato, com valores de produção médios ou baixos e com um preço de venda ao público que se aproxima, na maioria das vezes, dos vinte e cinco euros. O preço relaciona-se directamente com a tiragem (em teoria..): um título do qual se imprime mil ou mil e quinhentas cópias - três mil, vá lá - não pode ter o mesmo preço de venda ao público que um título do qual se imprima cem mil ou trezentos mil exemplares. Isso é perfeitamente razoável, como é evidente. O que já não é tão evidente assim é a razão pela qual, no tal passado recente (vinte, trinta anos atrás), se podia encontrar uma deslumbrante oferta de livros de bolso nas livrarias.
Havia leitores para eles?
Se sim, onde estão?
Nunca existiram e editava-se por carolice - ou (colocando a questão de uma forma mais nobre) por espírito de missão? Seria proveitoso descobrir respostas expressivas para estas interrogações.

Por outro lado, o livro de bolso, infelizmente, nunca se libertou - em Portugal, pelo menos - da aura de coisa ordinária - de res rasca - que o impregna; pois, nas mentes da maioria dos indivíduos, se algo custa barato é porque não tem qualidade. Isto não é totalmente axiomático, pois cada objecto é orbitado por uma espécie de preço invisível, perspirado à sua aproximação e que alarma quando se está a pedir demasiado ou pouquíssimo: em ambos os casos, desconfia-se. O bom consumidor é, pois, uma criatura do médio, nunca dos extremos. Nessa óptica, se o tal livro comum descrito acima (de preço de capa de vinte e cinco euros) fosse apresentado a custar sete seria, imediatamente, recebido com sobrolho sublevado: sete euros será um preço natural, acessível ou convidativo, mas não é um preço, digamos, "prestigiante" (leiam, entre outros, Torsten Veblen ou Joseph Schumpeter para aprofundar esta problemática).

As respostas são esquivas, é certo. Mas também é certo que a cultura do livro de bolso, seja lá porque razão for, nunca medrou entre nós. Entre outros livros, resta-me comprar nos alfarrabistas essas pequenas e portáteis preciosidades editadas em antanho; e que, por vezes, até são as únicas edições que existem de determinados títulos que, entretanto, nunca mais foram eleitos para reedição - o que é lamentável.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Apresentação e autógrafos na 86ª Feira do Livro de Lisboa


Fãs e amigos, anotem estas novidades para a Feira do Livro de Lisboa: no dia 4 de Junho (Sábado), às 16H00, estarei no auditório da feira para apresentar o livro Liga dos Cavalheiros Extraordinários: Século (Editora Devir) de Alan Moore e Kevin O'Neill; em seguida, no dia 5 (Domingo), das 14H30 às 16H30, eu e Sónia Oliveira estaremos junto ao stand da Europress (distribuidora da Kingpin Books) para assinarmos exemplares de O Poema Morre, que será Livro do Dia.



segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sinais


Numa rua de Lisboa: vírgula ou aspa? O território é página e nós somos as palavras. Em que frase se traduz um particular momento da vida? A aspa e a vírgula são cognáticas, mas uma é pódio, a outra é sustento e sem ambas o texto perde flexão, denotação. Somos palavras cambiantes em pergaminhos de madeira e pedra, guiados por cegas e polissemânticas contingências que nem as estrelas, nem as nuvens, decifram em seus reflexos resplandecentes - e, no entanto, sob a sola dos pés, inscrita na fímbria do empedrado, já quando nem sequer esperávamos, aparece uma pontuação. Uma vírgula, uma aspa. Um ponto final.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Recordando os três santos mártires de Lisboa


Porque hoje vieram à conversa os três santos mártires de Lisboa, Júlia, Máxima e Veríssimo, publico aqui um excerto de um texto inédito que escrevi sobre eles. Os meus leitores que se lembram das versões ficcionadas que criei destas personagens no meu romance O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência, 2010) poderão, assim, complementar esses constructos com esta perspectiva factual e histórica (além da leitura, claro, dos apêndices do romance, que também contém muita informação).

«É provável que o registo mais antigo sobre a lenda destes três santos mártires seja a narrativa contida no Martirológio do monge beneditino Usuardo, terminado em 875 (o livro, neste caso; embora o monge também tenha falecido nesse ano). Ora, cerca de dezassete anos antes, Usuardo esteve na península e não é nada extravagante que tenha recolhido informações sobre os cultos prestados aos mártires pelas comunidades cristãs do Al-Andalus; entre as quais, conjectura-se, a de Al-Uxbuna. A história desses três santos não é, em síntese, nem original, nem dissemelhante dos restantes relatos de martírios ocorridos durante o período das perseguições dioclecianas, como comprovam, por exemplo, as histórias de Santa Eulália em Mérida, São Félix em Gerona, Santa Engrácia em Saragoça, Santa Leocádia em Toledo, Santa Rufina e Santa Justa em Sevilha, São Vicente, Santa Sabina e Santa Cristeta em Ávila (os últimos, martirizados de modo análogo a Veríssimo, Máxima e Júlia, desempenham em Évora um papel muitíssimo semelhante a estes). Em síntese, é-nos contado como os três irmãos recusaram renegar a fé cristã diante das autoridades romanas e foram, em consequência, postos no potro, escarnificados com garras de ferro e decapitados. Segundo a lembrança popular, os corpos foram arrastados até à beira-rio (para um local onde hoje, em plena Calçada Ribeiro Santos, podemos erguer o olhar e ver, a Ocidente, as torres sineiras da igreja paroquial de Santos-o-Velho) e deitados à água, perto de Almada. Pese terem sido laçados a enormes mós, os corpos mutilados voltaram à margem onde tinham sido embarcados e, de imediato, uns devotos recolheram-nos numa rude ermida, por eles construída no cume da colina. Esse local de devoção divulgou-se e deu espaço a uma igreja que, supõe-se, serão as ruínas descritas por Osberno. Em similitude, também é tradicional contar-se que ainda não tinha assentado a poeira levantada pelos cruzados durante a conquista da cidade e D. Afonso Henriques já ordenava a reconstrução da igreja, mas, de facto, essas notícias não mencionam nenhumas relíquias. Estas surgiram mais tarde, referidas na doação que D. Sancho I fez dessa igreja à Ordem de Sant’Iago, em 1194, na qual expressou que era a casa em que repousavam os restos mortais de Veríssimo, Máxima e Júlia: «quorum corpora ibi requiescunt». Contudo, o culto das relíquias só ganhou dimensão no século XIII, com as diligências das freiras de Sant’Iago

(…)

o culto dos três santos mártires sobrepujou-se ao culto do próprio São Tiago, tornando-se um dos mais populares de Lisboa. Tão popular que, em 1470, D. João II mandou construir, sobre uma pequena ermida dedicada à Nossa Senhora do Paraíso, ao sítio de Xabregas, um novo mosteiro para as Donas (como também são chamadas as comendadoras de Sant’Iago), porque o de Santos se tornara pequeno: vinte anos depois, a 5 de Setembro, realizou-se a mudança na configuração de uma prodigiosa procissão que escoltou a transferência das relíquias dos três santos mártires para o lado oposto da cidade. Escreveu o cronista Rui de Pina que estas seguiram numa arca dourada e, com efeito, ainda estão guardadas numa arca dourada; decorada com as armas reais de D. João II, que se encontram entrelaçadas por uma intrigante composição artística, prefigurante dos acabamentos da moda manuelina. Esse novo convento não era o actual convento de Santos-o-Novo, embora este (mandado construir no início do século XVII por Filipe II de Portugal) se situe na vizinhança: em rigor, somente um pouco mais acima da velha Estrada do Vale de Xabregas, actual Calçada da Cruz da Pedra, onde está o arco da entrada com o brasão da ordem. É um mosteiro que tem a interessante particularidade de ser um dos únicos que não foi vandalizado depois de 1834: data da extinção das ordens religiosas. Nessa altura, apenas as ordens masculinas tiveram ordens de abandonar os seus ascetérios, porque o estado comiserou-se das monjas e convencionou que as sorores poderiam residir nos seus cenóbios até que a última freira falecesse. No entanto, não será exagero sugerir que o facto de este convento ter estado anexado à chancelaria das ordens militares (desanexou-se em 1934) ajudou, certamente, à conservação do espólio osteológico. Mas de que tipos de ossos estamos a falar?

As análises realizadas a essas relíquias demonstraram que a maioria dos ossos guardados na arca joanina nem sequer são humanos: são de cordeiro. Existem, na realidade, restos mortais – ossos e dentes – de, pelo menos, duas crianças e cinco adultos, mas todos do sexo masculino e com idades que vão dos sete aos oitenta anos. Estas ossadas foram datadas como pertencendo a um espectro compreendido entre os séculos VI e o X. O relicário também conserva um osso de vitelo, um osso de porco, dois ossos de coelhos e treze ossos de aves que não foram identificadas.» 


segunda-feira, 16 de maio de 2016

O verdadeiro campeão


Para que não haja engano, declaro, à partida, que não gosto de futebol e desconsidero profundamente a incultura - de gestos, cânticos, coreografias - que lhe está associada. Não me orgulho, particularmente, de pertencer à classe dos intelectuais que odeiam futebol, porque também odeio lugares-comuns, mas, como quem dá o que tem a mais não é obrigado, parecer-me-ia ainda pior esconder as minhas convicções por receio de sofrer com os efeitos da impopularidade. Já Lucrécio, em tempos de antanho, falava na importância das palavras que vêm do coração e, neste caso, é mesmo daí que vêm as seguintes.

Entristece-me e revolta-me ver a massa de gente que, a esta altura, na Praça do Município, celebra, como se fosse algo verdadeiramente importante, a vitória de um clube de futebol no final de um campeonato futebolístico, quando, na verdade, nem um par de boas almas se dignaria a mostrar a cara para homenagear no mesmo local eventos ou indivíduos que foram fundamentais para a história de Lisboa. Aceito que a minha perspectiva sobre este assunto possa encontrar-se desviada pelas convicções a que aludi no primeiro parágrafo deste texto, mas considero lamentável a febre futebólica que desde sexta-feira tomou de assalto a comunicação social e que culmina, hoje, com a homenagem na câmara municipal de Lisboa. 

Gostaria que milhares de pessoas arvorassem um gáudio da mesma intensidade para, por exemplo, homenagearem, entre outros, Júlio de Castilho, o pai da olisipografia, que morreu em condições miseráveis e cuja deterioração da sua última morada - na intersecção da Rua Pena Montero com a Calçada do Picadeiro, na freguesia do Lumiar - se mantém como escandaloso opróbrio que fere o coração de quem por lá passa e sabe qual foi a importância desse atlante campeão - esse, sim, autêntico campeão - de Lisboa. Poucos - pouquíssimos - fizeram tanto quanto ele pelo conhecimento e amor por Lisboa. Hoje, quem se lembra dele? Quem é que sabe o nome dele? E quem é que sabe de cor e salteado os nomes de todos os jogadores de futebol - e de participantes em reality shows?

As imagens aqui publicadas são: uma aguarela da sua casa pintada pelo próprio Júlio de Castilho (que além de extraordinário escritor e investigador, também era pintor); e uma imagem recente do estado actual da mesma casa. São duas visões que aqui deixo para fazer pensar: quem tiver sensibilidade que pense.



A sentir-me anormal.





domingo, 15 de maio de 2016

Incineramento de igrejas em Espanha

Porque hoje estive a desenvolver em conversa o intrigante tema dos incineramentos espanhóis de igrejas na transição do século XIX para o XX - muito antes sequer do período da primeira república espanhola -, recupero um texto em que escrevi sobre o assunto. (A imagem em anexo é de uma cronologia posterior, precisamente o da primeira república espanhola, mas transmite eficazmente o sentimento evocado no texto.) A ler:

«Para nós é útil conhecer bem a história de Espanha, porque grande parte dos movimentos da história de Portugal só fazem sentido se forem observados sob a lente do conflito entre a independência dos vários reinos peninsulares, face à hegemonia com que Castela sempre tentou pressioná-los para os dominar, mas também porque esta é, em mais do que meia-dúzia de aspectos, radicalmente diferente da portuguesa. Para o efeito desta crónica interessa pensar sobre a perda do império espanhol, cerca de 1898, após a guerra com os Estados Unidos, circunstância que serviu para voltar os militares espanhóis, postos ao lado da elite conservadora, composta pelo exército, coroa e clero, contra os populares. Situação que não foi, em si, novidade, porque a tropa ociosa mormente foi instrumento de desordem e tirania, mas, nessa altura, com um general por cada duzentos e cinquenta soldados, o exército espanhol era o mais miserável da Europa – e aquele que custava mais dinheiro a manter. Uma das prerrogativas especiais desse magote de mercenários foi a de condenar civis em corte marcial, regalia largamente utilizada para eliminar vozes críticas, ódios de estimação e quaisquer tipos de indesejados. Entre a massa de trabalhadores rurais e a menor mole de operários urbanos – uma tão provinciana quanto a outra – fermentou ainda mais a desconfiança pelo estado e seus agentes repressivos, que a plebe espanhola sempre cevou, sem pejo de verter sangue, como ainda hoje é possível testemunhar na comunicação social. Daí que, mais do que o apelo da revolução comunista, tenha sido o recurso às tácticas de guerrilha anarquista a medrar entre os rústicos e os assalariados cosmopolitas, ambos desincorporados de qualquer grande organização – na realidade, o anarquismo medrou com maior intensidade na Espanha do que na própria Rússia.

O baixo clero, recrutado entre o povo, continuava a ser tão pobre quanto os paroquianos, enquanto o alto clero, cúmplice de charneira dos grandes proprietários e da monarquia (dividida entre as facções isabelina e carlista, igualmente reaccionárias e sanguinárias), vicejava no luxo e no abuso sem limites de poder: bispos e arcebispos eram nomeados pela coroa e sustentados por volumosos subsídios, oficialmente contratualizados pela Concordata de 1851, assinada entre a lasciva Isabel II e o mariano Papa Pio IX (promulgador do dogma da Imaculada Conceição). Além disso, ilimitados membros do clero faziam parte dos governos e inspeccionavam a sociedade através de um aperto sufocante nos seios das famílias, controlando a vida de todos os dias. Talvez resida aqui a escolha dos revoltosos espanhóis de queimar igrejas, em vez de instituições de carácter estatal, como solares, câmaras municipais, quartéis, estações de comboios, postos de correios ou até prisões. Documentou-se, no mínimo, seis grandes ocorrências de fogos postos em igrejas em Espanha, entre 1808 e 1936, ateados tanto por resistências de esquerda como por forças de direita. A uni-las esteve a religião católica, o que é espantoso e, sem dúvida, um dos casos mais estranhos da história ocidental contemporânea.»

(Adaptação de uma crónica publicada originalmente na revista LOUD! de Abril de 2015.)

sábado, 14 de maio de 2016

Mal por mal, antes Pombal

Discordo profundamente que a Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, continue a ser utilizada para celebrar vitórias futebolísticas, sobretudo, quando estas se fazem sob reforçada vigilância policial; circunstância que demonstra - caso prova fosse precisa - de que estes festejos não são de natureza pacífica (são de natureza catártica) e consistem num poderoso sinal de que a sociedade está doente, pois a catarse tem, precisamente, o propósito de purificar os órgãos, o aparelho, o sistema. Em suma: quando se está bem, não se procura a catarse - esta é apanágio de estados avançados de morbidez, de inveterada doença. Não tenho a certeza sobre se o futebol é uma doença, mas não duvido de que a exaltação febril, violenta, que provoca, é, de facto, uma doença. Infelizmente, quem não gosta de futebol, tem de submeter-se a situações aviltantes, por culpa daqueles que gostam; como, por exemplo, não poder circular livremente em determinadas zonas da sua cidade ou ter o desagradável dissabor de ver um monumento nobre ser dessacralizado por bandos de aficionados da catarse, munidos de vexatórios vexilos, garrafas de cerveja, latas de tintas em aerossol e porretes. Sinto um desprezo extraordinário pelo labroste catecismo de pacotilha que homogeneíza comportamentos sob os mesmos estribilhos e os mesmos gestos, como se somente em feitios desse jaez fosse legítimo comemorar a vitória de um clube futebolístico sobre o outro; como se os indivíduos se sentissem completos e satisfeitos por coreografarem dessa forma tão estandardizada e superficial - e a maioria sentir-se-á mesmo completa e satisfeita, o que é desanimador. Sempre que espreito as imagens televisivas das hordas em êxtase na Praça do Marquês de Pombal sinto-me romano a ver os bárbaros a invadir o fórum, pois, para mim, é do triunfo do barbarismo que se está a falar. Barbarismo sancionado e observado com paternalismo podre por servir de válvula de escape a milhares de indivíduos.

Ainda por cima, como já escrevi em outras ocasiões, o Marquês de Pombal odiava futebol e proibiu que fosse jogado aos dias de semana, de acordo com o Capítulo 32 - «Postura dos Que Jogão à Bolla Pela Semana» - das posturas públicas pombalinas, publicadas entre 1982 e 2000 pela Câmara Municipal de Oeiras nos três volumes intitulados Memorial Histórico ou Colecção de Memórias sobre Oeiras: quem fosse apanhado a jogar à bola num dia e numa altura que não fosse Domingo depois da missa matutina, ia preso e tinha de pagar quinhentos réis de multa. Mal por mal, antes Pombal, dá vontade de dizer.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"No Muro": um conto.


Este conto foi publicado originalmente em 2012 na colecção Biblioteca Digital do Diário de Notícias, numa iniciativa conjunta desse jornal e da Escritório Editora, que reuniu contos originais de vários escritores portugueses. Porque hoje me falaram nesse título, lembrei-me de publicá-lo aqui nos Cadernos de Daath para que possam relê-lo ou descobri-lo. Gosto muito de todos os contos que escrevi para a Escritório Editora (a minha obra preferida desse conjunto será, provavelmente, Réptil, que podem encontrar no livro Contos de Terror do Homem-Peixe, uma co-edição de 2007 com o MOTELx, o festival de cinema de terror de Lisboa) e este No Muro é, para mim, bastante especial. 


No Muro
A primeira vez que ele abriu um livro, descobriu uma nota disfarçada entre as folhas: crestada como uma flor prensada, parecia mais velha que o volume, porém, na sua cabeça, infinitamente mais valiosa. De pé, sozinho na biblioteca que o pai lhe legara, ele desfolhou o livro em busca de mais notas, mas não encontrou nenhuma; escolheu outro título e procurou novamente.
Nenhuma nota. Só palavras.
A biblioteca era enorme, homomérica, e, sob o ruído do desumidificador que estava sempre ligado, ele especulou sobre as estantes desquiciadas pelo peso e compreendeu o trabalho que teria para folhear todos os livros à cata de mais notas. Enfiou a mão no bolso e, para ganhar coragem, agarrou aquela que achara há uns instantes. Só havia uma maneira de realizar a tarefa sem enlouquecer: todos os dias subiria até à biblioteca e, durante uma hora, sentar-se-ia no chão diante de uma pilha de livros para manuseá-los à procura de dinheiro escondido. Seria como se tivesse um trabalho a meio-tempo – e, como tal, prometera a si próprio que nunca subiria à biblioteca aos fins-de-semana.
Como se fosse um faroleiro de outrora, que todas as manhãs oleava as lâmpadas, polia as lentes e soava, se fosse caso disso, o sinal de alerta de nevoeiro, ele subia diariamente à biblioteca, antes de ir para o escritório, e no decorrer de uma hora revistava com zelo duas ou três dezenas de livros. No final da primeira semana de pesquisa, achou um marcador, um bilhete de eléctrico, um pedaço rasgado de papel com um número de telefone apontado a esferográfica e um bilhete-postal por ortografar. Conheceu a caligrafia do pai no pedaço de papel rasgado, mas não reconheceu o número de telefone.
O cheiro dos livros era diferente do dos arquivos do escritório onde trabalhava: aquelas narrativas e aqueles ensaios, lidos de passagem nas matutinas montivagações, não tinham o mesmo cheiro dos recibos e das cópias dos contratos impressas em papel-químico. E, no entanto, tudo isso era feito de papel. Já matara imensos peixinhos-de-prata, asilados da luz entre os livros, mas no escritório, também empanturrado de papel, não havia nenhuns. Porquê? Estava a aprender que nem tudo o que era feito de papel era da mesma ordem – e ao folhear os livros, uns a seguir aos outros, aprendia mais coisas. Aprendia que os homens, todos feitos da mesma carne, tal como os livros e os recibos eram feitos do mesmo papel, não eram iguais: havia homens que eram mais como os livros e existiam outros homens que eram mais como os recibos e separavam-nos uma distância intransponível, uma trágica incomunicabilidade.
E ele estava a aprender a qual dos lados pertencia.
A biblioteca não tinha sido criada pelo pai, mas fora este que a reunira, logo havia nela um resquício de humanidade: uma bibliopagia antropodérmica. Poderia ele partilhar dela? Da humanidade do pai? Ter dentro de si uma faúlha de física quasi-divina ou, por outro lado, ser tão destituído desse dom quanto os livros estavam, aparentemente, desprovidos de notas?
Quantos mais investigava, mais compreendia o quão lhe faltava em cultura, em inteligência. Em poucos meses, a lembrança da nota iniciática, guardada numa gaveta da mesa-de-cabeceira, quase se esvaecera e o vero propósito das deslocações à biblioteca tinham, cada vez mais, a mira do estudo. Não consistia numa leitura atenta, antes a que um pássaro faria se conseguisse ler: saltitando de tomo em tomo, ora debicando mais num, ora menos em outro; todavia, desse modo, sem qualquer sistematização temática, autoral ou editorial, ele satisfazia em pleno a recém-adquirida curiosidade. Às vezes, lembrava-se de uns livros, vistos há muitos anos nas mãos do pai, mas ficava na dúvida se, com efeito, reparara neles ou não. Provavelmente, reconhecia-os apenas das suas observações peripatéticas diante das estantes. Ainda guardava tudo aquilo que ia encontrando entre as páginas e, certo dia, espantou-se ao achar um velhíssimo bilhete de identidade de um indivíduo que nunca tinha visto: o tempo tornara a foto num tasselo mal distinto, em que mancha e luz teimavam em não se aglutinar, logo criando abismos em que borrões brancos ofuscavam a fisionomia do fulano; também a assinatura desaparecera, à excepção de caracteres oxígonos que nem a graptomancia seria capaz de desvendar. Que relação existira entre o seu pai e aquele sujeito? Arrepiou-se-lhe a espinha com uma emoção terrível, regressada da infância, que sentia quando via os pais a falar com estranhos: de facto, eram estranhos para ele, porque para os pais eram amigos. Só através do contacto com os estranhos é que se percebe o quanto não se sabe tudo acerca daqueles que conhecemos – e, nesse sentido, todos os livros eram estranhos para ele: amigos do pai, nunca seriam, verdadeiramente, seus amigos. O que não impediu que ele se lhes afeiçoasse, como as meninas se afeiçoavam aos prometidos maritágios.
Tanto se apegou à colecção que, a dada altura, durante a noite, despertou com um pavor insuportável: e se os livros pegassem fogo? Ou fossem roubados? A grande sala no piso superior da casa não era um lugar suficientemente livre de perigo para a biblioteca, mas para onde poderia transferi-la? Com surpresa, a solução surgiu-lhe de repente: já formada, transparente, sem ter sido sequer metodizada – como ele gostava.
Construiria um muro.
Nesse dia, consultada a lista telefónica e contactados os serviços de que precisava, deu início à tarefa de carregar todos os livros para o jardim. Em frente do velho muro que o circulava, levantaria um novo, feito de tijolos ocos – e em cada tijolo guardaria um livro. Uma vez terminado, o muro inexpugnável conservaria a biblioteca de uma maneira mais segura que qualquer aposento. Evidentemente, não poderia voltar a olhar para os livros, mas, bem vistas as coisas, essa perspectiva agradava-lhe: pertencentes somente à memória, as palavras lidas ganhariam um cunho sagrado – sagrado, porque devotando-as ao enclausuramento, as sacralizaria.
Perdeu a noção do tempo gasto a erguer o muro, mas não seria improvável que tivesse passado todo o Verão no jardim a assentar tijolos, porque os dias murcharam – e não podia ser um efeito iatroquímico, criado pela fadiga em conjunção com os raios do Sol em relação à altura do muro, porque este era mais comprido que elevado. Subiu pela última vez à sala do andar superior e observou o muro desse nobre – e vazio – ponto de vista. A verdadeira biblioteca estava em baixo, no jardim, dentro do muro: palavras envoltas pelo barro.
No fundo, não era isso um homem?
Palavra enroupada pelo barro, feito, temporariamente, carne?
Esta retornaria ao pó após a morte, mas e a palavra? A palavra não retornaria a parte alguma, pois de nenhuma parte viera: ia. Ia e reverberava pelo cosmos – se não infinitamente, quase. E o bom de ser-se quase infinito é que, desse modo, é-se eterno.
Quando ele morreu, o muro manteve-se no jardim. E manteve-se depois do jardim ter desverdecido e, em redor, a casa ter-se deteriorado e perdido a beleza. O musgo mimava o muro e entre as frinchas dos tijolos também cresciam pequenas flores parasitas. Os miúdos agarravam-se a elas ao transpô-lo e, ao descer, arrancavam-nas.
Tinham-se habituado a fumar às escondidas, encostados ao muro; riam alto e divertiam-se a pintar personagens de banda desenhada nos tijolos. À noite, casais saltavam o muro para namorar, também às escondidas, encostados aos tijolos, recheados de livros, e neles riscavam os nomes e votos de cumplicidade. Do mesmo modo que, às escondidas, as milícias do partido autoritário, que, entretanto, conquistara o poder nas eleições mais recentes, gostavam de executar a tiro os indesejáveis contra o muro: em principal, os escritores, os pensadores.
Abatiam-nos e queimavam-lhes os livros.
Um livro ao ser incendiado dá sempre mais cinzas que as palavras que tem: monossílabos cinisíacos – forragem para cinorécticos. Em pouco tempo, deixou de haver livrarias, de haver bibliotecas – só havia columbários.
Aquela propriedade abandonada por todos e por tudo, escutara vozes de alegria, murmúrios de intimidade, estrompidos de armas e quase imperceptíveis gemidos de padecimento. No entanto, o musgo não se ia embora, nem as flores deixavam de brotar pelas frinchas entre os tijolos. O muro perdurava: picado por projécteis, salpicado de sangue, garatujado de personagens infantis e nomes riscados com canivetes e moedas. Sob essa crosta derivativa, estavam os livros invioláveis.
Uma emparedada e secreta biblioteca.
A única que existia.
Preciosa.
No muro.
Aquele era um lugar tremendo de transgressão, amor, insegurança e morte – mas era, talvez por isso, sagrado.
Um lugar que tinha como alma a Palavra.