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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Pequenas Histórias. Ep. 2: "O Pânico de Panurgo (freguesias da Ajuda e de Belém)"

Disponível no meu canal de YouTube, o segundo episódio de Pequenas Histórias.

Em "O Pânico de Panurgo (freguesias da Ajuda e de Belém)" observa-se uma contínua correlação entre o desenvolvimento na filosofia de uma moderna mentalidade céptica e o fenómeno do adultério, tantas vezes empregue como metáfora nessas discussões, assim como o recurso a um ideário de humor popular empregue como arsenal crítico ou arma política. Partindo de uma leitura de autores como Gil Vicente, Cervantes e, sobretudo, Rabelais e Molière, olhar-se-á para o episódio do Processo dos Távoras e análogos adultérios aristocráticos como rampa de revoluções no imaginário popular. Uma viagem pela História das Ideias com duas freguesias de Lisboa como pano de fundo.

sábado, 14 de maio de 2016

Mal por mal, antes Pombal

Discordo profundamente que a Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, continue a ser utilizada para celebrar vitórias futebolísticas, sobretudo, quando estas se fazem sob reforçada vigilância policial; circunstância que demonstra - caso prova fosse precisa - de que estes festejos não são de natureza pacífica (são de natureza catártica) e consistem num poderoso sinal de que a sociedade está doente, pois a catarse tem, precisamente, o propósito de purificar os órgãos, o aparelho, o sistema. Em suma: quando se está bem, não se procura a catarse - esta é apanágio de estados avançados de morbidez, de inveterada doença. Não tenho a certeza sobre se o futebol é uma doença, mas não duvido de que a exaltação febril, violenta, que provoca, é, de facto, uma doença. Infelizmente, quem não gosta de futebol, tem de submeter-se a situações aviltantes, por culpa daqueles que gostam; como, por exemplo, não poder circular livremente em determinadas zonas da sua cidade ou ter o desagradável dissabor de ver um monumento nobre ser dessacralizado por bandos de aficionados da catarse, munidos de vexatórios vexilos, garrafas de cerveja, latas de tintas em aerossol e porretes. Sinto um desprezo extraordinário pelo labroste catecismo de pacotilha que homogeneíza comportamentos sob os mesmos estribilhos e os mesmos gestos, como se somente em feitios desse jaez fosse legítimo comemorar a vitória de um clube futebolístico sobre o outro; como se os indivíduos se sentissem completos e satisfeitos por coreografarem dessa forma tão estandardizada e superficial - e a maioria sentir-se-á mesmo completa e satisfeita, o que é desanimador. Sempre que espreito as imagens televisivas das hordas em êxtase na Praça do Marquês de Pombal sinto-me romano a ver os bárbaros a invadir o fórum, pois, para mim, é do triunfo do barbarismo que se está a falar. Barbarismo sancionado e observado com paternalismo podre por servir de válvula de escape a milhares de indivíduos.

Ainda por cima, como já escrevi em outras ocasiões, o Marquês de Pombal odiava futebol e proibiu que fosse jogado aos dias de semana, de acordo com o Capítulo 32 - «Postura dos Que Jogão à Bolla Pela Semana» - das posturas públicas pombalinas, publicadas entre 1982 e 2000 pela Câmara Municipal de Oeiras nos três volumes intitulados Memorial Histórico ou Colecção de Memórias sobre Oeiras: quem fosse apanhado a jogar à bola num dia e numa altura que não fosse Domingo depois da missa matutina, ia preso e tinha de pagar quinhentos réis de multa. Mal por mal, antes Pombal, dá vontade de dizer.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Postura sobre os que jogão à bolla


É uma ironia profunda que o monumento de Sebastião José de Carvalho e Melo, em Lisboa, se tenha transformado, nos últimos anos, numa espécie de zona erógena das celebrações clubístico-futebolísticas deste país - principalmente, porque o Marquês de Pombal (e Conde de Oeiras) ODIAVA futebol e tentou várias vezes acabar, liminarmente, com ele.
Ficou para a história o Capítulo 32 das suas leis sobre as Posturas (ou seja, sobre o comportamento público dos indivíduos) que proíbia jogar-se à bola, excepto ao Domingo - e somente depois da missa da manhã (além de que nem todos tinham o direito de jogar). Quem fosse apanhado a jogar futebol era preso e tinha de pagar quinhentos réis de multa.
Aqui fica esta informação histórica para esclarecer aqueles que, enfim, sejam mais culturalmente carentes, mas que, ainda assim, sejam capazes de alcançar o horizonte de ridículo de toda esta situação.