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segunda-feira, 6 de abril de 2020

Conta-me como será: ou, Algumas previsões para um mundo pós-Covid-19

 
Sem querer insistir na solidez desta meia-dúzia de previsões (redigidas com base na informação disponível até este instante), afiguram-se-me alguns novos pontos de fuga para o travejamento político pós-Covid-19. Eles são:

1) É plausível uma acelerada ou mesmo abrupta extinção do Liberalismo, nas suas várias facções, concomitante ao reforço de políticas novas que fortaleçam a intervenção dos Estados em áreas que, por tradição, eram do desempenho privado.

2) Políticas que tendam a robustecer a influência dos Estados serão, conjectura-se, muito populares; mas, credivelmente, esse incremento não passará pelo recrudescimento de medidas de Esquerda, porque esta encontra-se comprometida com um projecto Europeu em assinalável moribundez e de baixíssimos níveis de popularidade. Prevê-se, pelo contrário, que essas novas políticas de estribamento dos Estados sejam, efectivamente, de Centro: ideias ditas de Centro serão consideradas as que mais angariam bom-senso e achadas as mais eficazes.

3) O modelo actual de globalização, já flebotomizado até à palidez pela crise de 2008, sofrerá um intenso golpe, porque ficaram ainda mais expostas as fragilidades de um comércio global assente em demasiados intermediários e por sistemas produtivos e económicos demasiado descentralizados. Assim, será provável que os novos Estados fortalecidos adoptem políticas para uma maior auto-suficiência, investindo em áreas de produção já abandonadas e enriquecendo os seus tecidos industriais — em particular Estados que nas últimas décadas se orientaram quase em exclusivo para uma economia de serviços.

4) A reinstituição das antigas lógicas de Estados-Nações não será, pois, acompanhada de um ressurgimento de ideologias nacionalistas novecentistas, pois a auto-suficiência tem limites: situação que poderá acelerar o declínio da União Europeia e nesse seguimento recriar um mundo parcelado em novas-velhas ‘commonwealths’, digamos assim, de interesses comuns, ligadas por laços históricos, geográficos, económicos e culturais (p. ex.: Reino Unido + Estados Unidos; um grupo formado pelos países da Europa do Norte e outro grupo formado pelos países da Europa do Sul).

5) Ainda é cedo para especular como ficarão as preocupações climáticas/ambientalistas que efervesceram de variadas maneiras a opinião pública nos anos mais recentes, mas é provável que o novo ‘milieu’ milenarista pós-Covid-19 sirva de breviário e altar a religiões globais mais adaptáveis à nova moldura política e económica esboçada nas linhas anteriores.

6) Mais do que subsidiar a existência ao espaço digital, a actual experiência de isolamento social demonstrará aos indivíduos que a Internet é apenas uma ferramenta e não a tecnologia utópica que se considerava ser há poucos meses, sendo de prever que esta passe por um período de desencantamento utilitário similar aos de outras tecnologias, como a electricidade — um exemplo: observada nos anos 20 do século passado pelo regime soviético como a tecnologia que faria a revolução socialista global, a electricidade passou pelo seu período de desencanto tecnológico. O mesmo ocorre/ocorrerá com a Internet: ninguém poderá viver sem ela (como com a electricidade), mas perderá as vestes de utopia com que foi enroupada desde a sua concepção.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapa do sofrimento


A Itália é a mãe material e espiritual da Europa.

Foi a partir da Itália que a Europa se desembrulhou, de blástula helenizante para infante império sob égide romana, capilarizando toda uma cultura e uma civilização — cuja matriz ainda nos marca, tal a sua força telúrica e moral. Foi, também, da Itália que a partir do século XIV se operou vitoriante um rejuvenescimento civilizacional que imprimiu novos rumos a uma Europa aleijada pela Peste Negra e por outras calamidades: no dealbar do Renascimento, nenhum outro reino ou entidade política europeia se podia sequer comparar à enorme sofisticação da cultura, da arte e do pensamento italianos — um caveat para alguns políticos setentrionais contemporâneos que têm o péssimo vício de falar com displicência dos países do sul.

Da Itália proveio toda uma linhagem de pensamento sem a qual a sociedade hodierna viveria no bisonho casebre da rudeza mental. Reconhecendo a dívida que temos para com a nossa mãe europeia, publico aqui a cabeça de um velho feita em terracota nos últimos anos do século XV pelo artista renascentista Guido Mazzoni: na sua sulcada expressão cada ruga produzida por diferentes anos de vida podia fazer parte de um mapa do sofrimento que sentiram os milhares de mortos italianos, vítimas da covid-19 — a maioria (ainda) idosos e doentes.

Assim, mais do que arengas de pseudo-solidariedade oriundas das várias cores do espectro político, prefiro olhar para o rosto deste velho e ler nele pistas históricas e transcendentes: políticas e ideologias vêm e vão, tão fátuas e fúteis como o estrume com que se tenta adubar um sáfaro solo — aquilo que de facto importa é inatingível, invisível e interior. Está dentro de nós, nunca desaparecerá e não duvido que nesse incerto futuro que nos aguarda o contributo italiano continuará a ser enriquecedor, incisivo e belo.