terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Polémica de vãos de escadas
Os comentários que ouço e leio pela comunicação social e pela Internet influenciam-me a conjecturar que, de facto, pouca gente conhecia o poema Ode Triunfal do heterónimo Álvaro de Campos, criado por Fernando Pessoa, tais os niveis de estupefacção e indignação pela revelação que contém passagens algo heterodoxas.
Ora, Álvaro de Campos é o avatar pessoano de um estilo que se quer Futurista, logo muitíssimo severo para com a sociedade que a Europa herdou do século XIX, inspirando essa crítica violenta da sociedade urbana — cosmopolita, considerada imoral na sua atomização do indivíduo (o que é Kafka, senão uma espécie de futurista niilista?) — as de outros movimentos posteriores, de aspectos análogos, como o Dadaísmo, surgido em meados da Primeira Grande Guerra. Todavia, se o Dadaísmo enfatizava — e se opunha — ao absurdo e horror dessa guerra massificada, industrializada, o Futurismo abraçara a velocidade, a indústria e a violência como ferramentas revolucionárias que iriam esboroar uma ordem social liberal, considerada decadente. Já em 1909, Marinetti, pai do Futurismo, cantava no seu Manifesto que o ruído de um automóvel a correr ou os disparos de uma metralhadora eram mais belos e pertinentes que a Vitória de Samotrácia. Daí que as putas, mais as meninas que masturbam homens de aspecto decente em vãos de escada de Ode Triunfal, são como que lâminas nas quais se reflecte todo o estertor de uma sociedade liberal de início de século considerada corrupta, imoral e hipócrita pelos futuristas e outros istas (como os fascistas, mas isso é outra história).
Fica ainda a revelação que Pessoa escreveu várias vezes sobre as suas próprias práticas masturbatórias, onanistas, e que não andam meninas por essas fantasias solitárias.
Nota sobre o Absoluto
Ao
ler neste momento sobre o problema filosófico do Absoluto, lembrei-me,
de modo absoluto (isto é, acabado em si mesmo, não-contingente), de
determinados espaços que vi poucas vezes na minha infância, mas que
sempre considerei fascinantes: a estância e a drogaria. Na minha
geografia mental, eles nunca contêm pessoas (tal como as melhores
pinturas de Hammershoi), somente um florilégio de objectos e
briquebraques, como espelhos, escovas, panos, louças; ali, na estância
de atmosfera seca — tão grande que parecia uma imperfeição para a qual a
ortogonal malha cosmopolita consistia em pérola — estão suspensas sobre
o longo balcão de madeira dezenas de alfaias esqualomórficas,
lemniscatas de ferro e cobre cujo uso nunca determinei: que estranha
física, aquela que elevava o metal ao tecto e agarrava papel, areia e
plástico ao chão, nas formas mais dóceis e perceptíveis de lixas,
serraduras e mangueiras. Porém, na recendente drogaria todos os
artefactos derivavam uns dos outros, em estonteante reprodução assexuada
— amebas de vidro e tecido, de borracha e cortiça, dispostas nas
escadas, nas paredes e nas portas. Infenitesimais parafusos coabitavam
com colossais misturadoras de cimento, cujo antracíticos ventres davam
ares de gigantes caldeirões caligráficos numa lista medieval. Cheira a
cera e a suor e a farinha creme que se desprende de contraplacado
serrado vai misturar-se como cacau em pó com a luz projectada da rua
pela porta. E, no entanto, não existem pessoas nestes espaços
atafulhados. Todos os sons, cores e formas estão lá por si só. E ao lado
da caixa registadora vê-se um calendário cheio de pó e lascas de
ferrugem: sem utilidade num espaço intemporal que é o da mente, é livre
para existir por si mesmo, sem a contingência que o unia à marcação do
tempo. Tóteme do absoluto num interior tão desértico e relevante quanto
uma paisagem marciana.
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Vilhelm Hammershoi
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
Crowley, Pessoa e a Criança Eterna*
Escreveu o autor
português João Gaspar Simões, primeiro biógrafo do poeta português Fernando
Pessoa, que «charlatanismo e magia sempre andaram a par»[1],
referindo-se ao imprevisível encontro deste com o mago inglês Aleister Crowley.
Depois de ter ficado retido um dia suplementar no porto espanhol de Vigo, por
culpa de um espesso nevoeiro, o paquete Alcântara finalmente atracou em
Lisboa, no cais da Rocha do Conde de Óbidos, no dia 2 de Setembro de 1930 [2].
Ao encontrar-se com Pessoa, Crowley perguntou-lhe: «-Então que ideia foi
essa de me mandar um nevoeiro lá para cima?»[3] Esta frase, mais ou menos
apócrifa, mais ou menos real, tem-se esgueirado incólume entre as lâminas dos
escalpelos empregues pelos exegetas; pois que outra coisa poderá significar,
senão o facto de Crowley já ter compreendido, através do ritmo e entrelinhas da
sua prévia correspondência com Pessoa [4], que este, de facto, não tinha muita
vontade em encontrar-se com ele? Aquele encontro “mágico”, que se desenrolaria
a partir daquele desembarque, fora, em larga medida, projectado à pressa por
Crowley nos meses anteriores. Não é, pois, surpreendente que, em Setembro do
ano seguinte, Crowley se queixaria por escrito a Pessoa por não receber
notícias suas há bastante tempo [5]. Assim, por qual razão terá Crowley
insistido em encontrar-se com Pessoa em Lisboa? Robert Bréchon, biógrafo
francês de Pessoa, oferece uma contextualização lúcida a esse respeito: «É
portanto um homem desesperado que, em Agosto de 1930, decide ir a Lisboa
encontrar-se com Pessoa.»[6]
Crowley, claro,
disfarçava esse desespero com atitudes provocatórias e comportamentos
excêntricos [7], mas deve ter sentido, muito à flor da pele, que o seu
território de caça se cerceava rapidamente: já tinha sido expulso de Itália, em
Abril de 1923, por actividades subversivas e suspeita de simpatias comunistas [8];
fora expulso de França, em Abril de 1929, por suspeita de ser um espião a soldo
dos alemães [9] (embora Crowley declarasse que o motivo tinha sido o facto de a
polícia considerar que a sua máquina de café era, na realidade, um aparelho
para destilar cocaína [10]). Em relação à animosidade que o próprio Reino Unido
cevava contra ele, o jornal inglês John Bull congratulou-se com uma
súmula de todas as proscrições: «Soon Hell will be the only place which will
have you. You were driven out of England, America deported you
and so did Sicily. Now France
has given you marching orders.»[11] Nesta perspectiva aclara-se o motivo pelo qual Crowley decidiu
encontrar-se com Pessoa: terá pensado que o poeta poderia ser um bom homem de
mão – fluente em inglês – para ajudá-lo a criar em Lisboa (urbe voltada para o
Atlântico, placa giratória entre as Américas e a Europa) uma dependência da
ordem Argenteum Astrum (ou A∴A∴, como costuma ser grafada, de molde a permitir
diversas interpretações [12]), que criara a 15 de Novembro de 1907
(conjuntamente com George Cecil Jones e J. F. C. Fuller)[13], e cujo texto
basilar foi, precisamente, O Livro da Lei (Liber AL),
escrito em 1904.
Investigações
contemporâneas sobre o espólio documental de Crowley, referente ao seu encontro
com Pessoa, revelam que o poeta português Raul Leal (que assinava com o
pseudónimo Henoch e foi autor de Sodoma Divinizada, em 1923, entre
outros trabalhos) recebeu Crowley no seu apartamento da Rua das Salgadeiras, no
Bairro Alto, em Lisboa, no dia 9 de Setembro de 1930, para se submeter a algum
tipo de iniciação de carácter esotérico [14]. Desde o início do ano, pelo
menos, que Leal se correspondia com Crowley, visando, em específico, ser
iniciado por este num caminho mágico [15]. Mais tarde, em Julho de 1950, o
próprio Leal escreveu sobre esse secreto encontro a João Gaspar Simões,
referindo-lhe a presença de Pessoa, mas não mencionou qualquer iniciação de
pendor esotérico; somente escreveu que Crowley lhes tinha provocado, por via de
um «maléfico» sortilégio, uma enigmática doença que, no caso de Pessoa,
lhe provocara a morte cinco anos depois [16]. Segundo outra interpretação, o
silêncio de Leal sobre a suposta iniciação poderá relacionar-se com o facto de
esta ter consistido numa partida que lhe foi pregada por Crowley e Pessoa [17].
No que concerne à iniciação de Pessoa por Crowley numa das suas ordens, o
argumento mais conspícuo cifra-se numa circular destinada em exclusivo a
membros da A∴A∴ e enviada por Crowley a Pessoa, datada de 21
de Março de 1932 [18]. Quer isto dizer que Pessoa seria um iniciado – um
discípulo formal? Ou seria uma estratégia elegante de Crowley lhe chamar a
atenção, sem se comprometer, posto que, como vimos, o poeta lhe deixara de
enviar correspondência? Seja como for, o que é verdadeiro é que Pessoa e
Crowley não se terão visto mais do que três vezes – no cômputo, um encontro
fugidio.
Pese o facto de o
encontro entre ambos não ter feito medrar frutos mais férteis, Fernando Pessoa
e Aleister Crowley tinham bastantes realidades em comum: ambos foram criaturas
moldadas por um rígido sistema educacional britânico, sob o qual era mal visto
os rapazes demonstrarem as suas emoções (um sistema que fez Crowley explodir e
Pessoa implodir) [19]; e ambos partilharam o mesmo sentido de humor truculento
(a comprová-lo, o episódio da suposta iniciação de Leal?), o interesse pelas
letras e pelo oculto. Para Pessoa, a iniciação era «uma admissão à
conversação com os anjos» e a poesia o canal que conduzia a essa iniciação [20];
tal como para Crowley o canal para a conversação com o Sagrado Anjo da Guarda
era a magia [21]. Mas a maior afinidade entre eles foi, certamente, a paixão
pela pseudonímia.
Pessoa criou dezenas
de heterónimos, personagens literárias com biografias, personalidades e estilos
autorais distintos, com as quais assinava a maioria dos seus escritos; e
Aleister Crowley criou dezenas de pseudónimos para assinar os artigos e ensaios
que publicou em The Equinox e diversas personagens com as quais escrevia
sobre si próprio nos seus livros. Já em criança, Fernando Pessoa criava
personalidades fictícias para assinar pequenos versos, composições ou,
simplesmente, para vestir essas peles em brincadeiras com os irmãos: Chevalier
de Pas, Alexander Search, Capitão Thibeaut, Quebranto Oessus ou Adolph Moscow
são algumas das primeiras personagens da infância pessoana, passada em Durban,
na África do Sul [22]. Já em adulto, em Lisboa, Fernando Pessoa iria assumir
uma espécie de metempsicose zoomórfica através da figura do Íbis: ave pernalta
que na mitologia egípcia é avatar do deus Toth, o criador da escrita e da
magia. Durante algum tempo, quando saía com a família, costumava parar de
repente na rua para assumir a postura de um íbis, recolhendo uma perna e
encostando o dedo ao nariz, para enorme embaraço de quem o acompanhava – era
uma pantomima quasi-ritualística, à guisa de santo-e-senha de sociedade secreta
[23]. Aleister Crowley tinha, também, uma brincadeira de rua com a qual
espantava os amigos e os estranhos a quem procurava convencer da autenticidade
dos seus poderes mágicos: consistia em seguir um transeunte, escolhido
aleatoriamente, e imitar-lhe na perfeição os movimentos; quando atingia essa
sincronia, simulava de repente uma queda e divertia-se imenso a ver o indivíduo
desequilibrar-se sem perceber que força indesvendável o fizera tropeçar [24].
Contudo,
superiorizando-se a todas estas afinidades de formação e de partilha de senso
de humor e gosto pelo universo do oculto assomava uma enorme diferença: Crowley
era um homem do mundo, um intrépido viajante, um extrovertido sem limites;
Pessoa era um cidadão do imaginário e só viajava por algumas ruas da Baixa
Pombalina – o máximo que se afastava de Lisboa era a distância que a apartava
da cidade alentejana de Évora. Nem Pessoa seria capaz de acompanhar Crowley,
nem Crowley seria capaz de manter-se quedo para fazer companhia a Pessoa. Uma
única diferença pode escavar um fosso entre duas almas tão parecidas.
O encontro de Crowley
e Pessoa tornou-se conhecido em virtude da brincadeira engendrada em volta do
falso suicídio de Crowley no sítio baptizado de modo dramático de Boca do
Inferno, em Cascais [25]. O local, acidente geológico em que uma gruta
esgaivada pelo oceano Atlântico colapsou deixando aberta uma confragosa
concavidade, decorada por um arco natural, impressiona pela força com que as
águas chocam com as rochas; em principal, nos meses de Inverno. Hoje, uma placa
memorialista recorda aos visitantes o ludíbrio imaginado por Crowley (para
divertir-se à custa da sua desavinda namorada alemã Hanni Jaeger [26]) e coadjuvado
por Pessoa. No entanto, na nossa opinião, o remanescente mais relevante desse
encontro não consiste nesse golpe “publicitário”.
De facto, estudando as
biografias destes protagonistas, pode constatar-se que 1930 cifra uma data de
charneira nas vidas de Crowley e Pessoa, manifestando-se neles duas mudanças de
admirável pendor análogo: ambos perderam rapidamente o interesse que mantinham
no comentário político e enveredaram com maior serenidade no caminho esotérico.
Em Crowley, essa serenidade é flagrante: o papel de verrinoso profeta do Éon de
Hórus, a Idade da Criança Coroada e Conquistadora preconizada n’O Livro da
Lei, deu lugar ao de um instrutor, de um mestre de magia – compare-se o
estilo intenso e até revolucionário do livro sobredito [27] com a abordagem
empática e paciente do livro Magick Without Tears, escrito ao longo da
década de 1940 e publicado postumamente em 1954 (Crowley faleceu em 1947). São
textos escritos por mentalidades totalmente diferentes. Pessoa, por outro lado,
dedicou os seus últimos anos de vida (faleceu em 1935) a desenvolver o seu
próprio sistema mágico: segundo alguns autores, denominou esse sistema por
Caminho da Serpente [28]. É tentador projectar nestes percursos de vida uma
transmigração de um para o outro de, pelo menos, parte das suas atitudes.
Pese a circunstância
de a relação epistolar de ambos não ter ido além de 1931, apesar da insistência
de Crowley, os dois comparsas provisórios conservaram gestos simpáticos de um
para com o outro. Pessoa, por exemplo, ao abrigo da identidade de um detective
inglês que inventou para escrever sobre o falso suicídio na Boca do Inferno,
numa novela deixada incompleta, deixou um lúcido testemunho sobre Crowley – uma
opinião que, sob o resguardo de uma perspectiva ficcional, se assume,
parece-nos, com a maior das sinceridades:
«Um homem como Crowley põe um problema insolúvel às pessoas para quem todos os problemas devem ser insolúveis, por direito próprio. Ele apresenta-se ao mundo, simultaneamente, como um profundo ocultista e mago, e como uma espécie de charlatão. Não confirmo nem nego nenhuma das hipóteses. Mas a sua coexistência é perfeitamente possível. Ficaria muito surpreendido se ele fosse uma celebridade em termos práticos, um indivíduo conhecido, como Wells ou Shaw, que são, na verdade e na raiz das coisas, bem menos profundos e mais superficiais do que Crowley.»[29]
Crowley, que compôs
uma leitura muito positiva de Pessoa, aquando da passagem por Lisboa, reteve o
impacto que lhe provocara a poesia deste, não se coibindo de recomendá-la com
entusiasmo a amigos e associados, em mais do que uma ocasião [30].
Em relação à poesia de
Pessoa, em múltiplos aspectos ela harmoniza-se, se não com as intenções, no
mínimo com a temática crowleyana – com um especial e específico múnus espiritual.
Atente-se, em jeito de ilustração, a dois poemas: um do heterónimo Alexander
Search e outro do heterónimo Alberto Caeiro, ambos sobre a temática do Puer
Aeternus, a Criança Eterna. Em Regret, de Search, pode ler-se o
seguinte: «I would that I were again a child / And a child you sweet and
pure, / That we might be free and wild / In our consciousness obscure / (...)»[31].
Mais tarde, sob a identidade de
Caeiro, Pessoa escreveu: «Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. /
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. / Ele é o humano que é
natural, / Ele é o divino que sorri e que brinca.»[32] N’O Livro da Lei,
o Senhor do Silêncio e da Força com cabeça de falcão não possui a ludicidade da
Eterna Criança pessoana [33], embora seja, também, uma criança eterna – uma
versão pós-industrial do arquétipo da Divina Criança, num recorte neojoaquimita
[34].
*Texto de minha
autoria, publicado originalmente em CROWLEY, Aleister, Liber Al vel Legis, O
Livro da Lei, São Paulo, Chave, 2017, pp. 195-203.
[1] SIMÕES, João
Gaspar, Vida e Obra de Fernando Pessoa. História de uma Geração, Lisboa,
Livraria Bertrand, 1980, 4ª edição, p. 593.
[2] IDEM, ibidem,
p. 601.
[3] Loc. cit.
[4] Iniciada por
Pessoa, com uma carta enviada a The Mandrake Press, a 18 de Novembro de 1929.
Cf. ROZA, Miguel (ed.), Encontro Magick de Fernando Pessoa e Aleister
Crowley, Lisboa, Hugin Editores, Lda., 2001, p. 60.
[5] Numa carta datada
de 18 de Setembro de 1931. In IDEM, ibidem, pp. 378-380.
[6] BRÉCHON, Robert, Estranho
Estrangeiro. Uma Biografia de Fernando Pessoa, Lisboa, Quetzal Editores,
1996, p. 485.
[7] Como transformar
em galeria de arte o quarto de hotel que ocupava em Londres no Verão de 1930 –
foi expulso. In KACZYNSKI, Richard, Perdurabo. The Life of
Aleister Crowley, Berkeley, North Atlantic Books, 2010, p. 448.
[8] CHURTON,
Tobias, Aleister Crowley, the Biography. Spiritual Revolutionary, Romantic
Explorer, Occult Master – and Spy, Londres, Watkins Publishing, 2012, p.
263-267.
[9] SUTTIN,
Lawrence, Do What Thou Wilt. A Life of Aleister Crowley, Nova Iorque,
St. Martin’s Press, 2000, p. 341.
[10] SYMONDS,
John, The King of the Shadow Realm. Aleister Crowley: His Life and Magic,
Londres, Duckworth, 1989, p. 437.
[11] Edição de 27 de
Abril de 1929. Cf. KACZYNSKI, op. cit., pp. 439-440.
[12] Representações
acronímicas pontuadas por triângulos formados por três pontos comportam, em
determinados círculos esotéricos, a noção de que a ordem ou sociedade assim
grafada se encontra, de um modo directo, na continuidade de Mistérios Antigos,
de matriz clássica ou até pré-clássica.
[13] KACZYNSKI, op.
cit., p. 173. A sede e o templo-matriz da A∴A∴
situavam-se num apartamento alugado em Victoria Street, nº 124, na vizinhança
dos jardins do palácio de Buckingham, cf. BOOTH, Martin, A Magick Life. A
Biography of Aleister Crowley, Londres, Coronet Books, 2001, p. 264.
[14] PASI,
Marco, “September 1930, Lisbon: Aleister Crowley’s lost diary of his Portuguese
trip” (pp. 255-283), in Pessoa Plural, nº1, Providence, Brown
University, 2012, p. 260.
[15] Loc. cit.
[16] LEAL, Raul,
“Carta de Raul Leal a João Gaspar Simões a propósito de “Vida e Obra de
Fernando Pessoa” e de Aleister Crowley”, (pp. 54-57), in Persona, nº7,
Porto, Centro de Estudos Pessoanos/Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, 1982.
[17] DIX,
Steffen, “An implausible encounter and a theatrical suicide – its prologue and
aftermath: Fernando Pessoa e Aleister Crowley”, (pp. 169-180), in CASTRO,
Mariana Gray de (ed.), Fernando Pessoa’s Modernity without Frontiers:
Influences, Dialogues, Responses, Woodbridge, Tamesis Books, 2013, p. 180.
[18] ROZA, op. cit.,
pp. 390-392.
[19] Para Pessoa, ler,
por exemplo, BRÉCHON, op. cit., pp. 61-67; e, também, QUADROS, António, Fernando
Pessoa. Vida, Personalidade e Génio. Uma biografia «autobiográfica»,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 5ª edição, 2000, pp. 25-27. Para Crowley,
observar o acontecimento fulcral narrado em CROWLEY, Aleister, The
Confessions of Aleister Crowley. An Autohagiography, SYMONDS,
John; GRANT, Kenneth (eds.), Londres, Arkana Books/Penguin Books, 1989, pp.
52-53. De igual maneira, o
argumento expresso em HUTIN, Serge, Aleister Crowley. Le plus grand des
mages modernes, Verviers, Editions Gérard & Cº, 1973, p. 74. Sem ser a última palavra sobre este período da
vida do protagonista, não se ignore o relato mais “sensacionalista” publicado
em KING, Francis, Mega Therion. The Magickal World of
Aleister Crowley, s.l., Creation Books, 2004, pp. 9-10.
[20] BINET, Ana
Maria, “Pessoa, Fernando, 13.6.1888 Lisbon-30.11.1935 Lisbon”, (pp. 942-944),
in HANEGRAAFF, Wouter J. (ed.); FAIVRE, Antoine; BROEK, Roelof van der; BRACH,
Jean-Pierre (col.), Dictionary of Gnosis & Western Esotericism,
Leiden, Brill, 2006, p. 943.
[21] Cf.
CROWLEY, Aleister; DESTI, Mary; WADDELL, Leila, Magick. Liber ABA. Book Four, Parts I-IV, BETA,
Hymenaeus (ed.), York Beach, Samuel Weiser, Inc., 2ª edição, 2000, p.112.
Também PASI, Marco, “Crowley, Aleister (born Edward Alexander), 12.10.1875
Leamington, 1.12.1947 Hastings”, (pp.281-287), in HANEGRAAFF, op.
cit., p. 285-286.
[22] NOGUEIRA,
Manuela, Fernando Pessoa. Imagens de uma Vida, GALHOZ, Maria Aliete
(apr.); ZENITH, Richard (pref.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 22.
[23] BRÉCHON, op.
cit., p. 96; FERREIRA, António Mega, Fazer Pela Vida. Um Retrato de
Fernando Pessoa, o empreendedor, Lisboa, Assírio & Alvim, p. 66.
[24] SUTIN, op.
cit., p. 272.
[25] Também conhecido
por Mata-Cães.
[26] Na verdade,
Crowley já planeava forjar o seu suicídio há bastante tempo, cf. PASI, op.
cit., p. 259, n. 17.
[27] No início do
século XIII, já a reforma de Císter ia a meio-gás, o movimento milenarista
medieval reforça-se inesperadamente com o desenvolvimento do Joaquimismo:
corrente criada em volta das ideias do frade cisterciense calabrês Joaquim de
Fiore, falecido em 1202 (a Calábria é a biqueira da "bota" italiana e
nessa altura fazia parte do reino da Sicília). Em essência, o modelo
milenarista joaquimita consiste numa visão macro-histórica das origens e
destino da humanidade, formada por Três Idades, à semelhança da Santíssima
Trindade: a pretérita Idade do Pai (os eventos narrados no Antigo Testamento),
a presente Idade do Filho (os eventos narrados no Novo Testamento e a Era da
Igreja) e a vindoura Idade do Espírito Santo (um período emergente de profunda
contemplação espiritual, perfeição e paz). Joaquim de Fiore criou esta doutrina
através do estudo do livro Apocalipse e calculou que a Idade do Espírito
Santo despontaria em 1260. Três anos depois dessa data, no Sínodo de Arles, o
Papa Alexandre IV condenou o Joaquimismo como sendo uma perigosa heresia. Por
que é que uma Idade do Espírito Santo, plena de profunda contemplação,
perfeição e paz, consistia numa perigosa heresia? Embora a profunda
contemplação, a perfeição e a paz joaquimitas fossem conceitos com os quais, em
princípio, a Igreja não teria grandes dificuldades em lidar, Joaquim de Fiore
também profetizou que a Idade do Espírito Santo traria o desmantelamento
definitivo de todas as estruturas eclesiásticas - e isso é que a Igreja não
podia tolerar; daí a condenação tout court do Joaquimismo (na verdade, o
Papa Inocêncio III já o tinha condenado, mas apenas em parte, em 1215, no IV
Concílio de Latrão). Independentemente disso, o Joaquimismo fez furor entre os
franciscanos, que sempre foram, de certa forma, bastante anti-institucionais e,
ao longo dos séculos vindouros, o milenarismo joaquimita provou ser um poderoso
algoritmo, capaz de adaptar-se e dar sentido a um florilégio estonteante de
ideias milenaristas de várias proveniências. Entre elas, o milenarismo
crowleyano.
Não reste dúvidas que
a narrativa apocalíptica de The Book of the Law (até este título é o
mesmo nome que os judeus dão ao Pentateuco) é, em essência, uma nova versão do
velho ideal milenarista, apocalíptico – em maior espessura, do milenarismo de
recorte joaquimita. Na visão milenarista de Aleister Crowley, desenvolvida em The
Book of the Law, pedra basilar do edifício de Thelema, as Três Idades são
as seguintes: a Idade da Mãe (uma idade que simboliza uma hipotética madrugada
histórica matriarcal, cujo narradora é Nuit, a deusa egípcia da Noite), a Idade
do Pai (a idade das religiões patriarcais e monoteístas, cujo narrador é Hadit,
noivo de Nuit) e a Idade do Filho (o Novo Éon, o início de uma nova idade
cósmica, narrada por Ra-Hoor-Khuit, jovem deus rebelde e vingativo,
identificado com Harpócrates: o deus grego do silêncio, baseado nas
representações infantes do deus egípcio Hórus, o Sol recém-nascido). Assim,
pode também dizer-se que Nuit é identificada com Ísis e Hadit com Osíris. Neste
modelo milenarista contemporâneo, sincrético, a energia iconoclasta e indomável
da juventude, representada pela Idade do Filho, combate com violência o poder
institucional e autoritário, mas decadente, moribundo, da Idade do Pai. É, de
facto, uma narrativa "revolucionária" que instiga uma mudança
violenta contra o estado das coisas – daí, na altura, ter sido entendida como
propaganda radical de Esquerda. Para Crowley, o advento do Novo Éon, do qual
ele se apresentou como profeta, na mesma linha dos profetas
veterotestamentários e de Cristo, seria uma ruptura violenta acompanhada de
terramotos e guerras. Quando os efeitos catastróficos se dissipassem,
instalar-se-ia, como esperado e costumeiro nas ideias milenaristas, a
iluminação (thelemita) num período solar de progressão espiritual.
[28] Vid., entre
outros, ANES, José Manuel, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos,
Lisboa, Ésquilo, pp. 144-152; CENTENO, Yvette K., Fernando Pessoa, Magia e
Fantasia, Porto, Edições ASA, 2003, pp. 62-75, 81-88; FREITAS, Lima de, “O
esoterismo na arte portuguesa” (pp. 176-213), in AA.VV, Portugal Misterioso,
Lisboa, Selecções do Reader’s Digest, 1998, pp.206-213; FREITAS, Lima de, Porto
do Graal. A Riqueza Ocultada da Tradição Mítico-Espiritual Portuguesa,
FREITAS, José Hartvig de (pref.), Lisboa, Ésquilo, 2006, pp. 255-282.
Sobretudo, ler PESSOA, Fernando, “XI – Para a obra intitulada «O Caminho da
Serpente»”, in QUADROS, António (pref., org., not.), Obra em Prosa de
Fernando Pessoa. A Procura da Verdade Oculta. Textos Filosóficos e Esotéricos,
Mem-Martins, Publicações Europa-América, s.d., pp. 212-219.
[29] PESSOA, Fernando,
“A Boca do Inferno. Novela policiária” (pp. 399-529), in ROZA, op. cit.,
p. 501. (Sublinhado nosso. A partir daqui todos os sublinhados em citações são
nossos.)
[30] PASI,
Marco; FERRARI, Patricio, “Fernando Pessoa and Aleister Crowley: new
discoveries and a new analysis of the documents in the Gerald Yorke collection”
(pp. 284-313), in Pessoa Plural, nº1, Providence, Brown
University, 2012, pp. 289-290.
[31] PESSOA, Fernando,
Alexander Search. Poesia, FREIRE, Luísa (ed., trad.), Lisboa, Assírio
& Alvim, 1999, p. 108.
[32] Alberto Caeiro, apud
BRÉCHON, op. cit., p. 235.
[33] Cf.
CROWLEY, Aleister, The Book of the Law, York Beach, Weiser Books, s.d.,
p. 49.
[34] Vid. supra,
n. 26.
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
Com dor de barriga no Presépio
As origens da noélica tradição catalã (e não só) que consiste em
introduzir de modo escondido no presépio a figura de um camponês
agachado a defecar, denominado de El Caganer, estão longe do
esclarecimento, mas admitindo que ela poderá comunicar com múltiplas
aportações, a maioria provavelmente perdidas, dá espaço à minha
especulação que essa personagem, na qual, com latitude exagerada, alguns
intentam explicar como sendo uma alegoria da fertilidade, se poderá
relacionar — de modo directo, o que é
mais tentador, ainda — com imagens da estirpe que aqui publico em anexo e
que representam exemplos morais ou críticas de maus comportamentos;
neste caso, a estultícia do pecador e os vícios que vai alimentando.
Não obstante essas incertezas, o significado que subjaz a esta prática
popular vestir-se-á de grande beleza, em profundo contraste com o
aspecto escatológico pelo qual é reconhecida: Cristo é presença
sobrenatural, mas oferecida de modo orgânico e material ao mundo — a
este mundo também orgânico e material —, sem que exista, para o efeito,
um momento particularmente especial ou singularmente mais dignificante;
assim, a presença de um homem que defeca no exacto instante em que Deus
feito carne é trazido à Terra na sua vizinhança representa a
generosidade imensa dessa mitologia fundacional do cristianismo, segundo
a qual a divindade vai verdadeiramente ao encontro da humanidade, em
todos os aspectos corpóreos, imperfeitos, vergônteos que a caracterizam —
pois se é de assumir que no momento em um indivíduo morre, outro está a
nascer, outros poderão estar a fazer amor, outros a comer e outros a
defecar, por que razão seria diferente para um deus tornado ser humano,
que tem como missão, precisamente, crescer e morrer como um deles, de
molde a que o inefável aprenda o que isso é? El Caganer, personagem
boçal, cruenta, de opaca organicidade, ensina-nos que todos os instantes
são dignos o suficiente para que um deus decida nascer. Tudo é Criação.
Tudo é perfeito. Qualquer hesitação é apenas vaidade.
A filosofar contra o capote*
Assistir na televisão a emissões do programa Prós e Contras sobre o tema das touradas já se vai tornando, por mérito próprio, uma espécie de para-tradição; ontem à noite*, mais uma vez os defensores e os opositores da dita festa brava esgrimiram veementemente argumentos antagónicos sem que se chegasse a qualquer tipo de conclusão. Do meu ponto de vista, ambas as trincheiras projectaram metralha: entenda-se, nuvens fragmentárias de munição pulverizada, eficaz em fazer estrago imediato, mas quiçá inútil em ganhar a guerra — que é outra forma de dizer que foram quase sempre argumentos improvisados a partir das palavras dos adversários, em vez de teses bem concertadas e impactantes.
Um dos erros frequentes, nesse debate e não só, é confundir-se constantemente a violência da tourada (no caso português, em menor grau que em outros países também tauróctonos) com um espírito passadista, caquético. Com efeito, o espectáculo da tourada possui muitos elementos anacrónicos e repetitivos, mas a violência não é um deles, pois esta é, em virtude da sua natureza, quase sempre revolucionária. Ou seja, não é pela via da crueldade e da exposição da carne coreotransmutada que a tourada estará ultrapassada. No actual panorama cultural, no nosso particular epocalismo, a violência é ritualizada, higienizada e adstrita a áreas exclusivas — à memória, assoma o trabalho seminal de Norbert Elias, Desporto e Sociedade, entre títulos diferentes de outros autores. Destapada da estanque caixa de Petri em que a enclausuramos, a violência patenteia o seu ethos mercurial, corrosivo e, sobretudo, incontrolável.
O erro de percepção permanece, por exemplo, nas comuns interpretações do fascismo que, nas últimas semanas, têm preenchido as páginas dos jornais e os ecrãs televisivos. Na entrevista que deu na edição do jornal Público do passado dia 5 de Novembro, Madeleine Albright reitera a acepção de que o fascismo é violento, porque é reaccionário, um tipo de retrocesso a um tempo de barbárie, mas se esse binómio pode ser atractivo para alguns leitores, não se sustenta à observação mais rigorosa do carácter revolucionário do fascismo e do projecto fascista de renovação de uma sociedade liberal de entre-guerras considerada fracassada e decadente; assim, a violência no fascismo que Albright traduz sob o signo do atavismo é, na verdade, uma ferramenta transformativa. Em simetria, a mesma lógica se encontra em outros projectos político-messiânicos e revolucionários do século XX, como o comunismo soviético, chinês e cambojano e no nacional-socialismo alemão: a violência ritualizada, mas jactante, abrupta, é, nestes campos, um éter que suporta o espírito de um tempo industrializado, eléctrico, um relâmpago de ruptura.
Ora, a violência na tourada é, também, revolucionária, no sentido transformativo: no livro O Processo Ritual, Victor Turner falava do espectador desta estirpe de espectáculos como um ser liminal, à beira da transformação — e, na verdade, pouco existirá de projecção mútua entre espectador e touro no que concerne aos valores que subjazem à tourada enquanto cápsula do tempo; em suma, só a regeneração catártica da violência se encontra, ainda, operativa. Só ela se afirma, pois as restantes dimensões históricas, até religiosas, quem sabe?, que coalesceram o espectáculo desapareceram.
Para ilustrar essa ideia recupero uma imagem do filme Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, sobre a emergência do fascismo. O filme é politicamente comprometido e o retrato histórico que se quer fidedigno apresenta-se, em demasiados aspectos, caricatural; contudo, lembrei-me dele em virtude da infame cena em que a personagem interpretada por Donald Sutherland, um fascista recém-saído do casulo, pendura num cabide com o auxílio do seu cinto um gato que desfaz com uma cabeçada para mostrar aos seus gemebundos colegas a maneira correcta de lidar com os comunistas. Ignoro o grau de conhecimento histórico que o realizador e argumentistas teriam das tradições populares italianas, mas calculo que entre os espectadores mais idosos tenha existido quem recordasse uma velha tradição italiana que consistia, precisamente, em amarrar gatos a postes ou troncos para, de seguida, cabeceá-los até à morte.
Em determinados períodos, esta prática revestiu-se de contornos de concurso e os participantes, de mãos atadas atrás das costas e cabeças rapadas, tentavam não ser gazofilados pelas garras enquanto procuravam esmagar com a testa os crânios dos gatos. Em tempos mais recuados, usavam capacetes pontiagudos, pelo que pode arguir-se, com cinismo, que o novo figurino, de mãos atadas e cabeças nuas, foi um encontro a uma contenda mais justa, de molde a que os gatos melhor mostrassem a sua bravura. Todavia, o que pretendo reter desta memória histórica — que, certamente, tem passado ao lado de quem viu o filme ou se dedica à sua crítica — é o facto de a violência, mesmo quando irrompe por via do atavismo, que neste caso é a tradição miserável de cabecear gatos, tem como horizonte a transformação, como no caso do fascismo de Novecento. A personagem de Sutherland não se vê como um agente a soldo do passado — pelo contrário, despreza-o e intenta ultrapassá-lo.
Não estou, de modo algum, a criar pontes entre fascismo e tourada: estou, sim, a reforçar a noção que a violência é sempre actual, futurista. Mesmo quando parece prisioneira de velhíssimas tradições rurais. Ao contrário do que pensam os detractores das touradas, é precisamente pela via da violência que esta mantém a sua actualidade.
*Artigo publicado originalmente a 20 de Novembro na minha página de Facebook.
Em guerra com o epocalismo
Nas últimas semanas, passada a efeméride do armistício da Primeira
Grande Guerra, tem-se difundido a ideia errada que essa foi a primeira
guerra "moderna" ou "industrial", quando, na verdade, não foi nem uma
coisa, nem outra, muito menos a primeira guerra "mundial".
Quanto
à última classificação, essa deverá ser atribuída à Guerra dos Sete
Anos, de 1756 a 1763, conflito que, à época, envolveu toda a Europa e as
suas dependências ultramarinas, num inédito cenário global (a sátira Cândido, ou O Optimismo de Voltaire, publicada em 1759, tem como pano de fundo este confronto).
No que concerne aos primeiros dois epítetos, pertencerão à Guerra Civil
Americana, de 1861 a 1865, na qual figuraram profusamente granadas,
metralhadoras, bombas, caminhos de ferro, telégrafos, barcos couraçados e
submarinos. Aquilo que esta guerra perde em expansão continental
recupera em sanguinolência, pois também aqui se estreou o conceito de
"guerra total" (embora sem esse nome, que só apareceria na Primeira
Guerra Mundial).
Na realidade, a Primeira Guerra Mundial —
espécie de grande guerra civil europeia — deixou ainda bastantes
terrenos incólumes que, um pouco mais à frente, outra catástrofe de
contornos maciços tratou de terraplanar sem piedade: o impacto — este,
sim, autenticamente global — do 'crash' da bolsa de valores americana,
cuja reverberação afectou economias que a Primeira Guerra Mundial não
ameaçara drasticamente; e, sobretudo, teve um efeito devastador na
economia alemã — mais que a obrigação de pagar as reparações de guerra
estipuladas no tratado de Versalhes.
Para não complicar demasiado as coisas, nem sequer falei na Guerra da Crimeia, de 1853 a 1856...
Dez anos de "Lisboa Triunfante"
Fez ontem dez anos que foi lançado, no fórum da loja FNAC do centro
comercial Colombo, o meu romance Lisboa Triunfante (Saída de
Emergência). Passado esse período, penso que o tema principal do livro,
em vez de ser a cidade de Lisboa, como sempre considerei, é, na verdade,
o tempo — o que é, como nos relacionamos com ele, de que modo somos
transformados pela sua acção. Lisboa é a caixa de Petri dessa análise à
nossa relação com o tempo; uma análise que, como é sabido por quem
leu, se assume com a maior duração temporal possível. Só a Raposa e o
Lagarto não vêem o tempo a passar por eles: quem vive nas alturas
percebe o tempo com maior velocidade, diz a Física — vivendo num andar
superior da existência, ambos vêem o tempo tão depressa, que é como se
estivessem eternamente na mesma coordenada. É por isso que tanto gostam
de imiscuir-se nos nossos assuntos: o ser humano oferece-lhes realidade.
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terça-feira, 6 de novembro de 2018
A Ignota Ilha Digital; ou, O verdadeiro Fernão de Magalhães que se levante, por favor
Ontem, na abertura oficinal (não se trata de erro: quis, de facto, usar esta palavra, que melhor expressa o aspecto de receituário técnico exudado por esse protocolo), do Web Summit, o presidente da câmara municipal de Lisboa Fernado Medina comparou Paddy Cosgrave, criador do evento, a Fernão de Magalhães, assinalando-o com a oferta em palco de um retrato desse navegador português. Segundo as palavras de Medina, agora Lisboa abre fronteiras por mérito de Cosgrave.
A partir daqui, interessa-me uma observação mais rigorosa sobre o generalizado fenómeno da importância desmesurada que é atribuída às tecnologias digitais — sobretudo quando o seu poder é comparado a uma ruptura epistemológica que, na verdade, não precisou de Internet para coisa alguma: a da navegação astronómica dos seculos XV e XVI, desenvolvida, em principal, por navegantes portugueses, com o auxílio de ferramentas bastante simples. Com efeito, as técnicas e instrumentos que permitiram o descobrimento de novas rotas marítimas durante esse período da expansão portuguesa — e que serviram, de facto, para desencravar o mundo — estão em oposição às tecnologias digitais, que, por mais complexas que sejam as suas cabalísticas linguagens, somente compreendidas na totalidade por engenheiros informáticos e programadores especializados, se cifram em atalhos comunicacionais que, quase sempre, se tornam a si próprios obsoletos. Como se se operasse em smartphones e tablets uma senescência programada da mesma ordem que aquela que delimita a vida útil de outros electrodomésticos menos vistosos, como torradeiras e máquinas de lavar louça.
Em suma, a vantagem do uso das tecnologias digitais está em alcançar de modo mais veloz, imediato e, em alguns casos excepcionais, exacto, tarefas que, no fundo, poderiam perfeitamente continuar a ser realizadas de maneiras analógicas. Inversamente à ruptura epistemológica estreada com o advento da navegação astronómica (ao nivel do impacto que tiveram os desenvolvimentos das concomitantes artilharia móvel e imprensa de caracteres móveis), essa madrinha da Modernidade, o surgimento da Internet ainda não trouxe nenhum mundo novo ao Mundo. E se a estética digital se arroga, por vezes de modo precipitado, de tropos pertencentes a alguma cinemática ficção científica para se apresentar num jaez mais profético (Steve Jobs desempenhava muito bem esse papel de pajé, revelando no ecrã gigante as visões com que a Deusa Tecnologia o havia honrado), esse desiderato desaba no instante em que recordamos que para ir várias vezes à Lua a humanidade não precisou de Internet para nada: bastou-lhe utilizar com arte e coragem ferramentas relativamente simples, tal como bastou aos navegadores quinhentistas. Não há, bem vistas as coisas, um antes e um depois da Internet, do mesmo modo que houve um antes e um depois da roda, um antes e um depois da passagem do cabo Bojador ou um antes e depois de Gutenberg. Tudo o que há é a ágil reprodução de mecanismos que, até há pouco tempo, eram analógicos.
Assim, comparar Cosgrave a Magalhães, navegador que encetou a grande viagem de circum-navegação do planeta (descoberta que faz parte da supramencionada ruptura epistemológica) — e que morreu violentamente no decurso desse empreendimento (uma atitude que se caracteriza por aquilo a que o autor Nicholas Nassim Taleb chamou no seu livro mais recente de skin in the game) — pode consistir numa manobra de marketing que dá nas vistas (o que é completamente legítimo, note-se...), mas falha em estabelecer um verdadeiro vínculo entre uma actividade e outra.
Não é de espantar que assim seja: Magalhães e outros seus próximos orientaram-se por estrelas; estes epígonos hodiernos são orientados pelo estrelato — que até soa parecido, mas é algo muitíssimo diferente.
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