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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Monstruosidades contra a língua portuguesa


O infame AO90 (Novo Acordo Ortográfico) está a abrir precedentes para que outras mentes imaginem protocolos ainda piores, porque, aparentemente, ele não foi suficientemente longe na "simplificação" da língua portuguesa: neste caso, o Movimento Simplificando a Ortografia, idealizado e encabeçado pelo professor brasileiro Ernani Pimentel (na imagem), que intenta substituir na teoria e na prática o AO90 por um programa que, entre outros objectivos, quer abolir o hífen, a letra h (no início das palavras), as letras ç, ch e os dois ss, assim como transformar em j todos os g seguidos de e ou i (assim, passar-se-ia a escrever ferrujem e jenjiva, por exemplo), para ir ao encontro desse desiderato, almejado pelo próprio senado brasileiro que quer dar vida a este monstro até 2016. Além de que casa também se poderá escrever com z, segundo diz Pimentel nesta entrevista dada ao jornal brasileiro Zero Hora e transcrita no site ILC Contra o Acordo Ortográfico:


 Se burros houvesse que a zurrar conseguissem criar novos acordos ortográficos, este seria, em definitivo, o arquétipo de todos os acordos aberrantes, pois nenhum ser racional será (até ver) capaz de alcançar tão elevados graus de demência e abjecção.


sábado, 28 de junho de 2014

A língua portuguesa não faz 800 anos de idade...

 
...ao contrário do que anda por aí a dizer-se, sobre o aniversário da assinatura do testamento de D. Afonso II (27 de Junho de 1214).
Só para esclarecer que o mais antigo documento escrito em linguagem* portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto (pergaminho nº2 do maço nº10): consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu («Pelágio», na grafia original), um dos senhores de Paiva e hipotético avô materno do pregador franciscano Fernando Martins - também conhecido por Santo António de Lisboa.

Por conseguinte, a língua portuguesa não faz 800 anos de idade: faz 839.
Isto, claro, se tivermos, mesmo, de encontrar uma data de nascimento para ela; algo um pouco artificial, na minha opinião, mas, enfim, sempre é mais rigorosa a data de 1175 que a de 1214. 

Como rebuçado, ainda deixo a informação que Gondomar significa cavalo de guerra.

* Linguagem era a designação que se dava a todas as línguas que não fossem latim erudito. Nunca é demais sublinhar isto, porque, às vezes, a este respeito, lê-se com cada disparate que até faz doer a vista.


domingo, 21 de abril de 2013

Contra o Novo Acordo Ortográfico: subscrição da Iniciativa Legislativa de Cidadãos


Anuncio publicamente que subscrevi a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990: fi-lo, porque não quero que o AO90, que considero absurdo, desequilibrado e, até, demencial, seja, no todo ou em partes, instituído de modo definitivo. O tempo urge (mesmo), por isso apelo a todos aqueles que estejam em desacordo com o Novo Acordo que subscrevam a Iniciativa Legislativa de Cidadãos - aquela que é a mais eficaz ferramenta de pressão para que todos possamos travar os interesses de alguns. 


E divulguem a ILC pelos vossos contactos: obrigado.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Finança e finanças


Agora que se avizinha mais sobrecargas fiscais sobre todos nós, vale a pena reflectir sobre umas curiosas ligações etimológicas que, infelizmente, têm sido esquecidas. Por exemplo, a palavra «finança», que dá nome a um importante ofício estatal, pertence à família etimológica de palavras como «finar» ou «finitude»: neste caso, a «finança», que deriva do verbo latino «finire», significa «morte», no mesmo sentido de «matança». Este é o significado original de «finança».
Ora, percebe-se bem como é que esta palavra, sinónimo de «morte», transitou para o universo monetário: é que as ditas finanças podem acabar mesmo em finança. Ora, percebe-se ainda melhor que, por esse ponto de vista, os diversos ministérios das finanças existentes continuam perfeitamente sintonizados com essa herança etimológica que, entretanto, nós temos vindo a esquecer e que eu, numa tentativa de ser um bom cidadão, venho lembrar.

(Foto: monge italiano, vestido com traje funerário. Século XIX.)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

De cavalo para burro: António de Macedo sobre o novo Acordo Ortográfico


Ainda não me tinha pronunciado em público sobre o novo acordo ortográfico, mas anuncio que sou contra, evidentemente.

Mais do que declarar em seguida as razões pelas quais sou contra, prefiro transcrever um texto inédito da autoria do cineasta e escritor António de Macedo que não só encerra a opinião definitiva sobre este assunto, como consiste num luminoso e corajoso esclarecimento que prova que o novo acordo ortográfico não foi promulgado por decreto-lei, como tem sido divulgado, mas somente por uma resolução, logo não possui nenhum carácter vinculativo.
Leiam com atenção e pensem:

«1 - A nova ortografia, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), foi promulgada pela Resolução da Assembleia da República (AR) n.º 26/91, de 23 de Agosto (com pequenas actualizações posteriores), e pormenorizada pela Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011.

2 - A ortografia ainda em vigor, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1945 (AO45), foi promulgada pelo Decreto n.º 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, e ratificada em 1973, com pequenas alterações, pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro.

3 - O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos foi promulgado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março (com pequenas actualizações posteriores).

4 - Na hierarquia legislativa um Decreto-Lei está acima duma Resolução da AR ou do CM. Um Decreto-Lei é vinculativo, ao passo que uma Resolução é uma mera recomendação.

5 - Por conseguinte, uma Resolução não tem força legal para revogar um Decreto-Lei, e por isso o AO45 continua em vigor.

6 - Em caso de conflito entre a nova ortografia e o Direito do Autor, o que prevalece é o Decreto-Lei do Direito de Autor.

7 - Em consequência, nenhum editor é obrigado a editar os seus livros ou as suas publicações segundo a nova ortografia, nem nenhum Autor é obrigado a escrever os seus textos segundo o AO90. Mais ainda: tentar impor a nova ortografia do AO90 é um acto ilegal, porque o que continua legalmente em vigor é o AO45.

8 - Ao abrigo do Código do Direito de Autor, os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica, conforme consta do n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, onde se diz que o autor goza durante toda a vida do direito de assegurar a genuinidade e integridade da sua obra, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação ou outra modificação da mesma, e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue.

9 - Embora no Artigo 93.º do mesmo Código do Direito de Autor se preveja a possibilidade de actualizações ortográficas, que não são consideradas "modificações", há sempre a opção legítima, por parte do Autor, de escrever como entender, por uma "opção ortográfica de carácter estético", mesmo que em 2015 o novo AO90 venha a ser eventualmente consagrado por Decreto-Lei, e não apenas, como agora, por uma simples Resolução da AR.

Para terminar, e entre parênteses, o novo AO90 é tão abstruso que é antidemocrático porque as várias sondagens que têm sido feitas desde há vários anos sempre apontaram para uma média de rejeição, do AO90, por cerca de 67 por cento da generalidade dos Portugueses - além de ter recebido, ao longo deste últimos anos, nove pareceres negativos emitidos por várias instituições, como por exemplo o Departamento de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, a Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, a Associação Portuguesa de Linguística e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.»

Obrigado, António!

(A imagem que ilustra esta publicação pertence ao livro Les Fables d'Esope Phrygien, Mises en Ryme Françoise, de 1547, e é da autoria de Bernard Salomon.)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Polissemia


Depois de um trocadilho ingénuo com um amigo reflicto com alegria sobre o espantoso facto de que a palavra portuguesa pasta é bem capaz de ser uma das mais polissémicas do nosso léxico. Lembro-me dos seguintes significados: dentífrico; terceira pessoa do singular do verbo pastar; mala; directoria de um disco rígido; massa alimentícia; ministério; mistela para rebocar paredes; dinheiro.

(O magnífico reclamo que ilustra este post foi publicado no peródico português O Século Ilustrado nº346, em 1944. Confiram aqui. Juro que não é nenhuma alegoria do tempo presente.)

História ou estória?


Uns amigos pediram-me que os esclarecesse sobre a palavra estória: seria correcta, seria incorrecta?... Depois de responder-lhes, achei que o esclarecimento poderia interessar a mais leitores e, por conseguinte, transcrevo-o para este post:

«A palavra estória (que eu detesto - tenho palavras que gosto e outras que não gosto) já aparece mencionada em escritos portugueses do século XIII, mas a sua origem permanece ambígua.
A hipótese que se afigura como sendo a mais verosímil é que consiste num galicismo derivado da palavra estorie que, por sua vez, terá origem no baixo-latim popular storia que era a forma como os populares pronunciavam e escreviam a palavra erudita historia - da qual deriva a nossa homófona palavra história. A palavra inglesa story tem a mesma origem e aparece documentada em escritos do final do século XII - mas, lá está, tanto num caso como no outro, estamos diante de palavras que, provavelmente, já circulariam oralmente há mais tempo. Resumindo: não é uma palavra incorrecta, mas é grosseira. A forma adequada é, claro, história.

Contudo, neste tempo relativista em que vivemos, no qual quase toda a gente já esqueceu como se fala e como se escreve, é chique escrever estória, principalmente na nossa famélica comunicação social. Enfim, é mais um desvio, daqueles que entram no nosso léxico; às vezes pela mão de quem tinha obrigação de saber o significado e a origem das palavras. Querem escrever estória? Escrevam. Mas é "à labrego", como se costuma dizer.»

(Uma adenda: acrescento que nenhum dicionário que tenho em casa [e tenho muitos - como, por exemplo, o de Almeida Costa e Sampaio e Melo, o de Eduardo Pinheiro, o de Cândido de Figueiredo, todos os de José Pedro Machado] lista a palavra estória. Acrescento ainda que a criação literária deve ser livre, como é evidente: mal estaríamos se não nos fosse permitido usar uma palavra só porque ela não consta em nenhum dicionário ou até que não nos fosse permitido inventar neologismos. A minha resposta consiste somente num esclarecimento filológico e etimológico.)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre flexões nominais


O escritor norte-americano David Foster Wallace escreveu o seguinte no ensaio "E Unibus Pluram", contido no livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again (1997):

«I'm not saying that television is vulgar and dumb because the people who compose the Audience are vulgar and dumb. Television is the way it is simply because people tend to be extremely similar in their vulgar and prurient and dumb interests and wildly different in their refined and aesthetic and noble interests.»

Na maioria das vezes, os programas televisivos difundem uma versão desidiosa da língua; como flocos liofilizados, ela é servida em porções desenergizadas às quais a falta de tempo e a falta de informação impede que se junte água - uma infra-linguagem indicada para empregar nos rodapés rolantes dos noticiários ou nos palimpsestos contemporâneos da internet, mas demasiado inexacta e inculta para veicular conhecimentos. O lugar-comum da televisão como ama-seca dos espectadores volta a soar acertado quando se pensa sobre a linguagem televisiva como sendo análoga aos arrulhos usados para acalmar crianças - e talvez mais do que em qualquer outra altura, ela arrulhe mais alto no período natalício.

Alguns dos erros mais frequentes que se ouvem na televisão são erros no uso das regras de flexão, que se divide em nominal e verbal. À primeira cabe, entre outras coisas, o tratamento do género e do número dos nomes e dos adjectivos. O género pode ser masculino ou feminino e o número pode ser singular ou plural. Existem línguas, como as da família ugro-finlandesa (finlandês, estónio, húngaro) que se caracterizam pela ausência de género, ou seja o mesmo pronome é usado para designar tanto o género masculino como o feminino (politicamente correcto, não?), mas no caso do português existem regras específicas para o uso do género e do número. No último caso, os erros mais vulgares ocorrem na escrita de palavras compostas ou compostos (nem sempre ligados por hífen).

Por exemplo, nesta altura do ano ouve-se dezenas de vezes "pais natal", mas o plural de Pai Natal é pais natais, porque é um composto formado por um nome e um adjectivo. O mesmo acontece com o plural bolos-reis do composto bolo-rei, formado por dois nomes. Quando o composto é formado por dois adjectivos, ambos se usam no plural.
Nos compostos formados por um verbo e um nome, só o nome muda para plural. Todavia, nos casos em que existe uma preposição entre dois ou mais elementos (são os chamados compostos preposicionais) só o primeiro adquire a forma de plural: é por isso que se diz pães-de-ló e não pão-de-lós ou pães-de-lós (muito menos "pãos-de-ló").

A dada altura, Foster Wallace também escreve:

«Television, from the surface on down, is about desire.
Fictionally speaking, desire is the sugar in human food.»

Qualquer biólogo sério vos poderá esclarecer que estamos programados para procurar alimentos açucarados e que é ingrato lutar contra essa tendência congénita. É por isso que o Natal é particularmente periculosu: por culpa dos tradicionais doces e pontapés no português.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Origem de "badagaio"

Hoje pediram-me, se pudesse, para esclarecer uma dúvida sobre a origem da palavra badagaio; e, por acréscimo, da expressão popular deu-lhe o badagaio. Com efeito, começo por dizer que, infelizmente, não tenho as respostas definitivas para essas perguntas, mas posso, ainda assim, tentar encontrá-las. Toda a gente está familiarizada com as definições comuns de desmaio, achaque ou morte repentina para a palavra badagaio, mas de onde é que ela virá?

Eu suspeito que badagaio seja uma corruptela de badagá, que era o nome que os antigos navegadores portugueses (ver, por exemplo, Conquista Temporal e Espiritual do Ceylão do padre jesuíta Fernão de Queyroz [1687]: «Agradecido o Rey Xaga Rajá ao bom serviço que lhe fizerão os Badagaz, gente sempre estimada, por valente e rebelada ao Nayque de Madurê...») davam ao povo que compunha o chamado Império ou Reino de Bisnaga: uma monarquia hindu que habitava no Sul da Índia, sobre o planalto do Decão. Ora badagá é, por sua vez, uma corruptela da palavra tâmul vadagar, com o mesmo significado.

O que interessa para desvendar a possível origem de badagaio é a constatação de que os tais badagás faziam, com frequência, sorrateiras incursões de guerrilha pelo centro e Sul da Índia, maltratando os cristãos. Por conseguinte, badagá (mais tarde badagaio) veio a ganhar o significado de gente terrível que se aproximava de modo sorrateiro das vítimas.
É aqui que estará a possível origem para a expressão popular deu-lhe o badagaio. Ou seja, era o badagaio (ou badagá) que vinha em surdina e dava pancada ou morte ao insuspeito: quase que se adivinha uma troca coeva de palavras, mais ou menos nestas linhas: "-Quem é que lhe deu?", "Deu-lhe o badagaio".