sexta-feira, 21 de junho de 2019

Como nascem as palavras


Poucas vezes se tem a oportunidade de assistir ao nascimento de uma palavra.

Elas principiam nas mentes dos escritores, que criam neologismos quando sentem que o vocabulário à disposição não é suficiente para manifestar nos textos as ideias que os inquietam – fenómeno que, esclareça-se, é cada vez mais incomum por culpa da higienização da língua em curso, que ignora o carácter simbólico dos nomes ao propô-los antes como meras descrições (é neste sentido que se vão arrancando do léxico palavras que não se comportam como descrições, digamos, “gerais” – existe uma guerra surda contra o particular e o singular), e pelo pavor presentista à adjectivação, entendida como uma obstrução à transmissão de mensagens mundificadas, racionais e equitativas.

Como escrevi, poucas vezes se tem a oportunidade de assistir ao nascimento de uma palavra, desde o conceito à forma, mas o meu exemplo favorito dessa ocorrência foi plasmado pelo erudito autor inglês seiscentista Thomas Browne num opúsculo que nem sequer tencionou tornar público (inicialmente, no mínimo).

Em Religio Medici, de 1643, um ensaio confessional sobre a relação da crença religiosa (ou falta dela) e a profissão de físico, Browne reflecte varias vezes sobre a morte; assim, a dada altura, no entrecho de uma observação sobre o martírio, pode ler-se o seguinte:

«The leaven therefore and ferment of all, not onely Civill, but Religious actions, is wisedome; without which to commit our selves to the flames is Homicide, and (I feare) but to passe through one fire into another.» [Este sublinhado e os seguintes são meus.]

Nestas linhas, a voluntária entrega do indivíduo à morte é descrita como sendo «homicídio», mas, mais à frente, quando se comenta o desfecho da vida do tribuno romano Catão, o Novo, encontramos o seguinte:

«There be many excellent straines in that Poet [Lucano], wherewith his Stoicall Genius hath liberally supplyed him; and truely there are singular pieces in the Philosophy of Zeno, and doctrine of the Stoickes, which I perceive, delivered in a Pulpit, passe for currant Divinity: yet herein are they in extreames, that can allow a man to be his owne Assassine, and so highly extoll the end and suicide of Cato; this is indeed not to feare death, but yet to bee afraid of life. It is a brave act of valour to contemne death, but where life is more terrible than death, it is then the truest valour to dare to live (…)»

Considero este exemplo emocionante: com poucas páginas de entremeio, a ideia de dar o ser a uma nova palavra, que coalesce na designação «suicídio», porque «homicídio» é considerada exígua para albergar a inteireza do sentido que o autor ambiciona expressar. E, no entanto, foi preciso esperar por 1643 para que Browne, letrado obcecado com a criação de neologismos, o fizesse (foi, também, o criador de centenas de palavras, como exaustão, computador, literário, alucinação, precoce, invigorar).

Cito sempre um exemplo português que reforça esta novidade: no capítulo VIII da quatrocentista Crónica da Guiné, o cronista Gomes Eanes da Zurara narra desta forma o receio que os navegantes exprimem ao Infante D. Henrique quando este lhes pede para irem para além do Cabo Bojador:

«– Como passaremos – deziam eles – os termos que poseram nossos padres, ou que proveito pode trazer ao Infante a perdição de nossas almas juntamente com os corpos, que conhecidamente seremos homicidas de nós mesmos

O sentido e a aplicação de «homicidas de nós mesmos» são idênticos aos que se lêem na primeira transcrição de Browne – «to commit our selves to the flames is Homicide» –, mas a criação da palavra oportuna só viria pouco mais de dois séculos depois.


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Na vacuidade do oceano cósmico

Atrevamo-nos a dar esta resposta à premente pergunta sobre se seremos náufragos na vacuidade do oceano cósmico: estamos sozinhos. Será assim tão desesperante compreender que Atlas poderá carregar um universo vazio?

A vida terrena é um hápax — é, além disso, prisioneira daquela excrescência arquitectónica que nenhum mestre conseguiu ainda erradicar: as enjuntas, triângulos formados pela inscrição de um círculo dentro de um quadrado. Na cosmogonia desenhada pelo artista quinhentista português Francisco d'Ollanda o triângulo é a forma fundamental; telúrio que se derrama sobre o globo para constituir os elementos e os seres, a unidade primeva da vida. Em simetria, para o novecentista inventor americano Buckminster Fuller também o triângulo era o primeiro objecto, a forma primordial por ele serializada em massa na esférica estrutura das suas cúpulas geodésicas.

A vida é uma enjunta formada pela sublime construção do universo; suprema superfluidade que prospera naturalmente, somente pelo harmonioso encaixe de cegas estruturas que em nada se lhe relacionam: termirácula, prodigeomaturga, unarrepetível. Na subitânea dimensão que lhe foi proporcionada, a vida é proteica, multifária, polimorfa; alfabeto adaptável a todos os idiomas e geografias.

No conto O Estudante, Chekhov descreve a comoção sentida por uma aldeã viúva e sua filha ao escutarem, enquanto se aquecem diante de uma fogueira, o relato da paixão de Cristo que lhes é narrado pelo titular estudante, que se lembrou de como Pedro negou Jesus enquanto se aquecia diante de uma fogueira no pátio do Sumo Sacerdote. As mulheres choram sob uma dor profunda, como se fossem elas próprias mãe e irmã do Messias — e o estudante afasta-se, perplexo, por presenciar essa plangência com dezanove séculos de atraso. Ao voltar de barco a casa, o jovem encontra a sua aldeia na linha do olhar e sente-se preenchido por um poderoso sentimento de «juventude, saúde e força» e por uma «felicidade misteriosa». Escreve o autor que «a vida parecia encantadora, miraculosa, imbuída de exaltante significância».

Existe exaltante significância na vacuidade do oceano cósmico. Existe exaltante significância neste esconso formado pelo arco de titânicas forças físicas. Está imbuído de um ininterrupto sinal que é emitido por este ínfimo lodaçal do tempo em que, por excepção, nascemos e que continuamente nos serve de guia no nevoeiro cruel da existência. Esse cordão invisível estendido entre o início e o fim nunca se recolhe ao toque: esse cordão repercute a linguagem da história e do mito. Diz-nos que não estamos abandonados. Acompanham-nos todas as vidas extintas que se intersectaram para chegarmos mais longe — admirável panteão que nos albergará um dia. No interior da inesgotável enjunta que nos deu o ser não somos derelictos.

Essa transparente iminência fez chorar as personagens de Chekhov. Essa proximidade emociona-nos quando lembramos os nossos mortos: onde estarão os pais e as mães desaparecidos senão aqui, na diáfana e improvável excepção que é a única realidade que conhecemos. A única verdade que conhecemos. Mortos e vivos, estamos todos aqui; numa perdida enjunta que mal se distingue na imensidade. Numa crudelíssima e friíssima fímbria do cosmos.


Aforismos



1) Não me lembro de alguma vez ter visto um cão indolente, mas os gatos são capazes de passar horas a olhar para o ar. Deve ser por isso que não existem gatos de guarda e os cães não sonham acordados.

2) Foi uma coincidência feliz que o hábito de castigar alunos virando-os contra as paredes e a prática de decorá-las com papel de parede tenham desaparecido mais ou menos ao mesmo tempo. Quão penoso seria ainda mais o castigo se o aluno tivesse diante de si uma aborrecida parede branca?

3) As raposas regougam, mas alguém as ouviu gougar? Deve ser desta situação que advém a sua reputação matreira: só se ouve o riso e, assim, é natural que se ache que estavam em segredo a fazer pouco da gente.


4) Era tão minimalista que a sua árvore favorita era o palito.

5) A banca evita decorar as novas notas com rostos de personagens históricas, porque é de mau gosto que os cidadãos tenham na carteira imagens de pessoas que não conhecem.

6) Tourada é coisa de Mitra.

7) É raro, mas há refrãos tão bons que dispensavam o resto da canção. É ainda mais raro, mas há dias tão bons que dispensavam o resto da vida.

8) Tardígrado: que com suas garras é do dragar dito.

sábado, 15 de junho de 2019

Sobre notícias falsas e falsificações


«Seria uma boa idéia fazer no final de cada ano um julgamento ao procedimento dos jornais: talvez isso fizesse com que as pessoas que escrevem neles se tornassem mais ponderadas... Comparavam-se os conteúdos de dois ou mais jornais de orientações editoriais opostas com o curso real dos acontecimentos. Assim, talvez se chegasse finalmente a uma apreciação geral da utilidade dos jornais políticos…»
Escrita entre 1789 e 1793, na turbulência das ondas de choque provocadas pelo dealbar da Revolução Francesa, esta nota do polígrafo alemão Georg Christoph Lichtenberg é um antídoto contra a perturbação do presentismo e demonstra que a preocupação com as fake news não é nenhuma novidade; com efeito, já anteriormente escrevi sobre a introdução no léxico português da expressão “notícias falsas” pela mão do plumitivo padre José Agostinho de Macedo, no seu pasquim Cordão da Peste; ou, Medidas Contra o Contágio Periodiqueiro, de Fevereiro de 1821.

Todavia, no início da Modernidade, outra personagem emblematizava aos olhos do público a fusão entre toarda e notícia que consubstancia a chamada “notícia falsa”: a célebre estátua “falante” designada de Pasquino (ainda hoje situada na Piazza Pasquino em Roma). O pedestal desta truncada escultura de Menelau transportando o corpo morto de Pátroclo (datada do século III a. C.) tornou-se a partir do século XVI – e até hoje – o sítio favorito para os cidadãos de Roma afixarem de modo anónimo rumores, maledicências e denúncias – prática popular da qual rapidamente enflorou o nome “pasquim”, sinónimo de jornal de má qualidade ou compêndio de calúnias que os franceses chamavam de canard e os ingleses de gutter press, mas também “imprensa amarela”.

Uma definição curiosa sobre a diferença entre o falso e a falsificação pode ser lida no Brewer’s Dictionary of Phrase and Fable: «um falso é algo que não é genuíno, tivesse ou não o seu criador ou perpetrante a intenção de enganar, enquanto que a falsificação é uma tentativa de fazer passar por genuína uma criação espúria com a intenção de enganar e defraudar.» Assim, Os Protocolos dos Sábios de Sião – panfleto simultaneamente anti-semita e antimaçónico forjado entre 1897 e 1898 pelo aristocrata russo anti-semita Matvei Golovinsky, ao serviço do gabinete parisiense da Okhrana, a polícia secreta czarista, e publicado originalmente em seriado no jornal russo Znamya em 1903 – é uma falsificação – e algumas notícias falsas também são, na verdade, falsificações.

Reportando, pois, às épocas em que panfletos e folhas volantes com noticias falsas circulavam em massa, informo os leitores de idades mais novas que me lembro muito bem de ver nas décadas de oitenta e noventa do século passado – muitíssimo antes do advento da Internet e das redes sociais, em que sobejam memes e fake news – andar entusiasticamente de mão em mão (sem nunca se saber a origem) fotocópias com montagens paródicas e desenhos mordazes, mas também textos de verve verrinosa e de questionável conteúdo político, visando figuras públicas da nossa praça no melhor estilo tradicional pasquinesco. A certos casos mediáticos que rompiam na comunicação social a membrana da vulgaridade, era comum seguir-se um manancial de fotocópias dessa natureza, comentando com humor ou com má-língua os acontecimentos – por vezes, fotocópias de outras fotocópias, em que o grão rebentado até aos limites da legibilidade concorria para criar uma especial estética semi-punk que conferia contornos de comédia slapstick a algumas das montagens mais atrevidas. Em suma: as memes e as notícias falsas não foram inventadas na era da Internet.


Pessoalmente, uma imagem que considero emblemática da problemática das notícias falsas é aquela que foi popularizada em 1679 por La Fontaine na sua fábula do macaco e do gato, embora o conceito lhe preceda: nessa história, Bertrand, um macaco javardo, instrumentaliza Ratão, um gatarrão crédulo, a tirar do lume castanhas assadas; no entrecho, a jeremiada de Bertrand surte efeito e Ratão lá vai queimando as patas na fogueira – absorto na miserável tarefa, o gato não se apercebe que o macaco está a comer as castanhas todas. A chegada de uma criada põe em fuga os dois malandros: um de barriga cheia e o outro chamuscado. E como mostra a ilustração publicada em anexo, antes de La Fontaine redigir a sua versão existia outra em que o macaco sem nenhuma subtileza subjugava o gato e usava uma pata deste como ferramenta para tirar ele próprio as castanhas do lume. Ora, as noticias falsas sempre funcionaram assim: por mais imperceptíveis ou grosseiras as histórias inventadas por espertalhões, quando se actua em função delas acaba-se invariavelmente queimado. E quando a verdade chega finalmente à cena, dissipando todos os intervenientes, nem todos partem de barriga cheia.
                

Desmistificando a teleologia neo-milenarista de Steven Pinker em duas partes

I.

Finalmente tive tempo para ver a gravação que fiz da recente palestra que Steven Pinker deu em Lisboa e constatei com desânimo os erros históricos e as espantosas simplificações com que este autor — que eu muito gostava de ler e de recomendar com entusiasmo quando ele se dedicava à teoria da linguagem e à psicologia cognitiva — defende a sua teoria teleológica de um Milénio liberal, baseado nos "valores do Iluminismo".

Uma das desmontagens mais lúcidas dessa teoria foi publicada por Nicholas Nassim Taleb e Pasquale Cirillo sob a forma de um artigo académico intitulado The Decline of Violent Conflicts: What the Data Really Say? Convido os meus leitores a prestarem-lhe atenção e, também, a lerem o paper On the Statistical Properties and Tail Risk of Violent Conflicts — este apesar de estar voltado para leitores mais especializados em matemática é, ainda assim, compreensível. Deste, aliás, transcrevo esta passagem do seu intróito, que encapsula na perfeição toda a falibilidade das premissas pinkerianas:
«Similar mistakes have been made in the past. In 1860, one H.T. Buckle used the same unstatistical reasoning as Pinker and Spagat.

"That this barbarous pursuit is, in the progress of society, steadily declining, must be evident, even to the most hasty reader of European history. If we compare one country with another, we shall find that for a very long period wars have been becoming less frequent; and now so clearly is the movement marked, that, until the late commencement of hostilities, we had remained at peace for nearly forty years: a circumstance unparalleled (...) The question arises, as to what share our moral feelings have had in bringing about this great improvement."

Moral feelings or not, the century following Mr. Buckle’s prose turned out to be the most murderous in human history.»

II.

Em relação a esta publicação anterior, um dos erros históricos de Steven Pinker é a constante ilustração dos tempos antigos como particularmente obcecados com a tortura e métodos perversos de execução — nisso é coerente com a sua patente (mas à la carte) iluminismofilia e já explicarei porquê. 

 
Este autor é sempre pródigo em apresentar slides com exemplos de torturas medievais e modernas para contrapor essas imagens com a candura iluminista que ele tanto gosta, de molde a dizer "vejam como já deixámos a barbárie para trás". O que ele não sabe — ou se sabe, não revela — é que a maioria dessas imagens, pelo menos as mais exóticas e violentas, retratam cenas que nunca existiram: são ilustrações decalcadas directamente de narrativas hagiológicas ou episódios mitológicos. A sempre conspícua imagem de um homem dependurado pelos pés a ser serrado ao meio, por exemplo, tem origem no lendário martírio do profeta Isaías que, segundo o hagiológio, assim foi executado — nesta ilustração que aqui apresento, da chamada Biblia de Roda (c. XI-XII), ainda pode observar-se Isaías coroado por um nimbo de santidade, atributo que, ao longo dos séculos, perdeu visibilidade em posteriores representações inspiradas neste episódio e que já mostram cenários seculares.

Foi, precisamente, no século XVIII, o vulgarmente chamado das Luzes (do ponto de vista histórico é mais correcto designá-lo desta forma que pelo adjectivo Iluminista), que se construiu uma ideia grotesca da medievalidade e da modernidade, com a profusão de falsos instrumentos de tortura inventados por antiquários. Nesta ligação podem ler um artigo que escrevi sobre isso há uns tempos.

Nesse sentido, não há duvida nenhuma que Pinker perdura a tradição iluminista de pintar o passado mais negro que o presente.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma hipociclóide trajectória de vida

 
A máquina humana é um eternigrama, cujo fulcro é o coração: em forma de cone, ele é a jóia orgânica que mais se assemelha à representação cónica do tempo conceptualizada pelos físicos, segundo a qual cada indivíduo é o orifício de uma pessoalíssima âmbula por onde passa como areia em vidro o fluido espácio-temporal — atrás, uma história vasta de ocorrências e possibilidades contra-factuais; em diante, todas as conjecturas. Somente o presente é pequenino, quasi-unidimensional. Em momentos de morbidez ou melancolia, essas imensidões atemorizam, uma por arrependimentos, outra pelo desconhecido — e em ambas o coração pronuncia-se aflito como pássaro em gaiola; infinitesimal ponto de fuga de todos os universos pessoais, uma topografia traçada em quadrícula por sismografias originadas nesse Cocito que é o occipício.

Porém, de que tempo estamos a falar? Mutante que se transfere por inteiro de uns anos para outros, objecto que oxida verdadeiramente e do qual a velhice é a ferrugem, o homem só se torna compreensível se for pensado como criatura híbrida de matéria e de espírito — de tempo —, tal como a marinha lesma verde e os vulgares cogumelos das nossas matas são seres híbridos entre o animal e o vegetal. O ser humano é um pólipo entre o carnal e o temporal, carneiro da Tartária entre animal e transcendente, na sua hipociclóide trajectória de vida não vive, verdadeiramente, nem no mundo, nem no tempo: erosivo, aquele esboroa-lhe o corpo com impiedosos rasgos de senectude; o outro fá-lo estrangeiro da sua própria identidade, ruína entre ruínas. Só no fluxo eterno está em casa o ser humano — só na coruscante sefira dos sonhos e dos deuses ele se encontra entre iguais, orbivagante e pluridimensional. Só aí nasce idoso e morre jovem; só aí acena uma despedida quando se aproxima; só aí, entre protaicos da mesma ordem, ele comunica com um sargaciante oceano de memórias em que coexistem todos os períodos.

A vida é, pois, como o coração, ponto de fuga entre dois estádios de não-existência. Nodular tirocínio que todos os seres precisam de atravessar.


domingo, 9 de junho de 2019

Álgebra azul


Gostamos de pensar em termos de contraposições, mas objectos haverá que não possuem laços de mútua oposição com outros; no entanto, em obsessiva logotaxia, subordinamos substantivos em artificiais e contrapassantes relações. Vida e morte, por exemplo, serão artefactos intralinguísticos quase arquetípicos desse desempenho imprudente, contudo como computar o verdadeiro valor de uma palavra? Por qual razão lhe atribuímos um especial significado?

Na fantasmagórica linguagem algébrica as expressões unem geralmente duas peças através de sinais ora positivos, ora negativos – mesmo quando se transcende a dimensão binomial para se comunicar através de polinómios, esses intersticiais sinais de + e de - nunca deixam de impor-se, uma constatável objecção à alegada abstracção do cálculo proposicional – argumentum baculinum. É fácil ignorar que a morte é uma palavra volúvel: quando se pensa nela aplicada aos outros é de volume constante, separadamente da nossa posição no tempo e no espaço, que nem um imóvel sidéreo no breu da inteireza; porém, ei-la a diminuir quando somos nós a fazer parte do enunciado e a observamos reiteradamente à distância. É, pois, ao longe, exteriores à nossa circunstancial abrangência, que repousam com sono levíssimo todas as tragédias do futuro a que somos poupados pela nossa morte: o mundo perpetuará ininterruptos ciclos de crueldade para nunca extorquir às espécies a reconfortante miserabilidade de fenecerem antes que aconteçam horrores insuportáveis. Não há vileza nessa doçura de lástima bafejada pela boca dos mortos num binómio de angústia e alívio: uma palpitação, um corte de papel no coração, e o refrigério da alma é suspeitar que não se presenciou o pior. É por isso que o horror tem de perdurar: para não despossar os perecidos da sua esperança – hierografias perispirituais.

Nesse sentido apotropaico – expiatório – da linguagem, compreende-se melhor o elo contraposicional entre palavras na entusiasmante paralisia semântica do idioma dos Estrumpfes, veiculado em símiles holonimiais: essa língua é atravessada por um mínimo de razão suficiente, purgativo da prosódia, pois a pronúncia é reduzida à completa homofonia. Nela existe, todavia, um máximo de metafísica essencial – é por essa via mágica que a linguagem comum é defendida, preservada, retida incólume por trás de um algébrico código de automática compressibilidade. De compleição lazulítica como os deuses da antiguidade, cor do céu e do espírito, estes desadornados e comestíveis homúnculos da floresta, que servem nas suas histórias de vigários dos anões e dos gnomos tradicionais, são puros contrafortes da voz e do pensamento, pois pela repetição huisclosística – ancólia, angélica, apartada da primitiva tríade telúrica do preto, vermelho e branco – repelem a corrosão das palavras. E a erosão da vida, pasme-se!, parece atrasar-se a esse ritmo, também.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Steven Pinker e o lado negro das Luzes



Desde a publicação de The Sense of Style: The Thinking Person's Guide to Writing in the 21st Century (2014) que o psicólogo cognitivo Steven Pinker se tornou um dos mais exasperantes gurus contemporâneos do cientismo, propondo nesse prospecto uma abordagem positivista à escrita daquilo que ele considera “o bom texto”. O título do trabalho é, especialmente, programático: o guia de escrita para o pensador do século XXI – escrita, sublinha-se, com estilo. Mas qual estilo? Em inglês, sense, denota sentido, evidentemente, mas no enquadramento positivista pinkeriano a acepção é aquela que no século XVIII se baptizava de “a boa razão”: a razão ortogonal, ortodoxa, pragmática e extirpada de metafisicismos.

Os tiques positivistas, esclareça-se, transmeiam toda a obra de Pinker, mas mesmo os leitores mais atentos (como eu, que a li quase toda) não poderiam ter adivinhado que este autor publicaria em 2011 um volume bizarro, intitulado The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes (Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Porque tem Declinado a Violência). Este extravagante livro, cujo corpo mastodôntico singulariza em demasia a debilidade da sua tese – a de que a humanidade caminha, teleologicamente, para um devir não-violento; romagem neo-milenarista que o autor tenta provar com uma profusão estonteante de estatísticas, gráficos e tabelas –, além de estar polvilhado de sérios erros históricos, consistiu no casulo em que Pinker se metamorfoseou em definitivo de psicólogo cognitivo em guru cientificista; ersatz de Rousseau para o século XXI, coligando a inquebrantável fé smithiana no mercado livre com os pergaminhos racionais dos filósofos das Luzes.

O conceito em que assenta The Better Angels […] não é inédito: já em 2005 o escritor americano Harold Schechter publicara Savage Pastimes: a Cultural History of Violent Entertainment (Passatempos Selvagens: uma História Cultural do Entretenimento Violento), opúsculo interessante (escrevi «interessante», porque li quando foi editado e gostei) que Pinker aplaude e reiteradamente referencia no seu cartapácio quatro vezes maior. O ponderado Schechter pressiona suavemente o botão hegeliano que Pinker carrega com toda a força do seu braço, credibilizando com esse volume e com o perfeitamente panfletário Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism, and Progress (O Iluminismo Agora: Em Defesa da Razão, Ciência, Humanismo e Progresso, 2018) uma fantasmagoria da história, na qual a filosofia da “boa razão” das Luzes (o titular Iluminismo, Agora) é servida à guisa de receita para todos os erros hodiernos. Pinker quer ser o Rousseau de um novo Contrato Social para o século XXI: na sua visão utopista, a história caminha a passos rápidos para uma parúsia pacifista e as mortandades em massa que, entretanto, vão ocorrendo (uma chatice) são unicamente resquícios de barbarismo ou acidentes de inferior manifestação na voraz linha ascendente de paz patenteada pelo gráfico.

O seu perfil de académico e, sobretudo, a persona de opinion maker predilecto de luminárias tecnogeek e de vacuidades do mundo da política e do entretenimento oferece um radiante efeito de auréola ao seu discurso, legitimando uma sucessão de disparates. Com efeito, ao propor a filosofia das Luzes como panaceia, Pinker ignora (se de propósito ou não, não interessa, porque o resultado é idêntico) o lado negro e extremista de diversos filósofos seiscentistas e setecentistas: na generalização partilhada entre eles de que o ser humano seria capaz de construir sociedades inéditas com base em leis universais de “boa razão”, científicas, práticas (estava-se no tempo em que se descobria nos laboratórios e nos cafés leis universais para tudo e mais alguma coisa), o espírito das Luzes nunca ocultou uma incómoda propensão para o utopismo autoritário; já presente precisamente em Rousseau, que, entre outras coisas, como a criação de uma religião civil, defendia ser necessário usar a força bruta para obrigar as massas a reconhecer aquilo a que ele chamava de “vontade universal” – tropo que fez escola nos movimentos revolucionários de Direita e de Esquerda coalescidos no século XX, não sendo extraordinário que tanto Giovanni Gentile como Lenine, entre tantos outros, se arrogassem de seus fidedignos exegetas.

Por trás das lentes cor-de-rosa dos seus óculos, Pinker também parece ignorar toda a prosa anti-semita e racista publicada por alguns dos mais célebres e representativos filósofos das Luzes, como Voltaire, Hume e Kant, que escreveram linhas bem desagradáveis sobre judeus e negros. É à sombra desse tipo desultório de ignorância (os ingleses chamam-lhe, expressivamente, cherry picking) dos escritos mais polémicos dos filósofos das Luzes e do delineamento setecentista do que viria a ser o novíssimo racismo científico de Oitocentos – com o seu positivista pendor eugénico –, que Pinker constrói uma iteração do Iluminismo que se assemelha mais à democrática ideologia liberal explanada por Fukuyama no clássico da futurologia falhada The End of History and the Last Man (O Fim da História e o Último Homem, 1992) do que ao Iluminismo histórico.

Em 1750, Voltaire escreveu em Essai sur les moeurs et l’esprit des nations (Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações): «Eles [os judeus] mantém intactos todos os seus costumes, que são o contrário daquilo que devem ser os correctos costumes sociais; assim, foram justamente tratados como um povo adverso a todos os outros, que eles apenas servem por ganância e ódio nascidos do seu fanatismo; transformaram a usura num dever sagrado.» E ainda: «Aquilo que mais a chocou [Émilie du Châtelet] foi ver que essas três ou quatro nações poderosas [Egipto, Grécia, Roma] eram sacrificadas nesse livro [Discours sur l'histoire universelle, de Bossuet] em benefício do pequeno povo judeu, que ocupa três quartos da obra. À margem, no final do discurso sobre os judeus, vemos esta nota escrita pelo seu próprio punho: pode-se falar muito sobre esse povo em teologia, mas ele quase nem merece lugar na história» [traduções minhas, itálico original]. A polímate Émilie du Châtelet, amante de Voltaire, foi uma das figuras femininas mais brilhantes do século das Luzes, mas, tal como o seu amado, achava que os judeus não mereciam um lugar na história. Hume, por exemplo, no ensaio XXIV do póstumo primeiro volume de Essays and Treatises on Several Subjects (Ensaios e Tratados sobre Vários Assuntos), publicado em 1758, escreveu o seguinte na quinta nota de rodapé: «Sou levado a suspeitar que os negros e, no geral, todas as outras espécies [sic] humanas (pois existem quatro ou cinco tipos diferentes) são naturalmente inferiores aos brancos. (…) Na Jamaica, é verdade, dizem que há um negro que é um homem versado e de saber, mas o mais provável é que ele seja afamado por aptidões muito inferiores, que nem um papagaio que é capaz de dizer com clareza algumas palavras» [tradução minha]. Seguindo directamente na esteira de Hume, Kant anotou em 1764 no seu Beobachtungen über das Gefühl des Schönen und Erhabenen (Observações sobre o Belo e o Sublime): «Fundamentais são as diferenças entre estas duas raças humanas [negros e brancos] e parece que são tão grandes no que diz respeito à capacidade mental, quanto no que concerne à cor» [tradução minha].

Transcrevo estes exemplos para mostrar que a “república das letras”, fervente cadinho de ideias inovadoras sobre os papéis dos homens e dos estados, foi, em suma, composta por homens e mulheres reais, de carne e osso, com as suas preferências, com os seus preconceitos e, em muitos casos, com crenças que hoje consideramos inadmissíveis, mas que à época eram aceites como científicas - eram consensuais. Na verdade, podemos trajectoriar o sentimento milenarista positivista que se decalca dos mais recentes livros de Pinker retrocedendo às crenças positivistas do período da Revolução Francesa e dos anos imediatos que se lhe seguiram, marcados por profunda hostilidade entre os pugnadores da positivista “vontade universal” e aqueles que por estes eram qualificados de “inimigos da raça humana”, ambígua classificação de época que não só categorizava padres refractários e monarquistas, como também camponeses (como os da Vendeia) e intelectuais discordantes. Da leitura do primeiro volume das Mémoires d’Outre-Tombe. 1768-1800 (Memórias de Além-Túmulo. 1768-1800) de Chateaubriand compreende-se pelo seu testemunho directo como a primeira fase da Revolução Francesa já estava animada pelo ferino espírito autoritário que caracterizou a fase assassina do Terror. Novas religiões civis criadas de raiz nessa altura, como o famoso Culto do Ser Supremo e, um pouco mais tarde, a comteana Religião da Humanidade, tinham como predicado a transformação da sociedade através do cientismo: a crença que a “boa razão”, materialista, lógica, científica, inauguraria no planeta uma nova era de paz e prosperidade. O nome de Auguste Comte é, neste âmbito, paradigmático: inventor da sociologia (palavra que o próprio inventou) e da positivista Religião da Humanidade, envisionou um mundo utópico em que o governo global seria científico e o conhecimento científico o padrão universal de todas as leis. Nos seus livros, inclusive naquele que ensina a escrever “cientificamente”, Pinker não propõe coisa diferente.

Aliás, em The Better Angels […] pode ler-se: «Parece que a [boa] Razão caiu em tempos difíceis. A cultura popular desabou para novos abismos de estupidez e o discurso político americano tornou-se uma corrida para o fundo do poço. Vivemos numa era de criacionismo científico, disparate New Age, conspirações sobre o 11 de Setembro, leituras psíquicas por telefone e ressurgente fundamentalismo religioso. (…) Apesar de toda a estupidez, as sociedades contemporâneas têm vindo a ficar mais espertas e, tudo somado, um mundo mais esperto é um mundo menos violento.» Este pequeno excerto revela o paradoxo de Pinker: por um lado, avança com a ideia que «a Razão caiu em tempos difíceis», para, em seguida, tirar da cartola o argumento que «um mundo mais esperto é um mundo menos violento», equacionando, à boa tradição positivista, o conhecimento científico à paz milenarista, como se conhecimento e aversão à violência fossem cognatos. As mudanças e os avanços tecnológicos sempre foram observados pelos utopistas como ferramentas salvíficas de uma humanidade na puerícia – desde os caminhos-de-ferro ao foguetão e até à Internet –, mas o advento da parúsia pacifista permanece ainda para além do horizonte.

O profeta Pinker bem pode pregar em milhares de páginas que aquilo que precisamos para corrigir os nossos erros é “Iluminismo, agora!”, mas, como vimos, as filosofias das Luzes não foram mais esclarecidas que as nossas próprias razões actuais, maculadas pelas nossas reprovações e exclusão daquilo que vai sendo considerado desviante da contemporânea ortodoxia científica – desviante do consenso. Somos igualzinhos aos nossos antepassados setecentistas: é que um Milénio, seja qual for a sua cartilha, não tolera a presença de discordantes.

(Imagem: algumas das obras de Pinker e uma tabela de The Better Angels [...] em que esse autor reordena relativamente catásftrofes globais por mortandade para defender a sua tese que a história está a ficar mais pacífica.)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Fragmento de queijeira da Serra de Monsanto (3000 a.C. a 1000 a.C.): algumas sobreposições históricas




O objecto deste texto, integrado no espólio arqueológico do Museu de Lisboa, convida-nos a pensar na estação arqueológica de Montes Claros, na Serra de Monsanto, porque é aí que começa o seu exame, mas, ainda assim, vamos olhar durante um momento para, literalmente, além Tejo, no sentido da vila de Arronches, da qual à antiga capital da província romana da Lusitânia, Emerita Augusta, ou Mérida, fundada em 25 a.C., se vai num fôlego. Não muito longe dessa vila alentejana, na orla do Parque Natural da Serra de São Mamede – nome que tanto evoca o leão sagrado, que no brasão da antiga freguesia homónima de Lisboa agarra uma palma de martírio, como a batalha vimaranense que espoletou a fundação de Portugal –, alcandora-se um antro mais vezes sobrevoado por abutres que pelos gaivões que lhes estão no nome. Na Lapa dos Gaivões (não confundir com gaviões) pode observar-se um conjunto pictórico datado do terceiro milénio antes de Cristo: pintado a zarcão, plúmbeo pigmento que os monges medievais chamavam minium e que está na origem da palavra miniatura, encontra-se um grotesco grafito que mais parece um borrão feito pelo iluminista António d’Ollanda no trapo de limpar os pincéis. E, no entanto, esse borrão, tão indeciso entre o Neolítico e o Calcolítico quanto um hipnopompo na fronteira entre o sono e o despertar, é uma imagem simultaneamente sacrossanta e vanguardista.

Mais carácter que figura, somente os cornos lhe denunciam a condição totémica à qual ainda está arreigado, mas já é uma forma de transição entre aquilo que se vê e aquilo que se imagina; um tipo de representação gráfica que está a caminho da caligrafia, do alfabeto. Flanqueado por dois antropomorfos acéfalos, esta personagem pertence à linhagem ilustre de imagens que inclui os ideomorfos da gruta francesa de Chauvet, o Homem-Leão de Hohlenstein e os pictogramas da gruta indiana de Bhimbetka, mas, mais do que isso, é um dos símbolos mais desenhados e esculpidos pela humanidade: o Homem-Cornudo. Este glifo da Lapa dos Gaivões, pintado num local adequadíssimo para nos deixarmos devorar pelas ideias, é mais autêntico que o espalhafatoso feiticeiro do santuário cavernícola de Trois-Frères, em França, a mais conhecida imagem do género. Autêntico, porque é despojado de quaisquer ideologias, senão a dos próprios cornos: são eles que interessam, verdadeiramente, estejam numa cabeça humana ou animal. São símbolos de soberania sobrenatural e sexual, instrumentos de revelação, e desde a alvorada da imaginação foram respeitados e reverenciados pelos nossos rupícolas antepassados. Facto que nos conduz de volta à Serra de Monsanto e ao fragmento calcolítico de queijeira.

Não pode assegurar-se por que razão é que nos lembrámos de começar a beber leite, mas no resultado de recentes análises a diversos fragmentos de cerâmica datados do sétimo milénio antes de Cristo, sabe-se que pertenceram a recipientes usados para guardar leite e para fazer queijo, por isso tudo indica que nos tornámos galactófagos – ou seja, capazes de digerir a lactose –, logo que aprendemos a domesticar cabras, ovelhas e vacas. Comparativamente à criação de gado para consumo de carne, as rotinas relacionadas com a produção de leite são muito exigentes; nesta perspectiva, interrogo-me sobre se poderia ter estado envolvido algum sentido simbólico ou religioso nestas práticas. Um novo tropo cultural capaz de conquistar a nossa intolerância inata à lactose para, a partir daí, tornar-se, simplesmente, outro aspecto da vida quotidiana? Se sim, isso poderia dissipar a dúvida sobre por que é que se continuou a tentar beber leite, depois de se ter ficado indisposto nas primeiras vezes. Se sim, qual a natureza da comunhão que desejava cumprir-se mediante a ingestão de leite? Com que espécie de divindades se tentava comunicar?

Perto de 3500 a.C., antes da construção da esfinge e da época das pirâmides, os primitivos agricultores e pastores que habitavam nas margens do fértil delta do Nilo idolatravam uma divindade chamada Bat, representada com um rosto feminino, orelhas de vaca e pulcros cornos curvados; mais tarde, quando essa civilização se converteu numa monarquia, os faraós passaram a ser solenizados à nascença com o epíteto sagrado de “touros de sua mãe Bat” (ou Hathor, como veio a ser chamada nesse período): mitopoesia concebida para transmitir a mensagem de que descendiam da velha vaca deusa. As ossadas de vaca achadas em escavações arqueológicas nesses cenários mostram que os bovinos só eram abatidos quando envelheciam e existe a teoria de que o gado era inicialmente criado não só para se beber o leite, mas principalmente o seu sangue – tal como as tribos subsarianas Batemi e Masai ainda hoje fazem para enriquecer dietas que não se afastam dos moldes em que era constituída a dos avoengos egípcios. Antes da criação e difusão dos suplementos alimentares contemporâneos, foi frequente a prática de equilibrar os regimes cruelty free com a imisção de sangue ou acrescentando tutano à confecção dos pratos; foi neste feitio que a cozinheira austríaca Constanze Manziarly confeccionou as refeições de Hitler – que, apesar de vegetariano, comeu conservas Atum Ramirez enquanto esteve escondido no bunker berlinense.

Todavia é persuasivo considerar que não estamos, somente, a falar de nutricionismo neolítico: sangue e leite sempre foram observados como sendo médiuns da força vital. Se há verdade no pregão que anuncia que se é aquilo que se come, então ser-se uno com o divino, por ingestão, é devoção no seu estado mais primário e impetuoso. A profusão de religiões baseadas na bovinolatria que podem contabilizar-se a partir deste período demonstra a importância que esses animais tiveram no espaço económico e cultural das novas civilizações sedentárias. Escutam-se ecos destas espiritualidades no episódio tauróctono descrito por D. Mariana Vitória, nora de D. João V, à sua mãe, D. Isabel de Farnésio, segundo o qual o rumor de encomendar-se um grande boi para abri-lo e introduzir lá dentro o rei, de maneira a curá-lo da lástima provocada pela apoplexia, era falso, porque o boi não era para ele, mas para o príncipe D. José meter lá dentro o braço e a sanar a mão enferma. Nos antigos cultos solares, como o de Mitra, o tirocínio a que está sujeito o Deus-Sol durante o Inverno é ensaiado sob a forma de um festim no qual os iniciados consomem um touro sacrificado: é uma representação da morte que abre caminho à ressurreição; noção que no cristianismo já encontrava um correlativo na história da crucificação. Em síntese, é uma variação do influente mitema a que se deu o nome de “rei adormecido” ou “encoberto”: após um estágio na entenebridade, o protagonista desperta, transformado em Rei – a origem destes cerimoniais salvíficos é, evidentemente, a vitória da Primavera sobre o Inverno, o ressurgimento radiante do Sol. Os homens têm uma tendência inata para segui-lo – inclusive nos rituais que vão formando para dar luz a um mundo brumoso e adverso. Mas de que espécie teria sido ordenhado o leite com o qual se fez o queijo que fermentou na nossa queijeira da Serra de Monsanto?

A teoria de que os bovídeos domésticos europeus descendem de auroques domesticados na Mesopotâmia entre 7000 a.C. e 6500 a..C. está comprovada por análises de ADN mitocondrial. Foram encontrados ossadas de auroques peninsulares em escavações na Sé de Lisboa, nas camadas referentes aos primórdios da Idade do Ferro, mas não existem provas de que esta espécie tenha contribuído para o genoma dos nossos bois contemporâneos; é uma descoberta que somente comprova a coexistência – não é surpreendente, porque o auroque só se extinguiu no século XVII. Porém, existem raças cujo genoma sugere outras familiaridades, como a ascendência Turdetana da raça bovina alentejana, que chegou já domesticada à Península Ibérica, vinda do Egipto – e, nem de propósito, as comoventes esculturinhas de barro que datam dos tempos pré-faraónicos, figurando bois jugados a pastar, mostram que essa espécie egípcia, de cornos largos e revirados para baixo, talvez descendente de um extinto antepassado africano (1), se assemelha muitíssimo aos touros típicos das regiões que os romanos cognominaram de Tarraconense, Bética e Lusitânia. Apesar de tudo, o gado bovino nunca terá sido abundante nesta altura (2) e é mais provável que os criadores de animais que foram amáveis o suficiente para deixarem-nos os seus restos mortais na estação arqueológica dos Montes Claros fossem simples pastores de caprinos: criaturas capazes de sobreviver com os arbustos alcantilados das mais sáfaras serranias. Por conseguinte, o queijo que nos traz aqui à colação foi, certamente, feito com leite de uma cabra calcolítica.

O nome Calcolítico é formado por duas palavras gregas: calkos, que significa cobre, e lithos, que significa pedra. É um período intermediário entre o Neolítico e a Idade do Bronze, denominada Eneolítico (a palavra grega eneo significa bronze), e assinala o aparecimento de objectos manufacturados em metal (o cobre), ao mesmo tempo que a pedra permanece em uso; logo, estamos na madrugada metalúrgica da humanidade, mas os velhos modos de vida ainda não foram substituídos, como atesta o nosso fragmento de queijeira. Ao mesmo tempo que se fala em cobre, pode falar-se, por exemplo, de estanho ou de chumbo: metais dúcteis e fáceis de fundir a baixas temperaturas, ao contrário do ferro, que precisa de uma temperatura de 2000º para fundir-se. Quando se diz que o cobre é dúctil, isso não significa que seja uma espécie de não-metal: é preciso considerar que os netos dos adoradores de Bat construíram as pirâmides com ferramentas de cobre muito elementares – mas extraordinariamente eficazes –, tornadas ainda mais afiadas em conjugação com o efeito abrasivo da areia. Mas o bronze, que é feito ligando-se cobre com estanho, revolucionou os estilos de vida das civilizações; principalmente, permitiu-lhes investir em algo que já andava a ser adestrado desde que as inaugurais sociedades sedentárias levaram a extremos, até então nunca vistos, as noções de “meu” e “teu”: a arte da guerra. As armas que fazem as delícias dos leitores de A Ilíada, por exemplo, são todas feitas de bronze. Existe uma correlação entre o nosso queijo calcolítico e as armas de bronze: são proveitos de uma economia de mercado. No caso das armas, povos do Mediterrâneo Oriental, como os fenícios, trocavam os seus produtos autóctones por estanho, que iam buscar a litorais longínquos, como o paredão pedregoso da Irlanda ou as enseadas encantadoras da occídua fronte peninsular. Mas no que concerne ao queijo, o segredo é o sal.

Na Ilíada, que mencionei há poucas linhas, Hecamede, capturada por Nestor para ser sua criada, inaugura uma combinação gourmet que ficou famosa até hoje, ao servir um bom queijo de cabra com um bom vinho de Lesbos (o facto dela ter ralado o queijo para dentro da taça de vinho não provou ser nenhum impedimento). Todavia, A Odisseia revela-nos que Polifemo, o ciclope que quer devorar Ulisses, é, apesar da sua imbecilidade ovina, um extraordinário queijeiro: tem a caverna cheia de enormes queijos deixados a curar, cujo cheiro faz crescer água na boca aos companheiros de Ulisses. Sem desconsideração para Homero, é mais provável que o queijo tenha sido descoberto por acidente como consequência do costume de beber leite – e de maneira muito semelhante à forma como se descobriu a cerveja, porque ambos são fruto da fermentação –, do que inventado por um gigante antropófago. Tudo terá começado quando algum antigo pastor se esqueceu de beber o leite que guardou num odre feito de estômago de cabra ou de ovelha: ao permanecer mais tempo em contacto com esse revestimento rico em quimosina – enzima que possui propriedades coagulantes –, o leite, simplesmente, coalhou. Não terá demorado muito tempo até que, por experimentação, se tenha concluído que mergulhando no leite as coalheiras de crias por desmamar se acelerava e aperfeiçoava o processo (a coalheira é a última câmara do estômago dos herbívoros ruminantes: os restantes compartimentos gástricos chamam-se pança, barrete e folhoso). A nossa queijeira calcolítica seria mais ou menos assim: um coador cilíndrico de cerâmica com duas bocas para introduzir a coalhada e paredes perfuradas para que o soro do leite escoasse. Parece ser uma tecnologia muito básica e ineficiente, mas até os queijos industriais continuam a ser feitos segundo estes princípios básicos. Objectos desta natureza assinalam a chamada "Revolução dos Produtos Secundários", na terminologia do arqueólogo inglês Andrew Sherratt.

Os romanos foram, como os gregos, apreciadores de queijo e o nome em latim para este género de queijeiras é forma, do qual derivam os nomes italiano e francês para queijo: formaggio e fromage. A nossa palavra queijo não originou desse nome em latim para queijeira, mas do nome romano para o próprio produto: caseu, que significa amargo. É, de facto, muito parecido com as palavras em latim para choça e infortúnio: casa e casus. A primeira é, como é evidente, a nossa palavra casa, que os romanos nos deixaram quando por aqui passaram. É que, em latim, a palavra domus, popularizada por tantos livros e filmes como sendo a palavra para “casa”, significa uma grande propriedade abastada, mais a familiae (escravos) que lhe está agregada, e relaciona-se com a palavra dominus, que se traduz por amo ou proprietário. Segundo o latim, todos nós vivemos em choças.

Será que existe uma analogia significante entre estes étimos em latim para as nossas palavras “queijo”, “casa” e “infortúnio”?
Em A Anatomia da Melancolia, Robert Burton medita sobre as faculdades morbígeras do queijo e das restantes «viandas de leite», como lhes chamava D. Duarte – o nosso rei mais “burtoniano” –, porque sendo alimentos “frios” têm o poder de estimular o frio humor «merencórico» (outra designação “duartiana”, anotada em O Leal Conselheiro). Que afinidade se aglutina entre o queijo e a amargura? Desfraldo neste instante um parêntesis para pensar sobre a influência que poderão ter tido nesta matéria uns hipotéticos e rústicos queijeiros, trabalhando amargamente em choças de colmo – não dissemelhantes às dos pastores portugueses, que perduraram até ao século XIX – para produzir agres queijos que iriam vender no mercado.

No seu Livro das Grandezas de Lisboa, Frei Nicolau de Brito garante que os queijos do reino de Portugal são «os mais estimados e nomeados que há no mundo». Descontado o pendor que o cronista tinha para o exagero, esse engrandecimento encerra uma pequena verdade: poderão não ser os melhores do mundo, mesmo que o da Serra de Estrela – feito a partir de leite de ovelhas que Gil Vicente chamou de «meirinhas» (que é como quem diz “lanudas”) – e o de Serpa (também de leite de ovelha) mereçam essa distinção, muito cobiçados são, sem dúvida.
Então e o da Serra de Monsanto?

Infelizmente ou felizmente, esse ficou, em rigor, para a história. Aquilo que nos desvendou sobre as incipientes lactoindústrias do Calcolítico, nas suas dimensões mitológicas e práticas, aplanou-nos o degrau cronológico pelo qual ascenderemos a uma Lisboa ainda longe de ser a nossa, mas muito próxima do protótipo cosmopolita, tal como o petroglifo cornuto da Lapa dos Gaivões se declina de desenho para carácter. O sal, como vimos, é o segredo – do queijo e do aplainamento do nosso degrau.

Os caçadores-recolectores nunca trocaram nenhuns objectos por sal, como os agricultores e os pastores fizeram, porque eles encontravam sal, naturalmente, na dieta variada que colhiam e capturavam; em semelhança, os animais selvagens não precisam que lhes dêem sal a engolir, como precisam os domésticos. Para manterem-se vivos, espécies corpulentas como bois e cavalos precisam até dez vezes mais sal do que nós – é indispensável. A falta de sal dá dores de cabeça e tonturas, provocadas por hipotensão arterial, depois vêm os vómitos, porque sem sal não se é capaz de digerir uma simples passa; em seguida, deixa-se de pensar com clareza, num torpor irascível, e é-se derrotado por uma estranha exaustão que, por mais que se repouse, não desaparece. Finalmente, cai-se num coma e morre-se, porque sem sal as células não são capazes de nutrir-se e expiram de desidratação. É uma morte traiçoeira, porque nunca, em momento algum, se sente vontade de comer sal. Hoje, felizmente, os alimentos que consumimos e a água que bebemos das nossas torneiras, cheia de sais e minerais fundamentais, ajudam-nos a manter equilibrado o nível de duzentos e cinquenta gramas de sal que precisamos para sermos saudáveis, mas que os nossos metabolismos gastam com celeridade. Os romanos não foram nenhuns tolos ao preocuparem-se tanto com esta questão, ao ponto de pagarem aos soldados em sal.


(1) No sítio arqueológico Ouede Mathendous, na Líbia, é possível observar várias gravuras de animais, feitas em rochas de arenito, datadas de há oito mil anos; entre elas, a de uma espécie extinta de bovino (auroque ou búfalo) que poderá ser o antepassado dos primitivos bovinos egípcios.

(2) As escavações supramencionadas no início do parágrafo, no estrato referente à Idade do Ferro investigado na Sé de Lisboa, desvendam que o gado bovino continuava a ser pouco consumido, em relação ao ovino e ao caprino.