Chamaram-me à atenção para o facto de no passado mês de Março a revista SÁBADO
ter publicado uma colecção de cinco importantes posters de cinco filmes portugueses (escolhidos pelo designer e investigador Igor Ramos) e um deles ser o poster que eu fiz para o filme Branca de Neve, de João César Monteiro (2000). Já há muitos anos que não via esta imagem, como é
evidente, por isso foi uma boa surpresa. Os outros posters na colecção
são dos filmes Canção de Lisboa, por Almada Negreiros, Aniki-Bobó,
por Manuel de Guimarães, Kilas - O Mau da Fita e Crónica dos Bons
Malandros, ambos por José Brandão.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
O meu poster do filme "Branca de Neve" na revista Sábado
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terça-feira, 6 de junho de 2017
Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa
Fãs e amigos, informo que o horário da minha passagem pela Feira do
Livro de Lisboa é o seguinte: próximo sábado, dia 10, das 16H00 às
19H00, junto aos pavilhões da Europress (B9 e B11), distribuidora da Kingpin Books. Não estarei na Feira em outra altura. Apareçam. 
segunda-feira, 8 de maio de 2017
«Os Anormais» no meu canal de YouYube em versão integral
Finalmente, no meu canal de YouTube, a versão integral do meu disco de spoken word Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir, é um dos meus trabalhos favoritos. Uma negra e erudita viagem psicogeográfica a vários tempos e realidades, sobre os indivíduos deformados e marginais que viveram em Lisboa, em diversos períodos. A (re)descdobrir.
quinta-feira, 23 de março de 2017
500 anos de Holanda e 10 de Conspiração
Neste ano assinalar-se-á (em Setembro) o quingentésimo aniversário do
artista e humanista português Francisco de Holanda: para celebrar a
efeméride, o Museu do Dinheiro, em Lisboa, inaugurará a 5 de Abril uma
exposição intitulada Francisco D'Holanda: Desejo, Desígnio e Desenho (1517-2017), dedicada à vida e obra desta figura cimeira do
Renascimento. De igual maneira, neste ano assinalar-se-ão (também em
Setembro) dez anos da publicação do meu romance A Conspiração dos Antepassados
(Saída de Emergência), no qual a obra e vida de Francisco de Holanda é
um dos temas principais: na foto, observe-se na capa da primeira edição
do romance a configuração do Louva-a-Deus pintado por Holanda no
frontispício do seu livro Imagens das Idades do Mundo (motivo que,
sabe quem leu, é de vital importância para todo o edifício narrativo).
Assim, gostaria de operar algo especial para assinalar a dupla
efeméride, de molde que irei pensar sobre em que poderá consistir essa
celebração. Entretanto, convido-vos à (re)descoberta da obra de Holanda e
de A Conspiração dos Antepassados.
quinta-feira, 9 de março de 2017
Exposição "Banda Escrita: David Soares" inaugura amanhã
Lembrando que amanhã, às 19H00, na Bedeteca da Amadora (Biblioteca
Municipal Fernando Piteira Santos), inaugura a exposição Banda Escrita:
David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista,
comissariada pelo crítico Pedro Vieira de Moura.
«"Cultor de uma pesquisa linguística e de um imaginário único, Soares é
um exímio criador de ambientes e de interrogações das capacidades do
ser humano face à crueldade, a adversidade e a indiferença do universo.
Se bem que se possam descrever os seus
trabalhos de literatura, banda desenhada e spoken word como pertencendo
aos territórios do fantástico, do horror, da fantasia negra, da
psicogeografia, isso significaria enclausurar gestos, os quais, partindo
dessas premissas, auscultam campos bem mais vastos da condição humana, e
para além dela". Pedro Moura, programador cultural da Bedeteca da
Amadora.»
segunda-feira, 6 de março de 2017
Exposição "Banda Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista"
Na próxima sexta-feira, às 19H00, na Bedeteca da Amadora (Biblioteca
Municipal Fernando PIteira Santos), inaugurar-se-á a exposição Banda
Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do
argumentista. Comissariada pelo crítico Pedro Vieira de Moura,
consiste numa exposição que incide sobre as minhas obras em banda
desenhada - tanto as que escrevi e desenhei, como as que escrevi e foram
desenhadas por outros artistas. Nesta ligação, podem ler um texto de Pedro Vieira de Moura sobre a exposição e o meu trabalho.
A exposição estará aberta ao público até ao dia 29 de Abril. Estão todos convidados para a inauguração: divulguem e apareçam. Obrigado.
A exposição estará aberta ao público até ao dia 29 de Abril. Estão todos convidados para a inauguração: divulguem e apareçam. Obrigado.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
O silêncio é de ouro
Existem
muitas estirpes de silêncios no filme de Scorsese, permanecendo, no
final, a ambiguidade sobre a qual se refere o silêncio titular: será ao
silêncio da ausência de resposta de Deus às preces dos japoneses
cristãos perseguidos pelo xogun?; ou ao silêncio cúmplice que os
acompanha durante a noite no exterior - silêncio tornado ainda mais
opaco pela ausência de som ambiental ou banda-sonora, excepto quando as
personagens entram nos espaços interiores, nos quais, suspeita-se, será
seguro soltar a palavra? Ou, ainda, ao silêncio opressivo imposto pela
novíssima autoridade central japonesa sobre o cristianismo? Avaliando
pelos pouquíssimos comentários que ouvi no final da sessão, soprados em
surdina por elementos do público, tenho dúvidas sobre se a maioria dos
espectadores terá alcançado na mente algum argumento satisfatório sobre
esta matéria - ou outra -, considerando que os referidos comentários se
pautavam por declarações de aborrecimento ou de que o filme «era uma
brutalidade [de tempo, calculo, pois possui pouca violência explícita] e
não tinha mensagem» - esta declaração proferida por um cavalheiro de
cabelos brancos, desfazendo o mito de que somente as novas gerações não
estarão dispostas a entregar-se a um tipo de cinema contemplativo,
ambíguo e artístico, como é o cinema exemplificado por este filme de
Scorsese.
Com efeito, desenganem-se aqueles que esperarão um filme de época pontuado pela acção contemporânea, ao jeito de, por exemplo, O Último Samurai. Assim, questiono se, de modo geral, existirá - ainda - um grande público (coloco a tónica em grande, porque público há, certamente) para um filme como Silêncio, propositadamente meditativo e flexíloquaz; sem, no entanto, ir tão longe no simbolismo quanto o cinema de Kurosawa. Na verdade, que diria o público que considerou chato o filme de Scorsese diante de Os Senhores da Guerra de Kurosawa, filme de ritmo lentíssimo, embora emocionalmente angustiante, profundamente simbólico e cruel? Estaremos, pois, vivendo no ocaso do cinema que incita a contemplar, do cinema que, insistentemente, faz perguntas, em vez de dar um receituário pré-fabricado de estímulos já experimentados, guiados pavloviamente pela montagem frenética e pela banda-sonora? Não me refiro a herméticos universos autorais isolados, como o caso de David Lynch, entre outros, mas a um cinema de tipo meditativo para o grande público: um que, não recusando contar uma história (seja lá o que isso for...), a conte de um modo que ponha o espectador a agir em conjunto com o filme, a formular hipóteses sobre o que está a ver. De facto, o cinema de Scorsese sempre foi um equilíbrio entre o cinema artístico, de autor, e o cinema de grande público, servido com frequência por uma linguagem estilística e técnica de topo, colocando os avanços mecânicos e visuais de último grito ao serviço de um sentido artístico próximo do simbólico. Não deixa de ser agridoce constatar que a consagração de Scorsese por Hollywood se tenha dado há relativamente pouco tempo e graças a filmes mais convencionais, diga-se assim, quando comparados com as obras a que mais rapidamente associamos o seu nome.
O romance histórico de Shusako Endo, publicado em 1966, já fora alvo de uma adaptação cinematográfica japonesa, estreada no início dos anos setenta, e, também, de uma adaptação livre filmada em 1996 por João Mário Grilo com o título de Os Olhos da Ásia, mas será o filme de Scorsese o que, evidentemente, fará chegar esta história a mais gente e de modo mais incisivo. De um ponto de vista histórico, esta obra - e, calculo, também o romance que adapta - é elíptica: o espectador que não conhecer minimamente o período histórico em questão não compreenderá muito bem o xadrez político complexo da transição do Japão dito feudal (ou senhorial) para uma unificação territorial sob uma autoridade fortemente centralizada num xogunato, nem o papel crucial - fundamental - que os portugueses tiveram nesses desenvolvimentos, em virtude da introdução das armas de fogo nessa sociedade (ainda hoje ocorre todos os anos, em Agosto, na ilha de Tanegashima - lugar onde os portugueses chegaram pela primeira vez ao Japão, em 1543 - um grande festival que recorda e celebra a chegada dos "bárbaros do sul" (os portugueses) e a oferta da espingarda - aliás, o nome da ilha passou a designar o próprio objecto).
Foi a partir de Agosto de 1549, com a chegada de São Francisco de Xavier, que tiveram início as conversões ao cristianismo; conversões a que a emergência em 1603 do xogunato iniciado por Tokugawa Ieyasu (só terminado em 1867) extirpou quase por completo. A sociedade hierárquica e rígida inaugurada pelo xogunato não tolerou o cristianismo, assim como, de maneira geral, a presença ocidental; excepto a de comerciantes holandeses, a partir de 1623, espelhando a espécie de excepcionalidade que existia na China com os portugueses.
Assim, apesar de elíptico, de um ponto de vista histórico, o filme de Scorsese pode consistir num enorme avanço de divulgação histórica, em produtos de entretenimento, da expansão portuguesa e dos seus reais e poderosos efeitos, num estilo de observação já exorcizado da dita "culpa do Ocidente" e dos mitos aliados à propaganda anticolonialista mais radical.
Um filme que apresenta um Japão que, talvez, ainda não tenhamos visto em qualquer outro filme: mais real, mais cruel, mais intolerante. Nesses vectores encontra-se, quanto a mim, o autêntico silêncio titular: o da fé secreta e indizível mantida pelos padres apóstatas, uma fé muda, mas autêntica, que transcende a imanência dos objectos para se concentrar apenas na mente. Nessa perspectiva, a personagem de Kichijiro revela-se quasi-arquetípica, quando se compreende perto do final que o velhaco apóstata em série, aquele que parecia ser um unidimensional oportunista, terá entendido desde o início qual seria, afinal, o segredo desse silêncio precioso. No recente O Herói de Hacksaw Ridge, Andrew Garfield interpretou uma personagem que coloca temerariamente as convicções acima da vida; em Silêncio, o Padre Rodrigues que esse actor compõe é o lado lunar daquela: a vida - a nossa e a dos outros - é o bem supremo, porque sem vida ninguém é livre. O espectador é, pois, livre de julgar por si próprio qual dos dois tipos de heroísmo é o mais virtuoso: o que brota da destruição do corpo sacrificado à morte pelos ideais ou aquele que frui da deformação do espírito de quem se sacrifica pelos ideais mantendo-se vivo.
Com efeito, desenganem-se aqueles que esperarão um filme de época pontuado pela acção contemporânea, ao jeito de, por exemplo, O Último Samurai. Assim, questiono se, de modo geral, existirá - ainda - um grande público (coloco a tónica em grande, porque público há, certamente) para um filme como Silêncio, propositadamente meditativo e flexíloquaz; sem, no entanto, ir tão longe no simbolismo quanto o cinema de Kurosawa. Na verdade, que diria o público que considerou chato o filme de Scorsese diante de Os Senhores da Guerra de Kurosawa, filme de ritmo lentíssimo, embora emocionalmente angustiante, profundamente simbólico e cruel? Estaremos, pois, vivendo no ocaso do cinema que incita a contemplar, do cinema que, insistentemente, faz perguntas, em vez de dar um receituário pré-fabricado de estímulos já experimentados, guiados pavloviamente pela montagem frenética e pela banda-sonora? Não me refiro a herméticos universos autorais isolados, como o caso de David Lynch, entre outros, mas a um cinema de tipo meditativo para o grande público: um que, não recusando contar uma história (seja lá o que isso for...), a conte de um modo que ponha o espectador a agir em conjunto com o filme, a formular hipóteses sobre o que está a ver. De facto, o cinema de Scorsese sempre foi um equilíbrio entre o cinema artístico, de autor, e o cinema de grande público, servido com frequência por uma linguagem estilística e técnica de topo, colocando os avanços mecânicos e visuais de último grito ao serviço de um sentido artístico próximo do simbólico. Não deixa de ser agridoce constatar que a consagração de Scorsese por Hollywood se tenha dado há relativamente pouco tempo e graças a filmes mais convencionais, diga-se assim, quando comparados com as obras a que mais rapidamente associamos o seu nome.
O romance histórico de Shusako Endo, publicado em 1966, já fora alvo de uma adaptação cinematográfica japonesa, estreada no início dos anos setenta, e, também, de uma adaptação livre filmada em 1996 por João Mário Grilo com o título de Os Olhos da Ásia, mas será o filme de Scorsese o que, evidentemente, fará chegar esta história a mais gente e de modo mais incisivo. De um ponto de vista histórico, esta obra - e, calculo, também o romance que adapta - é elíptica: o espectador que não conhecer minimamente o período histórico em questão não compreenderá muito bem o xadrez político complexo da transição do Japão dito feudal (ou senhorial) para uma unificação territorial sob uma autoridade fortemente centralizada num xogunato, nem o papel crucial - fundamental - que os portugueses tiveram nesses desenvolvimentos, em virtude da introdução das armas de fogo nessa sociedade (ainda hoje ocorre todos os anos, em Agosto, na ilha de Tanegashima - lugar onde os portugueses chegaram pela primeira vez ao Japão, em 1543 - um grande festival que recorda e celebra a chegada dos "bárbaros do sul" (os portugueses) e a oferta da espingarda - aliás, o nome da ilha passou a designar o próprio objecto).
Foi a partir de Agosto de 1549, com a chegada de São Francisco de Xavier, que tiveram início as conversões ao cristianismo; conversões a que a emergência em 1603 do xogunato iniciado por Tokugawa Ieyasu (só terminado em 1867) extirpou quase por completo. A sociedade hierárquica e rígida inaugurada pelo xogunato não tolerou o cristianismo, assim como, de maneira geral, a presença ocidental; excepto a de comerciantes holandeses, a partir de 1623, espelhando a espécie de excepcionalidade que existia na China com os portugueses.
Assim, apesar de elíptico, de um ponto de vista histórico, o filme de Scorsese pode consistir num enorme avanço de divulgação histórica, em produtos de entretenimento, da expansão portuguesa e dos seus reais e poderosos efeitos, num estilo de observação já exorcizado da dita "culpa do Ocidente" e dos mitos aliados à propaganda anticolonialista mais radical.
Um filme que apresenta um Japão que, talvez, ainda não tenhamos visto em qualquer outro filme: mais real, mais cruel, mais intolerante. Nesses vectores encontra-se, quanto a mim, o autêntico silêncio titular: o da fé secreta e indizível mantida pelos padres apóstatas, uma fé muda, mas autêntica, que transcende a imanência dos objectos para se concentrar apenas na mente. Nessa perspectiva, a personagem de Kichijiro revela-se quasi-arquetípica, quando se compreende perto do final que o velhaco apóstata em série, aquele que parecia ser um unidimensional oportunista, terá entendido desde o início qual seria, afinal, o segredo desse silêncio precioso. No recente O Herói de Hacksaw Ridge, Andrew Garfield interpretou uma personagem que coloca temerariamente as convicções acima da vida; em Silêncio, o Padre Rodrigues que esse actor compõe é o lado lunar daquela: a vida - a nossa e a dos outros - é o bem supremo, porque sem vida ninguém é livre. O espectador é, pois, livre de julgar por si próprio qual dos dois tipos de heroísmo é o mais virtuoso: o que brota da destruição do corpo sacrificado à morte pelos ideais ou aquele que frui da deformação do espírito de quem se sacrifica pelos ideais mantendo-se vivo.
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sábado, 31 de dezembro de 2016
Como o Sol, em 2017
No dia 31 de Dezembro de 1705, há trezentos e onze anos, faleceu D.
Catarina de Bragança no seu Palácio da Bemposta, em Lisboa. Filha de D.
João IV com D. Luísa de Gusmão, casou em 1662 com o rei Carlos II de
Inglaterra, sendo, até, mais lembrada nesse país pelo costume de andar
vestida com roupa de homem - costume que, segundo o anedotário, lhe
valia, em surdina, piropos de que teria umas pernas muito bem-feitas -
do que pela introdução nesse círculo do hábito de beber chá ao
final da tarde. Num parapeito do Palácio da Bemposta pode encontrar-se a
ruína de uma curiosa meridiana: instrumento astronómico que assinalava o
meio-dia solar. É, pois, com esta nota que desejo boas entradas
em 2017 aos meus leitores, fãs e amigos: atravessem o proscénio que dá
entrada ao novo ano lembrando o melhor que o nosso passado tem. Escrevo «tem», porque o passado está vivo - muito mais do que o presente, essa
infinita ilusão. No fundo, só existe passado e só existe futuro,
connosco sempre a tentar um equilíbrio precário no meio, à guisa de
titubeante filete de luz incidindo na marca meridional de uma meridiana
deteriorada. Sejam bons uns para os outros, leiam bons livros, viajem um
bocadito e já terão meio-caminho andado. Daqui a pouco vemo-nos em 2017.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Esboços sobre o Ontem e o Hoje (perspectivas)
No final do século XX, em Portugal, estabeleceram-se, definitivamente, ao alcance do grande público, duas tecnologias que, de facto, operaram uma mudança na sociedade: o telemóvel e a internet; dois eixos de modernidade que, hoje, se encontram, até, mais consonados do que alguma vez se pôde pensar, na configuração do smartphone, aparelho que é um verdadeiro canivete suíço digital. A concomitância do advento destas tecnologias com o final do século XX e com o final do segundo milénio da Era Comum (escrevo concomitância, porque, aqui, a palavra simultaneidade comportaria um incorrecto lastro de intencionalidade) emprestou-lhes um determinado nimbo parusístico - como se, a partir daqui, os cenários mais empolgantes e optimistas, teorizados pelos teólogos da religião do Progresso, estivessem, de facto, a dois dedos de distância da singularidade. Hoje, passada a embriaguez da novidade, percebe-se que não é - não será - assim (tão fácil). Contudo, o que interessa reter é que, após o estabelecimento dessas tecnologias, a paisagem humana mantém-se relativamente estável, no que às mudanças estruturais diz respeito.
Ou seja: pode falar-se num antes e num depois, considerando a ruptura provocada pela introdução nas nossas vidas dos telemóveis e da internet, mas reiniciando a contagem a partir daí detecta-se a homogeneidade dos costumes: os chamados nativos-digitais terão uma experiência do mundo muito diferente das gerações que os antecederam, no aspecto em que estas assistiram a algumas sismografias - a saltos na criação, para ser metafísico - que, desde 2001 para cá, ainda não encontraram ocorrências análogas. A cada ano, surgem novas versões de programas digitais, aplicações e equipamentos, mas, na verdade, as tecnologias de finais dos anos noventa do século XX permanecem as mesmas: um telemóvel (misto com computador pessoal - que é um artefacto ainda mais antigo) e a internet. A ser-se obrigado a elencar, precipitadamente, outro item igualmente impactante teria de referenciar-se a rede social.
No entanto, a rede social, enquanto princípio, tem mais semelhanças com os nossos velhos hábitos do que se poderia, à partida, pensar. Já tenho escrito, desde há muito tempo, que estabelecer ligação a uma rede social é muito parecido ao acto de ir a um café conversar com um grupo conhecido de pessoas: entramos, sentamo-nos à mesa com quem lá se encontrava antes de nós, vamos conversando; à medida que uns se vão ausentando outros vão chegando, criando-se conversas paralelas entre indivíduos que estão na mesma mesa, entre pessoas que estão nas mesas do lado e tudo se vai entrecruzando. Observa-se isso no modo como, por exemplo, se vão desenvolvendo os comentários nas publicações de Facebook, nos espaços previstos para o efeito. Até a publicidade que vai aparecendo nas margens e nas molduras das janelas de navegação equivale à televisão ligada no café ou aos jornais e revistas folheados por quem está ao nosso lado e que vão, pontualmente, concorrendo para chamar-nos a atenção. Uma das grandes diferenças entre ambas as experiências - o ir-se a um café para conversar ou aceder a uma rede social para conversar por escrito (ou não) - reside no feitio como se desdobram as consequências e o fenómeno do inesperado.
No mundo físico, as consequências são imediatas - demasiado, até. No mundo digital, as consequências são distantes - demasiado, também. Isto significa que apesar de a rede social transportar com sucesso para uma esfera digital um simulacro de uma experiência física, com todos os equivalentes a que já se aludiu, ela é incapaz de transpor a distância encurtada pelo imediato, no sentido em que este e o imprevisto são apanágio daquilo que é orgânico. O orgânico emite, constantemente, mensagens, sinais, reinterpreta a cada momento o que é emitido e o que é recebido, tudo mescla em diferentes linguagens (oral, corporal, abstracta) e níveis de entendimento (esotérico, exotérico, intrínseco e extrínseco) - e rapidamente, imediatamente. Até em relações mais especiais, inter-espécie - há uma matriz comum que pertence, em exclusivo, ao orgânico. O digital é incapaz de reproduzi-la. Espera-se demasiado do digital, tal como se esperou demasiado do telégrafo, do telefone, da televisão, das torradeiras e dos aspiradores. A comunicação está mais rápida, em certos casos, mas a consequência - ou, para ser ainda mais explícito, a inscrição - está sempre à distância. Uma distância desincorporada, como um segmento de recta a flutuar no éter: uma distância que desconhece pertença.
Desde 2001 que se anda a viver num segmento de recta desse jaez: enquanto ele flutuar num mar de equanimidade, manter-se-á a ilusão de estabilidade em que se está a tentar construir um presente. Um sintoma de que estamos a solidificar - em sublimação, do estado gasoso do incremento tecnológico estrutural de final do milénio e final de século para o actual estado sólido, em que tudo se vai sucedendo, mas em repetição, em versões actualizadas, mas sem autêntica novidade - é o do desaparecimento da especulação científica no discurso do entretenimento popular. Os indivíduos dos anos cinquenta do século passado sabiam que a ameaça nuclear era orgânica - tão orgânica quanto as torradas comidas ao pequeno-almoço. Hoje, as ameaças dos nossos dias continuam a ser orgânicas, mas vive-se, cada vez mais, na transplantação desse orgânico para um incipiente devir digital; logo, elas inscrevem-se cada vez menos: não é tanto apatia generalizada, ou anquilosamento ético, mas muito mais um desencontro entre planos ortogonais de existência que se aproximam sem se cruzar. Que se observam, lá está!, à distância.
O modelo digital é o da compartimentalização: hoje, compartimentalizamos tudo, sem que exista comunicação entre as categorias estanques em que se arrumam diferentes elementos.
(Imagem: Alegoria da Simulação. Lorenzo Lippi, 1640.)
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segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Nomeações Prémios Nacionais de Banda Desenhada 2016
O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, está nomeado para as três principais categorias dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada 2016, atribuídos pelo festival internacional de banda desenhada Amadora BD: a saber, Melhor Álbum, Melhor Argumento e Melhor Desenho.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Ruínas
No último par de dias tenho passado ao longe por um local de Lisboa que é muito especial para mim e é com amargura que suspeito que está a ser mutilado com demolições, na perspectiva de obras de remodelação. Tenho aprendido com o tipo de brutalidade inveterada da natureza que esta é, de facto, a infelicidade de residir num local - neste caso, numa cidade - que é, em simultâneo, entidade co-responsável num tempo e num espaço e álbum de memórias: indivíduo e pólis consorcizam-se, pois, em frágil polisarcia - fortuita e rúptil como um sonho que se deslaça com o despertar. Em confronto com essa frígida crueldade, que é a da indiferente calandragem das eras, só a cultura pode remir uma mente ferida. Nesta incerteza, evoco palavras que já plasmei em outra ocasião, também sobre memória, cidade e indivíduo; sobre aquilo em que consiste esse laço precioso entre um território e o nosso ser.
sábado, 6 de agosto de 2016
No Convento de São Paulo da Serra d'Ossa
Aproveitando as minhas férias no magnífico Hotel Convento de São Paulo,
gravei este pequeno vídeo sobre São Paulo de Tebas, sobre o fenómeno
cristão do eremitismo e sobre o significado da palavra anacoreta.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Virtude e efeméride sobre a alunagem de 1969
É muito importante lembrar que hoje se assinala a inaugural alunagem de 20 de Julho de 1969, servindo a efeméride de líquido de contraste à angiografia destes tempos retrocessuais em que vivemos. Sobretudo, deve deter-nos a atenção no facto de que não precisámos de nenhuma Internet para o efeito: somente recursos elementares e muita audácia. Com um objecto tão simples quanto um quadrante descobriram os portugueses metade do globo. Não vivemos, pois, no fim da história, num tempo em que tudo se encontra descoberto e num tempo em que a tecnologia hodierna parece esgotar-se a si mesma num autofágico universo referencial, guindado sobre as massas pela alavanca do consumismo mais primário; pelo contrário, vivemos, como em todos os períodos, num tempo de charneira. O tempo, seja ele qual for, é sempre, determinantemente, uma dobradiça que se inclina para o futuro e se recolhe sobre o passado: os gonzos em que apoia esse movimento são os homens.
Assim, evocando o heroísmo dos primeiros selenautas, proponho o optimismo: não a postiça alegria do tolo que fecha os olhos diante da catástrofe, mas a virtude corajosa do homem que decide, conscientemente, heroicamente, viver de modo positivo. Essa é, afinal, a autêntica acepção de virtude. As forças dominantes de uma sociedade são as da sua classe dominante: ascendamos, pois, a esse desiderato. Sejamos, constantemente, virtuosos, mesmo que achemos irrelevante esse esforço. O exemplo contagiará e propagar-se-á. Se algo ético pode ser retirado da alunagem evocada é que há luz na treva: o espaço é escuro, mas polvilhado de estrelas. Que é outra forma de dizer que há outras intenções neste mundo, que não as más: a luz, é, em grande parte, a claridade nascida da nossa passagem.
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domingo, 17 de julho de 2016
Sobre Aleixo, no dia de sua morte
Esta tábua quinhentista (1541), cuja autoria inquestionável é do pintor
português Garcia Fernandes (activo entre 1514 e 1565), é conhecida pela
maioria do público como sendo uma representação do terceiro casamento do
rei D. Manuel I com D. Leonor de Castela, irmã de Carlos V (celebrado a
1518). Todavia, já em 1998, o historiador de arte português Joaquim de
Oliveira Caetano propôs e fundamentou a tese de que a imagem mostra o
episódio hagiológico do casamento forçado de Santo
Aleixo com Sabina. Esta obra faria parte de um conjunto projectado pela
oficina do artista para a primeira Igreja de São Roque, em Lisboa (com
efeito, a tábua encontra-se em exposição no Museu São Roque da Santa
Casa da Misericórdia de Lisboa). Ora, Garcia Fernandes foi eleitor da
Misericórdia de Lisboa e o quadro foi-lhe encomendado por D. Álvaro da
Costa, o primeiro provedor das Misericórdias, que, provavelmente, se
encontra representado na figura central do sacerdote que celebra o
casamento. Sabe-se, igualmente, que poucos anos antes da realização da
tábua foi anexada uma confraria de Santo Aleixo à Misericórdia (em
1538); por conseguinte, fortalecendo esta tese. Em analogia, outros
pormenores contribuem para a interpretação aleixiana, como a ausência na
personagem dita manuelina da insígnia da Ordem do Tosão de Ouro, que D.
Manuel I recebeu pelo seu casamento com D. Leonor de Castela. É, pois,
neste dia de Santo Aleixo (terá morrido a 17 de Julho) que evoco esta
obra enigmática, cujo hirsuto protagonista tem sido utilizado em
múltiplos livros de história e veículos televisivos de divulgação
histórica como sendo um retrato de D. Manuel I e pelos quais contornos
temos desenhado, à guisa de escantilhão, determinados aspectos da vida e
façanhas de O Venturoso.
terça-feira, 12 de julho de 2016
Reflexão sobre futebol
A atenção sem precedentes com que vi o jogo da final do campeonato de
futebol Euro 2016 entre as equipas portuguesa e francesa, assim como as
subsequentes celebrações, deram-me oportunidade de reflectir com
novidade sobre o fenómeno futebolístico. Assim, ao mesmo tempo que
constatei que, para a minha sensibilidade, o futebol, como outros
desportos, em geral, é aborrecido (os elementos excêntricos - dir-se-ia
quasi-narrativos - presentes no desafio, como a presença insólita das
traças, a dramática lesão de Ronaldo, logo no ínicio, as defesas
infalíveis do nosso guarda-redes, o golo da vitória tão puxado a ferros e
marcado habilmente por um jogador que, até ao momento, não figurava na
galeria de favoritos de ninguém, foram, com efeito, aqueles que motivaram o meu interesse), também compreendi o motivo pelo qual ele é
tão cativante - universal e transversalmente. O fascínio do futebol
opera-se ao nível do da música.
O futebol tem personagens, tem
espaço e tempo, tem contexto histórico e social, mas tudo isso lhe é,
com justiça, acessório: tudo isso é subsidiário daquilo que perdura após
a visualização de um jogo, que é, diga-se desta forma, o andamento.
Andamento, em sentido musical, incorpóreo, abstracto. No futebol, tudo
se faz de cores planas, na acepção de não-misturadas: são cores
aplicadas na tela, exactamente tal qual saem do tubo. Não há autêntica
expressão individualizada: há regra, há improviso, mas não há estilo. No
desporto não há noção de estilo, em feitio artístico: só há regra e riffs sobre essa regra - dá vontade de falar em Jazz, mas,
possivelmente, precipito-me. De qualquer das formas, o que permanece do
futebol é o andamento: é a pauta feita durante noventa minutos de
duração.
De um ponto de vista metafísico, arrisco a hipótese de
cada jogo de futebol, assim como cada prova desportiva, ser uma espécie
de comentário a uma forma ideal de jogo de futebol plasmado pelas regras
e, assim sendo, inacessível e modelar - em profunda analogia com a
disciplina medieval do comentário escolástico, em que duas equipas de
alunos de uma escola monástica comentavam, ao despique, ao desafio, e
cada qual com a sua estratégia, a matéria imutável, inquestionável, dada
pelo mestre; por conseguinte, regra e comentário, sendo que, aqui, o
comentário não tem como objectivo a procura da originalidade, nem a
produção de novo conhecimento, mas, somente, o consolidar a matéria
apresentada por meio de um texto clássico estruturado e terminado pela
autoridade. Assim é o futebol; assim é, pela larga medida, o desporto:
regra e desafio - matéria e comentário. Quem ganha é sempre o próprio
conceito de desporto.
Cântico de coreografia muscular e
velocidade, feito de técnica, ritmo e de tonalidades facilmente
reconhecíveis, o futebol age no mesmo plano da música. Não é,
verdadeiramente, visual, como um filme do qual, algum tempo depois do
visionamento, se memoria cenas preferidas ou que provocaram impacto,
perfeitamente cristalizadas na mente; nem é, verdadeiramente, verbal,
como trechos de um texto que, verbatim, se decoraram. É como a música.
Opera, em exclusivo, no plano emocional: pode-se assobiar o andamento
futebolístico, quase.
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quinta-feira, 7 de julho de 2016
Efemérides
Amanhã assinalar-se-á a efeméride da primeira partida de Vasco da
Gama para a Índia (8 de Julho de 1497), saído do sítio de Restelo,
conforme o testemunho do diário de bordo dito de Álvaro Velho do
Barreiro (foram Diogo Köpke e António da Costa Paiva quem assim
intitularam o documento quando o editaram em 1838, daí que a autoria
seja, ainda, alvo de contestação).
Lembrei-me de antecipar a memória desta data fundamental, porque hoje é, pasme-se!, o Dia Mundial do Chocolate... Ora, sem a inaugural viagem de Gama não se teria descoberto a Rota do Cabo e, provavelmente, sem a descoberta da Rota do Cabo não se teria descoberto tão cedo o Brasil (a 22 de Abril de 1500) - onde os portugueses, depois, encontraram o cacau na área amazónica brasileira (adjacente à bacia do rio Orinoco), da qual a espécie é nativa; embora em seu habitat natural se reunisse parte da América Central (até ao México).
As sociedades pré-colombianas consumiam o cacau de diversas maneiras: os maias, por exemplo, tomavam por clister uma espécie de tequila tradicional, conhecida por octil e balché, na qual, para efeitos ritualísticos, misturavam bufotoxinas de sapos endémicos da região e cacau - ora, o álcool e os alucinogénios absorvidos por via anal entravam muitíssimo rapidamente na corrente sanguínea; logo, provocando de imediato fortíssimos estados alterados de consciência.
Imagem: cópia coeva do diário de bordo de Álvaro Velho do Barreiro,
trabalho inscrito há três anos pela UNESCO na lista do património
Memória do Mundo.
terça-feira, 28 de junho de 2016
A história e a fortuna
Faz hoje 102 anos que Gavrilo Princip espoletou a Primeira Guerra Mundial. Nem uma única alma poderia imaginar o que aí viria: Princip foi, bem avaliadas as coisas, a verdadeira, a autêntica, parteira do século XX. Um século tem sempre dois inícios: o inscrito no calendário, iniciado no primeiro ano de cada nova centúria; e outro, orgânico, que se relaciona com mudanças intensas, estruturais, que o transfiguram e, impelindo-o a abandonar a casca, o obrigam a um inexorável caminho às cegas. Às vezes, os dias em que isso acontece são reconhecíveis, mas na maioria das vezes nem se dá por isso, suave que é a maturação das eras - como trombas de água bebés, ainda mansas sob a imperturbável cútis oceânica. George III de Inglaterra terá deixado passar em branco um momento assim, quando a 4 de Julho de 1776 redigiu no seu diário «hoje não aconteceu nada importante». Dá que pensar o facto de que, hoje, com a disponibilidade veloz de informação que possuímos, andamos tão às cegas quanto George III e quanto os europeus de 1914. A história não tem um tufo de cabelos na testa em jaez igual à fortuna: ela passa e não se deixa agarrar. Só é possível ver o rasto da roda vincado na terra e esse é frio, mudo e críptico, tremendamente.
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sexta-feira, 24 de junho de 2016
No tempo dos minotauros
Neste momento, em que escrevo este apontamento, não se sabe, não sei, qual será ou já é o resultado sobre o referendo sobre a permanência da Inglaterra na União Europeia. Este instante de incerteza demonstra o quanto é instável a maioria daquilo que consideramos garantido: nada o é - em principal, aquilo que é recente. Ora, a Europa é velha, mas a União Europeia apareceu ontem, de um ponto de vista cronológico mais alargado. Nada garantia ou garante que continuará connosco por mais ou menos tempo e elevo a toada cassândrica deste argumento por culpa da provável saída da Inglaterra da União Europeia, que se cifrará num acto, mais do que simbólico (que o será), análogo ao da queda da primeira peça de dominó que precipitará a das mais próximas. Assim, há que amadurecer o pensamento político e ético e aceitar sem falsas justificações o facto de que a burocraticamente labiríntica União Europeia tem criado monstros de diversos feitios - chamemos-lhes minotauros. Esses monstros têm obstaculizado a soberania dos estados-membros e, se não na prática em espírito, a dignidade dos indivíduos. Alguma espécie de retribuição, justa ou não-justa, instrumentalizada ou não-instrumentalizada, seria sempre de esperar. Fomos todos ingénuos? É provável. No entanto, tal como foi fácil ignorar os monstros do labirinto europeu também é fácil ignorar aquilo que de melhor e mais luminoso saiu desse labirinto: porque num labirinto não há somente treva, há, às vezes mais que uma, saída para a luz. Assim, é fundamental, além da manutenção do espírito crítico, a preservação das resplandecentes conquistas que a União Europeia nos tem proporcionado: todo esse capital humanitário, social e cultural que fez da Europa o melhor continente do mundo para se viver tem de ser conservado preciosamente, sob o perigo de, em caso de alienação, em situação-limite de 'tabula rasa', sermos forçados a recomeçar do zero, do desolador nádir do barbarismo mais aviltante. Seria, de facto, constrangedor que toda a experiência acumulada nas últimas décadas se fossilizasse em vida, que nem um desgraçado celacanto, que ainda nada, mas num mundo que não lhe reconhece lugar; ou, pior, se transformasse numa relíquia, como a representação de Europa e seu touro, aqui reproduzida em anexo: em suma, num tóteme de puro balastro mítico, apenas valorizado por um punhado de indivíduos que, vá lá saber-se como, ainda detêm memórias vestigiais de um período em que o seu valor era absoluto. Novos tempos exigem sempre novos valores. Já temos um pé no Tempo dos Minotauros. Esperemos que ainda se vá a tempo de o retirar.
Adenda: já se sabe que a Brexit ganhou, por uma percentagem aproximada de 52%. Infelizmente, neste caso, o meu texto tornou-se ainda mais relevante.
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quinta-feira, 16 de junho de 2016
Sobre bruxas – e sobre o primeiro caçador de bruxas lisboeta
Em relação à publicação anterior, publico umas breves notas sobre o fenómeno da feitiçaria – e uma curiosidade sobre o primeiro caçador de bruxas lisboeta. Ora, escrever sobre satanismo e feitiçaria é
escrever sobre uma tradição heterogénea de contracultura ocidental, apreendendo
que a cultura dominante face à qual ambas manifestações se unem em antagonismo
é a cristã, quaisquer que sejam as denominações.
Do ponto de vista teológico, o satanismo é
uma religião que professa ódio ao cristianismo e no qual se idolatra uma mónade
construída a partir de alusões sobre o Diabo que se encontram nos evangelhos do
Novo Testamento. Não existe Diabo nos livros do Velho Testamento: existe,
apenas, Jeová, capaz de fazer o Bem e o Mal – mesmo quando escolhe
aleatoriamente um anjo para ser agente do Mal. Em oposição, o agente malquisto que
surge nos evangelhos do Novo Testamento parece possuir traços de personagem independente;
um Príncipe das Trevas em potência, ainda ambíguo e muitíssimo indistinto. O
Novo Testamento é pródigo em contos de possessões demoníacas, testemunhos da
existência de demónios e relatos sobre como Cristo ganhava a vida como
exorcista, agarrando vigorosamente os endemoninhados para lhes cuspir para a
boca e para os ouvidos de maneira a escorraçar os entes diabrinos. O satanismo
estandardizado é uma invenção moderna, cujas primeiras representações datam do
século XVII, desde as ditas missas negras de Catherine La Voisin (sentenciada
pelo fogo em 1680), inventadas para entreter os enfadados nobres da corte de
Versailles.
Nunca existiu um culto europeu organizado
em volta de práticas de feitiçaria ou idolatração do Diabo, como acreditaram os
inquisidores dominicanos quatrocentistas Jacob Sprenger e Heinrich Kramer. O
mesmo erro foi pugnado pela académica inglesa Margaret Murray, cujas teses se
encontram desacreditadas. Existem porosidades entre a feitiçaria e o satanismo;
e a oposição do Diabo a Cristo (e a Deus) projecta-se na dos feiticeiros ao
clero. A feitiçaria é, em essência, o controlo de forças sobrenaturais para maléficos
fins anti-sociais; na maioria das vezes por intermédio de demónios e até do
próprio Diabo. O mundo da feitiçaria maleficente não é o mesmo da magia tout court e encontra-se correlacionado
directamente com o mundo cristão; tanto que a feitiçaria foi considerada, a
princípio, uma heresia e é aqui que reside a chave da sua interpretação como
contracultura, porque a heresia é sempre um desvio da ortodoxia: nesse sentido,
Roma julgou que as feiticeiras conspiravam para criar uma nova fé presidida
pelo Diabo e que a feitiçaria seria uma ferramenta para a sua edificação,
enquanto elo cultural aglutinador dessa comunidade de hereges. Esta noção antagónica
persistiu até ao século XVIII: o nosso filólogo Rafael Bluteau, por exemplo, ainda
escreveu que «os que negam a magia
caminham para o ateísmo. Por não confessarem que há demónios dizem que não há
magos; e para porem em dúvida a existência de Deus negam tudo o que se atribui
ao poder do demónio».
Pensa-se que algumas feiticeiras se
empeçonhavam com substâncias alucinatórias, de modo a experimentarem sensações
extracorporais de voo: esses narcóticos não eram fumados, mas tomados por via
tópica pelas mucosas; em especial, as genitais – e aí com a colaboração de
godemichés de madeira, o que contribuiu para a criação da lenda das feiticeiras
montarem vassouras.
O primeiro caçador de bruxas oficial de
Lisboa, vera magistratura criada a 3 de Novembro de 1385, por carta régia de D.
João I, muito antes de iniciar-se pela Europa a infame febre purgatória antifeitiçaria,
o que é extremamente curioso, foi o juiz executor Gonçalo Lourenço – sendo que aqui
o adjectivo executor (ou eyxecutor, como também aparecia grafado
na época) não tem o significado de carrasco,
mas de aquele que opera, que «põe por
obra alguma coisa». Esta magistratura continuou, evidentemente, e os reis
posteriores trataram do assunto com a maior diligência, como se pode ler deste
extracto das Ordenações Manuelinas:
«(…) qualquer pessoa, que em circulo, ou fora d'elle, ou em encruzilhada, invocar espíritos diabólicos, ou der a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa, para querer bem ou mal a outrem, ou outrem a elle, morra por isso morte natural. Porem em estes dous casos, primeiro que se faça execução, nolo farão saber, para vermos a qualidade da pessoa, e modo em que se taes cousas fizeram (…)».
Enquanto a igreja cristã foi dominante, os
imaginários do satanismo e da feitiçaria permearam de um modo palpável a psique
pública, mas, para o padrão que afecta a este artigo, a preponderância desses
modelos surgiu sincreticamente. Os tipos de satanismo e de feitiçaria que, a
partir dos anos cinquenta do século passado, fizeram-se pesar na indústria
artística e na de entretenimento já se mostravam como sendo misturas kitsch de desusadas crenças (volvidas
inofensivas pela distância temporal e pela perda de relevância do cristianismo)
com coordenadas oriundas do estranhíssimo mundo do esoterismo ocidental,
consubstanciado a partir de meados do século XIX. Nomes como os do mago inglês
Aleister Crowley (que não foi satanista, mas agnóstico) e do escritor inglês
Dennis Wheatley (que inovou nos seus livros o estilo que definiria o das influentes
produções cinematográficas de horror dos estúdios britânicos Hammer) são dos
mais predominantes nesse caldo popular de referências em que o ingrediente
principal é a imagem dramática do Diabo enquanto anti-herói, patrono dos
marginais, dos boémios e dos livres-pensadores, cunhada por John Milton no
livro Paradise Lost, obra inauguradora
de, no mínimo, dois conceitos revolucionários: criou o adjectivo satânico e vinculou pela primeira vez o
nome Lúcifer à personagem do Diabo – nome que, até à data, era apenas um dos
dois epítetos do planeta Vénus, que aparece duas vezes por dia no céu (Lúcifer
era o nome matutino e Vésper era o nome vespertino). Este inicial Lúcifer
miltoniano é, por conseguinte, o vero protótipo do Diabo novecentista; transcolado,
entre outros, pelos escritores franceses Charles Baudelaire, Joris-Karl
Huysmans e Jules Michelet, mas também pelos russos Mikhail Lermontov e Fiódor
Dostoiévski e pelo irlandês Charles Maturin.
Imagem: bruxa montada numa vassoura em Le champion des dames, de Martin Le France (1451).
Imagem: bruxa montada numa vassoura em Le champion des dames, de Martin Le France (1451).
Ele há bruxas
A perclara severidade da ambiência sóbria - dir-se-ia desapossada -
de The VVitch (2015) deve muitíssimo à fotografia de Jarin Blaschke,
director de fotografia deste filme de estreia do realizador
norte-americano Roger Eggers, sobre uma família de colonos puritanos
seiscentistas que é banida da plantação em que residia e tem de começar
sozinha a sobreviver nas fímbrias de uma floresta que, de imediato, se
mostra madastra.
Filmado quase em exclusivo com recurso a luz natural
e servido por uma conceptualização cenográfica muito realista, The
VVitch é um passo enorme na direcção de um novo tipo de filme de
horror: totalmente livre da fagia auto-referencial e apologia
humorística que assinalaram grande parte da produção cinematográfica
deste campo, realizada nos últimos vinte ou vinte e cinco anos, e
dirigido ao que de melhor marcou os títulos mais significativos e
subversivos da segunda metade dos anos setenta e primeira metade dos
anos oitenta do século passado. De facto, desde as primeiras imagens, The VVitch apresenta-se, logo, com um inesperado e indiscutível
carácter intemporal, o que significa que, dificilmente, se deixará
datar; o que é notável, considerando que o seu realismo, diga-se assim, é
conseguido sem o recurso aos truques de pacotilha do
falso-documentário. Nada em The VVitch é documental: tudo concorre
para um efeito de autenticidade, mas que recusa, liminarmente, o registo
documental.
A história, do
próprio Eggers, é, aparentemente, sustentada por textos seiscentistas
sobre casos de bruxaria; ou seja, determinados diálogos e certas
situações serão decalcados textualmente, verbatim, desse material de
época, embora a concretização nunca se torne, por culpa disso, num
pasticho, conservando inviolável a sua raison d'être.
Na minha opinião, o filme só é prejudicado, não por um desequilíbrio, mas por uma desproporção de perspectivas. No filme existem duas perspectivas sobre as ocorrências de que padecem as personagens, sendo que um desses pontos de vista é, sem timidez, demonstrado no início ao espectador como sendo o correcto, o fidedigno. Por conseguinte, na gestão que faz do medo e da ansiedade, The VVitch oscila sem necessidade entre duas perspectivas, depauperando o resultado final de alguma força anímica que, sente-se, está ali contida que nem lava à espera de jorrar, de rebentar. Por um triz não o consegue, nos negríssimos, niilistas e quase-perturbantes últimos vinte ou quinze minutos de duração, que contêm algumas das melhores cenas jamais vistas em filmes do género. Em suma, The VVitch não é um clássico, mas é um excelente começo e um filme que, decididamente, está muitíssimo acima da média. Aliás, é provável que espectadores mais sensíveis do que eu o achem determinantemente apavorante.
Na minha opinião, o filme só é prejudicado, não por um desequilíbrio, mas por uma desproporção de perspectivas. No filme existem duas perspectivas sobre as ocorrências de que padecem as personagens, sendo que um desses pontos de vista é, sem timidez, demonstrado no início ao espectador como sendo o correcto, o fidedigno. Por conseguinte, na gestão que faz do medo e da ansiedade, The VVitch oscila sem necessidade entre duas perspectivas, depauperando o resultado final de alguma força anímica que, sente-se, está ali contida que nem lava à espera de jorrar, de rebentar. Por um triz não o consegue, nos negríssimos, niilistas e quase-perturbantes últimos vinte ou quinze minutos de duração, que contêm algumas das melhores cenas jamais vistas em filmes do género. Em suma, The VVitch não é um clássico, mas é um excelente começo e um filme que, decididamente, está muitíssimo acima da média. Aliás, é provável que espectadores mais sensíveis do que eu o achem determinantemente apavorante.
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segunda-feira, 13 de junho de 2016
Sobre Santo António no dia de sua morte
Foi a partir do reinado de D. Afonso III que as espécies monetárias começaram a figurar no pagamento do salário dos trabalhadores, que, dessa forma, passou a ser misto: em dinheiro e em géneros (nos quais se contava o vestuário). Espoletou-se, pois, uma economia baseada no dinheiro e não na troca mais ou menos equivalente de produtos e de serviços. De igual modo, foi com esse rei que a circulação da libra se vulgarizou, abrindo o sistema monetário português ao resto da Europa; facto que ditou a extinção lenta, mas inexorável, do morabitino (ou maravedi: moeda exclusivamente peninsular). O sistema de contagem em libras, soldos e dinheiros perdurou até D. Afonso V iniciar o seu reinado; período em que a libra foi substituída pelo real. No reinado dionisino, uma libra valia vinte soldos e um soldo equivalia a doze dinheiros. Estes eram cunhados numa liga metálica de prata e cobre, na qual a percentagem da primeira era muito baixa: essa liga chamava-se bolhão – nome que se transformou em sinónimo dos dinheiros e nome que se relaciona directamente com o cerne do nosso assunto.
Seria engraçado que esse nome estivesse na origem do suposto apelido Bulhões do jovem Santo António (nascido a dois passos de distância da Sé, por alturas de 1190, segundo a tradição), cujo nome de baptismo seria Fernando Martins. Uma tradição oral do século XIV foi estabelecendo na memória popular que os seus pais foram Martinho e Teresa de Bulhões, mas não existe nenhuma fonte histórica que o corrobore, assim como os primeiros cronistas da vida de Santo António nunca mencionaram sequer o apelido Bulhões. Em suma: dizer-se que Santo António se chamava Fernando de Bulhões, e que foi filho de Martinho e de Teresa, será, em última análise, uma ficção. No entanto, a tradição oral supracitada também refere que o pai de Santo António trabalhava para a câmara de Lisboa. Ora, se trabalhasse como cobrador, até pode conjecturar-se, como puro exercício especulativo, se o apelido Bulhões não fosse, em vez disso, uma alcunha derivada do nome das moedas que ele cobrava: os bolhões. Nesse caso é fácil imaginar que o tal Martinho pudesse ter sido conhecido pelos populares como “Martinho dos Bolhões”: ou seja, como o “homem que vem buscar os bolhões”. Por culpa disso, o filho ganharia a alcunha de “Fernando do Bolhões”: ou seja, o “Fernando que é filho do Bolhões”.
Então, como é que Fernando – Martins ou Bulhões – deu lugar a António? A resposta é simples: o nome António, de aristocrática origem romana, cuja etimologia incerta talvez possa estar relacionada com a palavra grega para flor (anthos), foi um nom de plume adoptado pelo santo quando esteve na Itália, por razões que, hoje, não são claras. No entanto, o que é claro é que o nome masculino de António se generalizou muitíssimo após o prestígio granjeado pelo santo; e, ao contrário do que se possa pensar, a sua manutenção fez-se por via culta, em oposição à coexistente degenerescência na redução Antão ou Anto, verificada em contextos populares (o poeta António Nobre usou durante algum tempo o hipocorístico Anto).
À parte das enturbadas origens do nome de Santo António, outros aspectos da vida deste santo permanecem desconhecidos do público. À cabeça, lembro-me de uma curiosidade interessantíssima que tem andado algo esquecida: a tradição estabelece que foi o rex inutilis D. Afonso VI (quando ainda era Príncipe do Brasil) que, em 1655, durante o período da guerra com Castela pela independência do reino de Portugal, tornou Santo António o protector do exército português, ordenando que este assentasse praça como soldado e lhe fosse pago soldo por esse serviço. Assim, Militar, inversamente a Casamenteiro, consiste no mais ignoto atributo antonino.
Imagem: Santo António de Meinedo (séc. XV). Encontrada na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, esta imagem é uma das mais antigas representações de Santo António com o Menino Jesus ao Colo.
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