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domingo, 14 de junho de 2020

Pequenas Histórias - ep. 3: "Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior)"

Terceiro episódio de Pequenas Histórias: em Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior), continua a descortinar-se a história das ideias na Época Moderna, desta vez partindo do Terreiro do Paço/Praça do Comércio e Praça D. Pedro IV/Rossio, numa observação sobre o fenómeno do Exótico, reintroduzido na Europa a partir dos Descobrimentos portugueses e da chegada de animais exóticos como o elefante e o rinoceronte à Lisboa Manuelina.

De caracteres pertencentes à gramática do poder real a ícones na linguagem publicitária contemporânea, estes animais exóticos - e outros animais comuns, como o cavalo, reinventados como exóticos - ligam o Homem ao Tempo. Da Roma Antiga à Índia do século XVI, de D. Manuel I a Grandella e Schopenhauer, do rinoceronte ao cavalo, esta é uma viagem pela história das mentalidades e das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo.

domingo, 17 de julho de 2016

Sobre Aleixo, no dia de sua morte


Esta tábua quinhentista (1541), cuja autoria inquestionável é do pintor português Garcia Fernandes (activo entre 1514 e 1565), é conhecida pela maioria do público como sendo uma representação do terceiro casamento do rei D. Manuel I com D. Leonor de Castela, irmã de Carlos V (celebrado a 1518). Todavia, já em 1998, o historiador de arte português Joaquim de Oliveira Caetano propôs e fundamentou a tese de que a imagem mostra o episódio hagiológico do casamento forçado de Santo Aleixo com Sabina. Esta obra faria parte de um conjunto projectado pela oficina do artista para a primeira Igreja de São Roque, em Lisboa (com efeito, a tábua encontra-se em exposição no Museu São Roque da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa). Ora, Garcia Fernandes foi eleitor da Misericórdia de Lisboa e o quadro foi-lhe encomendado por D. Álvaro da Costa, o primeiro provedor das Misericórdias, que, provavelmente, se encontra representado na figura central do sacerdote que celebra o casamento. Sabe-se, igualmente, que poucos anos antes da realização da tábua foi anexada uma confraria de Santo Aleixo à Misericórdia (em 1538); por conseguinte, fortalecendo esta tese. Em analogia, outros pormenores contribuem para a interpretação aleixiana, como a ausência na personagem dita manuelina da insígnia da Ordem do Tosão de Ouro, que D. Manuel I recebeu pelo seu casamento com D. Leonor de Castela. É, pois, neste dia de Santo Aleixo (terá morrido a 17 de Julho) que evoco esta obra enigmática, cujo hirsuto protagonista tem sido utilizado em múltiplos livros de história e veículos televisivos de divulgação histórica como sendo um retrato de D. Manuel I e pelos quais contornos temos desenhado, à guisa de escantilhão, determinados aspectos da vida e façanhas de O Venturoso.