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domingo, 14 de junho de 2020

Pequenas Histórias - ep. 3: "Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior)"

Terceiro episódio de Pequenas Histórias: em Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior), continua a descortinar-se a história das ideias na Época Moderna, desta vez partindo do Terreiro do Paço/Praça do Comércio e Praça D. Pedro IV/Rossio, numa observação sobre o fenómeno do Exótico, reintroduzido na Europa a partir dos Descobrimentos portugueses e da chegada de animais exóticos como o elefante e o rinoceronte à Lisboa Manuelina.

De caracteres pertencentes à gramática do poder real a ícones na linguagem publicitária contemporânea, estes animais exóticos - e outros animais comuns, como o cavalo, reinventados como exóticos - ligam o Homem ao Tempo. Da Roma Antiga à Índia do século XVI, de D. Manuel I a Grandella e Schopenhauer, do rinoceronte ao cavalo, esta é uma viagem pela história das mentalidades e das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapa do sofrimento


A Itália é a mãe material e espiritual da Europa.

Foi a partir da Itália que a Europa se desembrulhou, de blástula helenizante para infante império sob égide romana, capilarizando toda uma cultura e uma civilização — cuja matriz ainda nos marca, tal a sua força telúrica e moral. Foi, também, da Itália que a partir do século XIV se operou vitoriante um rejuvenescimento civilizacional que imprimiu novos rumos a uma Europa aleijada pela Peste Negra e por outras calamidades: no dealbar do Renascimento, nenhum outro reino ou entidade política europeia se podia sequer comparar à enorme sofisticação da cultura, da arte e do pensamento italianos — um caveat para alguns políticos setentrionais contemporâneos que têm o péssimo vício de falar com displicência dos países do sul.

Da Itália proveio toda uma linhagem de pensamento sem a qual a sociedade hodierna viveria no bisonho casebre da rudeza mental. Reconhecendo a dívida que temos para com a nossa mãe europeia, publico aqui a cabeça de um velho feita em terracota nos últimos anos do século XV pelo artista renascentista Guido Mazzoni: na sua sulcada expressão cada ruga produzida por diferentes anos de vida podia fazer parte de um mapa do sofrimento que sentiram os milhares de mortos italianos, vítimas da covid-19 — a maioria (ainda) idosos e doentes.

Assim, mais do que arengas de pseudo-solidariedade oriundas das várias cores do espectro político, prefiro olhar para o rosto deste velho e ler nele pistas históricas e transcendentes: políticas e ideologias vêm e vão, tão fátuas e fúteis como o estrume com que se tenta adubar um sáfaro solo — aquilo que de facto importa é inatingível, invisível e interior. Está dentro de nós, nunca desaparecerá e não duvido que nesse incerto futuro que nos aguarda o contributo italiano continuará a ser enriquecedor, incisivo e belo.

sábado, 29 de junho de 2019

Tendes alguma coisa que se coma?


Não consiste em nenhuma capciosa conclusão a de que o humanismo de Quinhentos sintetizou a cultura clássica com o cristianismo, porque este, com efeito, dirige-se à dimensão somática do indivíduo, na completa acepção da corporalidade.


Em dois trechos dos evangelhos radica essa obvenção: em Mateus 4,4, a célebre expressão «nem só de pão vive o homem» comporta uma resignificância que intima a pensar que para a restante criação o pão é o suficiente, enquanto que o ser humano, criatura catabática, somente se sacia quando se anula a consciência da falibilidade, quando este, através da cultura, se projecta para além da sombra meramente existencial; o outro excerto, enantiomorfologicamente iterável com o primeiro, pode ler-se em Lucas 24,41, quando Cristo recém-ressuscitado aparece aos espaventados apóstolos e lhes pergunta «tendes alguma coisa que se coma?» — este simbionte antropalelopático do espírito com a carnalidade regressa com fome do além-túmulo, recompondo os seus elementos etéreos com o bocado de peixe assado dado pelos discípulos. 


Este conjunto não-casuístico de ideias familiares a esta — e a que se pode adicionar aquela que está em Marcos 2,27, «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado», que rompe decisivamente com a subordinação mosaica do indivíduo diante do divino — é um repertório de representações revalorizadoras do humano que, no fundo, são já o prenúncio do profundo encentramento operado pelos humanistas cristãos do Renascimento.