quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Não farás lixo


À semelhança daquilo que acontece em outras cidades europeias, em Lisboa já está a ser aplicada a nova hierarquia de recolha semanal de lixo, segundo a qual cada condomínio é presenteado com dois recipientes para resíduos recicláveis de plástico e de papel (substitutos dos anteriores contentores de rua), enfileirados junto ao caixote de lixo que tinham nos seus rés-do-chão e que, a partir de agora, serve, em exclusivo, de recipiente de lixo doméstico não-reciclável.

Tenho tantas coisas para dizer sobre isto que, sinceramente, nem sei bem por onde começar. Para já, servirá a breve constatação de que quando falo em hierarquia de recolha semanal de lixo, é mesmo essa palavra que desejo empregar, pois subjacente à política europeia de gestão do desperdício doméstico (atenção que a palavra-chave desta designação oficial é desperdício: não é lixo, não é resíduos, mas desperdício, que carrega um mais pesado lastro "moralizante") encontra-se uma criação bem interessante, saída dos campos sempre férteis dos pseudoconhecimentos, chamada hierarquia de desperdícios: uma inovação da velha tríade de «reduzir, reutilizar, reciclar», que foi moda até há bem pouco tempo, e que tem como objectivo alcançar a utopia urbana de desperdício zero. Ou seja: a ideia é que os indivíduos façam menos lixo; neste caso, que não façam nenhum.
Considerando que o ser humano e a maioria dos animais não possuem poderes autotróficos, o que significa que não são capazes de produzir os seus próprios alimentos, tal como as plantas, será muito difícil não produzir, também, algum lixo.

De acordo com o cardápio desanimador da hierarquia de desperdícios, o lixo orgânico passa a ser recolhido pelos serviços camarários de limpeza somente às terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados. Por conseguinte, se tiverem amigos ou família para jantar num sábado à noite, somente na terça-feira seguinte é que poderão deitar fora o lixo produzido no fim de semana. De facto, isto é um problema, porque obriga os indivíduos a pensar num modo de conservar com segurança em casa o lixo orgânico durante quase três dias (porque a recolha de lixo é nocturna). Só na minha área de residência tenho encontrado caixotes a transbordar de lixo não-recolhido, caixotes cheios de lixo que estão "trancados" com as faixas adesivas aplicadas pelos serviços de fiscalização, por terem sido colocados na via pública em dias nos quais não está programada a recolha de lixo orgânico (corrijo, não-reciclável) e, o que é pior, sacos, saquinhos e lixo espalhados pelos passeios - situações que nunca ocorreram no período anterior à aplicação destas novas recolhas hierarquizadas. É óbvio: os indivíduos precisam de deitar fora o seu lixo todos os dias e as cozinhas e as despensas não foram desenhadas para ser lixeiras. Bem sei que em certos países do Norte da Europa não existe o hábito de cozinhar comida fresca todos os dias e que, nesses sítios, a maioria do lixo é composta por embalagens (de comida de micro-ondas, maioritariamente, mas também latas, frascos, pacotes de bolachas, etc.), logo a gestão hierárquica de desperdício será um pouco mais fácil de conseguir; porém, em países como Portugal, que tem hábitos domésticos e alimentares diferentes (ou vai tendo), a medida surge como artificial e impraticável (falando em países do Norte da Europa, a Dinamarca, por exemplo, o caso paradigmático que tantos países tentam emular, em tantos aspectos diferentes, está-se borrifando para esta história e incinera todos os seus resíduos - talvez por ter compreendido que os métodos recorrentes de reciclagem são muitíssimo onerosos, consomem mais energia e acabam por poluir mais do que aquilo que se pensa. Já agora, a reciclagem, esse cavaleiro-branco dos verdes de pacotilha, que transforma não-sei-quantas tampinhas de garrafas de plástico em vinte e cinco elefantes ou qualquer monstruosidade semelhante, figura bem baixo na pirâmide da hierarquia de desperdícios: o ápice é ocupado pela «prevenção», ou seja, por não se fazer lixo de todo).

O mais tragicómico é que a tal hierarquia de desperdícios e a teoria do desperdício zero (é mesmo a sua definição: teoria) são, somente, media darlings, filosofias vápidas embandeiradas em arco por quem acha que iniciativas como a Hora da Terra servem para resolver problemas de contaminação ambiental e de escassez de recursos energéticos, mas continua a trocar de smartphone ou de tablet a cada seis meses, contribuindo vigorosamente para a enchente muito insustentável de metais pesados que são enterrados clandestinamente em certos países africanos, onde envenenam lençóis de água e vão matar mais leões e elefantes que os caçadores parolos que as redes sociais adoram vilipendiar, ou, simplesmente, são deitados no Índico ou no Pacífico. Outra situação bem caricata é a de que o criador e principal pugnador desta fantochada da teoria do desperdício zero é um senhor que aparece pouquíssimo na televisão, chamado Paul Connett, autor do livro «A Solução do Desperdício Zero»: um obcecado por diversas teorias das conspirações, em principal a de que os governos esterilizam os indivíduos e lhes diminuem as capacidades mentais recorrendo ao flúor na água canalizada. Por conseguinte, alguém credível que merece toda a nossa atenção.

Algumas ligações interessantes para quem estiver, minimamente, preocupado em saber de que cabeças vêm determinadas ideias que nos afectam a todos:

- «Towards a circular economy: A zero waste programme for Europe»: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?qid=1415352499863&uri=CELEX:52014DC0398R%2801%29

- Site da organização Zero Waste International Alliance: http://zwia.org/

- Sobre Paul Connett no reputado site Quackwatch: http://www.quackwatch.org/11Ind/connett.html

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Anacusia


Wittgenstein escreveu que se um leão pudesse falar nós não seríamos capazes de entendê-lo. Sim, o dentista norte-americano também não entendeu o que lhe disse o leão que alvejou com uma flecha, atingiu de balas e cuja cabeça, em seguida, decepou. Sejam quais forem as circunstâncias, aqueles que, por uns instantes, se vêem com domínio sobre os outros têm sempre muita dificuldade em escutar e compreender aquilo que lhes dizem aqueles que sofrem. E, no entanto, tanto pelas vozes dos grandes como pelas dos pequenos, a linguagem do sofrimento é sempre igual, sempre as mesmas três plangentes toadas: tenho frio, tenho fome, não quero ficar sozinho.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Série «Ver BD» publicada no YouTube



Ver BD, excelente (sob todos os aspectos) série documental sobre banda desenhada portuguesa, que foi transmitida em 2007 pela RTP2, está a ser, episódio a episódio, publicada no YouTube. Pedro Vieira de Moura, especialista e crítico de banda desenhada, e Paulo Seabra, realizador, foram os criadores inspirados desta visão única sobre a banda desenhada portuguesa contemporânea, baseada em entrevistas diversas, em especial a onze autores.

Será muitíssimo interessante revê-la, passados quase dez anos após a estreia, e cotejar os cenários aí representados, pelas vozes dos entrevistados, com o panorama que hoje nos cerca, que é bem diferente. Eu sou um dos onze autores entrevistados e sinto-me, também, feliz por ser o autor da vinheta a preto-e-branco que serve de proscénio a todos os episódios: pertence à história Pessoas Comuns, do álbum homónimo que editei em 1999. (Já cá ando há dezasseis anos, a escrever BD e prosa: a gente, por vezes, esquece-se da passagem do tempo.) Em suma, revejam ou descubram Ver BD e, sobretudo, observem e ouçam com atenção.


Agradeço a vossa divulgação.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Vídeo de "Recordar os Esquecidos" com Fernando Pinto do Amaral e David Soares



Vídeo da sessão de Recordar os Esquecidos, que ocorreu no passado sábado, dia 25, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, com moderação de João Morales e Fernando Pinto do Amaral e comigo como convidados. O índice de títulos abordados é o seguinte:
1) «O Barão de Lavos» de Abel Botelho (00:00);
2) «A Velhice do Padre Eterno» de Guerra Junqueiro (17:35)
3) «Justine» de Lawrence Durrell (38:52);
4) «O Caos e a Noite» de Henry de Montherlant (51:00);
5) «A Mulher Pobre» de Léon Bloy (1:01:10)
6) «Todos os Contos e Novelas» de Joaquim Paço d'Arcos (1:18:43)
7) «Poesia Completa» de Anrique Paço d'Arcos (1:28:20)
8) «Diálogos de Roma» de Francisco d'Ollanda (1:36:52)
9) «Enciclopédia dos Mortos» de Danilo Kis (1:54:45)

Sobre Tolkien e fascismo



O escritor inglês Michael Moorcock voltou a exprimir numa entrevista uma opinião pouco simpática sobre o autor inglês J. R. R. Tolkien, desta vez chamando-lhe «criptofascista», porque, segundo Moorcock (transcrevo a citação no inglês original para evitar ambiguidades de tradução): «in Tolkien, everyone’s in their place and happy to be there. We go there and back, to where we started. There’s no escape, nothing will ever change and nobody will ever break out of this well-­ordered world».

Não sou um fã fervoroso da prosa de Tolkien, mas também não sou nenhum fã fervoroso da prosa de Moorcock, por isso o meu juízo sobre estas considerações dadas à estampa na entrevista não pende nem para um lado nem para o outro; somente acho desanimador que um escritor, como Moorcock, precise de andar constantemente na imprensa a caluniar outro -- que, ainda por cima, está morto e não pode defender-se daquilo que sobre ele é dito. Porém, aquilo que considero ainda mais desanimador é a utilização do rótulo de fascista (neste caso, criptofascista, ou seja "fascista de armário", digamos assim) para estigmatizar aquilo que se pensa ser o pensamento tradicionalista e conservador que pruma o texto tolkiano. Desanima-me, porque isso demostra 1) facilitismo e 2) um profundo desconhecimento sobre o que foi, de facto, o fascismo.

Dizer que o texto de Tolkien é fascista (ou criptofascista), porque apela ao conservadorismo é errado, pela mais simples razão de que o fascismo não foi um movimento conservador: foi, sim, um movimento revolucionário. A gente tem-se habituado a apelidar de revolucionários somente os movimentos de esquerda, mas, na verdade, tanto o fascismo, como o nacional-socialismo, foram movimentos revolucionários de direita. Foram revolucionários, porque aspiraram e tentaram aplicar um programa de reestruturação social e moral de índole inédita, com o objectivo de criar sociedades novas, desamarradas das grilhetas dos antigos regimes -- somente o quiseram fazer pela via da direita. Aliás, por essa razão foram combatidos tanto pela esquerda dita revolucionária, como pelos ultraconservadores.

A matriz intelectual do fascismo, concebida por nomes como Giovanni Gentile, entre outros, que eram estudantes da obra de Karl Marx (o próprio Mussolini foi comunista antes de tornar-se Duce), olha para o futuro, para um novo tipo de homem, para mudanças violentas no tecido social. Por conseguinte, dizer que um criptofascista coloca nos seus livros o desejo de que fique tudo na mesma é um disparate. Tal como existe nacionalismo de esquerda, também existem movimentos revolucionários de direita.

Assim, chamar fascista ou criptofascista a Tolkien não só não faz sentido à luz da obra que ele deixou, como sequer à luz da sua vida, que em nada se relacionou com percursos políticos fascistas e quejandos.

Sinceramente, não sei qual era a inclinação política de Tolkien -- e nem estou interessado em saber, confesso. Não escolho os livros e os autores que quero ler em função das suas inclinações ou inscrições políticas: escolho-os por escreverem bem e terem coisas interessantes para dizer. No entanto, sei que Tolkien não foi fascista.

Já era tempo de se deixar de usar o nome "fascista" a torto e a direito, sempre se quer caluniar ou assassinar o carácter de alguém de quem se desgosta, porque isso, no fundo, é prestar um péssimo serviço à história: desvaloriza o peso da palavra e contribui para branquear o verdadeiro fascismo, pois se velhinhos simpáticos como Tolkien são chamados de fascistas (corrijo, de criptofascistas) a malta mais nova ainda poderá pensar que ser fascista é uma coisa fixe. Só me lembro daquilo que disse o João Franco, já meio-velhote e retirado para o seu auto-exílio agricultural, quando descobriu que os netos andavam fascinados pelos escritos e ideário do fascismo italiano: «que se passa de errado com esta juventude? Agora são todos miguelistas?»

Vale a pena, pois, pensar com sobriedade no modo como nomes e epítetos são tão facilmente atirados e desvirtuados.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Canivete-suíço digital


O smartphone actual é, bem avaliadas as coisas, uma espécie de reinvenção digital do canivete-suíço: uma panóplia portátil de um florilégio de funções (entre outras, relógio, calculadora, bloco de notas, câmara fotográfica, rádio, vídeo, navegador de Internet, gravador de voz, mapa, e, claro, telefone), reunidas num único aparelho muitíssimo transportável, cujas dimensões o tornam afectuoso e intimíssimo -- contudo, a palavra "funções" deve ser considerada com cristalina prioridade; ao contrário de um canivete-suíço, em toda a glória victorinoxidável, não existem objectos num smartphone. Apenas existem funções desincorporadas dos objectos (como fantasmas capturados por uma armadilha de muões).

No que concerne às morfologias física e digital, o smartphone (designação criada em meados da década de noventa do século passado), na sua, já arquetípica, encarnação desenhada pelo quimérico Jonathan Ive, vai ao encontro da comum calculadora: em especial, mimetiza a aparência da calculadora desenhada por Dieter Rams para a outrora teutónica e titânica Braun, uma pequena maravilha de elegância e depuração. É provável que essa ausência de objectos num smartphone nunca passe, sequer, pelas cabeças dos utilizadores; no entanto, quando se pensa nela, curiosas questões ontológicas medram na mente.

Por exemplo: até que ponto são utilizáveis essas funções-fantasmas?

Pense-se no tradicional canivete-suíço: serão os seus objectos, ocultos em estreitas bainhas (que nem pinturas escondidas em cortes dianteiros de livros, relevadas quando se repelam as páginas) -- frágeis ersatzs miniaturizados de ferramentas úteis, como tesouras, chave de fendas, saca-rolhas, abre-latas, corta-unhas, alicate, palitos e talheres --, verdadeiramente úteis? Ou, por outro ponto de vista, serão uma selecta sincrética que, somente, tem como objectivo compor um objecto singular para fetichistas de MacGyver? Conservem esta concepção enquanto observam as funções desincorporadas que um smartphone possui e a problemática adquire uma perspectiva totalmente nova: esses aparelhos estão cheios de funções que nunca são usadas -- ou usadas uma ou duas vezes. Ninguém, realmente, usa essas funções para realizar trabalhos sérios: elas são, como os objectos algo caricaturais de um canivete-suíço, um conjunto de características curiosas.

Funções desincorporadas dão-me pistas importantes para pensar na demanda pela inteligência artificial: é absurdo achar que um programa informático venha a reunir as condições necessárias para desenvolver uma inteligência de tipo humano sem que o seu hardware seja humanizado primeiro. O temporizador do smartphone informa-nos sobre as horas, é muito certo, mas não é nenhum relógio: é, isso sim, a função desincorporada de um relógio. Logo, não será possível criar uma mente humana artificial, sem criar-se, primeiro, um invólucro antropomórfico para a albergar, porque a mente humana é o somatório do cérebro e do corpo humanos -- se fosse possível transplantar-se com sucesso um determinado cérebro para um corpo diferente, em pouco tempo esse órgão, em parceria com o novo corpo, reestruturaria uma nova mente e passaria a pensar de uma maneira diferente. O cérebro evoluiu para pensar, tal como os pulmões evoluíram para oxigenar o sangue, mas não pensa sozinho. No limite, poderá imitar-se a função dessa inteligência, mas, obviamente, ela nunca será real. Apenas um palito de canivete-suíço.

Não deixará de ser anacrónirónico que, daqui a umas duas ou três gerações, nenhum indivíduo terá conhecimento algum dos objectos analógicos para os quais as funções desincorporadas dos seus aparelhos digitais remetem: habituámo-nos a ver objectos obsoletos nos museus, mas as nossas casas já são museus.

Vós sois livres de pensar se isso é uma coisa boa ou uma coisa má.

(Foto do meu canivete-suíço, tirada com a função de câmara fotográfica do meu smartphone e dulcificada na aplicação Instagram.)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

"Recordar os Esquecidos": sessão de Julho


No próximo sábado, dia 25 de Julho, às 18H00, na livraria Almedina do centro comercial Atrium Saldanha, ocorrerá mais uma sessão do ciclo Recordar os Esquecidos, criado e moderado por João Morales.
Nestas tertúlias literárias, dois convidados recordam e resgatam livros e autores que, por diversos motivos, foram algo esquecidos ou passaram um pouco abaixo do radar dos leitores nestes tempos desanimadores de puro corso literário. Assim, para recordar alguns esquecidos muito especiais, nesta sessão de Julho, os convidados serão Fernando Pinto do Amaral e eu. Divulguem e apareçam: obrigado.

Os dois Nicolaus


Hoje, 10 de Julho, assinala-se a coincidência de duas efemérides importantes, relacionadas com dois Nicolaus: Nicolau Coelho e Nikola Tesla.

O primeiro Nicolau (1460-1504), comandante da caravela Bérrio, da primeira armada de Vasco da Gama, chegou a Lisboa no dia 10 de Julho de 1499, vindo da Índia, com as novas da descoberta da Rota do Cabo: evento que mudaria totalmente a morfologia comercial e política da Europa quinhentista, transformando um mundo paroquial, ainda centrado em mecânicas adjacentes ao Mar Mediterrâneo, num mundo global, virado, em definitivo, para o Oceano Atlântico.

O segundo Nicolau (1856-1943), inventor sérvio que nasceu a 10 de Julho, criou a corrente eléctrica alternada (polifásica), lavrando o terreno para o nascimento do século XX tecnológico. De certa forma, ambos ajudaram a ligar partes desavindas do mundo -- e Tesla chegou, ainda no seu tempo, a pensar na possibilidade de desenvolver de modo prático aparelhos audiovisuais portáteis de comunicações sem fios (os smartphones contemporâneos).

Ainda existirão indivíduos capazes de cobrir o Sol com as envergaduras das suas silhuetas: temos é de deixar de olhar para o chão para conseguirmos vê-las.
 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Novo romance de Filipe Homem Fonseca


Filipe Homem Fonseca (argumentista, músico e realizador) irá lançar o seu novo romance, intitulado Há Sempre Tempo Para Mais Nada (Quetzal, 2015), no próximo dia 7 de Julho (terça-feira), às 21H30, no bar A Barraca do Teatro Cinearte (Largo de Santos, nº2, em Lisboa). A apresentação será feita por Nuno Miguel Guedes e o evento contará com leituras de trechos do romance por Maria Rueff e Miguel Martins. Divulguem e apareçam.

Filipe Homem Fonseca assinando exemplares do seu romance anterior

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Verão pesado com a LOUD! de Julho


O número de Julho da revista LOUD! já está disponível nas bancas, para tornar ainda mais quente o início do Verão. Nesta edição, há Consultor Funerário, para saciar a fomeca que a ausência do mês passado provocou: assim, a regularidade bimestral fica com outra ordem; ou seja, para o mês que vem não há, mas no seguinte haverá novamente.

Além disso, vale a pena ler as entrevistas de Randy Blythe, que, aparentemente, foi ao Inferno e voltou (escreveu um livro de 500 páginas sobre o caso, à la Expresso da Meia-Noite), e de Dani Filth, o insubstituível vocalista de Cradle of Filth, banda na qual todos são substituíveis, a dada altura - dá vontade de rir?, dá, mas que a banda é das melhores, é. E a distância que o tempo cria entre os discos que foram mais subvalorizados ou incompreendidos apenas reforça essa percepção: urge regressar a Cradle of Filth e reenquadrá-los/apreciá-los sob essa luz. Eu, confesso, gosto bastante e tenho muitos discos (já editaram onze) para descobrir, porque há imensos que nunca ouvi.

De facto, às vezes é útil colocar as coisas nesta perspectiva: não passar cartão àquilo que parece fútil e dar tempo ao tempo, porque se for bom e interessante, continuará aqui para ser apreciado a dada altura. Tantas vezes se perde tempo com tretas que não interessam nada, laudadas como se fossem o melhor presente de Deus à humanidade, e que, passados uns mesitos ou um ano, desaparecem tão suavemente quando alardeamente apareceram, que nem monstros de Frankenstein criados pelas vozearias do marketing e da propaganda.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Sobre a (Des)União Europeia


Pense-se na câmara fotográfica digital, que funciona de modo totalmente diferente da analógica. Com efeito, nada daquilo que faz uma câmara fotográfica tradicional ser uma câmara fotográfica tradicional se relaciona com o vero funcionamento de uma câmara fotográfica digital. Num determinado aspecto, as possibilidades deixadas em aberto pela miniaturização de componentes técnicos digitais, mais similares a bairros citadinos ligados por estradas e travessas do que às engrenagens mecânicas dos anteriores modelos exclusivamente manuais, que tinham tudo a ver com a lógica de organicidade fabril, na qual diversos componentes isolados concorriam, em harmonia, para criar um corpo organizado - tanto no sentido de coerente, como no de provido de órgãos - não libertaram o design industrial das amarras do funcionalismo: ou seja, se uma câmara fotográfica digital funciona de um modo muito diferente de uma analógica, então a sua forma não precisaria de mimetizar a desta para justificar a sua existência ou, sequer, para funcionar. Uma câmara fotográfica digital poderia ser-nos apresentada segundo uma lógica de desenho e de utilização totalmente inédita; todavia, as expectativas do público, em relação à imagem arquetípica que uma câmara fotográfica deve ter para ser considerada, de facto, uma câmara fotográfica, tolhe, liminarmente, quaisquer audácias prototípicas com que um aparelho dessa natureza poderia consubstanciar-se nas oficinas das grandes marcas. Uma câmara fotográfica digital comum, daquelas que podemos comprar em qualquer loja de centro comercial ou hipermercado, ainda arreigada ao fenótipo das analógicas, sem, verdadeiramente, de precisá-lo, é, assim, um objecto de transição - sendo que "transição", neste sentido específico, não envolve nenhum real comprometimento com uma hipotética ligação entre um pretérito estado analógico e uma actual maneira de ser digital, porque essa ligação não existe, de todo. O que existe é mero disfarce. Um disfarce conveniente às vendas, porque o público que se dirige às lojas para comprar uma câmara fotográfica, seja digital ou analógica, não quer, em suma, ser confrontado com surpresas ou ambiguidades.

Será, pois, útil pensar nesta União Europeia, sobre a qual vemos e ouvimos na comunicação social, como uma entidade equivalente: tal como a câmara fotográfica digital somente se adapta por mimetismo à aparência da câmara fotográfica analógica, para ir ao encontro das expectativas do público, também esta União Europeia pouquíssimo ou nada terá a ver com aquela que existia há umas décadas, dando a entender que somente vai imitando, de maneira postiça, a aparência desta para ser capaz de manter-se operante diante do público. Os seus componentes internos, a sua fisiologia de funcionamento já mudou - como mudaram umas câmaras fotográficas para as outras - e nós, pobres cidadãos europeus, em certa medida iludidos pela carapaça benfazeja das fronteiras abertas e de todos os autênticos progressos do passado recente, não nos apercebemos disso - a tempo útil, pelo menos.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).

Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.

sábado, 27 de junho de 2015

Sobre a queima do gato em Mourão

 
Os mouranenses que com exultação participaram na sua tradicional queima do gato, no decurso de uns divertimentos regionais em celebração do feriado de São João, não serão, certamente, facínoras sanguinários e muito menos psicopatas: encontram-se é empapados numa mundividência primitiva, muitíssimo liminar entre os códigos da bruxaria e da religiosidade mais sincréticas e desregradas, segundo a qual um gato não é um ser vivo consciente, com uma vida mental sofisticada, mas, somente, um autómato movido por instinto; tal como, até há poucos anos, se consideravam as crianças e as mulheres.

Folguedos brutais, de natureza idêntica ou análoga à deste, foram – e ainda são – comuns em toda a Europa: o jogo cruel de atiçar animais domésticos e selvagens uns contra os outros nas praças das vilas; de pô-los a lutar com homens armados ou desarmados em picadeiros improvisados; ou, simplesmente, a tortura espectacular, encenada em contextos de catarse social, deliciaram os nossos antepassados, rurais e cosmopolitas – satisfações das quais não esteve ausente uma forma diferente de estabelecer a fronteira que aparta o humano do não-humano. Com efeito, aquilo que é considerado não-humano pode ser tratado desumanamente; seja um animal ou uma pessoa (como os trágicos genocídios do século passado vieram, cabalmente, demonstrar). No final do século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham lançou o argumento seminal sobre o qual foi edificado o movimento oitocentista de promoção dos direitos dos animais, que sustentou no seu seio elementos tão díspares e com ideologias tão contraditórias quanto humanitaristas, utilitaristas e vegetarianos; além das disparidades de objectivos nutridos por cada grupo, deles nos chegou a noção de que os animais, afinal de contas, não são coisas. Na verdade, o ser humano, criatura muito recente do ponto de vista evolutivo, partilha o mesmo tipo de sistema nervoso que a maioria das existentes espécies animais.

Hoje, sabe-se que entre gato e homem existem supinas similitudes neurológicas, ao nível daquelas que estreitam a distância entre nós e alguns dos grandes símios, tanto na geografia cerebral, como no modo como o córtex, a camada superior do cérebro, se encontra desenvolvido. Os gatos são criaturas sensíveis e imaginativas: sonham muito e criam laços afectivos fortíssimos. No entanto, os ailurófobos (ailurofobia é o nome da fobia ou do terror a gatos, com base em aielouros, o nome grego para gato e que significa cauda abanicante) sempre foram mais militantes que os ailurófilos: queimar gatos vivos nas praças de vilas e cidades foi, até recentemente, um divertimento de massas, no qual participava toda a gente. Os detalhes mudam, de acordo com as localidades, mas tudo se resumia à acção de deitar directamente gatos vivos, fechados em sacos ou cestos, para uma grande fogueira (como o rei Luís XIV, de França, preferia) ou, então, na criação de situações em que eles caíssem sozinhos em cima dela (como no caso da queima do gato da localidade transmontana de Mourão). Acrescente-se que massacrar gatos à cacetada foi um passatempo de luxo para animar a corte portuguesa nos intervalos das longas touradas que, outrora, duravam horas a fio. Todas estas práticas, que consideramos bárbaras, tinham em comum a ideia de que era aceitável lidar de modo desumano com o não-humano.

A sociedade ocidental – é preciso, de facto, sublinhar que ela tem sido pioneira neste aspecto (e noutros também importantes) – tem vindo, num ritmo lento, mas seguro, a incluir um número cada vez maior de não-humanos na esfera de direitos que até há pouco tempo protegia, em exclusivo, alguns humanos, aleitando uma cultura de respeito e de valorização de vidas, criminalizando práticas consideradas naturais há uma ou duas gerações (como neste atávico caso mouranense, que desrespeita a legislação sobre maus-tratos a animais domésticos que entrou em vigor a 1 de Outubro de 2014). Haverá sempre indivíduos para quem a violência e o sadismo serão aceitáveis, mas, globalmente, aquilo que empurra as massas (e as elites) para o entretenimento atroz é a prosaica ignorância. Permanecer ofuscado pelo falso entendimento de que os animais são pouco mais do que objectos (em paralelo, já se acreditou, até, que as mulheres não tinham almas, por exemplo), concepção ainda fortalecida pela crença de que os todos os frutos da terra, diga-se assim, são dados por Deus ao homem para que ele disponha deles do modo que achar mais conveniente, é um puro exercício de anacronismo que não tem mais lugar numa sociedade esclarecida. No meu ponto de vista, o somatório é claro: entretenimentos que tenham como móbil a tortura directa ou outro carácter caviloso de sofrimentos físicos e psicológicos de animais e pessoas são crimes inaceitáveis. Assim, sujeitar um gato à clausura num pote de barro e a uma queda potencialmente fatal provocada por um ardil incendiário é um crime inaceitável.

Em 2001, um grupo de arqueólogos do Museu de História Natural de Paris encontrou na aldeia neolítica de Shillourokambos, na ilha de Chipre, um túmulo datado de 7500 a. C.: lá dentro, descobriram as ossadas intactas de um esqueleto humano, acompanhadas pelas ossadas intactas de um esqueleto de um gato. (Este, não deveria ter, ainda, um ano de idade quando foi enterrado.) Avaliando o espólio que rodeia o esqueleto humano pode especular-se com propriedade que seria um chefe ou, no mínimo, um indivíduo muitíssimo importante: nesse feitio, quando morreu, foi enterrado com o seu gato. É, na verdade, a mais antiga inumação conhecida de um humano com o seu gato de estimação. Obviamente, os serventes mataram o gato para enterrá-lo com o amo, mas, ainda assim, o que esse acto revela é a ideia de que aquele dono seria mais feliz no além-túmulo se tivesse a companhia do seu animal – e que este, presume-se, também seria mais feliz se fosse acompanhar o dono, em vez de ficar sozinho. Nas fímbrias pré-históricas da antecâmara do nosso mundo vê-se aqui o nascimento da consciência de que, mais do que ser uma mascote, aquele gato era parte da família. E, em suma, é desse modo que a maioria dos donos actuais vêem os seus gatos: como sendo parte das suas famílias. Fará sentido de outra maneira?
Se nos tempos arredados do Neolítico já havia quem se comportava assim, é provável que haja esperança para os infelizes campónios contemporâneos de Mourão, no sentido de progredirem a sua visão das coisas e perceber que é mais enriquecedor brincar com um gato do que queimá-lo.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Serradura e Barro: ou, Os Materiais e as Ideias


É tentador colacionar os polímates oitocentistas William Morris e Rafael Bordalo Pinheiro: nascidos no eixo do século XIX, num momento em que os remanescentes resquícios do Antigo Regime estavam a ser soprados para o passado por novos ventos - malquistos para uns, benfazejos para outros -, ambos observavam com desconfiança e desânimo a emergência da industrialização e a conjuntura capitalista em crescimento, ambos dedicaram os últimos anos de vida a produzir arte para as massas e, claro!, ambos adoravam gatos - o design delicado do lápis de Morris e a contundente caricatura criada pelo buril de Bordalo encontram um pouco esperável equilíbrio híbrido num discreto desenho feito a carvão por Morris, que mostra um gato sonolento, diante de uma toca de rato aberta num rodapé: o perfil felídeo fascina-nos com um feitio horaciano de risum teneatis que, em regra, está ausente na restante obra morrisiana, mas que consiste na mot d'ordre de Bordalo.

Não obstante, Morris rejeitou o método de produção em massa a que o desenvolvimento industrial deu o ensejo, preferindo manufacturar peças decorativas e de mobiliário segundo métodos antigos, em esquadria com desenhos e materiais tradicionais. Por sua escala, Bordalo adoptou à medida do seu projecto de neocerâmica caldense as fórmulas fabris, subordinando-as, para o efeito, à estética e discurso artesanais, mostrando que o ritmo de repetição e montagem que viria a assinalar, ainda no seu tempo, o arranque veloz do chamado taylorismo - epíteto que, mais tarde, Gramsci transmutaria em fordismo - não significava, em regra, a dissolução da identidade, subjacente aos artigos de consumo desenhados de modo "autoral" - no fundo, descobria-se que arte e design são, bem vistas as coisas, palavras com significados diferentes. Assim, tanto Morris, como Bordalo foram, em simultâneo, artistas e designers: ou seja, estetas por mérito próprio e, ainda, criadores conformes ao imperativo industrial; ambos sequestraram a doxa do domínio da produção em massa para os paraísos feéricos das suas imaginações. O projecto de Bordalo, contudo, intersecciona-se em maior envergadura com o de Christopher Dresser, outro contemporâneo. Um dos designers industriais mais influentes, tanto na Europa, como, depois, no Japão, Dresser deslumbrara-se, com dezassete anos de idade, no ventre do Crystal Palace, qual Jonas dentro do estômago da baleia, com a rutilância da grande exposição industrial de 1851 e essa experiência sensacional alentou-o a criar peças artísticas para a classe média, concebendo objectos de funcionalismo análogo aos de Morris e Bordalo (bibelôs, baixelas, papéis de parede, mesas e cadeiras, etc.), pese a enorme diferença estética: onde Morris é pastoril e Bordalo é popular, Dresser é quase pós-funcionalista, em sentido contrário, portanto, ao gosto neo-rococó que marcou os últimos lustres de oitocentos.

Avançando para o gonzo oleado a sangue e petróleo do século XX, foi, também, na encruzilhada entre o maquinal e o manual que uma descoberta baseada nos resíduos da marcenaria e da olaria viria a beneficiar os bichanos de todo o mundo - algo que, sem dúvida, faria a felicidade de Morris e Bordalo, eles que foram, às suas maneiras, marceneiro e ceramista.
Em Janeiro de 1948, na vila de Cassopolis, no estado norte-americano do Michigan, a dona de casa Kay Draper descobriu que a temperatura hibernal do início do ano inutilizara a areia usada para a caixinha do seu gato; nesse momento, percebeu que tinha de encontrar uma substância alternativa. Dessa sorte, experimentou serradura, adquirida numa estância da vizinhança, mas não ficou satisfeita com o resultado. Em seguida, o filho do dono da estância, Edward Lowe, com vinte sete anos de idade, persuadiu Draper a experimentar outro material, que ele tinha em abundância: uma espécie de fragmentos secos de barro, chamado Terra de Fuller, que estava a ser paulatinamente aplicado como sendo um absorvente industrial que substituía com segurança a serradura (a serradura é inflamável e o seu armazenamento nas fábricas era arriscado); Lowe tentara, sem êxito, vender Terra de Fuller a criadores de galinhas, como material ignífugo de nidificação - foi, consequentemente, por culpa do stock encalhado resultante desse fracasso que a senhora Draper pôde levar uma amostra para testar em casa, na caixinha do gato. A conclusão, adivinha-se, é histórica: nos primeiros dez sacos de Terra de Fuller que embalou para ir bater às portas das lojas de artigos para animais, Lowe escreveu com um lápis de cera o nome improvisado de Kitty Litter.

A invenção do Kitty Litter operou uma revolução no modo como os indivíduos se relacionavam com os gatos: até à data, pouquíssimos lares possuíam as chamadas caixinhas de areia e era comum os gatos fazerem as necessidades no exterior - o gato era, por esse motivo, uma criatura semi-selvagem, que ainda passava muito tempo fora de casa. Nos meses de Inverno, algumas famílias usavam tabuleiros ou caixas com terra retirada da rua ou areia para que os gatos não tivessem de sair com chuva e neve. Disseminado o uso do Kitty Litter, foi possível manter os gatos dentro de casa por períodos mais longos, contribuindo para a sua, cada vez maior, longevidade - e popularidade enquanto animal de estimação.
A respeito dessa popularidade, os cientistas começaram a estudar os gatos com mais atenção, compreendendo como, de facto, estes se comportavam e descobrindo aquilo que mais necessitavam para ser felizes. Nessa sequência, ocorreu outra revolução que contribuiu fulgurantemente para esse desiderato: a invenção da comida industrial exclusivamente desenvolvida para gatos, a partir da década de 70 do século passado. Descobrindo que os gatos precisavam de uma dieta diferente da dos cães e, sobretudo, de componentes vitamínicos e minerais específicos, muito difíceis de administrar em regimes feitos de comida confeccionada propositadamente em casa ou de restos de qualidade nem sempre ideal (que eram, até à data, os mais frequentes), a metodologia industrial de produção vilipendiada por Morris, tolerada por Bordalo e abraçada por Dresser estabeleceu o início do melhor tempo que os seus adorados gatos estão a viver. Foi, pois, a fortuita invenção artesanal/industrial do Kitty Litter, improvisado com resíduos de origem cerâmica, que possibilitou esse progresso - hoje, melhorado com a descoberta da bentonite, uma qualidade ainda mais absorvente de barro, que se aglomera compactamente em contacto com líquidos.

No cruzamento da serradura e do barro, da marcenaria de Morris e da cerâmica de Bordalo, co-tangente ao interstício do artesanal com o industrial, a alquímica amálgama do engenho e do tempo precisa, sempre, de materiais e de ideias. Quando se vive num tempo em que há ideias, mas faltam materiais, tudo parece estagnado, mas pior é viver num tempo em que até existem alguns materiais, mas faltam ideias. Quando há ideias, do pouco se faz muito; por outro lado, quando não há ideias, pode ter-se cofres cheios, que isso não levará a lado nenhum.

domingo, 14 de junho de 2015

"Gentleman" de André Oliveira e Ricardo Reis


Gentleman de André Oliveira e Ricardo Reis (Ave Rara, 2015), é revigorantemente bom: adorei! Uma série a acompanhar com toda a atenção: delirante e pertinente.

Podem encontrar Gentleman nas livrarias especializadas em BD (Kingpin Books, El Pep, por exemplo) ou encomendar directamente pelo email: andrealexandreoliveira@gmail.com

Vejam algumas pranchas de Gentleman nesta ligação.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Nomeações para Troféus Central Comics 2015


O meu livro de BD Sepulturas dos Pais, escrito por mim e desenhado por André Coelho, e a minha BD curta O Homem-Javali Vai Casar; ou Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa (publicada na antologia Crumbs) estão nomeados para três troféus de BD Central Comics: respectivamente, Melhor Argumento e Melhor Desenho ("Sepulturas dos Pais") e Melhor História Curta (O Homem-Javali Vai Casar; ou Leng Tch'e). Os Troféus Central Comics são prémios votados pelos leitores. Sepulturas dos Pais e Crumbs, ambas de 2014, são edições Kingpin Books.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Autógrafos na 85ª Feira do Livro de Lisboa


Informo que no sábado dia 13 de Junho, das 16H00 às 18H00, estarei na 85ª Feira do Livro de Lisboa: encontrar-me-ão junto do stand da Europress, distribuidora da Kingpin Books (stand B11, conforme poderão ver no mapa publicado abaixo). Comigo também estarão os autores de BD André Oliveira e André Pereira.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Teaser de «O Poema Morre»


Vinheta do meu próximo livro de banda desenhada O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira (www.facebook.com/cirandara). Consiste numa reflexão sobre a guerra e os seus efeitos no indivíduo e na sociedade, partindo do ponto de vista de um poeta maldito por todos os regimes políticos que vai atravessando. A guerra vai eclodir lá para os últimos meses do ano, portanto: poderão ir escavando os abrigos, porque a saraivada vai ser a mais violenta possível.

Sobre liberdade e sobre silêncio


1) A liberdade é uma dimensão, medida criptogenésica pela qual, com maior ou menor incorrecção, nos referenciamos: é o espaço que existe entre heurística e hermenêutica; espécie rarefacta de partícula, visível que nem poeira entre luz desenfeixada por frinchas de janelas, mas, rapidamente, esvaecida. Dessa sorte, idoneísta, não pode ser definida como definitiva - somente deixada em aberto.


2) Compreendo a razão pela qual os anacoretas se entregavam à vida contemplativa, despojando-se de todas as superfluidades, eremicolando-se em ermos eremitágios: à medida que se vai envelhecendo, reduz-se o número de coisas de que se gosta, restando, somente, uma paixão, uma adesão tremenda a uma única fonte maior de luz, ofuscante das menoridades. Assim, tornando-se ruído o remanescente, procura-se o silêncio: o silêncio geográfico e psicogeográfico. Nenhum deserto será tão árido e nenhum despovoado tão vazio se o indivíduo que os atravessa estiver cheio.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sobre Gigantes Perdidos & Achados

 Talvez a melhor forma de iniciar esta breve (espero) publicação seja admitir que tenho uma tolerância incomum para com matérias bizarras e, à falta de palavra melhor, estúpidas; e que essa faculdade de, digamos de modo educado, invocar indulgência para com o estrambótico é, ao fim e ao cabo, uma ferramenta útil para os meus estudos e observações do lado mais desengonçado da experiência humana: é, de facto, difícil investigar e examinar, com rigor, certas matérias sem possuir estômago forte para engolir determinadas concepções arvoradas pelos pugnadores dos pseudoconhecimentos. No entanto, existem ideias marginais pertencentes a esses universos que consistem em verdadeiros testes de resistência à minha transigência, doutrinas e fantasias tão disparatadas -- e aborrecidas, o que, às vezes, é ainda pior -- que, com toda a sinceridade, escapa-me totalmente a força atractiva com a qual elas entusiasmam outros indivíduos: uma dessas ideias insensatas é a da pseudo-existência de antepassados gigantescos da espécie humana, um tropo familiar da pseudo-história e da pseudo-arqueologia, frequente em inúmeras teorias das conspirações.

Na Internet existirão milhares de fotomontagens, umas mais bem feitas que outras, sobre falsas escavações arqueológicas, nas quais pode observar-se técnicos minúsculos, ainda com as pás nas mãos, junto de ossadas inteiras de gigantes, desenterradas em perfeito estado de conservação, que nem conjuntos de porcelana Vista Alegre acabados de cobrir de terra. Com efeito, não compreendo, de todo, o fascínio sentido pelo gigantes. A maioria do público não terá um interesse mais profundo por esta ideia e, somente, lhe achará graça ou sentir-se-á entretida, mas, além dessa epiderme, os gigantes são um tema atractivo para muitos campos de pseudoconhecimentos: crentes na verdade literal dos textos bíblicos; evemeristas; crentes nas teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; autores mais ou menos racistas que têm como objectivo transmitir ao grande público a noção de que as culturas autóctones de certos locais, como a América do Norte, por exemplo, seriam incapazes de construir determinados monumentos megalíticos -- o catálogo de admiradores desta ideia, para os mais variados fins, é, na verdade, muito extenso.

Neste momento, o Canal História capitaliza o interesse pelos gigantes numa série televisiva intitulada Gigantes Perdidos: ao longo de seis episódios, o espectador é convidado a acompanhar as desventuras de Jim e Bill Vieira, dois irmãos, pedreiros, que debalde andam pela América do Norte à procura de vestígios e provas da existência dos gigantes de outrora. Quando escrevi que eles são pedreiros, não enfatizei de modo preconceituoso (para os pedreiros) a canhestrice destes pseudo-investigadores: eles são pedreiros de profissão -- são trolhas. Aparentemente, a série apoia-se no facto deles serem pedreiros de profissão para os apresentar como examinadores credíveis de monumentos megalíticos: são opiniões de especialista -- e, pelo que vi, os irmãos Vieira compõem sempre um ar espaventado pelo facto dos monumentos que vão examinando terem sido construídos sem argamassa. (Só gigantes poderiam ter sido capazes dessa heresia.)

É, em todos os sentidos, um paupérrimo espectáculo. É desanimador ver os Vieira armados em arqueólogos, saltitando de local em local, que nem gralhas em busca de ossos brilhantes de gigantes. É puro lixo televisivo, mas, lá está!, haverá quem encontre nestas personagens de pacotilha os seus campeões de charneira contra a grande conspiração engendrada pela academia para suprimir ao público as provas da existência de gigantes. O facto de, logo no primeiro episódio da série, os Vieira acharem que uma rede labiríntica de túneis com pouco mais de sessenta centímetros de altura ser um local sagrado para seres com mais de três metros de altura não consistiu em nenhum obstáculo para as suas indigentes explorações. É tão mau que nem sequer dá vontade de rir.

De um ponto de vista fisiológico, a existência de homens gigantes, como são apresentados pelos cultores dessa ideia -- ou seja, um esqueleto de proporções comuns, mas com um tamanho muito superior ao normal --, é impossível. Em primeiro lugar, os organismos maiores perdem calor lentamente (é por esse motivo que os povos do hemisfério norte, em regra, são mais altos e mais corpulentos que os do hemisfério sul: é uma defesa que a selecção natural encontrou para se conservarem quentes em climas frios), o que implicaria que um hipotético indivíduo gigante com, digamos, três ou quatro metros de altura, iria sobreaquecer e entrar rapidamente em colapso: dando de barato o facto do seu esqueleto gigante, proporcional ao de um tamanho normal, ser capaz de suportar o peso de um corpo desmesurado, sem que os ossos das pernas fossem muito mais espessos (como os dos elefantes) e, claro, que o coração não fosse, também, maior que o esperado, de modo a bombear com velocidade o sangue para todas as partes do organismo. As girafas, por exemplo, não têm corações assim tão grandes, quando comparados com o tamanho dos corpos, mas contornam esse problema possuindo uma tensão arterial altíssima (quase três vezes mais alta que a nossa) e uma pulsação elevada. Um hipotético gigante humano que quisesse manter um truque dessa natureza precisaria de uma dieta riquíssima em sódio (a verdade é que as dietas pobres em sal, tão em voga, provocam hipotensão e podem levar à morte) o que seria um problema, porque quanto maior é um organismo, mais alimento ele precisa ingerir para sobreviver: em suma, o gigante teria de passar o dia inteiro a comer. Os elefantes comem mais de trezentos quilos de alimentos por dia e as baleias ingerem toneladas. Os únicos verdadeiros gigantes na natureza, as árvores, são capazes de atingir alturas maciças, simplesmente porque fabricam o seu próprio alimento -- são autotróficas --, transformando dióxido de carbono em açúcar e oxigénio e não precisam de locomover-se para o efeito.

A testar os limites do crescimento do corpo humano, cite-se o caso do norte-americano Robert Wadlow: o homem mais alto de que há registo, com mais de dois metros e setenta centímetros de altura (e com um peso de duzentos quilos). Wadlow, que podem ver na imagem que ilustra este texto, morreu com vinte e dois anos de idade e, a essa altura, só se conseguia deslocar com o auxílio de bengalas e outros apetrechos similares, além de sofrer de má circulação e problemas neuropáticos nas pernas e nas mãos. À data da morte (15 de Julho de 1940), ainda continuava a crescer, pelo que pode especular-se sobre até que altura iria desenvolver-se sem que a sua vida, já muito limitada pelos problemas derivados do seu tamanho, fosse irremediavelmente prejudicada. Este gigante real prova, definitivamente, a impossibilidade dos cenários sonhados pelos cultistas da ideia dos Antigos Gigantes.
Termino com a curiosidade de Wadlow também ter sido pedreiro, mas pedreiro-livre: foi maçon e chegou ao terceiro grau simbólico de Mestre. Suspeito que este facto tem dado muitíssimo que falar aos teóricos das conspirações.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Vídeo da palestra «À Mercê da Medicina» em Sustos às Sextas

 
Na passada sexta-feira, dia 17, fui o palestrante convidado do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, evento organizado pela associação cultural Thinkers e que ocorre mensalmente na sede da Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha. A minha palestra teve como título À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura e consistiu numa escalpelização rigorosa sobre o fenómeno da medicina canibal ocidental, contextualizada a partir das posições histórico-sociais das práticas canibalísticas rituais e apotropaicas. O vídeo que poderão ver nesta publicação consiste num excerto dessa exposição.



Em paralelo, nesse dia foi, também, o meu aniversário, razão pela qual fui surpreendido com uma celebração que teve no bolo negro que podem ver na foto, em baixo, o elemento ritual de despedaçamento e consumo.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Günter Grass (1927-2015)


Só agora soube da morte de Günter Grass: morreu um dos melhores escritores de sempre e uma das minhas mais ricas e queridas influências. A importância da obra de Grass na minha formação autoral foi enorme e são raros os meus livros em que não se encontra uma referência ou homenagem a passagens e personagens dos seus livros. A literatura ficou mais pobre e desinteressante: adeus, Grass. Vemo-nos, como habitual, na estante.
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PS: acabam de informar-me que hoje, 13 de Abril, também morreu o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), cujos livros admiro. Enfim, sem comentários.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel de Oliveira (1908-2015)



A última longa-metragem de Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra (2012), que adapta uma peça teatral de Raul Brandão, é uma súmula espantosa do seu cinema, com um engenhoso equilíbrio imagético e verbal e uma fotografia lindíssima. A melhor homenagem que podem dar a Manoel de Oliveira é ver, rever e descobrir sempre coisas novas nos seus filmes: filmes que, sublinhe-se, recusam o mimetismo naturalista, sob o qual a arte tem de aproximar-se da vida. Não existem âncoras, no sentido de peso e de fixação que a palavra comporta, no cinema de Oliveira. Pode gostar-se menos ou mais da estética especial que ele inaugurou, ou apreciar-se mais uns filmes do que outros, como é natural, mas é inegável que Oliveira é um caso singular no cinema português e internacional. Poucos cineastas evocam, à partida, uma ideia análoga de liberdade cinematográfica, porque o cinema de Oliveira é totalmente livre. Talvez Kiarostami ou Dryer, que são os nomes que, neste momento, me surgem na lembrança (outros haverá, certamente). Empatizo totalmente com a estética oliveiriana, diga-se assim, de recusar liminarmente a velocidade: não a velocidade do dinamismo e da compreensão arguta, que essa está lá, mas a velocidade distractiva e superficial do frenético êxtase das montagens ultra-rápidas que nem sequer nos deixam observar convenientemente aquilo que está a ser mostrado. Entrar num filme de Oliveira é sempre entrar num espaço de pensamento, como num museu ou num templo: entra-se e cala-se para deixar falar a voz da inteligência. Quando se assimila esse preceito, o cinema de Oliveira é uma enriquecedora experiência.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Revista LOUD! de Abril


O número de Abril da revista LOUD! está quase a chegar (disponível a partir da próxima quinta-feira, dia 2), numa edição especial de coleccionador, dedicada aos Led Zeppelin.

Além disso, destaco, ainda, a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, na qual desvendo a origem histórica das tatuagens em Lisboa. Por isso, já sabem: fãs de Led Zeppelin, fãs de tatuagens e fãs de história de Lisboa, esta revista é, definitivamente, para vocês.


domingo, 29 de março de 2015

4ª Sessão de Sustos às Sextas (17 de Abril) com Medicina Canibal


No próximo dia 17 de Abril, às 21H30, ocorrerá a quarta sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas (no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal).
Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá interpretar duas canções negras do seu sedutor repertório e convido-vos a assistir à minha palestra À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura.
Marquem presença na página de Facebook do evento e divulguem. Obrigado: https://www.facebook.com/events/369185049933802/


sexta-feira, 20 de março de 2015

LÂMINA


Conheçam os LÂMINA, banda portuguesa de 'stoner doom rock', na qual o meu caro Filipe Homem Fonseca é o baixista. Um som endemoninhado que fere, exactamente, como uma lâmina bem afiada: quando se dá por isso, a ferida já é impossível de estancar. Excelente! Recomendo com entusiasmo negro.
Fiquem com a música Cold Blood. Deixem-se golpear e divulguem.


quinta-feira, 19 de março de 2015

«Nosferatu» musicado por Charles Sangnoir: amanhã no Seixal


Amanhã, dia 20, às 21H00, na Praça Luís de Camões, no Seixal, Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá oferecer um espectáculo singular, musicando ao vivo o filme mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau, cineasta pioneiro do movimento estético cinematográfico que ficou conhecido pela designação de "expressionismo alemão". A entrada é livre. Divulguem e apareçam.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Sustos às Sextas: terceira sessão


Na próxima sexta-feira, dia 13, às 21H30, ocorrerá a terceira sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, igualmente no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal (em Linda-a-Velha). O programa será composto por uma palestra do escritor português de ficção científica João Barreiros, pela inauguração de uma exposição de ilustração de diversos autores portugueses comissariada por Bruno Caetano (Easy Lab/Take it Easy) e, ainda, pela dramatização do conto de terror The Monkey's Paw do escritor inglês William Wymark Jacobs. Passem a palavra e apareçam: atrever-se-ão a desapontar os espíritos?


terça-feira, 3 de março de 2015

O novo pão e o novo circo


É provável que a ubiquação de diversos programas televisivos sobre gastronomia, aliada à inegável popularização e hegemonia da figura contemporânea do chef de restaurante, criatura híbrida entre o cozinheiro fino e o empreendedor finório, seja sinal de que existe um processo de retrocesso a um tempo em que a comida se consistia como um poderoso indicador classista. Com efeito, aquilo que se come e como se come ainda distingue, vestigialmente num feitio tradicional, certas heterodoxias humanas, como preferências de grupos demográficos, étnicos ou emblemas de filiações ideológicas de múltiplas ordens; no entanto, assiste-se ao ressuscitar de uma nova-velha era em que a comida volta a ser símbolo sistemático, basilar, até, do valor e do lugar dos indivíduos na mesologia social em que estão inseridos.

Assim, mantimentos de primeira necessidade são vendidos nas superfícies comerciais com selos de dita marca branca, de proveniência obscura e manufacturados com matérias-primas de difícil identificação, muitas vezes ao lado de artigos alimentares apresentados com auras luxuosas nas quais os rótulos tranquilizam os consumidores com mais poder de compra com avisos de que esses produtos não se encontram à venda sob outras marcas ou denominações. Tal como a roupa barata se estraga mais depressa que aquela que é vendida a um preço mais elevado, também a comida barata serve para alimentar de farrapos as massas que ginasticam os seus ordenados de sobrevivência. Fora da esfera doméstica, o restaurante -- palavra cuja significação etimológica se relaciona com o restabelecimento da saúde -- apresenta-se cada vez mais como apogeu das mais ambiciosas aspirações do dia-a-dia: interrupção feérica do tempo rotineiro durante a qual é possível, em princípio, degustar não uma refeição, mas uma experiência sensorial transcendente, idealizada pelo 'chef' consagrado à especialidade dessa eucrasia. Há muito que o chef substituiu a figura do médico, já outrora substituído pelo nutricionista, na psique popular. Neste cintilante e espectacular universo gastronómico, a doença não é mais a fome, mas a pobreza, da qual aquela procede, pois a nova roda dos alimentos está fatiada de acordo com a quantidade de moedas que cada bolso contém, como é curial de um tempo neo-romano em que tudo tem de ser etiquetado com um preço e posto à venda.
Se Juvenal fosse transplantado para estes dias, diria que o pão e o circo não desapareceram, mas que ambos pioraram muitíssimo de qualidade.

(Imagem: O País da Cocanha, de Pieter Bruegel, o Velho. 1567.)

segunda-feira, 2 de março de 2015

1ª Bolsa de Guiões Fantasporto


No âmbito da programação da trigésima quinta edição do Fantasporto, Festival Internacional de Cinema do Porto, irá ocorrer na próxima quarta-feira, dia 4, das 15H00 às 18H00, no Teatro Rivoli, a primeira Bolsa de Guiões Fantasporto.

Esta inspirada iniciativa, organizada pelo escritor e jornalista Octávio dos Santos e por Beatriz Pacheco Pereira, co-directora do Fantasporto, consiste numa sessão de análise e debate de diversos textos de cariz fantástico, escritos por autores portugueses, com o objectivo de encontrar-se sinergias, entre escritores e cineastas, que confluam em posteriores adaptações cinematográficas dos materiais literários em observação.

O meu conto No Muro (que escrevi propositadamente há três anos para a iniciativa Contos Digitais do Diário de Notícias, em parceria com a Escritório Editora) é um dos títulos reunidos nessa amostra.

Estão todos convidados a aparecer e, como habitual, agradeço a divulgação.
 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Vício da Gravidade


Em 2009, assim que saiu, li o romance Inherent Vice, de Thomas Pynchon, um dos autores que mais admiro, mas, admito, tenho pouquíssimas memórias desse livro atípico na obra do escritor norte-americano. Tenho uma noção diluída do enredo e de algumas personagens e situações que considerei mais interessantes, mas teria de relê-lo para refrescar a memória, quanto ao panorama. O problema é que o livro -- para o padrão fixado por Pynchon -- é demasiado ligeiro e até superficial: é, somente, uma história rocambolesca, semipolicial, semi-humorística, sobre alguns arquétipos da subcultura norte-americana de inícios da segunda metade do século XX e, sobretudo, demasiado esquecível, se é que me faço entender. Depois da publicação do genial e muito bem arquitectado Against the Day, um extraordinário romance, gigantesco em páginas e em ambição, este Inherent Vice foi uma desilusão e pêras.

Penso que Pynchon, conhecido por estar muitos anos sem publicar nenhum romance novo, quis, dessa vez, reduzir o tempo de espera dos seus leitores publicando um novo título -- apressado -- apenas com três anos de intervalo em relação à obra anterior (entre Against the Day e Mason & Dixon estão, retrospectivamente, nove anos de distância -- e dezassete anos entre Vineland e Gravity's Rainbow). Daí que não me surpreende que Inherent Vice, um "Pynchon light", seja a primeira escolha de Hollywood para uma adaptação cinematográfica do universo autoral deste escritor singular.

Todavia, para o espectador comum, Inherent Vice, realizado pelo interessante Paul Thomas Anderson, não será tão ligeiro quanto isso, porque o filme está a ser criticado por ser demasiado complexo e não-linear. Ora, bem: palavras como "complexo" e "não-linear" são música para os meus ouvidos, por isso lá terei de ir ao cinema comprovar se os críticos e o público têm razão.


Gostava, não obstante, que Hollywood tentasse filmar uma adaptação de Gravity's Rainbow, publicado em 1973 e rejeitado para o Prémio Pulitzer por culpa de uma sequência sadomasoquista de sexo coprofágico entre as personagens Katje Borgesius (uma agente dupla holandesa que é, em simultâneo, uma escrava sexual de um oficial da SS) e o submisso Brigadeiro Ernest Pudding; acrescente-se os laivos de zoofilia que envolvem pelo pescoço e pela cintura a bombástica Katje Borgesius e o estrambótico polvo Grigori, condicionado pavloviamente para atacá-la numa praia da Côte d'Azur (evento do qual é salva pelo protagonista Tyrone Slothrop, que distrai Grigori com um apetitoso caranguejo) -- uma passagem que evoca, de imediato, a arte shunga (estilo erótico japonês, cognato da nossa palavra chunga, que significa reles ou ordinário) do artista japonês Hokusai; em principal, a peça oitocentista Tako te Ama (O Sonho da Mulher do Pescador), mas, de igual modo, certas capas de revistas pulp norte-americanas, como a Spicy Adventure Stories, acervo de bizarras aventuras lascivas, editada nos anos trinta pela Culture Publications.

Considerando que Gravity's Rainbow data de 1973 e as mangas revolucionárias de Toshio Maeda, pai do género Hentai de banda desenhada japonesa, só apareceram em meados dos anos oitenta e inícios dos anos noventa, Pynchon será, na verdade, o primeiro autor a introduzir o sexo tentacular na cultura ocidental -- e, de chofre, no campo da literatura erudita. Aliás, tenho quase a certeza que os bonzos bem-pensantes que gostam muito de apregoar à boca cheia a sua admiração por Pynchon, enquanto crachá cultural, nunca leram, de facto, as tropelias tentaculíferas e escatofágicas de Gravity's Rainbow (entre outros desatinos de alto apuro que lá se encontram), com mais pontos em comum com os universos marginais de alguma literatura fantástica do que com a comoditização de costumes e conceitos domesticados que, hoje, infelizmente, passa por "boa" literatura.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Coisas


Adoro a mitologia criada em órbita da entidade extraterrestre chamada, laconicamente, "Coisa": espécie de predador cósmico, sem forma e linguagem definidas, cujo método de reprodução consiste na assimilação trófica de outras formas de vida, invadindo-lhes os corpos e criando novíssimas versões artificiais. Nos filmes de John Carpenter (1982) e Matthijs van Heijningen, Jr. (2011), a Coisa demonstra não possuir conceitos ou preconceitos de taxonomia; simplesmente, agarra no material orgânico disponível e molda corpos híbridos, desconjuntados, em que funções de membros e órgãos são trocadas ou reinventadas -- é, no fundo, a interpretação imediata, ultrapragmática, que o proteico instinto exomórfico faz dos seres vivos que vai entranhando, sem ter conhecimentos mais precisos sobre a verdadeira natureza daquilo que está a predar e, no fundo, sem preocupações a esse respeito. A Coisa é, nesse sentido, a antítese da reflexão, da planificação: é totalmente instintiva, animal, primitiva; nos poucos momentos em que exibe alguma estratégia vestigial de médio-prazo, ela está, em exclusivo, ao serviço da sua brutal sobrevivência. Não obstante, é aqui que se acha uma imperfeição que sempre me provocou alguma perplexidade; embora, uma que nunca me tenha retirado a genuína admiração que tenho pela visão de Carpenter e a fruição do filme de Matthijs van Heijningen, Jr.

O comportamento rudimentar da Coisa (o mais completo avatar cinematográfico do horror literário de estirpe lovecraftiana, híbrido de hemorroíssa com Yog-Sothoth; ou seja, a mescla do medo do contágio pelo elemento estranho à comunidade com a imprevisibilidade irascível do destino) não se compagina com o retrato que, em simultâneo, lhe é feito pelos cineastas, enquanto ser cultural e tecnológico com aptidão de, aparentemente, pilotar um intrincado veículo intergaláctico até à Terra; logo, ser criatura civilizacional, com percurso e projecto históricos (vulgo, que vive no tempo, em vez de viver no momento). Para mim, é uma estranheza análoga à de descobrir-se a existência de uma espécie de ténia capaz de edificar estruturas inorgânicas (ou orgânicas...). Contudo, ao procurar informações adicionais sobre esta prequela do filme de Carpenter, percebi, com agradável surpresa, que uma inquietação mais ou menos parecida passou pela cabeça dos criadores do filme.

É que o final original de The Thing, de 2011, previa que a protagonista Kate Lloyd (paleontóloga interpretada por Mary Elizabeth Winstead) descobrisse no interior da velhíssima nave espacial da Coisa (despenhada há milhares de anos no Antárctico e aí conservada no gelo) que essa espécie, afinal de contas, era apenas uma entre muitos organismos recolhidos através do universo para fins de pesquisa científica por outra espécie, inteligente e civilizada: a prová-lo estariam os corpos mortos dos pilotos, eliminados pela Coisa quando este animal se soltou do invólucro que o mantinha prisioneiro, provocando dessa forma a queda precipitada da nave. Teria sido um final estupendo para um filme que, em geral, consiste numa boa prequela/homenagem ao filme de Carpenter, faltando-lhe, evidentemente, a atmosfera angustiante e o sufocante niilismo lovecraftiano que nesse título estão presentes com uma força imensa. A razão pela qual este final foi rejeitado pelos produtores e encenado outro desfecho menos conseguido ocultar-se-á junto das razões que estiveram na decisão de substituir sem justificação provável a totalidade dos efeitos especiais animatrónicos por efeitos visuais gerados digitalmente, o que rouba muita da autenticidade (e desconforto) que fizeram do filme de Carpenter uma obra visionária.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sustos às Sextas: segunda sessão na próxima sexta-feira 13


Na próxima sexta-feira, dia 13, a Fundação Marquês de Pombal (Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha) acolherá às 21H30 a segunda sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, na qual a tónica será colocada sobre o cinema de terror, cortesia dos convidados Rodrigo Guedes de Carvalho, Tiago Guedes e Frederico Serra. Destaco que esta sessão consistirá, ainda, na última oportunidade de verem a exposição de fotografia Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude, de Gisela Monteiro. Passem a palavra e não faltem: os fantasmas esperam, amaldiçoados, por vós.





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

«Sepulturas dos Pais» em lista internacional de melhores livros de BD de 2014

 
Sepulturas dos Pais (Kingpin Books, 2014) escrito por mim e desenhado por André Coelho, está na lista internacional dos melhores livros de banda desenhada, publicados em 2014, no site de Paul Gravett, crítico e historiador inglês de BD.

E a antologia Crumbs (Kingpin Books, 2014), na qual participo com a história O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa, também lá se encontra.

Obrigado a Pedro Moura, crítico português de banda desenhada, pelas escolhas. A ler, aqui: http://www.paulgravett.com/articles/article/books_to_read_best_graphic_novels_of_2014#portugal