terça-feira, 19 de agosto de 2014
Monstruosidades contra a língua portuguesa
sábado, 28 de junho de 2014
A língua portuguesa não faz 800 anos de idade...
terça-feira, 23 de abril de 2013
domingo, 21 de abril de 2013
Contra o Novo Acordo Ortográfico: subscrição da Iniciativa Legislativa de Cidadãos
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
PEN International contra AO90
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Finança e finanças
Ora, percebe-se bem como é que esta palavra, sinónimo de «morte», transitou para o universo monetário: é que as ditas finanças podem acabar mesmo em finança. Ora, percebe-se ainda melhor que, por esse ponto de vista, os diversos ministérios das finanças existentes continuam perfeitamente sintonizados com essa herança etimológica que, entretanto, nós temos vindo a esquecer e que eu, numa tentativa de ser um bom cidadão, venho lembrar.
(Foto: monge italiano, vestido com traje funerário. Século XIX.)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
De cavalo para burro: António de Macedo sobre o novo Acordo Ortográfico

Mais do que declarar em seguida as razões pelas quais sou contra, prefiro transcrever um texto inédito da autoria do cineasta e escritor António de Macedo que não só encerra a opinião definitiva sobre este assunto, como consiste num luminoso e corajoso esclarecimento que prova que o novo acordo ortográfico não foi promulgado por decreto-lei, como tem sido divulgado, mas somente por uma resolução, logo não possui nenhum carácter vinculativo.
Leiam com atenção e pensem:
«1 - A nova ortografia, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), foi promulgada pela Resolução da Assembleia da República (AR) n.º 26/91, de 23 de Agosto (com pequenas actualizações posteriores), e pormenorizada pela Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011.2 - A ortografia ainda em vigor, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1945 (AO45), foi promulgada pelo Decreto n.º 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, e ratificada em 1973, com pequenas alterações, pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro.
3 - O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos foi promulgado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março (com pequenas actualizações posteriores).
4 - Na hierarquia legislativa um Decreto-Lei está acima duma Resolução da AR ou do CM. Um Decreto-Lei é vinculativo, ao passo que uma Resolução é uma mera recomendação.
5 - Por conseguinte, uma Resolução não tem força legal para revogar um Decreto-Lei, e por isso o AO45 continua em vigor.
6 - Em caso de conflito entre a nova ortografia e o Direito do Autor, o que prevalece é o Decreto-Lei do Direito de Autor.
7 - Em consequência, nenhum editor é obrigado a editar os seus livros ou as suas publicações segundo a nova ortografia, nem nenhum Autor é obrigado a escrever os seus textos segundo o AO90. Mais ainda: tentar impor a nova ortografia do AO90 é um acto ilegal, porque o que continua legalmente em vigor é o AO45.
8 - Ao abrigo do Código do Direito de Autor, os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica, conforme consta do n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, onde se diz que o autor goza durante toda a vida do direito de assegurar a genuinidade e integridade da sua obra, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação ou outra modificação da mesma, e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue.
9 - Embora no Artigo 93.º do mesmo Código do Direito de Autor se preveja a possibilidade de actualizações ortográficas, que não são consideradas "modificações", há sempre a opção legítima, por parte do Autor, de escrever como entender, por uma "opção ortográfica de carácter estético", mesmo que em 2015 o novo AO90 venha a ser eventualmente consagrado por Decreto-Lei, e não apenas, como agora, por uma simples Resolução da AR.
Para terminar, e entre parênteses, o novo AO90 é tão abstruso que é antidemocrático porque as várias sondagens que têm sido feitas desde há vários anos sempre apontaram para uma média de rejeição, do AO90, por cerca de 67 por cento da generalidade dos Portugueses - além de ter recebido, ao longo deste últimos anos, nove pareceres negativos emitidos por várias instituições, como por exemplo o Departamento de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, a Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, a Associação Portuguesa de Linguística e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.»
(A imagem que ilustra esta publicação pertence ao livro Les Fables d'Esope Phrygien, Mises en Ryme Françoise, de 1547, e é da autoria de Bernard Salomon.)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Polissemia

(O magnífico reclamo que ilustra este post foi publicado no peródico português O Século Ilustrado nº346, em 1944. Confiram aqui. Juro que não é nenhuma alegoria do tempo presente.)
História ou estória?

«A palavra estória (que eu detesto - tenho palavras que gosto e outras que não gosto) já aparece mencionada em escritos portugueses do século XIII, mas a sua origem permanece ambígua.
A hipótese que se afigura como sendo a mais verosímil é que consiste num galicismo derivado da palavra estorie que, por sua vez, terá origem no baixo-latim popular storia que era a forma como os populares pronunciavam e escreviam a palavra erudita historia - da qual deriva a nossa homófona palavra história. A palavra inglesa story tem a mesma origem e aparece documentada em escritos do final do século XII - mas, lá está, tanto num caso como no outro, estamos diante de palavras que, provavelmente, já circulariam oralmente há mais tempo. Resumindo: não é uma palavra incorrecta, mas é grosseira. A forma adequada é, claro, história.
Contudo, neste tempo relativista em que vivemos, no qual quase toda a gente já esqueceu como se fala e como se escreve, é chique escrever estória, principalmente na nossa famélica comunicação social. Enfim, é mais um desvio, daqueles que entram no nosso léxico; às vezes pela mão de quem tinha obrigação de saber o significado e a origem das palavras. Querem escrever estória? Escrevam. Mas é "à labrego", como se costuma dizer.»
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Sobre flexões nominais

«I'm not saying that television is vulgar and dumb because the people who compose the Audience are vulgar and dumb. Television is the way it is simply because people tend to be extremely similar in their vulgar and prurient and dumb interests and wildly different in their refined and aesthetic and noble interests.»
Na maioria das vezes, os programas televisivos difundem uma versão desidiosa da língua; como flocos liofilizados, ela é servida em porções desenergizadas às quais a falta de tempo e a falta de informação impede que se junte água - uma infra-linguagem indicada para empregar nos rodapés rolantes dos noticiários ou nos palimpsestos contemporâneos da internet, mas demasiado inexacta e inculta para veicular conhecimentos. O lugar-comum da televisão como ama-seca dos espectadores volta a soar acertado quando se pensa sobre a linguagem televisiva como sendo análoga aos arrulhos usados para acalmar crianças - e talvez mais do que em qualquer outra altura, ela arrulhe mais alto no período natalício.
Alguns dos erros mais frequentes que se ouvem na televisão são erros no uso das regras de flexão, que se divide em nominal e verbal. À primeira cabe, entre outras coisas, o tratamento do género e do número dos nomes e dos adjectivos. O género pode ser masculino ou feminino e o número pode ser singular ou plural. Existem línguas, como as da família ugro-finlandesa (finlandês, estónio, húngaro) que se caracterizam pela ausência de género, ou seja o mesmo pronome é usado para designar tanto o género masculino como o feminino (politicamente correcto, não?), mas no caso do português existem regras específicas para o uso do género e do número. No último caso, os erros mais vulgares ocorrem na escrita de palavras compostas ou compostos (nem sempre ligados por hífen).
Por exemplo, nesta altura do ano ouve-se dezenas de vezes "pais natal", mas o plural de Pai Natal é pais natais, porque é um composto formado por um nome e um adjectivo. O mesmo acontece com o plural bolos-reis do composto bolo-rei, formado por dois nomes. Quando o composto é formado por dois adjectivos, ambos se usam no plural.
Nos compostos formados por um verbo e um nome, só o nome muda para plural. Todavia, nos casos em que existe uma preposição entre dois ou mais elementos (são os chamados compostos preposicionais) só o primeiro adquire a forma de plural: é por isso que se diz pães-de-ló e não pão-de-lós ou pães-de-lós (muito menos "pãos-de-ló").
A dada altura, Foster Wallace também escreve:
«Television, from the surface on down, is about desire.
Fictionally speaking, desire is the sugar in human food.»
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Origem de "badagaio"
Eu suspeito que badagaio seja uma corruptela de badagá, que era o nome que os antigos navegadores portugueses (ver, por exemplo, Conquista Temporal e Espiritual do Ceylão do padre jesuíta Fernão de Queyroz [1687]: «Agradecido o Rey Xaga Rajá ao bom serviço que lhe fizerão os Badagaz, gente sempre estimada, por valente e rebelada ao Nayque de Madurê...») davam ao povo que compunha o chamado Império ou Reino de Bisnaga: uma monarquia hindu que habitava no Sul da Índia, sobre o planalto do Decão. Ora badagá é, por sua vez, uma corruptela da palavra tâmul vadagar, com o mesmo significado.
O que interessa para desvendar a possível origem de badagaio é a constatação de que os tais badagás faziam, com frequência, sorrateiras incursões de guerrilha pelo centro e Sul da Índia, maltratando os cristãos. Por conseguinte, badagá (mais tarde badagaio) veio a ganhar o significado de gente terrível que se aproximava de modo sorrateiro das vítimas.
É aqui que estará a possível origem para a expressão popular deu-lhe o badagaio. Ou seja, era o badagaio (ou badagá) que vinha em surdina e dava pancada ou morte ao insuspeito: quase que se adivinha uma troca coeva de palavras, mais ou menos nestas linhas: "-Quem é que lhe deu?", "Deu-lhe o badagaio".





