sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
Vida e virtualidade
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Na vacuidade do oceano cósmico
A vida terrena é um hápax — é, além disso, prisioneira daquela excrescência arquitectónica que nenhum mestre conseguiu ainda erradicar: as enjuntas, triângulos formados pela inscrição de um círculo dentro de um quadrado. Na cosmogonia desenhada pelo artista quinhentista português Francisco d'Ollanda o triângulo é a forma fundamental; telúrio que se derrama sobre o globo para constituir os elementos e os seres, a unidade primeva da vida. Em simetria, para o novecentista inventor americano Buckminster Fuller também o triângulo era o primeiro objecto, a forma primordial por ele serializada em massa na esférica estrutura das suas cúpulas geodésicas.
A vida é uma enjunta formada pela sublime construção do universo; suprema superfluidade que prospera naturalmente, somente pelo harmonioso encaixe de cegas estruturas que em nada se lhe relacionam: termirácula, prodigeomaturga, unarrepetível. Na subitânea dimensão que lhe foi proporcionada, a vida é proteica, multifária, polimorfa; alfabeto adaptável a todos os idiomas e geografias.
No conto O Estudante, Chekhov descreve a comoção sentida por uma aldeã viúva e sua filha ao escutarem, enquanto se aquecem diante de uma fogueira, o relato da paixão de Cristo que lhes é narrado pelo titular estudante, que se lembrou de como Pedro negou Jesus enquanto se aquecia diante de uma fogueira no pátio do Sumo Sacerdote. As mulheres choram sob uma dor profunda, como se fossem elas próprias mãe e irmã do Messias — e o estudante afasta-se, perplexo, por presenciar essa plangência com dezanove séculos de atraso. Ao voltar de barco a casa, o jovem encontra a sua aldeia na linha do olhar e sente-se preenchido por um poderoso sentimento de «juventude, saúde e força» e por uma «felicidade misteriosa». Escreve o autor que «a vida parecia encantadora, miraculosa, imbuída de exaltante significância».
Existe exaltante significância na vacuidade do oceano cósmico. Existe exaltante significância neste esconso formado pelo arco de titânicas forças físicas. Está imbuído de um ininterrupto sinal que é emitido por este ínfimo lodaçal do tempo em que, por excepção, nascemos e que continuamente nos serve de guia no nevoeiro cruel da existência. Esse cordão invisível estendido entre o início e o fim nunca se recolhe ao toque: esse cordão repercute a linguagem da história e do mito. Diz-nos que não estamos abandonados. Acompanham-nos todas as vidas extintas que se intersectaram para chegarmos mais longe — admirável panteão que nos albergará um dia. No interior da inesgotável enjunta que nos deu o ser não somos derelictos.
Essa transparente iminência fez chorar as personagens de Chekhov. Essa proximidade emociona-nos quando lembramos os nossos mortos: onde estarão os pais e as mães desaparecidos senão aqui, na diáfana e improvável excepção que é a única realidade que conhecemos. A única verdade que conhecemos. Mortos e vivos, estamos todos aqui; numa perdida enjunta que mal se distingue na imensidade. Numa crudelíssima e friíssima fímbria do cosmos.
quarta-feira, 12 de junho de 2019
Uma hipociclóide trajectória de vida
Porém, de que tempo estamos a falar? Mutante que se transfere por inteiro de uns anos para outros, objecto que oxida verdadeiramente e do qual a velhice é a ferrugem, o homem só se torna compreensível se for pensado como criatura híbrida de matéria e de espírito — de tempo —, tal como a marinha lesma verde e os vulgares cogumelos das nossas matas são seres híbridos entre o animal e o vegetal. O ser humano é um pólipo entre o carnal e o temporal, carneiro da Tartária entre animal e transcendente, na sua hipociclóide trajectória de vida não vive, verdadeiramente, nem no mundo, nem no tempo: erosivo, aquele esboroa-lhe o corpo com impiedosos rasgos de senectude; o outro fá-lo estrangeiro da sua própria identidade, ruína entre ruínas. Só no fluxo eterno está em casa o ser humano — só na coruscante sefira dos sonhos e dos deuses ele se encontra entre iguais, orbivagante e pluridimensional. Só aí nasce idoso e morre jovem; só aí acena uma despedida quando se aproxima; só aí, entre protaicos da mesma ordem, ele comunica com um sargaciante oceano de memórias em que coexistem todos os períodos.
A vida é, pois, como o coração, ponto de fuga entre dois estádios de não-existência. Nodular tirocínio que todos os seres precisam de atravessar.
domingo, 9 de junho de 2019
Álgebra azul
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Sobre os livros e a vida

É, em essência, material em bruto - e sem sentido, a não ser aquele que lhe é, mal ou bem, colocado a posteriori por quem vive. Em oposição, uma notícia editada é, se for realizada com êxito, uma peça cirúrgica sobre a vida. É algo esclarecedor, que faz pensar. Quando são bons, os livros são ainda melhores: não só têm sentido, como têm uma visão. E essa visão, se for escrita com sofisticação, com alcance, pode mudar o mundo. Por conseguinte, nós, escritores, somos (ou deveríamos ser) intermediários entre a vida, entre material em bruto, tão sujo e ineficaz quanto minério, e o papel, palimpsesto para visões refinadas como aço ou cristal na fornalha fervente da mente.
Aqueles que dizem que o conhecimento livresco é inferior ao vivido não sabem do que estão a falar: onde é que se pode aprender como morre uma estrela, numa explosão tão intensa que observá-la de perto daria a impressão de demorar séculos a fio, a não ser num livro? Onde é que se pode ver borboletas com asas feitas de pão-de-forma (já barradas com manteiga), a não ser num livro? E onde é que se pode encontrar o suposto salvador de toda a humanidade, cingido e sangrante, a não ser num livro? Basta abrir um livro para dar luz à casa.
Os livros são vida editada pelos escritores. Já a vivemos, já fomos enganados pelas suas emboscadas, e apresentamos a nossa visão sobre ela. As nossas ideias.
As ideias, claro, não existem. Não se pode tropeçar numa ideia.
Mas só elas são capazes de mudar o mundo.



