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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O corno paciente


No Dia dos Namorados, e não só, há quem goste de namorar com as namoradas e os namorados dos outros. Em linguagem popular, chama-se a isso o "encornanço": ou seja, o acto de "pôr cornos".

Hei de falar com mais detalhe sobre esta simbologia fascinante - como é que os cornos se tornaram o símbolo da vítima de adultério -, mas, para já, e porque se relaciona com mais facilidade com este dia, prefiro chamar a atenção para o facto interessantíssimo de que ser-se "corno" e não fazer nada em relação a isso já foi considerado crime. Mais uma vez, a linguagem popular não perdoa: o indivíduo nesta condição é o chamado "corno manso" - em suma, aquele que sabe que é "encornado", mas que, por variadas razões, não se importa de sê-lo. Há uns séculos, chamavam-lhe o "corno paciente" - daí o conhecido pregão "paciência de corno" que ainda hoje pode ser ouvido das bocas dos mais velhos.

Em resumo, quando o indivíduo não se importava de ser "corno" (quando era "corno paciente"), a própria sociedade encarregava-se de fazer justiça por ele; neste caso, "o corno paciente" bem a dispensava, porque ela consistia em pôr-lhe uns cornos folclóricos, feitos com duas grandes galhadas, amarrados com badalos. Neste feitio, era obrigado a percorrer as ruas da cidade ou da aldeia, ao mesmo tempo que era fustigado por um oficial de justiça. Quanto à adúltera, o castigo era o seguinte: sentavam-na em outro burro, no qual seguia junto do marido, despida da cintura para cima e coberta de estrume para atrair as moscas.

O delito de "corno paciente" é um exemplo da justiça de outrora, que, ao mesmo tempo que punia os prevaricadores e restabelecia a ordem pública, tinha o condão de servir de entretenimento e cola social. Para ilustrar esta observação escolhi um desenho do artista flamengo Joris Hoefnagel, que serve de frontispício à entrada sobre Sevilha no atlas quinhentista sobre as cidades do mundo Civitates Orbis Terrarum, de Frans Hogenberg e Georg Braun (Colónia, 1598). Pode ver-se o "corno paciente" montado no jumento, a ser chibatado, assim como, à sua frente, a esposa coberta de excrementos e envolta numa nuvem de moscas.

A neve e o fogo


Hoje, Dia dos Namorados, lembrei-me de uma das mais belas histórias de amor que conheço - talvez seja, de facto, a mais bela. O conto O Homem de Neve, escrito por Hans Christian Andersen, em 1861. A melancolia profunda dos textos mais tristes de Andersen emociona-me muitíssimo e coloca-me numa encruzilhada de saudade, entre a infância e a idade adulta. Em 1866, Andersen visitou Portugal e em Julho ficou hospedado na Quinta dos Bonecos (tão adequado que isto é), em Setúbal, propriedade da família O'Neill; no diário que escreveu, queixa-se do calor intenso, mas ao mesmo tempo descreve, com enlevo amoroso, a paisagem portuguesa que tanto o encanta. Tal como o Homem de Neve da história belíssima que escreveu cinco anos antes, sente-se, em simultâneo, atraído e magoado por essa estranha energia que é o calor. Visita, ainda em Setúbal, o Convento de Nossa Senhora dos Anjos de Brancanes, construído num lugar recheado de história desde os tempos pré-históricos, e que, entre 1998 e 2007, foi vergonhosamente - escandalosamente - transformado numa prisão. Eu acho que isto dá muito que pensar, em principal neste dia, dedicado ao amor, sentimento libertador por natureza.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Sobre o Dia dos Namorados


Aproxima-se o dia de São Valentim, Dia dos Namorados, mas quantos namorados saberão que a data de 14 de Fevereiro é sua graças à crendice popular de que era nela que os pássaros escolhiam os companheiros de acasalamento?

Foi com base nessa superstição que o pioneiro poeta inglês Geoffrey Chaucer escreveu a provável primeira menção ao providencialismo valentino como sendo uma vantagem para angariar amantes: «For this was Seynt Valentyne's Day. / When every foul cometh ther to choose his mate» (The Parlement of Foules. 1381). Este poema conta como as aves se reuniam junto do templo de Vénus para se escolherem umas às outras, mas como é que estes volúveis amores ornitológicos se entreteceram com a severa hagiografia cristã?

A crença de que as aves tinham um dia próprio para encontrarem um par faz todo o sentido, naquilo que se sabe sobre as crenças populares medievais, nas quais o mundo natural se regia pela Lei de Deus e se os homens possuíam dias especiais, também os animais, parte integrante da criação, os tinham. Contudo, no relato da vida de São Valentim que pode ler-se no martirológio Legenda Aurea não se encontra nenhuma referência a qualquer papel de casamenteiro que ele pudesse ter desempenhado, tanto de homens como de pássaros. Na verdade, de qual São Valentim se está a falar? Existem vários. No mínimo, dois Valentins são fortes candidatos à celebração instituída para 14 de Fevereiro: 1) um físico romano e 2) um bispo da cidade de Terni; um foi martirizado em 270, outro em 197 e ambos foram enterrados na célebre Via Flamínia, embora não no mesmo sítio. Proliferam inúmeras especulações e anedotas sobre como São Valentim se poderá ter tornado o padroeiro dos namorados, mas nenhuma pode ser levada a sério.

Também se especula que o dia 14 de Fevereiro se tornou o Dia dos Namorados aquando da conversão que a Igreja Cristã fez no século V (494), transformando o festival romano Lupercália, celebrado com rituais de fertilidade, no dia de São Valentim. Mas isso também é um erro, porque o Papa Gelásio I converteu o festival Lupercália na Festa da Purificação de Maria. A tónica colocada na purificação justifica-se no facto de que Fevereiro tem origem no nome latino Februarius que significa mês das purificações, o último mês do antigo calendário romano. As festividades lupercalianas relacionavam-se mais com a prática dos sacrifícios purificadores do que com a luxúria, o que torna forçada a teoria de que este festival é o embrião do Dia dos Namorados. Na verdade, bem vistas as coisas, a primeira vez que o dia de São Valentim aparece combinado com a prática do namoro é no poema de Chaucer. Por conseguinte, foi ele que inventou a conexão, fundindo-a com a tal superstição popular sobre as alianças dos pássaros, para a colorir; ou ela já circulava, de forma oral, pois não existem registos escritos, no círculo restrito da cultura erudita coeva, sendo, nesse caso, provavelmente um produto das tardias tradições cavaleirescas que usaram o "amor" como alegoria para outros conceitos.

Seja como for, com a benção de Valentim ou sem ela, os pássaros não passam de répteis monogâmicos: poesia sauropsida! Chaucer iria gostar.

(Imagem: The Parliament of Birds, Carl Wilhelm de Hamilton (início do século XVIII).