quarta-feira, 7 de junho de 2017

O meu poster do filme "Branca de Neve" na revista Sábado

Chamaram-me à atenção para o facto de no passado mês de Março a revista SÁBADO ter publicado uma colecção de cinco importantes posters de cinco filmes portugueses (escolhidos pelo designer e investigador Igor Ramos) e um deles ser o poster que eu fiz para o filme Branca de Neve, de João César Monteiro (2000). Já há muitos anos que não via esta imagem, como é evidente, por isso foi uma boa surpresa. Os outros posters na colecção são dos filmes Canção de Lisboa, por Almada Negreiros, Aniki-Bobó, por Manuel de Guimarães, Kilas - O Mau da Fita e Crónica dos Bons Malandros, ambos por José Brandão.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa


Fãs e amigos, informo que o horário da minha passagem pela Feira do Livro de Lisboa é o seguinte: próximo sábado, dia 10, das 16H00 às 19H00, junto aos pavilhões da Europress (B9 e B11), distribuidora da Kingpin Books. Não estarei na Feira em outra altura. Apareçam.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

«Os Anormais» no meu canal de YouYube em versão integral

Finalmente, no meu canal de YouTube, a versão integral do meu disco de spoken word Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir, é um dos meus trabalhos favoritos. Uma negra e erudita viagem psicogeográfica a vários tempos e realidades, sobre os indivíduos deformados e marginais que viveram em Lisboa, em diversos períodos. A (re)descdobrir.




quinta-feira, 23 de março de 2017

500 anos de Holanda e 10 de Conspiração

 
Neste ano assinalar-se-á (em Setembro) o quingentésimo aniversário do artista e humanista português Francisco de Holanda: para celebrar a efeméride, o Museu do Dinheiro, em Lisboa, inaugurará a 5 de Abril uma exposição intitulada Francisco D'Holanda: Desejo, Desígnio e Desenho (1517-2017), dedicada à vida e obra desta figura cimeira do Renascimento. De igual maneira, neste ano assinalar-se-ão (também em Setembro) dez anos da publicação do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência), no qual a obra e vida de Francisco de Holanda é um dos temas principais: na foto, observe-se na capa da primeira edição do romance a configuração do Louva-a-Deus pintado por Holanda no frontispício do seu livro Imagens das Idades do Mundo (motivo que, sabe quem leu, é de vital importância para todo o edifício narrativo). Assim, gostaria de operar algo especial para assinalar a dupla efeméride, de molde que irei pensar sobre em que poderá consistir essa celebração. Entretanto, convido-vos à (re)descoberta da obra de Holanda e de A Conspiração dos Antepassados.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Exposição "Banda Escrita: David Soares" inaugura amanhã

Lembrando que amanhã, às 19H00, na Bedeteca da Amadora (Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos), inaugura a exposição Banda Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista, comissariada pelo crítico Pedro Vieira de Moura. «"Cultor de uma pesquisa linguística e de um imaginário único, Soares é um exímio criador de ambientes e de interrogações das capacidades do ser humano face à crueldade, a adversidade e a indiferença do universo. Se bem que se possam descrever os seus trabalhos de literatura, banda desenhada e spoken word como pertencendo aos territórios do fantástico, do horror, da fantasia negra, da psicogeografia, isso significaria enclausurar gestos, os quais, partindo dessas premissas, auscultam campos bem mais vastos da condição humana, e para além dela". Pedro Moura, programador cultural da Bedeteca da Amadora.»


segunda-feira, 6 de março de 2017

Exposição "Banda Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista"

Na próxima sexta-feira, às 19H00, na Bedeteca da Amadora (Biblioteca Municipal Fernando PIteira Santos), inaugurar-se-á a exposição Banda Escrita: David Soares - uma exposição em torno do trabalho do argumentista. Comissariada pelo crítico Pedro Vieira de Moura, consiste numa exposição que incide sobre as minhas obras em banda desenhada - tanto as que escrevi e desenhei, como as que escrevi e foram desenhadas por outros artistas. Nesta ligação, podem ler um texto de Pedro Vieira de Moura sobre a exposição e o meu trabalho.
A exposição estará aberta ao público até ao dia 29 de Abril. Estão todos convidados para a inauguração: divulguem e apareçam. Obrigado.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O silêncio é de ouro


Existem muitas estirpes de silêncios no filme de Scorsese, permanecendo, no final, a ambiguidade sobre a qual se refere o silêncio titular: será ao silêncio da ausência de resposta de Deus às preces dos japoneses cristãos perseguidos pelo xogun?; ou ao silêncio cúmplice que os acompanha durante a noite no exterior - silêncio tornado ainda mais opaco pela ausência de som ambiental ou banda-sonora, excepto quando as personagens entram nos espaços interiores, nos quais, suspeita-se, será seguro soltar a palavra? Ou, ainda, ao silêncio opressivo imposto pela novíssima autoridade central japonesa sobre o cristianismo? Avaliando pelos pouquíssimos comentários que ouvi no final da sessão, soprados em surdina por elementos do público, tenho dúvidas sobre se a maioria dos espectadores terá alcançado na mente algum argumento satisfatório sobre esta matéria - ou outra -, considerando que os referidos comentários se pautavam por declarações de aborrecimento ou de que o filme «era uma brutalidade [de tempo, calculo, pois possui pouca violência explícita] e não tinha mensagem» - esta declaração proferida por um cavalheiro de cabelos brancos, desfazendo o mito de que somente as novas gerações não estarão dispostas a entregar-se a um tipo de cinema contemplativo, ambíguo e artístico, como é o cinema exemplificado por este filme de Scorsese.

Com efeito, desenganem-se aqueles que esperarão um filme de época pontuado pela acção contemporânea, ao jeito de, por exemplo, O Último Samurai. Assim, questiono se, de modo geral, existirá - ainda - um grande público (coloco a tónica em grande, porque público há, certamente) para um filme como Silêncio, propositadamente meditativo e flexíloquaz; sem, no entanto, ir tão longe no simbolismo quanto o cinema de Kurosawa. Na verdade, que diria o público que considerou chato o filme de Scorsese diante de Os Senhores da Guerra de Kurosawa, filme de ritmo lentíssimo, embora emocionalmente angustiante, profundamente simbólico e cruel? Estaremos, pois, vivendo no ocaso do cinema que incita a contemplar, do cinema que, insistentemente, faz perguntas, em vez de dar um receituário pré-fabricado de estímulos já experimentados, guiados pavloviamente pela montagem frenética e pela banda-sonora? Não me refiro a herméticos universos autorais isolados, como o caso de David Lynch, entre outros, mas a um cinema de tipo meditativo para o grande público: um que, não recusando contar uma história (seja lá o que isso for...), a conte de um modo que ponha o espectador a agir em conjunto com o filme, a formular hipóteses sobre o que está a ver. De facto, o cinema de Scorsese sempre foi um equilíbrio entre o cinema artístico, de autor, e o cinema de grande público, servido com frequência por uma linguagem estilística e técnica de topo, colocando os avanços mecânicos e visuais de último grito ao serviço de um sentido artístico próximo do simbólico. Não deixa de ser agridoce constatar que a consagração de Scorsese por Hollywood se tenha dado há relativamente pouco tempo e graças a filmes mais convencionais, diga-se assim, quando comparados com as obras a que mais rapidamente associamos o seu nome.

O romance histórico de Shusako Endo, publicado em 1966, já fora alvo de uma adaptação cinematográfica japonesa, estreada no início dos anos setenta, e, também, de uma adaptação livre filmada em 1996 por João Mário Grilo com o título de Os Olhos da Ásia, mas será o filme de Scorsese o que, evidentemente, fará chegar esta história a mais gente e de modo mais incisivo. De um ponto de vista histórico, esta obra - e, calculo, também o romance que adapta - é elíptica: o espectador que não conhecer minimamente o período histórico em questão não compreenderá muito bem o xadrez político complexo da transição do Japão dito feudal (ou senhorial) para uma unificação territorial sob uma autoridade fortemente centralizada num xogunato, nem o papel crucial - fundamental - que os portugueses tiveram nesses desenvolvimentos, em virtude da introdução das armas de fogo nessa sociedade (ainda hoje ocorre todos os anos, em Agosto, na ilha de Tanegashima - lugar onde os portugueses chegaram pela primeira vez ao Japão, em 1543 - um grande festival que recorda e celebra a chegada dos "bárbaros do sul" (os portugueses) e a oferta da espingarda - aliás, o nome da ilha passou a designar o próprio objecto).

Foi a partir de Agosto de 1549, com a chegada de São Francisco de Xavier, que tiveram início as conversões ao cristianismo; conversões a que a emergência em 1603 do xogunato iniciado por Tokugawa Ieyasu (só terminado em 1867) extirpou quase por completo. A sociedade hierárquica e rígida inaugurada pelo xogunato não tolerou o cristianismo, assim como, de maneira geral, a presença ocidental; excepto a de comerciantes holandeses, a partir de 1623, espelhando a espécie de excepcionalidade que existia na China com os portugueses.

Assim, apesar de elíptico, de um ponto de vista histórico, o filme de Scorsese pode consistir num enorme avanço de divulgação histórica, em produtos de entretenimento, da expansão portuguesa e dos seus reais e poderosos efeitos, num estilo de observação já exorcizado da dita "culpa do Ocidente" e dos mitos aliados à propaganda anticolonialista mais radical.

Um filme que apresenta um Japão que, talvez, ainda não tenhamos visto em qualquer outro filme: mais real, mais cruel, mais intolerante. Nesses vectores encontra-se, quanto a mim, o autêntico silêncio titular: o da fé secreta e indizível mantida pelos padres apóstatas, uma fé muda, mas autêntica, que transcende a imanência dos objectos para se concentrar apenas na mente. Nessa perspectiva, a personagem de Kichijiro revela-se quasi-arquetípica, quando se compreende perto do final que o velhaco apóstata em série, aquele que parecia ser um unidimensional oportunista, terá entendido desde o início qual seria, afinal, o segredo desse silêncio precioso. No recente O Herói de Hacksaw Ridge, Andrew Garfield interpretou uma personagem que coloca temerariamente as convicções acima da vida; em Silêncio, o Padre Rodrigues que esse actor compõe é o lado lunar daquela: a vida - a nossa e a dos outros - é o bem supremo, porque sem vida ninguém é livre. O espectador é, pois, livre de julgar por si próprio qual dos dois tipos de heroísmo é o mais virtuoso: o que brota da destruição do corpo sacrificado à morte pelos ideais ou aquele que frui da deformação do espírito de quem se sacrifica pelos ideais mantendo-se vivo.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Como o Sol, em 2017

No dia 31 de Dezembro de 1705, há trezentos e onze anos, faleceu D. Catarina de Bragança no seu Palácio da Bemposta, em Lisboa. Filha de D. João IV com D. Luísa de Gusmão, casou em 1662 com o rei Carlos II de Inglaterra, sendo, até, mais lembrada nesse país pelo costume de andar vestida com roupa de homem - costume que, segundo o anedotário, lhe valia, em surdina, piropos de que teria umas pernas muito bem-feitas - do que pela introdução nesse círculo do hábito de beber chá ao final da tarde. Num parapeito do Palácio da Bemposta pode encontrar-se a ruína de uma curiosa meridiana: instrumento astronómico que assinalava o meio-dia solar. É, pois, com esta nota que desejo boas entradas em 2017 aos meus leitores, fãs e amigos: atravessem o proscénio que dá entrada ao novo ano lembrando o melhor que o nosso passado tem. Escrevo «tem», porque o passado está vivo - muito mais do que o presente, essa infinita ilusão. No fundo, só existe passado e só existe futuro, connosco sempre a tentar um equilíbrio precário no meio, à guisa de titubeante filete de luz incidindo na marca meridional de uma meridiana deteriorada. Sejam bons uns para os outros, leiam bons livros, viajem um bocadito e já terão meio-caminho andado. Daqui a pouco vemo-nos em 2017.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Esboços sobre o Ontem e o Hoje (perspectivas)


No final do século XX, em Portugal, estabeleceram-se, definitivamente, ao alcance do grande público, duas tecnologias que, de facto, operaram uma mudança na sociedade: o telemóvel e a internet; dois eixos de modernidade que, hoje, se encontram, até, mais consonados do que alguma vez se pôde pensar, na configuração do smartphone, aparelho que é um verdadeiro canivete suíço digital. A concomitância do advento destas tecnologias com o final do século XX e com o final do segundo milénio da Era Comum (escrevo concomitância, porque, aqui, a palavra simultaneidade comportaria um incorrecto lastro de intencionalidade) emprestou-lhes um determinado nimbo parusístico - como se, a partir daqui, os cenários mais empolgantes e optimistas, teorizados pelos teólogos da religião do Progresso, estivessem, de facto, a dois dedos de distância da singularidade. Hoje, passada a embriaguez da novidade, percebe-se que não é - não será - assim (tão fácil). Contudo, o que interessa reter é que, após o estabelecimento dessas tecnologias, a paisagem humana mantém-se relativamente estável, no que às mudanças estruturais diz respeito.

Ou seja: pode falar-se num antes e num depois, considerando a ruptura provocada pela introdução nas nossas vidas dos telemóveis e da internet, mas reiniciando a contagem a partir daí detecta-se a homogeneidade dos costumes: os chamados nativos-digitais terão uma experiência do mundo muito diferente das gerações que os antecederam, no aspecto em que estas assistiram a algumas sismografias - a saltos na criação, para ser metafísico - que, desde 2001 para cá, ainda não encontraram ocorrências análogas. A cada ano, surgem novas versões de programas digitais, aplicações e equipamentos, mas, na verdade, as tecnologias de finais dos anos noventa do século XX permanecem as mesmas: um telemóvel (misto com computador pessoal - que é um artefacto ainda mais antigo) e a internet. A ser-se obrigado a elencar, precipitadamente, outro item igualmente impactante teria de referenciar-se a rede social.

No entanto, a rede social, enquanto princípio, tem mais semelhanças com os nossos velhos hábitos do que se poderia, à partida, pensar. Já tenho escrito, desde há muito tempo, que estabelecer ligação a uma rede social é muito parecido ao acto de ir a um café conversar com um grupo conhecido de pessoas: entramos, sentamo-nos à mesa com quem lá se encontrava antes de nós, vamos conversando; à medida que uns se vão ausentando outros vão chegando, criando-se conversas paralelas entre indivíduos que estão na mesma mesa, entre pessoas que estão nas mesas do lado e tudo se vai entrecruzando. Observa-se isso no modo como, por exemplo, se vão desenvolvendo os comentários nas publicações de Facebook, nos espaços previstos para o efeito. Até a publicidade que vai aparecendo nas margens e nas molduras das janelas de navegação equivale à televisão ligada no café ou aos jornais e revistas folheados por quem está ao nosso lado e que vão, pontualmente, concorrendo para chamar-nos a atenção. Uma das grandes diferenças entre ambas as experiências - o ir-se a um café para conversar ou aceder a uma rede social para conversar por escrito (ou não) - reside no feitio como se desdobram as consequências e o fenómeno do inesperado.

No mundo físico, as consequências são imediatas - demasiado, até. No mundo digital, as consequências são distantes - demasiado, também. Isto significa que apesar de a rede social transportar com sucesso para uma esfera digital um simulacro de uma experiência física, com todos os equivalentes a que já se aludiu, ela é incapaz de transpor a distância encurtada pelo imediato, no sentido em que este e o imprevisto são apanágio daquilo que é orgânico. O orgânico emite, constantemente, mensagens, sinais, reinterpreta a cada momento o que é emitido e o que é recebido, tudo mescla em diferentes linguagens (oral, corporal, abstracta) e níveis de entendimento (esotérico, exotérico, intrínseco e extrínseco) - e rapidamente, imediatamente. Até em relações mais especiais, inter-espécie - há uma matriz comum que pertence, em exclusivo, ao orgânico. O digital é incapaz de reproduzi-la. Espera-se demasiado do digital, tal como se esperou demasiado do telégrafo, do telefone, da televisão, das torradeiras e dos aspiradores. A comunicação está mais rápida, em certos casos, mas a consequência - ou, para ser ainda mais explícito, a inscrição - está sempre à distância. Uma distância desincorporada, como um segmento de recta a flutuar no éter: uma distância que desconhece pertença.

Desde 2001 que se anda a viver num segmento de recta desse jaez: enquanto ele flutuar num mar de equanimidade, manter-se-á a ilusão de estabilidade em que se está a tentar construir um presente. Um sintoma de que estamos a solidificar - em sublimação, do estado gasoso do incremento tecnológico estrutural de final do milénio e final de século para o actual estado sólido, em que tudo se vai sucedendo, mas em repetição, em versões actualizadas, mas sem autêntica novidade - é o do desaparecimento da especulação científica no discurso do entretenimento popular. Os indivíduos dos anos cinquenta do século passado sabiam que a ameaça nuclear era orgânica - tão orgânica quanto as torradas comidas ao pequeno-almoço. Hoje, as ameaças dos nossos dias continuam a ser orgânicas, mas vive-se, cada vez mais, na transplantação desse orgânico para um incipiente devir digital; logo, elas inscrevem-se cada vez menos: não é tanto apatia generalizada, ou anquilosamento ético, mas muito mais um desencontro entre planos ortogonais de existência que se aproximam sem se cruzar. Que se observam, lá está!, à distância.

O modelo digital é o da compartimentalização: hoje, compartimentalizamos tudo, sem que exista comunicação entre as categorias estanques em que se arrumam diferentes elementos.

(Imagem: Alegoria da Simulação. Lorenzo Lippi, 1640.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Nomeações Prémios Nacionais de Banda Desenhada 2016

O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, está nomeado para as três principais categorias dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada 2016, atribuídos pelo festival internacional de banda desenhada Amadora BD: a saber, Melhor Álbum, Melhor Argumento e Melhor Desenho.
(Em breve, informarei sobre o período da minha sessão de autógrafos no Amadora BD.)



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Ruínas



No último par de dias tenho passado ao longe por um local de Lisboa que é muito especial para mim e é com amargura que suspeito que está a ser mutilado com demolições, na perspectiva de obras de remodelação. Tenho aprendido com o tipo de brutalidade inveterada da natureza que esta é, de facto, a infelicidade de residir num local - neste caso, numa cidade - que é, em simultâneo, entidade co-responsável num tempo e num espaço e álbum de memórias: indivíduo e pólis consorcizam-se, pois, em frágil polisarcia - fortuita e rúptil como um sonho que se deslaça com o despertar. Em confronto com essa frígida crueldade, que é a da indiferente calandragem das eras, só a cultura pode remir uma mente ferida. Nesta incerteza, evoco palavras que já plasmei em outra ocasião, também sobre memória, cidade e indivíduo; sobre aquilo em que consiste esse laço precioso entre um território e o nosso ser.


sábado, 6 de agosto de 2016

No Convento de São Paulo da Serra d'Ossa

Aproveitando as minhas férias no magnífico Hotel Convento de São Paulo, gravei este pequeno vídeo sobre São Paulo de Tebas, sobre o fenómeno cristão do eremitismo e sobre o significado da palavra anacoreta.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Virtude e efeméride sobre a alunagem de 1969


É muito importante lembrar que hoje se assinala a inaugural alunagem de 20 de Julho de 1969, servindo a efeméride de líquido de contraste à angiografia destes tempos retrocessuais em que vivemos. Sobretudo, deve deter-nos a atenção no facto de que não precisámos de nenhuma Internet para o efeito: somente recursos elementares e muita audácia. Com um objecto tão simples quanto um quadrante descobriram os portugueses metade do globo. Não vivemos, pois, no fim da história, num tempo em que tudo se encontra descoberto e num tempo em que a tecnologia hodierna parece esgotar-se a si mesma num autofágico universo referencial, guindado sobre as massas pela alavanca do consumismo mais primário; pelo contrário, vivemos, como em todos os períodos, num tempo de charneira. O tempo, seja ele qual for, é sempre, determinantemente, uma dobradiça que se inclina para o futuro e se recolhe sobre o passado: os gonzos em que apoia esse movimento são os homens.

Assim, evocando o heroísmo dos primeiros selenautas, proponho o optimismo: não a postiça alegria do tolo que fecha os olhos diante da catástrofe, mas a virtude corajosa do homem que decide, conscientemente, heroicamente, viver de modo positivo. Essa é, afinal, a autêntica acepção de virtude. As forças dominantes de uma sociedade são as da sua classe dominante: ascendamos, pois, a esse desiderato. Sejamos, constantemente, virtuosos, mesmo que achemos irrelevante esse esforço. O exemplo contagiará e propagar-se-á. Se algo ético pode ser retirado da alunagem evocada é que há luz na treva: o espaço é escuro, mas polvilhado de estrelas. Que é outra forma de dizer que há outras intenções neste mundo, que não as más: a luz, é, em grande parte, a claridade nascida da nossa passagem.

domingo, 17 de julho de 2016

Sobre Aleixo, no dia de sua morte


Esta tábua quinhentista (1541), cuja autoria inquestionável é do pintor português Garcia Fernandes (activo entre 1514 e 1565), é conhecida pela maioria do público como sendo uma representação do terceiro casamento do rei D. Manuel I com D. Leonor de Castela, irmã de Carlos V (celebrado a 1518). Todavia, já em 1998, o historiador de arte português Joaquim de Oliveira Caetano propôs e fundamentou a tese de que a imagem mostra o episódio hagiológico do casamento forçado de Santo Aleixo com Sabina. Esta obra faria parte de um conjunto projectado pela oficina do artista para a primeira Igreja de São Roque, em Lisboa (com efeito, a tábua encontra-se em exposição no Museu São Roque da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa). Ora, Garcia Fernandes foi eleitor da Misericórdia de Lisboa e o quadro foi-lhe encomendado por D. Álvaro da Costa, o primeiro provedor das Misericórdias, que, provavelmente, se encontra representado na figura central do sacerdote que celebra o casamento. Sabe-se, igualmente, que poucos anos antes da realização da tábua foi anexada uma confraria de Santo Aleixo à Misericórdia (em 1538); por conseguinte, fortalecendo esta tese. Em analogia, outros pormenores contribuem para a interpretação aleixiana, como a ausência na personagem dita manuelina da insígnia da Ordem do Tosão de Ouro, que D. Manuel I recebeu pelo seu casamento com D. Leonor de Castela. É, pois, neste dia de Santo Aleixo (terá morrido a 17 de Julho) que evoco esta obra enigmática, cujo hirsuto protagonista tem sido utilizado em múltiplos livros de história e veículos televisivos de divulgação histórica como sendo um retrato de D. Manuel I e pelos quais contornos temos desenhado, à guisa de escantilhão, determinados aspectos da vida e façanhas de O Venturoso.