segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Votos Vulpinos de Novo Ano


Votos sinceros de um próspero Ano Novo para todos os meus amigos e leitores: bem-hajam!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

«No Muro»: novo conto original no 'site' do Diário de Notícias


A partir da meia-noite, no site da Biblioteca Digital do Diário de Notícias, ficará disponível para download e leitura um novo conto original de minha autoria, intitulado «No Muro». A convite da Escritório Editora, consiste num conto que escrevi propositadamente para esta iniciativa e que não se encontra, nem encontrará, em outro suporte que não este. Estão todos convidados a aceder à Biblioteca Digital DN (nesta ligação: http://www.dn.pt/Especiais/bibliotecadigital.aspx) para lerem «No Muro», cuja sinopse é a seguinte:
«No Muro» é um conto de David Soares («Batalha», «O Evangelho do Enforcado») que reflecte sobre a finitude do conhecimento, através de um não-leitor que herda a colecção de livros do pai. Encontramo-nos quando achamos livros e perdemo-nos quando os esquecemos.»
Segue um excerto:
«O cheiro dos livros era diferente do dos arquivos do escritório onde trabalhava: aquelas narrativas e aqueles ensaios, lidos de passagem nas matutinas montivagações, não tinham o mesmo cheiro dos recibos e das cópias dos contratos impressas em papel-químico. E, no entanto, tudo isso era feito de papel. Já matara imensos peixinhos-de-prata, asilados da luz entre os livros, mas no escritório, também empanturrado de papel, não havia nenhuns. Porquê? Estava a aprender que nem tudo o que era feito de papel era da mesma ordem – e ao folhear os livros, uns a seguir aos outros, aprendia mais coisas. Aprendia que os homens, todos feitos da mesma carne, tal como os livros e os recibos eram feitos do mesmo papel, não eram iguais: havia homens que eram mais como os livros e existiam outros homens que eram mais como os recibos e separavam-nos uma distância intransponível, uma trágica incomunicabilidade. E ele estava a aprender a qual dos lados pertencia.»

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Nova entrevista sobre «Os Anormais»

No novo número da Infektion Magazine, já disponível para download, poderão ler uma entrevista comigo sobre «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense», spoken word escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir. Sinto-me privilegiado por ter tido oportunidade de responder a perguntas muitíssimo interessantes (feitas por Ruben Infante), o que, infelizmente, vai sendo raro hoje em dia: http://issuu.com/infektionmag/docs/infektion19
Na secção de críticas poderão ler uma excelente resenha do disco - que, lembro, está disponível para compra nesta ligação: http://necrosymphonic.bandcamp.com/album/os-anormais

domingo, 23 de dezembro de 2012

Recordando doze anos de banda desenhada (2000-2012)


A iniciativa de criar este prémio excepcional - Troféus Central Comics 2001-2012 - consiste, também, numa homenagem à banda desenhada portuguesa que foi criada e editada ao longo desses anos: numa conjuntura actual de mercado cada vez mais desmemoriada e desenraizada, é uma boa oportunidade para recordar (ou descobrir) alguns dos mais importantes livros portugueses de BD que marcaram a primeira década deste século, como, por exemplo, A Pior Banda do Mundo: O Quiosque da Utopia de José Carlos Fernandes (Devir), Salazar, Agora na Hora da Sua Morte de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (Parceria A.M.Pereira) e O Amor Infinito Que te Tenho de Paulo Monteiro (Polvo). Aliás, só o facto de se voltar a chamar a atenção para estes três títulos indispensáveis, entre tantos outros, demonstra a pertinência destes Troféus Central Comics 2001-2012 e, além disso, relembra a riqueza de estilos, escolhas e abordagens com que a BD portuguesa sempre se fez.

Inscrevendo-me no exercício de memória a que somos convidados acima, não quero deixar de evocar, em breves apontamentos, a minha própria obra de banda desenhada (de 2000 para cá): não só porque ela me orgulha bastante, como, neste momento, em que preparo dois novos livros de BD (um para ser editado em 2013 e outro em 2014), penso que é fundamental exemplificar que é o trabalho árduo e contínuo - de rigor e de imaginação - que faz a carreira de um autor.   
  


Cidade-Túmulo (Círculo de Abuso, 2000)
Argumento e desenhos: David Soares

«Metáfora assustadora do que, lentamente,
se alimenta do velho para construir o novo.»
Ler, Vida.pt

«Negro. Violento. Denso. Excelente.»
Mondo Bizarre



Mr. Burroughs (Círculo de Abuso, 2000; Frémok, 2003)
Argumento: David Soares; Desenhos: Pedro Nora
Prémios Amadora BD: Melhor Argumentista Nacional e Melhor Desenhador Nacional (2001)

«David Soares medita sobre a criação e os seus custos, pagos nas moedas torturadas em que se costuma resgatar o génio.»
Jornal de Letras

 «Texto rigoroso e surpreendente
Les Inrockuptibles (França)



Sammahel (Círculo de Abuso, 2001)
Argumento e desenhos: David Soares
Troféu Central Comics: Melhor Argumentista Nacional (2001)

«Uma das obras mais sofisticadas da nova BD nacional.»
Diário de Notícias



A Última Grande Sala de Cinema (Círculo de Abuso, 2003)
Argumento e desenhos: David Soares
Livro vencedor de uma Bolsa de Criação Literária do IPLB/Ministério da Cultura

«Inspirado na magia das velhas salas, apresenta uma narrativa cheia de referências ao mundo das paixões e técnicas cinematográficas (...)
recortadas por uma fina ironia.»
Premiere

«Como se encara uma nova proposta de David Soares? Com a presunção imediata de um mundo inventivo, delirante, macabro, detalhado, pensado, onde as palavras fluem em movimentos hipnóticos. O talento de David Soares explode.»
Jornal de Letras



Mucha (Kingpin Books, 2009)
Argumento: David Soares; Desenho: Osvaldo Medina; Arte-Final: Mário Freitas

«Hábil na criação de uma escalada de sufoco (...) quanto à ameaça que a epígrafe de Sófocles, na Antígona, lança na página que antecede a narrativa: "Estas coisas são de um futuro próximo." Mais do que o zumbido contínuo das moscas, são essas palavras que ecoam em cada prancha de Mucha
 LER



É de Noite que Faço as Perguntas (Saída de Emergência, 2011)
Argumento: David Soares; Desenho: Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel Silvestre da Silva, Richard Câmara

«Uma narrativa prenhe de símbolos e leituras simbólicas.»
Os Meus Livros

«David Soares pesquisa mais fundo, tenta traçar um retrato mental do país (...) um livro que vale a pena ler, decifrar, discutir».
Jornal de Letras



O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011)
Argumento: David Soares; Desenho: Pedro Serpa
Prémio Amadora BD: Melhor Argumentista Nacional (2012)

«Como en toda la obra de Soares, el mejor guionista de la historieta portuguesa contemporánea, O Pequeno Deus Cego cuenta con las palabras justas. Como un mago, Soares navega entre la vida y la muerte, entre el sueño y la conciencia, entre la palabra y la imagen, entre la alegría y el sufrimiento.»
La Bitacora de Maneco (Argentina)
 
«Uma alegoria em torno da ignorância e da urgência do seu antídoto (...) para explorar a natureza humana a partir de tempos e lugares concretos, mas projectando as suas incertezas e os seus gestos mais memoráveis ao longo de um arco cronológico sem princípio nem fim.»
LER

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O fedor do lucro


A privatização da companhia aérea portuguesa TAP (a maior companhia do seu género em Portugal) não ganhou altitude, pois nem chegou a descolar, como convém. Resta saber se o negócio absurdo foi somente adiado ou se, com efeito, este é o início do fim da sanha privatizadora que enfebrece este governo; que, a ganhar velocidade, até poderia seguir para a privatização da segurança social, por que não? O que interessa é que a TAP, pelo menos, ficou livre de ser dada em bandeja de prata à Colômbia: esse estado que, note-se, é um dos cinco países onde mais jornalistas são assassinados "misteriosamente" (os outros são o Iraque, a Rússia, as Filipinas e o Bangladesh) e aquele que, de modo geral, é considerado pela comunidade internacional como o país da América do Sul que mais viola, consecutivamente, direitos humanos (suplantando nessa matéria a República do Paraguai e, talvez, as façanhas da República de El Salvador, que fica na América Central).

Menos sorte tem a empresa EDP Renováveis, com a China a comprar-lhe 49% do capital social: a China Three Gorges Corporation já era a maior accionista da EDP, detendo 21,35% do seu capital social e, evidentemente, prepara-se para adquirir o remanescente das acções que, por enquanto, ainda são propriedade do estado português. A China, toda a gente sabe, também tem um excelente currículo de respeito pelas liberdades civis e pelos direitos humanos, como se pode observar pela forma como tem tratado as suas minorias étnicas e religiosas, como os tibetanos ou os falungonguianos, por exemplo. Isto para não falar em negócios que a China tem feito com outros países, como os Estados Unidos, de quem é o maior credor, ao quais chamar obscuros é o melhor dos eufemismos (quem tiver tempo e interesse que leia umas coisitas sobre o imbróglio da venda de água potável entre a China e os Estados Unidos).

E quem está por trás da sociedade Pineview Overseas SA, que detém 91,25% do capital social do grupo Newshold que, até este momento, é a única empresa que manifestou interesse em comprar a RTP (a nossa televisão e rádio públicos)? Ninguém sabe, aparentemente; apenas se suspeita que os seus testas-de-ferro representam milhares - leram bem: milhares - de empresas fantasmas, associadas a uma conta offshore no Panamá. Vamos mesmo vender a RTP - com o seu arquivo histórico das nossas memórias, da nossa identidade estrutural - a nomes sem rostos?

Será que o fedor do lucro já asfixiou todo o sentido de moral, se não de responsabilidade? Será que ninguém se sente chocado com esta pilhagem às nossas maiores empresas estatais, sem as quais ficaremos que nem mendigos diante de interesses pouco saudáveis?
Este é o mundo neoliberal feito à medida pelo governo iníquo que nos lidera: um mundo em que não existe nada a não ser a mais elementar e despudorada das ganâncias, mascarada por palavras chiques como "empreendedorismo" ou "competitividade". É um mundo em que não existem boas ou más políticas: apenas bons e maus negócios.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O lobo que andamos a alimentar






«The formula is relatively simple: Goldman [Sachs] positions itself in the middle of a speculative bubble, selling investments they know are crap. Then they hoover up vast sums from the middle and lower floors of society with the aid of a crippled and corrupt state that allows it to rewrite the rules in exchange for the relative pennies the bank throws at political patronage. Finally, when it all goes bust, leaving millions of ordinary citizens broke and starving, they begin the entire process over again, riding in to rescue us all by lending us back our own money at interest, selling themselves as men above greed, just a bunch of really smart guys keeping the wheels greased. They've been pulling this same stunt over and over since the 1920s — and now they're preparing to do it again, creating what may be the biggest and most audacious bubble yet.»

E, à guisa de coda, fica a menção de uma das mais obscuras situações que atravessamos hoje em Portugal: a misteriosa "almofada" de 7,5 mil milhões de euros que está cativa - em exclusivo - para recapitalizar a banca, mas para a qual pagamos juros.
Pagamos juros sobre dinheiro que não nos beneficiará em nada, mas a banca não paga um cêntimo dessa "almofada" que irá, certamente, receber. É mais um prato de luxo que, com a insolvência das famílias e a destruição dos nossos projectos de vida, confeccionamos para alimentar o lobo supracitado. A ler nesta ligação.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Essa voz fala connosco



«A jarreta e repugnante Estanqueira do Loreto, calhandro com voz de sirena das excreções mais abomináveis, é Helena, a belíssima esposa de Menelau, rei de Esparta, prometida por Afrodite ao tíbio Páris e efectiva semeadora do pomo erístico da discórdia que despertou o derribamento da cidade de Tróia. É Helena, a luminosa mãe do imperador romano Constantino, salvadora dos destroços do Santo Lenho que, no século IV, em peregrinação à cidade galileia de Nazaré, encontrou intacto o humilde casebre em que Maria nasceu e mandou edificar uma basílica que o albergasse. Esta barraca inteira dentro do invólucro que é o novo templo, qual pérola dentro de uma ostra, é que é a Santa Casa do Loreto: aquela que, carregada por anjos através do Céu nos desenhos mais delirantes dos dominicanos, se alicerça sempre nos locais mais lastimosos. O estanco de Helena é esta casa de cura: úvula valiosa, envolvida pelo vil véu palatino que são os destroços mariálvicos, assolados pelo sismo e pelo abrasamento – e tal como na lenda da Santa Casa do Loreto a representação de Maria resiste imaculada a abalos e a incêndios, que nem uma gota de espermacete cingida pela corrupção, a estanqueira olisiponense persiste incólume numa imaginal tabacaria: um rosto beatífico, de tão monstruoso que é – carantonha que faz gargalhar os poetas, mas cuja riqueza de voz torna paupérrimos os versos deles.

Essa voz fala connosco.

Diz-nos que há pureza entre a escória e a escumalha; diz-nos que há definição entre a desordem e o desespero – diz-nos que se procurarmos atentamente, se olharmos sem receio à nossa volta, veremos que na mesma valeta onde se abatem os cães também desabrocha aquilo que os homens encerram de mais cintilante, porque no meio do breu refulge a crosta estéril da Lua – e, afinal, o nome da Estanqueira do Loreto, gema soterrada na turfa delinquente, é Helena: palavra que significa Lua. A Lua tripartida em Crescente, Plenilúnio e Minguante nos avatares de Virgem, Mãe e Velha – pintadas com supranaturalismo pelo artista alemão Hans Baldung Grien, em 1510: vaidosas e alheias à proximidade da Morte. Mas será a Lua um astro tão supérfluo quanto a vaidade? Uma moeda falsa com a qual somente se compra a loucura e a licantropia? 

Sem a ascendência gravítica da Lua, torpe satélite que se apresenta eczemático no velo nocturno, nunca se teria agitado as águas primordiais: foi ela o pilão babayaguiano que revolveu a matéria no almofariz que é o globo e que impediu que os ingredientes da vida sedimentassem infecundos no fundo dos oceanos. Sem a Lua, arrancada da própria Terra, há cerca de cinco mil milhões de anos por uma bestial colisão com um corpo astral do tamanho de Marte, nenhum de nós existiria e o mundo seria como a Lua: um infrutífero planeta, magoado por máculas magmáticas. Sem ela, o orbe seria uma árida Aceldama: espaço horripilante de ausência e desolação, eternamente sôfrego por intestinos e cinzas. Mas foi Helena, criadora da Santa Casa do Loreto, quem se lembrou de usar a terra hostil de Aceldama para construir, para dar moradas pacíficas aos mortos… Ela é Helena, claro, como já vimos, mas também Selena, irmã do Sol: amante de pastores como Endímio e Elmano, musa de poetas como Bocage e Camões, e cujo nome significa…

               Luz
 

Black and white


sábado, 8 de dezembro de 2012

No parlamento europeu


Em Bruxelas, no Parlamento Europeu, para participar numa sessão de debate, a convite do eurodeputado Rui Tavares.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Eles trazem ouro. Trazem ouro nas almas.


«Aqui, a realidade não é a dominada pelos reis, nem a demarcada por racimosos reinos a eles consagrados pelos navegadores pós-medievais, mas a de um vastíssimo continente impossível de cartografar e onde convergem desiguais grandezas de lengalenga e fantasmagoria. Há música aqui, arreigada às vozes destes mortos simultâneos que parecem falar num prolépsico dialecto que soa a preguear de penas e brindes em copos de cristal. E, sobre todos, sobre a estupefacção esperançosa que os anima, está o Sol só deles.


O Sol invicto.

Invicto pelo sarcasmo e pela sordidez, mas também invicto pela violência e pela injustiça. Um Sol perfeito para uma insólita e rutilante ocasião; comburente e, por isso, inapreciável. Olhando para além das mulheres, dos homens e do asno, é possível ver que, como fósseis outrora cativos por grades estratigráficas ainda mais fundas, muitos outros anormais de Lisboa se aliaram à invencível convocação.

Antes dos anormais entrarem novamente em Lisboa, sem terem a certeza de que voltam para ficar, o trofoneurótico Mano das Manas aproxima-se de nós e oferece-nos com amabilidade uma caixinha de papelão pintado: as suas mãos aleijadas são pútridas, consumidas pelos sarcofamintos, mas a caixa resplandece com a luz imensa do Sol Invicto em escalas mais excelsas que as das jóias da Jerusalém Celeste. A pulcritude desse presente é tremenda – chamejante – e espiritualiza-nos os corações.

             Eles trazem ouro. Trazem ouro nas almas.»

(De «Sol Invicto» em «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense», spoken word escrito e interpretado por David Soares e musicado por Charles Sangnoir.)
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Aleister Crowley: 1 de Dezembro de 1947



Além de ser o Dia da Restauração da Independência de Portugal, 1 de Dezembro também é a data da morte do mago inglês Aleister Crowley (no ano de 1947). Para lembrar esse homem tão incompreendido - não foi satanista, ou satânico, por exemplo, como tantas vezes aparece descrito na comunicação social sensacionalista -, cujas crenças pessoais até o aproximavam do ateísmo, partilho a minha leitura de um excerto do meu romance «A Conspiração dos Antepassados» (Saída de Emergência, 2007), no qual ele, juntamente com Fernando Pessoa, é protagonista.

O último feriado de 1 de Dezembro: entre o passado e o presente


Hoje é 1 de Dezembro, o dia da chamada Restauração de Portugal, que interrompeu cinquenta e nove anos de jugo espanhol, sob a dinastia filipina. Na verdade, a dita Restauração só se completou vinte e oito anos depois, cessando um período instável em que Portugal e Espanha (o correcto é dizer Portugal e Castela), numa espécie de "guerra fria" traiçoeira em que várias vezes o exército castelhano entrou por território nacional adentro, cristalizaram um antagonismo que ainda perdura nos chavões mais ou menos rancorosos e humorísticos que circulam nos nossos dias sobre aquilo que os espanhóis pensam dos portugueses e sobre aquilo que os portugueses pensam dos espanhóis. Porém, e como em quase tudo o que faz parte da exegese da história, a verdade não é tão simples quanto parece e no que concerne à perda da independência de Portugal para Espanha ela não consistiu numa perda de independência como hoje entendemos esse conceito: para efeito de simplificação, pode dizer-se que Portugal passou a ser governado por um rei que também governava os diferentes três reinos espanhóis (Castela-Leão-Galiza, Navarra e Aragão), mas o nosso país nunca foi integrado na Espanha - que, esclareça-se, nem sequer existia enquanto estado único. Os Filipes de Portugal nunca se intitularam reis de Espanha, por exemplo: a ideia de uma Espanha unificada - um estado uno - foi um conceito que só começou a tomar forma mais à frente, com o reinado de Filipe V de Espanha. Acrescente-se que Filipe II de Espanha, I de Portugal, nem sequer era espanhol: era neto de D. Manuel I, com mãe portuguesa e pai alemão (D. Isabel de Portugal e Carlos de Habsburgo, V imperador do Sacro-Império Romano-Germânico).

Avançando a partir daqui, importa reter que Portugal conservou-se enquanto reino e nunca foi a tal província espanhola que por vezes se ouve dizer: conservámos o aparelho jurídico, a administração das colónias, a moeda - e, quanto à língua, a Península Ibérica sempre foi meio-bilingue, para começar. A língua erudita em Portugal, a dada altura, passou a ser o castelhano: Camões e outros poetas portugueses escreveram em castelhano, por exemplo, muito antes de Filipe I de Portugal subir ao trono.

Somente a partir do reinado de Filipe III de Portugal é que a situação de relativa estabilidade - e até de progresso económico - que o reino de Portugal viveu com Filipe I e II começou a deteriorar-se, com a criação de novos impostos e uma política muito menos simpática para com a nobreza portuguesa que até aí frequentou com distinção e primor os corredores e os salões dos solares e palácios castelhanos. Foi um período turbulento em que na Catalunha, como hoje, sopraram ventos de separação com Castela; e Filipe III de Portugal deu ordens para que o exército português fosse ajudar a pôr os catalães na ordem. Estabeleceu-se, assim, as bases principais para fortalecer-se um enorme sentimento português de revolta, nobre e popular, contra Madrid.

Serviu este prolegómeno para, em seguida, introduzir o relato de um episódio operado pelos "conjurados" que arquitectaram a conspiração política que levou D. João IV ao trono e que eu considero interessantíssimo - sobretudo quanto cotejado com a actual conjuntura.

Em 1640, o secretário de estado português (equivalente ao actual cargo de Primeiro Ministro) era um indivíduo chamado Miguel de Vasconcelos. Era filho de outro burocrata, chamado Pedro Barbosa: homem que, pelo hábito de tanto se curvar diante de Madrid, de modo absolutamente inacreditável, não se salvou de ver a sua casa invadida e apedrejada pelos cidadãos de Lisboa, fartos dos seus abusos de poder (é o tal "povo de brandos costumes"); Barbosa fugiu, confundido e atrapalhado, mas foi descoberto e morto uns dias depois, não se sabe por quem. Sabe-se é que o seu filho, o supramencionado Vasconcelos, não menos subserviente à corte de Madrid (os relatos históricos denunciam que se tratava, de facto, de um indivíduo autoritário e insuportável) também não conheceu melhor destino: na manhã de 1 de Dezembro de 1640, os "conjurados" subiram até ao seu gabinete no Paço Real, no Terreiro do Paço, e debalde o procuraram para eliminá-lo. Diz-se que quando estavam quase a desistir, viram uma resma de papéis a cair de dentro de um armário: foram investigar e descobriram Vasconcelos escondido no interior. Abateram-no a tiro, como planeado, e, para mostrar à população que a revolução tinha começado, atiraram-no de uma janela para o Terreiro do Paço. Mas os "conjurados" tiveram azar, porque não havia quase ninguém no Terreiro do Paço para assistir à façanha: aparentemente, apenas andava por ali meia-dúzia de gatos-pingados, no lado oposto ao do Paço, que até estava com receio de se aproximar e de meter-se onde não era chamada. Então, para atrair gente para perto do corpo, os "conjurados" começaram a atirar pela janela todo o tipo de coisas que foram encontrando nos aposentos do malquisto Vasconcelos: em principal, uma baixela de prata e várias delícias, como doces e até queijos. O engodo funcionou e, de imediato, uma turba entusiasmada - entusiasmada com a revelada revolução e entusiasmada pelas dádivas requintadas - reuniu-se junto do cadáver e, com uma corda, arrastou-o pelas ruas de Lisboa.

Por um lado, temos o corrupto secretário de estado (primeiro-ministro), amiguista e servil aos pedidos de aumentos de impostos exigidos pelo rei estrangeiro, que é defenestrado para dar início a uma revolução política que, sem dúvida, devolveu Portugal a um rumo histórico independente - pois sem essa revolução, Portugal teria sido transformado inexoravelmente numa província espanhola, a partir do reinado de Filipe V de Espanha. Por outro lado, temos o povo medroso, apático, com receio de aproximar-se do cadáver estendido no Terreiro do Paço, e que só se avizinha com o lançamento de bens materiais e de comida pela janela. Eu acho que esta história dá muitíssimo que pensar.
Aproveitem para pensar nela neste dia que, por vontade do governo, será o último dia feriado de 1 de Dezembro.

(Imagem: Cena da Restauração. Gravura da obra «Histoire des Révolutions de Portugal» (1712) de René-Aubert Vertot.)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Trolhamento pessoano


Aos caros leitores que se interessam por Maçonaria e Fernando Pessoa deixo a informação que no próximo dia 13 de Dezembro, no Centro Comercial El Corte Inglês, em Lisboa, será apresentado, às 18H30, o manual «Trolhamento dos 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite», numa nova edição que reproduz os comentários e as anotações que Fernando Pessoa fez no seu exemplar. A edição é da São Rozas, com organização e prefácio de Miguel Rozas. A apresentação será feita por Félix Lopes. Um documento histórico interessantíssimo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A heroicidade da inteligência


A única austeridade a que eu reconheço probidade é a da intransigência da inteligência contra a barbárie. Contra ela, e contra a fatuidade e a estupidez, erga-se a máxima inflexibilidade - erga-se toda a severidade. 
Este quadro, intitulado The Thinker: Portrait of Louis N. Kenton (1900), pintado pelo extraordinário artista norte-americano Thomas Cowperthwait Eakins, representa na perfeição a severidade a que me refiro. É um quadro que evoca um enorme sentimento de heroísmo; uma força intelectual fortíssima, imune ao superficial e à leviandade. Um ícone para um tempo hostil ao pensamento.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O futuro de Portugal

Observem com atenção a seguinte sequência de imagens, que mostra uma mulher a ser agredida pelo corpo policial de intervenção durante a vaga de dispersão operada sobre os manifestantes que se reuniram na passada quarta-feira, dia 14, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, para protestarem contra o governo de coligação, liderado por Pedro Passos Coelho, (ainda) em vigência. Nesta ligação e nesta já escrevi sobre esta carga policial cobarde e degradante, que nos devia envergonhar a todos, por isso quem ainda não leu esses textos poderá fazê-lo quando desejar, mas, para já, peço que observem por uns instantes estas imagens.

  
Peço-vos que se concentrem na expressão da mulher caída no chão.
Não é um rosto anónimo.
Tem um nome: esta mulher chama-se Cecília Silveira.
A imagem e o nome circulam nas redes sociais. Cecília Silveira é «uma desempregada de longa duração, sem direito a qualquer apoio da Segurança social, e vive da caridade de amigos». Cecília «passa fome, nem rendimento de inserção recebe, não tem qualquer apoio a não ser dos amigos, muitas vezes de pessoas que têm muito pouco, mas que ainda conseguem dividir uma sopa, um pão, um abraço». No entanto, como se isso não fosse aviltante o suficiente, Cecília ainda foi injustamente agredida por um homem blindado, couraçado com capacete, viseira e cassetete, e, no mínimo, com o triplo da sua força física.
Agredida com violência enquanto protestava, legitimamente, como era seu direito, contra as agressões igualmente violentas perpetradas pelo governo liderado por Pedro Passos Coelho. Atirada ao chão, perigosamente perto dos molossos que, esticando as trelas agarradas por criaturas não menos selvagens, salivam de antecipação sanguissedenta; atirada ao chão, perigosamente perto das biqueiras de aço das botas dos agentes do corpo policial de intervenção. Examinem o rosto de Cecília.
É uma face fatigada.
As pregas na pele, cinzeladas pela carestia e pelo desespero diários, têm, em vida, a retesia de um rigor mortis. Os olhos, vítreos como os de uma boneca, não reflectem a luz e só o gesto tímido de um braço estendido, que tacteia por auxílio, lhes empresta um ponto de fuga que nos deixa vislumbrar vida.
Este é o rosto penoso de uma pessoa angustiada. Este é um rosto repleto de vergonha - profundamente humilhado. Um rosto confundido pela injustiça extrema de ser agredido quando já pouquíssimo havia para agredir.
Observem bem este rosto. O rosto de Cecília.
Este é o rosto que costumam ter as vítimas de crimes de guerra.
Este é o rosto que se vira contra a parede à entrada do carrasco na cela.
Este é um rosto totalmente deformado pelo desamparo.

Observem muito bem este rosto. Memorizem muito bem esta expressão.
Olhem para o rosto de Cecília.
E imaginem que é o rosto da vossa mãe.


Imaginem que é o rosto da vossa irmã. Ou da vossa filha.
Imaginem que é o vosso rosto - ali, atirado ao chão, entre os animais.
Interroguem-se: esta é a sociedade em que querem viver? Interroguem-se: querem que este governo continue a governar-nos? Um governo que classificou a carga policial retratada acima como: «impecável», «estóica», «adequada», «profissional», «notável», «serena», «firme», «cheia de profissionalismo», «inevitável».
Olhem para o rosto na fotografia acima: devem-lhe uma resposta para estas perguntas. Devem-lhe a vossa vergonha sobre a desprezível manobra de estratégia do medo, orquestrada com maquiavelismo, a que se assistiu na passada quarta-feira. Devem-lhe aquilo que o governo lhe tem negado: humanidade.
 
Este é o rosto da desumana ideologia neo-liberal, desenvolvida em meados dos anos setenta do século passado pela chamada "Escola de Chicago": grupo de economistas do departamento de economia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, do qual fez parte o "monetarista" Milton Friedman, o principal pugnador da doutrina económica neo-liberal que veio a ganhar uma preponderância cada vez maior na política ocidental, desde o início da década de oitenta do século passado.
Engendrada como teoria económica, cujo único objectivo é, evidentemente, maximizar os lucros independentemente dos meios (o famoso slogan «money matters» é um dos seus mais conhecidos cartões de visita), a ideologia neo-liberal defende o desmantelamento do papel do estado na fixação e autorização de preços, o desregulamento total da banca privada, a privatização total dos serviços públicos e a extinção do salário mínimo.
Entretecida com o mundo da política, a ideologia económica neo-liberal transforma-se numa devastadora ferramenta de engenharia social que extingue a classe média e cria, somente, dois tipos de classes: a dos muito ricos e a dos muito pobres.
Um governo neo-liberal é um governo plutocrático: ou seja, é um governo dos muito ricos para exclusivo benefício dos muito ricos. O neo-liberalismo cria uma espécie de nova nobreza, mas uma que frui das grandes fortunas e não das famílias ancestrais de outrora. É uma política nova para cristalizar um mundo novo: um mundo que, para os muito ricos, é um mundo de facilidades e felicidades, mas que, para os muito pobres, é um mundo de desespero vivido no limite da sobrevivência.
No vídeo abaixo poderão ver como um par de anos de aplicação de ideologias neo-liberais na Grécia já acabaram com a sua classe média. O que acabo de escrever é, reitero, totalmente factual: isto é a doutrina económica neo-liberal escalpelizada ao nível mais elementar.     



As pessoas que viram neste vídeo poderão ser vocês em Março de 2013.
Quando receberem o vosso vencimento do próximo Janeiro, truncado pelas lâminas do orçamento de estado para 2013 que o governo vai aprovar em definitivo no próximo dia 27 de Novembro, talvez comecem, de facto, a prestar atenção ao que se está a passar em Portugal: usando a crise financeira como Cavalo-de-Tróia, o governo de coligação liderado por Pedro Passos Coelho está a usar o bê-a-bá do neo-liberalismo para empobrecer compulsoriamente o país, desvalorizar todos os salários e reduzir o salário mínimo para extingui-lo, desqualificar os indivíduos e privatizar todos os serviços públicos (incluindo a RTP com o seu arquivo histórico, a Caixa Geral de Depósitos e, ainda, património cultural e histórico) para transformar Portugal numa nação de trabalhadores pobres, no limiar da sobrevivência, que sirva de incubadora de mão-de-obra barata para os sectores secundários estrangeiros que, aliciados pelos salários miseráveis aqui aplicados, abrirão fábricas e manufacturas diversas como se não houvesse amanhã.

E, com efeito, para nós, aqueles que desejariam viver em Portugal com dignidade, poderá não haver amanhã nenhum.
O rosto de Cecília - não duvidem - é o nosso rosto. E poderá ser rosto do futuro de Portugal.
Com cinismo, o governo pede-nos para sairmos das nossas "zonas de conforto": poderemos, juntos, mostrar-lhe que isso quer dizer algo bem diferente daquilo que ele está à espera. Não temos nada a perder, a não ser o nosso futuro.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Crítica argentina a «O Pequeno Deus Cego»


Excelente crítica a O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa no weblog do crítico argentino Fernando Ariel Garcia:

«Como en toda la obra de Soares, el mejor guionista de la historieta portuguesa contemporánea, O pequeno deus cego cuenta con las palabras justas.
En este caso, cortas como puñales. Ideales para abordar las paradojas que exhibe la Creación, las similitudes y diferencias que hacen de los contrarios una fuerza primaria capaz de retroalimentarse y definirse por comparación. Como un mago, Soares navega entre la vida y la muerte, entre el sueño y la conciencia, entre la palabra y la imagen, entre la alegría y el sufrimiento.»


Raposices


Caros leitores, ontem descobri esta fofura de aldraba que não aldraba ninguém: é uma Raposa. Ora, a Raposa, por razões misteriosas que nem os mais doutos discernem, é o meu tóteme. Se algum dos caríssimos souber onde posso encontrar uma relíquia igual ou similar, por favor, envie-me essa informação por email para o endereço de contacto que está no canto superior direito do ecrã. Agradeço, em avanço, a vossa perspicácia e boa vontade. Abraços negros.


domingo, 18 de novembro de 2012

A Falácia da Força: ou, O "Respeitinho"


Partindo dos louvores que o governo tem difundido nos diversos órgãos de comunicação social sobre a degradante carga policial de dissipação, operada na passada quarta-feira, dia 14 de Novembro, pelo corpo de intervenção sobre os manifestantes reunidos em protesto diante da escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, credibilizou-se com cunho oficial nas mentes de ouvintes e espectadores que não só se deve repudiar totalmente toda a espécie de violência como ainda se levantou o fantasma de que protestos fortes não são a "maneira portuguesa" de encostar à parede um governo injusto e profundamente desumano que está, neste preciso momento - contando com a política de terra-queimada consagrada no orçamento de estado para 2013; sobretudo, nas medidas adicionais já anunciadas, que serão implementadas em Março desse ano -, prestes a exanguinar as últimas gotas de lucro que ainda pode espremer-se dos vencimentos mensais de milhões de famílias cada vez mais falidas e cada vez mais desesperadas.

É falso que exista uma "maneira portuguesa" de protestar.
Assim como é igualmente falso que exista uma "maneira grega" de protestar, ou uma "maneira espanhola" ou uma "maneira alemã" ou "francesa": existe o protesto, ponto.
Esta espécie de generalizações populares, estribadas naquilo que é suposto ser os espíritos ou as qualidades distintivas de sociedades e de etnias, são falsidades tremendas que já foram desacreditadas há muito pelas investigações rigorosas das ciências e das humanidades e que só subsistem atavicamente nas psiques dos políticos e de outras figuras de autoridade para, com maior facilidade, rotular-se e conduzir-se de modo mais lucrativo as vidas dos indivíduos e os destinos das populações.
O acto de protestar é, por natureza, intrinsecamente violento - atentando às circunstâncias e objectivos de um protesto, em especial, ele pode realizar-se com menor ou maior grau de violência, mas se não for violento - se não for forte - não é protesto nenhum.
Sobre violência, ela pode exercer-se em vários estados: verbalmente, fisicamente e psicologicamente. Por conseguinte, que não haja ilusões: este governo de coligação (coligação que não foi sufragada popularmente, logo ninguém votou neste governo), liderado por Pedro Passos Coelho, é extraordinariamente violento, até extremista, e não vacila em pressionar os indivíduos com as políticas mais devastadoras - indo muitíssimo além dos objectivos traçados em memorandos sob a supervisão da Troika -, quase sempre demonstrando um cinismo irónico e atroz por todos os que não se encaixam a longo prazo (excepto no papel de "comedores inúteis") no desígnio maior da ideologia neo-liberal que lhe serve de bússola, como, à vista do que infelizmente aconteceu na semana passada, não vacila em utilizar as violências físicas e psicológicas mais bárbaras para, através da instituição da estratégia do medo, inibir futuros protestos e manifestações daqueles de quem ele não deseja outra coisa senão a submissão e o quietismo.
Se também pode definir-se a violência como sendo um acto de destruição, como categorizar, senão de violência, uma política de austeridade que almeja a terraplanagem social, através dessas violações que são o empobrecimento forçado e a desvalorização dos indivíduos, de forma a, entre aspas, "começar do zero" um novo tipo de sociedade; muito mais ajustado a sinistros interesses financeiros e classistas que, neste momento, estão em conflito total com as noções mais elementares de estado-social e igualdade de oportunidades para todos? Urge recusar, protestar e resistir.  

Olhando para a história portuguesa do último século, e permanecendo nessa amostra para evitar uma maior distância entre a nossa contemporaneidade e o passado que desvirtue a aplicação do seguinte juízo, é facilíssimo perceber que essa tal "maneira portuguesa" de protestar - pacífica, serôdia, amorosa, até!, feita, entre outras coisas, de abraços mediáticos a agentes da polícia - nunca existiu.
No final do século XIX e durante a nossa Primeira República, na infância do século XX, a força e a violência, por vezes sanguinolentos, marcou decisivamente os protestos do povo contra as injustiças perpetradas pelas figuras de autoridade em vigência. E, pasme-se!, até os políticos usavam métodos violentos uns contra os outros: andaram deputados aos tiros dentro do parlamento - no mesmo edifício em cuja vizinhança, na passada quarta-feira, o corpo policial de intervenção agrediu com brutalidade os cidadãos com golpes de cassetetes, investidas de cães treinados e disparos de balas de borracha. Aquilo que importa esclarecer, nesta altura, é que os portugueses - civis e militares - nunca foram de "brandos costumes", nem "serenos": pelo contrário, sempre protestaram, sempre se revoltaram, com força, contra todas as injustiças. Fizeram-no no século XII, fizeram-no no XIV, no XVII, no XVIII, no XIX e no XX - em suma, fizeram-no sempre que foi preciso fazê-lo.
Compreenda-se que a falsificação do sereno temperamento português foi fabricada com apuro no decurso das décadas em que perdurou a ditadura para-fascista do Estado Novo, liderada por António de Oliveira Salazar: foi fácil instalar a fantasia de um português-tipo - manso, servil, pobre e bem-agradecido -, porque, em primeiro lugar, essa fórmula foi injectada num momento de enorme desgaste social e aproveitou-se do cansaço da população; em seguida, beneficiou, e muitíssimo, da elevada taxa de analfabetismo que sempre colocou o povo português em desproporcional desvantagem diante das suas elites - elas próprias também pouco instruídas, para começar, mas nem por isso menos cobiçosas de poder. Hoje, o povo é mais instruído, mais complexo na sua vida interior, do que há cerca de setenta ou oitenta anos, mas, então, como é possível manter presa por arames a farsa da mansidão portuguesa e difundir pelos órgãos de comunicação social a ideia - que está a ser aceite, sem questionamento, por todo o lado e por todos - de que a "maneira portuguesa" de protestar, "a forma portuguesa de manifestar" não se faz de força? (Como se as "boas" formas de protestar, as "aprovadas" formas de protestar, pudessem ser "ensinadas" ao povo por cartilha.) É possível manter-se a ideia do "povo sereno" e da "maneira portuguesa" de protestar, graças à velha ideia, também salazarista, de que "o respeitinho é muito bonito". O "respeitinho" pela autoridade.

Ainda persiste, em nós, a herança desse "respeitnho" de que pouco se ouve falar hoje em dia (os mais novos podem perguntar aos mais velhos o que é isso do "respeitinho"), mas que era língua corrente há alguns anos e, no limite, nunca deixou de estar presente nos nossos hábitos: e presente - sempre - em diminutivo, porque consiste no "respeito" devido pelos homens "pequeninos" aos homens "grandes".
Não é um verdadeiro respeito, com o significado de apreço ou apreciação profunda, nutrida por alguém que mereça, mas um sentimento de inferioridade relacionado com a submissão e o medo.
É o "respeitinho" medroso e submisso - boçal, certas vezes - que nos faz duvidar até da legitimidade do acto de protestar. Porquê?
Porque é um "respeitinho" criado em exclusivo para nós - povo - o devernos aos Senhores Doutores que "mandam em nós" e que, com o peso desse sacrifício enorme que é o saber-mandar, esperam que nós lhes obedeçamos - cegamente e sem "fazer ondas". Principalmente, se formos "fazer ondas" para mudar políticas injustas que nos irão empurrar com veemência para o retrocesso histórico, para o desespero do empobrecimento e para a desesperança mais cruel. No fundo, este governo sabe bem que aquilo que está a erguer só poderá ser construído se contar com a nossa apatia generalizada, com a nossa complacência; e foi a pensar em fortalecê-las que se encenou, com maior ou menor espontaneidade, com menor ou maior maquiavelismo, o aviltante espectáculo a que se assistiu na passada quarta-feira.
 
Eu (já o escrevi) sinto repugnância pelo que aconteceu e tenho vergonha por aqueles que acham que a carga dissipadora, operada pelo corpo de intervenção sobre os cidadãos, foi adequada.
Como é que pode cair-se no contra-senso de repudiar a violência dos protestantes contra a polícia de choque e, em simultâneo, desculpabilizar - até acolher com entusiasmo e achar perfeitamente normal - a violência da polícia de choque contra os manifestantes?
Pode cair-se - e cai-se - nesse contra-senso - o de achar que há uma violência "má" e uma violência "boa" -, porque a primeira encaixa-se no tal "respeitinho" que é devido pelo povo à autoridade, enquanto que a segunda não passará do castigo que a autoridade tem de dar ao povo pela falta do "respeitinho". No fundo, quando se acha que a agressão policial indiscriminada é legal, legítima, desejável, que é mesmo aquilo que faz falta, está-se a achar que o "respeitinho é muito bonito". Esta mentalidade reaccionária - que, com desagrado, é mais frequente do que eu pensava - consiste no melhor instrumento que o autoritarismo tem para controlar-nos como lhe é mais conveniente.

Para efeito de controlo, instrumentalizou-se o corpo policial de intervenção, unidade também chamada polícia antimotim (antiprotestos, entenda-se), que, fazendo aquilo para que foi adestrado, criou de imediato uma barreira de violência indiscriminada, ferindo velhos e mulheres num exercício completamente "pinamaniqueano" da aplicação mais rasteira da "lei do mais forte" e detendo cerca de uma centena de indivíduos aleatórios ao longo das ruas de Lisboa - a maior parte sem relação nenhuma com a manifestação de protesto dissipada pela carga policial - para levá-los, sem direito a advogado, sequer, para calabouços isolados, como o desactivado tribunal de Monsanto, nos quais, sem interrupções, submeteu-os à experiência do medo, mantendo-os na incomunicabilidade e coagindo-os a assinar autos em branco - uma operação muito grave e, em última análise, completamente anticonstitucional, mas que fechou com chave de ouro a demonstração de força que se pretendia marionetar.
Sob a ideia do "respeitinho" que se deve às fontes de autoridade - não interessa que sejam espúrias: basta que ocupem a posição certa no palco e tenham a aparência acertada -, elas podem cometer, com desregramento, os piores excessos sem perder o refulgente nimbo de legitimidade que ofusca aqueles que acham dever-lhes muito "respeitinho".

Mas, por outro lado, quando as fontes de autoridade precisam da couraça impenetrável de um corpo de intervenção - impenetrável que nem a carapaça de um caranguejo - para governarem pela força bruta estão, bem vistas as coisas, a dar-nos a entender que são como o miolo de um caranguejo: uma matéria mole, invertebrada, somente sustentada por uma finíssima rede quasi-invisível, que, sem a protecção do estupendo exoesqueleto, se desfaz com um sopro. O exterior é duríssimo - blindado, capaz de resistir estoicamente a chuvas de pedradas, elevando as pinças afiadas contra opositores e espectadores ao mesmo tempo numa cega sangria  -, mas o seu interior é liquefeito, frágil.
Com sorte, é também moribundo.

 

sábado, 17 de novembro de 2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O estômago e o espelho


Desta quarta-feira para cá tem-se escrito e dito que a gratuita e degradante carga policial que o corpo de intervenção operou nesse final de tarde sobre os manifestantes que se reuniam em protesto contra o governo iníquo liderado por Pedro Passos Coelho, à frente da escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, foi uma manobra necessária diante do desrespeito que lhes foi mostrado sob a forma de uma ininterrupta chuva de pedras de calçada, atiradas por «profissionais da desordem e da provocação». Sim, de facto, se «profissionais» existiram nesses instantes foram apenas os da «desordem», porque os supostos "profissionais" da "ordem" mantiveram-se mansos e impávidos debaixo dos calhaus quando podiam, perfeitamente, ter agarrado sem grande alarido os desordeiros somente esticando um braço, tal era, em certos momentos, a proximidade entre uns e outros. Como toda a gente viu, mas nem toda a gente compreendeu, o corpo de intervenção, em vez de fazer o seu trabalho, como seria esperado, investiu irascível sobre os cidadãos, numa violenta manobra de dissipação a golpes de cassetetes, atingindo, aleatoriamente, todo o tipo de indivíduos, fossem novos, velhos, homens ou mulheres - alguns com crianças ao colo. O único objectivo desta manobra, mais encenada do que outra coisa, foi meter medo às pessoas para inibi-las de se manifestarem novamente. Ou seja: o corpo de intervenção, inversamente ao que têm vindo a declarar os seus defensores, não fez o seu trabalho convenientemente.

Digo «convenientemente», porque, até certa altura, o corpo de intervenção fez parte do seu trabalho - que foi ser agredido.
O trabalho de qualquer corpo de intervenção, como se pode deduzir - e bem - pela blindagem que normalmente anquilosa os seus agentes, apetrechados de escudos, cassetetes e molossos, é fazer de filtro e aguentar as investidas mais brutais e mirabolantes que lhe possam ser dirigidas: dando-lhe pontapés ou atirando-lhe pedras da calçada. Nesse sentido, quem diz que os agentes do corpo de intervenção só estiveram a fazer o seu trabalho estão cobertos de razão: levar porrada da grossa é mesmo o trabalho deles. Se não fosse, não teriam necessidade de ir para a rua protegidos com coriáceas carapaças e armados com cassetetes e cães. Cada ofício tem o seu fato de trabalho e ferramentas especializadas: e o ofício deles é ser agredidos, aguentarem e agredirem. No mínimo, agredirem os seus agressores - coisa que esteve muito longe de acontecer na vil e vergonhosa manobra de dissipação em que espancaram os espectadores. Resta descobrir se o objectivo da carga - semear nas pessoas o medo de manifestar desagrado pelo governo, de desafiar o governo - foi alcançado.

A propósito, expresso o meu espanto diante da atitude de vassalagem que o público, um pouco por todo o lado, está a demonstrar, defendendo o indefensável com o argumento de que o corpo de intervenção estava apenas a fazer o seu trabalho. O que escrevi acima desmonta, creio, o sofisma dessa má dedução, mas ainda acrescento que se é verdade que existem trabalhos melhores e trabalhos piores também existem pessoas que estão melhor e pior preparadas para fazê-los. E agredir, com pancadas de cassetete e dentadas de cães treinados, velhos e mulheres desprotegidos não é, de certeza, um trabalho que a maioria dos indivíduos tenha estômago para fazer. Tal como em todos os ofícios, é preciso ter queda, ter aptidão - talvez até ter gosto.

Agostinho de Hipona encontrou uma engenhosa fórmula para desculpabilizar os soldados que matavam a torto e a direito nas guerras para as quais eram enviados pelos seus senhores: seguiam ordens e, como seguiam ordens, não tinham culpa. Ou seja: "estavam só a trabalhar".
No final do terceiro decénio do século passado, quando os esbirros das einsatzgruppen nazis disparavam tiros nas nucas de mulheres e crianças ajoelhadas à beira de valas comuns, já repletas com os corpos dos seus familiares assassinados nas vezadas anteriores, também "estavam só a trabalhar". Sob a legitimidade de um trabalho, de uma ordem ou de um sufrágio já se fizeram e continuarão a ser feitas as piores atrocidades possíveis.
Quando um carrasco, seja de que regime ou orientação política for, tortura outra pessoa para os mais abjectos fins, também "está só a trabalhar".

Sinto repugnância por este episódio miserável que aconteceu na passada quarta-feira e sinto vergonha pelos meus colegas, conhecidos e amigos que acham que tudo isto é desculpável, inevitável - normal. A passada quarta-feira foi, para a nossa sociedade portuguesa, um momento de não-retorno absoluto, a partir do qual será cristalizado o rumo que ela tomará. Daqui a umas semanas, no máximo um mês ou dois, passada a onda de choque provocada, a conjuntura ou muda ou piora. Estamos a fazer dezassete meses de governo liderado por Pedro Passos Coelho. Desejamos mais dois anos e meio disto? Estaremos, assim, tão acomodados à ideia de deixá-los "trabalhar"?

Termino com umas palavras que o escritor Edward Carpenter, fabuloso campeão da liberdade e dos direitos humanos, escreveu no seu longo poema em prosa «Towards Democracy» (1833):

«Could you be happy receiving favors from one of the most despised of these?
Could you be yourself one of the lost?
Arise then, and become a saviour.»

Ou seja: pode-se trabalhar a favor da injustiça ou pode-se trabalhar contra ela. Tudo depende do estômago de cada um e daquilo que cada um está disposto a aceitar quando se olha ao espelho.

O sangue e o povo


«A força é ainda a última ratio dos povos.»
Frase de António José de Almeida (foto acima), primeiro presidente da república português a cumprir um mandato inteiro e o primeiro, num período de grande crispação social, a reunir um enorme consenso popular. António José de Almeida, figura maior da política portuguesa - e autor da importante frase supracitada -, foi um político de direita e até fundador do Partido Evolucionista: partido que ocupou no seu tempo um espaço no espectro político que equivale àquele que, hoje, é ocupado (ou deveria ser ocupado) pelo PSD de Pedro Passos Coelho. Quem tiver dois dedos de testa que entenda as diferenças e retire as suas próprias conclusões.


(Cidadãos de Lisboa dissipados com violência a golpes de cassetetes pelo corpo policial de intervenção, na noite de 14 de Novembro de 2012, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento. Uma operação infame que, embora laudada pelo governo na comunicação social, nos deveria envergonhar e indignar a todos. Desde o Dia 1 que tenho escrito e esclarecido aqui nos Cadernos de Daath sobre o caminho negro que este governo iníquo nos está a desconduzir e eis que, na passada quarta-feira, esse executivo nos deu a todos um espectáculo degradante e gratuito somente com o objectivo de pressionar o povo e demonstrar-lhe pela força que é inútil manifestar-se contra a engenharia social neo-liberal que, disfarçada de funambulismo financeiro, nos está a ser empurrada pelas gargantas abaixo. Nunca precisámos tanto de coragem e verticalidade como agora.)


(Noite de 14 de Novembro de 2012: ruas de Lisboa revestidas com o tapete vermelho do governo liderado por Pedro Passos Coelho, cortesia das forças policiais que carregaram com cegueira irascível sobre os cidadãos em frente ao Palácio de São Bento numa operação de dissipação pela violência que teve como verdadeiro e único objectivo meter medo às pessoas para inibi-las de se manifestarem no futuro. O medo não pode instalar-se nas mentes, porque no momento em que ele o faz nunca mais as abandonará: ruas sem medo!)

Malleus Maleficarum 2012


É quase um truísmo, o de que quando uma notícia adjectiva mais do aquilo que informa não é notícia nenhuma: é propaganda.
Quão conveniente o uso do adjectivo "radicais" para rotular de "indesejáveis" aqueles que não se encaixam num perfil oficial e autorizado. Hoje, "radicais" são os chamados de «profissionais da desordem e da provocação»; amanhã poderão ser vocês, que têm um weblog no qual manifestaram uma opinião pouco simpática para com as políticas catastróficas deste executivo, infelizmente ainda em vigência, que nos mantém adstringidos à abjecção. A história demonstra muitíssimo bem o modo regular como os autoritarismos estreitam o espectro dos "radicais" que é proveitoso receptar, à medida que os indivíduos considerados mais incómodos vão sendo silenciados em primeiro lugar: no limite, ninguém está a salvo de vir a ser considerado "radical".

A propósito, na alínea h) do Artigo 27º (Direito à liberdade e à segurança) do projecto de revisão constitucional criado em 2010 por um dos partidos que forma o actual governo de coligação está contemplado o direito da «privação da liberdade» pelo «internamento de portador de anomalia psíquica ou de grave doença contagiosa em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente».
No artigo seguinte, o Artigo 28º (Prisão preventiva, internamento provisório e obrigação de permanência na habitação), pode, ainda, ler-se o seguinte: «2. A prisão preventiva, o internamento provisório e a obrigação de permanência na habitação têm natureza excepcional, não sendo decretados nem mantidos sempre que possa ser aplicada caução ou outra medida mais favorável prevista na lei. 3. A decisão judicial que ordene ou mantenha uma medida de privação da liberdade deve ser logo comunicada a parente ou pessoa da confiança do detido, por este indicados. 4. A prisão preventiva, o internamento provisório e a obrigação de permanência na habitação estão sujeitos aos prazos estabelecidos na lei.»

Parece uma leitura simples, de facto, mas, como qualquer outra peça escrita em "burocratês", é útil reflectir sobre ela com um pouco mais de atenção. Pode meditar-se sobre o que consistirá, ao fim e ao cabo, um «internamento provisório», que é uma designação algo vaga, eufemística, mas, para descer da abstracção a um plano mais terreno, vale a pena recordar, por exemplo, aquilo que aconteceu nesta quarta-feira, depois da carga policial sobre os cidadãos reunidos em manifestação de protesto contra o governo, diante da escadaria do Palácio de São Bento, para especular sobre certos casos prováveis em que seja preciso que «uma medida de privação da liberdade deve ser logo comunicada a parente ou pessoa da confiança do detido, por este indicados».



Em última análise, o que importa reter é que, de maneira geral - nos autoritarismos, em principal -, no momento em que se erguem cassetetes, também se costumam erguer os adjectivos - sejam os de «radicais» ou de «portadores de anomalia psíquica».