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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um retrato do nosso tempo


Como uma espínula rasgando a vestimenta episcopal que deveria preguear, a prancha com o homem em cima espinoteia em sentido descendente na água alvoroçada, atraída pelo magnetismo das expectativas de quem na praia a sente como a chegada de um presente de Natal. O momento é tão orgânico que é quase artificial: não estamos habituados a tanta elementariedade; não hoje, nem no futuro. Empurrado pelo casco aquático, garranchado como os das bestas, o surfista é uma figura fanerogâmica; limnófobo, certamente, heróico, até, mas, a uma observação mais concentrada - mendeleevianamente concentrada -, algo não faz sentido nesta imagem. Algo mais, além do surfista, é ímpar - insubmersível, impolarizável. De repente, como uma ânfora de talassita, recuperada do abismo por secretas erupções subaquáticas, a resposta apresenta-se frágil e transparente - vidrina.

Esta imagem é o retrato perfeito dos nossos tempos.
Idolatramos malabaristas molificativos que, muloscóides, são pouco menos que água suja sem as suas conchas coloridas, sem os instrumentos da sua falsídia. Fingem lutar contra forças ciclópicas, mas, na verdade, catamênicos, ondulam no mesmo sentido - e nós, perdidos na aleuromancia que o esfarinhar da espuma na areia nos influencia, somos tomados por parvos. Não há nada de útil em deixarmo-nos ir com a corrente. Sobretudo, nada de heróico. Não existe luta, aqui, não existe luta em nós: apenas paracêntese, apenas o desejo de ser dejectado - vulgocracia. Não queremos vencer: queremos perder, mas perder com o gáudio dos tolos, como se vencer fosse imoral. Queremos ir com a corrente.

Atrás, temos a onda do mundo - e ela será sempre maior do que nós. Uma decisão impõe-se: mostramos-lhe as costas ou o rosto?

sábado, 20 de outubro de 2012

Branco


Os nossos mortos estão connosco, «vibrando», como escreveu Emily Dickinson, «numa diferente medida, por trás de um véu de pouca espessura». Este é o véu da memória: o único que, no meu entender, existe entre a morte e a vida. Mas a memória, mas os sonhos - onde nos reencontramos com os nossos mortos - são mnemónicos. Os nossos mortos são prisioneiros desse envoltório sinestésico; translúcido e indevassável como celofane: impermeável, mas edaz, pia-máter que mantém as lembranças tolhidas numa incorruptível e incomunicável esfera que as aparta e é apenas atingível, em efémeros lampejos, através da alucinação ou da arte. Vale a pena acender uma vela aos nossos mortos: não para orientá-los na nossa direcção, por trás desse «véu de pouca espessura», mas para não esquecermos que a memória se gasta como cera sob o fogo e que cada vez que nos lembramos deles, na verdade, apagamo-los, devagar, de dentro de nós. Não é à toa que a trágica traça é o símbolo da alma, no seu obstino em engolfar-se no chamariz de chama. Só mais um pedacinho, pede, só mais um pedacinho de dádiva, à aproximação da luz miserável - do alvor que extingue as queridas sombras; da branca que rarefaz as recordações.

(Imagem: «A Hopeless Dawn» de Frank Bramley, 1888.)