domingo, 27 de setembro de 2020

Centros, n.º3

A arduidade de muitas práticas contemplativas que diversas religiões exigem aos crentes constitui uma prova mais do que suficiente de que o Homem não foi feito para o silêncio: assente na oralidade e na escrita, a linguagem é uma forma de vida na aventura humana, reproduzindo-se de indivíduo para indivíduo, coagindo artífices da palavra a transmutá-la e resignificá-la. Mais do que ser uma interrupção da unidade da inconsútil manta discursiva, a assonia do silêncio é um espaço de ausência do humano; logo, o lugar do sagrado, na perspectiva de que o sagrado é, sempre, a antítese do humano, uma formidável força antropofóbica, porque nas crenças que admitem o contacto do homem com o númen, aquele tem de transcender a carne, qual crisálida ou casca de suas primícias, de molde a ascender da plataforma profana que é este mundo.

A percepção de que o silêncio era sagrado — e intangível — expressa-se nos pânteos paleolíticos, preenchidos por divindades teriomórficas, amálgamas de homem e animal, em desiguais graus de hibridez. Esculpido há quarenta mil anos num dente de mamute, o Homem-Leão de Hohlenstein-Stadel representa essa característica da religiosidade primeva: descoberto numa caverna dos alpes suábios, na Baviera, uma semana antes do início da Segunda Grande Guerra, este ídolo de uma Europa tão antiga que poder-se-ia apelidar de mítica, ergue-se em trinta centímetros de altura — pouco mais alto que um gnomo de jardim (outra criação das alpinas latitudes germânicas) —, enfrentando com confiança felina o olhar dos observadores. É um macho sem juba, segundo o figurino do extinto leão das cavernas europeu, espécie cujos últimos descendentes ainda foram caçados pelos antigos gregos e romanos. Este é o Leão de Nemeia, fabulosa fera chacinada por Herácles no seu primeiro trabalho: o último filho de Équidna, primordial mãe de todos os monstros, irmão mudo da Esfinge. O silêncio e a ferocidade, apanágios dos deuses, anaglifados por lâmina de pedra; arrancados, por esse lítico fórcipe, do útero da matéria-prima animal até a cintilante e imaterial sefira do sonho.

O seu homuncular corpo não se encontra anediado pela erosão milenar, mas pelos ininterruptos afagos dos crentes: isto é adoração no estado mais puro — carícia, beijo, prometimentos contra a miséria dos elementos. Contra a fome e contra o desespero, o Homem-Leão foi venerado na sua despojada gruta: santuário ‘ad fontes’ de todos os templos seguintes. A sua silhueta ainda transmite uma firmeza simultaneamente autoritária e compassiva, de quem, em segredo, gostaria que as presas humanas se tornassem seus filhos. Os deuses não falam, porque ensinam pelo exemplo.

Não obstante, nós falamos — com efeito, não somos capazes de ficar em silêncio. Mussitamos suaves orações, rogamos de voz entrecortada pela desesperança, quando não amordaçada pela própria morte em leito hospitalar cercado de crípticos e cruéis instrumentos. Procuramos a luz fosca da memória; tão fosca quanto uma candeia acesa numa caverna — e igualmente frágil. As palhas da memória precisam do fogo da imaginação.

Esta é a verdade da condição humana: comunicar com o numinoso e ominoso silêncio dos deuses, transcender os contornos do Antropos em direcção ao zoomorfismo silencioso e sagrado das bestas. Homem-Leão, Homem-Pássaro, Homem-Peixe: os elementos não aprisionam o humano transfigurado. E no entanto — uma semana depois de o Homem-Leão ter sido descoberto, deflagrou a barbárie: o mesmo território que deu à luz o monacal Homem-Leão também vomitou o Holocausto. O Homem é um construtor: ergue catedrais e câmaras de gás; fabrica deuses e crucifica-os. Sozinho no universo, só ele inventa o Céu e o Inferno.

A vantagem de idolatrar o silêncio, como bem sabiam os aurignacenses, é que, ao contrários das vociferantes ideologias e credos contemporâneos, não nos é dito como nos devemos comportar: isso — tal como a opção entre cultivar ou não a imaginação — é uma escolha de cada um.

Centros, n.º2

Do rol de confusões da contemporaneidade, uma que me desgosta especialmente é o erro de achar-se que Ciência é o mesmo que Tecnologia e que esta é o mesmo que Fé na tecnologia — a fé de que o desenvolvimento geométrico de comodidades tecnológicas remirá o ser humano das armadilhagens do seu atávico irracionalismo.

É uma percepção positivista, brotada da fonte das Luzes, esta de que moléstias sociais, como o crime, a loucura e o vício, podem, em última análise, ser extirpadas através da aplicação rigorosa de leis racionais, executadas por governos científicos ou tecnológicos. Os antigos Gnósticos acreditavam que o conhecimento libertaria o Homem — não se tratava de sabedoria, como hoje a entendemos, mas a árdua descoberta de que se estaria encasulado numa ilusão colectiva criada por um demiurgo diabólico. Não obstante, o topos de que o conhecimento liberta, e a metafísica aprisiona, permeia toda a Época Contemporânea e a fé resoluta — obstinada — de que o conhecimento racional, alcançável pela ciência e pela tecnologia, resolverá todos os problemas (mesmo quando se comprova que esse conhecimento nada tem de conhecimento e nada tem de científico). A figura electromecânica do robô, ícone futurista por excelência, é uma preclara representação do Homem Contemporâneo: programado para executar tarefas de modo eficaz — logo, de modo racional —, o nosso sósia cibernético ignora completamente tudo aquilo que identifica um ser humano enquanto tal, começando pela irracionalidade, o erro, o transcendente.

Em oposição ao robô, o Homem é uma criatura transcendental: uma mente divina reclusa num corpo animal, falível e deslustrada, capaz de construir uma catedral e, em seguida, escavar uma vala comum. Talvez a melhor forma de garantir que a catedral seja sempre mais alta que a profundidade da vala comum seja admitir a natureza irracional do Humano. Muitos mais cadáveres foram enterrados pelo Sono da Razão que por todos os Sonos anteriores: por trás de cada genocídio ou utopia totalitária novecentistas encontra-se sempre um plano de utilitarismo científico, servido pelos últimos gritos tecnológicos. Do mesmo modo que amputar um órgão não o torna mais eficiente, é uma loucura esperar que processos de desumanização construam seres humanos mais perfeitos. A ser alguma vez forjado, o Homem Novo com que sonham todas as Utopias não será mais do que um robô.

A arte, o sonho, o amor — até a Ciência —, tudo aquilo que identifica um ser humano como humano não é produzido na prancheta de modo canhestro a régua e esquadro: procede da nossa pré-história mental, de um tempo em que muito antes de se pensar em racionalidades, economias e tecnologias, artistas paleolíticos deixavam as mãos impressas nas paredes das grutas — essas mãos dizem-nos “sou eu”, “estou vivo”, “isto foi o que sonhei”. É umbilical, esta poderosa e telúrica energia somente minerada no lugar mais occipital do nosso pensamento, escondida sob compactas camadas de escória mediática e ideológica: penetre-se essa espessa parede, derrube-se as rochas do suposto racionalismo e, ei-las!, as nossas próprias mãos impressas no estrato mais primitivo. Sempre emergentes em tempos de crise da fantasia.

Com efeito, só a fantasia poderá salvar o Homem dos infortúnios da racionalidade, da miséria da acção funcional, da pressão entrópica do utilitarismo. Este é, à maneira gnóstica, um conhecimento perdido que urge encontrar. Se, como dizia Dostoiévsky, “o homem é um animal que se habitua a tudo”, habituemo-nos a fantasiar, a contemplar as mãos na parede da caverna.

Esta foto é de uma fonte esculpida no início do século XVI, no reinado de D. Manuel: representa o rei e a irmã, D. Leonor, na forma de uma serpente bicéfala que jorrava água por ambas as bocas (sabe-se que são o rei e a irmã, porque estão identificados com as suas divisas pessoais, a esfera armilar e o camaroeiro). Não me recordo de outro caso de representação análoga a esta no espaço europeu e penso que este artefacto singular diz muito sobre como uma sociedade e uma civilização podem aprender a fantasiar. A aceitar que a natureza humana é mitológica e metafísica, em oposição a ortogonal ou positivista. A aceitar que a natureza humana é dupla — sagrada e profana; transcendental e reptante como uma serpente. E, como esta, que é da água, anfíbia.

Uma Lisboa feliz produziu uma fonte feérica, simultaneamente rébus e rebis; puro divertimento contra o desespero e o Apocalipse. Porém, quais são os símbolos do nosso tempo? Onde estão as hodiernas mitologias que nos dão sentido? Não existem: vivemos num mundo artificial e desalmado. Não imaginamos nada, porque imaginar é um atavismo irracional.

Mas não tem de ser assim para sempre.

Centros, n.º1

 

Só aqui o Sol se torna luminífero; apenas aqui o tempo se olha, perdulário, ao enorme espelho marinho. Perscrutáveis por cima, gelo e erva padronizam-se em auricerúlea heráldica, esférica e feérica — sonial partícula, fossilizada ao som de tafonómico poslúdio celeste, solene e imperturbável minueto.


Pois haverá outro centro cósmico que não seja aqui, onde as aves transformam em ninhos os excrementos das debulhas, onde a felpa das feras é tão branda ao tacto quanto as suas presas rasgam a carne? Em que outra esfera se poderá ouvir vagidos ensurdecedores de gigantes oceânicos, opacos num crepúsculo plutónico feito de breu abissal e órgãos bioluminescentes? Onde mais se aprende que o sangue sabe a ferrugem — e onde mais haverá sangue e ferrugem?

Quão confortável é o polinomial niilismo do menosprezo da nossa excepcionalidade. Talvez só os loucos e as crianças acreditem que é aqui o centro universal. Olhando-nos do espaço, isso é uma loucura e isso é uma criancice — mas olhando-nos daqui, submersos em recendência e cacofonia, em nascimento e em putrefacção, picados por insectos e aguilhoados pela imaginação, aqui onde as árvores quase existem desde sempre e onde cada vida humana dura menos tempo que a cobreagem de uma folha, aqui a álgebra e a física não nos convencem da descentralidade: pois o centro do universo é aqui.

Nós somos todos centro. O nosso sofrimento intrínseco não resulta de queda ou de expulsão, mas de ferida feita por compasso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Ninharias Essencias - nova série de David Soares

Na série Ninharias Essenciais, disponível no meu canal de YouTube, apresentar-se-ão curiosidades, enigmas e excentricidades da história - ninharias, mas essenciais.

No primeiro episódio, Inimigo do Género Humano, explana-se o significado e as mutações dessa peculiar designação histórica, partindo de um painel de azulejos do século XVIII, com Santo Antão atormentado por demónios, pertencente ao acervo artístico do Hotel Convento de São Paulo da Serra d'Ossa.

O segundo episódio, Burocracia e Finança, é uma observação histórico-etimológica sobre as origens das palavras ‘burocracia’ e ‘finanças’ e dos contextos cronológicos em que foram inventadas.

(Informo que o quinto episódio da série Pequenas Histórias será publicado em breve.) 

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Pequenas Histórias, ep. 4: "A Peste e o Tempo (freg. da Penha de França)"


Quarto episódio de Pequenas Histórias: em A Peste e o Tempo (freguesia da Penha de França) continua a discorrer-se sobre a história das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo, elegendo como temas o Tempo e a Peste: o fluxo e a descontinuidade.

Da Praga de Atenas de Tucídides à teoria da direcção do tempo de Hans Reichenbach, da vacina de D. João II à morfogénese de René Thom, do Lagarto da Penha de França à ciência imunológica de Élie Metchnikoff, examinar-se-ão os fenómenos da passagem do tempo e dos efeitos de pandemias e epidemias em mudanças irreversíveis do decurso da história.

Uma viagem pela história das mentalidades e das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo.

domingo, 14 de junho de 2020

Pequenas Histórias - ep. 3: "Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior)"

Terceiro episódio de Pequenas Histórias: em Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior), continua a descortinar-se a história das ideias na Época Moderna, desta vez partindo do Terreiro do Paço/Praça do Comércio e Praça D. Pedro IV/Rossio, numa observação sobre o fenómeno do Exótico, reintroduzido na Europa a partir dos Descobrimentos portugueses e da chegada de animais exóticos como o elefante e o rinoceronte à Lisboa Manuelina.

De caracteres pertencentes à gramática do poder real a ícones na linguagem publicitária contemporânea, estes animais exóticos - e outros animais comuns, como o cavalo, reinventados como exóticos - ligam o Homem ao Tempo. Da Roma Antiga à Índia do século XVI, de D. Manuel I a Grandella e Schopenhauer, do rinoceronte ao cavalo, esta é uma viagem pela história das mentalidades e das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Pequenas Histórias. Ep. 2: "O Pânico de Panurgo (freguesias da Ajuda e de Belém)"

Disponível no meu canal de YouTube, o segundo episódio de Pequenas Histórias.

Em "O Pânico de Panurgo (freguesias da Ajuda e de Belém)" observa-se uma contínua correlação entre o desenvolvimento na filosofia de uma moderna mentalidade céptica e o fenómeno do adultério, tantas vezes empregue como metáfora nessas discussões, assim como o recurso a um ideário de humor popular empregue como arsenal crítico ou arma política. Partindo de uma leitura de autores como Gil Vicente, Cervantes e, sobretudo, Rabelais e Molière, olhar-se-á para o episódio do Processo dos Távoras e análogos adultérios aristocráticos como rampa de revoluções no imaginário popular. Uma viagem pela História das Ideias com duas freguesias de Lisboa como pano de fundo.

sábado, 18 de abril de 2020

Pequenas Histórias - ep. 1: "Filhos de Anúbis (freguesia da Misericórdia)"

Este é o primeiro episódio de Pequenas Histórias: série de vídeos sobre a história de Lisboa, que criei para o meu canal de YouTube, contada por freguesias e partindo de personagens e factos ignorados ou desconhecidos, que enfatiza a importância das pequenas histórias no entrecho dos grandes acontecimentos.

Em Filhos de Anúbis (freguesia da Misericórdia), observa-se uma ligação tropológica entre a guerra contra os cães vadios de Lisboa, iniciada a 12 de Abril de 1808 pelo intendente da polícia Pierre Lagarde, e o fixamento dos ideais do Liberalismo. Duas cosmovisões em confronto, num período transitório entre um mundo que acabava e outro que, progressivamente, se instaurava.

domingo, 12 de abril de 2020

Leitura de "O Corvo" de Edgar Allan Poe (trad. Fernando Pessoa)

Leitura minha do poema O Corvo de Edgar Allan Poe (1845), numa tradução de Fernando Pessoa — para todas as gralhas e todos os corvos que flutuem de fugida entre os sopros de uma poesia.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Conta-me como será: ou, Algumas previsões para um mundo pós-Covid-19

 
Sem querer insistir na solidez desta meia-dúzia de previsões (redigidas com base na informação disponível até este instante), afiguram-se-me alguns novos pontos de fuga para o travejamento político pós-Covid-19. Eles são:

1) É plausível uma acelerada ou mesmo abrupta extinção do Liberalismo, nas suas várias facções, concomitante ao reforço de políticas novas que fortaleçam a intervenção dos Estados em áreas que, por tradição, eram do desempenho privado.

2) Políticas que tendam a robustecer a influência dos Estados serão, conjectura-se, muito populares; mas, credivelmente, esse incremento não passará pelo recrudescimento de medidas de Esquerda, porque esta encontra-se comprometida com um projecto Europeu em assinalável moribundez e de baixíssimos níveis de popularidade. Prevê-se, pelo contrário, que essas novas políticas de estribamento dos Estados sejam, efectivamente, de Centro: ideias ditas de Centro serão consideradas as que mais angariam bom-senso e achadas as mais eficazes.

3) O modelo actual de globalização, já flebotomizado até à palidez pela crise de 2008, sofrerá um intenso golpe, porque ficaram ainda mais expostas as fragilidades de um comércio global assente em demasiados intermediários e por sistemas produtivos e económicos demasiado descentralizados. Assim, será provável que os novos Estados fortalecidos adoptem políticas para uma maior auto-suficiência, investindo em áreas de produção já abandonadas e enriquecendo os seus tecidos industriais — em particular Estados que nas últimas décadas se orientaram quase em exclusivo para uma economia de serviços.

4) A reinstituição das antigas lógicas de Estados-Nações não será, pois, acompanhada de um ressurgimento de ideologias nacionalistas novecentistas, pois a auto-suficiência tem limites: situação que poderá acelerar o declínio da União Europeia e nesse seguimento recriar um mundo parcelado em novas-velhas ‘commonwealths’, digamos assim, de interesses comuns, ligadas por laços históricos, geográficos, económicos e culturais (p. ex.: Reino Unido + Estados Unidos; um grupo formado pelos países da Europa do Norte e outro grupo formado pelos países da Europa do Sul).

5) Ainda é cedo para especular como ficarão as preocupações climáticas/ambientalistas que efervesceram de variadas maneiras a opinião pública nos anos mais recentes, mas é provável que o novo ‘milieu’ milenarista pós-Covid-19 sirva de breviário e altar a religiões globais mais adaptáveis à nova moldura política e económica esboçada nas linhas anteriores.

6) Mais do que subsidiar a existência ao espaço digital, a actual experiência de isolamento social demonstrará aos indivíduos que a Internet é apenas uma ferramenta e não a tecnologia utópica que se considerava ser há poucos meses, sendo de prever que esta passe por um período de desencantamento utilitário similar aos de outras tecnologias, como a electricidade — um exemplo: observada nos anos 20 do século passado pelo regime soviético como a tecnologia que faria a revolução socialista global, a electricidade passou pelo seu período de desencanto tecnológico. O mesmo ocorre/ocorrerá com a Internet: ninguém poderá viver sem ela (como com a electricidade), mas perderá as vestes de utopia com que foi enroupada desde a sua concepção.

O heroísmo das pessoas fracas


The Outsider, adaptação de um livro recente de Stephen King, é inscrito pela ingenuidade simultaneamente encantatória e exasperante com que, demasiadas vezes, os autores americanos tentam enxertar as suas criações em mitologias de origem europeia para fazê-las crescer com o viço mítico que alimenta o reservatório folclórico do Velho Mundo; neste caso, a criatura que perambula pelo Bible Belt, metamorfoseando-se em diversas pessoas com quem contacta de molde a predar os fracos sob essas identidades, é descrita como sendo o monstro que, através dos tempos, foi arregimentando relatos e lendas sobre o Papão — ou El Cuco, em expressão espanhola, como é tratado em The Outsider. Com efeito, quando a personagem Holly Gibney, detective contratada para descobrir pistas sobre este estranho caso, navega a páginas tantas num motor de busca de Internet por entre imagens amadoras de avistamentos de El Cuco e as pinturas negras de Goya percebe-se que existe, efectivamente, um distanciamento enorme entre a sensibilidade americana e a europeia, pois se para a primeira essa cena evocará um lastro mitológico longínquo e até desconhecido, para os olhos europeus a mesma cena tem o efeito de um duche de água fria. Quão melhor seria se os criadores de The Outsider tivessem rebuçado o monstro sob o anonimato, numa mitologia endémica, natural desta produção, sem necessidade de alistá-lo no bestiário.

No folclore e no hagiológio de Portugal, a Cuca ou Coca é, muitas vezes, uma criatura saurópside — como o Dragão que é derrotado nas festividades do feriado do Corpo de Deus, em Monção. Nos livros de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, o escritor brasileiro Monteiro Lobato imaginou a sua Cuca como sendo uma jacaré bruxa, prima do Saci-Pererê.

Não obstante a sonoridade patusca, o nome precipita do étimo grego ‘kako”, que significa “mau” ou “maléfico”, e do qual se desprendeu a acepção excrementícia de “caca” e de “cocó”. É, por conseguinte, um nome que tem estado sempre associado ao mal, à sujidade, ao nauseabundo. Aliás, palavras como “cisma”, “consciência” e “ciência” são todas cognatas do étimo em latim “scire”, aparentado de “kako” e do étimo indo-europeu “shkei”, que também significa “excremento”.

Alheias a estas ligações etimológicas, as personagens de
The Outsider caçam El Cuco numa velhíssima gruta de infame historial e conseguem eliminá-lo com relativa facilidade, pois, para sua sorte, a criatura encontrava-se num momento de fraca forma — embora uma coda algo mercenária, martelada já a ficha técnica do último episódio se desenrolava, sugira que poderá ser produzida mais uma temporada.

Não li o livro de King, mas, pelo que conheço do seu estilo,
The Outsider assemelha-se mais a um híbrido eficaz das primeiras temporadas de The X-Files (a sobriedade antártida do tom, da cinematografia e da banda-sonora), os romances de Clive Barker (a caracterização à inglesa da psique perturbada de personagens bizarras) e a matriz narrativa de King (crónica dos medos contemporâneos da sociedade americana, um ambiente cercado pela cultura popular e os ‘underdogs’ contra as forças do Mal).

Na verdade,
The Outsider atenua algumas das características de King que enunciei acima, como as referências à cultura popular da época em que a história se situa, o que favorece o todo, tornando-o mais intemporal. No entanto, no que concerne à crónica pesadelar da actualidade, alia-se no mesmo inimigo o medo da pedofilia e o do roubo da identidade: à semelhança de It, também aqui a criatura transmuta de forma e é uma predadora de crianças — porque «são mais doces», lembrando os fãs de King que o autor tem desenvolvido a ideia de que os seus monstros provêm, em regra, do mesmo local: um abismo inter-dimensional, situado entre mundos, ninho de monstruosidades malévolas, entre o demoníaco e o alienígena. É a influência de Lovecraft, provavelmente, mas se os seus monstros espaciais se caracterizavam pela indiferença face ao humano, os de King estão totalmente interessados em nós. Na verdade, parecem viciados no humano.

É por esta via que eu considero que os monstros de King se comportam como demónios medievais e os seus heróis são representantes de uma espécie de piedade popular de pendor protestante, segundo a qual os “escolhidos” vencerão. Muitas vezes, os heróis de King derrotam o Mal por meios verdadeiramente perfunctórios, o que só pode justificar-se pelo facto de que o actor vale mais que a acção; ou seja: o Mal é derrotado, porque foi enfrentado por determinada personagem e não por outra. No confronto entre o Bem e o Mal é importante escolher o campeão do Bem. No fundo, a Fé vale mais que as Obras, numa lógica determinista puramente protestante — mesmo quando o cunho determinista é atenuado, a tónica assinala-se pela fé nas Escrituras e não na conduta. Assim, os heróis de King (e não só) acabam por ser os indivíduos mais imprevisíveis, os anti-sociais, os marginais, os imperfeitos. Uma lógica que, com efeito, já vinha anunciada na primeira epístola de Paulo aos Coríntios: «Deus escolheu propositadamente as coisas que o mundo considera loucas para envergonhar aqueles que pensam ser sábios e escolheu as pessoas fracas para envergonhar as que têm poder» (Coríntios, 1, 27).

segunda-feira, 30 de março de 2020

Três livros da Europa do Sul: coordenadas culturais e históricas

Observações e leituras minhas de três livros do cânone literário da Europa do Sul: Comédia, de Dante Alighieri (Itália), Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes (Espanha), e Os Lusíadas de Luís de Camóes (Portugal).

Interxtualidades, similitudes e coordenadas geomentais entre estes títulos e as vidas de seus autores desvendam uma mensagem positiva para clarear os dias de incerteza que decorrem neste período em específico — em que, mais uma vez, a arrogância e ignorância setentrionais são projectadas arbitrariamente sobre o espaço meridional.

Uma lembrança da importância cultural e intelectual das obras artísticas da Europa do Sul para o desenvolvimento e consolidação do pensamento europeu contemporâneo.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapa do sofrimento


A Itália é a mãe material e espiritual da Europa.

Foi a partir da Itália que a Europa se desembrulhou, de blástula helenizante para infante império sob égide romana, capilarizando toda uma cultura e uma civilização — cuja matriz ainda nos marca, tal a sua força telúrica e moral. Foi, também, da Itália que a partir do século XIV se operou vitoriante um rejuvenescimento civilizacional que imprimiu novos rumos a uma Europa aleijada pela Peste Negra e por outras calamidades: no dealbar do Renascimento, nenhum outro reino ou entidade política europeia se podia sequer comparar à enorme sofisticação da cultura, da arte e do pensamento italianos — um caveat para alguns políticos setentrionais contemporâneos que têm o péssimo vício de falar com displicência dos países do sul.

Da Itália proveio toda uma linhagem de pensamento sem a qual a sociedade hodierna viveria no bisonho casebre da rudeza mental. Reconhecendo a dívida que temos para com a nossa mãe europeia, publico aqui a cabeça de um velho feita em terracota nos últimos anos do século XV pelo artista renascentista Guido Mazzoni: na sua sulcada expressão cada ruga produzida por diferentes anos de vida podia fazer parte de um mapa do sofrimento que sentiram os milhares de mortos italianos, vítimas da covid-19 — a maioria (ainda) idosos e doentes.

Assim, mais do que arengas de pseudo-solidariedade oriundas das várias cores do espectro político, prefiro olhar para o rosto deste velho e ler nele pistas históricas e transcendentes: políticas e ideologias vêm e vão, tão fátuas e fúteis como o estrume com que se tenta adubar um sáfaro solo — aquilo que de facto importa é inatingível, invisível e interior. Está dentro de nós, nunca desaparecerá e não duvido que nesse incerto futuro que nos aguarda o contributo italiano continuará a ser enriquecedor, incisivo e belo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

"Jabberwocky" ou "A Jibusanoca"


Esta é a minha tradução do poema Jabberwocky, de Lewis Carroll, integrante no segundo livro das aventuras de Alice no País das Maravilhas.

— A Jibusanoca

No acrepantúsculo, viscentes Govancos
geniam, pois, germaiados em gatenhos;
mengoados se sentiam os Licolimancos
e os Gazugapetos ribavam turgimenhos.


“Meu filho, cautela-te da Jibusanoca!
A fauce favola, a garra garrucha!
Evita essa avis, a Papapária, e a toca
da furibumante Bandorrezucha!”

Arrancoandindo o seu gume vergelho,
longimuito buscou a humagem homicidial.
Então, repousou ele sob um Faceirelho,
esvaecedendo-se em brevíssima reverial.

Desabrumado, os cuidados reunira —
eis a Jibusanoca, olhos de fagulha,
maninfestada e bazoflando pela cira,
chegregando com grã burlarabulha.

Um, dois! Um, dois! Desce e sobe!
O gume vergelho foi de Job-a-Job!
Degola a defunta — que ela mereça.
E galofantou, levando-lhe a cabeça.

“Achacinaste tu a Jibusanoca?
Abraça-me, centelhante filhote!
Oh, dia sublimóico! Olarilaroca!
Que rica jóia para meu huchote.”

No acrepantúsculo, viscentes Govancos
geniam, pois, germaiados em gatenhos;
mengoados se sentiam os Licolimancos
e os Gazugapetos ribavam turgimenhos.

(Original: Lewis Carroll; trad.: David Soares.)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Razões pelas quais o Holocausto é singular


Desde inícios do século XIX que as emancipações europeias dos judeus provocaram, em variáveis graus de intensidade, movimentos motivados pelo anti-semitismo, reconstruindo sob um perfil cada vez mais politizado um sentimento social anti-judaico que, em principal na Europa central e de Leste, possuía origens antigas. Nos territórios germânicos, um estilo particular de anti-judaísmo pugnava desde o dealbar da tipografia em folhetos e folhas volantes; alguns de jaez protestante, incluindo os de Lutero, e outros de cariz popular sem assinaláveis vínculos religiosos, mas ambos similares na sua retórica e propostas — inclusive a do extermínio da “raça” judaica.

A ideia de uma maciça matança de todos os judeus fazia, desde essas alturas, parte da cultura das populações desses territórios e já no século XX, a partir de 1905, o ex-cisterciense austríaco Lanz von Liebenfels publicava na sua revista Ostara artigos de campanha para o extermínio dos judeus. Fundador da sociedade cavaleiresca Ordo Novi Templi, von Liebenfels antecipou em décadas o uso nacional-socialista de uma bandeira com uma suástica.

Esta síntese mostra como o anti-judaísmo moderno dos séculos XVI a XVIII se “politizou” ao longo do século XIX após o movimento generalizado das emancipações dos judeus — aliás, nos territórios germânicos esse sentimento anti-semita tornou-se desde logo bastante expressivo, com o caso modelar de Karl Lueger, presidente da câmara de Viena e pioneiro no anti-semitismo de massas, politizado, com a criação do Partido Social Cristão, espécie de mimetismo da coeva Liga Anti-Semita Francesa. Assim, o anti-semitismo nacional-socialista enquadra-se nesta moldura referencial mais alargada de profundo sentimento anti-judaizante grassante há décadas — senão séculos — nos territórios germânicos e de Leste: a legislação anti-semita do regime nazi é em muitos aspectos uma adaptação de velhas proibições anti-judaicas promulgadas por séries de bulas papais e alvarás régios um pouco por toda a Europa. A novidade introduzida pelos nacionais-socialistas no campo do anti-semitismo europeu, como já sinalizou Raul Hilberg em A Destruição dos Judeus Europeus, foi o passo final em direcção ao extermínio — extermínio que, recorde-se, já vinha sendo proposto e teorizado em variadas formas há muito tempo sob a designação “questão judaica”, mas que a máquina de morte nazi implementava de modo industrial.

Não obstante, a singularidade do Holocausto não reside, em exclusivo, na imensidade industrial de horror em que consistiu o extermínio em massa de milhões de indivíduos e a profanação dos seus corpos para retirar-se “matéria-prima”, como cabelos, dentes ou gordura, mas na própria ideologia que orientou esse crime contra a humanidade: o facto de segundo o nazismo o Judeu ser o “inimigo global”. Isto, em suma, significa o seguinte: alguns países europeus cúmplices do nacional-socialismo que, contaminados pelo anti-semitismo, incorreram e participaram no Holocausto, eliminando em massa os seus judeus ou deportando-os dos seus territórios para a Alemanha, tinham como objectivo final a extirpação de judeus dentro das suas fronteiras, numa perspectiva puramente regional; já os nacionais-socialistas, em oposição, queriam, segundo o princípio de o Judeu como “inimigo global”, eliminar os judeus em todo o mundo.

O projecto de engenharia social nacional-socialista foi, pois, genocidário desde o início, evoluindo das para-militares Einsatzgruppen para os campos de concentração e extermínio. O genocídio global de todos os judeus foi um elemento basilar e intrínseco do nacional-socialismo. Mas o futuro do nazismo não ficaria por aqui: em Mein Kampf e, sobretudo, na segunda parte desse livro, publicada postumamente, delineia-se o extermínio dos judeus eslavos, americanos e, ainda, o extermínio no Ocidente de categorias ambíguas de indivíduos designados de inferiores, mestiços ou degenerados. A partir daqui compreende-se que depois de exterminados todos os judeus a identidade genocidária do III Reich pretendia estender o seu venefícuo manto sobre novos elencos de indesejáveis, criados em perpétua sucessão para preencher o lugar vazio deixado pelo “inimigo global” e alimentar a máquina de morte já montada — o Reich de Mil Anos, parúsia hitleriana de pendor milenarista (como milenaristas foram outros totalitarismos novecentistas) construir-se-ia sobre um perpétuo crematório em actividade. A singularidade do Holocausto reside na sua filosofia mortífera de um assassínio humano global e perpétuo. Com efeito, na sua ambição internacional e ininterrupta, não se encontra nada parecido na história: o Holocausto é, de facto, único. Singular.

(Imagem: assassínio de judeus por uma Einsatzgruppe.)

Vida e virtualidade


Ao mesmo ritmo que a Vida é, até prova contrária, endémica deste planeta, ela consiste num fenómeno incidental, contingente de arbitrariedades e coincidências, de infinitesimais ajustes de condições. O mais natural seria que, à semelhança do remanescente cosmos, ela não existisse. 

Surpreende esta conclusão tão óbvia e tão oclusa, a de que a vida é árdua para todas as espécies, em parte porque todas são clandestinas neste mundo que, provavelmente, nunca esperou albergá-las. Na maior parte das vezes, a vida das espécies faz-se contra o próprio mundo: o sucesso delas é a derrota deste.

Quando era criança, vi um documentário sobre a vida selvagem que me chocou e cuja recordação, hoje, ainda me perturba: em África, um punhado de marabus repastava-se em tragar de dentro de dezenas de ninhos feitos nos ramos de uma árvore as crias há pouco tempo saídas dos ovos de um bando de pássaros que, impotentes, prostestavam com ruidoso alarme - num plano filmado em frente ao Sol, via-se distintamente os pássaros bebés a rolarem numa grotesca cambalhota pela goela semi-translúcida dos marabus. Seres com poucos dias ou até horas de existência terminavam a sua efemeridade dissolvidos em bolsas de ácido gástrico, baldando as esperanças dos progenitores que tanto trabalho e desvelo tiveram na edificação dos ninhos. De quem seria a culpa desta circunstância violenta? Dos pássaros que escolheram um mau local para fazerem os ninhos? Dos insensíveis marabus de apetite voraz? Deste mundo padrasto que é perverso e cruel para todos? 

Sem dúvida que a observação deste tipo de ocorrências terá fortalecido a noção de que a vida no mundo é falsa, perversa e injusta. Mais do isso: a ideia de que aquilo que se vive aqui no plano terreno nem vida será, sequer, mas uma paródia marionetada por uma mente doente da qual somente a morte nos libertará. Essa noção platónico-gnóstica encerra a verdade profunda de que a Vida é, de facto, incidental. Este planeta não precisava de ter vida nenhuma. E, como tal, como ainda ninguém lhe disse que ela existia, continua a agir no seu ritmo orocronolento, tão rude e brutal como nos tempos em que lava fundente fluia nas fístulas da Terra. Bactérias, plantas e animais, todos aparentados verticalmente uns com os outros desde que ácidos nucleicos assentaram como escuma na cútis morna do abiogenésico caldo primordial, são superfluidades na arquitectura do planeta, à laia de disformes gongronas nos gerônticos troncos das árvores. 

Radica neste sentimento de revolta o mitema de que a vida verdadeira não é para ser vivida aqui, mas em outro plano não-rebatível com este e somente acessível pela morte do disfarce terreno, como Séneca disse a Lucílio empregando a metáfora de que o corpo era a casca de um novo organismo que nascia com a morte e que se deixava para trás. 

Eu não sei se Séneca estava certo. Sei que, de facto, a ideia de uma vida extra-terrena também teve a sua própria evolução, com recuos, avanços e consolidações. Civilizações existiram que não tinham como horizonte a crença numa vida pós-morte. Com efeito, a percepção de que a Vida é um acidente, e que o Sol não deixaria de brilhar se ela não existisse, parece ter criado dois tipos diferentes de atitudes, cada qual com as suas inflexões contemporâneas: 1) a da cândida aceitação de que esse é o estado das coisas; e 2) a busca da transcendência.

Quando me ponho a reflectir sobre estas matérias muita informação me passa, em rede — no sentido da conexão, mas também no da rede de pesca, com tantos dados ensarilhados uns nos outros — pela cabeça; no entanto, a perturbante imagem dos marabus a devorar pintainhos inteiros pontifica num local elevado da minha catedral de cepticismo. Ao mesmo tempo é também por essa via que compreendo a necessidade do sentimento religioso. Cada criatura, autotrófica ou não, tem de criar para si — não a realidade — um sentido para a realidade, um laço de luz entre o barbarismo das trevas mais interiores e o empíreo salvífico que nos remirá de uma condição incerta, dolorida, por vezes miserável. O Homem é o fruto da verticalidade do barro — como é que se pode desinventar essa roda? O espaço vertical é a coordenada de astros e deuses, de dias e noites, de nuvens e estrelas.

Histórias, mitos, teorias e ideologias, versos, leis e pregões. Onde estão os fósseis das histórias? Onde, entre artropódicas impressões de trilobitas e veneráveis pegadas de dinossauros, se encontra registada a calandragem das ideias? A ficção — a virtualidade — é o elemento natural do ser humano: é tão espantoso assim o sucesso das tecnologias virtuais? Desde que começámos a riscar com cores nas paredes das paleolíticas igrejas que são as grutas que vivemos em completa e total virtualidade.

Efemérides americanas


No passado dia 17 de Janeiro assinalou-se o centenário do National Prohibition Act, mais conhecido por Volstead Act: legislação americana que teve como intenção desbloquear a Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que promulgava a proibição de venda e consumo de bebidas alcoólicas.
 
O enquadramento desta iniciativa de engenharia social foi o chamado Movimento Progressista: espécie de sincrética arena ideológica em que participavam diversos actores, mas onde pontificava gente oriunda do puritanismo protestante, do credo científico eugenista e socialistas de diferentes sensibilidades — todos apostados em aposentar o Homem Velho para indigitar o Homem Novo. Com efeito, acreditava-se que extirpando as bebidas alcoólicas do horizonte dos trabalhadores americanos se iria, entre outros objectivos, fortalecer a consciência de classe desse proletariado e acelerar um devir Socialista. Curiosamente, nesses anos, e em sinal oposto à actualidade, a Esquerda americana era, na maioria, fortemente anti-imigração, pois considerava-a nociva aos interesses dos trabalhadores americanos.
 
Assim, sob essa orientação utópica, entrou-se numa era bizarra de destruição de adegas, detenções em massa de indivíduos apanhados a beber álcool, bares clandestinos, contrabando de zurrapas de qualidade muitas vezes fatal e de recrudescimento do gangsterismo.
 
Sobretudo, não deixa de ser revelador das contradições dessa época paradoxal o facto de o presidente Woodrow Wilson ter mantido para consumo pessoal uma estupenda adega de vinhos, espumantes e licores na Casa Branca — que levou consigo para casa depois de acabado o mandato. Vale a pena reflectir nas consequências sociais de toda a propaganda e iniciativas utópicas desenvolvidas nesse período, pois é provável que algumas das lições a tomar ainda se mantenham no prazo de validade.

A 19 de Janeiro de 1809 nasceu o escritor americano Edgar Allan Poe, que dispensa apresentações. Não obstante, vale a pena iluminar um aspecto de Poe que é pouco conhecido: o facto de no longo poema em prosa Eureka, publicado no turbulento ano de 1848, ele ter descrito de modo literário — e pela primeira vez — algumas realidades cosmológicas somente descobertas no século XX — e algumas apenas há poucos anos.
 
É o caso, por exemplo, do Big Bang, dos buracos negros e até uma solução engenhosa para o problema do Paradoxo de Olbers. Sem formação científica, Poe foi capaz de antecipar muitos aspectos da actual astrofísica, somente pela observação empírica e usando a sua fulgurante imaginação — muito antes da escrita de especulação científica ter sido popularizada por autores como Jules Verne ou Herbert George Wells. A lição a reter desta efeméride é a de que nenhuma tecnologia substitui a analógica imaginação humana, capaz de perscrutar a alma do universo através de ferramentas tão simples quanto lápis, tinta e papel.
 

Somos os vossos pais


O único elemento que persiste intacto depois de uma civilização colapsar é a Imaginação; fossilizada em pedra, osso ou madeira, ela é a recatada rosa-dos-ventos que nos diz que outros Tempos ensaiaram a Vida antes de nós.
Nada do que os antepassados consideraram importante no seu dia-a-dia perdurou; nada daquilo que preencheu as suas preocupações se preservou. Só aquilo que não é material, utilitário, reificado, comunica connosco.
A Imaginação é fluidal, cronófaga, eterna. Só os virtuosos, esplêndidos, trabalhos da imaginação nos dizem “estivemos aqui”, “vivemos aqui”, “somos os vossos pais”.

Votos de Ano Novo



À aproximação de outra transição temporal para um novo ano, encontramo-nos, mais uma vez, na fatal encruzilhada que nos coage à dilucidação de tudo o que se testemunhou nos meses que passaram.

Está-se, pois, na catróptica câmara de reflexão que aumenta todos os detalhes, todas as circunstâncias; nebulosa neuróglia que comunica com todos os instantes em simultâneo, à guisa de acetatos sobrepostos num projector, compondo uma incompreensível e opaca silhueta feita de tudo o que fomos e de tudo o que somos. A cor desapareceu nesta antracítica configuração; emblema ambíguo de um exame a fazer, somente perceptível pelo contorno como os ocos perfis de vítimas traçados a giz ou tinta num pavimento — aí todas as estações do ano estiolam em engelhada decrepitude na forma de um infantil Quantos-Queres em que cada face proto-cristalóide é assinalada não por uma pinta colorida, mas por cheiros, sons e vagas sugestões. Desembrulhe-se esse incipiente origami e descubra-se a verdade sobre nós mesmos.

Somos prisioneiros da percepção linear do tempo, segundo a qual este teve um início e, a ser assim, terá, necessariamente, de ter um fim: esta teleologia é a nossa maldição. Cresce-se num determinado ambiente, alimentado por um determinado discurso, e quando essas coordenadas culturais mudam acha-se sempre que chegou o Fim da História, mas a história não tem fim ou finalidade. A doença da Utopia e da escatologia salvífica tem servido de forragem às mais disparatadas e daninhas ideologias, políticas e cultos, mas, feitos o somatório e a prova, tudo o que os números mostram são indivíduos saponificados em bolhas inter-pessoais de relacionamento. Nada termina, nada se conclui, não existe nenhum desígnio metafísico para o qual flui o rio do tempo.

Somos uma sociedade esquizóide que tão depressa acha que vive no Fim da História como no melhor período possível da história: existem vendilhões e públicos para ambas as sensibilidades. Todos são mestres nas artes do “já ouvi falar”, na bisonha papagueação de chavões repetidos por gente unidimensional que somente lê e ouve outra gente unidimensional, na especulação de conteúdos de livros que se diz ainda pretender ler. A verdade é que somos ignorantes, arrogantes, vaidosos, fúteis e maldosos. Nesse sentido, somos como sempre fomos, desde a pré-história: a natureza humana é exactamente a mesma.

Os meus votos de Ano Novo são os de que se extirpe o pensamento utópico, de que se retorne à realidade e de que se ouça com mais atenção a voz simbólica da imaginação. Foi assim que se inventou a roda, o pão, o livro e a máquina a vapor. O pensamento utópico, escatológico e salvífico só inventou a guilhotina, a câmara de gás e o gulag.

Assim, nesta fatal encruzilhada que nos coage à dilucidação de tudo o que se testemunhou nos meses que passaram, convém perceber que tipo de sociedade se quer ser em 2020: a que constrói o pão e o livro ou a que constrói executórios para quem não se insere na ortodoxia utópica em vigência.


(Texto escrito a 31 de Dezembro de 2019.)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Transcendência ou transposição?


Cronenberg não tem tido a atenção que merece no que concerne à antecipação de algumas atitudes que a sociedade contemporânea adoptou recentemente face à tecnologia digital; embora os seus filmes não sejam, per se, perfilháveis no género da ficção científica, eles encerram uma acutilante reflexão sobre a imprevisibilidade que essas tecnologias comportam.

Este cineasta canadiano foi o primeiro, quanto a mim, a antecipar através da metáfora televisiva o advento da Internet e o modo como a rede digital de informação se infiltraria na esfera privada, mudando comportamentos e pensamentos: a dada altura, no filme Videodrome, de 1983, o Professor Brian O’Blivion, Papa e testa de ferro, em simultâneo, do novo movimento videodrómico e que só pode ser visualizado num ecrã, declara numa das suas emissões piratas que «em breve, todos teremos nomes televisivos». Ou seja, em breve todos substituíriam as suas identidades por criações virtuais - avatarianas. Ora, esta é, digamos assim, a psicotoponomia do espaço virtual, da maleabilidade entre o corpo e o digital - prefigurada no slogan «vida longa à Nova Carne» que serve de senha aos apaniguados de O’Blivion. Por aqui ressoa o desiderato do movimento Trans-humanista e a sua cruzada cibernética de transpôr a actual condição humana (evito empregar a palavra “transcender”, porque o que esse movimento neo-escatológico propõe é, de facto, a transposição da carne, mas mantendo o repertório mental e emocional humano — algo que numa autêntica transcendência seria totalmente deixado para trás). Assim, no filme Videodrome, os esbirros da Nova Carne querem, de facto, transcender a Velha Carne. Cronenberg resgatará este conceito no filme eXistenZ, no qual, já perto do fim, é desvendado que a marca do jogo virtual de novas consolas orgânicas que o grupo de teste esteve a experimentar se chama Transcendenz.

O filme The Fly, de 1986, interpretado na altura como alegoria para a sida (o próprio Cronenberg disse várias vezes que o interpretava como uma alegoria do envelhecimento), aparece hoje como um aviso chocante contra a imprevisibilidade da tecnologia: recorde-se que o filme, para além do horror corporal, inicia numa toada tecnológica, sobre a possibilidade do teletransporte - tecnologia que, a este instante, volta a ser uma das mais faladas nos círculos dos ministérios de defesa e empresariais. O teletransporte de partículas já é, aparentemente, possível — inclusive para distâncias extraterrestres. Resta saber se teletransportar organismos vivos, entidades profundamente complexas, será, sequer, possível, posto que o teletransporte se sustenta numa espécie de clonagem; tal qual, para melhor se compreender, a cópia e envio de ficheiros pela Internet, em que se envia uma cópia do ficheiro e não o próprio ficheiro. Ora, The Fly atira-nos para o colo, ainda com o sangue fumegante, duas inquietações: 1) que riscos advirão de imprevisíveis erros na aplicação de uma nova tecnologia?; e 2) será que o indivíduo poderá conservar a sua identidade no contacto com a tecnologia ou será, inevitavelmente, metamorfoseado para além dos limites do reconhecível? No seu processo de metamorfose, o protagonista perde a forma humana, perde a voz humana e, no final, parece perder o pensamento humano, antes de pedir para ser abatido depois de fundir-se, mais uma vez acidentalmente, com parte da própria cabine de teletransporte, hibridizando o orgânico com o inorgânico. Em suma, todo o filme é, de facto, sobre o modo arrogante e frívolo com que se lida com uma tecnologia ainda desconhecida. Os gregos antigos chamar-lhe-iam hubris.

Em
eXistenZ, de 1999, são os jogos de consola a temática central da reflexão sobre como a virtualidade pode transformar o indivíduo, mas note-se que as consolas - que se conectam ao corpo do jogador através de uma mucosa aberta na coluna - são seres vivos, orgânicos, criados artificialmente para o efeito. O jogo aparenta ser, neste feitio, uma espécie de sonho construído entre a consola e o jogador — sugestão reforçada pela relação de dono e mascote que a personagem principal tem com a sua consola. Pode ver-se aqui uma crítica à dependência e antropomorfização do objecto da dependência, mas sem descartar essa perspectiva também vale a pena introduzir a ideia de que, já que falamos em realidades virtuais - viver uma verdadeira realidade alternativa: ou seja, experimentar ser Outro, em vez de passear-se num programa já definido -, só um ser vivo pode definir aquilo que é uma realidade em específico: ser humano, ser animal ou ser planta — sair de si para ser outra coisa que não visualizar um pacote já preparado pelos designers e programadores. Penso que esta é a chave para compreender a mensagem de eXistenZ — ou Transcendenz. No fundo, é, ao contrário do panfleto trans-humanista, a negação da escatologia: se há transcendência - e não mera transposição - não se pode falar em escatologia. Esta prevê sempre um melhoramento, um aperfeiçoamento de condições prévias, um fio de continuidade. A transcendência não quer saber disso para nada: é, para empregar a imagem entomológica de The Fly, uma mudança de estádio, de crisálida a novo organismo. Por momentos, no desfecho do filme, o monstruoso protagonista de The Fly parece ter alcançado esse patamar, demonstrando uma atitude e sentires que de humano já nada reservam. Mas sob uma segunda e mais radical transformação, o humano sobe à superfície e pede para morrer.

Clemência, comiseração ou, por outro lado, a busca de querer sentir-se novamente humano através dessa derradeira experiência que é o falecimento, momento em que, segundo diz a tradição, vemos as recordações da nossa vida. Será que o híbrido de homem, insecto e máquina, buscava essas recordações para se sentir humano novamente?

E quanto a nós, transformados de forma irremediável por uma qualquer nova tecnologia dominada displicentemente, quem se apiedará de nós com um último tiro na cabeça, de molde a nos sentirmos humanos outra vez?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Poema do Plutão



O gato é uma criança
que pede para brincar quando se está a trabalhar.
Faz uma maroteira – que ele sabe ser desgostada –
e olha oblíquo para nós como se não fizesse nada.
Pega-se nele ao colo como se escreve um poema:
númen de peluche, noemático grafema.
O gato é uma criança
que sorri com o olhar enquanto se põe a arrulhar.
Num esplendor abstratício, feito de felícia etiqueta,
apanha todos os brinquedos numa olímpica pirueta.
Com prazer primaveril furtiva-se debaixo da mesa:
entressonha com o brilho de uma alegria acesa.
O gato é um filho
que escreveria prosa como quem um salmo glosa.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Mitos e verdades


Inversamente às narrativas contemporâneas, sustentadas pelo vápido e pelo transitório, os mitos, filtrados pela peneira do tempo, são, quase em exclusivo, verdade — verdade sobre a condição humana. A verdade é que, passados milhares de anos, a natureza humana ainda é a mesma.

Uma das verdades que mais serviria de guia e aviso para a jornada contemporânea, caso a maioria estivesse com atenção, é a de que facilmente nos podemos transformar em algo que desgostamos; na verdade, metamorfose e temeridade são cognatas na mentalidade clássica. Confronto, más escolhas, transferência e transformação. Ovídio escreveu um livro inteiro sobre esses temas.

A matriz humana é plástica, proteica, instável. Nunca se sabe o que poderá advir de encontros improváveis com matérias desconhecidas. Porém, na actualidade, neste período assinalado por uma espécie de neo-cientismo devedor dos piores tiques do original oitocentista, os mitos são desdenhados, porque não consistem em correctas interpretações da realidade, pressupondo que se pode com facilidade concordar sobre aquilo que é a realidade e, também, sobre o quão objectiva pode ser uma interpretação. Mas o objectivo dos mitos nunca foi o de explicar a realidade, mas o de dimensionar significado. Os antigos não acreditavam na literalidade dos seus mitos — e, em harmonia com essa velhíssima, mas prudente precaução, seria cauteloso que não nos precipitássemos a crer na literalidade dos nossos. De facto, continuamos a criar mitos, mas insistimos em não querer vê-los dessa forma. O impacto desse comportamento será sempre o da transformação indesejada em algo que se detestaria ser, mas que, como as infelizes vítimas dos mitos antigos, se é impotente para impedir.

Talvez não seja arbitrário que a incessante procura contemporânea por identidades se relacione com um angustiante sentimento de vazio face a um mundo que se considera submetido a inéditas transformações, mas um exame histórico demonstra que nada é inédito, verdadeiramente — e é por essa razão que os mitos continuam a significar. A volta do Milénio, como seria de esperar, não trouxe nenhuma das transformações profetizadas pelos prognosticadores: nenhuma utopia se concretizou e isso é assustador para quem lhes dirigiu a fé. Nestes tempos turvos de confusão e ludíbrio, em que nem cultura nem contracultura estão de boa saúde, infestadas pela praga dos pregões, das ideias feitas e do policiamento da imaginação, seria uma boa ideia voltar a olhar para os mitos do passado para compreendermos que 1) não estamos sozinhos nas nossas indefinições e que 2) a falta de discernimento é a mais rápida forma de nos transformarmos naquilo que não gostamos.

(Imagem: Jóia quinhentista, representando a transformação de Dafne em loureiro, usando coral para o efeito.)