terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Velhos são os trapos

O cantor canadiano Leonard Cohen lançou há pouco tempo o seu décimo segundo álbum de originais, intitulado Old Ideas. Sim, com efeito, todas as canções de Old Ideas lembram ou têm melodias semelhantes a outras músicas clássicas de Cohen, mas o seu registo é depurado, económico, diferente dos arranjos apresentados na última e brilhante tour mundial, da qual o fantástico Live in London, editado em 2010, oferece registo. É, também, um álbum em que Cohen vinca com força, mas talvez inconscientemente - digo-o, porque o resultado é muitíssimo natural -, as duas faces mais distintivas do seu universo autoral: a do asceta e a do amante.
Pessoalmente, em Cohen, prefiro o ascetismo, e as narrativas penitenciais, ao romantismo; e, na minha opinião, é o primeiro que serve de móbil às melhores canções de Old Ideas. É provável que ascetismo não seja a palavra certa, mas ouvir a voz cavernosa de Cohen inibe-me de escolher outra: esta música é para quem anda nos desertos, sejam os de areia ou os de betão. De igual maneira, poderia ser música que sublinhasse o facto de que para ouvir-se algo decente nestes tempos artificiais seria preciso escutar os artistas de outrora, mas Cohen não é de outrora: é de hoje. E é bem capaz de ser de sempre. Ouçam estas duas confissões: Show Me The Place e Come Healing.




No ossuário

Os ossos são lixo.
Há eras, quando a vida escumava no cadinho primordial, os pioneiros pluricelulares aprenderam a vestir-se com as suas excrementícias e foi a partir dessas armaduras acerbas que os ossos originaram.
Como uma dadaísta, a morte transforma esse lixo em arte com golpes impiedosos até abandonarmos a carne e adquirirmos formas homogéneas, às vezes emolduradas por caixões, mais adequadas à terra do que aos museus: não morremos - somos esculpidos.
Só ossos interessam, nessa imensa obra de arte. O nosso sangue, a nossa linguagem, as nossas memórias, isso é escória esvurmada; limalhas lascadas pela lâmina, tinta erodida.
A quem se destinam as ossadas?
Quem as observa, as critica, comove-se com elas?
Vermes e anjos?
Talvez o próprio universo, já que, segundo esse nome, tudo o que existe verte para uma unidade saprogénica. É sempre assim que as coisas acabam: alguém olha para o universo... e o universo, mais tarde ou mais cedo, também olha. Embebido pela luz que assinala a fronteira frágil entre o agora e o infinito.
Os ossos são lixo.
Cibórios de resíduos humanos que o solo se recusa a absorver para evitar adoecer. São armadilhas anónimas que sugam os nossos itinerários individuais - como a Cintura de Van Allen chupa a radiação proveniente da magnetosfera. Caras ocas: crateras vagadas pela esperança. Silêncios. Inteligências que fluíram: sem objectivo. Somos pó que preenche o atelier da morte; assentando tão lentamente quanto o reflexo de Atena se imprimiu na superfície espelhada do rio: «adeus, minha flauta!»
E, no entanto, inversamente à deusa, a morte não sente vergonha daquilo que cria.


Fotografia: Gisela Monteiro/Mort Safe.
Weblog Mort Safe.
Facebook Mort Safe.

Ebora Captum Est

Junto à Igreja de São Francisco, em Évora (séculos XV e XVI). A lenda diz que o dramaturgo português Gil Vicente está aqui sepultado, embora não existam provas que o corroborem. Parafraseando uma célebre máxima de Auto da Lusitânia (1532), Gil Vicente pode "estar em todo o mundo e em lado nenhum" (o trecho original é «Todo o Mundo e Ninguém».)

Na Igreja de São Francisco, em Évora.

Na Capela dos Ossos (século XVII), na Igreja de São Francisco, em Évora. Locais desta natureza são mais comuns do que se pode pensar e em Portugal existem diversos, como as capelas dos ossos de Campo-Maior e Monforte, no Alentejo, e as de Pechão, Alcantarilha e Faro, no Algarve. Não tenho ideia de que tenha existido uma capela dos ossos em Lisboa (no mínimo com estas características), mas no século XVII e na primeira metade do século XVIII várias igrejas costumavam mostrar mortos ao público em dias especiais, em principal no Dia de Finados (2 de Novembro).

Na Capela dos Ossos, na Igreja de São Francisco, em Évora. As ossadas encontram-se apartadas do público por grossas placas de acrílico. Porquê? Para evitar que energúmenos vandalizem as caveiras: existem dezenas, escrevinhadas nas testas a esferográfica e caneta de feltro.

Na Capela dos Ossos, na Igreja de São Francisco, em Évora. Os frescos alusivos à morte que decoram o tecto datam do século XIX.

À saída da Capela dos Ossos, na Igreja de São Francisco, em Évora.

No Cromeleque dos Almendres, em Évora (cerca de 7000 a.C.). Cromeleque deriva da palavra galesa cromlech que significa pedra curvada e é o nome que se costuma dar aos monumentos megalíticos formados por pedras dispostas em círculos ou em elipses. É provável que tenham servido de locais de culto e de observação de fenómenos astronómicos.

Menir dos Almendres, em Évora. Menir deriva da antiga palavra bretã men hir que significa pedra comprida. Especula-se que o dos Almendres, localizado numa cota menos elevada que a do cromeleque, mas na sua vizinhança, tenha composto com o segundo uma espécie de monumental aparelho sagrado de observação dos astros, pois ambos se encontram alinhados pelo nascer do Sol do solstício de Verão (21 de Junho).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

'Making-of' de ilustração de "O Homem Corvo"

Ana Bossa e Nuno Bouça, os ilustradores de O Homem Corvo (Saída de Emergência), levam-nos pela mão até aos bastidores da ilustração.
O Homem Corvo, o meu primeiro livro para crianças, será publicado em Abril (façam-se fãs da sua página oficial no Facebook).


Trailer Ilustração O HOMEM CORVO from Nuno Bouça on Vimeo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

David Soares no Festival Internacional de Ficção Curta de Wroclaw


De 4 a 7 de Outubro, estarei na bela cidade polaca de Wroclaw como convidado do 8º Festival Internacional de Ficção Curta de Wroclaw: um dos mais interessantes e dinâmicos festivais literários europeus.

Em breve, divulgarei a programação que me está prevista para o evento, mas, para já, posso dizer que irá consistir em encontros com o público, leituras dos meus trabalhos e participações em mesas-redondas e workshops.

Fiquem atentos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Página oficial de "O Homem Corvo" no Facebook


«O Ladrão de Lágrimas roubou um coração.»



«Conheçam O Homem Corvo: um ladrão de lágrimas, que entra à noite nos quartos de meninos tristes. Mas numa noite especial, em que cada barulhinho parece um barulhão, ele espanta-se por encontrar uma coisa que sempre desejara ter: um coração.

Escrita por David Soares, O Homem Corvo é uma história infantil que recupera o carácter dos contos clássicos para crianças, apresentando uma mistura mordaz entre negrume e fantasia. Ilustrado por Ana Bossa numa técnica original, onde figuras e cenários tridimensionais habitam um fascinante espaço de fusão, O Homem Corvo é pura magia.»


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Novidades #1: "O Homem Corvo"


O Homem Corvo
, o meu primeiro livro para crianças, ilustrado por Ana Bossa, com direcção fotográfica de Nuno Bouça, chegará às livrarias em Abril, pelas Edições Saída de Emergência. Em 2012, a Primavera trará o negrume do Homem Corvo, o Ladrão de Lágrimas: preparem-se para conhecê-lo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Gorefilia

Gorefilia, o novo álbum de Holocausto Canibal, tem saída agendada para Abril.

Um disco brutal, cujo conteúdo lírico, no qual participo com algumas letras, orbita a temática das parafilias. Para ouvidos e estômagos fortes: será o equivalente sonoro a uma garrafa de absinto.

Requiescat in pace

Não gosto da música de Whitney Houston, mas a sua morte serviu para, mais uma vez, me lembrar que gosto ainda menos do modo cruel como facilmente se desvalorizam as vidas que tiveram os artistas, especialmente aqueles que, de acordo com os padrões higiénicos impostos pelas sociedades às quais devotaram anos de carreira, sucumbiram em condições relacionadas com abuso de álcool e drogas. Serão vocês, pessoas comuns, impolutas nas vossas escolhas? Ou serão motivadas pela constatação de que, inversamente aos artistas que desprezam, ninguém se lembrará dos vossos nomes quando a terra sepulcral cobrir os vossos simplórios caixões de pinho? Por que motivos acolhem com satisfação que os programas noticiosos televisivos abram com reportagens sobre todo o tipo de insignificâncias do mundo do futebol, mas consideram uma perda de tempo que se gaste quinze minutos a emitir-se retrospectivas das vidas de quem alimentou sonhos de milhões de pessoas? Vocês ouvem as músicas, vêem os filmes, admiram os quadros e lêem os livros de quem é mais talentoso, sofisticado, inteligente e generoso que vocês e, no final, não mostram nenhum respeito, nenhum apreço, nenhuma consideração. Isso é triste. Triste e revelador de uma mente pequena.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Observação histórica sobre a lenda hirâmica

Existem diversas versões dos rituais correspondentes aos três graus simbólicos da Franco-Maçonaria, consoante as diferentes obediências maçónicas, mas todas têm elementos comuns, de acordo com as narrativas alegóricas neles representadas. Assim, os três graus simbólicos do Ofício são os de Aprendiz, Companheiro e Mestre: neste, o iniciado interpreta o Mestre Hiram Abiff, lendário mestre-de-obras do bíblico Templo do Rei Salomão no Monte Mória e uma das personagens mais importantes da simbologia maçónica.

Segundo a mitologia do terceiro grau simbólico, Hiram Abiff foi um dos três poderes envolvidos na construção do Templo, em conjunto com o Rei Hiram de Tiro e o próprio Salomão. Os três conheciam o segredo da Palavra de Mestre: senha que protegia todos os segredos do Ofício e que apenas poderia ser proferida quando os três homens estivessem juntos, pois cada um somente conhecia uma sílaba. Os desfechos de todas as versões do mito hirâmico são unânimes em narrar como o Mestre Arquitecto foi abordado à traição ao meio-dia, vindo do ainda incompleto Sanctum Sanctorum do Templo, por três obreiros que quiseram roubar-lhe à força os segredos do Ofício: esses Três Rufiões, como são designados colectivamente, atendem por nomes diferentes em versões distintas, mas, na generalidade, os nomes mais frequentes são os de Jubela, Jubelo e Jubelum; este, o mais forte, foi o carrasco de Hiram Abiff, golpeando-o de surpresa na fronte com um golpe de malhete. Em seguida, os Três Rufiões esconderam o corpo; regressaram ao Templo à meia-noite e inumaram o Mestre numa cova pouco profunda que escavaram a Oeste da construção, no próprio Monte Mória, deixando um ramo de acácia na terra como sinal identificativo da sepultura. No dia seguinte, Salomão deu por falta de Hiram Abiff e mandou procurá-lo; passada uma quinzena, os seus homens encontraram os Três Rufiões e estes levaram Salomão e Hiram, Rei de Tiro, à sepultura do arquitecto: então, os dois reis ergueram da terra o falecido e sepultaram-no com dignidade no Sanctum Sanctorum do Templo. (Esta expressão latina, que significa O Santo dos Santos consistia na câmara mais recôndita do Templo e é um nome associado às santidades do sacerdócio e do próprio Sumo-Sacerdote: o único indivíduo autorizado a entrar nesse aposento - e apenas uma vez por ano.)

A alegoria hirâmica faz-se, também, de elementos retirados de alguns livros do Antigo Testamento. No Segundo Livro de Samuel, é descrito como Hiram, Rei de Tiro, enviou materiais de construção ao Rei David, para a construção inaugural do Templo: «Hiram, Rei de Tiro, enviou-lhe mensageiros, com madeira de cedro, carpinteiros e pedreiros, para lhe construir um palácio. Então, David reconheceu que o Senhor o confirmava Rei de Israel e exaltava a sua realeza por causa do seu povo» (5:11-12). Esta personagem não é Hiram Abiff, mas é comum encontrar fontes que confundem ambas as figuras. À frente, no Primeiro Livro dos Reis encontra-se a primeira referência a um Hiram artificie, embora seja dito que se trata de um escultor de bronze e não um arquitecto: «Depois disto [da construção do Templo - neste livro, Hiram só é chamado depois da edificação], o Rei Salomão mandou vir de Tiro um homem chamado Hiram, que trabalhava em bronze, filho de uma viúva da tribo de Neftali, cujo pai era de Tiro» (7:13-14). Nos versículos seguintes (7:15-22) é descrito como Hiram, o escultor de bronze, levantou duas colunas, com dezoito côvados de altura (mais ou menos oito metros e dez centímetros), no pórtico do Templo: chamou Boaz (força) à da esquerda e Jaquin (estabilidade) à da direita. Consequentemente, na versão da construção do Templo narrada no Segundo Livro das Crónicas, Salomão pediu a Hiram, Rei de Tiro, materiais de construção e um artífice experiente no trabalho dos metais preciosos, do ferro e do bronze (2:7); em resposta, o soberano de Tiro enviou-lhe um artificie chamado Huran-Abi, filho de uma mulher da tribo de Dan e de um pai tírio (2:12-13). Porém, não existe nenhuma descrição da morte de Hiram Abiff nestes textos, por isso, pese a base bíblica, a parte mais significativa da lenda hirâmica provém de outras fontes.

Os documentos mais antigos que preservam prováveis registos daquilo que se pensa ser oficinas britânicas de maçons operativos medievais são conhecidos em conjunto pela designação Old Charges (Velhos Regulamentos): o mais provecto é o chamado Manuscrito Halliwell (ou Poema Regius) que data de 1390, mas o segundo mais antigo, datado de 1425 e apelidado de Manuscrito Mathew Cooke (que, na verdade, poderá ser uma cópia de um manuscrito datado de meados do século XIV - logo um texto mais antigo que o Poema Regius), menciona a história bíblica da construção do Templo, dizendo que o filho do Rei de Tiro foi o mestre-de-obras de Salomão, mas não lhe oferece um nome, nem menciona a sua morte às mãos de obreiros traiçoeiros.

De maneira geral, aceita-se que a referência maçónica mais antiga à busca (que pode chamar-se de "hirâmica", porque se assemelha à exumação do corpo de Hiram por Salomão e pelo Rei de Tiro) da sepultura de um mestre encontra-se no chamado Manuscrito de Graham, escrito em 1726: neste texto, os três filhos de Noé pretendem recuperar a sabedoria antiga comunicando com o cadáver exumado do pai. Este relato apareceu três anos depois da publicação da primeira edição das Constituições de Anderson (escritas pelo clérigo escocês James Anderson), que não mencionam a lenda hirâmica. Com efeito, a história de Hiram Abiff, tal como é contada no ritual do terceiro grau simbólico, foi publicada pela primeira vez em 1730 numa exposição escrita por Samuel Pritchard intitulada Freemasonry's Dissected (A Franco-Maçonaria Dissecada). Contudo, também em 1726, o ano em que o Manuscrito de Graham apresentou a história da exumação de Noé pelos filhos, foi publicado um texto intitulado The Whole History of the Widow's Son Killed by the Blow of a Beetle (A História Completa do Filho da Viúva, Morto com um Golpe de Malhete), o que prova que a lenda hirâmica já era conhecida - e encontrava-se mais ou menos sistematizada - antes da data de publicação da exposição de Prichard. (A designação hirâmica de filho da viúva é retirada do Primeiro Livro dos Reis.)

Em diversas mitologias se encontra o tema da morte e da ressurreição de um corpo destruído ou escondido, como no mito egípcio de Osíris ou no relato cristão da Paixão de Cristo, e o mito hirâmico, desenvolvido no século XVIII, prossegue essa linhagem. Todavia entre todas as histórias sobre "mestres falecidos e ressuscitados" existe uma que, de facto, se relaciona, não com deuses e heróis, mas com um pedreiro operativo medieval: a canção-de-gesta francesa Les Quatres Fils Aymon (Os Quatro Filhos de Aymon), cuja versão primitiva, transmitida oralmente, data, provavelmente, do início do século XII.


Nessa narrativa, os cavaleiros Renaud, Alard, Richard e Guichard, filhos do conde Aymon da Dordonha, envolvem-se em diversas aventuras características da época, nas quais não faltam um poderoso adversário (o rei dos francos Carlos Magno), um feiticeiro (o mago Maugis) e um cavalo prodigioso chamado Bayard que tem o poder de esticar-se ou encolher-se, consoante o número de cavaleiros que o montam: na minha opinião, as representações de Bayard com os quatro irmãos no dorso evocam claramente o selo da Milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Jerusalém (os Templários, constituídos oficialmente em 1128) que mostra um cavalo partilhado por dois cavaleiros (selo apenas criado em 1191).


O cavalo Bayard pertence a Renaud que, na conclusão da história (cada vez mais negra), parte em peregrinação solitária para Jerusalém; ao regressar, descobre que a sua mulher morreu (em algumas versões, Bayard também foi afogado num rio por Carlos Magno, com uma mó amarrada ao pescoço). Então, asila-se na cidade de Colónia, na qual arranja trabalho como pedreiro nas obras de construção da Catedral de São Pedro e Maria.
O nobre Renaud não demora a sobressair pela excelência do seu trabalho e isso provoca inveja a alguns pedreiros: à traição, matam-no com um golpe de malhete na testa, enquanto dorme, e, em seguida, atiram-no ao Rio Reno. Finalmente, alguns dias depois, o corpo é recuperado e Renaud é canonizado.

Poderá esta narrativa cavaleiresca sobre um guerreiro tornado mestre-pedreiro e santo ter contribuído, em menor ou maior grau, para a criação do mito hirâmico?


(Imagens: Reprodução do selo templário de 1191; iluminura do século XV, representando Bayard e os quatro filhos de Aymon.)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Caim" de Saramago na revista Locus de Janeiro de 2012


Na edição de Janeiro da revista Locus, o crítico Gary K. Wolfe resenha (positivamente) a edição de língua inglesa do romance Caim de José Saramago. Faz sentido ser na edição de Janeiro: Saramago foi, por mérito próprio, um Janus literário com uma face voltada para a literatura contemporânea e outra virada para a fantástica.

«Several years ago, in reviewing José Saramago's Blindness in these pages, I noted that, unlike many widely respected literary figures (Saramago won the Nobel in 1998), he used fantastic themes not just for their metaphoric avoirdupois, but worked them out with the same sort of plot logic a genre writer might devote to them (...) The same holds true of his final novel, Cain (...) The result is not only a provocative and often very funny re-imagining of some of the Old Testament's greatest hits - at times reminiscent of Twain or Vonnegut or even James Morrow - but also a time-travel fable (...) the novel sometimes comes off as a headlong comic monologue (we could imagine a lot of these lines being delivered by the Monty Pyhton crew or even Mel Brooks). Well rendered by Margaret Jull Castro's snappy translation, Cain is a wise and angry delight, and a very appropriate exit line for a gadfly.»

domingo, 5 de fevereiro de 2012

«Extermine-se todos os brutos»


No livro profético Isaías (séculos VIII-VI a.C.) vaticina-se que «o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha com o boi», mas o filósofo norte-americano Jeff McMahan não está disposto a esperar que os predadores mudem de dieta e propõe uma solução mais radical para que o mundo alcance mais depressa um estádio harmónico.

Se vocês são indivíduos que acham que o veganismo já é radical o suficiente é porque ainda não se lembraram que existem animais (não humanos) que são carnívoros e que não têm ideias nenhumas em deixar de sê-lo. Que fazer com bichos assim, que continuam a comer outros bichos em vez de tofu ou seitan? McMahan diz que a única coisa a fazer é exterminá-los a todos.
Em 2010 escreveu uma peça intitulada The Meat Eaters, para o jornal The New York Times, na qual, em síntese, defende o extermínio de todas as espécies carnívoras para criar-se um mundo natural mais inclusivo (seja lá isso o que for) apenas com espécies herbívoras. Segue-se um excerto para perceber-se melhor qual o tipo de retórica de que se está a falar:
«The claim that existing animal species are sacred or irreplaceable is subverted by the moral irrelevance of the criteria for individuating animal species. I am therefore inclined to embrace the heretical conclusion that we have reason to desire the extinction of all carnivorous species».
(Imagem: Peace de William Strutt. 1896.)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Jesus Cristo, exorcista


No contexto desta notícia, sobre o desejo do patriarcado olissiponense de que a prática do exorcismo retorne ao quotidiano, vale a pena recordar, de modo sucinto, algumas considerações sobre aquele que, com efeito, terá sido o primeiro exorcista cristão: Jesus.
Segundo os evangelhos sinópticos, Cristo devotou uma parte significativa dos seus dias à prática do exorcismo, expulsando espíritos indignos e demonetes dos miseráveis que com ele se cruzavam; na verdade, tão frequentemente se devotou ao exorcismo que é legítimo dizer que seria esse o seu ganha-pão.

O étimo da nossa palavra exorcismo é a palavra grega exorkismós que apenas significa prestar juramento, mas nos evangelhos canónicos a palavra que aparece em referência à prática do esconjuro de demónios é a grega ekballein que significa repelir ou expulsar. Em S. João, por exemplo, quando Jesus diz «Tudo o que o Pai Me dá virá a Mim; e não repelirei aquele que vem a Mim» (6:37), no texto original correspondente pode ler-se «ekbaló exó». No mesmo evangelho (2:15) pode ler-se «Com umas cordas, fez um chicote e expulsou-os a todos do Templo» na passagem alusiva ao encontro com os vendilhões e também aqui é usado o verbo original ekballein.

A palavra exorkismós é tardia e revela a exclusividade da prática exorcística sistematizada por um agente eclesiástico autorizado (um clérigo exorcista que se apoia na sua fé pessoal e em textos oficiais - podem ser os textos exorcísticos do Rituale Romanum - que são por ele recitados na presença de um endemoninhado de maneira a expulsar o demónio escondido). No período narrado pelos evangelhos existiram diversos exorcistas itinerantes, de várias etnias, e em São Marcos (9:38-40) pode ler-se como os apóstolos encontraram um desses exorcistas errantes que dizia expulsar demónios em nome de Cristo: «Mestre, vimos alguém a expulsar demónios em Teu nome, sem que nos siga, e proibimos-lho». Cristo respondeu-lhes: «Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e vá logo dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós». Este trecho é interessante, porque desvenda que 1) o exorcismo era uma prática comum e aceite e que 2) Cristo se considerava um irmão dos exorcistas itinerantes.
Convém esclarecer que, embora a crença demoníaca seja um elemento substancial do Novo Testamento, não há Diabo nenhum no Pentateuco, nem sequer no livro sapiencial Job. No Antigo Testamento é sempre Jeová, deus único, que faz tanto o Bem como o Mal, seja directamente ou por intermédio de um agente escolhido para o efeito (como em Job), mas o proverbial Diabo ou Satanás que a igreja popularizou não existe. Em síntese, a dicotomia cristã entre o Bem e o Mal, causados por entidades diferentes (Deus e Satanás), é uma contaminação do antigo zoroastrismo persa (século VI a.C.), religião que assenta num dualismo entre um deus bom (Aura Mazda) e um deus mau (Ariman). Estes deuses gladiar-se-ão numa batalha decisiva, na qual o Bem triunfará definitivamente sobre o Mal; crença sobre a qual se fundou o último livro do Novo Testamento, o Apocalipse (século I). Também é persa a posterior doutrina gnóstica do maniqueísmo, criada pelo profeta Mani (século III), que postula que a ulterior vitória do Bem
na batalha apocalíptica no Monte Megido (Armagedão) não está garantida.

Em paralelo, os evangelhos informam-nos que Jesus operava como curandeiro. Em São Marcos (7:32-35) é descrito como Cristo curou um surdo-gago enfiando-lhe os dedos nos ouvidos e cuspindo-lhe para a boca e como curou um cego cuspindo-lhe para os olhos (8:23-26). Trata-se de um método primitivo que, de um ponto de vista histórico, se inscreve na mentalidade da época: o historiador romano Cornélio Tácito descreveu nas suas Histórias (século I) como o imperador romano Vespasiano era capaz de curar a cegueira com o seu próprio cuspo e, também, outras doenças apenas com o poder curativo do seu toque.
A crença na força salvífica do toque de um soberano continuou a ser instrumentalizada ao longo da Idade Média como sendo um sinal de divino ministerio: ou seja, de que os reis eram indigitados por Deus para governarem e, como tal, partilhavam, até certo ponto, dos seus poderes. No que concerne à religião judaica, acreditava-se que os verdadeiros rabis possuíam poderes mágicos que lhes eram oferecidos por Deus para que, desse modo, pudessem fazer magia e partilhar da Sua glória. Sublinhe-se que nos versículos supracitados de São Marcos não existe nenhuma alusão, seja directa ou indirecta, a Deus ou à fé dos doentes: Cristo cura somente com a propriedade mágica do seu cuspo. É um acto de cura o mais elementar possível e perfeitamente consonante com o universo das mezinhas caseiras.

Na minha opinião, o mais insólito exorcismo de Cristo não é o célebre escorraçar dos espíritos impuros do corpo de um desgraçado para uma vara de porcos (São Mateus 8:28-32; São Marcos 5:1-13; São Lucas 8:27-33 - não há menção desta história em São João, porque este evangelho caracteriza-se por não referir nenhuns exorcismos, embora, como vimos, use o verbo ekballein em outras circunstâncias), mas a expulsão de um demónio do corpo de um paralítico na cidade de Cafarnaum, ao Norte do Mar da Galileia (São Marcos 2:1-12). A paralisia, como a mudez, a surdez, a cegueira, a lepra e a esquizofrenia, era considerada um sinal típico de possessão diabólica.
Nesse curioso episódio, Cristo pede que o endemoninhado seja transportado num catre para dentro da casa onde residia na altura (a de Pedro, presume-se pelo texto antecedente), através de um buraco feito no telhado; naquele tempo, os telhados das tradicionais casas israelitas eram terraços feitos de madeira unida com canas e cobertos de barro misturado com palha. Quatro homens desceram o catre com o paralítico pelo buraco aberto no telhado e Jesus disse-lhe «Meu filho, os teus pecados te são perdoados»; em seguida, ordenou-lhe que voltasse à sua casa: curado, o homem obedeceu e saiu pelo seu pé. Esta descrição faz lembrar um primitivo ritual de exorcismo, no qual os populares tentam ludibriar o demónio da seguinte maneira: descem o possesso para dentro de casa por um buraco no telhado, como neste trecho de São Marcos, ou transportam-no através de uma janela, o que tem o efeito de fazer crer ao demónio que apenas é possível entrar na habitação por essa via. Logo que o exorcista expulsa o demónio, este sai por onde entrou e de imediato é vedado o buraco ou a janela, ficando a casa livre de futuras intromissões dessa entidade sobrenatural.

Em diversos países europeus, as casas medievais ainda eram construídas com portinholas ou postigos para que o Diabo saísse, em herança desse ritual de exorcismo; essas passagens deram origem, mais tarde, às portas exclusivas pelas quais se retiravam os mortos de dentro das casas. O livro Faust: Eine Tragödie, de Johann Wolfgang von Goethe (1808), ainda alude a este conhecimento popular de demonologia nas seguintes palavras de Mefistófeles a Fausto: «Diabos e espíritos obedecem a uma lei, como deves saber: devem usar o mesmo caminho para entrar e para sair. Entramos por onde queremos, mas não podemos escolher a saída» (verso 1410, página 44; Oxford University Press, 1998).

(Imagem: Mosaico bizantino do século VI na basílica italiana de Santo Apolinário, o Novo, em Ravena.)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

De cavalo para burro: António de Macedo sobre o novo Acordo Ortográfico


Ainda não me tinha pronunciado em público sobre o novo acordo ortográfico, mas anuncio que sou contra, evidentemente.

Mais do que declarar em seguida as razões pelas quais sou contra, prefiro transcrever um texto inédito da autoria do cineasta e escritor António de Macedo que não só encerra a opinião definitiva sobre este assunto, como consiste num luminoso e corajoso esclarecimento que prova que o novo acordo ortográfico não foi promulgado por decreto-lei, como tem sido divulgado, mas somente por uma resolução, logo não possui nenhum carácter vinculativo.
Leiam com atenção e pensem:

«1 - A nova ortografia, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), foi promulgada pela Resolução da Assembleia da República (AR) n.º 26/91, de 23 de Agosto (com pequenas actualizações posteriores), e pormenorizada pela Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011.

2 - A ortografia ainda em vigor, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1945 (AO45), foi promulgada pelo Decreto n.º 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, e ratificada em 1973, com pequenas alterações, pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro.

3 - O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos foi promulgado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março (com pequenas actualizações posteriores).

4 - Na hierarquia legislativa um Decreto-Lei está acima duma Resolução da AR ou do CM. Um Decreto-Lei é vinculativo, ao passo que uma Resolução é uma mera recomendação.

5 - Por conseguinte, uma Resolução não tem força legal para revogar um Decreto-Lei, e por isso o AO45 continua em vigor.

6 - Em caso de conflito entre a nova ortografia e o Direito do Autor, o que prevalece é o Decreto-Lei do Direito de Autor.

7 - Em consequência, nenhum editor é obrigado a editar os seus livros ou as suas publicações segundo a nova ortografia, nem nenhum Autor é obrigado a escrever os seus textos segundo o AO90. Mais ainda: tentar impor a nova ortografia do AO90 é um acto ilegal, porque o que continua legalmente em vigor é o AO45.

8 - Ao abrigo do Código do Direito de Autor, os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica, conforme consta do n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, onde se diz que o autor goza durante toda a vida do direito de assegurar a genuinidade e integridade da sua obra, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação ou outra modificação da mesma, e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue.

9 - Embora no Artigo 93.º do mesmo Código do Direito de Autor se preveja a possibilidade de actualizações ortográficas, que não são consideradas "modificações", há sempre a opção legítima, por parte do Autor, de escrever como entender, por uma "opção ortográfica de carácter estético", mesmo que em 2015 o novo AO90 venha a ser eventualmente consagrado por Decreto-Lei, e não apenas, como agora, por uma simples Resolução da AR.

Para terminar, e entre parênteses, o novo AO90 é tão abstruso que é antidemocrático porque as várias sondagens que têm sido feitas desde há vários anos sempre apontaram para uma média de rejeição, do AO90, por cerca de 67 por cento da generalidade dos Portugueses - além de ter recebido, ao longo deste últimos anos, nove pareceres negativos emitidos por várias instituições, como por exemplo o Departamento de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, a Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, a Associação Portuguesa de Linguística e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.»

Obrigado, António!

(A imagem que ilustra esta publicação pertence ao livro Les Fables d'Esope Phrygien, Mises en Ryme Françoise, de 1547, e é da autoria de Bernard Salomon.)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O verdadeiro criador do Carocha

(Josef Ganz no seu Maikäfer, em 1931.)

Que a história do Carocha ter sido "inventado" por Hitler era uma espécie de lenda urbana já se sabia, mas que também o austríaco Ferdinand Porsche pouco teve a ver com a sua invenção já é uma novidade: o jornalista holandês Paul Schilperoord descobriu que o verdadeiro inventor do Carocha foi um judeu germano-húngaro chamado Josef Ganz, que, em 1931 (dois anos antes do modelo Tatra V570 do austríaco Hans Ledwinka - até agora apontado como sendo a provável base do V1 de Porsche), criou um protótipo de um carro mais barato "para o povo" que chamou de Maikäfer (Carocha de Maio).

O livro de Schilperoord intitula-se The Extraordinary Life of Josef Ganz: The Jewish Engineer Behind Hitler's Volkswagen e pode ser comprado nesta ligação.

Este site tem informações interessantes sobre o tema: http://www.ganz-volkswagen.org


(O modelo Standard Superior produzido em 1933 pela companhia alemã
Standard Fahrzeugfabrik, segundo os modelos de Josef Ganz
.)

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