terça-feira, 28 de abril de 2015

Teaser de «O Poema Morre»


Vinheta do meu próximo livro de banda desenhada O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira (www.facebook.com/cirandara). Consiste numa reflexão sobre a guerra e os seus efeitos no indivíduo e na sociedade, partindo do ponto de vista de um poeta maldito por todos os regimes políticos que vai atravessando. A guerra vai eclodir lá para os últimos meses do ano, portanto: poderão ir escavando os abrigos, porque a saraivada vai ser a mais violenta possível.

Sobre liberdade e sobre silêncio


1) A liberdade é uma dimensão, medida criptogenésica pela qual, com maior ou menor incorrecção, nos referenciamos: é o espaço que existe entre heurística e hermenêutica; espécie rarefacta de partícula, visível que nem poeira entre luz desenfeixada por frinchas de janelas, mas, rapidamente, esvaecida. Dessa sorte, idoneísta, não pode ser definida como definitiva - somente deixada em aberto.


2) Compreendo a razão pela qual os anacoretas se entregavam à vida contemplativa, despojando-se de todas as superfluidades, eremicolando-se em ermos eremitágios: à medida que se vai envelhecendo, reduz-se o número de coisas de que se gosta, restando, somente, uma paixão, uma adesão tremenda a uma única fonte maior de luz, ofuscante das menoridades. Assim, tornando-se ruído o remanescente, procura-se o silêncio: o silêncio geográfico e psicogeográfico. Nenhum deserto será tão árido e nenhum despovoado tão vazio se o indivíduo que os atravessa estiver cheio.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sobre Gigantes Perdidos & Achados

 Talvez a melhor forma de iniciar esta breve (espero) publicação seja admitir que tenho uma tolerância incomum para com matérias bizarras e, à falta de palavra melhor, estúpidas; e que essa faculdade de, digamos de modo educado, invocar indulgência para com o estrambótico é, ao fim e ao cabo, uma ferramenta útil para os meus estudos e observações do lado mais desengonçado da experiência humana: é, de facto, difícil investigar e examinar, com rigor, certas matérias sem possuir estômago forte para engolir determinadas concepções arvoradas pelos pugnadores dos pseudoconhecimentos. No entanto, existem ideias marginais pertencentes a esses universos que consistem em verdadeiros testes de resistência à minha transigência, doutrinas e fantasias tão disparatadas -- e aborrecidas, o que, às vezes, é ainda pior -- que, com toda a sinceridade, escapa-me totalmente a força atractiva com a qual elas entusiasmam outros indivíduos: uma dessas ideias insensatas é a da pseudo-existência de antepassados gigantescos da espécie humana, um tropo familiar da pseudo-história e da pseudo-arqueologia, frequente em inúmeras teorias das conspirações.

Na Internet existirão milhares de fotomontagens, umas mais bem feitas que outras, sobre falsas escavações arqueológicas, nas quais pode observar-se técnicos minúsculos, ainda com as pás nas mãos, junto de ossadas inteiras de gigantes, desenterradas em perfeito estado de conservação, que nem conjuntos de porcelana Vista Alegre acabados de cobrir de terra. Com efeito, não compreendo, de todo, o fascínio sentido pelo gigantes. A maioria do público não terá um interesse mais profundo por esta ideia e, somente, lhe achará graça ou sentir-se-á entretida, mas, além dessa epiderme, os gigantes são um tema atractivo para muitos campos de pseudoconhecimentos: crentes na verdade literal dos textos bíblicos; evemeristas; crentes nas teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; autores mais ou menos racistas que têm como objectivo transmitir ao grande público a noção de que as culturas autóctones de certos locais, como a América do Norte, por exemplo, seriam incapazes de construir determinados monumentos megalíticos -- o catálogo de admiradores desta ideia, para os mais variados fins, é, na verdade, muito extenso.

Neste momento, o Canal História capitaliza o interesse pelos gigantes numa série televisiva intitulada Gigantes Perdidos: ao longo de seis episódios, o espectador é convidado a acompanhar as desventuras de Jim e Bill Vieira, dois irmãos, pedreiros, que debalde andam pela América do Norte à procura de vestígios e provas da existência dos gigantes de outrora. Quando escrevi que eles são pedreiros, não enfatizei de modo preconceituoso (para os pedreiros) a canhestrice destes pseudo-investigadores: eles são pedreiros de profissão -- são trolhas. Aparentemente, a série apoia-se no facto deles serem pedreiros de profissão para os apresentar como examinadores credíveis de monumentos megalíticos: são opiniões de especialista -- e, pelo que vi, os irmãos Vieira compõem sempre um ar espaventado pelo facto dos monumentos que vão examinando terem sido construídos sem argamassa. (Só gigantes poderiam ter sido capazes dessa heresia.)

É, em todos os sentidos, um paupérrimo espectáculo. É desanimador ver os Vieira armados em arqueólogos, saltitando de local em local, que nem gralhas em busca de ossos brilhantes de gigantes. É puro lixo televisivo, mas, lá está!, haverá quem encontre nestas personagens de pacotilha os seus campeões de charneira contra a grande conspiração engendrada pela academia para suprimir ao público as provas da existência de gigantes. O facto de, logo no primeiro episódio da série, os Vieira acharem que uma rede labiríntica de túneis com pouco mais de sessenta centímetros de altura ser um local sagrado para seres com mais de três metros de altura não consistiu em nenhum obstáculo para as suas indigentes explorações. É tão mau que nem sequer dá vontade de rir.

De um ponto de vista fisiológico, a existência de homens gigantes, como são apresentados pelos cultores dessa ideia -- ou seja, um esqueleto de proporções comuns, mas com um tamanho muito superior ao normal --, é impossível. Em primeiro lugar, os organismos maiores perdem calor lentamente (é por esse motivo que os povos do hemisfério norte, em regra, são mais altos e mais corpulentos que os do hemisfério sul: é uma defesa que a selecção natural encontrou para se conservarem quentes em climas frios), o que implicaria que um hipotético indivíduo gigante com, digamos, três ou quatro metros de altura, iria sobreaquecer e entrar rapidamente em colapso: dando de barato o facto do seu esqueleto gigante, proporcional ao de um tamanho normal, ser capaz de suportar o peso de um corpo desmesurado, sem que os ossos das pernas fossem muito mais espessos (como os dos elefantes) e, claro, que o coração não fosse, também, maior que o esperado, de modo a bombear com velocidade o sangue para todas as partes do organismo. As girafas, por exemplo, não têm corações assim tão grandes, quando comparados com o tamanho dos corpos, mas contornam esse problema possuindo uma tensão arterial altíssima (quase três vezes mais alta que a nossa) e uma pulsação elevada. Um hipotético gigante humano que quisesse manter um truque dessa natureza precisaria de uma dieta riquíssima em sódio (a verdade é que as dietas pobres em sal, tão em voga, provocam hipotensão e podem levar à morte) o que seria um problema, porque quanto maior é um organismo, mais alimento ele precisa ingerir para sobreviver: em suma, o gigante teria de passar o dia inteiro a comer. Os elefantes comem mais de trezentos quilos de alimentos por dia e as baleias ingerem toneladas. Os únicos verdadeiros gigantes na natureza, as árvores, são capazes de atingir alturas maciças, simplesmente porque fabricam o seu próprio alimento -- são autotróficas --, transformando dióxido de carbono em açúcar e oxigénio e não precisam de locomover-se para o efeito.

A testar os limites do crescimento do corpo humano, cite-se o caso do norte-americano Robert Wadlow: o homem mais alto de que há registo, com mais de dois metros e setenta centímetros de altura (e com um peso de duzentos quilos). Wadlow, que podem ver na imagem que ilustra este texto, morreu com vinte e dois anos de idade e, a essa altura, só se conseguia deslocar com o auxílio de bengalas e outros apetrechos similares, além de sofrer de má circulação e problemas neuropáticos nas pernas e nas mãos. À data da morte (15 de Julho de 1940), ainda continuava a crescer, pelo que pode especular-se sobre até que altura iria desenvolver-se sem que a sua vida, já muito limitada pelos problemas derivados do seu tamanho, fosse irremediavelmente prejudicada. Este gigante real prova, definitivamente, a impossibilidade dos cenários sonhados pelos cultistas da ideia dos Antigos Gigantes.
Termino com a curiosidade de Wadlow também ter sido pedreiro, mas pedreiro-livre: foi maçon e chegou ao terceiro grau simbólico de Mestre. Suspeito que este facto tem dado muitíssimo que falar aos teóricos das conspirações.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Vídeo da palestra «À Mercê da Medicina» em Sustos às Sextas

 
Na passada sexta-feira, dia 17, fui o palestrante convidado do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, evento organizado pela associação cultural Thinkers e que ocorre mensalmente na sede da Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha. A minha palestra teve como título À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura e consistiu numa escalpelização rigorosa sobre o fenómeno da medicina canibal ocidental, contextualizada a partir das posições histórico-sociais das práticas canibalísticas rituais e apotropaicas. O vídeo que poderão ver nesta publicação consiste num excerto dessa exposição.



Em paralelo, nesse dia foi, também, o meu aniversário, razão pela qual fui surpreendido com uma celebração que teve no bolo negro que podem ver na foto, em baixo, o elemento ritual de despedaçamento e consumo.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Günter Grass (1927-2015)


Só agora soube da morte de Günter Grass: morreu um dos melhores escritores de sempre e uma das minhas mais ricas e queridas influências. A importância da obra de Grass na minha formação autoral foi enorme e são raros os meus livros em que não se encontra uma referência ou homenagem a passagens e personagens dos seus livros. A literatura ficou mais pobre e desinteressante: adeus, Grass. Vemo-nos, como habitual, na estante.
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PS: acabam de informar-me que hoje, 13 de Abril, também morreu o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), cujos livros admiro. Enfim, sem comentários.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel de Oliveira (1908-2015)



A última longa-metragem de Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra (2012), que adapta uma peça teatral de Raul Brandão, é uma súmula espantosa do seu cinema, com um engenhoso equilíbrio imagético e verbal e uma fotografia lindíssima. A melhor homenagem que podem dar a Manoel de Oliveira é ver, rever e descobrir sempre coisas novas nos seus filmes: filmes que, sublinhe-se, recusam o mimetismo naturalista, sob o qual a arte tem de aproximar-se da vida. Não existem âncoras, no sentido de peso e de fixação que a palavra comporta, no cinema de Oliveira. Pode gostar-se menos ou mais da estética especial que ele inaugurou, ou apreciar-se mais uns filmes do que outros, como é natural, mas é inegável que Oliveira é um caso singular no cinema português e internacional. Poucos cineastas evocam, à partida, uma ideia análoga de liberdade cinematográfica, porque o cinema de Oliveira é totalmente livre. Talvez Kiarostami ou Dryer, que são os nomes que, neste momento, me surgem na lembrança (outros haverá, certamente). Empatizo totalmente com a estética oliveiriana, diga-se assim, de recusar liminarmente a velocidade: não a velocidade do dinamismo e da compreensão arguta, que essa está lá, mas a velocidade distractiva e superficial do frenético êxtase das montagens ultra-rápidas que nem sequer nos deixam observar convenientemente aquilo que está a ser mostrado. Entrar num filme de Oliveira é sempre entrar num espaço de pensamento, como num museu ou num templo: entra-se e cala-se para deixar falar a voz da inteligência. Quando se assimila esse preceito, o cinema de Oliveira é uma enriquecedora experiência.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Revista LOUD! de Abril


O número de Abril da revista LOUD! está quase a chegar (disponível a partir da próxima quinta-feira, dia 2), numa edição especial de coleccionador, dedicada aos Led Zeppelin.

Além disso, destaco, ainda, a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, na qual desvendo a origem histórica das tatuagens em Lisboa. Por isso, já sabem: fãs de Led Zeppelin, fãs de tatuagens e fãs de história de Lisboa, esta revista é, definitivamente, para vocês.


domingo, 29 de março de 2015

4ª Sessão de Sustos às Sextas (17 de Abril) com Medicina Canibal


No próximo dia 17 de Abril, às 21H30, ocorrerá a quarta sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas (no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal).
Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá interpretar duas canções negras do seu sedutor repertório e convido-vos a assistir à minha palestra À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura.
Marquem presença na página de Facebook do evento e divulguem. Obrigado: https://www.facebook.com/events/369185049933802/


sexta-feira, 20 de março de 2015

LÂMINA


Conheçam os LÂMINA, banda portuguesa de 'stoner doom rock', na qual o meu caro Filipe Homem Fonseca é o baixista. Um som endemoninhado que fere, exactamente, como uma lâmina bem afiada: quando se dá por isso, a ferida já é impossível de estancar. Excelente! Recomendo com entusiasmo negro.
Fiquem com a música Cold Blood. Deixem-se golpear e divulguem.


quinta-feira, 19 de março de 2015

«Nosferatu» musicado por Charles Sangnoir: amanhã no Seixal


Amanhã, dia 20, às 21H00, na Praça Luís de Camões, no Seixal, Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá oferecer um espectáculo singular, musicando ao vivo o filme mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau, cineasta pioneiro do movimento estético cinematográfico que ficou conhecido pela designação de "expressionismo alemão". A entrada é livre. Divulguem e apareçam.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Sustos às Sextas: terceira sessão


Na próxima sexta-feira, dia 13, às 21H30, ocorrerá a terceira sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, igualmente no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal (em Linda-a-Velha). O programa será composto por uma palestra do escritor português de ficção científica João Barreiros, pela inauguração de uma exposição de ilustração de diversos autores portugueses comissariada por Bruno Caetano (Easy Lab/Take it Easy) e, ainda, pela dramatização do conto de terror The Monkey's Paw do escritor inglês William Wymark Jacobs. Passem a palavra e apareçam: atrever-se-ão a desapontar os espíritos?


terça-feira, 3 de março de 2015

O novo pão e o novo circo


É provável que a ubiquação de diversos programas televisivos sobre gastronomia, aliada à inegável popularização e hegemonia da figura contemporânea do chef de restaurante, criatura híbrida entre o cozinheiro fino e o empreendedor finório, seja sinal de que existe um processo de retrocesso a um tempo em que a comida se consistia como um poderoso indicador classista. Com efeito, aquilo que se come e como se come ainda distingue, vestigialmente num feitio tradicional, certas heterodoxias humanas, como preferências de grupos demográficos, étnicos ou emblemas de filiações ideológicas de múltiplas ordens; no entanto, assiste-se ao ressuscitar de uma nova-velha era em que a comida volta a ser símbolo sistemático, basilar, até, do valor e do lugar dos indivíduos na mesologia social em que estão inseridos.

Assim, mantimentos de primeira necessidade são vendidos nas superfícies comerciais com selos de dita marca branca, de proveniência obscura e manufacturados com matérias-primas de difícil identificação, muitas vezes ao lado de artigos alimentares apresentados com auras luxuosas nas quais os rótulos tranquilizam os consumidores com mais poder de compra com avisos de que esses produtos não se encontram à venda sob outras marcas ou denominações. Tal como a roupa barata se estraga mais depressa que aquela que é vendida a um preço mais elevado, também a comida barata serve para alimentar de farrapos as massas que ginasticam os seus ordenados de sobrevivência. Fora da esfera doméstica, o restaurante -- palavra cuja significação etimológica se relaciona com o restabelecimento da saúde -- apresenta-se cada vez mais como apogeu das mais ambiciosas aspirações do dia-a-dia: interrupção feérica do tempo rotineiro durante a qual é possível, em princípio, degustar não uma refeição, mas uma experiência sensorial transcendente, idealizada pelo 'chef' consagrado à especialidade dessa eucrasia. Há muito que o chef substituiu a figura do médico, já outrora substituído pelo nutricionista, na psique popular. Neste cintilante e espectacular universo gastronómico, a doença não é mais a fome, mas a pobreza, da qual aquela procede, pois a nova roda dos alimentos está fatiada de acordo com a quantidade de moedas que cada bolso contém, como é curial de um tempo neo-romano em que tudo tem de ser etiquetado com um preço e posto à venda.
Se Juvenal fosse transplantado para estes dias, diria que o pão e o circo não desapareceram, mas que ambos pioraram muitíssimo de qualidade.

(Imagem: O País da Cocanha, de Pieter Bruegel, o Velho. 1567.)

segunda-feira, 2 de março de 2015

1ª Bolsa de Guiões Fantasporto


No âmbito da programação da trigésima quinta edição do Fantasporto, Festival Internacional de Cinema do Porto, irá ocorrer na próxima quarta-feira, dia 4, das 15H00 às 18H00, no Teatro Rivoli, a primeira Bolsa de Guiões Fantasporto.

Esta inspirada iniciativa, organizada pelo escritor e jornalista Octávio dos Santos e por Beatriz Pacheco Pereira, co-directora do Fantasporto, consiste numa sessão de análise e debate de diversos textos de cariz fantástico, escritos por autores portugueses, com o objectivo de encontrar-se sinergias, entre escritores e cineastas, que confluam em posteriores adaptações cinematográficas dos materiais literários em observação.

O meu conto No Muro (que escrevi propositadamente há três anos para a iniciativa Contos Digitais do Diário de Notícias, em parceria com a Escritório Editora) é um dos títulos reunidos nessa amostra.

Estão todos convidados a aparecer e, como habitual, agradeço a divulgação.
 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Vício da Gravidade


Em 2009, assim que saiu, li o romance Inherent Vice, de Thomas Pynchon, um dos autores que mais admiro, mas, admito, tenho pouquíssimas memórias desse livro atípico na obra do escritor norte-americano. Tenho uma noção diluída do enredo e de algumas personagens e situações que considerei mais interessantes, mas teria de relê-lo para refrescar a memória, quanto ao panorama. O problema é que o livro -- para o padrão fixado por Pynchon -- é demasiado ligeiro e até superficial: é, somente, uma história rocambolesca, semipolicial, semi-humorística, sobre alguns arquétipos da subcultura norte-americana de inícios da segunda metade do século XX e, sobretudo, demasiado esquecível, se é que me faço entender. Depois da publicação do genial e muito bem arquitectado Against the Day, um extraordinário romance, gigantesco em páginas e em ambição, este Inherent Vice foi uma desilusão e pêras.

Penso que Pynchon, conhecido por estar muitos anos sem publicar nenhum romance novo, quis, dessa vez, reduzir o tempo de espera dos seus leitores publicando um novo título -- apressado -- apenas com três anos de intervalo em relação à obra anterior (entre Against the Day e Mason & Dixon estão, retrospectivamente, nove anos de distância -- e dezassete anos entre Vineland e Gravity's Rainbow). Daí que não me surpreende que Inherent Vice, um "Pynchon light", seja a primeira escolha de Hollywood para uma adaptação cinematográfica do universo autoral deste escritor singular.

Todavia, para o espectador comum, Inherent Vice, realizado pelo interessante Paul Thomas Anderson, não será tão ligeiro quanto isso, porque o filme está a ser criticado por ser demasiado complexo e não-linear. Ora, bem: palavras como "complexo" e "não-linear" são música para os meus ouvidos, por isso lá terei de ir ao cinema comprovar se os críticos e o público têm razão.


Gostava, não obstante, que Hollywood tentasse filmar uma adaptação de Gravity's Rainbow, publicado em 1973 e rejeitado para o Prémio Pulitzer por culpa de uma sequência sadomasoquista de sexo coprofágico entre as personagens Katje Borgesius (uma agente dupla holandesa que é, em simultâneo, uma escrava sexual de um oficial da SS) e o submisso Brigadeiro Ernest Pudding; acrescente-se os laivos de zoofilia que envolvem pelo pescoço e pela cintura a bombástica Katje Borgesius e o estrambótico polvo Grigori, condicionado pavloviamente para atacá-la numa praia da Côte d'Azur (evento do qual é salva pelo protagonista Tyrone Slothrop, que distrai Grigori com um apetitoso caranguejo) -- uma passagem que evoca, de imediato, a arte shunga (estilo erótico japonês, cognato da nossa palavra chunga, que significa reles ou ordinário) do artista japonês Hokusai; em principal, a peça oitocentista Tako te Ama (O Sonho da Mulher do Pescador), mas, de igual modo, certas capas de revistas pulp norte-americanas, como a Spicy Adventure Stories, acervo de bizarras aventuras lascivas, editada nos anos trinta pela Culture Publications.

Considerando que Gravity's Rainbow data de 1973 e as mangas revolucionárias de Toshio Maeda, pai do género Hentai de banda desenhada japonesa, só apareceram em meados dos anos oitenta e inícios dos anos noventa, Pynchon será, na verdade, o primeiro autor a introduzir o sexo tentacular na cultura ocidental -- e, de chofre, no campo da literatura erudita. Aliás, tenho quase a certeza que os bonzos bem-pensantes que gostam muito de apregoar à boca cheia a sua admiração por Pynchon, enquanto crachá cultural, nunca leram, de facto, as tropelias tentaculíferas e escatofágicas de Gravity's Rainbow (entre outros desatinos de alto apuro que lá se encontram), com mais pontos em comum com os universos marginais de alguma literatura fantástica do que com a comoditização de costumes e conceitos domesticados que, hoje, infelizmente, passa por "boa" literatura.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Coisas


Adoro a mitologia criada em órbita da entidade extraterrestre chamada, laconicamente, "Coisa": espécie de predador cósmico, sem forma e linguagem definidas, cujo método de reprodução consiste na assimilação trófica de outras formas de vida, invadindo-lhes os corpos e criando novíssimas versões artificiais. Nos filmes de John Carpenter (1982) e Matthijs van Heijningen, Jr. (2011), a Coisa demonstra não possuir conceitos ou preconceitos de taxonomia; simplesmente, agarra no material orgânico disponível e molda corpos híbridos, desconjuntados, em que funções de membros e órgãos são trocadas ou reinventadas -- é, no fundo, a interpretação imediata, ultrapragmática, que o proteico instinto exomórfico faz dos seres vivos que vai entranhando, sem ter conhecimentos mais precisos sobre a verdadeira natureza daquilo que está a predar e, no fundo, sem preocupações a esse respeito. A Coisa é, nesse sentido, a antítese da reflexão, da planificação: é totalmente instintiva, animal, primitiva; nos poucos momentos em que exibe alguma estratégia vestigial de médio-prazo, ela está, em exclusivo, ao serviço da sua brutal sobrevivência. Não obstante, é aqui que se acha uma imperfeição que sempre me provocou alguma perplexidade; embora, uma que nunca me tenha retirado a genuína admiração que tenho pela visão de Carpenter e a fruição do filme de Matthijs van Heijningen, Jr.

O comportamento rudimentar da Coisa (o mais completo avatar cinematográfico do horror literário de estirpe lovecraftiana, híbrido de hemorroíssa com Yog-Sothoth; ou seja, a mescla do medo do contágio pelo elemento estranho à comunidade com a imprevisibilidade irascível do destino) não se compagina com o retrato que, em simultâneo, lhe é feito pelos cineastas, enquanto ser cultural e tecnológico com aptidão de, aparentemente, pilotar um intrincado veículo intergaláctico até à Terra; logo, ser criatura civilizacional, com percurso e projecto históricos (vulgo, que vive no tempo, em vez de viver no momento). Para mim, é uma estranheza análoga à de descobrir-se a existência de uma espécie de ténia capaz de edificar estruturas inorgânicas (ou orgânicas...). Contudo, ao procurar informações adicionais sobre esta prequela do filme de Carpenter, percebi, com agradável surpresa, que uma inquietação mais ou menos parecida passou pela cabeça dos criadores do filme.

É que o final original de The Thing, de 2011, previa que a protagonista Kate Lloyd (paleontóloga interpretada por Mary Elizabeth Winstead) descobrisse no interior da velhíssima nave espacial da Coisa (despenhada há milhares de anos no Antárctico e aí conservada no gelo) que essa espécie, afinal de contas, era apenas uma entre muitos organismos recolhidos através do universo para fins de pesquisa científica por outra espécie, inteligente e civilizada: a prová-lo estariam os corpos mortos dos pilotos, eliminados pela Coisa quando este animal se soltou do invólucro que o mantinha prisioneiro, provocando dessa forma a queda precipitada da nave. Teria sido um final estupendo para um filme que, em geral, consiste numa boa prequela/homenagem ao filme de Carpenter, faltando-lhe, evidentemente, a atmosfera angustiante e o sufocante niilismo lovecraftiano que nesse título estão presentes com uma força imensa. A razão pela qual este final foi rejeitado pelos produtores e encenado outro desfecho menos conseguido ocultar-se-á junto das razões que estiveram na decisão de substituir sem justificação provável a totalidade dos efeitos especiais animatrónicos por efeitos visuais gerados digitalmente, o que rouba muita da autenticidade (e desconforto) que fizeram do filme de Carpenter uma obra visionária.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sustos às Sextas: segunda sessão na próxima sexta-feira 13


Na próxima sexta-feira, dia 13, a Fundação Marquês de Pombal (Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha) acolherá às 21H30 a segunda sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, na qual a tónica será colocada sobre o cinema de terror, cortesia dos convidados Rodrigo Guedes de Carvalho, Tiago Guedes e Frederico Serra. Destaco que esta sessão consistirá, ainda, na última oportunidade de verem a exposição de fotografia Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude, de Gisela Monteiro. Passem a palavra e não faltem: os fantasmas esperam, amaldiçoados, por vós.





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

«Sepulturas dos Pais» em lista internacional de melhores livros de BD de 2014

 
Sepulturas dos Pais (Kingpin Books, 2014) escrito por mim e desenhado por André Coelho, está na lista internacional dos melhores livros de banda desenhada, publicados em 2014, no site de Paul Gravett, crítico e historiador inglês de BD.

E a antologia Crumbs (Kingpin Books, 2014), na qual participo com a história O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa, também lá se encontra.

Obrigado a Pedro Moura, crítico português de banda desenhada, pelas escolhas. A ler, aqui: http://www.paulgravett.com/articles/article/books_to_read_best_graphic_novels_of_2014#portugal


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Exposição de pintura «Figuras Icónicas» de Luís Camilo Alves


Até ao dia 4 de Março, poderão ver na Galeria Arte Periférica (no Centro Cultural de Belém, em Lisboa), uma excelente exposição de pintura do artista Luís Camilo Alves, intitulada Figuras Icónicas. Recomendo-a com entusiasmo: não faltem.
Informo que o Voltaire versicolor que podem ver na imagem em anexo é o meu caro Filipe Homem Fonseca, numa caracterização muito especial.

Agradeço a divulgação.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Neonazismo na cultura popular no aniversário dos setenta anos da libertação de Auschwitz


O boçal Giorgio Tsoukalos, suíço de ascendência grega conhecido pela maioria do público por ser um dos difusores mais fanáticos da Teoria dos Antigos Astronautas e da Teoria da Génese Extraterrestre (conjuntos sincréticos de ideias eveméricas que, desde meados dos anos cinquenta do século passado, têm alastrado das fímbrias recônditas de uma certa cultura marginal para o centro da cultura de entretenimento popular, em injecções de doses desiguais, mas num ritmo constante), apresenta um novo programa televisivo, transmitido nestes dias pelo Canal História, intitulado In Search of Aliens, no qual, em dez episódios, reitera, a título individual, hipóteses e conceitos mostrados colectivamente na anterior série televisiva Ancient Aliens, em que também participou, juntamente com outros defensores desses disparates. Um dos episódios de In Search of Aliens transmitidos ontem, por volta das vinte e duas horas, teve como título Nazi Time Travelers (Viajantes Temporais Nazis).

É com desconforto que evidencio a infelicidade em que consiste o facto deste tipo de lixo televisivo ter sido transmitido na véspera do aniversário dos setenta anos da libertação do campo nazi de extermínio de Auschwitz pelas tropas do exército russo, a 27 de Janeiro de 1945 (hoje, o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto). O problema principal de programas do jaez de Nazi Time Travelers é a ignorância cabal que os seus produtores têm (ou aparentam ter) sobre a origem das ideias recauchutadas que apresentam: neste caso, ideias de repreensível propaganda neonazi, desenvolvidas a partir do final da Segunda Grande Guerra por ficcionistas e ocultistas nacionais-socialistas ou de pendor nacional-socialista, como Savitri Devi (pseudónimo da escritora francesa, de ascendência grega, Maximiani Portas) e o chileno Miguel Serrano, autores de, respectivamente, The Lightning and the Sun (1958) e da trilogia El Cordón Dorado: Hitlerismo Esotérico (1978), Adolf Hitler, el Último Avatara (1984), Manú: "Por el Hombre que Vendra" (1991). Porém, Devi e Serrano são, somente, dois dos mais conhecidos e influentes propagandistas de ficção ocultista neonazi, um género abjecto que mistura esoterismo, ficção científica e pseudo-história e cuja origem pode ser traçada, por exemplo, a partir da publicação dos romances do pseudo-arqueólogo alemão Edmund Kiss, como Das gläserne Meer (O Mar de Vidro), de 1930, ou Die letzte Königin von Atlantis (A Última Rainha da Atlântida), de 1931, e dos contos que o engenheiro suíço Erich Halik publicou na primeira metade dos anos cinquenta do século passado na revista ocultista austríaca Mensch und Schicksal (Homem e Destino), nos quais surge pela primeira vez o mito do "sol negro" aliado à SS, assim como os discos voadores da SS.
A concepção de discos voadores nazis e suas bases secretas nos pólos Norte e Sul influenciaram toda a produção dos autores neonazis ou simpatizantes do nacional-socialismo que, no decurso da segunda metade do século XX, desenvolveram esses mitos em cosmogonias de pacotilha, mistas de messianismo hitleriano, teorias das conspirações e pseudo-história. Uma vez publicadas, as ideias, por mais marginais que sejam, encontram maneiras de alcançar audiências que estão além do público pretendido pelos autores e, perdida a dimensão original que robusteceu as suas criações, tornam-se algoritmos para novas semânticas. É o caso dos condenáveis delírios sobre discos voadores e máquinas do tempo nazis que, hoje, são destiladas pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas em programas de grande audiência, como Ancient Aliens e In Search of Aliens: anunciadas sem contextualização e sem quaisquer alusões quanto às proveniências neonazis, elas adquirirão, certamente, cunhos de credibilidade para muitos espectadores que não estão, como é óbvio, familiarizados com o mundo subterrâneo desta espécie de contracultura e que se deixam fascinar pelo sensacionalismo que lhes serve de Cavalo de Tróia.

O conteúdo de Nazi Time Travelers é, especialmente, lamentável na promoção da noção - errónea - de que a tecnologia nacional-socialista de guerra era mais avançada que a dos Aliados e que somente por um azar indefinido é que o III Reich não ganhou a Segunda Grande Guerra. O facto é que a tecnologia nacional-socialista de guerra e a ciência nacional-socialista eram inferiores às dos Aliados, precisamente porque eram nacionais-socialistas: ou seja, as diversas áreas de conhecimento científico estavam obrigatoriamente subordinadas à ideologia nazi e seus tropos desequilibrados. Depois de extirparem das universidades os conhecimentos ditos "judaicos" ou "contaminados por judaísmo", os arquitectos do nacional-socialismo tiveram de preencher esse vazio com todas as ordens de teorias alternativas e pseudoconhecimentos que, independentemente de serem correctos, válidos ou úteis, tinham de, em principal, reflectir o radicalismo do pensamento político do nacional-socialismo. Por radicalismo, entenda-se a ruptura completa com o conhecimento já estabelecido (que, curiosamente, é também uma característica dos defensores das Teorias dos Antigos Astronautas e da Teoria da Génese Extraterrestre). Assim, a ciência nacional-socialista ficou preenchida pelas ideias absurdas do engenheiro austríaco Hans Hörbiger, que, note-se, já medravam em algumas universidades alemãs e na doutrina oficial dos Camisas Castanhas, sendo observadas como uma alternativa "ariana" às teorias "judaicas" de Einstein, entre outros.
Embora falecido em 1931, Hörbiger foi, com efeito, uma das figuras mais infuentes e importantes do III Reich, por via da sua Teoria do Mundo de Gelo, publicada pela primeira vez em 1913: segundo esse bizarro ponto de vista, toda a matéria do universo seria constituída pelos resultados de choques violentos entre fogo e gelo. Na cosmogonia hörbigeriana, os "arianos", antepassados dos autênticos alemães, teriam criado novas colónias nas Américas Central e do Sul, após o Dilúvio que submergiu a sua pátria na Atlântida. Foi esta ideia que influenciou o já citado pseudo-arqueólogo Edmund Kiss a viajar até à Bolívia e ao Peru, em 1928, para tentar encontrar vestígios de civilização "ariana" nas ruínas de Puma Punku e Tiahuanaco. As conclusões inventadas por Kiss são, presentemente, vendidas com gusto pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas nos seus programas televisivos a um público generalista que, sejamos honestos, desconhece completamente estas ligações nazis e neonazis. Arrisco a hipótese de que também a maioria dos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, entre os quais Tsoukalos, também desconhecerá a proveniência nazi e neonazi do material em que apoia as suas convicções estapafúrdias, mas aquilo que é factual é que alguns deles, como Erich von Däniken, já declararam opiniões racistas e de pendor neonazi em alguns dos seus livros.

Prosseguindo, Die Glocke (o sino), a hipotética tecnologia que permitia aos nazis viajar no tempo, apresentada em Nazi Time Travelers, é uma ficção inventada pelo jornalista polaco de extrema-direita Igor Witkowski no livro Prawda o Wunderwaffe (A Verdade Sobre as Wunderwaffe), de 2000: levada ao colo pelos teoristas das conspirações, consiste numa ideia absurda que alcançou há poucos anos o campo televisivo ocupado pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, que nela desejam ver aplicações efectivas de tecnologia extraterrestre, chegando a afirmar que alguns oficiais nazis escaparam temporalmente através dela.
Sinceramente, é doentio que estes programas reforcem na psique popular uma sensacionalista mitologia neonazi que não se corresponde em nada com a realidade histórica. Programas como Nazi Time Travelers, e filmes como o execrável Iron Sky de Timo Vuorensola (2012), cujo trailer da sequela neste momento em produção (Iron Sky: The Coming Race - um título que remete para o livro The Coming Race, de 1871, do escritor oitocentista inglês Edward Bulwer-Lytton, no qual aparece pela primeira vez o conceito energético-místico da força chamada de Vril, elemento que, posteriormente, influenciou o esoterismo teosófico blavatskiano, o antroposofismo steineriano e o esoterismo neonazi) mostra a elite nacional-socialista refugiada numa cidade agartiana no interior de uma Terra Oca antárctica, respigam elementos do esoterismo e pseudo-história neonazi e transformam o regime nacional-socialista numa camarilha de vilões disneyescos, obcecados pelo oculto.
Será, certamente, pela via do imaginário misterioso do ocultismo e do contorno contracultural com que estas ideias são apresentadas que o público mais jovem, ainda sem referências históricas sólidas, adere emocionalmente a elas, naquilo em que, muitas vezes, significa o primeiro passo para o activismo político dentro dessas balaustradas.

Para combater a ignorância e o pseudoconhecimento, nada como a verdade histórica. Nesse sentido, em memória de todos aqueles que foram assassinados barbaramente por uma ideologia que fetichizou a morte e que, creio, não possui nenhuma análoga com outra sua contemporânea (aqueles que tentam desvalorizar o genocídio projectado pelo nazismo, insistindo nas supostas idêntica ou superior violência do comunismo, em especial o comunismo dito estalinista, simplesmente não sabem do que estão a falar), recomendo a leitura daquele que, na minha opinião, poderá ser o melhor livro sobre o fenómeno de Auschwitz: Auschwitz, de Debórah Dwork e Robert Jan Van Pelt.
Estes autores aproximam-se da interpretação "funcionalista" sobre o Holocausto, embora eu me incline mais para uma interpretação "intencionalista" (simplificando, segundo os "funcionalistas", a Solução Final Para a Questão Judaica foi uma contingência, enquanto que de acordo com os "intencionalistas" o genocídio dos judeus estaria delineado, com menor ou maior detalhe, desde as vésperas da Segunda Grande Guerra).

Para não esquecer o passado e para não esquecer que o futuro não está garantido.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

«O Barbeiro que Contava Histórias» de André Oliveira



Leiam a excelente BD curta O Barbeiro que Contava Histórias, escrita por André Oliveira e desenhada por Nuno Lourenço Rodrigues, publicada no mais recente número da revista Cais. Oliveira é, na minha opinião, um dos melhores argumentistas portugueses de banda desenhada da nova geração e vale muitíssimo a pena seguir sempre o seu trabalho, que é sensível, inteligente e tem aquela chama que marca a diferença. Confiram aqui: http://www.acalopsia.com/o-barbeiro-que-contava-historias-com-nuno-lourenco-rodrigues/