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segunda-feira, 20 de maio de 2019

Simplicidade e singeleza


A primeira vez que ouvi falar na realizadora americana Kathryn Bigelow foi quando li um ensaio sobre o seu filme Blue Steel, integrado no livro The Cinematic Body, do filósofo americano Steven Shaviro, que comprei em 1996 na livraria-café Laie de Barcelona (curiosamente, foi nessa vez que aí comprei um disco com as músicas compostas pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que antes de filosofar quis ser músico — até hoje, quando penso em Nietzsche lembro-me do Verão ventoso de Barcelona e das ruas estranhamente desertas naquela hora da tarde).
Nesse tempo não conhecia a obra de Bigelow, mas o texto abriu o meu interesse — um pouco mais à frente iria ver alguns dos seus filmes, como Near Dark, Point Break e Strange Days (por partida do destino, ainda não vi Blue Steel).
Tal como os filmes que citei na linha anterior, só vi The Hurt Locker uma vez, há uns anos, mas é um filme em que o comportamento obsessivo do protagonista parece comunicar com uma perdida classe de personagens oriundas de uma literatura — bem masculina — feita de pungentes e desarmantes relatos de experiências-limite.
Com efeito, é nas páginas de Joseph Conrad que encontro o mais perfeito simbionte da criatura cinematografada por Bigelow — no conto The Secret Sharer, contido no livro 'Twixt Land and Sea, um capitão retido em terra há demasiado tempo diz o seguinte ao, finalmente, regressar ao mar: «De repente, regozijei-me com a grande segurança do mar, em comparação com a inquietação da terra, com a escolha de uma vida sem tentações, que não apresenta problemas inquietantes, e investida de uma beleza moral elementar pela absoluta simplicidade do seu apelo e pela singeleza do seu propósito.» Esta é a chave para desencriptar a conduta do oficial desarmador de explosivos que, no filme de Bigelow, incapaz de relacionar-se com a complexidade do dia-a-dia familiar, decide tudo abandonar para seguir em exclusivo a sua carreira suicidária.
Ao contrário do que se poderia pensar (de modo natural, mas superficial), é a fuga para a «singeleza do seu propósito» que o empurra para o cenário de guerra, no qual sobreviver ou morrer são as únicas hipóteses possíveis. Não é, pois, o suposto aborrecimento da vida doméstica que desengatilha um novo alistamento, mas a inquietação diante de um mundo despido da «beleza moral elementar» — entomológica, até — das experiências-limite.
A domesticidade suburbana, esfera que roda num eixo demasiado imprevisível, pleno de afectos e preocupações, apresenta-se mais hostil ao veterano que os panoramas infernais da guerra. O mar para o capitão e as explosões para o soldado são lugares de culto da mesma ordem que um mosteiro para um monge. O facto desta sensibilidade ascética masculina ter sido tão bem transplantada para a tela por Bigelow testemunha todo o seu talento como cineasta.
A coincidência do livro e do disco comprados nesse dia prolonga-se no carácter nietzschiano desta personagem: aquilo que ela procura na intimidade com a bomba, eu diria que Nietzsche procurou no contacto com a escrita — extraordinariamente influenciado pela sua experiência como compositor, o texto de Nietzsche quer desarmar explosivos através do engenho filosófico mais temerário. Une-os o argênteo cordão da «absoluta simplicidade do seu apelo» e «a singeleza do seu propósito».

domingo, 10 de março de 2019

Lista de Compras da Revista LOUD! na FNAC Chiado



O vídeo que gravei na FNAC Chiado para a rubrica Lista de Compras da Revista LOUD! já está disponível no perfil de YouTube dessa publicação: nesta entrevista poderão descobrir quais foram as minhas recomendações musicais e literárias para essa sessão.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Lista de Compras no próximo sábado na FNAC Chiado


No próximo sábado, dia 26, às 17H00, estarei no fórum da loja FNAC Chiado a convite da revista LOUD! como entrevistado na rubrica Lista de Compras: consiste numa iniciativa em que os convidados conversam com o público sobre livros, discos ou filmes que escolheram previamente na loja e que tenham particular importância para si. Apareçam.


Vale mesmo mais um pássaro na mão


A ouvir um dos mais surpreendentes e melhores lançamentos do ano passado: One Byrde in Hande (Linn Records) do maestro e músico inglês Richard Egarr, que também é director da Academy of Ancient Music, em Cambridge. Este disco consiste em peças para cravo compostas pelo compositor isabelino William Byrde. Recomendo-o vivamente a todos os fãs de música renascentista, de Byrde e Egarr e, claro, a todas as aves raras. Esta gravação, na qual Egarr demonstra o seu talento superlativo, é servida por uma produção irrepreensível e por um design de muito bom gosto.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Les Arts Florissants's «Die Zauberflöte» - plus my social networks


Les Arts Florissants's historically informed version of Mozart's Die Zauberflöte (1791) - played with period instruments - comes serenely to the listener, at an appointed slower pace than other large-orchestral performances, and this brings forth a welcoming freshness. I highlight Dessay's Königin der Nacht - throughout, her coloraturas sound just like an instrument; which can be heard best in this version's slower-paced Der Hölle Rache aria - and Scharinger's Papageno, sung with a lot of heart. Overall, the singing in this recording is first-rate. There is a quiet period-piece dignitas here, very moving and authentic, belied by the light-hearted, gracious playing. One of the most original and precious versions of this singspiel already recorded.

I take this occasion to remember my readers about my Facebook page and my Instagram profile.
I know this blog is not being uptaded almost per diem as before, but, nonetheless, you can follow my Facebook posts and Instagram snaps, published (for the time being) at a more circadian pace than here.

So, if you don't follow my social networks already, go there and press 'follow'. You'll find me there easilly these days.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Verão pesado com a LOUD! de Julho


O número de Julho da revista LOUD! já está disponível nas bancas, para tornar ainda mais quente o início do Verão. Nesta edição, há Consultor Funerário, para saciar a fomeca que a ausência do mês passado provocou: assim, a regularidade bimestral fica com outra ordem; ou seja, para o mês que vem não há, mas no seguinte haverá novamente.

Além disso, vale a pena ler as entrevistas de Randy Blythe, que, aparentemente, foi ao Inferno e voltou (escreveu um livro de 500 páginas sobre o caso, à la Expresso da Meia-Noite), e de Dani Filth, o insubstituível vocalista de Cradle of Filth, banda na qual todos são substituíveis, a dada altura - dá vontade de rir?, dá, mas que a banda é das melhores, é. E a distância que o tempo cria entre os discos que foram mais subvalorizados ou incompreendidos apenas reforça essa percepção: urge regressar a Cradle of Filth e reenquadrá-los/apreciá-los sob essa luz. Eu, confesso, gosto bastante e tenho muitos discos (já editaram onze) para descobrir, porque há imensos que nunca ouvi.

De facto, às vezes é útil colocar as coisas nesta perspectiva: não passar cartão àquilo que parece fútil e dar tempo ao tempo, porque se for bom e interessante, continuará aqui para ser apreciado a dada altura. Tantas vezes se perde tempo com tretas que não interessam nada, laudadas como se fossem o melhor presente de Deus à humanidade, e que, passados uns mesitos ou um ano, desaparecem tão suavemente quando alardeamente apareceram, que nem monstros de Frankenstein criados pelas vozearias do marketing e da propaganda.


segunda-feira, 30 de março de 2015

Revista LOUD! de Abril


O número de Abril da revista LOUD! está quase a chegar (disponível a partir da próxima quinta-feira, dia 2), numa edição especial de coleccionador, dedicada aos Led Zeppelin.

Além disso, destaco, ainda, a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, na qual desvendo a origem histórica das tatuagens em Lisboa. Por isso, já sabem: fãs de Led Zeppelin, fãs de tatuagens e fãs de história de Lisboa, esta revista é, definitivamente, para vocês.


sexta-feira, 20 de março de 2015

LÂMINA


Conheçam os LÂMINA, banda portuguesa de 'stoner doom rock', na qual o meu caro Filipe Homem Fonseca é o baixista. Um som endemoninhado que fere, exactamente, como uma lâmina bem afiada: quando se dá por isso, a ferida já é impossível de estancar. Excelente! Recomendo com entusiasmo negro.
Fiquem com a música Cold Blood. Deixem-se golpear e divulguem.


quinta-feira, 19 de março de 2015

«Nosferatu» musicado por Charles Sangnoir: amanhã no Seixal


Amanhã, dia 20, às 21H00, na Praça Luís de Camões, no Seixal, Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá oferecer um espectáculo singular, musicando ao vivo o filme mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau, cineasta pioneiro do movimento estético cinematográfico que ficou conhecido pela designação de "expressionismo alemão". A entrada é livre. Divulguem e apareçam.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Contracultura satânica e feiticeira na revista LOUD! de Setembro


No número de Setembro da revista LOUD!, quase a chegar às bancas, assino um pequeno ensaio histórico sobre o fenómeno da contracultura satânica e feiticeira ocidental, partindo do imaginário lírico e musical da banda de capa, os Electric Wizard - grupo que, para esta edição, deu uma excelente entrevista conduzida por Ricardo S. Amorim. Além desse texto, deixo cinco sugestões contraculturais, relacionadas com a banda de Dorset e com o imaginário satânico e feiticeiro que interrogo com rigor no ensaio.

Este ano, a rentrée é endiabrada - e conta com todos na apresentação deste número da LOUD! no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, no próximo dia 9, às 18H30. Lá estarei para dois dedos de conversa. Agradeço a divulgação.

terça-feira, 1 de julho de 2014

«Imundo Bizarro» em «Larvas» de Holocausto Canibal



Larvas, o novo disco (EP) dos Holocausto Canibal, já se encontra disponível. Chamo a atenção para mais uma colaboração lírica (em todos os significados da palavra), no feitio da letra da música Imundo Bizarro, que idealizei e escrevi, propositadamente, a convite da banda. Na ligação em anexo poderão ouvir a música, uma das estrelas do disco, com um solo de guitarra muitíssimo venenoso, e acompanhar a audição com a leitura da letra (integral) que publico no parágrafo seguinte. Aviso: só para estômagos fortes e mentes com sentido de humor (negro).

IMUNDO BIZARRO (música: Holocausto Canibal; letra: David Soares)

Repuxos vagais laríngicos – cessam as inibições.
Inalando matéria regurgitada – surgem alucinações.

Psicótico, desviante:
não estou só nesta parafilia.
Hipnótico, excitante:
o vicio da minha emetofilia.
O vómito inflama a fantasia.

Total fadiga epiglótica – depois da quietação orgástica.
Hidropisia pulmicórtica – efeitos da inspiração cáustica.

Perigoso, glorificante:
um epicurismo singular.
Asqueroso, exaltante:
ejaculo em lixo hospitalar.
Prazeres a não depreciar.

Delírio e desritmia – infecção bactérica do sistema.
Fibrilação ventricular – colapso cardíaco com edema.

Relapsa, a lascívia é activa: imagino uma delícia putrescina.
Fétida, a fecalidade é vomitiva: besunto-me com bilirrubina.

(Indignante –
a minha presença mete nojo.
Sevandijante –
não há outro verme tão sujo.)

Nódoas no corpo, nódoas na mente. Imundo bizarro!
Sexualidade misófila e indecente. Imundo bizarro!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Franjas Sonoras do Século XX: uma formação


João Morales (Revista Os Meus Livros, Festival Literário Livros a Oeste) está a organizar uma formação histórica sobre algumas correntes musicais do século XX, chamada Franjas Sonoras do Século XX. O local onde decorrerá a formação será o Fórum Dança (Travessa do Calado, nº26B, em Lisboa) e o horário será das 10H30 às 12H30 e das 13H00 às 15H00, nos dias 5 e 6 de Julho. (Até dia 27 de Junho, o custo da inscrição será de 40 euros; depois dessa data será de 45 euros).

Será uma boa oportunidade para melómanos e amantes mais generalistas deste espectro musical enriquecerem os seus conhecimentos.

Agradeço a divulgação.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

La Chanson Noire: concerto nocturno no Cemitério dos Prazeres


Amanhã, sábado 17, às 21H30, La Chanson Noire regressará aos grandes concertos com um espectáculo exclusivo no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, para o qual Charles Sangnoir promete invocações incomuns de maneira a despertar mortos e vivos.
O concerto é antecedido e completado com uma visita noctura ao cemitério, com início marcado para as 20H00. Amantes do insólito e tafófilos, este evento é para vocês: be there or be dead.



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

David Soares e Charles Sangnoir celebram os 500 anos do Bairro Alto


Para os fãs de epitrópicas emoções clinofóbicas, informo que eu e Charles Sangnoir iremos, novamente, unir em palco os nossos talentos para ofertar ao público insuspeito mais uma hemicubação sonora - desta feita, no âmbito das comemorações dos quinhentos anos do Bairro Alto, em Lisboa, que, para enriquecer o conhecimento dos culturalmente carentes que por aí andem, faz este ano a bonita idade de meio milénio.
A data - apropriadíssima - do nosso castigo será a sexta-feira 13 de Dezembro (em breve darei notícia do local e hora). Até lá, ponham a jeito o Fenergan - no dia do azar, virá tudo abaixo no Bairro Alto.

Agradecimentos especiais a Manuel J. Gandra pelo seu gentil convite.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os homens de aço (cirúrgico)


O número de Setembro da revista LOUD! (para a qual escrevo a crónica bimestral Consultor Funerário) é, já, uma edição histórica, em virtude da entrevista que publica nas suas páginas centrais, com Jeff Walker (vocalista e baixista) e Bill Steer (guitarrista), da banda inglesa Carcass. Estreados em 1988, com a edição do disco Reek of Putrefaction, os Carcass foram, em conjunção com os Napalm Death (com os quais Steer também tocou), os pioneiros da sonoridade apelidada de Grindcore: aliança de elementos Metal, Punk e Jazz (o característico blast beat que, hoje, se associa, de imediato, aos estilos mais extremos de música, já era executado pelos bateristas de Jazz) que, com rapidez, se tornou um dos estilos metálicos mais plásticos e receptivos à experimentação com influências musicais muito distintas. Esse primeiro disco, prejudicado por uma produção muito fraca, mostrava, contudo, um grupo com uma personalidade incomum e tornou-se um favorito do programa de rádio da BBC Peel Sessions, do mítico apresentador John Peel. Ainda assim, poucos poderiam ter previsto a influência e a importância que o terceiro disco da banda, Necroticism - Descanting the Insalubrious (1991) iria exercer sobre o espectro das sonoridades mais extremas.

Em Fevereiro de 1991, estreou nos cinemas o filme The Silence of the Lambs, obra perturbante que revolucionou, totalmente, a cultura popular: um efeito imediato foi a aceitação pelo mainstream de ideias e personagens muito macabras que, até à data, eram coutada exclusiva da ficção de horror e de suspense, seguindo-se a instauração de uma constante estética umbrosa e sóbria, presente até hoje em produções visuais (desde filmes, séries televisivas e vídeos musicais). Editado em Outubro de 1991, Necroticism - Descanting the Insalubrious foi o The Silence of the Lambs do Metal: em 2000, a revista Terrorizer classificou-o como sendo o disco de Metal mais importante da década de 90. Com efeito, tanto The Silence of the Lambs como Necroticism - Descanting the Insalubrious demonstram o quão a cultura contemporânea, tanto nas artes como no entretenimento, deve às imagens e às harmonias mais extremas, provenientes do universo do horror. O terceiro disco de Carcass é, de facto, uma obra tocada pelo génio, que gerou um sem-número de epígonos e imitadores.

Mas os Carcass estão de volta (somente Walker e Steer pertencem à formação original), passados dezassete anos desde a edição de Swansong, com um inesperado novo disco, que será editado a 13 de Setembro: Surgical Steel. A sua capa evoca, directamente, a do EP Tools of the Trade (1992), um dos meus registos favoritos da banda (a seguir a Necroticism - Descanting the Insalubrious), e a música Captive Bolt Pistol que, entretanto, foi disponibilizada, é, inequivocamente, um tema fresco que não soa a plágio do passado, nem a homenagem póstuma. É um disco que aguardo com muita expectativa, porque os Carcass sempre foram uma das minhas bandas preferidas (ouvi a cassete original - naquele tempo ainda se compravam cassetes - de Symphonies of Sickness até à exaustão): os meus leitores que são fãs desta banda terão, certamente, dado pela pequena homenagem que lhe fiz na página 195 do meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), com a escrita do pequeno interlúdio em verso Matéria Médica, Pelo Doutor Jacob de Castro Sarmento (à maneira dos ilustres cirurgiões Jeffrey Walker e William G. Steer de Nottingham).

Convido-vos, pois, a lerem a entrevista destes cirurgiões na LOUD! de Setembro.


 


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sugestões musicais

Duas sugestões musicais, em que se destacam colaborações de amigos.

O ilustrador André Coelho, que trabalhou comigo no livro É de Noite Que Faço as Perguntas (Saída de Emergência, 2011) e que está, neste momento, a desenhar Sepulturas dos Pais, uma nova banda desenhada escrita por mim que irá ser editada em 2014 pela Kingpin Books, foi o criativo responsável pelo grafismo do vídeo musical da banda portuense de rock Ghosts of Port Royal: a música intitula-se 50.000 Dead Starfish e abre o apetite para o próximo disco da banda (a anunciar). A animação da arte de Coelho foi feita por Augusto Lado, vocalista do grupo.



De um registo também endiabrado é feita a nova proposta de Karuniiru, banda liderada por Domino Pawo e que conta com Charles Sangoir, de La Chanson Noire (com quem trabalhei em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense), como um dos guitarristas. É Sangnoir que produz Cyberpunk, novo disco do grupo, que será editado em Setembro. Jorra é o título do primeiro single, cujo vídeo é realizado por Charles Sangnoir.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Viagem pelo século XX musical com João Morales


João Morales, director do festival literário Livros a Oeste (Biblioteca Municipal da Lourinhã) e dos ciclos de debates Com Todas as Letras (Sociedade Portuguesa de Autores), mas também jornalista com vastíssima experiência profissional nos campos da literatura e da música, irá ministrar um curso de formação sobre a música do século XX na Universidade Lusíada de Lisboa: é, pois, uma Viagem Pelo Século XX Musical; entre os estilos a estudar encontram-se os movimentos vanguardistas do início do século (o Futurismo italiano, a Escola de Viena, a obra do compositor francês Edgard Varèse), o free jazz, o rock progressivo e o legado do músico norte-americano Frank Zappa.

O curso terá oito horas de duração, em quatro sessões de duas horas cada, nos dias 17, 18, 19 e 20 de Setembro, sempre das 18H00 às 20H00.

Podem ler mais informações pormenorizadas sobre o curso nesta ligação: http://www.lis.ulusiada.pt/formacao/2013/vsxxm.aspx 

O formulário de inscrição é o seguinte: http://www.lis.ulusiada.pt/formacao/2013/formulario.aspx 

Inscrevam-se e divulguem, porque será de enorme interesse - não só para melómanos, como para estudiosos da contemporaneidade, em geral, porque a música de uma sociedade reflecte as suas problemáticas e ambições.
 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Novo disco de Alice in Chains


The Devil Put Dinosaurs Here é o novo disco de Alice in Chains, o segundo com o novo vocalista William DuVall. É, em certa medida, o disco mais pesado que já fizeram, muito no espírito das músicas mais viscerais de Dirt, embora seja atravessado por uma espécie de dura melancolia, nem triste, nem raivosa, que incomoda que nem um vento quente a enrolar-se no pescoço, mas que também tem o condão de manter o ritmo geral em meia-velocidade: aqui não existem aceleramentos, nem abrandamentos, o que é uma pena, porque empresta uma falsa ideia de homogeneidade. Em suma: é bastante bom, certinho, bem produzido e com uma capa que tem truque (quem tiver comprado o disco é capaz de já ter percebido) - e bem catita, por sinal. Talvez seja difícil para um disco como The Devil Put Dinosaurs Here competir, digamos assim, com o melhor material da banda, quando este se encontra, em grosso modo, nas canções acústicas, mas é um disco muito sólido, muito coeso. Assinale-se o facto de que é o segundo disco da nova fase de uma banda que perdeu um dos vocalistas de Rock mais versáteis e carismáticos de sempre e, mais uma vez, não só é um trabalho que não envergonha e que não soa a tributo, como evidencia de modo cristalino a relevância dos Alice in Chains, hoje. Ainda bem que os temos: que demorem a extinguir-se.




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Morreu Jeff Hanneman (1964-2013)


Morreu Jeff Hanneman, guitarrista fundador de Slayer: banda que, para quem não está familiarizado com o espectro da chamada "música extrema", revolucionou completamente essa sonoridade com a edição do disco Reign in Blood (1986). Normalmente, quem não é de todo conhecedor de metal pensa que Metallica (nome mais falado na comunicação social) será a banda mais representativa do género, mas, com efeito, foi Slayer que definiu a ferro-quente os caminhos obscuros, mas variados, que a música de peso tomou a partir da década de 90; em principal, com o advento do death metal, estilo de que Slayer é directamente responsável. Desde então, toda a "música extrema" deve muitíssimo ao death metal, que revelou-se dotado de grande plasticidade e passível de ser enformado nas mais variadas experiências musicais - e sem Slayer nada disso teria sido possível. As músicas dos discos clássicos de Slayer ainda são absolutamente revolucionárias no modo como quebraram - e quebram - com os lugares-comuns do heavy e do thrash, injectando não só uma inesperada agressividade, cuja seriedade se sente na carne, como uma refrescante liberdade na composição. Ora, Hanneman foi um dos principais arquitectos dessa revolução musical que Slayer foi. Continuará a sê-lo? Ninguém sabe. Gostaria, a título de evocação da inestimável herança de Hanneman e seus colegas, epigrafar o vídeo em anexo com dois versos de Samuel Taylor Coleridge: «We were the first that ever burst / Into that silent sea».
O mundo do metal ficou um pouco mais silencioso, a partir de hoje.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

«Macumba Stereo»: novo disco de La Chanson Noire


Macumba Stereo, o novo disco de La Chanson Noire, já está disponível. Para vossa comodidade, nesta ligação poderão escutá-lo e adquiri-lo sem saírem de casa.
A música que se apresenta na ligação anterior, intitulada Fado Mau, conta com a minha participação especial, na qual leio um texto que, infelizmente, tem tudo a ver com a Idade das Trevas que atravessamos.


Macumba Stereo é um disco negro, cativante, eloquente, truculento, vanguardista e interventivo. Ouvir Macumba Stereo, pela mão de Charles Sangnoir, que aqui regrava os seus melhores clássicos e nos apresenta belos inéditos, é como ir ao balcão do bar e segredar a senha ao empregado para pedir-lhe um copo da bebida proibida que só os verdadeiros libertinos conhecem e sabem apreciar: ou seja, é, em simultâneo, um prazer sensualista e quasi-ilícito. De inegável bom-gosto, com um requintado sentido do espectáculo, Macumba Stereo é, provavelmente, o disco mais depurado e frontal de La Chanson Noire, mas nessa honestidade desarmante cristaliza tudo aquilo que faz desta banda (de um homem só) o nome mais inteligente e imprescindível da "cena gótica" portuguesa. Caros, aqui há verdadeira emoção, verdadeiro sentimento. Em suma, aqui há verdadeira magia!