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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Votos de Ano Novo



À aproximação de outra transição temporal para um novo ano, encontramo-nos, mais uma vez, na fatal encruzilhada que nos coage à dilucidação de tudo o que se testemunhou nos meses que passaram.

Está-se, pois, na catróptica câmara de reflexão que aumenta todos os detalhes, todas as circunstâncias; nebulosa neuróglia que comunica com todos os instantes em simultâneo, à guisa de acetatos sobrepostos num projector, compondo uma incompreensível e opaca silhueta feita de tudo o que fomos e de tudo o que somos. A cor desapareceu nesta antracítica configuração; emblema ambíguo de um exame a fazer, somente perceptível pelo contorno como os ocos perfis de vítimas traçados a giz ou tinta num pavimento — aí todas as estações do ano estiolam em engelhada decrepitude na forma de um infantil Quantos-Queres em que cada face proto-cristalóide é assinalada não por uma pinta colorida, mas por cheiros, sons e vagas sugestões. Desembrulhe-se esse incipiente origami e descubra-se a verdade sobre nós mesmos.

Somos prisioneiros da percepção linear do tempo, segundo a qual este teve um início e, a ser assim, terá, necessariamente, de ter um fim: esta teleologia é a nossa maldição. Cresce-se num determinado ambiente, alimentado por um determinado discurso, e quando essas coordenadas culturais mudam acha-se sempre que chegou o Fim da História, mas a história não tem fim ou finalidade. A doença da Utopia e da escatologia salvífica tem servido de forragem às mais disparatadas e daninhas ideologias, políticas e cultos, mas, feitos o somatório e a prova, tudo o que os números mostram são indivíduos saponificados em bolhas inter-pessoais de relacionamento. Nada termina, nada se conclui, não existe nenhum desígnio metafísico para o qual flui o rio do tempo.

Somos uma sociedade esquizóide que tão depressa acha que vive no Fim da História como no melhor período possível da história: existem vendilhões e públicos para ambas as sensibilidades. Todos são mestres nas artes do “já ouvi falar”, na bisonha papagueação de chavões repetidos por gente unidimensional que somente lê e ouve outra gente unidimensional, na especulação de conteúdos de livros que se diz ainda pretender ler. A verdade é que somos ignorantes, arrogantes, vaidosos, fúteis e maldosos. Nesse sentido, somos como sempre fomos, desde a pré-história: a natureza humana é exactamente a mesma.

Os meus votos de Ano Novo são os de que se extirpe o pensamento utópico, de que se retorne à realidade e de que se ouça com mais atenção a voz simbólica da imaginação. Foi assim que se inventou a roda, o pão, o livro e a máquina a vapor. O pensamento utópico, escatológico e salvífico só inventou a guilhotina, a câmara de gás e o gulag.

Assim, nesta fatal encruzilhada que nos coage à dilucidação de tudo o que se testemunhou nos meses que passaram, convém perceber que tipo de sociedade se quer ser em 2020: a que constrói o pão e o livro ou a que constrói executórios para quem não se insere na ortodoxia utópica em vigência.


(Texto escrito a 31 de Dezembro de 2019.)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Como o Sol, em 2017

No dia 31 de Dezembro de 1705, há trezentos e onze anos, faleceu D. Catarina de Bragança no seu Palácio da Bemposta, em Lisboa. Filha de D. João IV com D. Luísa de Gusmão, casou em 1662 com o rei Carlos II de Inglaterra, sendo, até, mais lembrada nesse país pelo costume de andar vestida com roupa de homem - costume que, segundo o anedotário, lhe valia, em surdina, piropos de que teria umas pernas muito bem-feitas - do que pela introdução nesse círculo do hábito de beber chá ao final da tarde. Num parapeito do Palácio da Bemposta pode encontrar-se a ruína de uma curiosa meridiana: instrumento astronómico que assinalava o meio-dia solar. É, pois, com esta nota que desejo boas entradas em 2017 aos meus leitores, fãs e amigos: atravessem o proscénio que dá entrada ao novo ano lembrando o melhor que o nosso passado tem. Escrevo «tem», porque o passado está vivo - muito mais do que o presente, essa infinita ilusão. No fundo, só existe passado e só existe futuro, connosco sempre a tentar um equilíbrio precário no meio, à guisa de titubeante filete de luz incidindo na marca meridional de uma meridiana deteriorada. Sejam bons uns para os outros, leiam bons livros, viajem um bocadito e já terão meio-caminho andado. Daqui a pouco vemo-nos em 2017.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Votos Vulpinos de Novo Ano


Votos sinceros de um próspero Ano Novo para todos os meus amigos e leitores: bem-hajam!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Votos para 2012


O ano de 2011 já se roja até à região antárctica do calendário para morrer, qual floco de cotão empurrado por baixo da porta, mas será 2012 o annus horribilis profetizado tanto pelos extintos Maias como pelas Sibilas contemporâneas do comentário público?

A verdade assustadora não é a de que vem aí o Apocalipse, nem a de que ele já chegou sem darmos por isso: é a de que nunca existiu outra coisa -- vivemos no eschaton todos os minutos de todos os dias. É por isso que não compreendo o pessimismo. Na verdade, também não compreendo o optimismo, porque ambos se apoiam na esperança: um na esperança de que será tudo mau e o outro na esperança de que será tudo bom. Sou ateu: não me norteio por virtudes teológicas. Oriento-me pela realidade e ela demonstra que o mundo só adquire significado se nós lho imprimirmos. Gravidade, electromagnetismo, força fraca e força forte: estes são os pilares do universo -- quatro, claro. Frias forças físicas. Mas existe uma quintessência radiante, muito mais transcendente: a nossa imaginação.

Todos os dias nos dizem que não podemos imaginar.
Que não podemos sonhar.
Dizem-nos tantas vezes que, às tantas, alguns indivíduos dão por si a acreditar nisso. É uma tragédia.

Na peça Cymbeline (1611) de William Shakespeare, a deleitosa Imogen é o epítome da beleza e da generosidade -- ela é tão celeste que é quase exosférica. Mesmo assim, o marido, Posthumus, não parece satisfeito e aceita a aposta que Iachimo propõe, de que é capaz de seduzir-lhe a mulher. É claro que Imogen, puríssima, é imune a essas manivérsias, mas Iachimo é engenhoso o suficiente para lhe entrar no quarto enquanto ela dorme, semi-nua, e descobrir o sinal que têm num seio. Quando descreve o sinal a Posthumus, este acredita que a mulher deixou-se corromper por Iachimo e ordena a um criado que a mate.

Nós não podemos ser os Posthumus das nossas Imogens. Das nossas imaginações.

É natural que, às vezes, nos sintamos inseguros, como Posthumus, diante da imensa grandeza, da imensurável nobreza da imaginação, e achemos que não merecemos tão refinado ouro. Nos nossos momentos mais negros até sentimos vergonha daquilo que temos de melhor -- e deixamos que os Iachimos da vida, os humanóides que lucram com a miséria e com o desespero, nos enxovalhem as mentes. Nesses casos, os cornos nas nossas testas não são os do adultério, que, como se viu, nunca aconteceu: são os das bestas muares; daquelas que se deixam encaminhar pelos demagogos, venham eles de onde vierem.
São sempre homens inferiores.
A razão pela qual se dedicam a apagar as chamas da imaginação é porque sabem que só elas podem mudar o mundo. A austeridade não mudará o mundo. Comprar produtos por um euro para vendê-los por dois não mudará o mundo. Só a Arte pode mudar o mundo, porque só ela nos mostra que é possível. E é possível: todos os mais progressivos e luminosos períodos da história foram tempos de profundas mudanças culturais, científicas e artísticas. Só a cultura pode mudar o mundo.

Por conseguinte, os meus votos para 2012 são os seguintes: sejam imaginativos, sejam criativos, sejam mais inteligentes, nobres e generosos do que foram este ano. Leiam mais livros, visitem mais museus, ouçam mais música, vejam mais beleza. Não acreditem quando vos disserem que imaginar não é possível, porque não é verdade.
É uma mentira descarada: na peça, ninguém foi capaz de matar Imogen. Ela sobreviveu.

Ela vive. Ela vive.

(Imagem: Imogen, Wilhelm Ferdinand Souchon. 1872.)