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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Música para voar alto

Sempre considerei o Super-Homem como sendo uma personagem cheia de enorme potencial mítico, mas nunca a vi escrita ou representada de um modo que fosse ao encontro dessa possibilidade, ficando-se a maioria das bandas desenhadas e das adaptações cinematográficas ao nível da exploração, às vezes mais e às vezes menos, ingénua dos efeitos espectaculares dos super-poderes. Não entendo a sobrevalorização dos filmes realizados por Richard Donner e Richard Lester, em 1978 e 1980, respectivamente (fui ver o segundo ao cinema, quando estreou em 1981), que são puros exercícios caricaturais - bem sei que os tempos eram outros, mas, ainda assim, contêm elementos que já eram imperdoáveis no início dos anos 80 - além de que Margot Kidder interpreta uma péssima Lois Lane. (Quanto às terceira e quarta partes, nem vale a pena falar sobre elas.) Em seguida, o filme de Bryan Singer, de 2006, em vez de procurar um novo caminho, insiste em resgatar da arca circense alguns elementos campy já apalpados por Donner, embora os apresente com uma sofisticação que está ausente nos filmes de 1978 e 1980.

Na minha visão, o Super-Homem é uma personagem crística: em linhas gerais, é alguém que foi enviado para a Terra por uma civilização física e tecnologicamente mais avançada que a nossa, ao ponto de um indivíduo vulgar dessa sociedade ser como um deus quando comparado connosco; e, adoptado por um casal terrestre, é educado como uma criança comum até dar conta das suas origens e poderes. Cristo é uma manifestação carnal do divino que está - que quer - entender o que consiste, afinal de contas, ser-se humano. Mas se Cristo - sobrenatural - é uma personagem que almeja descobrir o que é o sofrimento e o que é a morte, condições ausentes na sua esfera de origem, o Super-Homem - orgânico - parece imune a tudo. O seu papel não é tornar-se um homem para compreender o que é ser-se humano: é inspirar os homens a tornarem-se, aos poucos, deuses. É, como Cristo, uma representação do arquetípico Deus-Sol.

Neste momento, ainda não sei se o novo filme sobre o Super-Homem, que estreia hoje, realizado por Zack Snyder, vai nessa direcção, mas seria interessante que fosse, em vez de investir na bonomia de Feira Popular; que, ao que parece, ainda provoca nostalgia a muita gente, no sentido em que as críticas negativas que o filme já teve são unânimes em desgostar dele porque, aparentemente, não tem humor, nem cenas românticas (no sentido mais elementar da palavra, presume-se). É a tal sobrevalorização dos protótipos donnerianos e lesterianos, que, no meu entender, é incompreensível.

Mas apesar de ainda não ter visto o filme, já ouvi a banda-sonora e é refrescante constatar que o tom da música é muito mais etéreo do que bombástico, o que me parece uma decisão adequadíssima, à luz do que escrevi acima. Assim, deixo duas ligações: uma para a banda-sonora integral e outra para um dos temas que mais me chamaram a atenção.




     

segunda-feira, 9 de março de 2009

Who (wants to) watch the Watchmen (film)?

Fui ver a adaptação cinematográfica do álbum de banda desenhada Watchmen, escrito por Alan Moore e desenhado por Dave Gibbons, que estreou na passada quinta-feira, e gostei. Vou esperar que a versão de três horas e meia saia em DVD para rever o filme, com as inclusões dos desenhos animados Tales of the Black Freighter (a história de pirataria que, no livro, é contada em paralelo à narrativa principal) e da morte de Hollis Mason (o primeiro Nite Owl). Porém, considero que esta versão comercial de Watchmen, o filme, consegue passar muito bem sem essas adições; não só consiste numa boa adaptação como acaba por ser um filme sintonizado de modo perfeito com o espírito deste tempo.

Não me tentem impingir as tretas do costume: eu conheço o álbum de banda desenhada Watchmen de trás para a frente e já o li e reli dezenas de vezes (até comecei a traduzi-lo para português para a editora Devir quando ela manifestou interesse em o publicar, há uns anos, na altura em que o mercado de edição de BD em Portugal vivia o seu último momento de vacas gordas). Por conseguinte, estou mais que à vontade para dizer que a adaptação para cinema, realizada por Zack Snyder, mesmo não sendo perfeita, é excelente.
Não me interpretem mal: não acho, de forma alguma, que os filmes sejam o apex dos formatos artísticos (a minha opinião anda muitíssimo longe disso, até...), mas, já que falamos de um filme - deste filme -, então que se faça justiça e diga-se, à boca cheia, que kicks ass: o casting é correctíssimo (actores a sério e não carinhas larocas), os diálogos são decalcados verbatim das páginas do livro (assim como a maioria do storyboard), o ritmo é trepidante e, melhor que tudo, o espectador não é tratado como um atrasado mental. O que é que se pode pedir mais? Que o final fosse uma réplica exacta do original? Eu, que li por acidente uma sinopse detalhadíssima num site sobre o filme, antes da estreia, entrei cheio de reservas na sala de cinema e sai convencido: o novo final funciona (ainda bem). Trata-se, sobretudo, de um update e não de uma tentativa de upgrade. Existem outras (pouquíssimas) mudanças, perfeitamente justificadas quando se pensa que, desde que o álbum de banda desenhada foi publicado até agora, já se fizeram milhares de filmes e que algumas coisas que foram inovadoras na BD já foram, infelizmente, exploradas ad nauseum da pior maneira em veículos cinemáticos. Nesse sentido, Snyder e os seus argumentistas souberam evitar repetições. Parabéns!

Desviando-me do filme, por uns momentos, o que tenho a dizer sobre alguns comentários de índole arrogante e que, associados a esta obra (e outras do mesmo calibre), se fazem ler e ouvir, um pouco por todo o lado, e procuram dar a entender que é seguro (para os detractores da linguagem da banda desenhada) gostar de Watchmen porque, à superfície, apresenta uma sofisticação incomum na área da BD, é o seguinte: essa espécie de comentários revela várias coisas, entre as quais ignorância no que à leitura de banda desenhada diz respeito. É que não só existem carradas de títulos que são capazes de competir com este álbum em maturidade de conteúdos, como aquilo que faz de Watchmen um livro tão especial é que ele consiste, desavergonhadamente, numa história de super-heróis!... É graças a esse desiderato que, habilmente, consegue transcender-se e pressionar em vários botões ao mesmo tempo. Ou seja, não é nenhum "romance gráfico" alegórico que, numa lógica quasi-dadaística, usa o lixo que é a BD para alcançar propósitos literários mais elevados (para quem está fora do círculo da BD é quase impossível compreender a carga negativa que vem associada ao conceito de "romance gráfico", mas prometo escrever sobre isto um dia destes): é um álbum de banda desenhada, ponto. Só se surpreendem os leitores que não conhecem mais banda desenhada nenhuma...

Um exemplo ainda mais perfeito dessa premissa de contenção, à priori, são os primeiros dez números que Alan Moore escreveu para a personagem Marvelman (desenhados por Gary Leach e Alan Davis): numa perspectiva de preferência pessoal, considero que possuem ideias de uma subtileza que está ausente em Watchmen (as primeiras páginas do primeiro número são de arrepiar a espinha, assim como a revelação final do plano do arqui-inimigo da personagem principal). A série Marvelman de Moore foi, posteriormente, retomada por Neil Gaiman e Mark Buckingham.

Em suma: Watchmen é o livro gigante que é porque se trata de uma história de super-heróis, pura e dura. Como todas as obras genuínas é um livro que só se preocupa consigo próprio: em nos falar de Nite Owl, de Rorschach, de Dr. Manatthan - as interpretações posteriores, boas ou más, pertencem a quem as pensam. Aqueles que elevam Watchmen aos píncaros (se calhar sem o ter lido, muitas vezes...) e desdenham, na generalidade, a linguagem da banda desenhada, não se dando sequer ao trabalho de aprender a gostar dela, são bem capazes de dizer cobras e lagartos do filme de Snyder. Diriam sempre, mesmo sem o ver. Agora... Aqueles que são fãs do álbum Watchmen, que são fãs de banda desenhada, que conhecem a obra integral de Moore e de outros autores igualmente importantes, vão gostar bastante do filme.

(Alan Moore.)

(Dave Gibbons.)