O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, será lançado no 26º AMADORA BD
-- no auditório, às 15H30 do dia 31 de Outubro; em seguida, haverá uma
sessão de autógrafos comigo e com Sónia Oliveira, na área prevista o
efeito (informo que também estarei a dar autógrafos no Amadora BD no
sábado dia 7 de Novembro, das 16H00 às 18H00). Apareçam no lançamento de O Poema Morre e divulguem esta informação: os feridos, os mortos e os
vivos agradecem.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
«O Poema Morre»: lançamento e sessões de autógrafos no 26º Amadora BD
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
«O Poema Morre»: lançamento no 26º Amadora BD
O Poema Morre, o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, vai ser lançado no próximo dia 31 de Outubro, às 15H00, no auditório do 26º Amadora BD, com a presença dos autores e do editor Mário Freitas; lançamento ao qual se seguirá uma sessão de autógrafos comigo e com Sónia Oliveira (na área correspondente às sessões de autógrafos).
O Poema Morre é uma observação sobre a guerra e considero-a uma das minhas obras mais subversivas. A edição é da Kingpin Books.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Duas datas para um fim
Segundo
a tradição, hoje, 4 de Setembro, assinala-se a efeméride do fim do
Império Romano do Ocidente. Em 476 (século V), depois de exilar o jovem
imperador Rómulo Augusto, Odoacro, o líder supremo das forças armadas
italianas, não elegeu outro imperador-fantoche, como fizeram os seus
antecessores, mas tentou convencer o senado romano e o Império Romano do
Oriente de que somente um imperador era necessário
para os dois impérios (já veremos porquê...) -- esse imperador seria
Zenão, na altura o imperador do Império Romano do Oriente. Assim,
Odoacro criou para si o cargo de governante italiano, em nome de Zenão:
ou seja, não se auto-intitulou imperador, mas designou-se patricius,
um título, aliás, já usado pelos alguns dos seus antecessores -- com a
novidade de que, dentro das fronteiras italianas, Odoacro passou a
intitular-se rex; por conseguinte, rei. Mesmo assim, as coisas não
são assim tão simples...
De facto, ainda havia um imperador do Ocidente: Júlio Nepos, refugiado na província romana da Dalmácia (de maiores dimensões que a actual Dalmácia, na Europa do Leste), da qual era natural. Ora, Nepos tinha sido o antecessor de Rómulo Augusto (entretanto exilado, como já vimos) e fora deposto de um modo comum no período em questão: o seu líder supremo das forças armadas, chamado Orestes, figura análoga a Odoacro, fez um golpe militar e pôs Rómulo Augusto, seu filho adolescente, no trono. Ora, Nepos, refugiado na Dalmácia, permaneceu nas boas graças de Constantinopla -- e, depois do assassinato de Orestes e do exílio de Rómulo Augusto, Zenão forçou Odoacro a reconhecer-lhe, pelo menos tecnicamente, a legitimidade. Ou seja: a estratégia de passar por cima de Nepos, querendo que Zenão se tornasse o único imperador não funcionou totalmente como Odoacro esperava.
No entanto, este, e outros líderes militares, conspiraram para eliminar Nepos e lá o conseguiram em 480, marionetando as tropas deste. Assim, será mais adequado dizer que o Império Romano do Ocidente terminou em 480. Contudo...
A verdade é que nem toda a gente percebeu que o velho sistema tinha desaparecido: as comunidades continuavam a sentir-se romanas, o comércio e as redes de interesses (privilégios dinásticos, sinecuras, etc.) continuaram, mais ou menos, na mesma, durante muito tempo -- as formas de governo e algumas leis é que iam sendo outras. Em principal, o Império Romano do Oriente não só não desapareceu, como se tornou ainda mais próspero -- e os bizantinos continuaram a chamar-se "romanos" até ao fim. No Ocidente, perduraram muitíssimos elementos do velho Império Romano do Ocidente -- alguns, ainda estão connosco. No entanto, é errado ver nesses casos uma continuidade entre o império romano e a Idade Média: as diferenças foram enormes; sobretudo a maior delas e aquela que, em muitos aspectos, condiciona o funcionamento da nossa contemporaneidade: a abrupta hierarquização da sociedade, baseada na militarização. O poder político romano não estava nas mãos dos militares, mas nas dos civis. O estabelecimento das comunidades "bárbaras", fortemente militarizadas e nas quais a conduta militar era o santo-e-senha da razão de existir, modificou profundamente a geografia política europeia e o espaço cultural europeu.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Não farás lixo
À semelhança daquilo que acontece em outras cidades europeias, em Lisboa já está a ser aplicada a nova hierarquia de recolha semanal de lixo, segundo a qual cada condomínio é presenteado com dois recipientes para resíduos recicláveis de plástico e de papel (substitutos dos anteriores contentores de rua), enfileirados junto ao caixote de lixo que tinham nos seus rés-do-chão e que, a partir de agora, serve, em exclusivo, de recipiente de lixo doméstico não-reciclável.
Tenho tantas coisas para dizer sobre isto que, sinceramente, nem sei bem por onde começar. Para já, servirá a breve constatação de que quando falo em hierarquia de recolha semanal de lixo, é mesmo essa palavra que desejo empregar, pois subjacente à política europeia de gestão do desperdício doméstico (atenção que a palavra-chave desta designação oficial é desperdício: não é lixo, não é resíduos, mas desperdício, que carrega um mais pesado lastro "moralizante") encontra-se uma criação bem interessante, saída dos campos sempre férteis dos pseudoconhecimentos, chamada hierarquia de desperdícios: uma inovação da velha tríade de «reduzir, reutilizar, reciclar», que foi moda até há bem pouco tempo, e que tem como objectivo alcançar a utopia urbana de desperdício zero. Ou seja: a ideia é que os indivíduos façam menos lixo; neste caso, que não façam nenhum.
Considerando que o ser humano e a maioria dos animais não possuem poderes autotróficos, o que significa que não são capazes de produzir os seus próprios alimentos, tal como as plantas, será muito difícil não produzir, também, algum lixo.
De acordo com o cardápio desanimador da hierarquia de desperdícios, o lixo orgânico passa a ser recolhido pelos serviços camarários de limpeza somente às terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados. Por conseguinte, se tiverem amigos ou família para jantar num sábado à noite, somente na terça-feira seguinte é que poderão deitar fora o lixo produzido no fim de semana. De facto, isto é um problema, porque obriga os indivíduos a pensar num modo de conservar com segurança em casa o lixo orgânico durante quase três dias (porque a recolha de lixo é nocturna). Só na minha área de residência tenho encontrado caixotes a transbordar de lixo não-recolhido, caixotes cheios de lixo que estão "trancados" com as faixas adesivas aplicadas pelos serviços de fiscalização, por terem sido colocados na via pública em dias nos quais não está programada a recolha de lixo orgânico (corrijo, não-reciclável) e, o que é pior, sacos, saquinhos e lixo espalhados pelos passeios - situações que nunca ocorreram no período anterior à aplicação destas novas recolhas hierarquizadas. É óbvio: os indivíduos precisam de deitar fora o seu lixo todos os dias e as cozinhas e as despensas não foram desenhadas para ser lixeiras. Bem sei que em certos países do Norte da Europa não existe o hábito de cozinhar comida fresca todos os dias e que, nesses sítios, a maioria do lixo é composta por embalagens (de comida de micro-ondas, maioritariamente, mas também latas, frascos, pacotes de bolachas, etc.), logo a gestão hierárquica de desperdício será um pouco mais fácil de conseguir; porém, em países como Portugal, que tem hábitos domésticos e alimentares diferentes (ou vai tendo), a medida surge como artificial e impraticável (falando em países do Norte da Europa, a Dinamarca, por exemplo, o caso paradigmático que tantos países tentam emular, em tantos aspectos diferentes, está-se borrifando para esta história e incinera todos os seus resíduos - talvez por ter compreendido que os métodos recorrentes de reciclagem são muitíssimo onerosos, consomem mais energia e acabam por poluir mais do que aquilo que se pensa. Já agora, a reciclagem, esse cavaleiro-branco dos verdes de pacotilha, que transforma não-sei-quantas tampinhas de garrafas de plástico em vinte e cinco elefantes ou qualquer monstruosidade semelhante, figura bem baixo na pirâmide da hierarquia de desperdícios: o ápice é ocupado pela «prevenção», ou seja, por não se fazer lixo de todo).
O mais tragicómico é que a tal hierarquia de desperdícios e a teoria do desperdício zero (é mesmo a sua definição: teoria) são, somente, media darlings, filosofias vápidas embandeiradas em arco por quem acha que iniciativas como a Hora da Terra servem para resolver problemas de contaminação ambiental e de escassez de recursos energéticos, mas continua a trocar de smartphone ou de tablet a cada seis meses, contribuindo vigorosamente para a enchente muito insustentável de metais pesados que são enterrados clandestinamente em certos países africanos, onde envenenam lençóis de água e vão matar mais leões e elefantes que os caçadores parolos que as redes sociais adoram vilipendiar, ou, simplesmente, são deitados no Índico ou no Pacífico. Outra situação bem caricata é a de que o criador e principal pugnador desta fantochada da teoria do desperdício zero é um senhor que aparece pouquíssimo na televisão, chamado Paul Connett, autor do livro «A Solução do Desperdício Zero»: um obcecado por diversas teorias das conspirações, em principal a de que os governos esterilizam os indivíduos e lhes diminuem as capacidades mentais recorrendo ao flúor na água canalizada. Por conseguinte, alguém credível que merece toda a nossa atenção.
Algumas ligações interessantes para quem estiver, minimamente, preocupado em saber de que cabeças vêm determinadas ideias que nos afectam a todos:
- «Towards a circular economy: A zero waste programme for Europe»: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?qid=1415352499863&uri=CELEX:52014DC0398R%2801%29
- Site da organização Zero Waste International Alliance: http://zwia.org/
- Sobre Paul Connett no reputado site Quackwatch: http://www.quackwatch.org/11Ind/connett.html
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Anacusia
Wittgenstein escreveu que se um leão pudesse falar nós não seríamos
capazes de entendê-lo. Sim, o dentista norte-americano também não
entendeu o que lhe disse o leão que alvejou com uma flecha, atingiu de
balas e cuja cabeça, em seguida, decepou. Sejam quais forem as
circunstâncias, aqueles que, por uns instantes, se vêem com domínio
sobre os outros têm sempre muita dificuldade em escutar e compreender
aquilo que lhes dizem aqueles que sofrem. E, no entanto, tanto pelas
vozes dos grandes como pelas dos pequenos, a linguagem do sofrimento é
sempre igual, sempre as mesmas três plangentes toadas: tenho frio, tenho fome, não quero ficar sozinho.
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quarta-feira, 29 de julho de 2015
Série «Ver BD» publicada no YouTube
Ver BD, excelente (sob todos os aspectos) série documental sobre banda desenhada portuguesa, que foi transmitida em 2007 pela RTP2, está a ser, episódio a episódio, publicada no YouTube. Pedro Vieira de Moura, especialista e crítico de banda desenhada, e Paulo Seabra, realizador, foram os criadores inspirados desta visão única sobre a banda desenhada portuguesa contemporânea, baseada em entrevistas diversas, em especial a onze autores.
Será muitíssimo interessante revê-la, passados quase dez anos após a estreia, e cotejar os cenários aí representados, pelas vozes dos entrevistados, com o panorama que hoje nos cerca, que é bem diferente. Eu sou um dos onze autores entrevistados e sinto-me, também, feliz por ser o autor da vinheta a preto-e-branco que serve de proscénio a todos os episódios: pertence à história Pessoas Comuns, do álbum homónimo que editei em 1999. (Já cá ando há dezasseis anos, a escrever BD e prosa: a gente, por vezes, esquece-se da passagem do tempo.) Em suma, revejam ou descubram Ver BD e, sobretudo, observem e ouçam com atenção.
Escreve Pedro Vieira de Moura no seu blogue Ler BD: «Há coisas que, em alguns anos, se transformaram profundamente: autores que pararam de produzir, outros que mudaram a prática, plataformas que se alteraram, circunstâncias que se reestruturaram. Mas esperamos que a pertinência da maior parte dos assuntos ainda se mantenha. E não perdemos ainda a esperança de que "venham mais cinco"...»
Agradeço a vossa divulgação.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Vídeo de "Recordar os Esquecidos" com Fernando Pinto do Amaral e David Soares
Vídeo da sessão de Recordar os Esquecidos, que ocorreu no passado sábado, dia 25, na livraria Almedina
do Atrium Saldanha, com moderação de João Morales e Fernando Pinto do
Amaral e comigo como convidados. O índice de títulos abordados é o
seguinte:
1) «O Barão de Lavos» de Abel Botelho (00:00);
2) «A Velhice do Padre Eterno» de Guerra Junqueiro (17:35)
3) «Justine» de Lawrence Durrell (38:52);
4) «O Caos e a Noite» de Henry de Montherlant (51:00);
5) «A Mulher Pobre» de Léon Bloy (1:01:10)
6) «Todos os Contos e Novelas» de Joaquim Paço d'Arcos (1:18:43)
7) «Poesia Completa» de Anrique Paço d'Arcos (1:28:20)
8) «Diálogos de Roma» de Francisco d'Ollanda (1:36:52)
9) «Enciclopédia dos Mortos» de Danilo Kis (1:54:45)
1) «O Barão de Lavos» de Abel Botelho (00:00);
2) «A Velhice do Padre Eterno» de Guerra Junqueiro (17:35)
3) «Justine» de Lawrence Durrell (38:52);
4) «O Caos e a Noite» de Henry de Montherlant (51:00);
5) «A Mulher Pobre» de Léon Bloy (1:01:10)
6) «Todos os Contos e Novelas» de Joaquim Paço d'Arcos (1:18:43)
7) «Poesia Completa» de Anrique Paço d'Arcos (1:28:20)
8) «Diálogos de Roma» de Francisco d'Ollanda (1:36:52)
9) «Enciclopédia dos Mortos» de Danilo Kis (1:54:45)
Sobre Tolkien e fascismo
O escritor inglês Michael Moorcock voltou a exprimir numa entrevista uma
opinião pouco simpática sobre o autor inglês J. R. R. Tolkien, desta
vez chamando-lhe «criptofascista», porque, segundo Moorcock (transcrevo a
citação no inglês original para evitar ambiguidades de tradução): «in Tolkien, everyone’s in their place and happy to be there. We go there and back, to where we started. There’s no escape, nothing will ever change and nobody will ever break out of this well-ordered world».
Não sou um fã fervoroso da prosa de Tolkien, mas também não sou nenhum fã fervoroso da prosa de Moorcock, por isso o meu juízo sobre estas considerações dadas à estampa na entrevista não pende nem para um lado nem para o outro; somente acho desanimador que um escritor, como Moorcock, precise de andar constantemente na imprensa a caluniar outro -- que, ainda por cima, está morto e não pode defender-se daquilo que sobre ele é dito. Porém, aquilo que considero ainda mais desanimador é a utilização do rótulo de fascista (neste caso, criptofascista, ou seja "fascista de armário", digamos assim) para estigmatizar aquilo que se pensa ser o pensamento tradicionalista e conservador que pruma o texto tolkiano. Desanima-me, porque isso demostra 1) facilitismo e 2) um profundo desconhecimento sobre o que foi, de facto, o fascismo.
Dizer que o texto de Tolkien é fascista (ou criptofascista), porque apela ao conservadorismo é errado, pela mais simples razão de que o fascismo não foi um movimento conservador: foi, sim, um movimento revolucionário. A gente tem-se habituado a apelidar de revolucionários somente os movimentos de esquerda, mas, na verdade, tanto o fascismo, como o nacional-socialismo, foram movimentos revolucionários de direita. Foram revolucionários, porque aspiraram e tentaram aplicar um programa de reestruturação social e moral de índole inédita, com o objectivo de criar sociedades novas, desamarradas das grilhetas dos antigos regimes -- somente o quiseram fazer pela via da direita. Aliás, por essa razão foram combatidos tanto pela esquerda dita revolucionária, como pelos ultraconservadores.
A matriz intelectual do fascismo, concebida por nomes como Giovanni Gentile, entre outros, que eram estudantes da obra de Karl Marx (o próprio Mussolini foi comunista antes de tornar-se Duce), olha para o futuro, para um novo tipo de homem, para mudanças violentas no tecido social. Por conseguinte, dizer que um criptofascista coloca nos seus livros o desejo de que fique tudo na mesma é um disparate. Tal como existe nacionalismo de esquerda, também existem movimentos revolucionários de direita.
Assim, chamar fascista ou criptofascista a Tolkien não só não faz sentido à luz da obra que ele deixou, como sequer à luz da sua vida, que em nada se relacionou com percursos políticos fascistas e quejandos.
Sinceramente, não sei qual era a inclinação política de Tolkien -- e nem estou interessado em saber, confesso. Não escolho os livros e os autores que quero ler em função das suas inclinações ou inscrições políticas: escolho-os por escreverem bem e terem coisas interessantes para dizer. No entanto, sei que Tolkien não foi fascista.
Já era tempo de se deixar de usar o nome "fascista" a torto e a direito, sempre se quer caluniar ou assassinar o carácter de alguém de quem se desgosta, porque isso, no fundo, é prestar um péssimo serviço à história: desvaloriza o peso da palavra e contribui para branquear o verdadeiro fascismo, pois se velhinhos simpáticos como Tolkien são chamados de fascistas (corrijo, de criptofascistas) a malta mais nova ainda poderá pensar que ser fascista é uma coisa fixe. Só me lembro daquilo que disse o João Franco, já meio-velhote e retirado para o seu auto-exílio agricultural, quando descobriu que os netos andavam fascinados pelos escritos e ideário do fascismo italiano: «que se passa de errado com esta juventude? Agora são todos miguelistas?»
Vale a pena, pois, pensar com sobriedade no modo como nomes e epítetos são tão facilmente atirados e desvirtuados.
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quarta-feira, 15 de julho de 2015
Canivete-suíço digital
O
smartphone actual é, bem avaliadas as coisas, uma espécie de reinvenção
digital do canivete-suíço: uma panóplia portátil de um florilégio de
funções (entre outras, relógio, calculadora, bloco de notas, câmara
fotográfica, rádio, vídeo, navegador de Internet, gravador de voz, mapa,
e, claro, telefone), reunidas num único aparelho muitíssimo
transportável, cujas dimensões o tornam afectuoso e intimíssimo --
contudo, a palavra "funções" deve ser considerada com cristalina
prioridade; ao contrário de um canivete-suíço, em toda a glória
victorinoxidável, não existem objectos num smartphone. Apenas existem
funções desincorporadas dos objectos (como fantasmas capturados por uma
armadilha de muões).
No que concerne às morfologias física e digital, o smartphone (designação criada em meados da década de noventa do século passado), na sua, já arquetípica, encarnação desenhada pelo quimérico Jonathan Ive, vai ao encontro da comum calculadora: em especial, mimetiza a aparência da calculadora desenhada por Dieter Rams para a outrora teutónica e titânica Braun, uma pequena maravilha de elegância e depuração. É provável que essa ausência de objectos num smartphone nunca passe, sequer, pelas cabeças dos utilizadores; no entanto, quando se pensa nela, curiosas questões ontológicas medram na mente.
Por exemplo: até que ponto são utilizáveis essas funções-fantasmas?
Pense-se no tradicional canivete-suíço: serão os seus objectos, ocultos em estreitas bainhas (que nem pinturas escondidas em cortes dianteiros de livros, relevadas quando se repelam as páginas) -- frágeis ersatzs miniaturizados de ferramentas úteis, como tesouras, chave de fendas, saca-rolhas, abre-latas, corta-unhas, alicate, palitos e talheres --, verdadeiramente úteis? Ou, por outro ponto de vista, serão uma selecta sincrética que, somente, tem como objectivo compor um objecto singular para fetichistas de MacGyver? Conservem esta concepção enquanto observam as funções desincorporadas que um smartphone possui e a problemática adquire uma perspectiva totalmente nova: esses aparelhos estão cheios de funções que nunca são usadas -- ou usadas uma ou duas vezes. Ninguém, realmente, usa essas funções para realizar trabalhos sérios: elas são, como os objectos algo caricaturais de um canivete-suíço, um conjunto de características curiosas.
Funções desincorporadas dão-me pistas importantes para pensar na demanda pela inteligência artificial: é absurdo achar que um programa informático venha a reunir as condições necessárias para desenvolver uma inteligência de tipo humano sem que o seu hardware seja humanizado primeiro. O temporizador do smartphone informa-nos sobre as horas, é muito certo, mas não é nenhum relógio: é, isso sim, a função desincorporada de um relógio. Logo, não será possível criar uma mente humana artificial, sem criar-se, primeiro, um invólucro antropomórfico para a albergar, porque a mente humana é o somatório do cérebro e do corpo humanos -- se fosse possível transplantar-se com sucesso um determinado cérebro para um corpo diferente, em pouco tempo esse órgão, em parceria com o novo corpo, reestruturaria uma nova mente e passaria a pensar de uma maneira diferente. O cérebro evoluiu para pensar, tal como os pulmões evoluíram para oxigenar o sangue, mas não pensa sozinho. No limite, poderá imitar-se a função dessa inteligência, mas, obviamente, ela nunca será real. Apenas um palito de canivete-suíço.
Não deixará de ser anacrónirónico que, daqui a umas duas ou três gerações, nenhum indivíduo terá conhecimento algum dos objectos analógicos para os quais as funções desincorporadas dos seus aparelhos digitais remetem: habituámo-nos a ver objectos obsoletos nos museus, mas as nossas casas já são museus.
Vós sois livres de pensar se isso é uma coisa boa ou uma coisa má.
(Foto do meu canivete-suíço, tirada com a função de câmara fotográfica do meu smartphone e dulcificada na aplicação Instagram.)
No que concerne às morfologias física e digital, o smartphone (designação criada em meados da década de noventa do século passado), na sua, já arquetípica, encarnação desenhada pelo quimérico Jonathan Ive, vai ao encontro da comum calculadora: em especial, mimetiza a aparência da calculadora desenhada por Dieter Rams para a outrora teutónica e titânica Braun, uma pequena maravilha de elegância e depuração. É provável que essa ausência de objectos num smartphone nunca passe, sequer, pelas cabeças dos utilizadores; no entanto, quando se pensa nela, curiosas questões ontológicas medram na mente.
Por exemplo: até que ponto são utilizáveis essas funções-fantasmas?
Pense-se no tradicional canivete-suíço: serão os seus objectos, ocultos em estreitas bainhas (que nem pinturas escondidas em cortes dianteiros de livros, relevadas quando se repelam as páginas) -- frágeis ersatzs miniaturizados de ferramentas úteis, como tesouras, chave de fendas, saca-rolhas, abre-latas, corta-unhas, alicate, palitos e talheres --, verdadeiramente úteis? Ou, por outro ponto de vista, serão uma selecta sincrética que, somente, tem como objectivo compor um objecto singular para fetichistas de MacGyver? Conservem esta concepção enquanto observam as funções desincorporadas que um smartphone possui e a problemática adquire uma perspectiva totalmente nova: esses aparelhos estão cheios de funções que nunca são usadas -- ou usadas uma ou duas vezes. Ninguém, realmente, usa essas funções para realizar trabalhos sérios: elas são, como os objectos algo caricaturais de um canivete-suíço, um conjunto de características curiosas.
Funções desincorporadas dão-me pistas importantes para pensar na demanda pela inteligência artificial: é absurdo achar que um programa informático venha a reunir as condições necessárias para desenvolver uma inteligência de tipo humano sem que o seu hardware seja humanizado primeiro. O temporizador do smartphone informa-nos sobre as horas, é muito certo, mas não é nenhum relógio: é, isso sim, a função desincorporada de um relógio. Logo, não será possível criar uma mente humana artificial, sem criar-se, primeiro, um invólucro antropomórfico para a albergar, porque a mente humana é o somatório do cérebro e do corpo humanos -- se fosse possível transplantar-se com sucesso um determinado cérebro para um corpo diferente, em pouco tempo esse órgão, em parceria com o novo corpo, reestruturaria uma nova mente e passaria a pensar de uma maneira diferente. O cérebro evoluiu para pensar, tal como os pulmões evoluíram para oxigenar o sangue, mas não pensa sozinho. No limite, poderá imitar-se a função dessa inteligência, mas, obviamente, ela nunca será real. Apenas um palito de canivete-suíço.
Não deixará de ser anacrónirónico que, daqui a umas duas ou três gerações, nenhum indivíduo terá conhecimento algum dos objectos analógicos para os quais as funções desincorporadas dos seus aparelhos digitais remetem: habituámo-nos a ver objectos obsoletos nos museus, mas as nossas casas já são museus.
Vós sois livres de pensar se isso é uma coisa boa ou uma coisa má.
(Foto do meu canivete-suíço, tirada com a função de câmara fotográfica do meu smartphone e dulcificada na aplicação Instagram.)
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sexta-feira, 10 de julho de 2015
"Recordar os Esquecidos": sessão de Julho
No próximo sábado, dia 25 de Julho, às 18H00, na livraria Almedina do centro comercial Atrium Saldanha, ocorrerá mais uma sessão do ciclo Recordar os Esquecidos, criado e moderado por João Morales.
Nestas tertúlias literárias, dois convidados recordam e resgatam livros e autores que, por diversos motivos, foram algo esquecidos ou passaram um pouco abaixo do radar dos leitores nestes tempos desanimadores de puro corso literário. Assim, para recordar alguns esquecidos muito especiais, nesta sessão de Julho, os convidados serão Fernando Pinto do Amaral e eu. Divulguem e apareçam: obrigado.
Nestas tertúlias literárias, dois convidados recordam e resgatam livros e autores que, por diversos motivos, foram algo esquecidos ou passaram um pouco abaixo do radar dos leitores nestes tempos desanimadores de puro corso literário. Assim, para recordar alguns esquecidos muito especiais, nesta sessão de Julho, os convidados serão Fernando Pinto do Amaral e eu. Divulguem e apareçam: obrigado.
Os dois Nicolaus
Hoje, 10 de Julho, assinala-se a coincidência de duas efemérides importantes, relacionadas com dois Nicolaus: Nicolau Coelho e Nikola Tesla.
O primeiro Nicolau (1460-1504), comandante da caravela Bérrio, da primeira armada de Vasco da Gama, chegou a Lisboa no dia 10 de Julho de 1499, vindo da Índia, com as novas da descoberta da Rota do Cabo: evento que mudaria totalmente a morfologia comercial e política da Europa quinhentista, transformando um mundo paroquial, ainda centrado em mecânicas adjacentes ao Mar Mediterrâneo, num mundo global, virado, em definitivo, para o Oceano Atlântico.
O segundo Nicolau (1856-1943), inventor sérvio que nasceu a 10 de Julho, criou a corrente eléctrica alternada (polifásica), lavrando o terreno para o nascimento do século XX tecnológico. De certa forma, ambos ajudaram a ligar partes desavindas do mundo -- e Tesla chegou, ainda no seu tempo, a pensar na possibilidade de desenvolver de modo prático aparelhos audiovisuais portáteis de comunicações sem fios (os smartphones contemporâneos).
Ainda existirão indivíduos capazes de cobrir o Sol com as envergaduras das suas silhuetas: temos é de deixar de olhar para o chão para conseguirmos vê-las.
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sexta-feira, 3 de julho de 2015
Novo romance de Filipe Homem Fonseca
Filipe Homem Fonseca (argumentista, músico e realizador) irá lançar o seu novo romance, intitulado Há Sempre Tempo Para Mais Nada (Quetzal, 2015), no próximo dia 7 de Julho (terça-feira), às 21H30, no bar A Barraca do Teatro Cinearte (Largo de Santos, nº2, em Lisboa). A apresentação será feita por Nuno Miguel Guedes e o evento contará com leituras de trechos do romance por Maria Rueff e
Miguel Martins. Divulguem e apareçam.
Filipe Homem Fonseca assinando exemplares do seu romance anterior
Se Não Podes Juntar-te a Eles, Vence-os (Divina Comédia, 2013).
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Verão pesado com a LOUD! de Julho
O número de Julho da revista LOUD!
já está disponível nas bancas, para tornar ainda mais quente o início
do Verão. Nesta edição, há Consultor Funerário, para saciar a fomeca que
a ausência do mês passado provocou: assim, a regularidade bimestral
fica com outra ordem; ou seja, para o mês que vem não há, mas no
seguinte haverá novamente.
Além disso, vale a pena ler as entrevistas de
Randy Blythe, que, aparentemente, foi ao Inferno e voltou (escreveu um
livro de 500 páginas sobre o caso, à la Expresso da Meia-Noite), e de Dani Filth, o insubstituível vocalista
de Cradle of Filth, banda na qual todos são substituíveis, a dada altura
- dá vontade de rir?, dá, mas que a banda é das melhores, é. E a
distância que o tempo cria entre os discos que foram mais subvalorizados
ou incompreendidos apenas reforça essa percepção: urge regressar a
Cradle of Filth e reenquadrá-los/apreciá-los sob essa luz. Eu, confesso,
gosto bastante e tenho muitos discos (já editaram onze) para descobrir,
porque há imensos que nunca ouvi.
De facto, às vezes é útil colocar as
coisas nesta perspectiva: não passar cartão àquilo que parece fútil e
dar tempo ao tempo, porque se for bom e interessante, continuará aqui
para ser apreciado a dada altura. Tantas vezes se perde tempo com tretas
que não interessam nada, laudadas como se fossem o melhor presente de
Deus à humanidade, e que, passados uns mesitos ou um ano, desaparecem
tão suavemente quando alardeamente apareceram, que nem monstros de
Frankenstein criados pelas vozearias do marketing e da propaganda.
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quarta-feira, 1 de julho de 2015
Sobre a (Des)União Europeia
Pense-se na câmara fotográfica digital, que funciona de modo totalmente
diferente da analógica. Com efeito, nada daquilo que faz uma câmara
fotográfica tradicional ser uma câmara fotográfica tradicional se
relaciona com o vero funcionamento de uma câmara fotográfica digital.
Num determinado aspecto, as possibilidades deixadas em aberto pela
miniaturização de componentes técnicos digitais, mais similares a
bairros citadinos ligados por estradas e travessas do que às engrenagens
mecânicas dos anteriores modelos exclusivamente manuais, que tinham
tudo a ver com a lógica de organicidade fabril, na qual diversos
componentes isolados concorriam, em harmonia, para criar um corpo
organizado - tanto no sentido de coerente, como no de provido de órgãos -
não libertaram o design industrial das amarras do funcionalismo: ou
seja, se uma câmara fotográfica digital funciona de um modo muito
diferente de uma analógica, então a sua forma não precisaria de
mimetizar a desta para justificar a sua existência ou, sequer, para
funcionar. Uma câmara fotográfica digital poderia ser-nos apresentada
segundo uma lógica de desenho e de utilização totalmente inédita;
todavia, as expectativas do público, em relação à imagem arquetípica que
uma câmara fotográfica deve ter para ser considerada, de facto, uma
câmara fotográfica, tolhe, liminarmente, quaisquer audácias prototípicas
com que um aparelho dessa natureza poderia consubstanciar-se nas
oficinas das grandes marcas. Uma câmara fotográfica digital comum,
daquelas que podemos comprar em qualquer loja de centro comercial ou
hipermercado, ainda arreigada ao fenótipo das analógicas, sem,
verdadeiramente, de precisá-lo, é, assim, um objecto de transição -
sendo que "transição", neste sentido específico, não envolve nenhum real
comprometimento com uma hipotética ligação entre um pretérito estado
analógico e uma actual maneira de ser digital, porque essa ligação não
existe, de todo. O que existe é mero disfarce. Um disfarce conveniente
às vendas, porque o público que se dirige às lojas para comprar uma
câmara fotográfica, seja digital ou analógica, não quer, em suma, ser
confrontado com surpresas ou ambiguidades.
Será, pois, útil
pensar nesta União Europeia, sobre a qual vemos e ouvimos na comunicação
social, como uma entidade equivalente: tal como a câmara fotográfica
digital somente se adapta por mimetismo à aparência da câmara
fotográfica analógica, para ir ao encontro das expectativas do público,
também esta União Europeia pouquíssimo ou nada terá a ver com aquela que
existia há umas décadas, dando a entender que somente vai imitando, de
maneira postiça, a aparência desta para ser capaz de manter-se operante
diante do público. Os seus componentes internos, a sua fisiologia de
funcionamento já mudou - como mudaram umas câmaras fotográficas para as
outras - e nós, pobres cidadãos europeus, em certa medida iludidos pela
carapaça benfazeja das fronteiras abertas e de todos os autênticos
progressos do passado recente, não nos apercebemos disso - a tempo útil,
pelo menos.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).
Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).
Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.
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sábado, 27 de junho de 2015
Sobre a queima do gato em Mourão
Os mouranenses que com exultação participaram na sua tradicional queima do gato, no decurso de uns divertimentos regionais em celebração do feriado de São João, não serão, certamente, facínoras sanguinários e muito menos psicopatas: encontram-se é empapados numa mundividência primitiva, muitíssimo liminar entre os códigos da bruxaria e da religiosidade mais sincréticas e desregradas, segundo a qual um gato não é um ser vivo consciente, com uma vida mental sofisticada, mas, somente, um autómato movido por instinto; tal como, até há poucos anos, se consideravam as crianças e as mulheres.
Folguedos brutais, de natureza idêntica ou análoga à deste, foram – e ainda são – comuns em toda a Europa: o jogo cruel de atiçar animais domésticos e selvagens uns contra os outros nas praças das vilas; de pô-los a lutar com homens armados ou desarmados em picadeiros improvisados; ou, simplesmente, a tortura espectacular, encenada em contextos de catarse social, deliciaram os nossos antepassados, rurais e cosmopolitas – satisfações das quais não esteve ausente uma forma diferente de estabelecer a fronteira que aparta o humano do não-humano. Com efeito, aquilo que é considerado não-humano pode ser tratado desumanamente; seja um animal ou uma pessoa (como os trágicos genocídios do século passado vieram, cabalmente, demonstrar). No final do século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham lançou o argumento seminal sobre o qual foi edificado o movimento oitocentista de promoção dos direitos dos animais, que sustentou no seu seio elementos tão díspares e com ideologias tão contraditórias quanto humanitaristas, utilitaristas e vegetarianos; além das disparidades de objectivos nutridos por cada grupo, deles nos chegou a noção de que os animais, afinal de contas, não são coisas. Na verdade, o ser humano, criatura muito recente do ponto de vista evolutivo, partilha o mesmo tipo de sistema nervoso que a maioria das existentes espécies animais.
Hoje, sabe-se que entre gato e homem existem supinas similitudes neurológicas, ao nível daquelas que estreitam a distância entre nós e alguns dos grandes símios, tanto na geografia cerebral, como no modo como o córtex, a camada superior do cérebro, se encontra desenvolvido. Os gatos são criaturas sensíveis e imaginativas: sonham muito e criam laços afectivos fortíssimos. No entanto, os ailurófobos (ailurofobia é o nome da fobia ou do terror a gatos, com base em aielouros, o nome grego para gato e que significa cauda abanicante) sempre foram mais militantes que os ailurófilos: queimar gatos vivos nas praças de vilas e cidades foi, até recentemente, um divertimento de massas, no qual participava toda a gente. Os detalhes mudam, de acordo com as localidades, mas tudo se resumia à acção de deitar directamente gatos vivos, fechados em sacos ou cestos, para uma grande fogueira (como o rei Luís XIV, de França, preferia) ou, então, na criação de situações em que eles caíssem sozinhos em cima dela (como no caso da queima do gato da localidade transmontana de Mourão). Acrescente-se que massacrar gatos à cacetada foi um passatempo de luxo para animar a corte portuguesa nos intervalos das longas touradas que, outrora, duravam horas a fio. Todas estas práticas, que consideramos bárbaras, tinham em comum a ideia de que era aceitável lidar de modo desumano com o não-humano.
A sociedade ocidental – é preciso, de facto, sublinhar que ela tem sido pioneira neste aspecto (e noutros também importantes) – tem vindo, num ritmo lento, mas seguro, a incluir um número cada vez maior de não-humanos na esfera de direitos que até há pouco tempo protegia, em exclusivo, alguns humanos, aleitando uma cultura de respeito e de valorização de vidas, criminalizando práticas consideradas naturais há uma ou duas gerações (como neste atávico caso mouranense, que desrespeita a legislação sobre maus-tratos a animais domésticos que entrou em vigor a 1 de Outubro de 2014). Haverá sempre indivíduos para quem a violência e o sadismo serão aceitáveis, mas, globalmente, aquilo que empurra as massas (e as elites) para o entretenimento atroz é a prosaica ignorância. Permanecer ofuscado pelo falso entendimento de que os animais são pouco mais do que objectos (em paralelo, já se acreditou, até, que as mulheres não tinham almas, por exemplo), concepção ainda fortalecida pela crença de que os todos os frutos da terra, diga-se assim, são dados por Deus ao homem para que ele disponha deles do modo que achar mais conveniente, é um puro exercício de anacronismo que não tem mais lugar numa sociedade esclarecida. No meu ponto de vista, o somatório é claro: entretenimentos que tenham como móbil a tortura directa ou outro carácter caviloso de sofrimentos físicos e psicológicos de animais e pessoas são crimes inaceitáveis. Assim, sujeitar um gato à clausura num pote de barro e a uma queda potencialmente fatal provocada por um ardil incendiário é um crime inaceitável.
Em 2001, um grupo de arqueólogos do Museu de História Natural de Paris encontrou na aldeia neolítica de Shillourokambos, na ilha de Chipre, um túmulo datado de 7500 a. C.: lá dentro, descobriram as ossadas intactas de um esqueleto humano, acompanhadas pelas ossadas intactas de um esqueleto de um gato. (Este, não deveria ter, ainda, um ano de idade quando foi enterrado.) Avaliando o espólio que rodeia o esqueleto humano pode especular-se com propriedade que seria um chefe ou, no mínimo, um indivíduo muitíssimo importante: nesse feitio, quando morreu, foi enterrado com o seu gato. É, na verdade, a mais antiga inumação conhecida de um humano com o seu gato de estimação. Obviamente, os serventes mataram o gato para enterrá-lo com o amo, mas, ainda assim, o que esse acto revela é a ideia de que aquele dono seria mais feliz no além-túmulo se tivesse a companhia do seu animal – e que este, presume-se, também seria mais feliz se fosse acompanhar o dono, em vez de ficar sozinho. Nas fímbrias pré-históricas da antecâmara do nosso mundo vê-se aqui o nascimento da consciência de que, mais do que ser uma mascote, aquele gato era parte da família. E, em suma, é desse modo que a maioria dos donos actuais vêem os seus gatos: como sendo parte das suas famílias. Fará sentido de outra maneira?
Se nos tempos arredados do Neolítico já havia quem se comportava assim, é provável que haja esperança para os infelizes campónios contemporâneos de Mourão, no sentido de progredirem a sua visão das coisas e perceber que é mais enriquecedor brincar com um gato do que queimá-lo.
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sexta-feira, 26 de junho de 2015
Serradura e Barro: ou, Os Materiais e as Ideias
É tentador colacionar os polímates oitocentistas William Morris e Rafael Bordalo Pinheiro: nascidos no eixo do século XIX, num momento em que os remanescentes resquícios do Antigo Regime estavam a ser soprados para o passado por novos ventos - malquistos para uns, benfazejos para outros -, ambos observavam com desconfiança e desânimo a emergência da industrialização e a conjuntura capitalista em crescimento, ambos dedicaram os últimos anos de vida a produzir arte para as massas e, claro!, ambos adoravam gatos - o design delicado do lápis de Morris e a contundente caricatura criada pelo buril de Bordalo encontram um pouco esperável equilíbrio híbrido num discreto desenho feito a carvão por Morris, que mostra um gato sonolento, diante de uma toca de rato aberta num rodapé: o perfil felídeo fascina-nos com um feitio horaciano de risum teneatis que, em regra, está ausente na restante obra morrisiana, mas que consiste na mot d'ordre de Bordalo.
Não obstante, Morris rejeitou o método de produção em massa a que o desenvolvimento industrial deu o ensejo, preferindo manufacturar peças decorativas e de mobiliário segundo métodos antigos, em esquadria com desenhos e materiais tradicionais. Por sua escala, Bordalo adoptou à medida do seu projecto de neocerâmica caldense as fórmulas fabris, subordinando-as, para o efeito, à estética e discurso artesanais, mostrando que o ritmo de repetição e montagem que viria a assinalar, ainda no seu tempo, o arranque veloz do chamado taylorismo - epíteto que, mais tarde, Gramsci transmutaria em fordismo - não significava, em regra, a dissolução da identidade, subjacente aos artigos de consumo desenhados de modo "autoral" - no fundo, descobria-se que arte e design são, bem vistas as coisas, palavras com significados diferentes. Assim, tanto Morris, como Bordalo foram, em simultâneo, artistas e designers: ou seja, estetas por mérito próprio e, ainda, criadores conformes ao imperativo industrial; ambos sequestraram a doxa do domínio da produção em massa para os paraísos feéricos das suas imaginações. O projecto de Bordalo, contudo, intersecciona-se em maior envergadura com o de Christopher Dresser, outro contemporâneo. Um dos designers industriais mais influentes, tanto na Europa, como, depois, no Japão, Dresser deslumbrara-se, com dezassete anos de idade, no ventre do Crystal Palace, qual Jonas dentro do estômago da baleia, com a rutilância da grande exposição industrial de 1851 e essa experiência sensacional alentou-o a criar peças artísticas para a classe média, concebendo objectos de funcionalismo análogo aos de Morris e Bordalo (bibelôs, baixelas, papéis de parede, mesas e cadeiras, etc.), pese a enorme diferença estética: onde Morris é pastoril e Bordalo é popular, Dresser é quase pós-funcionalista, em sentido contrário, portanto, ao gosto neo-rococó que marcou os últimos lustres de oitocentos.
Avançando para o gonzo oleado a sangue e petróleo do século XX, foi, também, na encruzilhada entre o maquinal e o manual que uma descoberta baseada nos resíduos da marcenaria e da olaria viria a beneficiar os bichanos de todo o mundo - algo que, sem dúvida, faria a felicidade de Morris e Bordalo, eles que foram, às suas maneiras, marceneiro e ceramista.
Em Janeiro de 1948, na vila de Cassopolis, no estado norte-americano do Michigan, a dona de casa Kay Draper descobriu que a temperatura hibernal do início do ano inutilizara a areia usada para a caixinha do seu gato; nesse momento, percebeu que tinha de encontrar uma substância alternativa. Dessa sorte, experimentou serradura, adquirida numa estância da vizinhança, mas não ficou satisfeita com o resultado. Em seguida, o filho do dono da estância, Edward Lowe, com vinte sete anos de idade, persuadiu Draper a experimentar outro material, que ele tinha em abundância: uma espécie de fragmentos secos de barro, chamado Terra de Fuller, que estava a ser paulatinamente aplicado como sendo um absorvente industrial que substituía com segurança a serradura (a serradura é inflamável e o seu armazenamento nas fábricas era arriscado); Lowe tentara, sem êxito, vender Terra de Fuller a criadores de galinhas, como material ignífugo de nidificação - foi, consequentemente, por culpa do stock encalhado resultante desse fracasso que a senhora Draper pôde levar uma amostra para testar em casa, na caixinha do gato. A conclusão, adivinha-se, é histórica: nos primeiros dez sacos de Terra de Fuller que embalou para ir bater às portas das lojas de artigos para animais, Lowe escreveu com um lápis de cera o nome improvisado de Kitty Litter.
Em Janeiro de 1948, na vila de Cassopolis, no estado norte-americano do Michigan, a dona de casa Kay Draper descobriu que a temperatura hibernal do início do ano inutilizara a areia usada para a caixinha do seu gato; nesse momento, percebeu que tinha de encontrar uma substância alternativa. Dessa sorte, experimentou serradura, adquirida numa estância da vizinhança, mas não ficou satisfeita com o resultado. Em seguida, o filho do dono da estância, Edward Lowe, com vinte sete anos de idade, persuadiu Draper a experimentar outro material, que ele tinha em abundância: uma espécie de fragmentos secos de barro, chamado Terra de Fuller, que estava a ser paulatinamente aplicado como sendo um absorvente industrial que substituía com segurança a serradura (a serradura é inflamável e o seu armazenamento nas fábricas era arriscado); Lowe tentara, sem êxito, vender Terra de Fuller a criadores de galinhas, como material ignífugo de nidificação - foi, consequentemente, por culpa do stock encalhado resultante desse fracasso que a senhora Draper pôde levar uma amostra para testar em casa, na caixinha do gato. A conclusão, adivinha-se, é histórica: nos primeiros dez sacos de Terra de Fuller que embalou para ir bater às portas das lojas de artigos para animais, Lowe escreveu com um lápis de cera o nome improvisado de Kitty Litter.
A invenção do Kitty Litter operou uma revolução no modo como os indivíduos se relacionavam com os gatos: até à data, pouquíssimos lares possuíam as chamadas caixinhas de areia e era comum os gatos fazerem as necessidades no exterior - o gato era, por esse motivo, uma criatura semi-selvagem, que ainda passava muito tempo fora de casa. Nos meses de Inverno, algumas famílias usavam tabuleiros ou caixas com terra retirada da rua ou areia para que os gatos não tivessem de sair com chuva e neve. Disseminado o uso do Kitty Litter, foi possível manter os gatos dentro de casa por períodos mais longos, contribuindo para a sua, cada vez maior, longevidade - e popularidade enquanto animal de estimação.
A respeito dessa popularidade, os cientistas começaram a estudar os gatos com mais atenção, compreendendo como, de facto, estes se comportavam e descobrindo aquilo que mais necessitavam para ser felizes. Nessa sequência, ocorreu outra revolução que contribuiu fulgurantemente para esse desiderato: a invenção da comida industrial exclusivamente desenvolvida para gatos, a partir da década de 70 do século passado. Descobrindo que os gatos precisavam de uma dieta diferente da dos cães e, sobretudo, de componentes vitamínicos e minerais específicos, muito difíceis de administrar em regimes feitos de comida confeccionada propositadamente em casa ou de restos de qualidade nem sempre ideal (que eram, até à data, os mais frequentes), a metodologia industrial de produção vilipendiada por Morris, tolerada por Bordalo e abraçada por Dresser estabeleceu o início do melhor tempo que os seus adorados gatos estão a viver. Foi, pois, a fortuita invenção artesanal/industrial do Kitty Litter, improvisado com resíduos de origem cerâmica, que possibilitou esse progresso - hoje, melhorado com a descoberta da bentonite, uma qualidade ainda mais absorvente de barro, que se aglomera compactamente em contacto com líquidos.
A respeito dessa popularidade, os cientistas começaram a estudar os gatos com mais atenção, compreendendo como, de facto, estes se comportavam e descobrindo aquilo que mais necessitavam para ser felizes. Nessa sequência, ocorreu outra revolução que contribuiu fulgurantemente para esse desiderato: a invenção da comida industrial exclusivamente desenvolvida para gatos, a partir da década de 70 do século passado. Descobrindo que os gatos precisavam de uma dieta diferente da dos cães e, sobretudo, de componentes vitamínicos e minerais específicos, muito difíceis de administrar em regimes feitos de comida confeccionada propositadamente em casa ou de restos de qualidade nem sempre ideal (que eram, até à data, os mais frequentes), a metodologia industrial de produção vilipendiada por Morris, tolerada por Bordalo e abraçada por Dresser estabeleceu o início do melhor tempo que os seus adorados gatos estão a viver. Foi, pois, a fortuita invenção artesanal/industrial do Kitty Litter, improvisado com resíduos de origem cerâmica, que possibilitou esse progresso - hoje, melhorado com a descoberta da bentonite, uma qualidade ainda mais absorvente de barro, que se aglomera compactamente em contacto com líquidos.
No cruzamento da serradura e do barro, da marcenaria de Morris e da cerâmica de Bordalo, co-tangente ao interstício do artesanal com o industrial, a alquímica amálgama do engenho e do tempo precisa, sempre, de materiais e de ideias. Quando se vive num tempo em que há ideias, mas faltam materiais, tudo parece estagnado, mas pior é viver num tempo em que até existem alguns materiais, mas faltam ideias. Quando há ideias, do pouco se faz muito; por outro lado, quando não há ideias, pode ter-se cofres cheios, que isso não levará a lado nenhum.
domingo, 14 de junho de 2015
"Gentleman" de André Oliveira e Ricardo Reis
Gentleman de André Oliveira e Ricardo Reis (Ave Rara, 2015), é
revigorantemente bom: adorei! Uma série a acompanhar com toda a atenção:
delirante e pertinente.
Podem encontrar Gentleman nas livrarias especializadas em BD (Kingpin Books, El Pep, por exemplo) ou encomendar directamente pelo email: andrealexandreoliveira@gmail.com
Vejam algumas pranchas de Gentleman nesta ligação.
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quinta-feira, 4 de junho de 2015
Nomeações para Troféus Central Comics 2015
O meu livro de BD Sepulturas dos Pais, escrito por mim e desenhado por
André Coelho, e a minha BD curta O Homem-Javali Vai Casar; ou Leng
Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa (publicada na
antologia Crumbs) estão nomeados para três troféus de BD Central Comics: respectivamente, Melhor Argumento e Melhor Desenho ("Sepulturas
dos Pais") e Melhor História Curta (O Homem-Javali Vai Casar; ou Leng
Tch'e). Os Troféus Central Comics são prémios votados pelos leitores. Sepulturas dos Pais e Crumbs, ambas de 2014, são edições Kingpin Books.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Autógrafos na 85ª Feira do Livro de Lisboa
Informo que no sábado dia 13 de Junho, das 16H00 às 18H00, estarei na
85ª Feira do Livro de Lisboa: encontrar-me-ão junto do stand da
Europress, distribuidora da Kingpin Books (stand B11, conforme poderão ver no mapa publicado abaixo). Comigo também estarão os autores de BD André Oliveira e André Pereira.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Teaser de «O Poema Morre»
Vinheta do meu próximo livro de banda desenhada O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira (www.facebook.com/cirandara).
Consiste numa reflexão sobre a guerra e os seus efeitos no indivíduo e
na sociedade, partindo do ponto de vista de um poeta maldito por todos
os regimes políticos que vai atravessando. A guerra vai eclodir lá para
os últimos meses do ano, portanto: poderão ir escavando os abrigos,
porque a saraivada vai ser a mais violenta possível.
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O Poema Morre,
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