segunda-feira, 19 de maio de 2014

Mesa-redonda sobre banda desenhada na Livraria Barata


No próximo sábado, dia 24, às 16H00, estarei na Livraria Barata da Avenida de Roma para participar numa mesa-redonda sobre banda desenhada, da qual farão parte André Oliveira, Mário Freitas, Nuno Duarte, Osvaldo Medina e Pedro Serpa. Será um debate de duas horas, mais minuto menos minuto, sobre os nossos livros mais recentes e, claro, sobre a bd - portuguesa e não só - na generalidade. Prometo levar na minha mente algumas teses heterodoxas. Conto convosco e com a vossa divulgação. Entretanto, porque a ocasião assim o convida, lembro a entrevista que dei ao Diário Digital sobre o meu livro de BD Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), com desenhos de Pedro Serpa: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=679144


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sobre a superstição (curtíssimo "off-topic" sobre alguma actualidade do país)


Da rubrica Livros que Vou Buscar ao Fundo das Estantes: se aqui, neste ensaio sobre «a compreensão do pensamento português» (essa coisa, às vezes, tão crípitca que é quase alienígena), não existirem respostas lúcidas sobre o ressurgimento popular da crendice e da superstição por culpa da crença na dita "maldição" do Béla Guttmann, então não sei onde poderão haver - e os portugueses estão perdidos.

(Entretanto, num limbo perto de si:)
 

La Chanson Noire: concerto nocturno no Cemitério dos Prazeres


Amanhã, sábado 17, às 21H30, La Chanson Noire regressará aos grandes concertos com um espectáculo exclusivo no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, para o qual Charles Sangnoir promete invocações incomuns de maneira a despertar mortos e vivos.
O concerto é antecedido e completado com uma visita noctura ao cemitério, com início marcado para as 20H00. Amantes do insólito e tafófilos, este evento é para vocês: be there or be dead.



quarta-feira, 14 de maio de 2014

Breves apontamentos sobre as touradas


Recentemente, vi parte de um episódio do programa televisivo Prós e Contras em que o tema de debate foi a tourada e isso infundiu-me a apontar aqui algumas meditações que tenho sobre esse assunto. Vale a pena começar por esclarecer que não gosto de touradas, logo o meu discurso não será simpático para com elas, mas estou longe de ser antitouradas, assim como considero desimaginoso e desanimador o desenho que, por vezes, aqueles que o são riscam sobre os aficionados, caracterizando-os como sendo pessoas perversas e carenciadas de empatia. Admitindo a falta de indicadores estatísticos que me comprovem a minha seguinte suposição, aposto com segurança que a maioria dos aficionados (para efeito de simplificação incluo neste grupo todos os agentes que fazem parte do mundo das touradas, espectadores e não só) não são assassinos, nem criminosos, nem psicopatas: são, somente, indivíduos comuns que gostam de touradas, que têm paixão por elas e que sobre elas projectam uma série de conceitos e valores positivos que escapam à leitura de todos aqueles que não gostam de touradas.

Embora me choque a conjunção de brutalidade e artificialismo que consubstancia o espectáculo das touradas não é tanto pela via da violência que se desenvolve o meu desgosto por elas. Na verdade, os circos ferem muito mais a minha sensibilidade do que as touradas. Aquilo que me faz desgostar de touradas é, notadamente, o facto de achá-las repetitivas, aborrecidas e anacrónicas: resquícios de uma congeminência cultural que, hoje em dia, não faz o sentido que fazia há, digamos, trezentos ou quatrocentos anos. Nesta óptica, penso que a proibição seria ineficaz, porque sendo a tourada uma tradição ou uma quasitradição só poderá desaparecer na mesma feição que todas as tradições desaparecem: quando deixam de veicular os desejos e as aspirações de uma comunidade.
Em rigor, a extinção das touradas passará por renovações naturais que, provavelmente, nem sequer estarão relacionadas com elas, mas com o modo como nós, enquanto sociedade, vamos criando outros costumes e novos processos de sentir o colectivo, muito mais sintonizados com a nossa contemporaneidade – o que vai acontecendo. Escrevo “sentir”, porque este fenómeno, como outros da mesma natureza, não investe através da razão, mas da emoção – e é pela via da emoção, colectiva, claro está!, que ele terá de ser vencido, tal como foram outras tradições inúteis. As ingluviosas presas do tempo não se condoem com improficiências. O significado que daqui se assaca é que as touradas ainda reverberam de uma forma mais ou menos vibrante nos nossos dias – não para todos, é certo, mas, ainda assim, para muitos. Caso contrário, não existiriam. Isso parece-me transparente e ignorá-lo é fechar-se os olhos diante de uma realidade que marca o nosso património de ideias.

Falando em património de ideias vale a pena perguntar se, de facto, as touradas serão cultura. A pergunta responde-se a si própria, mas gostaria de contribuir para esta reflexão com a lembrança de que quando se fala de touradas enquanto cultura – leia-se, a resistência do espírito de um grupo à erosão operada pela passagem do tempo – assume-se, de modo erróneo, que elas sempre foram idênticas à sua taxonomia actual, quando, na realidade, já foram muitíssimo diferentes.
A tourada contemporânea é mais recente do que, à partida, a maioria do público, aficionado ou não, poderá pensar. O toureio a pé, com muleta e estoque, é uma inovação da tourada espanhola, (que sempre foi, em vero aspecto, menos aristocrática que a nossa), inventada à entrada do terceiro decénio do século XVIII, que entrou tardiamente em Portugal. Até os tropos actuais da tourada espanhola são uma invenção do início do século XX: simplesmente, não se encontram nas touradas seiscentistas ou setecentistas. Do mesmo modo, a prática portuguesa da pega do touro, realizada pelos forcados (dantes chamados moços de forcado ou boieiros), não possui um ascendente mais transacto que os meados do século XIX: hoje é apontada como sendo a mais igualitária, chamemos-lhe isso, das práticas tauromáquicas, mas, de facto, chegou a ser proibida pelas autoridades na segunda metade do século XIX, porque a consideraram demasiado violenta (cerca de 1890 já tinha sido reinstituída, todavia). A tourada portuguesa de setecentos, por exemplo, consistia num espectáculo mais selvagem – em violência e desorganização – do que a actual.
O toureio realizava-se sempre a cavalo, com o cavaleiro munido de um chuço para matar o touro, e os espectadores assistiam às mortes não-coreografadas e atrozes de touros, cavalos e, às vezes, alguns homens. Havia a prática do touro-de-fogo: gado que entrava na arena com fachos ou paus de fogo-de-artifício amarrados aos cornos ou ao pescoço; outra variedade de touro-de-fogo constituía no arremesso de guirlandas de granadas aos cornos dos touros. Podia ver-se lutas de touros com cães, lutas de touros com outros touros, espicaçados para o efeito, e encenações bizarras em que os touros eram levados a investir contra bonecos e outras composições feitas de madeira, papel ou tecidos coloridos que nos seus interiores continham coelhos e gatos vivos: quando os touros as desmanchavam, os coelhos ou os gatos fugiam, confundidos, mas eram, de imediato, mortos à cacetada por dezenas de escravos armados de porretes, que corriam pelo picadeiro à caça deles para grande gozo do público. Tudo somado, a autêntica tourada tradicional portuguesa foi esta e não a sua reencarnação recente, organizada e amansada às sensibilidades liberais de meados do século XIX, por conseguinte quando se declara que as touradas são cultura é preciso definir qual tourada está a ser trazida à colação: se esta ou a outra. Se é a outra, tem de perguntar-se se matar coelhos e gatos à cacetada é cultura. Se não é, tem de perguntar-se por que razão é que matar coelhos e gatos à cacetada não é cultura, mas matar touros com estoques ou com pontilhas é cultura. Mais à frente, oferecerei uma possível resposta para esta ambiguidade.

Tenho alguma hesitação em ver as origens da tourada nos espectáculos romanos de lutas de feras contra feras e de feras contra homens. É muitíssimo provável que a origem das touradas se trace a partir daí, mas também é possível que elas possuam uma origem mais enviusada em relação a essas representações. Seja como for, o que interessa para esta exposição é o facto de que os efeitos públicos de catarse das touradas e das lutas romanas de feras são aproximados, assim como são análogos ao efeito de purga popular provocado pelas lutas de ursos com cães e de cães com cães que podiam ser vistas nas principais praças das cidades do norte da Europa até meados do século XIX. Na maioria das vezes, os ursos eram acorrentados a um poste e cegados para que os cães – buldogues e boxers, raças criadas artificialmente para este fim em específico – os pudessem desfazer aos pedaços. Até em Portugal se contam alguns incidentes destes. Um dos principais divertimentos europeus foi o de queimar milhares de gatos em fogueiras: toda a gente trazia gatos dentro de sacos e chegava-se à fogueira para atirá-los às chamas. Existem descrições chocantes de como as gentes riam até rebolarem no chão ouvindo os gritos de sofrimento dos animais imolados. Durante algum tempo estas práticas também foram consideradas cultura. Se as touradas se inscrevem neste rol de passatempos públicos que envolviam o sofrimento de animais, por que é que ainda subsistem? Existem duas respostas plausíveis para esta pergunta, segundo o meu pensamento.
A primeira é a de que a tourada sobreviveu à selecção natural que extinguiu a maioria desses passatempos porque se foi tornando gradualmente um sistema altamente organizado no qual muitos sectores da sociedade participam; um pouco à semelhança, com as devidas distâncias, é claro, do futebol, um desregrado e brutal jogo de rua que foi amansado e sistematizado até à cristalização contemporânea. A segunda é o facto de que as touradas lidam com touros: animais abatidos para consumo humano. Quando se olha para as lutas de cães com ursos ergue-se à nossa frente uma dimensão ética enorme, porque a sociedade mudou e hoje os cães e os ursos são animais que, de modos diferentes, estão sob nossa patronagem: amamos os primeiros e protegemos os segundos. Em oposição, comemos os touros: são animais dos quais cuidamos, note-se, mas que não amamos, nem protegemos. É por essa razão que ainda existem touradas, mas já não existem ursadas, nem queimas maciças de gatos em fogueiras. Simplesmente, achamos que é mais ético objectificar na arena uma espécie animal que já é vista, à partida, como sendo um objecto – neste caso, um alimento. Não tenho dúvida nenhuma que, por responsabilidade de um desvio histórico qualquer, se tivesse passado a comer gatos e ursos em vez de touros, as ursadas e as gatadas seriam tão conspícuas e legais quanto as touradas, porque seriam os ursos e os gatos a ser objectificados. Uma boa maneira de vencer a paixão pelas touradas seria lembrar que não se deve brincar com a comida.

Termino esta explanação com a ideia de que acho ético comer-se touros. Recuso com veemência a argumentação dos vegetarianos radicais, dos veganistas, dos frugívoros e dos anti-humanistas disfarçados de ambientalistas que conculcam constantemente o valor da vida humana em benefício do estatuto superior que atribuem à vida animal. Há quem advogue até que os animais carnívoros deveriam ser extintos para que restassem apenas os animais herbívoros, mas comer carne não é nenhuma imoralidade, nem nenhum crime: crime é tratar como lixo os animais que se criam para consumo humano em sórdidos degoladouros que evocam as masmorras medievais. Melhores condições de criação e abate custam muito mais dinheiro e são muito mais difíceis de implementar, mas o preço a pagar pelas escolhas do barato e do fácil é a nossa desumanização. A tortura enxovalha a vítima e desumaniza o perpetrador. Não existe nenhum justificativo para a tortura.
Seja na prisão, seja no matadouro, seja na arena.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O Nosso Senhor aterrou

 
Para aqueles que acreditam que o fenómeno das manifestações marianas na Cova da Iria, perto de Fátima (e em outros locais) não é, apenas, fruto da imaginação (ou da mitomania), mas, sim, prova irretorquível de mancomunação extraterrestre, fica o beneplácito giordanobruniano do Papa Francisco, em pleno dia de celebração das ditas aparições.

Para que fique claro onde me situo nesta questão, informo que não acredito nas aparições de Fátima - aliás, não acredito em aparições nenhumas, de qualquer ordem do sobrenatural -, não acredito em deuses, não acredito em diabos, não acredito na alma e, evidentemente, não acredito em extraterrestres.

Não sou antireligioso, anticristão ou anticatólico. Simplesmente, sou ateu.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Participação no festival Livros a Oeste 2014


Entre 28 de Maio e 1 de Junho decorrerá na Lourinhã a terceira edição do festival literário Livros a Oeste, evento criado e organizado por João Morales, que contemplará diversas actividades relacionadas com os livros e a leitura, com participações de vários autores: tertúlias, debates, apresentações, exibição de curtas-metragens de cinema de animação de autor e concertos. Podem consultar a programação integral nesta ligação. O festival terá lugar no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira (Rua João Luís de Moura, 60, na Lourinhã).

No sábado, dia 31, às 18H30, irei participar na tertúlia literária «Letras e Ideias», juntamente com Manuel Alegre e Rui Tavares. A conversa será moderada por João Morales e reflectirá, entre outros tópicos, sobre a significância da cultura e a sua simbiose com a sociedade.

Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por apófase


É com desalento que concluo que, hoje, Portugal só pode ser explicado por apófase: ou seja, por tudo aquilo que não é.
Não me tornei, ainda, um verdadeiro pessimista, mas não consigo encontrar razões para me designar como optimista, daí que, talvez, seja um "céptico simbólico"; sendo que "simbólico", aqui, deve ser lido segundo a aplicação que lhe foi dada por Pierre Bordieu: leia-se, um invisível, mas presente, conjunto de preceitos que afectam de modo desoficial. Recair, ininterruptamente, sobre esses discursos invisíveis faz-me pensar na probabilidade de estar-se a assistir a uma desaceleração da democracia (se isso significa uma iminente e tout court abolição da mesma restará para ser visto). Agora que estamos prestes a sair "limpos", dizem, da purga que nos sanou das nossas supostas abligurições, veremos até que ponto o estrago provocado pela iatrogenia nos deixou, permanentemente, aleijados - no corpo e, principalmente, no espírito. Qualquer domador sabe que é preciso quebrar o espírito das criaturas de modo a obrigá-las a aceitar com resignação uma nova normalidade.

(Quadro: Job, de Sir William Orpen. 1905.)

Borborigmos de baleia


Nesta espectacular ilustração, pintada a guache e aguarela, relata-se a lenda de que uma baleia ominosa surgiu, nefelivagante, pelo céu estriado de sangue ao advento do terramoto de 1531, em Lisboa; porém, o ilustrador decidiu-se contra o texto e pintou a baleia no mar.
Embora o terramoto de 1755 seja mais conhecido pelo público, a verdade é que Lisboa sofreu com vários, entre os quais o de 1531, ano em que reinava D. João III, filho de D. Manuel I e avô de D. Sebastião. A presença da baleia monstruosa na vizinhança da catástrofe justifica-se pela crença de que os desastres eram anunciados por monstros. Escrevi com pormenor sobre este tema no capítulo «Os Monstros Prodigiosos» do meu livro de não-ficção Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, para o qual remeto os leitores que queiram aprofundar conhecimentos sobre o assunto.

A ilustração pertence ao Wunderzeichenbuch (Livro dos Milagres), editado em 1550 na cidade alemã de Augsburgo.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

A verdadeira história dos banqueiros sem cabeça


Com os contemporâneos escândalos financeiros, relacionados com os chamados derivados e os swaps, em mente, vale muitíssimo a pena ler, em paralelo, duas obras interessantíssimas e esclarecedoras: um pequeno ensaio do historiador Charles Dunbar sobre como a banca medieval de Veneza começou a vender ouro que não tinha, entre outras cavilações, e um relato contido no livro Power and Profit: The Merchant in Medieval Europe, de Peter Spufford, no qual nos é descrito que na região da Catalunha foi criado um sistema de segurança pioneiro para proteger o dinheiro dos depositantes face ao capitalismo de casino* praticado pela banca de Barcelona: simplesmente, as autoridades prendiam os banqueiros criminosos, os bens destes eram vendidos para indemnizar as famílias e, finalmente, os culpados eram decapitados à frente do banco para servir de exemplo aos candidatos a chicaneiros (o texto cita o caso de um desses filibusteiros da finança, chamado Francesco Castello, que foi decapitado em 1360, antes de ter tido oportunidade de fugir da cidade).

Recorde-se que, hoje, indivíduos como o economista Myron Scholes, co-criador da fórmula "mágica" Black-Scholes, usada pela banca internacional para calcular os preços de opções sobre acções que não pagam dividendos (vulgo, derivados) e um dos principais instrumentos da crise financeira de 2007-2008, são recompensados com o Prémio Nobel da Economia. Vale a pena reflectir sobre a sabedoria dos nossos antepassados.

(*Aqui não estou a ser chistoso para enfatizar: utilizo a designação cirúrgica criada pela insider Susan Strange, economista e historiadora de economia, com a qual intitulou um dos seus livros mais imprescindíveis sobre crimes financeiros internacionais.
O quadro que ilustra este artigo é da autoria do tenebrista francês Valentin de Boulogne.)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Adoxografias


Para os coloquialistas mais afectos à deipnofobia, eis alguns factos úteis para debater, sem medo, à mesa, neste fim-de-semana grande que se aproxima. 

1) Aquilo que existe de mais parecido com os nomes dos conceitos dos clássicos filósofos gregos são os nomes dos dinossauros (p. ex: o aristocrático conceito aristoteliano de megalopsychos e o megalossauro, um carnívoro da subordem dos terápodes). 

2) A urina dos tigres cheira, literalmente, a pipocas acabadas de fazer. 

3) Apesar do que aprenderam com o filme Gladiador e com a série televisiva Spartacus, a maioria dos bromidrosos gladiadores da era do império romano não foi composta por escravos, mas por voluntários que, simplesmente, procuravam fama e dinheiro fáceis (não existiam programas como Big Brother ou Casa dos Segredos, mas a cultura de espectáculo não seria diferente). Esse era o maior factor de atracção para o público, porque decidir se um escravo deveria morrer na arena seria anticlimático para os padrões sociais da altura: a vida de um escravo não valia muito, para começar - não ofereceria dramatismo nenhum. Ainda: o sinal de que o gladiador vencido deveria morrer era dado pelo público que exibia os polegares virados para os peitos, em alusão ao golpe mortal: os polegares virados para baixo significavam que o gladiador vencedor deveria deixar cair a arma ao chão e ter misericórdia. 

4) Sidónio Pais, o liripípico Presidente-Rei da Primeira República portuguesa, bebia dois litros de leite por dia. 

5) A palavra chunga, usada coloquialmente para designar algo reles, barato ou ordinário, tem origem num estilo japonês de arte erótica (de inspiração chinesa) chamado Shunga, que, ao contrário do que se possa pensar, nada tinha de infame, sendo até bastante respeitável.

6) Originalmente, as cenouras eram roxas: a variedade cor-de-laranja só foi inventada no século XVII por hábeis cultivadores holandeses que quiseram homenagear Willem van Oranje (senhor do principado de Orange, no sul de França), o fundador do estado holandês. Há cerca de dez anos os ingleses tentaram reintroduzir cenouras de cor roxa no mercado, mas a iniciativa enojou o público.
Acrescente-se que os coelhos não gostam, verdadeiramente, de cenouras e até podem morrer se comerem muitas. O mito de que os coelhos adoram cenouras foi criado pelos desenhos animados da personagem Bugs Bunny, da Warner Bros, que, por sua vez, foram buscar a ideia ao filme It Happened One Night, de Frank Capra, no qual Clark Gable interpreta um jornalista que, às tantas, aparece a roer uma cenoura numa cena que ficou famosa.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

As serpentes também vêm connosco


Noé, de Darren Aronofsky, é capaz de ser um filme visionário. É composto por espantosos elementos visuais, cujos modelos e modos de plasmar na tela já vimos em outros filmes realizados por cineastas de culto (Peter Jackson e George Miller, por exemplo), mas é o modo como esses elementos se conjugam que faz de Noé um filme intrigante. Não é um filme bíblico, no sentido em que o são Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille, A Bíblia de John Huston ou até A Paixão de Cristo de Mel Gibson, mas as maiores derivações ao cânone nem sequer são as sequências que o público poderia achar (e achará) mais fantasistas, como a presença dos Vigilantes, retirados literalmente do Livro do Génesis e dos textos apócrifos judaico-cristãos, como o Livro de Enoch (pai de Matusalém, avô de Noé), entre outros: é a dinâmica emocional entre Noé e a sua família, inclusive a sua emergente dúvida sobre se valerá a pena conservar a espécie humana no mundo lavado de malevolência, algo que está ausente da história original, embora o modo como se apresente retenha uma autenticidade "bíblica" enorme - quase que poderia estar escrito. De qualquer das formas, a história de Noé é um dos episódios mais heterodoxos da Bíblia, tendo sido costurado a partir de várias histórias diferentes sobre dilúvios e redenção, imaginadas pelas diversas culturas que povoaram o Próximo Oriente. É uma história que transcende o bioma judaico-cristão.

O filme de Aronofsky é ambíguo sobre o espaço e o tempo em que a narrativa ocorre: Noé tanto pode ser interpretado como tendo lugar nos tempos veterotestamentários, como num futuro muito distante ou até em outra dimensão. Um detalhe que provocou a minha imaginação foi a presença conspícua de estrelas brilhantes no céu diurno: servem para reforçar a ideia de que Noé se passa num outro mundo ou, simplesmente, é uma forma de representar o céu mais límpido dos nossos antepassados pré-revolução industrial? Seja como for, o efeito é de grande beleza.

A primeira metade do filme é mais bem conseguida que a segunda e este contém mensagens (se forem mensagens) com as quais eu discordo totalmente: leia-se, uma quasicolagem ao ambientalismo extremo que, quando advogado por figuras sinistras e psicologicamente perturbadas como Les U. Knight e Petti Linkola, se transforma em algo que pouco se relaciona, de facto, com o ambientalismo e tem tudo a ver com o anti-humanismo. No entanto, o filme não vai tão longe e, no final, quando a survivor's guilt de Noé começa a dissipar-se, ele compreende o valor da vida humana, que foi a vida que, afinal de contas, foi capaz de salvar todas as outras.

domingo, 27 de abril de 2014

Apontamentos para uma errata do futuro e do passado



Um desacerto reiterado em reconstituições de épocas pretéritas é pensar-se sobre o passado em moldes diorâmicos, como se cada período estivesse constituído sem surpresas para turistas temporais verem, tal qual uma sucessão esfuziante de carrosséis temáticos numa estranha feira popular do tempo: entre outros, o carrossel do ano 2000, o do ano 1950, mais o do ano 3000 a. C. Nem damos conta do anacronismo de que em cada uma dessas reorganizações artificiais do passado todos os elementos escolhidos para efeito de representação cénica pertencem, sem variações, aos próprios anos que estão a ser reproduzidos por esses cenários. Isto significa que no carrossel do ano 1950, por exemplo, tudo aquilo que pode ser observado pelo visitante temporal pertence a esse ano em específico: os modelos dos automóveis; o estilo do vestuário dos indivíduos, assim como os seus cortes de cabelo; as revistas, os jornais e os livros; todas as inovações tecnológicas. É uma escolha que tem como objectivo montar os dioramas com o maior grau possível de autenticidade, mas a nossa visão do passado é cega diante do facto de que o ano 1950 foi, certamente, muito mais parecido com o ano 1949 ou com o ano 1948 do que aquilo que imaginamos. Com efeito, o ano 1950 terá sido muito mais parecido com o ano 1940 ou até com o ano 1935, porque todas as inovações tecno-culturais criadas num determinado ano (modelos de automóveis e de vestuário, certos tipos de electrodomésticos e restantes tropos culturais, enuncie-se) apenas se popularizam nos anos seguintes à sua criação; nesse feitio, a visão especulativa que criámos no carrossel dioramático de 1950 terá tudo a ver, na verdade, com o ano histórico de 1940.
É graças a esta cegueira sobre o passado que somos capazes de ver alguns filmes de recomposição histórica e não dar conta dos múltiplos anacronismos que nos estão a ser apresentados - ou, no limite, os mais imperceptíveis, porque se detectamos sem dificuldade um relógio no pulso de um figurante que faz de legionário de um exército de Júlio César não somos capazes de perceber que aquele modelo de automóvel no qual acabou de entrar o nosso protagonista de um filme policial cujo enredo se passa em 1950 somente se difundiu em meados do ano seguinte, independentemente dessa máquina ter sido, efectivamente, criada em 1950. Nesse sentido, um bom filme policial com acção decorrida no ano de 1950 apresentaria um panorama cosmopolita com pouquíssimos elementos atribuíveis a esse ano, porque a vida de todos os dias pertence à média, enquanto que as inovações pertencem aos extremos. Importa reter a universalidade do conceito de que entre criação e implementação ou entre criação e difusão existe sempre um intervalo variável de tempo. Ora, é neste inconstante interstício, entre a constituição de um protótipo, que, aqui, quase assume um papel similar à forma ideal neoplatónica, e a sua difusão pelo público na sociedade, que reside o ponto cego das nossas previsões sobre o futuro e, por atracção, o ponto cego da ficção científica.

A autêntica ficção científica está preocupada em interrogar os efeitos que a ciência e a tecnologia imprimem sobre a sociedade e, por essa via, está pouquíssimo interessada nos afectos e nas convenções mais mundanas que são o combustível de outras famílias de narrativas, excepto quando esses afectos e convenções são ferramentas ao serviço do desiderato citado inicialmente. É por essa razão que a maioria dos livros e dos filmes que o público entende como sendo de ficção científica não o são: a verdadeira ficção científica está, desde há umas décadas, relativamente ausente do centro. Uma das razões para que esse afastamento tenha ocorrido será, sem dúvida, a incapacidade que a ficção científica de meados do século XX teve em prever, de facto, o futuro – ou seja, o nosso presente. Essa imperícia de presciência resulta, em exclusivo, do interstício inconstante que descrevi no final do parágrafo anterior. Os escritores de ficção científica têm sempre uma inclinação imediata para sobrecarregar o futuro com tecnologias novas, com múltiplos gadgets e criar uma atmosfera de neofilia omnipresente, mas, com efeito, o tempo erode as tecnologias e as inovações que vão sendo criadas e lançadas à experimentação. Só me recordo de duas grandes novas tecnologias, inventadas nas últimas décadas, que não só permanecem connosco como mudaram inexoravelmente o tecido social e o modo como o mundo se organizava: a bomba nuclear e a Internet – e se ainda é discutível se a ficção científica previu o aparecimento da primeira, menos discutível é a constatação de que não foi capaz de prever o surgimento da segunda.
O nosso presente – o futuro da ficção científica de meados do século XX – é muito mais semelhante aos finais do século XIX, com os conflitos dos Estados Unidos e do Próximo Oriente a espelhar os problemas que a Inglaterra teve com o Afeganistão, com a descoberta efectiva do bosão teorizado por Peter Higgs a mimetizar o impacto que teve a descoberta de Albert Michelson e Edward Morley de que o Éter não existia e com os movimentos alternativos do pseudoconhecimento e das teorias das conspirações a irem ao encontro dos efeitos provocados pelo renascimento ocultista da segunda metade de oitocentos. Excepto a bomba nuclear e a Internet todas as tecnologias ao nosso dispor são aperfeiçoamentos sucessivos de tecnologias que foram sobrevivendo à calandragem das eras.

Dizia Simónides de Ceos que «o tempo tem dentes afiados que destroem tudo». Para se prever o futuro é preciso olhar para o presente e perceber quais os elementos que, entretanto, irão desaparecer. Não me escapa a prematuridade dos prenúncios da morte do livro, face ao advento do eReader: de um ponto de vista de selecção natural, o livro está connosco para durar, enquanto que os indicadores de vendas demonstram que o entusiasmo pelos eReaders está a extinguir-se. A neofilia esgota-se a si mesma, como é evidente.