sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Crítica a «Palmas Para o Esquilo» no jornal Expresso

Na imagem podem ler uma excelente crítica ao livro de banda desenhada Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, publicada no passado dia 14 na secção de livros do suplemento Atual do semanário Expresso. A crítica é de Sara Figueiredo Costa.



sábado, 14 de dezembro de 2013

«Bairro Alto: Uma Cirurgia» - fotos e texto

 
O espectáculo Bairro Alto: Uma Cirurgia, actuação em spoken word interpretada por mim (texto e voz) e por Charles Sangnoir (música) foi um êxito e quem não foi nunca saberá o que perdeu.
No belo vestíbulo do Palácio Quintela, misto de templo e salão artístico, invocou-se a história e a lenda do Bairro Alto, numa cirurgia psicogeográfica que se iniciou com a apresentação de uma canção original de Charles Sangnoir, composta propositadamente para este evento e intitulada Marinheiro de Aguardente, uma toada melancólica, de muitíssimo bom gosto; depois (e sem anestesia), seguiu-se a interpretação do meu texto, Bairro Alto: Uma Cirurgia, escalpelização erudita de quinhentos anos de história bairro-altina, exumatória de locais e personagens, como Fernando Pessoa, Aleister Crowley, Padre António Vieira, António José da Silva, o Judeu, Eça de Queirós e Júlio Verne.
Deixo-vos umas fotos do espectáculo e o texto que interpretei.







Bairro Alto: Uma Cirurgia

Tão longe deste lugar, que mais parece pertencer a um universo imaginário, repousa a imensa massa de gelo do Oceano Árctico, cujas águas frígidas cingem o norte da Islândia. Se o hostil panorama glacial é incontrastável, a vulcaniana paisagem islandesa é negra, gabra, quasilunar. Vista do espaço é uma vasta e ominosa vitiligem perdida num pélago preto – catarata no olho do mundo. Esta é a Última Thule descrita pelo geógrafo grego Píteas de Massalia, o primeiro explorador a intuir a intimidade entre os movimentos das marés e a robustez gravítica da Lua. É um território terrível, obstruído por omálgios monstros marinhos que blasonam vapor quando rompem a superfície de uma água que, segundo Píteas, não é líquida, nem sólida, mas dúctil como polpa de alforreca. Os monstros, claro, não existem: sabemo-lo, porque não foram descobertos em 2006 pela equipa científica que desbravou os ctónicos segredos dessas profundezas. No entanto, esses investigadores descobriram algo tão invulgar, tão extraordinário, que até lhe deram um nome. Chamaram-lhe Ming.
Ming é uma amêijoa.
O oceano, com todo o seu peso, envergonha-se defronte do sofrimento contido numa única lágrima e a morte de uma estrela não se compara à ruína de uma mente moribunda: existe uma especialidade nas coisas pequenas; um lirismo minimalista que, tantas vezes, oculta a linguagem encoberta que nos permite falar com ciclópicas e inflexíveis forças. O arco-íris só tem sete cores. Oito notas permitem-nos compor toda a música existente. Com vinte e seis letras escrever-se-ão todos os livros que existirão até à morte do mundo. Porém, a concha mate de Ming, vincada pelo entrecruzar das estrias radiais com as características caneluras de crescimento, esconde o maior arcano do cosmos: o da longevidade. Este molusco lamelibrânquio, achado numa das regiões mais inóspitas do planeta, morreu quando tinha quinhentos e sete anos de idade: é o animal mais velho jamais encontrado – um diminuto coração calcárico, sumido entre o abismo. Quando germinou, Cristóvão Colombo ainda não tinha chegado à América do Norte e Luís de Camões e William Shakespeare não tinham nascido.
Qual é o segredo da longevidade?
Como é que algo tão insignificante pôde viver durante mais de meio século?
Que outros tipos de organismos ditosos serão capazes de bater esse olímpico recorde?  
Observemos o Bairro Alto, quase tão velho quanto a amêijoa. A calandragem do tempo desgasta os detalhes e as datas. Só sabemos que os loteamentos se iniciaram em 1513 e que catorze anos depois contava com quatrocentos e oito edifícios e com mil moradores. Em 1551, ano em que os jesuítas aí assentaram, já existia a Rua do Norte, a dos Calafates, a da Atalaia, a da Salgadeira, a de São Roque, a da Rosa das Partilhas e a das Gáveas, mas esta história poderá ter começado um pouco antes. A cirurgia, afinal de contas, é sempre o último recurso, tantas vezes olhado com preconceito, principalmente em finais do século XV – outros métodos, não-invasivos, menos rústicos, diga-se, teriam, necessariamente, de ser tentados primeiro. Não se duvide que o Bairro Alto foi uma cirurgia. Lisboa estava muito doente.
A mesa de operação foi o terreno apelidado de Cotovia: montureira que, abarcando a área dos presentes Largo do Rato, Jardim do Príncipe Real e Praça da Alegria, estendia-se na direcção do Tejo, circunscrevendo em plenitude a encosta de um planalto abatido abruptamente a Norte, mas declinado com doçura para Sul. O proprietário desse arredado arrabalde, atapetado de oliveiras e alcandorado a ocidente da austera muralha fernandina, foi Mestre Guedelha Palaçano, intrigante físico e astrólogo judeu de D. Afonso V. O compêndio oitocentista Monstruosidades do Tempo e da Fortuna assinala um episódio de anti-semitismo olisiponense que consistiu na anexação na porta da Igreja de São Roque de uma pasquinada de protesto pela pretensa diligência do regente Infante D. Pedro querer edificar uma enorme sinagoga em Lisboa no ano de 1673. Nessa altura, grupos de cristãos embuçados bateram as ruas da cidade, gritando «viva Cristo» e «morte ao judaísmo», ecoando os libelos que, em 1487, tinham coagido a viúva de Guedelha Palaçano a aforar os terrenos da Cotovia ao cristão Filipe Gonçalves, estribeiro de D. Manuel I; todavia, passados onze anos, na sequência da expulsão dos judeus de Portugal, a mulher vendeu as terras ao fidalgo Luís Atouguia. Em 1513, o seu filho, Lopo de Atouguia, acordou com o aforador Bartolomeu de Andrade, genro do tal estribeiro Gonçalves, o sub-aforamento em talhões dessas herdades, aderindo ao protótipo que fora principiado poucos anos antes com o ensaio da Vila Nova da Oliveira, edificada contiguamente à cerca do vizinho Convento da Trindade. Essa afinação urbanística ganhou maior sofisticação no traçado do novo bairro que foi cognominado com o apelido do aforador: Vila Nova do Andrade. A gente pobre – pescadores, em principal – que, entretanto, se fixara fora da muralha à margem do rio, olhou para cima, pelas janelas das suas choças, e encantou-se por aquele sítio que, no proémio do século XVII, o clérigo Baltazar Teles classificou como «se não o mais frequentado, ao menos o mais gabado; o sítio mais alto da cidade (…) mais lavado dos ventos, e mais purificado dos ares». A nobreza, claro, não tardou em seguir o exemplo dos pescadores – e, poucos anos depois, o clero também aderiu, na comparência dos jesuítas. Os frades inacianos polarizaram sobre o local um magnetismo poderoso, rasurando com rapidez o anódino apelido Andrade para impor o nome Bairro Alto de São Roque.
Qual é o segredo da longevidade? Será que um bairro sonha?
Como é que este pôde viver durante meio século?
O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.        
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.
O Bairro Alto é uma cirurgia.
Mas que cirurgia é esta?
Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?
Estas ruas centenárias, que resistiram incólumes a vários terramotos, moradas mórbidas de desesperos e desejos, são os liçaróis e os liços da urdidura central olisiponense: sem o Bairro Alto como tear, a manta de retalhos que é a Lisboa contemporânea nunca teria sido meselada; nunca teria perseguido, sôfrega, o Sol na sua libitina trajectória ocidental. Sem esse primitivo modelo, o levantamento da Lisboa Pombalina não teria acontecido: toda a Lisboa imitou o Bairro Alto, olhou para ele e ficou estupefacta com o futuro que ela própria já encerrava – ficou de queixo caído à margem do Tejo e nem Cristino da Silva nem França Borges foram fortes o suficiente para o lacerar. Persistindo incólume às calamidades provocadas por deuses e homens, ele é o único grande fóssil vivo de Lisboa – tão assombroso e anacrónico quanto um variegado celacanto. Mas não se pode compreender essa cirurgia sem uma iniciática diérese territorial.
Existem signos secretos sob o solo, somente sentidos com órgãos feitos de tempo: gritam-nos com as vozes dos nossos falecidos, mas vociferam tão alto que só animais e anjos conseguem ouvi-los. Somos surdos – estamos anestesiados. Extirpámos a morte das nossas vidas e, por culpa disso, padecemos de superficialidade, incapazes de nos reconciliar com a nossa intransmissível efemeridade. Observada pelo fio do nosso bisturi, a Lisboa quatrocentista, engelhada e rubiforme, já mostrava sintomas de trofopatia que a cinta fernandina era incapaz de calcar. A densidade populacional da Lisboa dessa época, com mais de vinte mil habitantes, cifrou-se como uma das mais elevadas da Europa e o extramurado Bairro Alto foi a lâmina que lancetou a dilatação, facultando um novo fôlego à cidade: nem de propósito, a morfologia bairro-altina ainda é a de uma sica – de ponta para baixo, como que embainhada após a inaugural incisura. Porém, levante-se o sudário cirúrgico que protege essa porção incruenta e descubra-se que as linhas ortogonais do Bairro Alto já estavam traçadas na terra, indelevelmente em tinta invisível, para serem radiografadas. Observe-se esses raios-X na mesa de luz – aí, tão madreperolados como respingos de ectoplasma, expõem-se oito diamantóides que ainda orlam o território: o Palácio do Cunhal das Bolas, o Miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, a Igreja de São Roque, a Igreja do Loreto, a Igreja das Chagas de Cristo, a Igreja de Santa Catarina, a Ermida dos Fiéis de Deus e a Igreja da Nossa Senhora das Mercês. Este vigoroso octógono, sigilo que cruza o visível com o invisível, concentra todas as potências mistéricas do local.
Em 1707, a Porta de Santa Catarina foi demolida para permitir a passagem do cortejo da rainha D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V. Segundo a tradição, a imagem de Santa Catarina que, até à data, encumeava essa porta derrocada está num dos nichos da fachada da Igreja da Encarnação, apresentando-se com a roda com que tentaram martirizá-la. Porém, a imagem de Santa Catarina que se encontra no templo homónimo, na Calçada do Combro, não agarra nenhum inútil instrumento de tortura, mas um livro, arma que melhor a caracteriza: esta guerreira do conhecimento, cujo vulto e vestimentas lembram uma mistura da deusa grega Atena com a artista mexicana Frida Kahlo, é a padroeira da Irmandade dos Livreiros, profissão típica do Bairro Alto e remanescente freguesia da Misericórdia.
Onde se lê livros, mormente se lê jornais e no primeiro dia de 1865 a imprensa portuguesa industrializou-se com a publicação do primeiro número do Diário de Notícias, cujo director Eduardo Coelho, imortalizado no miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, inventou a figura remendada e respondona do ardina lisboeta: no início, eram trinta os garotos maltrapilhos que mercadejavam o diário pelo dédalo olisiponense, saídos, de sacolas carregadas e pés descalços, da redacção na Rua dos Calafates, mas passados três meses o seu número aumentou para uma centena. Nomes transmeáveis como Manuel Dias, Carlos dos Jornais e Papo-Seco alcançaram a maior das longitudes no universo estenobático do ardina, figura típica do Bairro Alto, representada no monumento de homenagem ao director do jornal com o qual Joaquim Seabra Pessoa, pai do poeta Fernando Pessoa, colaborou como crítico musical.
Fernando Pessoa foi, precisamente, o peregrino mais prodigioso do Palácio do Cunhal das Bolas, expirando entre essas paredes no ano de 1935, já o solar se transformara há muito no Hospital de São Luís dos Franceses. Situado a norte, acostado à Rua da Rosa, o enigmático Palácio do Cunhal das Bolas é mais antigo que o Bairro Alto – quiçá construído pelo místico Guedelha Palaçano, com o ócio cabalastrológico no pensamento. Era nesse paço, de singular grandiosidade, que, no final do século XVII, D. Francisco de Meneses, 4º Conde da Ericeira, presidia à tertúlia cultural da Academia dos Generosos: grupo heterodoxo de eruditos que, em jeito italianizante, se reunia para analisar autores clássicos, teorizar sobre novos progressos científicos e recitar poesia; dele fez parte o clérigo poliglota Rafael Bluteau, fantástico filólogo que inventou a denominação “linguagem chula” para designar o modo imaturo e imoral de falar que se tornou apanágio do Bairro Alto, habitado por marinheiros, michelas e seus rufiões e boémios de diversos temperamentos.
Um pouco antes, o Imperador da Língua Portuguesa que Pessoa mais admirava, o Padre António Vieira, entrou na Igreja de São Roque e, entre os túmulos dos sebastianistas aí sepultados, como D. Francisco Tregian e Simão Gomes, pregou o Sermão das 40 Horas, no qual declamou: «ponha-se neste formoso teatro a memória defronte da vista, e a vista defronte da memória (…) Digam, agora, os olhos e a memória, se é isto o que vimos, e o que vemos. Mas, porque ainda visto parece fábula, vejamos em um espelho, também fabuloso, a causa de tão estranha mudança». É possível que este inaciano iluminado se referisse ao milenarismo quinto-imperial que lhe foi tão precioso, mas, sob outro ponto de vista, tão adequadas que são estas palavras ao próprio Bairro Alto, que alcança a «estranha mudança» que é permanecer imudável.
Talvez a inalterabilidade seja o mistério abscôndito pela alegoria azulejar que pode ver-se no debrum mais ocidental à banda do bairro, na Igreja da Nossa Senhora das Mercês, e que mostra um raro basilisco, misto de galo e serpentão, a mirar-se num espelho; na legenda em latim que encima uma das mais secretas e singulares imagens de Lisboa, lê-se «ipse peribit», que significa ele mata-se, mas não é verdade que o basilisco é imune à sua toxicidade? Quando se olha para um espelho contempla-se sempre o infinito – e este basilisco olisiponense, entre o vaidoso e o suicida, refractário ao seu olhar venefícuo, pode ser percebido como uma parábola para a perdurabilidade.
Qual é o segredo da longevidade? Será que o Bairro Alto sonha?
E com quê, há meio século? Com D. Maria Ana de Áustria derrubando uma porta e uma santa para abrir caminho ao Chiado moderno? Com ardinas, correndo, que nem pequenos Mercúrios, de jornais aos ombros e asas nos pés, na «constante ginástica da rua» como a descreveu Christo Anil? Talvez com os intelectivos debates glotológicos da generosa academia ou com o cataléptico catarro de Fernando Pessoa. Sonhará com as ornadas orações de António Vieira ou com as vaidades suicidárias de um clandestino basilisco que, em boa verdade, poderia ter sido invocado por algum salomónico rito realizado por Guedelha Palaçano. Oniromancia. Necrordenamento territorial. Práticas preternaturais que os mais espaventados confundem com magia negra.          
Para Eça de Queirós, o Bairro Alto era somente o dos cafés de leppe, dos chulos bluteaunianos e da amantezinha do Visconde da Ermidinha, que não queria abandonar o mister de meretriz-fadista, mas para Júlio Verne, um dos seus ídolos literários, que chegou a simular em O Mandarim, o Bairro Alto era apenas o dócil domicílio do seu editor David Corazzi. Editor de As Farpas, dardejadas por Queirós e Ramalho Ortigão, Corazzi recebeu Verne duas vezes no seu gabinete na Rua da Atalaia; na segunda ocasião teve de ir com ele de emergência comprar carvão e óleo a uma carvoaria das redondezas, porque ao contrário do célebre submarino Nautilus, o iate do escritor não operava com futurísticas baterias de mercúrio.
Bairro Alto: existem imaginais polvos gigantes sob a sua calçada, muito mais arcifinais que os cefalópodes vernianos – e se é possível dar uma volta ao mundo em oitenta dias, uma volta à freguesia da Misericórdia, na qual o bairro, arctofiláxio, se tauxia desde o ano passado, faz-se em mais de oitenta ruas, que só peripatéticos, psicogeógrafos e feiticeiros poderão agrimensurar. Uma oportunidade para que tivesse sido feito esse sortilégio ocorreu na noite de 9 de Setembro de 1930, quando o truculento mago inglês Aleister Crowley, virgiliado pelo não menos truculento Fernando Pessoa, se dirigiu até à casa do nérveo poeta Raul Leal, na Rua da Salgadeira. Nessa altura, Sodoma Divinizada, a obra mais controversa do «único verdadeiro doido do Orpheu», já havia sido incinerada pelo governo civil de Lisboa, marionetado por uma associação de estudantes católicos formada por futuros ministros de Salazar. É crível que somente uma cirurgia psicosexual praticada por Crowley – e por «via nefanda», segundo eufemismo do próprio bruxo – fosse capaz de fazer renascer das cinzas a chamada Literatura de Sodoma. Mas segundo o histerómano Henoch, que era como Leal gostava de se chamar, a cirurgia megatheriana, fosse ela qual fosse, correu muito mal: despertou-lhe uma doença mortífera; ainda assim, com fantasmática funestice ou sem ela, Leal viveu mais trinta e seis anos e viu publicada a segunda edição de Sodoma Divinizada. Sincronismo ou iniciação? Sodomia ou magia? No Bairro Alto, estúrdia e encantamento são sinónimos. Poucos territórios serão tão generosos quanto este, que é pai dos desditosos e um anfitrião para os afortunados. Intelectuais e iletrados, artistas e artesãos, santas e prostitutas, visionários e vigaristas: ele é de todos e todos lhe pertencem. Já lá vão quinhentos anos. 
Mas qual será o segredo dessa longevidade?
Como é que organismos tão insignificantes quanto amêijoas e bairros vivem durante meio século?
Existe uma especialidade nas coisas pequenas; um lirismo minimalista que, tantas vezes, oculta a linguagem encoberta que nos permite falar com ciclópicas e inflexíveis forças. Aquilo que a amêijoa Ming tem para nos revelar sobre nós próprios é uma verdade tão antiga quanto a aracnóide estelar que reveste a arca do cosmos: a longevidade, e porque não a imortalidade?, relaciona-se com a fertilidade. Comprimida por toneladas de água friíssima, Ming viveu uma vida livre, longa e lucrativa, dando o ser a milhões de descendentes e só morreu quando ficou estéril. Quando termina o período fértil de uma criatura, ela verte vertiginosamente para a morte e aquelas que vivem mais anos são, precisamente, aquelas que adiam a sua reprodução ou que são capazes de conservar a fertilidade na velhice, à guisa de vetustos patriarcas veterotestamentários. Que nem estafetas estafados passando os testemunhos a velocistas cheios de fôlego, nós começamos a morrer quando transmitimos genes às nossas descendências – e a diátese é veloz, total e irreversível. Estranhos mecanismos movimentam-se nas nossas células e o efeito é que envelhecemos: na verdade, oxidamos – enferrujamos. O segredo da longevidade é, pois, ser-se fecundo, produtivo, inventivo. Tudo isso é o Bairro Alto e é por essa razão que ele, na sua constância, ainda está tão jovem: é o mais vigoroso genésico de variedade que Lisboa tem – é o seu coração florescente, próspero, feliz. Felizes estão, também, muitas personagens bairro-altinas preteridas pelo tempo, mas que, agora, se juntam a nós nesta prosopopeia cirúrgica que as animou dos sedimentos mais opacos do passado.
A atarracada, mas ágil silhueta de Chico Áú, o aguadeiro-poeta mais famoso do Bairro Alto, que fingia ser galego para angariar balastro mítico, surge ao saltinhos, como um pardal, carregando um barril cheio de água às costas e ululando o usual mimologismo que lhe deu a alcunha. Atrás dele vem o velhaco Diogo Alves, falsamente acusado de ter sido o assassino em série do Aqueduto das Águas Livres, mas que chegou a ser boleeiro no Loreto; desumano com as bestas e ainda mais bestial com os clientes, a sua cabeça contempla-nos de dentro de um frasco de formol na Faculdade de Medicina de Lisboa. Na sege desquiciada que este decapitado dirige, senta-se Alda Gracinda de Carvalho, a mais famosa meretriz-fadista do Bairro Alto, imortalizada n’O Livro de Alda, escrito pelo seu vizinho Abel Botelho, pai da bandeira da república portuguesa e autor de O Barão de Lavos, primeiro romance gay português; ao lado dela encontra-se o irrequieto Bombinhas, formidável chulo com o Santo-Cristo sempre em riste, de calça justa e casaco de astracã, atirando fulminantes para o interior da taberna Tacão para meter medo aos embriagados que fadistam. Entre estes, encontra-se o Pirilau, assim cognominado por ter sido serviçal de um célebre palhaço que tinha esse nome artístico: exímio tocador de pífaro e bêbedo extraordinário, ficou famoso por ter gasto em vinho um grande prémio que ganhou numa lotaria. A pouca distância deste simpósio vulgar, passa a pé por nós Andresa do Nascimento, a Preta Fernanda, que foi uma das cocotes mais requisitadas do bas-fond bairrista; esta deslumbrante ninfa negra vem de braço dado com Helena, a repugnante Estanqueira do Loreto, mas ambas são douradas por dentro. D. Catarina de Bragança, embaixadora do chá na corte inglesa e inspiração para o nome do maior distrito da cidade de Nova Iorque, intervém vestida com roupa de homem, como gostava de apresentar-se: é acompanhada pelo malquisto dramaturgo António José da Silva, o Judeu, carbonizado pela Inquisição por culpa das suas peças heréticas de teatro, representadas por fabulares fantoches no Teatro do Bairro Alto, antigo Palácio dos Condes de Soure, que foi onde D. Catarina tomou residência quando voltou viúva de Inglaterra. Os dois entram novamente nesse palacete imaginal, seguidos pelos maravilhosos bonifrates Gil Vaz, Fuas, Clóris, Nise, Semicúpio e Sevadilha, personagens criadas para a peça Guerras do Alecrim e Manjerona, que aí foi estreada no Carnaval de 1737. Apercebendo-se da celebração, o Cinco Réis, moço de fretes reconhecido no Bairro Alto pela sua extrema somiticaria, tenta entrar no teatro sem pagar bilhete, pulando por uma janela partida, mas desajeita-se e pisa um caco de vidro com o calcanhar, repetindo um incidente pelo qual ficou famoso. Entretanto, à porta, a gaivota Rita, vitripénico talismã da Tasca do Manel, dócil com o dono, mas autêntico terror dos cães e dos gatos que tentam capturá-la, persegue com prudência os fios que as marionetas arrojam pelo chão. Sobre o palco estão todos os galegos aguadeiros que foram expulsos da rua que tinha o seu nome e que passou, a partir de 1867, a chamar-se Rua do Duque, um dos balaústres do Bairro Alto, entalhado entre este e a Calçada do Carmo; quem os conduz, extravagante, num coro de baixos profundos é Théophile Dupineant, utopista francês que, em 1693, riscou um plano mirabolante para abastecer de água todo o bairro, sem o recurso a nenhuns mecanismos.
Cheira a éter.
Como nas salas de operações. Como nos andares superiores do empíreo.
Os homens e as horas são unos quando a história é feita.     
E os bairros são todos mistérios – cada um é toda uma cidade a sós.
Tão perto que, muitas vezes, nem lhe prestamos atenção, viceja a imensa massa urbanadmirável do Bairro Alto, cujas vernantes vielas cingem o norte do centro histórico de Lisboa. Esta é a soberba discissão que impediu a implosão lisboeta e lhe deu a cofragem arquitectotémica para os seus alicerces actuais. Zenónico, o Bairro Alto conserva um estoicismo zenital que é prerrogativa dos poetas, dos ascetas e dos valdevinos. A nossa cirurgia chegou ao fim: suture-se o terreno intervencionado, retire-se os hemostátos para que o sangue volte a circular. Sobre a nudez forte da verdade, coloquemos, como escreveu Eça, cuja estátua aqui perto nos serve de farol, o manto diáfano da fantasia – e escutemos com atenção.
Ele bate.
O coração do bairro bate, sob esse telurismo: ruidoso como água de seltz – fértil, cornucopiante, semibárbaro.
E infatigável.
Infatigável o bastante para concluir um milénio.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Antevisão de «Bairro Alto: Uma Cirurgia»


Na próxima sexta-feira, dia 13, às 19H00, eu e Charles Sangnoir iremos actuar no Palácio Quintela, em Lisboa (Rua do Alecrim, 70), interpretando a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia, escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir (que compôs uma canção original para ser apresentada propositadamente neste espectáculo). Será uma invocação psicogeográfica, agendada nas Comemorações dos Quinhentos Anos do Bairro Alto.
A entrada é livre e estão todos convidados: apareçam e divulguem. 
Até lá, fiquem com uma antevisão do texto que irei interpretar:

«O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.        
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.
O Bairro Alto é uma cirurgia.
Mas que cirurgia é esta?
            Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?»

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

«Tertúlia Assombrada» nesta sexta-feira no bar 100 Artes


Nesta sexta-feira, dia 6, às 18H00, estarei no bar 100 Artes (Rua dos Fanqueiros, 162, Lisboa) como convidado especial da segunda edição da Tertúlia dos Contadores de Histórias, organizada pela filial lisboeta da iniciativa Timebank.cc, e que terá o Horror como tema: será a Tertúlia Assombrada.

Consistirá, pois, numa sessão de leituras de contos de horror, lidos pelos diversos participantes no evento.
Eu irei ler o conto Os Filhos Que a Lua Dá: ou, Problemas De Um Projeccionista de Pornografia (que foi publicado na revista LOUD! do passado mês de Maio).

Sobre a organização da Tertúlia dos Contadores de Histórias, informo que a iniciativa Timebank.cc consiste numa forma de economia alternativa ou complementar. Diferencia-se dos chamados mercados de trocas, por não implicar uma troca directa (nem imediata, nem recíproca), e das ditas moedas comunitárias, por haver uma rigidez quanto à unidade de câmbio: neste caso, tanto o crédito quanto o débito são contabilizados de acordo com o tempo dos serviços prestados pelos utilizadores, independentemente das suas naturezas. Havendo sempre a necessidade de um "banco" central que faça a gerência da quantidade de horas em circulação, mais o registo de créditos de cada utilizador, o Timebank.cc distingue-se pelo facto de disponibilizar uma gestão online.

Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação do evento. Deixo-vos com um trecho do conto Os Filhos Que a Lua Dá: ou, Problemas De Um Projeccionista de Pornografia, que irei ler:
«Concentrando-se no projector para não ver nem o filme, nem os espectadores, Albuquerque interrogou-se sobre qual seria a razão pela qual o onanismo não era um dos Sete Pecados Mortais, posto que Deus até assassinara um homem por culpa disso. Seria o Oitavo Pecado: uma nova venialidade, incrustada entre a luxúria, a ganância e a gula. ‘Oito pecados mortais’, pensou Albuquerque. ‘Oito caminhos para o Inferno.’ Qual seria o castigo infernal para os fricativos? Na costumeira coerência contrapassiana com que eram elaborados esses suplícios, teriam de se polir com fogo até a vergonha incendiada tornar-se tão catóptrica quanto metal lustroso. Humiliate pene vestra. O ritual masturbatório era feiticista, de facto – e, assim sendo, feiticeiresco. Que sortilégios pretenderiam os velhos operar com as efusivas esfregações? Que autoridade encoberta se revelava nas suas varinhas viris? Seria o sexo uma arte mágica, como as banais benzeduras e as venerações dos videntes? De cabeça baixa, Albuquerque apercebia-se das moções projectadas no lençol como se fossem sombras dançarinas nas paredes do seu crânio: afinal, que culto venéreo se prestava naquela praça, sob a égide do faliforme tóteme tartéssico? Seria clarividente o suficiente para descortinar se era um sonho ou o “agora”? No lençol, a mulher curvou-se para desencobrir a virilha do homem, a imagem ampliou-se e os velhos viram-se estupefactos diante de um grande olho. O espanto da assistência despertou Albuquerque das suas contemplações: achou que aquilo era estranho, mas não deu importância.»
   

sábado, 30 de novembro de 2013

«Bairro Alto: Uma Cirurgia»

No próximo dia 13 de Dezembro, às 19H00, o Palácio Quintela, em Lisboa (Rua do Alecrim, 70), irá acolher o espectáculo Bairro Alto: Uma Cirurgia: actuação em spoken word com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir (que também irá interpretar uma canção original, composta propositadamente para este espectáculo).

Bairro Alto: Uma Cirurgia consistirá numa erudita invocação psicogeográfica sobre esse local lisboeta inconfundível, interpretada no âmbito das Comemorações dos Quinhentos Anos do Bairro Alto. Será uma actuação única e exclusiva.

Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação do espectáculo.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um desmentido

Escrevo este desmentido em relação a algo que me foi dado a conhecer hoje.

Um dos meus amigos escritores, pertencente ao meio do Fantástico português, enviou-me por email uma ligação para uma resenha ao evento Fórum Fantástico 2013, escrita por um leitor, na qual é descrito que

«Das sessões a que fui, achei todas muito boas, em particular as Conversas de Horror, com David Soares, António Monteiro, Pedro Santasmarinas e José Pedro Lopes. O escritor, o académico e os realizadores, reunidos numa conversa semi-informal, marcada pelo tom algo agressivo do David Soares, que não esteve nos seus melhores momentos de argumentação, mas que teve também momentos bastante interessantes, como quando falou da diferença entre horror (nojo, repulsa) e o terror (no sentido de ficar assustado), num diálogo bastante interessante com António Monteiro» [sublinhado meu].

O meu amigo que me enviou esta ligação não esteve presente no Fórum Fantástico 2013, não assistiu à mesa-redonda Conversas de Horror e, como tal, perguntou-me, com espanto, que espécie de «tom algo agressivo» é que eu exibi durante o debate e qual a razão para que isso tivesse acontecido. Na resposta que lhe enviei, manifestei a minha completa estupefacção diante deste relato, que em nada corresponde à realidade: pelo contrário, se algo marcou as Conversas de Horror não foi um fictício «tom algo agressivo» que este leitor inventou para me atribuir, mas sim os aplausos espontâneos e entusiasmados de toda a assistência no final de uma das minhas intervenções sobre o tema do horror. Aplausos que dificilmente se explicariam no caso de, como inventou o leitor, eu não ter estado nos meus «melhores momentos de argumentação».

Por conseguinte, o desmentido que aqui publico tem como objectivo perspectivar de modo correcto os acontecimentos:

1) não existiu nenhum «tom algo agressivo» da minha parte durante a mesa-redonda Conversas de Horror no Fórum Fantástico 2013;

2) é falso que eu não tenha estado nos meus melhores momentos de argumentação, porque tive a surpresa e a satisfação de ter sido aplaudido de modo espontâneo por toda a assistência (menos o leitor que escreveu a supramencionada resenha do evento, provavelmente);

3) os participantes no debate ficaram em animada conversa informal uns com os outros (sobre livros e filmes) depois da mesa-redonda ter terminado, o que, só por si, deveria servir para afastar fantasmas (estamos a falar de horror, afinal de contas...) de tons algo agressivos e quejandos durante o debate.

De maneira geral, não dou importância ao que se escreve na Internet, mas achei que valia a pena publicar este desmentido, porque, com efeito, a distância que vai desta resenha à realidade é tão grande que se houvesse um vampiro em cada uma não se ouviriam berrar um ao outro. Em suma: a informação descrita na resenha é falsa e aproxima-se perigosamente do assassínio de carácter, porque quem não esteve presente no evento poderá ficar com uma ideia errada sobre a minha conduta no mesmo. 
Nesse sentido, apelo a quem possa ter filmado o evento na íntegra que entre em contacto comigo para que eu possa divulgar esse registo e demonstrar que tudo o que aqui escrevo é verdade. O meu endereço de email encontra-se na coluna do lado direito deste weblog. Obrigado.  


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sobre o horror literário português

Na sequência da publicação do vídeo da mesa-redonda Conversas de Horror, ocorrida no âmbito do Fórum Fantástico 2013, lembrei-me de publicar aqui nos Cadernos de Daath um ensaio que escrevi em Novembro de 2007 e que reflecte sobre o problema de não exisitir uma tradição literária de horror (e de Fantástico, no geral) em Portugal. Este ensaio, intitulado Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa, publicado no terceiro número da revista BANG! (Saída de Emergência), foi pioneiro, porque é o primeiro texto que aponta a influência da Inquisição e da sua censura como os principais culpados de não existir uma tradição literária fantástica portuguesa; tese que, como irão ver, esclarece muitas interrogações que, mormente, são respondidas de modo inexacto, ingénuo e irresponsável.

Em 2011, a taxa portuguesa de analfabetismo era de 9%: cerca de um milhão de indivíduos que não sabiam ler e escrever (em finais do século XIX, as taxas de analfabetismo inglesas e alemãs eram, respectivamente, 1% e 0,50% - no mesmo período, a taxa portuguesa de analfabetismo era de 80%). A percentagem de indivíduos que valoriza e conhece a cultura é sempre baixa e num país como Portugal esses números serão ainda mais residuais. Falando em números, acrescento a curiosidade de que nem só nas letras estamos atrasados em relação ao resto da Europa: só na segunda metade do século XV é que adoptámos, paulatinamente, a numeração indo-árabe (e o primeiro livro de matemática português só foi publicado em 1519: o Tratado d'Arysmetica de Gaspar Nicolas).

A Inquisição só foi extirpada em 1821, a caminho de meados do século XIX. Antes disso, em 1768, Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro-ministro de D. José I, criou a Real Mesa Censória, um órgão do Santo Ofício que procurava e confiscava literaturas e informações subversivas: para o efeito, os agentes da Real Mesa Censória invadiam as casas dos indivíduos e recolhiam os livros que faziam parte da lista dos títulos proibidos (como as obras de Voltaire, Diderot ou Rousseau, entre outros autores). Em seguida, os livros apreendidos eram incinerados no Rossio e na Praça do Comércio. Oito anos antes, em 1760, o médico Ribeiro Sanches publicou o tratado Cartas Sobre a Educação da Mocidade, no qual defendeu a estratificação do ensino em dois modos, para os nobres e para a classe média: segundo este pedagogo que Pombal adoptou como modelo para a sua reforma do ensino básico e superior, o povo não deveria estudar, pois «que filho de pastor quererá ter aquele ofício se à idade de doze anos souber ler e escrever?». Faz lembrar as palavras de Salazar, ditas dois séculos depois: «se toda a gente souber ler e escrever, a instrução desvaloriza-se» (1935).

Estas são as razões fundamentais pelas quais não existe uma tradição portuguesa de fantástico literário: porque a Igreja é particularmente severa para com as manifestações e relatos sobre o sobrenatural - nenhum livro de horror passaria pelo crivo censório. É interessante notar que em outras latitudes o clero protestante acolheu com entusiasmo determinadas ideias fantásticas, como a possibilidade de Deus ter criado vida em outros planetas: a génese da ficção científica contemporânea remonta à primeira metade do século XIX e aos relatos fantásticos escritos por clérigos fascinados pelas sociedades interplanetárias. O seriado Great Astronomical Discoveries Lately Made by Sir John Herschel, L. L. D. F. R. S. &tc. at the Cape of Good Hope, publicado pelo jornal nova-iorquino The Sun em Agosto de 1835, informou o público de que a Lua tinha florestas, lagos e era habitada, entre outras espécies (como castores bípedes), por inteligentes híbridos de humano com morcego, capazes de construir igrejas. A descoberta só fora possível graças a um novíssimo procedimento óptico (descrito ao detalhe) que permitia a magnificação das imagens telescopiadas sem que elas perdessem definição. Estes textos, mistura de fantasia e realidade, foram escritos pelo editor do jornal, Richard Adams Locke, inspirado pelo cadinho cultural da altura, formado pelas crenças dos clérigos astrónomos. Poucos dias depois, a 3 de Setembro, James Gordon Bennett, editor do jornal rival Herald, chamou a esses textos «a scientific novel», antecipando em quarenta e um anos a designação «scientific fiction», criada por William H. L. Barnes na introdução que escreveu para a colectânea de homenagem póstuma a Caxton (W. H. Rhodes), e em noventa e um anos o uso dado por Hugo Gernsback no primeiro número da revista Amazing Stories.
Este é um exemplo fulcral de como uma tradição de literatura fantástica depende, de modo muito sensível, de fortes tradições de literacia, livre expressão de ideias e curiosidade intelectual, heranças que, infelizmente, ainda nos falecem.


Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa
           
Observar o modo como o Fantástico, enquanto género ou tonalidade de representação, foi sendo introduzido nas artes, desde as primeiras realizações culturais até hoje, é observar, ao mesmo tempo, mudanças expressivas nas consciências dos indivíduos: nós não pensámos sempre da mesma maneira. O Fantástico é uma excelente ferramenta para estudar essas mudanças porque, em simetria com as camadas estratigráficas que formam o subsolo, é capaz de conservar as preocupações que rodeiam os criadores, mas antes de prosseguir com o tema deste ensaio, e perceber quais os motivos pelos quais não é possível reconhecer uma tradição de literatura fantástica no cânone literário português, é importante definir, com brevidade, alguns conceitos.

O fantasma na máquina

O homem dotado de pensamento que se reconheça a si mesmo.
Hermes Trimegisto, Corpus Hermeticum

            Costuma apontar-se o período que correspondeu ao Renascimento como aquele em que a civilização ocidental se desagrilhoou da repressão medieval e, recuperando a tradição humanista das culturas grega e romana, progrediu em direcção ao modelo materialista do mundo que podemos observar hoje, contudo o fenómeno renascentista, longe de ter sido espontâneo e ter operado efeitos imediatos, foi, geograficamente, muito específico[1]. Os efeitos sociais, industriais e culturais que delegamos à intervenção do Renascimento são fruto de novíssimas formas de pensar o mundo desenvolvidas no período que se apelidou de Iluminismo. O Renascimento tratou-se de um movimento que conheceu raízes herméticas e que nunca se libertou de uma visão idealista do mundo[2]. Este “idealismo” nada tem a ver com a comum corrente filosófica, advogada por Hegel, entre outros, mas com uma percepção mais profunda que os indivíduos tinham do universo e do seu lugar na grande máquina do mundo; é legítimo dizer que até ao Iluminismo as civilizações acreditaram e se orientaram por uma explicação idealista do cosmos: uma interpretação sob a qual o mundo imaginal[3], o mundo das ideias, é mais real que o cenário físico em que nos movemos. Uma visão apoiada pela tese que expressa a criação da matéria pela mente e não o oposto.
            Para um indivíduo crente no sistema idealista do mundo a própria consciência é uma entidade. Isso foi bem satirizado no livro The Third Policeman de Flann O’Brien onde se pode ler que a personagem principal possui uma alma independente chamada Joe, com aspirações e objectivos diferentes dos seus. Na verdade, alma e espírito nunca foram a mesma coisa para os indivíduos crentes no modelo idealista do mundo: será preciso anotar que ambos foram conceitos distintos até à realização do oitavo concílio ecuménico (869-870), presidido pelos representantes do Papa João VIII; a unificação dos conceitos idealistas de alma e espírito serviu, sobretudo, para rasurar os credos herméticos dos textos eclesiásticos. Este momento é muito importante porque se o hermetismo idealista se divorciou dos textos e rituais da religião organizada continuou a ser transmitido não só no seio das sociedades secretas como através de um veículo insuspeito: o folclore.
            As inofensivas narrativas infantis que os ingleses chamam de “old wives’ tales” e “nursery rhymes”, os franceses de “contes de ma mère l’oye”, e os portugueses de “histórias da carochinha” são mensagens de sabedoria hermética disfarçadas de cantilenas e rimas para serem decoradas facilmente. Charles Perrault, Madame d’Aulnoy, Wilhelm e Jacob Grimm foram todos ocultistas que reuniram sabedoria hermética nesse formato: sob a máscara da historieta moral, narrada naquilo a que se chama “linguagem dos pássaros” em terminologia iniciática (ou, em calão popular português, “Espírito Santo d’Orelha”), poderiam ser difundidas ao abrigo da censura inquisitória e eclesiástica[4].
            Foi a partir do Iluminismo que mudámos o nosso modo de ler. Publicado em 1678, o primeiro romance moderno La Princesse de Clèves de Madame de La Fayette iniciou um movimento inédito que foi mimado pelos romancistas posteriores: o nascimento da narrativa do interior do indivíduo.
            A dádiva do nascimento do romance para a consciência do homem ocidental foi a noção que as vidas dos indivíduos poderiam ser histórias com princípio, meio e fim: sequências pertinentes de eventos e ocorrências – de aventura pessoal[5]. Embebida no materialismo filosófico que ameaçava derrubar o paradigma idealista do mundo, a nova consciência, assistida pelo nascimento das letras de expressão íntima, opostas às epopeias clássicas e outros relatos fabulosos de viagens, será responsável pela popularidade do herói individualista, desamarrado de responsabilidades colectivas. A abertura do mundo interno, da vivência isolada do outro, será hostil à inclusão de elementos fantásticos, apartados da vivência de todos os dias como ela é absorvida pelos cinco sentidos. Antes do nascimento do romance o cânone literário possuía dois modos: a “tragédia” e a “comédia”, sendo que a segunda era considerada uma forma menor de literatura. Contudo, a tragédia podia servir-se de elementos fantásticos sem correr o risco de ser olhada com soberba pela academia e pelos leitores. Só mais tarde o Fantástico começou a ser entendido como um modo obsoleto de contar histórias: uma velharia do sistema idealista de olhar o mundo.

Carne Rebelde

There would be tears and there would be strange laughter. Fierce births and deaths beneath umbrageous ceilings. And dreams, and violence, and disenchantment.
Meryn Peake, Titus Groan

A literatura fantástica é, por natureza, subversiva. Alguns dos temas que a compõem acabam por encontrar um reflexo em trabalhos literários insuspeitos. O conto gótico Six Weeks at Heppenheim de Elizabeth Gaskell possui, pelo menos, dois herdeiros de referência: os títulos Johnny Got His Gun de Dalton Trumbo e Die Verwandlung (A Metamorfose) de Franz Kafka. O livro The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner de James Hogg antecipa o modelo plasmado por John Fowles em The Colector. Até Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago não pode deixar de evocar uma colagem a The Day of the Triffids de John Wyndam. Contudo, estes exemplos não são os melhores para debater o entrecruzar dos géneros fantásticos naqueles que em nada se lhes assemelham, porque não existe neles uma colagem ao modo como aquela que se pode ler nos romances editados sob a nomenclatura “Realismo Mágico”.
O realismo mágico, como hoje se compreende, é um epígono da tradição literária do Norte da Europa que encontrou maior expressão em autores sul-americanos como Juan Rulfo e Gabriel Garcia Marquez. O primeiro foi buscar inspiração e temas para Pedro Páramo ao livro Sjálfstætt fólk (Gente Independente) de Halldór Laxness, publicado vinte e um anos antes. Existem em ambos os romances o respigar da iconografia mítica e religiosa dos países de origem, misturada num árido contexto rural descrito com realismo agreste. A introdução dos elementos fantásticos (os fantasmas de Rulfo e os espectros e bruxas de Laxness) no panorama político e económico do período pós-revolução industrial, no qual grassava a extrema pobreza e a confusão das populações diante da perda da cultura ancestral face aos avanços da sociedade tecnológica, serve para criar alegorias que veiculam nostalgia e utopia (como a socialista). Por outro lado, atendendo ao tom das suas narrações, não considero Borges um escritor de realismo mágico, como foi, por exemplo, o autor holandês Gerard Reve, mas um escritor de ficção fantástica.
A partir do século XVIII a literatura fantástica concebeu uma corrente designada “romance gótico”, um spin-off dos romances de cavalaria[6]. Tratou-se, originalmente, de um produto anglo-saxónico que se generalizou pela Europa em diferentes denominações: “roman noir” em França, do qual o “giallo” italiano é um sucessor evidente, e “schauerroman” (romance de arrepios) em alemão. O género caracterizou-se pela criação de ambientes de elevada decadência arquitectónica e moral e pela integração total de elementos sobrenaturais (espíritos, monstros, demónios) em consórcio com as personagens humanas. Obras como Le Diable Amoreux de Jacques Cazote, La Morte Amoureuse de Théophile Gautier, The Monk de Matthew Lewis ou The Necromancer de Carl Friedrich Kahlert encontram-se entre os primeiros títulos que se atrevem a cruzar o sobrenatural, o disforme e o grotesco, com a sexualidade, vulgarmente tratada com pudor. Esta corrente de literatura fantástica influenciou toda a produção literária dos séculos XIX e XX no que diz respeito à ficção policial e de horror.

In the literature of the fantastic, necrophilia habitually assumes the form of a love consummated with vampires or with the dead who have returned among the living. This relation can once again be presented as the punishment for excessive sexual desire; but it may be present also without its receiving a negative value – as with the relation between Romuald and Clarimonde for instance. The priest discovers that Clarimonde is a female vampire, but this discovery produces no change in his feelings.[7]      
           
A sexualidade e a blasfémia presente nos romances góticos foram ainda muito influentes para o movimento simbólico e modernista, como se pode decalcar das obras de Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Mas se estes autores se apropriaram dos códigos do Fantástico à guisa de alegoria – de símbolo – isso não invalidou o facto do género ter continuado a ser subversivo; uma literatura de adversidade à norma:

As a critical term ‘fantasy’ has been applied rather indiscriminately to any literature which does not give priority to realistic representation: myths, legends, folk and fairy tales, utopian allegories, dream visions, surrealist texts, science fiction, horror stories, all presenting realms ‘other’ than the human. A characteristic most frequently associated with literary fantasy has been its obdurate refusal of prevailing definitions of the ‘real’ or ‘possible’, a refusal amounting at times to violent opposition. (…) Such violation of dominant assumptions threatens to subvert (overturn, upset, undermine) rules and conventions taken to be normative. This is not in itself a socially subversive activity: it would naïve to equate fantasy with either anarchic or revolutionary politics. It does, however, disturb ‘rules’ of artistic representation and literature’s reproduction of the real.[8]

O texto prossegue com ênfase neste distúrbio da forma de representar artisticamente o mundo.

A morte é o meu ofício

«Nem os mortos escapam.»
Pregão popular português (séc. XVII?) sobre o costume que os oficiais da Inquisição tinham de desenterrar os indivíduos que eram condenados já cadáveres para os enforcar ou imolar.

Com uma lista de crimes a punir onde figuravam práticas como a «sodomia», o «erotismo» e a «concupiscência»[9] é flagrante que a Inquisição, implantada em Portugal em 1536 por D. João III, coagido pelo cunhado Carlos V, era uma fervorosa inimiga dos prazeres da carne. Contudo, também foi adversária do espírito já que perseguiu a burguesia intelectual portuguesa desde o século XVI até ao século XVIII: foram quase trezentos anos de violento jugo teocrático (duzentos e oitenta e cinco para ser rigoroso) que dominaram as artes e a cultura portuguesas – é ingénuo pensar que este legado não deixou sequelas.
Em 1539 Carlos V conseguiu a licença do Papa Paulo III para os Teólogos de Lovaina elaborarem um índice de livros a proibir. A primeira lista de livros portugueses proibidos foi publicada em 1547, mas seguiram-se mais duas em 1551 e 1561. O terceiro índice expurgatório é o mais completo, incluindo diversas instruções contra a compra, venda, troca e conservação dos títulos proibidos. Os visitantes vindos do estrangeiro estavam obrigados a mostrar os seus livros a um representante da Inquisição, e aqueles que herdavam bibliotecas familiares só poderiam usufruir delas após rígida inspecção. Os autores estavam classificados em três categorias: os de 1ª, aqueles cujas obras eram sumariamente rejeitadas; os de 2ª, aqueles que apenas seriam censurados em determinadas partes; e os de 3ª, os anónimos. Este terceiro índice foi organizado por Frei Bartolomeu Ferreira, censor de Camões em Os Lusíadas, e colocava de sobreaviso os leitores contra toda a literatura de ficção onde existissem referências ao amor e aos preceitos do clero. Proibia, inclusive, o livro Utopia do canonizado Thomas More. Será uma iniciativa calamitosa para a cultura renascentista portuguesa: entre os perseguidos pela Inquisição estiveram o humanista Jorge Ferreira de Vasconcelos, o cronista João de Barros (autor da primeira gramática europeia que há referência) e o escritor Bernardim Ribeiro. Gil Vicente foi perseguido e censurado pelas denúncias constantes que fez às desigualdades sociais, mas também os poetas Chiado, amigo íntimo de Camões, e Sá de Miranda (o pai do soneto português). Note-se que a Inquisição Portuguesa pecava por ser mais papista que o Papa, pois se em Espanha Don Quijote de La Mancha de Miguel de Cervantes circulava à vontade, e era um sucesso, encontrava-se proibido em Portugal.
Livros considerados heréticos, na esteira de Lutero e Calvino, e livros que mencionassem artes mágicas, como a astrologia e a adivinhação, não passavam no exame censório. Por conseguinte, podemos imaginar que a literatura fantástica realizada no período em que a Inquisição manteve o poder de purgar obras e autores não conheceu qualquer difusão junto dos leitores em potência. Lembrem-se que os mestres das Escolas dos Mistérios, e outros guardiães das doutrinas herméticas tiveram de encontrar outras formas de passar os ensinamentos uns aos outros, e ao público, como disfarçá-los de contos e lenga-lengas infantis, para fugir aos excessos de zelo dos inquisidores. Só depois da extinção do Conselho Geral do Santo Ofício, em 1821 – já em pleno século XIX! –, é que a literatura fantástica conseguiu, finalmente, penetrar no nosso país – e timidamente:

Quanto a autores, não os encontramos na nossa literatura de terror com individualidade e decididamente negros. Podemos, no entanto, destacar alguns, em cuja obra, avaliada em conjunto, é possível encontrar uma linha de influência constante dos objectivos, géneros e processos da escola. Além de Herculano, Rebelo da Silva, Camilo e Arnaldo Gama, há que mencionar Pereira da Cunha, Correia de Lacerda, Serpa Pimentel, Costa e Silva e Antónia Pusich. Daqueles que se restringiram praticamente a um género, temos, antes de todos, Mendes Leal Júnior, no teatro, e ainda Alfredo Hogan e Aires Pinto de Sousa, na novelística. As várias tendências literárias modernas, que se podem classificar de negras, não encontraram cultores em Portugal. [10]

O Fantástico, enquanto literatura de subversão, enquanto modelo herético de representação do mundo, afigurou-se perigoso para a ordem eclesiástica à guarida da Inquisição: se o mundo plasmado nos romances de literatura fantástica era caótico, selvagem, sem redenção ulterior, então Deus não assegurava a ordem natural das coisas – talvez até nem sequer existisse!... No modelo idealista do mundo as más intenções, aquelas que vão contra Deus, estão condenadas ao fracasso. Contudo, os cultores do género fantástico não só pareciam divertir-se com as obras como não eram castigados pela Providência. Esta observância subtil, mas terrível, seria capaz de derrubar os alicerces de qualquer crente que viesse a ser influenciado pela leitura ou pelo simples contacto com os livros.
Com efeito é inegável que a literatura fantástica se lavrou em território herético: nos países de expressão anglo-saxónica, e na Escandinávia, regidos por outras instituições que não a igreja católica apostólica romana. É extraordinário que em nenhumas das fontes que consultei sobre literatura fantástica esse facto seja sequer aflorado; o que não é de estranhar já que a maioria dos títulos ensaísticos que fazem parte da minha biblioteca são escritos por autores de expressão inglesa aos quais o conceito é alienígena. Faz falta uma obra que se dedique, de um modo empenhado, ao estudo da literatura fantástica portuguesa – ou à escassez dela –, mas, a escrever-se, acredito que a solução do enigma tem, necessariamente, de passar por aqui: pela repressão religiosa operada pela Inquisição durante quase trezentos anos sobre o tecido cultural do país, extinguindo quaisquer hipótese do género fantástico crescer e difundir-se pelos nossos antepassados leitores.
Sintetizando: o Fantástico é, por excelência, uma literatura de subversão porque faz imaginar, logo foi alvo preferencial da ordem teológica inaugurada pela Inquisição. Tal como em Portugal, também em outros países onde a cultura conheceu, e ainda conhece, uma forte influência religiosa não existe uma tradição literária devotada ao género fantástico.

Fahrenheit 451

Our biggest mistake was teaching them to read.
We won’t do that anymore. 
Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale.

O intervalo entre o término do regime teocrático da Inquisição e a instauração do regime teocrático do Estado Novo, em 1933, durou pouco mais de cem anos, tempo insuficiente para mudar o paradigma de profundo analfabetismo no qual o país se imergia. Até às vésperas da extinção do aparelho inquisitório publicaram-se em Portugal, em média anual, cerca de cem edições. Em França, em 1818, imprimiram-se 4917 livros e brochuras, mais do dobro do que Portugal publicou em vinte anos. À entrada do século XX a situação geral era a de analfabetismo: saber ler e escrever era uma excepção entre a população rural e, mesmo nas cidades, somente uma quarta parte dos homens havia frequentado algum grau de ensino.[11]
Em plena Inglaterra vitoriana já as mulheres liam e manifestavam opiniões; pouco depois, a partir de 1918, era-lhes reconhecido o direito de voto. Em Portugal isso só chegaria treze anos mais tarde. Portugal sempre fora um país hostil ao desenvolvimento literário e os cem anos que duraram entre o fim da Inquisição e o início da ditadura de Salazar não foram suficientes para colmatar essa lacuna. Entre 1911 e 1919, durante a Primeira República, o aparelho de Estado tomou várias medidas contra o analfabetismo criando os primeiros ensinos oficiais Pré-Primário e Primário Geral gratuitos. Criou as Escolas Normais de Lisboa e do Porto, a Faculdade de Direito de Lisboa, a Faculdade de Letras de Coimbra e do Porto e muitas escolas superiores que viriam a constituir as Universidades de Lisboa e Porto. As iniciativas de divulgação cultural e alfabetização foram exemplares: as Escolas Móveis, as conferências e os cursos nas províncias mais as bibliotecas itinerantes; estabeleceu-se a leitura pública de jornais em diversas aldeias. Contudo, logo a partir de 1926, com o início da ditadura militar do general Gomes da Costa, e o decreto-lei que instaurou a censura, o percurso foi interrompido. Como escreve Luiza Cortesão:

Não se pode deixar de melancolicamente reflectir sobre o que hoje seria o nosso povo se esta acção tivesse prosseguido.[12]

Saindo de uma censura para outra, igualmente teocrática, e quase imediatamente, nós não fomos capazes de criar, e sustentar, uma cultura literária saudável.
Através de uma propaganda muitíssimo bem desenhada, o regime do Estado Novo soube, de geração para geração, fomentar a ideia que o conhecimento, o progresso científico e a imaginação eram ferramentas luxuosas que não serviam o bom patriota, disposto a sacrificar-se pela nação.

E digo: este povo, para o que sente, já sabe demais. Intensifique-se a educação religiosa; proteja-se a instituição doméstica; olhe-se a sério pelo estado dos costumes deste povo – forme-se o carácter conveniente e, depois, voltamos à Instrução. O Padre Cruz faz mais, num dia, pelo bem de Portugal, do que os mestres primários todos juntos num ano. Ele não ensina a ler e a escrever: educa almas; arranca corações à perversidade – e quem sabe quantos lá foram lançados pela acção do A B C![13]

Será a única inteligência valiosa, considerável e útil à sociedade a que se revela na aptidão para as ciências e para as letras? (…) Uma criança inteligente filha de um operário hábil e honesto pode, na profissão de seu pai, vir a ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado, pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão, e assim deve ser. Na mecânica da escola única, seleccionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tem a mesma preparação hereditária que tem para o ofício, não passará nunca de um medíocre intelectual, quando muito um homem sábio mas incapaz de singrar na vida nova que lhe indicaram sem o ouvir. (…) Não é difícil de notar que há geralmente nas famílias uma ascensão da inteligência prática e recolhida até ao talento fecundo e brilhante. As ideias, as noções, as experiências vão-se elaborando através umas poucas de gerações até florir, em determinada altura, na pessoa de um dos membros da linhagem. (…) A gestação duma inteligência superior é trabalho de muitos anos, de séculos até. Resume-se nela toda a experiência de uma família, concentra-se então tudo quanto através das idades naquela linha de sucessão se foi acumulando no sub-consciente.[14]

            Durante quase meio século (de Maio de 1926 a Abril de 1974) a maioria dos artistas e escritores portugueses sentiram-se refreados, conscientes que a mais simples frase os poderia levar a confrontos indesejáveis com os censores:

Nessa única conversa que tive com um censor, ele trouxe-me um exemplar, censurado, com o célebre lápis azul da censura – exemplar que eu tenho em meu poder –, daquele meu livro Histórias de Amor, onde verifiquei que eles cortaram, logo a abrir, a palavra «nu», numa frase que começa assim: «estava nu em cima da cama…». Bastou-me ver isto para perceber que havia ali um propósito de queimar tudo e mais alguma coisa (…) Aliás, a simples referência ao Éluard e ao Pessoa (ao Fernando Pessoa, imagine-se só!), foram simplesmente abaixo.[15]

Não só as menções ao regime de Salazar, ao comunismo e à condição feminina foram censuradas. Tudo o que consistisse em laivos de laicismo e ataques à religião católica foi abafado; e também obras de ficção fantástica; como é exemplo Les Paradis Artificiels de Charles Baudelaire e outros autores contemporâneos. Existe um despacho que proíbe a publicação de um livro intitulado Contos de Terror, de vários autores do cânone e traduzido por José Vilhena[16]: a religião tratava de preencher o lugar vagado pela imaginação, pela fantasia. A paupérrima difusão de conhecimento científico, em desproporção à propaganda religiosa, contribuiu, de certeza, para que surgissem pouquíssimos autores portugueses de Ficção Científica, e ainda menos leitores.
Se um género se faz com autores, e editores, é verdade que também se faz de leitores: num país de gente que não lê, onde o analfabetismo foi fomentado pelas classes dirigentes, como mecanismo de controlo e hegemonia, sendo ainda observado com desconfiança pelas outras, é natural que não se verifiquem condições semelhantes às presentes nos países culturalmente mais ricos. Condições convenientes à saúde do tecido cultural.
É que nós, se calhar, ainda não aprendemos a sonhar.


David Soares, Novembro 2007.


[1] A History of Civilizations de Fernand Braudel (Penguin Books, 1993, pp 343-344) e The New Penguin History of the World de J. M. Roberts (Penguin Books, 1992, p 540).

[2] The Secret History of the World de Jonathan Black (Quercus, 2007, p 279) e Giordano Bruno and the Hermetic Tradition de Frances Yates (Routledge, 2002, pp 13-20).

[3] De acordo com a terminologia criada por Henri Corbin.

[4] A designação de “old wives’ tales” é a mais antiga e foi cunhada por Lúcio Apuleio em O Burro de Ouro como “anilis fabula”. In, From the Beast to the Blonde de Marina Warner (Farrar, Straus e Giroux, 1994, p 14).
      
[5] Ou aquilo que Umberto Eco apelida de «experiência pessoal do destinatário», in Sobre Literatura (Difel, 2002, pp 199-205).

[6]
Exemplos de poemas que poderão ter influenciado Walter Scott e Tobias Smollett, os “pais” do romance de cavalaria, são os épicos Beowulf (1010?), La Chanson de Roland (1150?) e Herzog Ernst (1180?). As chamadas “novelas do Graal”, cujo primeiro exemplo é consensual apontar-se como sendo Perceval, Le Conte du Graal de Chrétien de Troyes (1180-1190?), têm, por outro lado, raízes nos mitos galeses compilados numa sequência lógica, e dramática, em The Mabinogion por Evangeline Walton. São, por mérito próprio, um sub-género dentro dos romances de cavalaria já que possuem preocupações herméticas ausentes nos segundos. É seguro afirmar que os pioneiros do género gótico em Portugal, na tradição de Walpole e Radcliffe foram Alexandre Herculano com Eurico, o Presbítero (1844) e Almeida Garrett com Frei Luís de Sousa (1844). Convém também incluir Sampaio Bruno com o ensaio O Encoberto (1804) e o inacabado Os Cavaleiros do Amor, esboço para romance publicado postumamente em 1996.
   
[7] Tzvetan Todorov, in The Fantastic: A Structural Approach to a Literary Genre (Cornell University Press, 1975, pp 136-137). O excerto fala sobre La Morte Amoureuse de Théophile Gautier (1836).

[8] Rosemary Jackson, in Fantasy: The Literature of Subversion (Routledge, 1981, pp 13-14).

[9] In Judeus, Cristãos-Novos e a Inquisição de S. Alexandre (Prefácio, 2002, p 89). Ver também a obra em três volumes de Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (Edições Europa-América).

[10]
Maria Leonor Machado de Sousa, in A Literatura “Negra” ou de Terror em Portugal: Séculos XVIII e XIX (Editorial Minerva, 1978, p 286).

[11]
In Diário da História de Portugal de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra (Selecções do Reader’s Digest, 1998, p 363). A acompanhar o texto encontra-se uma tabela muito completa com o número total de edições, reedições e traduções de obras estrangeiras realizadas nesse período.

[12] In Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, p 18).

[13] Alfredo Pimenta, in Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, p 209).

[14] Marcelo Caetano, in Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, pp 204-205).

[15] José Cardoso Pires, in A Censura de Salazar e Marcelo Caetano de Cândido de Azevedo (Editorial Caminho, 1999, pp 103-104). Outros dois tomos que iluminam esta questão da censura com documentação da época são Mutiladas e Proibidas de Cândido de Azevedo e Os Segredos da Censura de César Príncipe, ambos da Editorial Caminho (1997 e 1979, respectivamente).
 
[16] Os Segredos da Censura de César Príncipe (Editorial Caminho, 1979, p 122).