Quarto episódio de Ninharias Essenciais: em Notícias Falsas, Censura e o Homem das Botas observa-se como a concepção e a designação da ideia de ‘notícia falsa’ já era utilizada em Lisboa nos inícios do século XIX e se relacionava intimamente com os princípios fundamentais da censura prévia; partindo de um episódio insólito ocorrido em Lisboa no ano de 1811, as ‘notícias falsas’ e a censura prévia apertarão laços e ganharão os seus campeões — tanto à ‘Direita’ como à ‘Esquerda’.
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segunda-feira, 31 de maio de 2021
Ninharias Essencias, Ep. 4: "Notícias Falsas, Censura e o Homem das Botas"
Um milagre do século XIII, as invasões francesas, o microcosmo dos folhetinistas, as cortes constituintes e a lei da liberdade de expressão entreligam-se tendo aqui como emulsionante um enigmático Homem das Botas.
Ninharias Essencias, Ep. 3: "Origem de Tragédia"
Terceiro episódio da minha série Ninharias Essenciais, intitulado Origem de Tragédia: o Largo de São Carlos é o palco onde a origem da palavra 'tragédia' é desvendada; do século XV ao século XX, etimologia e história fundem-se numa só identidade, pela voz de horticultores, criadores de cabras e Fernando Pessoa.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
Razões pelas quais o Holocausto é singular
Desde inícios do século XIX que as emancipações europeias dos judeus
provocaram, em variáveis graus de intensidade, movimentos motivados pelo
anti-semitismo, reconstruindo sob um perfil cada vez mais politizado um
sentimento social anti-judaico que, em principal na Europa central e de
Leste, possuía origens antigas. Nos territórios germânicos, um estilo
particular de anti-judaísmo pugnava desde o dealbar da tipografia em
folhetos e folhas volantes; alguns de jaez protestante, incluindo os de
Lutero, e outros de cariz popular sem assinaláveis vínculos religiosos,
mas ambos similares na sua retórica e propostas — inclusive a do
extermínio da “raça” judaica.
A ideia de uma maciça matança de todos os judeus fazia, desde essas alturas, parte da cultura das populações desses territórios e já no século XX, a partir de 1905, o ex-cisterciense austríaco Lanz von Liebenfels publicava na sua revista Ostara artigos de campanha para o extermínio dos judeus. Fundador da sociedade cavaleiresca Ordo Novi Templi, von Liebenfels antecipou em décadas o uso nacional-socialista de uma bandeira com uma suástica.
Esta síntese mostra como o anti-judaísmo moderno dos séculos XVI a XVIII se “politizou” ao longo do século XIX após o movimento generalizado das emancipações dos judeus — aliás, nos territórios germânicos esse sentimento anti-semita tornou-se desde logo bastante expressivo, com o caso modelar de Karl Lueger, presidente da câmara de Viena e pioneiro no anti-semitismo de massas, politizado, com a criação do Partido Social Cristão, espécie de mimetismo da coeva Liga Anti-Semita Francesa. Assim, o anti-semitismo nacional-socialista enquadra-se nesta moldura referencial mais alargada de profundo sentimento anti-judaizante grassante há décadas — senão séculos — nos territórios germânicos e de Leste: a legislação anti-semita do regime nazi é em muitos aspectos uma adaptação de velhas proibições anti-judaicas promulgadas por séries de bulas papais e alvarás régios um pouco por toda a Europa. A novidade introduzida pelos nacionais-socialistas no campo do anti-semitismo europeu, como já sinalizou Raul Hilberg em A Destruição dos Judeus Europeus, foi o passo final em direcção ao extermínio — extermínio que, recorde-se, já vinha sendo proposto e teorizado em variadas formas há muito tempo sob a designação “questão judaica”, mas que a máquina de morte nazi implementava de modo industrial.
Não obstante, a singularidade do Holocausto não reside, em exclusivo, na imensidade industrial de horror em que consistiu o extermínio em massa de milhões de indivíduos e a profanação dos seus corpos para retirar-se “matéria-prima”, como cabelos, dentes ou gordura, mas na própria ideologia que orientou esse crime contra a humanidade: o facto de segundo o nazismo o Judeu ser o “inimigo global”. Isto, em suma, significa o seguinte: alguns países europeus cúmplices do nacional-socialismo que, contaminados pelo anti-semitismo, incorreram e participaram no Holocausto, eliminando em massa os seus judeus ou deportando-os dos seus territórios para a Alemanha, tinham como objectivo final a extirpação de judeus dentro das suas fronteiras, numa perspectiva puramente regional; já os nacionais-socialistas, em oposição, queriam, segundo o princípio de o Judeu como “inimigo global”, eliminar os judeus em todo o mundo.
O projecto de engenharia social nacional-socialista foi, pois, genocidário desde o início, evoluindo das para-militares Einsatzgruppen para os campos de concentração e extermínio. O genocídio global de todos os judeus foi um elemento basilar e intrínseco do nacional-socialismo. Mas o futuro do nazismo não ficaria por aqui: em Mein Kampf e, sobretudo, na segunda parte desse livro, publicada postumamente, delineia-se o extermínio dos judeus eslavos, americanos e, ainda, o extermínio no Ocidente de categorias ambíguas de indivíduos designados de inferiores, mestiços ou degenerados. A partir daqui compreende-se que depois de exterminados todos os judeus a identidade genocidária do III Reich pretendia estender o seu venefícuo manto sobre novos elencos de indesejáveis, criados em perpétua sucessão para preencher o lugar vazio deixado pelo “inimigo global” e alimentar a máquina de morte já montada — o Reich de Mil Anos, parúsia hitleriana de pendor milenarista (como milenaristas foram outros totalitarismos novecentistas) construir-se-ia sobre um perpétuo crematório em actividade. A singularidade do Holocausto reside na sua filosofia mortífera de um assassínio humano global e perpétuo. Com efeito, na sua ambição internacional e ininterrupta, não se encontra nada parecido na história: o Holocausto é, de facto, único. Singular.
(Imagem: assassínio de judeus por uma Einsatzgruppe.)
A ideia de uma maciça matança de todos os judeus fazia, desde essas alturas, parte da cultura das populações desses territórios e já no século XX, a partir de 1905, o ex-cisterciense austríaco Lanz von Liebenfels publicava na sua revista Ostara artigos de campanha para o extermínio dos judeus. Fundador da sociedade cavaleiresca Ordo Novi Templi, von Liebenfels antecipou em décadas o uso nacional-socialista de uma bandeira com uma suástica.
Esta síntese mostra como o anti-judaísmo moderno dos séculos XVI a XVIII se “politizou” ao longo do século XIX após o movimento generalizado das emancipações dos judeus — aliás, nos territórios germânicos esse sentimento anti-semita tornou-se desde logo bastante expressivo, com o caso modelar de Karl Lueger, presidente da câmara de Viena e pioneiro no anti-semitismo de massas, politizado, com a criação do Partido Social Cristão, espécie de mimetismo da coeva Liga Anti-Semita Francesa. Assim, o anti-semitismo nacional-socialista enquadra-se nesta moldura referencial mais alargada de profundo sentimento anti-judaizante grassante há décadas — senão séculos — nos territórios germânicos e de Leste: a legislação anti-semita do regime nazi é em muitos aspectos uma adaptação de velhas proibições anti-judaicas promulgadas por séries de bulas papais e alvarás régios um pouco por toda a Europa. A novidade introduzida pelos nacionais-socialistas no campo do anti-semitismo europeu, como já sinalizou Raul Hilberg em A Destruição dos Judeus Europeus, foi o passo final em direcção ao extermínio — extermínio que, recorde-se, já vinha sendo proposto e teorizado em variadas formas há muito tempo sob a designação “questão judaica”, mas que a máquina de morte nazi implementava de modo industrial.
Não obstante, a singularidade do Holocausto não reside, em exclusivo, na imensidade industrial de horror em que consistiu o extermínio em massa de milhões de indivíduos e a profanação dos seus corpos para retirar-se “matéria-prima”, como cabelos, dentes ou gordura, mas na própria ideologia que orientou esse crime contra a humanidade: o facto de segundo o nazismo o Judeu ser o “inimigo global”. Isto, em suma, significa o seguinte: alguns países europeus cúmplices do nacional-socialismo que, contaminados pelo anti-semitismo, incorreram e participaram no Holocausto, eliminando em massa os seus judeus ou deportando-os dos seus territórios para a Alemanha, tinham como objectivo final a extirpação de judeus dentro das suas fronteiras, numa perspectiva puramente regional; já os nacionais-socialistas, em oposição, queriam, segundo o princípio de o Judeu como “inimigo global”, eliminar os judeus em todo o mundo.
O projecto de engenharia social nacional-socialista foi, pois, genocidário desde o início, evoluindo das para-militares Einsatzgruppen para os campos de concentração e extermínio. O genocídio global de todos os judeus foi um elemento basilar e intrínseco do nacional-socialismo. Mas o futuro do nazismo não ficaria por aqui: em Mein Kampf e, sobretudo, na segunda parte desse livro, publicada postumamente, delineia-se o extermínio dos judeus eslavos, americanos e, ainda, o extermínio no Ocidente de categorias ambíguas de indivíduos designados de inferiores, mestiços ou degenerados. A partir daqui compreende-se que depois de exterminados todos os judeus a identidade genocidária do III Reich pretendia estender o seu venefícuo manto sobre novos elencos de indesejáveis, criados em perpétua sucessão para preencher o lugar vazio deixado pelo “inimigo global” e alimentar a máquina de morte já montada — o Reich de Mil Anos, parúsia hitleriana de pendor milenarista (como milenaristas foram outros totalitarismos novecentistas) construir-se-ia sobre um perpétuo crematório em actividade. A singularidade do Holocausto reside na sua filosofia mortífera de um assassínio humano global e perpétuo. Com efeito, na sua ambição internacional e ininterrupta, não se encontra nada parecido na história: o Holocausto é, de facto, único. Singular.
(Imagem: assassínio de judeus por uma Einsatzgruppe.)
Efemérides americanas
No
passado dia 17 de Janeiro assinalou-se o centenário do National
Prohibition Act, mais conhecido por Volstead Act: legislação americana
que teve como intenção desbloquear a Décima Oitava Emenda à Constituição
dos Estados Unidos, que promulgava a proibição de venda e consumo de
bebidas alcoólicas.
O enquadramento desta iniciativa de engenharia social foi o chamado Movimento Progressista: espécie de sincrética arena ideológica em que participavam diversos actores, mas onde pontificava gente oriunda do puritanismo protestante, do credo científico eugenista e socialistas de diferentes sensibilidades — todos apostados em aposentar o Homem Velho para indigitar o Homem Novo. Com efeito, acreditava-se que extirpando as bebidas alcoólicas do horizonte dos trabalhadores americanos se iria, entre outros objectivos, fortalecer a consciência de classe desse proletariado e acelerar um devir Socialista. Curiosamente, nesses anos, e em sinal oposto à actualidade, a Esquerda americana era, na maioria, fortemente anti-imigração, pois considerava-a nociva aos interesses dos trabalhadores americanos.
Assim, sob essa orientação utópica, entrou-se numa era bizarra de destruição de adegas, detenções em massa de indivíduos apanhados a beber álcool, bares clandestinos, contrabando de zurrapas de qualidade muitas vezes fatal e de recrudescimento do gangsterismo.
Sobretudo, não deixa de ser revelador das contradições dessa época paradoxal o facto de o presidente Woodrow Wilson ter mantido para consumo pessoal uma estupenda adega de vinhos, espumantes e licores na Casa Branca — que levou consigo para casa depois de acabado o mandato. Vale a pena reflectir nas consequências sociais de toda a propaganda e iniciativas utópicas desenvolvidas nesse período, pois é provável que algumas das lições a tomar ainda se mantenham no prazo de validade.
A 19 de Janeiro de 1809 nasceu o escritor americano Edgar Allan Poe, que dispensa apresentações. Não obstante, vale a pena iluminar um aspecto de Poe que é pouco conhecido: o facto de no longo poema em prosa Eureka, publicado no turbulento ano de 1848, ele ter descrito de modo literário — e pela primeira vez — algumas realidades cosmológicas somente descobertas no século XX — e algumas apenas há poucos anos.
É o caso, por exemplo, do Big Bang, dos buracos negros e até uma solução engenhosa para o problema do Paradoxo de Olbers. Sem formação científica, Poe foi capaz de antecipar muitos aspectos da actual astrofísica, somente pela observação empírica e usando a sua fulgurante imaginação — muito antes da escrita de especulação científica ter sido popularizada por autores como Jules Verne ou Herbert George Wells. A lição a reter desta efeméride é a de que nenhuma tecnologia substitui a analógica imaginação humana, capaz de perscrutar a alma do universo através de ferramentas tão simples quanto lápis, tinta e papel.
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Sobre consensos e vaidades
A idade contemporânea padece de um erro de percepção de que teima em
não se escamotear: o de confundir ciência com método científico.
Este consiste num algoritmo confiável e constante; a outra é um nome que
se atribui a disciplinas, a conjuntos de saberes, que, com
exclusividade, se arrogam de ser representadas pelo método científico e
de representá-lo — fazendo lembrar certas divindades da antiguidade que,
em simultâneo, eram o Deus de uma certa propriedade e a propriedade em
si. Porém, o método científico é perpétuo e anterior às ciências
modernas se terem coalescido como tais. Pelo contrário, as ciências nada
têm de perpétuo: vêm e vão; e por vezes tão depressa quanto apareceram.
A Frenologia foi considerada uma ciência, assim como a Eugenia — e não
foram tratadas, digamos assim, como hoje olhamos com displicência para
as pseudociências, mas recebidas, divulgadas e leccionadas como Ciências
de C grande. Hoje, do mesmo modo que outras ciências que foram
consideradas de C grande nas suas épocas respectivas, estão — e ainda
bem —completamente desacreditadas.
Assim, quando ouço falar em
“consenso científico” fico desconfiado: acreditar que a cárie era
provocada por um verme que vivia nos dentes já foi consenso científico;
achar que o hálito dos gatos era venenoso já foi consenso científico;
achar que os animais não eram capazes de sentir dor e que estariam só a
“fazer fita” enquanto uivavam e se contorciam ao ser dissecados vivos
fez com que a prática geral da vivissecção fosse consenso científico;
achar que a teoria gravitacional newtoniana estava certa e que Einstein
estava errado já foi consenso científico; leccionar a teoria da
recapitulação já foi consenso científico; classificar negros como símios
e sub-humanos já foi consenso científico; declarar que a radiação
nuclear fazia bem à saúde já foi consenso científico; abortar
compulsivamente fetos saudáveis e esterilizar centenas de homens e
mulheres na Europa e nos Estados Unidos, porque foram considerados
mentecaptos pela ciência já foi consenso científico; alarmar a sociedade
com o fantasma de um Inverno Nuclear já foi consenso científico;
difundir nos media a toda a hora a popular crença de meados do século XX
no Arrefecimento Global já foi consenso científico. Em suma, já
existiram milhares de consensos científicos que foram recebidos como
verdadeiros, autoritativos, imutáveis, mas que hoje se compreende que
não só não tinham nada de científico como já nada reservam de
consensual.
A existência de um consenso, seja em que área for,
somente nos diz que uma maioria de indivíduos partilha uma opinião, uma
crença ou uma ideologia — a palavra “consenso”, só por si, não possui
nenhum valor científico nem nenhum superior valor deontológico; assim
como o enunciado “a ciência diz”, pois qual ciência é que se invoca, em
majestática terceira pessoa do singular, de maneira a credibilizar
campos de conhecimento tentativos, arbitrários e, provavelmente, falsos.
Do mesmo modo que as pseudociências repescam de arrasto elementos e
gramática científicos para credibilizar-se junto do público, também as
Ciências, propriamente ditas, incorrem no mesmo beato enfatuamento com a
sua reputação de rigor — que lhes é, sobremaneira, emprestada pelo
método científico.
A Ciência não tem, para concluir, o monopólio
do rigor: a arte pode ser rigorosa, no sentido de ser correcta à luz de
objectivos estéticos e preceitos técnicos específicos e não é
científica; a literatura pode ser rigorosa — perfeita, inclusive — sob
todas as exigências do prontuário e da elegância gramatical e não é
científica. A precipitada adopção das palavras “ciência” ou “científico”
cada vez que se pretende cunhar uma matéria ou uma disciplina como
sendo rigorosa — ou até mais rigorosa que outras — é um erro que já
seria altura de corrigir.
sexta-feira, 19 de julho de 2019
A costureira da Lua
Na
edição de hoje do Jornal i, numa chamada de capa, a NASA diz que não
tem ideia de (se eu entendi bem a frase) quem fabricou a bandeira que
está fincada em solo lunar. Porém, seria fácil a NASA recuperar essa má
memória se olhasse para o Diário de Notícias de 23 de Julho de 1969 e
lesse a entrevista dada pela costureira portuguesa Maria Isilda Ribeiro,
que, residente nos Estados Unidos desde 1966,
trabalhava na fábrica de bandeiras que produziu o mais universal
estandarte do século XX. Na altura com vinte e três anos, Maria Isilda
Ribeiro não imaginava, provavelmente, que as marcas impressas pelas suas
mãos ficariam indeléveis no espaço: existem impressões digitais
portuguesas na Lua — romântica coda para a senda renascentista dos
Descobrimentos de que fomos pioneiros, se se quiser ver assim.
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