sexta-feira, 20 de abril de 2018
Leitura na FNAC Colombo
No próximo dia 23 (segunda-feira), às 16H50 em ponto, irei estar no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, para participar com uma leitura na Maratona de Leitura com que se assinalará o Dia Mundial do Livro. Cada autor convidado lerá durante dez minutos. Divulguem e apareçam.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Montaigne: poderia ter sido um "Cristo" para o Estoicismo?
Montaigne
foi um individuador, disso não duvido; fresco que venho de mais uma releitura
dos seus ensaios, aos quais, brioso, retorno sempre que exequível. Foi, também,
um católico paradoxal – mas não no sentido translatício que, hoje, se poderia
empregar para designar um católico liberal (ou “não-praticante”). Com efeito, o
rigorismo de Montaigne aproxima-o, in limine, de determinadas atitudes
evangélicas; como, entre outras, a insistência na pureza de pensamento no acto
da oração, tropo que critica evocando um dos contos de Margarida de Navarra
sobre o cinismo de Francisco I, que, nessa narrativa, corta caminho pelo
interior de um mosteiro em direcção à casa da amante, não se coibindo de rezar
virado para o altar a cada ida e vinda (no Heptamerão, publicado postumamente
em 1558*). Todavia, em oposição aos pregadores protestantes, Montaigne desconfiava
das iniciativas de traduzir-se os textos sagrados para vernáculo; estratégia de
divulgação que considerava revogadora da subtil mensagem mistérica – até mesmo
iniciática – do corpus crístico.
A
esta altura, introduzo uma perspectiva singular que a recente releitura de
Montaigne me proporcionou: a de que ele é uma espécie de Cristo do estoicismo.
Na verdade, Montaigne é várias vezes seduzido pela ideia que defende uma
familiaridade intrínseca entre o cristianismo primitivo e a filosofia estóica;
todavia, o autor, de maneira um pouco desorientadora, talvez, em virtude da sua
reiterada austeridade, protege a inconstância** intelectual da criatura humana –
se o estoicismo defende que o homem sábio é aquele que foi capaz de alcançar o
estádio de desejar sempre a mesma coisa e rejeitar sempre a mesma coisa***,
Montaigne aconselha a não esperar outra coisa do ser humano, senão a
volubilidade. No fundo, é o assumir da improbabilidade do ideal estoicista,
provavelmente apenas conseguido pelos mais irredutíveis ascetas – ou pelos
santos, o que é quase traduzir no mesmo. Assim, sobre este assunto, sintetizo o
credo de Montaigne na seguinte fórmula: o estoicismo foi criado para o homem,
não foi o homem a ser criado para o estoicismo.
Não
duvido que se Montaigne tivesse, em concreto, enveredado pela sistemática escrita de filosofia teria operado uma mudança profunda nessa corrente filosófica – tão profunda
quanto as sismogenias que convulsionaram o universo teológico do seu tempo.
*
Penguin Books, 1986, dia III, conto 25, pp. 288-289.
**
Na França quinhentista, a palavra “inconstante” relacionava-se, com maior adequação,
com a noção de “diversidade” e não tanto com a de “instabilidade”. Porém, pode
perfeitamente aceitar-se que Montaigne se alcandora às duas.
*** Segundo Séneca em Cartas
a Lucílio (Fundação Calouste Gulbenkian, 2014, carta XX, 5, p. 71).
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Centenário da batalha de La Lys: história pessoal
Hoje assinala-se o centenário da batalha de La Lys, na qual o Corpo
Expedicionário Português, posicionado na Flandres francesa, sofreu com
uma pesadíssima ofensiva militar alemã. As vidas de dois bisavós meus
relacionam-se directamente com esta data: um, que se alistou
voluntariamente no CEP (com a idade de dezasseis anos), combateu na
batalha de La Lys e, já em Portugal, foi condecorado com a Cruz de
Guerra; o outro, também foi mobilizado, mas acabou por servir em
Portugal como maqueiro nos serviços de saúde do exército - no entanto,
faleceu com quarenta e sete anos de idade num dia 9 de Abril. Conheci o
primeiro bisavô de quem falo, que teve uma vida longa, mas não conheci o
segundo; contudo, para assinalar a efeméride, deixo um poema que ele
escreveu, em que interroga sobre se aquela guerra era justa ou não.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
A morte é um órgão em nós contido
Como a espelta está para o trigo, está o virtual para o orgânico:
morre-se de morte natural, diz a merologia — mas haverá outra morte que
não seja natural? Orfeica? Essa ubiquitária trave-mestra da vida,
somente sondável por quem dela se aproxima; prásina que anuncia a
corrupção da carne. Ela é o tanque para o qual a alma é despejada — e
ambas são animaculares, infinitesimais. Fulminígera, a sepultura
arenga-nos como a candeia às traças: luz tão espessa e rescendente como
xarope — e igualmente peganhosa. Nela nos funestamos, apaixonados pelo
fedor solitário da nossa dissolução, identidade odorifumante que é ainda
mais nossa que o coração: gosta-se do cheiro da própria morte; um
cheiro que não faz impressão (de tão particular). Tão íntimo. É o cheiro
de um órgão secreto e secretício que contemos sem detectação: a
Finitude.
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Colóquio sobre Francisco de Holanda na Biblioteca Nacional
No próximo dia 4 de Dezembro, na Biblioteca Nacional de Portugal,
ocorrerá o colóquio Francisco de Holanda: Pintura e Pensamento. Sobre
a vida e a obra de Francisco de Holanda, um dos meus heróis
intelectuais. A não perder: divulguem e apareçam.
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Fernando Relvas (1954-2017)
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Morreu António de Macedo
Morreu António de Macedo - soube há poucos minutos.
Conheci o António em finais de 2005 e fomos, desde essa altura, mantendo o contacto, falando de livros e de outros assuntos. Participámos juntos em diversas palestras e mesas-redondas. O António apresentou alguns dos meus livros, prefaciou um, e por tudo sinto-me grato e privilegiado. Das nossas conversas de café, tidas às tardes num local perto de sua casa, resultou uma longa entrevista que publiquei no meu blogue. Quando lembro os meus mortos, os indivíduos que me foram próximos e de quem tenho saudades, faço-o, sempre, de modo anónimo, em plural: não cito nomes, não me aproveito da sua memória para publicidade pessoal, como, infelizmente, por vezes se vê por aí. A partir de hoje, o António faz parte dos meus mortos: um grupo que de morte só tem a designação, pois a sua presença, em mim, não é outra coisa senão vida. Adeus, António. Obrigado.
Conheci o António em finais de 2005 e fomos, desde essa altura, mantendo o contacto, falando de livros e de outros assuntos. Participámos juntos em diversas palestras e mesas-redondas. O António apresentou alguns dos meus livros, prefaciou um, e por tudo sinto-me grato e privilegiado. Das nossas conversas de café, tidas às tardes num local perto de sua casa, resultou uma longa entrevista que publiquei no meu blogue. Quando lembro os meus mortos, os indivíduos que me foram próximos e de quem tenho saudades, faço-o, sempre, de modo anónimo, em plural: não cito nomes, não me aproveito da sua memória para publicidade pessoal, como, infelizmente, por vezes se vê por aí. A partir de hoje, o António faz parte dos meus mortos: um grupo que de morte só tem a designação, pois a sua presença, em mim, não é outra coisa senão vida. Adeus, António. Obrigado.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Les Arts Florissants's «Die Zauberflöte» - plus my social networks
Les Arts Florissants's historically informed version of Mozart's Die Zauberflöte (1791) - played with period instruments - comes serenely to the listener, at an appointed slower pace than other large-orchestral performances, and this brings forth a welcoming freshness. I highlight Dessay's Königin der Nacht - throughout, her coloraturas sound just like an instrument; which can be heard best in this version's slower-paced Der Hölle Rache aria - and Scharinger's Papageno, sung with a lot of heart. Overall, the singing in this recording is first-rate. There is a quiet period-piece dignitas here, very moving and authentic, belied by the light-hearted, gracious playing. One of the most original and precious versions of this singspiel already recorded.
I take this occasion to remember my readers about my Facebook page and my Instagram profile.
I know this blog is not being uptaded almost per diem as before, but, nonetheless, you can follow my Facebook posts and Instagram snaps, published (for the time being) at a more circadian pace than here.
So, if you don't follow my social networks already, go there and press 'follow'. You'll find me there easilly these days.
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quarta-feira, 5 de julho de 2017
In Hell
I'm doubting if knowledge killed religion and pushed Western civilization to the path of scientific bliss. This may be pure historical interpretation through commonplace, an effect Arendt already warned about. Inasmuch as the hegemony of a knowledge based intelectual structure versus some religious based emotional structure, we might be seeing it all wrong, for to what extent is knowledge no more a process? In so far as we having come to terms with this process — for it is one—, it should be useful to keep in mind that in every period people thought of themselves as infinitely wiser than forerunners from past societies, which rings as a cautionary tale against the hubris of half-knowledge or, worst!, of philistinism, the crudness of pure ignorance.
This age is plagued by
all the artlessness, all the inelegances of yesterday — the worst being
the kind of Halo Effect operated by dilletantes and media darlings in
the semi-private, semi-public, space of virtual communication. There
really seems to exist some type of maladroitness endemic to this
mucoidal space we call the social network — mucoidal in the sense of
being porous, like the mouth or the anus; a liminal proscenium —
pregnable and retentive, both. It is in this frontispiece that we stand
civilized as in a public space, but, nonetheless, as oafish as one can
be when unobserved in the recesses of domiciliary space. It is in this
fake frontier that we gather to conform and to feel the amniotic freedom
of bashing the ones marginalized by whatever consensus society chooses
to structure itself around in any given moment, since bashing, in
itself, is no longer considered a civilized behaviour, except when
feigned as indignation.
In this regard I don't
think we live in a more enlightened age than before or that the religion
of progress will take care of all our problems. The past is full of
examples in which consensus got it wrong — in some cases, harrowingly
so. We suffer from shortsightedness and the desire to belong to whatever
the consensus might be — myopia and monomania are this age's fifth and
sixth horsemen. We lost the capabiity of discerning right from wrong,
substantial from superfluous, valuable from vapid — and the nakedness of our
dispensation from it, of our withdrawl from it, signals at last the true
and only exclusivity of our time. The fact that we didn't kill Hell,
like we would like to think: we just made it into a kiddie-ride.
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segunda-feira, 26 de junho de 2017
A corrosão da fantasia
Gradualmente, compreendi que uma das características que mais me tem
afastado da leitura e da contemplação da ficção contemporânea - em
principal, séries televisivas e filmes - é a sua serialização; ou seja: a
continuidade - tautológica, na maioria das vezes, esclareça-se - de
contínuos cosmos ficcionais. Nesse sentido, a palavra "serialização", na
acepção de "produção ao modo industrial" é muitíssimo adequada. Tomemos
como exemplo os actuais filmes de super-heróis: cada novo filme que
estreia procura ser mais um tijolo num grande muro em que se almeja
projectar todo um universo super-heroístico, no qual cada filme
sequencia ou referencia determinados eventos ou situações plasmados em
outros; subordinadas a essa mecânica, personagens de certos filmes têm,
necessariamente, de figurar em outros, tornando-se, nesse jaez,
geradoras de uma hiperatrofiada diafaneidade, ou seja, não há nenhuma
opacidade - a opacidade conveniente à metáfora - entre essas produções. O
efeito invisível, mas tangível, dessa abolição de distâncias é, não só a
destruição de diversos pontos de fuga - por conseguinte, o rebatimento
de múltiplas perspectivas num plano único -, mas a corrosão da fantasia.
O que é que isto significa?
Significa que o, já aludido, carácter metafórico ou alegórico - digamos "simbólico" - da própria fantasia é desgastado pela violenta fricção com a artificial, mas duríssima, realidade virtual composta pelo empilhamento de referências cruzadas que, em estilo autofágico, vai substituindo o simbólico em favor do logicismo, da coerência sequencial. Com efeito, o valor do simbólico é a anti-reificação, qualidade cognata da sua unicidade, da sua exclusividade. O simbólico - e, por metonímia, a fantasia (que é matriz do simbólico) - vive sempre da reciprocidade entre significado, codificação e contexto. Logo, a construção sequencial de um "plano único" onde, rebatidos, como vimos, coexistem múltiplos pontos, chamemos-lhe isso, que se vão acumulando sem hipótese de escapar à unidimensionalidade, desgasta a fantasia, porque, tratando-se de um plano único auto-referencial, todos esses pontos têm de manter a coerência intrínseca - ou seja, não há liberdade para o simbólico. Um excelente exemplo desta tese é o facto de a melhor e mais ressonante - do ponto de vista simbólico - cena do filme The Dark Knight Rises ter sido a mais censurada pela crítica e pelo público: do ponto de vista simbólico, do ponto de vista da fantasia, não é válido exercer-se a descrença sobre se, naquele instante em específico do filme, o protagonista teria tido oportunidade ou meios materiais suficientes para inflamar em grande formato o seu signo num local alto o suficiente para que a população da cidade em estado de sítio o pudesse ver e saber do seu adiado regresso; do ponto de vista simbólico, do ponto de vista da fantasia, só é válida a carga emocional, transcendental, invocada, cuja comunicação passa por uma subtil dialéctica não-material. Ora, o hábito já impregnado na audiência de estar-se diante de universos auto-referenciais coerentes, faz com que a coerência, o logicismo, erga uma barreira de descrença entre o público e os poucos apontamentos de pura fantasia/simbolismo que residam em produções cada vez menos imaginativas e cada vez mais preocupadas em conservar e alimentar e reproduzir estanques lógicas internas que obrigam, provavelmente, a um virar do avesso do holismo: sob a holística, o isolado só pode ser percepcionado por via da totalidade; mas no tal muro super-heroístico, a totalidade é apenas um pretexto para se desfrutar convenientemente do isolado. No fundo, a fantasia e o simbólico são, pela sua natureza, entidades descontínuas - ou, em linguagem audiovisual, "episódicas". A serialização elimina-lhes os fins específicos.
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quarta-feira, 7 de junho de 2017
O meu poster do filme "Branca de Neve" na revista Sábado
Chamaram-me à atenção para o facto de no passado mês de Março a revista SÁBADO
ter publicado uma colecção de cinco importantes posters de cinco filmes portugueses (escolhidos pelo designer e investigador Igor Ramos) e um deles ser o poster que eu fiz para o filme Branca de Neve, de João César Monteiro (2000). Já há muitos anos que não via esta imagem, como é
evidente, por isso foi uma boa surpresa. Os outros posters na colecção
são dos filmes Canção de Lisboa, por Almada Negreiros, Aniki-Bobó,
por Manuel de Guimarães, Kilas - O Mau da Fita e Crónica dos Bons
Malandros, ambos por José Brandão.
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terça-feira, 6 de junho de 2017
Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa
Fãs e amigos, informo que o horário da minha passagem pela Feira do
Livro de Lisboa é o seguinte: próximo sábado, dia 10, das 16H00 às
19H00, junto aos pavilhões da Europress (B9 e B11), distribuidora da Kingpin Books. Não estarei na Feira em outra altura. Apareçam. 
segunda-feira, 8 de maio de 2017
«Os Anormais» no meu canal de YouYube em versão integral
Finalmente, no meu canal de YouTube, a versão integral do meu disco de spoken word Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir, é um dos meus trabalhos favoritos. Uma negra e erudita viagem psicogeográfica a vários tempos e realidades, sobre os indivíduos deformados e marginais que viveram em Lisboa, em diversos períodos. A (re)descdobrir.
quinta-feira, 23 de março de 2017
500 anos de Holanda e 10 de Conspiração
Neste ano assinalar-se-á (em Setembro) o quingentésimo aniversário do
artista e humanista português Francisco de Holanda: para celebrar a
efeméride, o Museu do Dinheiro, em Lisboa, inaugurará a 5 de Abril uma
exposição intitulada Francisco D'Holanda: Desejo, Desígnio e Desenho (1517-2017), dedicada à vida e obra desta figura cimeira do
Renascimento. De igual maneira, neste ano assinalar-se-ão (também em
Setembro) dez anos da publicação do meu romance A Conspiração dos Antepassados
(Saída de Emergência), no qual a obra e vida de Francisco de Holanda é
um dos temas principais: na foto, observe-se na capa da primeira edição
do romance a configuração do Louva-a-Deus pintado por Holanda no
frontispício do seu livro Imagens das Idades do Mundo (motivo que,
sabe quem leu, é de vital importância para todo o edifício narrativo).
Assim, gostaria de operar algo especial para assinalar a dupla
efeméride, de molde que irei pensar sobre em que poderá consistir essa
celebração. Entretanto, convido-vos à (re)descoberta da obra de Holanda e
de A Conspiração dos Antepassados.
quinta-feira, 9 de março de 2017
Exposição "Banda Escrita: David Soares" inaugura amanhã
Lembrando que amanhã, às 19H00, na Bedeteca da Amadora (Biblioteca
Municipal Fernando Piteira Santos), inaugura a exposição Banda Escrita:
David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista,
comissariada pelo crítico Pedro Vieira de Moura.
«"Cultor de uma pesquisa linguística e de um imaginário único, Soares é
um exímio criador de ambientes e de interrogações das capacidades do
ser humano face à crueldade, a adversidade e a indiferença do universo.
Se bem que se possam descrever os seus
trabalhos de literatura, banda desenhada e spoken word como pertencendo
aos territórios do fantástico, do horror, da fantasia negra, da
psicogeografia, isso significaria enclausurar gestos, os quais, partindo
dessas premissas, auscultam campos bem mais vastos da condição humana, e
para além dela". Pedro Moura, programador cultural da Bedeteca da
Amadora.»
segunda-feira, 6 de março de 2017
Exposição "Banda Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista"
Na próxima sexta-feira, às 19H00, na Bedeteca da Amadora (Biblioteca
Municipal Fernando PIteira Santos), inaugurar-se-á a exposição Banda
Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do
argumentista. Comissariada pelo crítico Pedro Vieira de Moura,
consiste numa exposição que incide sobre as minhas obras em banda
desenhada - tanto as que escrevi e desenhei, como as que escrevi e foram
desenhadas por outros artistas. Nesta ligação, podem ler um texto de Pedro Vieira de Moura sobre a exposição e o meu trabalho.
A exposição estará aberta ao público até ao dia 29 de Abril. Estão todos convidados para a inauguração: divulguem e apareçam. Obrigado.
A exposição estará aberta ao público até ao dia 29 de Abril. Estão todos convidados para a inauguração: divulguem e apareçam. Obrigado.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
O silêncio é de ouro
Existem
muitas estirpes de silêncios no filme de Scorsese, permanecendo, no
final, a ambiguidade sobre a qual se refere o silêncio titular: será ao
silêncio da ausência de resposta de Deus às preces dos japoneses
cristãos perseguidos pelo xogun?; ou ao silêncio cúmplice que os
acompanha durante a noite no exterior - silêncio tornado ainda mais
opaco pela ausência de som ambiental ou banda-sonora, excepto quando as
personagens entram nos espaços interiores, nos quais, suspeita-se, será
seguro soltar a palavra? Ou, ainda, ao silêncio opressivo imposto pela
novíssima autoridade central japonesa sobre o cristianismo? Avaliando
pelos pouquíssimos comentários que ouvi no final da sessão, soprados em
surdina por elementos do público, tenho dúvidas sobre se a maioria dos
espectadores terá alcançado na mente algum argumento satisfatório sobre
esta matéria - ou outra -, considerando que os referidos comentários se
pautavam por declarações de aborrecimento ou de que o filme «era uma
brutalidade [de tempo, calculo, pois possui pouca violência explícita] e
não tinha mensagem» - esta declaração proferida por um cavalheiro de
cabelos brancos, desfazendo o mito de que somente as novas gerações não
estarão dispostas a entregar-se a um tipo de cinema contemplativo,
ambíguo e artístico, como é o cinema exemplificado por este filme de
Scorsese.
Com efeito, desenganem-se aqueles que esperarão um filme de época pontuado pela acção contemporânea, ao jeito de, por exemplo, O Último Samurai. Assim, questiono se, de modo geral, existirá - ainda - um grande público (coloco a tónica em grande, porque público há, certamente) para um filme como Silêncio, propositadamente meditativo e flexíloquaz; sem, no entanto, ir tão longe no simbolismo quanto o cinema de Kurosawa. Na verdade, que diria o público que considerou chato o filme de Scorsese diante de Os Senhores da Guerra de Kurosawa, filme de ritmo lentíssimo, embora emocionalmente angustiante, profundamente simbólico e cruel? Estaremos, pois, vivendo no ocaso do cinema que incita a contemplar, do cinema que, insistentemente, faz perguntas, em vez de dar um receituário pré-fabricado de estímulos já experimentados, guiados pavloviamente pela montagem frenética e pela banda-sonora? Não me refiro a herméticos universos autorais isolados, como o caso de David Lynch, entre outros, mas a um cinema de tipo meditativo para o grande público: um que, não recusando contar uma história (seja lá o que isso for...), a conte de um modo que ponha o espectador a agir em conjunto com o filme, a formular hipóteses sobre o que está a ver. De facto, o cinema de Scorsese sempre foi um equilíbrio entre o cinema artístico, de autor, e o cinema de grande público, servido com frequência por uma linguagem estilística e técnica de topo, colocando os avanços mecânicos e visuais de último grito ao serviço de um sentido artístico próximo do simbólico. Não deixa de ser agridoce constatar que a consagração de Scorsese por Hollywood se tenha dado há relativamente pouco tempo e graças a filmes mais convencionais, diga-se assim, quando comparados com as obras a que mais rapidamente associamos o seu nome.
O romance histórico de Shusako Endo, publicado em 1966, já fora alvo de uma adaptação cinematográfica japonesa, estreada no início dos anos setenta, e, também, de uma adaptação livre filmada em 1996 por João Mário Grilo com o título de Os Olhos da Ásia, mas será o filme de Scorsese o que, evidentemente, fará chegar esta história a mais gente e de modo mais incisivo. De um ponto de vista histórico, esta obra - e, calculo, também o romance que adapta - é elíptica: o espectador que não conhecer minimamente o período histórico em questão não compreenderá muito bem o xadrez político complexo da transição do Japão dito feudal (ou senhorial) para uma unificação territorial sob uma autoridade fortemente centralizada num xogunato, nem o papel crucial - fundamental - que os portugueses tiveram nesses desenvolvimentos, em virtude da introdução das armas de fogo nessa sociedade (ainda hoje ocorre todos os anos, em Agosto, na ilha de Tanegashima - lugar onde os portugueses chegaram pela primeira vez ao Japão, em 1543 - um grande festival que recorda e celebra a chegada dos "bárbaros do sul" (os portugueses) e a oferta da espingarda - aliás, o nome da ilha passou a designar o próprio objecto).
Foi a partir de Agosto de 1549, com a chegada de São Francisco de Xavier, que tiveram início as conversões ao cristianismo; conversões a que a emergência em 1603 do xogunato iniciado por Tokugawa Ieyasu (só terminado em 1867) extirpou quase por completo. A sociedade hierárquica e rígida inaugurada pelo xogunato não tolerou o cristianismo, assim como, de maneira geral, a presença ocidental; excepto a de comerciantes holandeses, a partir de 1623, espelhando a espécie de excepcionalidade que existia na China com os portugueses.
Assim, apesar de elíptico, de um ponto de vista histórico, o filme de Scorsese pode consistir num enorme avanço de divulgação histórica, em produtos de entretenimento, da expansão portuguesa e dos seus reais e poderosos efeitos, num estilo de observação já exorcizado da dita "culpa do Ocidente" e dos mitos aliados à propaganda anticolonialista mais radical.
Um filme que apresenta um Japão que, talvez, ainda não tenhamos visto em qualquer outro filme: mais real, mais cruel, mais intolerante. Nesses vectores encontra-se, quanto a mim, o autêntico silêncio titular: o da fé secreta e indizível mantida pelos padres apóstatas, uma fé muda, mas autêntica, que transcende a imanência dos objectos para se concentrar apenas na mente. Nessa perspectiva, a personagem de Kichijiro revela-se quasi-arquetípica, quando se compreende perto do final que o velhaco apóstata em série, aquele que parecia ser um unidimensional oportunista, terá entendido desde o início qual seria, afinal, o segredo desse silêncio precioso. No recente O Herói de Hacksaw Ridge, Andrew Garfield interpretou uma personagem que coloca temerariamente as convicções acima da vida; em Silêncio, o Padre Rodrigues que esse actor compõe é o lado lunar daquela: a vida - a nossa e a dos outros - é o bem supremo, porque sem vida ninguém é livre. O espectador é, pois, livre de julgar por si próprio qual dos dois tipos de heroísmo é o mais virtuoso: o que brota da destruição do corpo sacrificado à morte pelos ideais ou aquele que frui da deformação do espírito de quem se sacrifica pelos ideais mantendo-se vivo.
Com efeito, desenganem-se aqueles que esperarão um filme de época pontuado pela acção contemporânea, ao jeito de, por exemplo, O Último Samurai. Assim, questiono se, de modo geral, existirá - ainda - um grande público (coloco a tónica em grande, porque público há, certamente) para um filme como Silêncio, propositadamente meditativo e flexíloquaz; sem, no entanto, ir tão longe no simbolismo quanto o cinema de Kurosawa. Na verdade, que diria o público que considerou chato o filme de Scorsese diante de Os Senhores da Guerra de Kurosawa, filme de ritmo lentíssimo, embora emocionalmente angustiante, profundamente simbólico e cruel? Estaremos, pois, vivendo no ocaso do cinema que incita a contemplar, do cinema que, insistentemente, faz perguntas, em vez de dar um receituário pré-fabricado de estímulos já experimentados, guiados pavloviamente pela montagem frenética e pela banda-sonora? Não me refiro a herméticos universos autorais isolados, como o caso de David Lynch, entre outros, mas a um cinema de tipo meditativo para o grande público: um que, não recusando contar uma história (seja lá o que isso for...), a conte de um modo que ponha o espectador a agir em conjunto com o filme, a formular hipóteses sobre o que está a ver. De facto, o cinema de Scorsese sempre foi um equilíbrio entre o cinema artístico, de autor, e o cinema de grande público, servido com frequência por uma linguagem estilística e técnica de topo, colocando os avanços mecânicos e visuais de último grito ao serviço de um sentido artístico próximo do simbólico. Não deixa de ser agridoce constatar que a consagração de Scorsese por Hollywood se tenha dado há relativamente pouco tempo e graças a filmes mais convencionais, diga-se assim, quando comparados com as obras a que mais rapidamente associamos o seu nome.
O romance histórico de Shusako Endo, publicado em 1966, já fora alvo de uma adaptação cinematográfica japonesa, estreada no início dos anos setenta, e, também, de uma adaptação livre filmada em 1996 por João Mário Grilo com o título de Os Olhos da Ásia, mas será o filme de Scorsese o que, evidentemente, fará chegar esta história a mais gente e de modo mais incisivo. De um ponto de vista histórico, esta obra - e, calculo, também o romance que adapta - é elíptica: o espectador que não conhecer minimamente o período histórico em questão não compreenderá muito bem o xadrez político complexo da transição do Japão dito feudal (ou senhorial) para uma unificação territorial sob uma autoridade fortemente centralizada num xogunato, nem o papel crucial - fundamental - que os portugueses tiveram nesses desenvolvimentos, em virtude da introdução das armas de fogo nessa sociedade (ainda hoje ocorre todos os anos, em Agosto, na ilha de Tanegashima - lugar onde os portugueses chegaram pela primeira vez ao Japão, em 1543 - um grande festival que recorda e celebra a chegada dos "bárbaros do sul" (os portugueses) e a oferta da espingarda - aliás, o nome da ilha passou a designar o próprio objecto).
Foi a partir de Agosto de 1549, com a chegada de São Francisco de Xavier, que tiveram início as conversões ao cristianismo; conversões a que a emergência em 1603 do xogunato iniciado por Tokugawa Ieyasu (só terminado em 1867) extirpou quase por completo. A sociedade hierárquica e rígida inaugurada pelo xogunato não tolerou o cristianismo, assim como, de maneira geral, a presença ocidental; excepto a de comerciantes holandeses, a partir de 1623, espelhando a espécie de excepcionalidade que existia na China com os portugueses.
Assim, apesar de elíptico, de um ponto de vista histórico, o filme de Scorsese pode consistir num enorme avanço de divulgação histórica, em produtos de entretenimento, da expansão portuguesa e dos seus reais e poderosos efeitos, num estilo de observação já exorcizado da dita "culpa do Ocidente" e dos mitos aliados à propaganda anticolonialista mais radical.
Um filme que apresenta um Japão que, talvez, ainda não tenhamos visto em qualquer outro filme: mais real, mais cruel, mais intolerante. Nesses vectores encontra-se, quanto a mim, o autêntico silêncio titular: o da fé secreta e indizível mantida pelos padres apóstatas, uma fé muda, mas autêntica, que transcende a imanência dos objectos para se concentrar apenas na mente. Nessa perspectiva, a personagem de Kichijiro revela-se quasi-arquetípica, quando se compreende perto do final que o velhaco apóstata em série, aquele que parecia ser um unidimensional oportunista, terá entendido desde o início qual seria, afinal, o segredo desse silêncio precioso. No recente O Herói de Hacksaw Ridge, Andrew Garfield interpretou uma personagem que coloca temerariamente as convicções acima da vida; em Silêncio, o Padre Rodrigues que esse actor compõe é o lado lunar daquela: a vida - a nossa e a dos outros - é o bem supremo, porque sem vida ninguém é livre. O espectador é, pois, livre de julgar por si próprio qual dos dois tipos de heroísmo é o mais virtuoso: o que brota da destruição do corpo sacrificado à morte pelos ideais ou aquele que frui da deformação do espírito de quem se sacrifica pelos ideais mantendo-se vivo.
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sábado, 31 de dezembro de 2016
Como o Sol, em 2017
No dia 31 de Dezembro de 1705, há trezentos e onze anos, faleceu D.
Catarina de Bragança no seu Palácio da Bemposta, em Lisboa. Filha de D.
João IV com D. Luísa de Gusmão, casou em 1662 com o rei Carlos II de
Inglaterra, sendo, até, mais lembrada nesse país pelo costume de andar
vestida com roupa de homem - costume que, segundo o anedotário, lhe
valia, em surdina, piropos de que teria umas pernas muito bem-feitas -
do que pela introdução nesse círculo do hábito de beber chá ao
final da tarde. Num parapeito do Palácio da Bemposta pode encontrar-se a
ruína de uma curiosa meridiana: instrumento astronómico que assinalava o
meio-dia solar. É, pois, com esta nota que desejo boas entradas
em 2017 aos meus leitores, fãs e amigos: atravessem o proscénio que dá
entrada ao novo ano lembrando o melhor que o nosso passado tem. Escrevo «tem», porque o passado está vivo - muito mais do que o presente, essa
infinita ilusão. No fundo, só existe passado e só existe futuro,
connosco sempre a tentar um equilíbrio precário no meio, à guisa de
titubeante filete de luz incidindo na marca meridional de uma meridiana
deteriorada. Sejam bons uns para os outros, leiam bons livros, viajem um
bocadito e já terão meio-caminho andado. Daqui a pouco vemo-nos em 2017.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Esboços sobre o Ontem e o Hoje (perspectivas)
No final do século XX, em Portugal, estabeleceram-se, definitivamente, ao alcance do grande público, duas tecnologias que, de facto, operaram uma mudança na sociedade: o telemóvel e a internet; dois eixos de modernidade que, hoje, se encontram, até, mais consonados do que alguma vez se pôde pensar, na configuração do smartphone, aparelho que é um verdadeiro canivete suíço digital. A concomitância do advento destas tecnologias com o final do século XX e com o final do segundo milénio da Era Comum (escrevo concomitância, porque, aqui, a palavra simultaneidade comportaria um incorrecto lastro de intencionalidade) emprestou-lhes um determinado nimbo parusístico - como se, a partir daqui, os cenários mais empolgantes e optimistas, teorizados pelos teólogos da religião do Progresso, estivessem, de facto, a dois dedos de distância da singularidade. Hoje, passada a embriaguez da novidade, percebe-se que não é - não será - assim (tão fácil). Contudo, o que interessa reter é que, após o estabelecimento dessas tecnologias, a paisagem humana mantém-se relativamente estável, no que às mudanças estruturais diz respeito.
Ou seja: pode falar-se num antes e num depois, considerando a ruptura provocada pela introdução nas nossas vidas dos telemóveis e da internet, mas reiniciando a contagem a partir daí detecta-se a homogeneidade dos costumes: os chamados nativos-digitais terão uma experiência do mundo muito diferente das gerações que os antecederam, no aspecto em que estas assistiram a algumas sismografias - a saltos na criação, para ser metafísico - que, desde 2001 para cá, ainda não encontraram ocorrências análogas. A cada ano, surgem novas versões de programas digitais, aplicações e equipamentos, mas, na verdade, as tecnologias de finais dos anos noventa do século XX permanecem as mesmas: um telemóvel (misto com computador pessoal - que é um artefacto ainda mais antigo) e a internet. A ser-se obrigado a elencar, precipitadamente, outro item igualmente impactante teria de referenciar-se a rede social.
No entanto, a rede social, enquanto princípio, tem mais semelhanças com os nossos velhos hábitos do que se poderia, à partida, pensar. Já tenho escrito, desde há muito tempo, que estabelecer ligação a uma rede social é muito parecido ao acto de ir a um café conversar com um grupo conhecido de pessoas: entramos, sentamo-nos à mesa com quem lá se encontrava antes de nós, vamos conversando; à medida que uns se vão ausentando outros vão chegando, criando-se conversas paralelas entre indivíduos que estão na mesma mesa, entre pessoas que estão nas mesas do lado e tudo se vai entrecruzando. Observa-se isso no modo como, por exemplo, se vão desenvolvendo os comentários nas publicações de Facebook, nos espaços previstos para o efeito. Até a publicidade que vai aparecendo nas margens e nas molduras das janelas de navegação equivale à televisão ligada no café ou aos jornais e revistas folheados por quem está ao nosso lado e que vão, pontualmente, concorrendo para chamar-nos a atenção. Uma das grandes diferenças entre ambas as experiências - o ir-se a um café para conversar ou aceder a uma rede social para conversar por escrito (ou não) - reside no feitio como se desdobram as consequências e o fenómeno do inesperado.
No mundo físico, as consequências são imediatas - demasiado, até. No mundo digital, as consequências são distantes - demasiado, também. Isto significa que apesar de a rede social transportar com sucesso para uma esfera digital um simulacro de uma experiência física, com todos os equivalentes a que já se aludiu, ela é incapaz de transpor a distância encurtada pelo imediato, no sentido em que este e o imprevisto são apanágio daquilo que é orgânico. O orgânico emite, constantemente, mensagens, sinais, reinterpreta a cada momento o que é emitido e o que é recebido, tudo mescla em diferentes linguagens (oral, corporal, abstracta) e níveis de entendimento (esotérico, exotérico, intrínseco e extrínseco) - e rapidamente, imediatamente. Até em relações mais especiais, inter-espécie - há uma matriz comum que pertence, em exclusivo, ao orgânico. O digital é incapaz de reproduzi-la. Espera-se demasiado do digital, tal como se esperou demasiado do telégrafo, do telefone, da televisão, das torradeiras e dos aspiradores. A comunicação está mais rápida, em certos casos, mas a consequência - ou, para ser ainda mais explícito, a inscrição - está sempre à distância. Uma distância desincorporada, como um segmento de recta a flutuar no éter: uma distância que desconhece pertença.
Desde 2001 que se anda a viver num segmento de recta desse jaez: enquanto ele flutuar num mar de equanimidade, manter-se-á a ilusão de estabilidade em que se está a tentar construir um presente. Um sintoma de que estamos a solidificar - em sublimação, do estado gasoso do incremento tecnológico estrutural de final do milénio e final de século para o actual estado sólido, em que tudo se vai sucedendo, mas em repetição, em versões actualizadas, mas sem autêntica novidade - é o do desaparecimento da especulação científica no discurso do entretenimento popular. Os indivíduos dos anos cinquenta do século passado sabiam que a ameaça nuclear era orgânica - tão orgânica quanto as torradas comidas ao pequeno-almoço. Hoje, as ameaças dos nossos dias continuam a ser orgânicas, mas vive-se, cada vez mais, na transplantação desse orgânico para um incipiente devir digital; logo, elas inscrevem-se cada vez menos: não é tanto apatia generalizada, ou anquilosamento ético, mas muito mais um desencontro entre planos ortogonais de existência que se aproximam sem se cruzar. Que se observam, lá está!, à distância.
O modelo digital é o da compartimentalização: hoje, compartimentalizamos tudo, sem que exista comunicação entre as categorias estanques em que se arrumam diferentes elementos.
(Imagem: Alegoria da Simulação. Lorenzo Lippi, 1640.)
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