quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Crítica a "Lisboa Triunfante"

«Lisboa Triunfante é um grande e extraordinário romance.
David Soares regressa à sua cidade, Lisboa, como no romance anterior, e, daí, parte para a construção simbólica de uma cosmovisão do mundo. O pretexto é, de facto, pertença da sua identidade cultural, mas, num tour de force bem conseguido, David Soares junta-se ao grupo dos grandes criadores do Fantástico.
Num tempo longínquo, na Terra das Serpentes, um animal astucioso, rapace e ferino, salva-se de todos os predadores: é a Raposa, elemento que faz a ligação a toda a estrutura narrativa de Lisboa Triunfante. Pergunta: resume-se a isso, e só a isso, este romance? Bem pelo contrário! Vamos assistir, em Lisboa Triunfante, a uma girândola criativa com doses de imaginação ao alcance de poucos.
A narrativa vai escolher núcleos poderosos da nossa história e da nossa cultura: Aquilino Ribeiro, D. João V, o reinado de D. Manuel I, D. Afonso III – não, também não é uma ucronia: é ficção da mais apurada e cristalina. A estabelecer a ligação entre todos eles temos a presença enigmática, fugidia, ladina e irónica da Raposa.
Todos estes episódios possuem um ritual de passagem: de iniciação. Todos eles possuem, também, um tempo de viver e pensar – de forma livre –, que é um hino à criatividade. No entanto, Lisboa Triunfante possui episódios e momentos narrativos que são, a nosso ver, fabulosos e de criatividade única. O momento da construção do Mosteiro dos Jerónimos, com a figura enigmática de Boytac (que concentra em si toda a vitalidade e pujança da criação): só por si, este núcleo ficcional é já, para nós, Livros Com Rum, um dos grandes tempos da nossa literatura. O outro, no reinado de D. Afonso III, com as figuras eclesiásticas: umas, ortodoxas, inquisidoras e mortíferas; outras, também religiosas, apologistas do livre pensar, do espírito crítico e de tudo submeter à inteligência humana – são elas Gil Valadares, Guterres e Tomás Scoto.
No último episódio temos a viagem de Paula com a Raposa, para o combate final com o Lagarto: símbolo, este, da lascívia inconsciente. Muito mais haveria a dizer sobre este fabuloso romance. No entanto, de Lisboa Triunfante, fica uma das grandes obras literárias de 2008, servida por uma construção ficcional perfeita e uma prosa delicada, sensível e poética que torna David Soares um dos grandes nomes da moderna literatura portuguesa. É um romance notável, sem uma única falha.
Uma pequena nota final: os dois romances de David Soares, A Conspiração dos Antepassados e Lisboa Triunfante, são servidos por uma bibliografia final monumental que será de grande utilidade aos nossos leitores que queiram aprofundar as duas temáticas. É o rigor a funcionar na sua plenitude.»

António Ferreira, Livros Com Rum. Janeiro 2009.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O que é que eu ando a fazer?

Parece que anda tudo doido com a trampa do Twitter; ainda me lembrei de abrir uma conta nisso, mas depois pensei: Neste momento, os meus dias são passados a ler... Que raio vou eu escrever no Twitter, se já tenho um weblog?... "Olha, agora estou a ler a linha 23 da página 403 do livro-tal-e-coiso..."? O que é que isso interessa?!... Com toda a sinceridade, não há paciência para estes animais de estimação virtuais que nos roubam o pouco tempo que já temos, hoje em dia. Comigo, o Twitter não passará, pronto! (Até o nome é foleiro.)

Um livro que eu traduzi e anotei há uns tempos vai sair este mês; em dois volumes: O Caderno Secreto de Da Vinci - A Catedral da Memória, de Jack Dann (Saída de Emergência). Comprem que é bom: é intenso, inteligente e está bem feito. Acham que vos iria enganar? Quando forem à livraria, investiguem.

A escrita do meu novo romance está a correr bem. Estou a estruturar a narrativa ao pormenor, a ler material de referência, a falar sozinho com as personagens (que são muitas). Acho que vai ser um bom livro; vocês depois lêem. Se gostaram d'A Conspiração dos Antepassados e de Lisboa Triunfante vão adorar este, também. Prometo-vos alguns sustos e... E mais não digo.

Mas não deixem de vir espreitar os Cadernos de Daath; apesar de actualizar o weblog espaçadamente, em virtude de andar ocupado com a escrita, preciso sempre de passar por aqui para monologar um bocado.
Convosco, claro.

Adão e Ivo

(O beijo de Judas. Um beijo na boca entre dois homens pode ser uma coisa muito, muito marota.)

Quando George Weinberg popularizou a palavra homofobia no seu livro Society and the Healthy Homossexual, publicado em 1972 (até esse momento era raríssimo o uso dela), como nominativo para o medo e a repulsa sentida contra os homossexuais, ele estava longe de compreender o quanto a etimologia eleita era acertada: em grego, o nome homo significa idêntico e phobo traduz-se por medo; logo, homofobia tem o significado de medo daquilo que é idêntico.
Nada poderia ser mais certo.
É que os homossexuais não são as caricaturas excêntricas que os meios de comunicação nos mostram em tantos veículos cinemáticos ou televisivos: eles são os nossos amigos, os nossos irmãos, os nossos colegas de trabalho e, em muitos casos, os nossos pais.
Às vezes parece que não somos capazes de ver isso.

Aqui fica um link para as declarações proferidas pelo cardeal D. José Saraiva Martins sobre a anormalidade da homossexualidade.

(O homossexual: vejam como ele não é como nós.)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Casamento civil entre dois homossexuais

Sou a favor da celebração do casamento civil entre dois adultos do mesmo sexo e considero que se trata de uma questão cuja aprovação é essencial para tornar a nossa sociedade mais justa e tolerante. Discriminar um indivíduo com base na orientação sexual é errado; não só porque discriminar é, sempre, errado, mas porque a sexualidade, enquanto formadora da personalidade, pertence à esfera privada de quem a pratica.

Nem sempre foi assim: até há poucos séculos, era normal os familiares e os amigos acompanharem os noivos nus até ao leito e darem a bênção à consumação do casamento (e, em outras situações, não seria invulgar a existência de uma intromissão menos superficial de amigos e parentes nas vidas sexuais uns dos outros), mas a aproximação que a sexualidade cumpre com o moderno conceito ocidental de liberdade individual é muito importante e, em última análise, aquele que mais interessa para esta exposição de ideias. Penso que será útil discorrer com um pouco de rigor histórico sobre a questão do próprio acto do casamento, enquanto sacramento eclesiástico, para, em seguida, contextualizar a argumentação subsequente.

Para ser o mais breve possível, porque escrever neste formato virtual de apontamentos bloguísticos é hostil à profusão de linhas, e em vez de recuar aos tempos mais primitivos, nos quais o casamento era observado, na maioria das vezes, como sendo um estádio temporário, prefiro avançar de imediato para o período da antiguidade clássica europeia, no qual se encontra a matriz da vulgar cerimónia de casamento que, mais tarde, foi apropriada pela igreja católica.
Na alvorada da idade cristã do Império Romano, o casamento corriqueiro era, mais que um contrato, um encontro privado de vontades entre dois indivíduos; encontro esse que não necessitava de nenhuma bênção eclesiástica, de espécie alguma. Por vezes, a presença do sacerdote podia ser requerida, somente como testemunha, mas, no próprio cânone, não existia nenhum rito especializado para se celebrar um casamento eclesiástico. A presença de uma ou mais testemunhas era desejável para evitar futuras confusões desagradáveis, caso marido e mulher se viessem a desentender, mas nem todos os noivos, em especial os mais confiantes, achavam necessário a presença delas. Em suma: para duas pessoas se casarem, bastava que dissessem uma à outra que se recebiam como marido e mulher; esta noção era tão sólida – e aceite – que mesmo depois da igreja ter ordenado que um casamento deveria ser celebrado por um sacerdote para ser legal (isso durante a contra-reforma), os casamentos ilegais (os chamados esposais) continuavam a ser legítimos: encorajava-se era a sua legalização, mas não a legitimação… Só no século XVI se tornou obrigatório que a cerimónia do casamento decorresse dentro de uma igreja.

Um dos efeitos que teve a reforma operada pela igreja, no século XI, foi o controlo insistente sobre todas as áreas seculares da vida dos indivíduos. Muitos senhores feudais olhavam para o casamento como sua prerrogativa: era uma política essencial para garantir que os seus bens não eram alienados depois da morte; nessa perspectiva, se uma mulher provava ser infértil (nessa altura era impensável conceber o conceito de infertilidade masculina…), o senhor podia mandá-la embora e casar com outra. Ora, a igreja veio retirar ao senhor feudal o direito de repudiar a mulher, se a consumação do casamento deles não frutificasse. Mais que se tratar de uma medida progressista, no sentido da defesa das mulheres ditas inférteis, consistiu na oficialização do privilégio eclesiástico em decidir sobre quem poderia estar casado com quem. Basta olhar para tantos exemplos de casamentos que continuaram a ser desfeitos depois dessa aplicação, mas desta vez pela igreja (dos quais o mais célebre será, talvez, o de Luís VII de França com Leonor de Aquitânia), para compreendermos que o que esteve em causa não foi a sacralidade do casamento, mas a regalia do poder da igreja em decidir sobre ele.

Durante o século seguinte, o debate sobre aquilo que consistia um casamento legítimo ou ilegítimo acalentou opiniões violentas. Para resumir, pode-se dizer que existiram duas facções principais: uma dizia que o casamento só era legítimo quando consumado; a outra defendia que o consentimento dos noivos bastava, apoiando-se na, hipotética, virgindade de Maria. Contudo, mesmo um casamento legal, e legítimo, não se encontrava liberto de pecado. Tanto que a igreja advogou que um homem que amasse demasiado a mulher estava a pecar. Nem me vou dar ao trabalho de enumerar os dias nos quais o coito era proibido pela igreja porque são, mesmo, demasiados. As relações sexuais dentro do casamento estavam, obrigadas pela igreja, a cingir-se ao objectivo da procriação; e até nesses momentos, os indivíduos deveriam usar do estoicismo e renunciar ao prazer. É aqui que chegamos a um dos tópicos que mais nos interessa.

O problema da igreja com o sexo homossexual é o mesmo que ela tem com o sexo heterossexual quando este se encontra apartado da função reprodutora: o facto do sexo se transformar, em exclusivo, num acto de prazer. É ingénuo pensar-se que a igreja tem o desiderato de proteger a santidade do casamento heterossexual (que, como já vimos, não tem santidade nenhuma, a não ser aquela que lhe quiseram imprimir à força). A igreja não está, de todo, interessada no amor; seja ele heterossexual ou homossexual. O móbil continua a ser a subtracção do prazer, à luz que o carnal é mau e o espiritual é bom. Quase que dava para rir se não fosse trágico: é que a maioria das seitas heréticas, como a dos Cátaros, por exemplo, foi perseguida e exterminada por dizer o mesmo (de facto, a razão verdadeira da perseguição foi a igualdade entre os sexos, mas isso é outra história…). Ainda mais risível é perceber que a maioria dos textos e códigos escritos sobre o casamento e os seus problemas foi escrita por indivíduos que 1) não foram casados, 2) desconfiavam de pessoas casadas e 3) não gostavam de sexo. A igreja não é tanto pró-vida como é “pró-vida vivida sem interferência humana”. Ora, a sexualidade humana é um assunto que nos diz muito respeito.
Gostava de terminar com a lembrança que existiram cerimónias eclesiásticas de união entre duas pessoas do mesmo sexo: uma delas, a chamada adelphopoiia.

A adelphopoiia (costume da igreja ortodoxa que apenas os mais curiosos em história da sexualidade devem conhecer) consiste na união, supostamente fraternal, de dois homens, ministrada por um sacerdote. O historiador John Boswell escreveu sobre ela, ao pormenor, no livro Same-Sex Unions in Premodern Europe (Vintage Books, 1995). Na página 301 desse livro pode ler-se a oração ritual para unir dois homens e ela diz, a certa altura: «For their joining together in union of love and life, we pray to the Lord. / For these servants of God,_____ and _____, and for their union in Christ we pray to the Lord.» As páginas seguintes contém as orações e os ritos integrais, assim como esclarecimento da etimologia de algumas das palavras usadas, como por exemplo as já citadas joining together que, explica Boswell, no antigo texto eslavo significam copular, quando usadas reflexivamente.

Ainda vale a pena dar a conhecer as figuras de Sérgio e Bacchus, dois soldados romanos, amantes, que foram martirizados e tornados santos: Sérgio foi decapitado enquanto Bacchus observava; em seguida, este foi espancado até à morte. Os dois haviam sido cristãos e unidos pelo amor homossexual. Acabaram por provocar a ira do Imperador, não por serem homossexuais, mas por serem cristãos (podem ler a história destes santos no livro de Boswell, págs. 145-161).

Espanta-me que ainda ninguém se tenha lembrado desta matéria, durante a discussão pública sobre o casamento civil homossexual: é uma indicação que a igreja ortodoxa, em última análise, já praticava este género de uniões há muito tempo, existindo, ainda, uma iconografia reconhecida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Entrevista #2

A segunda parte da minha entrevista para o programa Livros Com Rum, da Rádio Universitária do Minho, pode ser ouvida aqui.
Trata-se do seguimento da conversa que mantive com o jornalista e académico António Ferreira sobre os meus romances. Esta segunda parte concentra-se no título Lisboa Triunfante.
No final poderão ouvir a crítica literária de António Ferreira sobre esse livro; uma exposição pontuada pela leitura de excertos realizada por Sérgio Xavier.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Entrevistas #1

Podem ouvir neste link a primeira parte da entrevista que dei para o programa Livros com Rum, de António Ferreira e Marie Silva (da Rádio Universitária do Minho). É mais de meia-hora de conversa, temperada por momentos musicais nos quais se pode ouvir a leitura de poemas de Fernando Pessoa.
A segunda parte é transmitida na próxima quinta-feira, às 21H00 (podem ouvir a emissão online aqui).

Também podem ouvir a entrevista que dei para o programa À Volta dos Livros, de Ana Aranha (da Antena 1). Sigam este link e ouçam o podcast disponível na lista.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Fotos de Braga e Porto

A entrevista que dei para o programa Livros Com Rum, de António Ferreira e Marie Silva, transmitido pela Rádio Universitária do Minho, de Braga, correu muitíssimo bem e será transmitida em duas partes. A primeira pode ser ouvida na próxima quinta-feira, às 21H00 (repete no domingo, às 20H00). Falei, em pormenor, sobre o novo romance Lisboa Triunfante e, também, sobre A Conspiração dos Antepassados.
Seguiu-se uma tertúlia literária no estaleiro cultural bracarense Velha-A-Branca, conduzida por António Ferreira (foto), na qual falei sobre os temas dos meus romances, o meu método criativo e literatura fantástica.
Agradeço ao António Ferreira, à Rádio Universitária do Minho, à associação cultural Velha-A-Branca e, ainda, ao Diogo e ao Alexandre, todos os esforços para que a minha estadia se pautasse pelo melhor possível: obrigado por tudo!

No dia seguinte, juntamente com João Seixas (foto), apresentei Lisboa Triunfante no fórum da loja FNAC de Santa Catarina, no Porto. Agradeço ao João e à Carla pela amizade e entusiasmo, assim como ao Pedro da loja FNAC: obrigado!

Pode ser que escreva um Porto Triunfante, um dia destes... Quero dar um agradecimento especial ao Luís e à Safaa das edições Saída de Emergência e à Gisela: é bom contar convosco.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Em Braga e no Porto com Lisboa (Triunfante)

No próximo dia 16 de Janeiro, estarei no fórum da loja FNAC de Santa Catarina, no Porto, às 18H00, para falar sobre Lisboa Triunfante, o meu novo romance. A apresentação do livro será realizada pelo crítico e autor João Seixas (Os Meus Livros).

No dia anterior (quinta-feira), pelas 22H00, serei o convidado das Conversas no Tanque, organizadas pela associação cultural Velha-a-Branca, de Braga. Falarei com os leitores sobre o meu trabalho e autografarei os livros que levarem.
Quatro horas antes, serei entrevistado pelo jornalista e académico António Ferreira para o programa Livros com Rum da Rádio Universitária do Minho.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano Novo, Livros Novos

Pensei em escrever uma súmula daquilo que eu considero ser o melhor que li e vi no ano passado, mas achei que seria mais interessante anunciar que iniciei o novo ano a trabalhar num novo romance: a ler material de pesquisa e a tomar notas. Festa, álcool e passas? Sim, claro. Disciplina? Sempre.
Acho que vocês vão gostar deste livro, também. Lá para o final do ano poderão lê-lo.

Em Fevereiro, as edições Saída de Emergência vão publicar uma edição especial d'A Conspiração dos Antepassados. Fixe, não é? Fiquem atentos porque vai ter surpresas.

Entretanto, a revista Os Meus Livros escolheu Lisboa Triunfante como um dos melhores livros editados no ano passado. Daqui a uns dias divulgarei as datas de uma pequena tour promocional que irei fazer acima do Tejo, por terras mais frias, para falar sobre esse livro. Lisboa triunfará no Porto? Espero que sim.

Até já! Gosto de vos ter desse lado.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Lançamento na FNAC

(Eu, Rui Tavares e Luís Corte Real.)


Depois de alguns dias sem internet, já posso publicar algumas fotos do lançamento de Lisboa Triunfante, o meu novo romance.
Agradeço ao Rui pela apresentação inspirada e ao meu editor, Luís Corte Real, pelo entusiasmo contagiante que devota aos meus livros: obrigado!
Uma palavra de apreço, também, aos leitores que compareceram e que levaram exemplares personalizados do livro para casa.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Lançamento de "Lisboa Triunfante"



Na próxima quarta-feira, às 19H00, no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa.
Com apresentação realizada pelo historiador Rui Tavares.
Uma publicação das edições Saída de Emergência.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Chegar a Lisboa

O companion para o meu novo romance, Lisboa Triunfante, está disponível para download gratuito através do site das edições Saída de Emergência.
Trata-se de um trabalho que colige apontamentos que apresentam os diversos temas e personagens do livro, sem conter elementos que possam revelar pormenores sobre o enredo: ou seja, tanto pode ser lido por quem já conhece o romance, como por quem ainda o vai descobrir.

«Desembarcando com um nó na garganta como se fosse Santa Úrsula trespassada na goela por uma seta, Antónia pensou que talvez pudesse cantar se o gorgomilo apertado não a deixasse falar; afinal, as visões surgiam-lhe na mente legendadas em verso. A trilha musical seria a algazarra que tanto confundia os estrangeiros acabados de chegar à cidade: o ruído contínuo dos carrilhões das capelas; das campanas das cabras; dos guizalhos dos burros; dos martelos nas quilhas nos barcos em reparação; do ranger das rodas das carretas pelos pavimentos de terra batida; dos cinzéis dos canteiros; dos vaticínios das peixeiras na Pampulha e dos vendedores de hortaliça no Mercado da Ribeira. Olhando de esguelha para o céu, os sapateiros batiam solas debaixo dos fórnices das igrejas, sob a protecção de santos deteriorados.
Empurrada pelo clérigo que continuava a enxugar o pus com o paninho, ela desceu da prancha de desembarque e passou por um bloco de pedra bruta em que alguns marinheiros estendiam roupa molhada – todo o cais fazia lembrar um acampamento. Um tocador de realejo com o mono ao ombro passou perto da linha da água e cuspiu para o mar. Um preto velho estava a ser arrastado pelos pulsos por dois soldados que o queriam embarcar à força; o homem chorava e berrava “Como vou sustentar a minha família se me puserem fora da cidade? Duas refeições por dia e um tecto é tudo o que peço.” Impressionada pela violência, a mulher não se apercebeu da presença de um mendigo que se aproximara de Leal para lhe pedir uma esmola. O prior deu-lhe cinco réis, mas exigiu troco: o pobre agradeceu com uma vénia e apressou-se a devolver-lhe a diferença.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Três: "O Reino do Sol".)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lisboa Triunfante: a partir de hoje nas livrarias

O meu novo romance, Lisboa Triunfante, estreia-se hoje nas livrarias.
Se têm acompanhado Os Cadernos de Daath, já sabem que a edição conta com duas capas diferentes, dedicadas às personagens principais: a Raposa e o Lagarto.

Trata-se de um livro que conta a história da rivalidade que existe entre essas duas figuras e o modo como ambas usam a cidade de Lisboa para alcançar os seus objectivos (antagónicos); em tangência, fala-se de outras rivalidades: daquela que existe entre a cultura erudita e a cultura popular; ou entre mulheres e homens; e mesmo entre a religião e a imaginação.

Desde a pré-história até aos nossos dias, o enredo de Lisboa Triunfante contém personagens como Aquilino Ribeiro (escritor e revolucionário), D. João V (o nosso "Imperador do Ocidente"), Frei Gil de Santarém (o nosso "Doutor Fausto") e Mestre Boytac (mestre de obras de D. Manuel I e arquitecto do Mosteiro dos Jerónimos).

É, em essência, um livro sobre escolhas perigosas, lutas secretas e o modo como a História é feita de Horror e Fantasia.
É, também, sobre alguns animais que falam, sobre alguns homens que não pensam e sobre uma cidade que vive para sempre.


sábado, 15 de novembro de 2008

Portas para o Céu e para o Inferno

«Avançaram em silêncio pelo caminho poeirento; esburacada pela escuridão, a nuvem de pó levantada pelos cascos dos burros dispersou-se sobre a erva como um grupo de estrelas desmaiadas. Os viajantes viram meia-dúzia de casebres encostados à muralha e vários ovis com carneiros à frente deles; ao contrário dos porcos, que comiam os restos atirados para as ruas, esses animais eram demasiado preciosos para andar à solta. Os pastores que moravam naquelas casas miseráveis, mais os agricultores que viviam para os lados do Mosteiro de São Vicente de Fora, haviam sido recrutados para reparar um troço da muralha que tinha derrocado, o que não ajudava a dissipar o sentimento de inferioridade que sentiam diante dos habitantes do espaço intramurado; um porta-voz fizera queixa a D. Afonso III sobre a humilhação em que consistia a prestação da anúduva, que, ainda por cima, interrompia os trabalhos dos campos sem os quais a cidade não podia subsistir, mas ninguém sabia se o rei aboliria esse imposto. Valadares e Guterres aproximaram-se do arrabalde contíguo à Porta do Sol, cujas casas formavam uma via chamada pelos cidadãos de Rua da Porta do Sol, e observaram as construções de madeira: só podiam ser sustentadas pela vontade indómita de algum génio doméstico descendente dos lares romanos porque eram tão assimétricas que os dois homens obrigaram os burros a andar mais depressa com medo que elas lhes caíssem em cima. Aproximaram-se da Porta do Sol e Valadares percebeu que o cheiro desagradável derivava da esterqueira para a qual os cidadãos despejavam os detritos; não deveriam estar longe desse local isolado onde os bandidos se escondiam durante o dia, o que significava que era arriscado andar sozinho àquela hora. Esticando o braço, o frade puxou a corda para chamar o porteiro; nas proximidades da porta uma figueira enorme servia de abrigo a três andrajosos que dormiam: a passagem para a cidade custava caro e nem toda a gente que se deslocava a Lisboa conseguia entrar. Instantes depois, o porteiro abriu um postigo e observou os visitantes. Perguntou-lhes ao que iam e o que é que traziam.»

«Descobriu um esqueleto encostado ao altar e aproximou-se dele. Parecia ter pertencido a um homem entroncado e deformado: os ossos, pretos como pedra, estavam desmontados, mas distribuídos com minudência de modo a montar a estrutura óssea como ela deveria ter sido. Valadares sentiu-se confundido pelo crânio volumoso e pelo grossíssimo ressalto sobranceiro às órbitas. Enrolado nas clavículas, encontrava-se um cordel com um boneco de osso. Valadares inclinou-se para o examinar. Parecia… Parecia ser uma raposa!... (...) Nesse instante olhou para a parede e gemeu.
(…)
O rosto horrendo do Cristo Lagarto, encortinado pelo fulgor fulvo daquela pedra oculta no interior da terra, possuía um poder fascinante. Nesse momento, o frade notou um movimento inesperado pelo rabo do olho. Olhou para o lado e viu um lagarto sair de um buraco no chão.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Cinco: "Pythonomorpha Pentadactyla".)
Nas livrarias a partir de 17 de Novembro. Uma publicação das edições Saída de Emergência.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Fantasia

«Usando o guarda-chuva como um cajado, Aquilino continuou a subir. A tarde escurecia e ele sentou-se debaixo de uma árvore. Tirou uma sanduíche de chouriço, enrolada num pano verde, do bolso do casaco. O chouriço tinha pouca gordura e o pimentão picava na língua; o pão que já começara a enrijecer estava a deixar-lhe a camisa preta cheia de farinha. Lamentou não ter trazido um livro para ler.
Estava sentado num altinho de onde abarcava um vasto horizonte sobre a cidade. Estreitando a vista podia decifrar os contornos da outra banda; à sua volta o vento rinchante abanava a copa das árvores. Não se descobria vivalma; só os rumores próprios dos bosques: o ramalhar da erva; dois ramos secos a baterem um no outro – tactac – uma bolota que caía.
Então, passo a passo, entre os arbustos, como se deitasse o olho ao chouriço, apareceu uma raposa.
Aquilino não a viu romper da vegetação.
O bicho aproximou-se com orelhas altivas; baixando a cabeça, desconfiado, e farejando com o focinho fino. Assim que a viu, Aquilino matou um soluço de surpresa e deixou-se estar quieto. A raposa ergueu a cabeça e olhou para ele: era um animal pequeno, magrinho, de pêlo arrepiado pelo vento. Devagarinho, Aquilino retirou uma rodela de chouriço de dentro do pão e descaindo a mão com gentileza atirou-a à raposa. Ela seguiu a morcela bamboleante com o olhar, mas não se mexeu, continuando a olhar para Aquilino com a cabeça alta.
‘Olha a minha catita’, disse Aquilino com suavidade. ‘Come, linda, come.’
A raposa girou as orelhas e inclinou a cabeça.
O cheiro da carne tentou-a a dar um passo em frente. Aquilino não se mexeu. Vagarosamente, a raposa lambeu o beiço: o focinho afilado, talhado em malícia pura e sonsice, que a saliva anediava. No afago da sombra, sobre a erva fria, a raposa filou a rodela de chouriço e mordiscou, piscando os olhos de satisfação. Aquilino sorriu e procurou uma rodela menos esburgada para lhe oferecer. Atirou-a e a raposa apanhou o naco no ar com um pinote. Aquilino estava a divertir-se.
‘Raposeta vermelheta’, disse, sorrindo. ‘De onde és tu, santinha?’
Entretido, Aquilino falou com a raposa – e, naquele fim de tarde em Lisboa, a poucas horas do espectáculo de fogo-de-artifício, viu algo extraordinário acontecer: entretida, a raposa sorriu para ele.
Olhos amarelos semicerrados numa careta inteligente – o focinho arregaçado num sorriso: um sorriso humano.
Confundido, Aquilino franziu o sobrolho e olhou-a com mais atenção. A ilusão de óptica desapareceu e a raposa voltou a apresentar uma aparência comum: tinha sido uma fantasia insignificante; um truque produzido pela luz moribunda. A raposa mordeu mais uma rodela de chouriço que Aquilino lhe atirou e foi-se embora engolfando-se nos arbúsculos.»

(Em Lisboa Triunfante. Capítulo Dois: "Fantasia". Edições Saída de Emergência.)

Nas livrarias a 17 de Novembro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lançamentos da Canto Escuro (mas às claras)

A editora Canto Escuro, do poeta Vítor Vicente, irá lançar dois novos livros no próximo sábado, dia 15: Grafipoesis de Rui Carlos Souto e Odes de Ana Salomé. As apresentações terão lugar na Livraria Trama, às 17H00 (ao Largo do Rato em Lisboa, na Rua São Filipe Nery, nº25B).
Souto já deu à estampa o livro A Poesia dos Pequenos Insectos (Canto Escuro, 2006) e Salomé publicou o livro Anáfora (Edições Pena Perfeita, 2006).

Mas não é tudo: em conjunto, será lançado o novo livro de Vítor Vicente, intitulado Histórias com Pénis e Cabeça, numa publicação das Edições Mortas. (A capa é da autoria de Ana Biscaia.)
Quem está familiarizado com a poesia e a prosa do Vítor terá mais uma oportunidade para levar para casa um novo trabalho que é, simultaneamente, divertido, sensível e que faz pensar. Para aqueles que ainda não conhecem o registo acutilante do autor de As Noites Contadas ou O Tríptico do Narciso, fica o convite para aparecerem (ouçam a entrevista que o Vítor deu a Gilda Castro da TV Universitária de Uberaba, aquando da publicação no Brasil de As Noites Contadas pela Editora O Clássico, que vale a pena).

Consultem o weblog da Canto Escuro e o site das Edições Mortas para saberem mais pormenores destes lançamentos.
Apareçam!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fungágá da bicharada



O booktrailer do novo romance de José Saramago: A Viagem do Elefante. O livro já se encontra nas livrarias, numa publicação da Editorial Caminho.

***

Parece que Novembro será um mês no qual a bicharada vai tomar de assalto as livrarias: começa com um elefante, mas podem crer que, no dia 17, uma certa raposa e um certo lagarto também vão fazer das suas.