
Gradualmente, compreendi que uma das características que mais me tem
afastado da leitura e da contemplação da ficção contemporânea - em
principal, séries televisivas e filmes - é a sua serialização; ou seja: a
continuidade - tautológica, na maioria das vezes, esclareça-se - de
contínuos cosmos ficcionais. Nesse sentido, a palavra "serialização", na
acepção de "produção ao modo industrial" é muitíssimo adequada. Tomemos
como exemplo os actuais filmes de super-heróis: cada novo filme que
estreia procura ser mais um tijolo num grande muro em que se almeja
projectar todo um universo super-heroístico, no qual cada filme
sequencia ou referencia determinados eventos ou situações plasmados em
outros; subordinadas a essa mecânica, personagens de certos filmes têm,
necessariamente, de figurar em outros, tornando-se, nesse jaez,
geradoras de uma hiperatrofiada diafaneidade, ou seja, não há nenhuma
opacidade - a opacidade conveniente à metáfora - entre essas produções. O
efeito invisível, mas tangível, dessa abolição de distâncias é, não só a
destruição de diversos pontos de fuga - por conseguinte, o rebatimento
de múltiplas perspectivas num plano único -, mas a corrosão da fantasia.
O que é que isto significa?
Significa que o, já aludido, carácter
metafórico ou alegórico - digamos "simbólico" - da própria fantasia é
desgastado pela violenta fricção com a artificial, mas duríssima,
realidade virtual composta pelo empilhamento de referências cruzadas
que, em estilo autofágico, vai substituindo o simbólico em favor do
logicismo, da coerência sequencial. Com efeito, o valor do simbólico é a
anti-reificação, qualidade cognata da sua unicidade, da sua
exclusividade. O simbólico - e, por metonímia, a fantasia (que é matriz
do simbólico) - vive sempre da reciprocidade entre significado,
codificação e contexto. Logo, a construção sequencial de um "plano
único" onde, rebatidos, como vimos, coexistem múltiplos pontos,
chamemos-lhe isso, que se vão acumulando sem hipótese de escapar à
unidimensionalidade, desgasta a fantasia, porque, tratando-se de um
plano único auto-referencial, todos esses pontos têm de manter a
coerência intrínseca - ou seja, não há liberdade para o simbólico. Um
excelente exemplo desta tese é o facto de a melhor e mais ressonante -
do ponto de vista simbólico - cena do filme The Dark Knight Rises ter
sido a mais censurada pela crítica e pelo público: do ponto de vista
simbólico, do ponto de vista da fantasia, não é válido exercer-se a
descrença sobre se, naquele instante em específico do filme, o
protagonista teria tido oportunidade ou meios materiais suficientes para
inflamar em grande formato o seu signo num local alto o suficiente para
que a população da cidade em estado de sítio o pudesse ver e saber do
seu adiado regresso; do ponto de vista simbólico, do ponto de vista da
fantasia, só é válida a carga emocional, transcendental, invocada, cuja
comunicação passa por uma subtil dialéctica não-material. Ora, o hábito
já impregnado na audiência de estar-se diante de universos
auto-referenciais coerentes, faz com que a coerência, o logicismo, erga
uma barreira de descrença entre o público e os poucos apontamentos de
pura fantasia/simbolismo que residam em produções cada vez menos
imaginativas e cada vez mais preocupadas em conservar e alimentar e
reproduzir estanques lógicas internas que obrigam, provavelmente, a um
virar do avesso do holismo: sob a holística, o isolado só pode ser
percepcionado por via da totalidade; mas no tal muro super-heroístico, a
totalidade é apenas um pretexto para se desfrutar convenientemente do
isolado. No fundo, a fantasia e o simbólico são, pela sua natureza,
entidades descontínuas - ou, em linguagem audiovisual, "episódicas". A
serialização elimina-lhes os fins específicos.