Neste ano assinalar-se-á (em Setembro) o quingentésimo aniversário do
artista e humanista português Francisco de Holanda: para celebrar a
efeméride, o Museu do Dinheiro, em Lisboa, inaugurará a 5 de Abril uma
exposição intitulada Francisco D'Holanda: Desejo, Desígnio e Desenho (1517-2017), dedicada à vida e obra desta figura cimeira do
Renascimento. De igual maneira, neste ano assinalar-se-ão (também em
Setembro) dez anos da publicação do meu romance A Conspiração dos Antepassados
(Saída de Emergência), no qual a obra e vida de Francisco de Holanda é
um dos temas principais: na foto, observe-se na capa da primeira edição
do romance a configuração do Louva-a-Deus pintado por Holanda no
frontispício do seu livro Imagens das Idades do Mundo (motivo que,
sabe quem leu, é de vital importância para todo o edifício narrativo).
Assim, gostaria de operar algo especial para assinalar a dupla
efeméride, de molde que irei pensar sobre em que poderá consistir essa
celebração. Entretanto, convido-vos à (re)descoberta da obra de Holanda e
de A Conspiração dos Antepassados.
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quinta-feira, 23 de março de 2017
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Sobre a Peçonha Branca - em «Lisboa Triunfante»
Um excerto do capítulo «A
Lição de Arquitectura», do meu romance Lisboa Triunfante (Saída
de Emergência, 2008). Neste trecho, inserido no romance em nota de rodapé, mas parte
integrante da narrativa – em Lisboa Triunfante todas as notas de rodapé são falsas e
consistem em enredo –, observa-se a obra do filósofo fictício
Binmarder da Silba, que, no romance, é um heterónimo fantasmático
do verdadeiro poeta e cronista quinhentista português Francisco de Sá de Miranda. Binmarder
da Silba cruza, ainda, duas personae literárias: o escritor quinhentista
português Bernardim Ribeiro e De Selby, o filósofo fictício inventado pelo
escritor irlandês Flann O’Brien no romance The
Third Policeman. Nesse livro, De Selby, filósofo preferido da personagem
principal, aparece apenas nas profusas notas de rodapé e, às tantas, o leitor
descobre que ele sonha em destruir o mundo em nome de Deus com uma substância misteriosa,
chamada D.M.P., por ele engendrada. Existe, assim, um paralelo entre De Selby e
da Silba, por via da Peçonha Branca: droga com a qual Sá de Miranda, em Lisboa Triunfante, se intoxica para
escrever e para se relacionar sexualmente com a prostituta Aurélia. A Peçonha
Branca foi uma verdadeira droga muito popular na Lisboa Quinhentista e cujos efeitos Sá de Miranda testemunhou e registou. No trecho que se segue, o fictício da Silba
conjectura sobre a origem da Peçonha Branca – droga que, em rigor, ainda não se
sabe a origem e a forma:
Um artigo muito raro do filósofo Binmarder, publicado pela primeira vez no raríssimo Novas Horas Douradas (1487); incunábulo mais antigo que o Tratado de Confissom (impresso em Chaves no ano de 1489 e, erroneamente, apontado como sendo o mais antigo livro impresso em língua portuguesa). Num estilo proto-humanista, que rejeita a escolástica e antecipa os melhores trabalhos de André de Resende e Garcia da Horta, o visionário Binmarder ousa trazer para a filosofia a tradição satírica dos trovadores goliardos; o que, de certo modo, é a pedra basilar do estilo humanista, já que a glória das letras não passa de um substituto da antiga nobreza cavaleiresca. Enquanto escritor – e filósofo – Binmarder tece nos seus ensaios uma filigrana vaidosíssima que se preocupa em glorificar Minerva e Mercúrio; ou seja: o Intelecto, na pele dos pensadores, e o Comércio, na pele da nova classe burguesa. Neste ensaio sobre, precisamente, a branqueza da peçonha branca, ele coloca a Razão acima do Sentimento para perceber como os efeitos do estupefaciente mais popular do tempo dele estão relacionados com a propriedade principal que é a cor. Transcrevo de “A Branqueza da Peçonha”, retirado de Novas Horas Douradas de Binmarder Da Silba (Vol. II, pag. 157):«O autor anónimo de O Atlas do Mal, livro que considero a primeira análise metafísica sobre a Sátira porque ao escarnecer dos meus ensaios satíricos ele está, enfim, a julgar esse género literário. A melhor constatação que retiro da leitura do texto enfadonho de O Atlas do Mal é que o autor não tem sentido de humor. Em primeiro lugar, ele acusa-me de ser um viciado em peçonha branca (!) e que a substância querida não só é responsável pela minha péssima prosa (aos olhos dele) como, ainda, a causa da minha fealdade (!!) e dos meus problemas de gota (!!!). Gostava de esclarecer que não sou um viciado. Sou um utilizador, porque a dita droga não rouba o ânimo para me dedicar a outro tipo de tarefas que não sejam o consumo (tarefas como escrever). Não é o local indicado para discorrer sobre a origem farmacológica da peçonha branca, misto do Vegetal e do Mineral, nem do intrincado processo através do qual ela se adapta ao dispêndio humano. (Basta dizer que, de acordo com as crónicas apócrifas de João de Barros - A Ásia Oculta –, toda a peçonha branca que se encontra disponível neste momento provém de um lote imenso que foi produzido há mais de trinta anos na Índia. O motivo da quebra de produção poderá ser a extinção das Centopeias Gigantes do Ganges, bizarros animalejos aquáticos que eram usados pelos fabricantes para pisotear as pétalas da flor da peçonha até estas se transformarem num pó fininho. A extinção das criaturas é justificada com uma inesperada intolerância à água conspurcada pelos indígenas que nela se banham amiúde.) O que me interessa é precisar o modo como a branqueza da peçonha é ela mesma um factor decisivo no modo como afecta o peçonhento (aquele que fuma ou ingere por outros meios – conheço, inclusive, um grande senhor do nosso Reino, que toma a peçonha por via anal com clisteres). A cor branca é, em muitas culturas, sinónimo de beleza ou de pureza. Ao transpor esse ideal para a actividade do peçonhento é legítimo afirmar que a cor não só é uma garantia que o material consumido é puro como a própria prática de o consumir é benta: purificada – e espécie de renúncia ascética ao alimento ordinário por outro mais espiritual (porque comunica com o sentido da visão interior). Os deuses não comem senão ambrósia e o peçonhento sabe que a satisfação que o pão oferece ao esfomeado de comida nada é comparada com o sentimento de satisfação que a peçonha presenteia ao esfaimado de sonhos! Então qual é a simbologia que esconde a flor branca e a peçonha magnífica que é seu sucedâneo? Que grande milagre é (ou era…) realizado pelos milhares de pezinhos das Centopeias Gigantes do Ganges? O que é que elas faziam? Pisavam as pétalas, somente? Ou possuíam um segredo mais elevado como o das abelhas laboriosas? Por que motivo desapareceram? Saberiam demais? Qual o segredo máximo da peçonha branca? É essa resposta que o peçonhento almeja conhecer quando se intoxica: a fé que a generosidade imensa da Natureza, expressa sempre nos feitios mais subtis, lhe mostre o real sentido do acto ao qual é – porque não dizê-lo? – misticamente orientado. Não se trata de preencher o tédio desta vida cada vez mais arreigada do pensamento com novas formas de arrumar as ideias: é buscar na comunhão com a substância secreta a raiz de uma essência! Não anda Sua Majestade em busca do Reino do Preste João? Se tomasse peçonha branca iria encontrá-lo mais depressa, de certeza. Ontem dei peçonha branca ao meu gato. Acho que ele gostou, mas terá compreendido a essência? E se ao tomarmos peçonha branca perdemos aquilo que faz de nós homens e começamos a ser mais como as centopeias que devem, sem dúvida, ter deixado algo de seu na mistela? (Pensem que uma delas escorregava e caía. Acham que a produção parava para que a ajudassem a levantar? Claro que não! Seria, isso sim, impiedosamente espezinhada.) Ou a ser mais como a própria flor que constitui o produto? Então que dizer sobre a terra e a água que nutriram a planta? Onde é que paramos? Em DEUS!... Deus é uma centopeia. Ou uma flor. Não há meio-termo. E tomar peçonha branca é uma experiência de comunhão com Ele.»
sábado, 7 de junho de 2014
«Lisboa Triunfante» com a revista Sábado
A partir da próxima semana, a revista Sábado irá dar aos seus leitores a oportunidade de levarem para casa um romance publicado pelas edições Saída de Emergência. Até ao dia 3 de Julho, a Sábado irá disponibilizar quatro romances diferentes por semana, sendo que no dia 12 de Junho (próxima quinta-feira) um deles será o meu Lisboa Triunfante (2008).
Agora que decorre a Feira do Livro de Lisboa, esta iniciativa é apenas mais outra excelente oportunidade para (também a um preço muito simpático) os leitores que ainda não conhecem Lisboa Triunfante o levarem para casa. A Raposa e o Lagarto agradecem.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
«Lisboa Triunfante» na Noite de Literatura Europeia
No próximo dia 21 de Setembro (sábado), das 18H00 às 23H00, irá ocorrer na cidade polaca de Wroclaw uma edição do evento Noite de Literatura Europeia, na qual o público amante de literatura terá oportunidade de ouvir a leitura de excertos das obras de diversos escritores europeus, entre os quais Philippe Claudel (França), Colm Tóibin (Irlanda) e Zadie Smith (Inglaterra). Portugal estará representado por mim. Um dos mais prestigiados actores polacos, Bartłomiej Topa, lerá um excerto do meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), que consiste nas primeiras dez páginas do terceiro capítulo "O Reino do Sol".
A Noite de Literatura Europeia de Wroclaw terá lugar no complexo comercial e artístico Passagem Pokoyhof (para quem estiver na vizinhança, a morada é a seguinte: ul. Sw. Antoniego 2-4).
Envio um agradecimento especialíssimo a Milka Jankowska pelo gentil convite e Jakub Jankowski pela excelente tradução para polaco que fez do meu texto: dziękuję.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
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Caros leitores: anuncio-vos que decidi terminar a minha relação profissional com as edições Saída de Emergência.
Neste momento, ainda não tenho uma nova editora para os meus trabalhos em prosa: para já, terminar este ciclo é, para mim, mais importante. Esclarecido isto, irei, como é evidente, manter-vos informados sobre as novidades.
Desejo, com sinceridade, os maiores sucessos às edições Saída de Emergência.
Neste momento, ainda não tenho uma nova editora para os meus trabalhos em prosa: para já, terminar este ciclo é, para mim, mais importante. Esclarecido isto, irei, como é evidente, manter-vos informados sobre as novidades.
Desejo, com sinceridade, os maiores sucessos às edições Saída de Emergência.
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quarta-feira, 24 de abril de 2013
Alquimia + Conversa com Deus (sem AO90)
Em seguida, transcrevo um trecho do meu romance Batalha (Saída de Emergência, 2011), um livro de forte tónica iniciática e hermética, que, entre outras inquietações, interroga o fenómeno religioso do ponto de vista dos animais. Trago-o à colação para demonstrar que o AO90 é, de facto, incompatível com a liberdade dos escritores; neste caso, inconciliável com a minha voz autoral, animada por um léxico muitíssimo específico, tão arcano quanto neológico. Neste livro, cuja personagem principal é uma ratazana, como é que um "lince" iria, então, limpar as palavras que lhe parecessem inconformes com o AO90?
Não têm os autores a liberdade legítima de decidirem, eles próprios e pelas suas exclusivas razões, como devem ou não escrever? A tirania de um (des)acordo ortográfico nunca deverá servir de obstáculo ou politriz à literatura. Convido-vos, pois, à especulação de imaginarem como ficaria o texto que se segue vertido em "acordês".
«Reunindo todas as forças, Batalha escavou o túnel mais fundo que os músculos e a dureza da terra lhe permitiram e, como quem esvurma uma ferida infectada, espremeu do crânio os vestígios da passagem pela comuna de ratos domésticos. A humidade do terriço seria o vulnerário com o qual cicatrizaria as feridas do corpo e da mente: como um danado, rolou a cabeça na terra e os torrões que se lhe grudaram no pêlo emprestaram-lhe um semblante pagão – de plutónico deus viticomado: uma potência podalírica. Esgotada a energia, estirou-se.Sentindo o cansaço apoderar-se de si, vagueou pelo labirinto nemático feito por pensamentos prestes a tornarem-se memórias – malsorteados, eles podem revelar-se inaliáveis, inatingíveis até, mas se puderem ser ligados a lembranças seguras, em selvática sínfise semântica, passam do estado líquido para o cristalino, tornando-se sinónimos de uma vida. Sem a valiosíssima memória, o que seria dos murídeos miseráveis que, derrotados pelo desespero e pelo peso imenso da terra já percorrida, procuram a lassidão subterfluente? Perder-se-iam para sempre, essas pequenas vidas – amebas no coalho de todas as vidas e, no entanto, tão essenciais que o mundo não pôde girar sem elas. E que não pode continuar a existir sem elas.Manipulada pelo instinto, Caldaça queria Batalha dentro dela. Queria imaginar-se no mesmo sonho seminíparo que todas as vidas, grandes e pequenas, precisam de sonhar para sobreviver, mas, embora não o conseguisse, no instante em que tentou, um sem-número de ratos e homens proctocriavam, de facto, de corpos e carácteres despidos.Tal como a rancidez se regozija com o ar desprotegido, também a nudez vulnerável é o estado espontâneo da cópula. Nus, todos os bichos são lesáveis e a vulva é uma mitene que só cobre o pénis, deixando o resto do corpo ao capricho do contágio – neurotomias naturais que a todos deixam indefesos. A reprodução é regular, sem sobressaltos, como uma colónia de fungos rompendo a casca grossa dos carvalhos; e, em jeito de alcalóide amanitário, o amor escorre pelos troncos cerebrais abaixo, como vinho entornado: o símbolo universal da alegria, da sorte. O sal desperdiçado, símbolo universal da tristeza, do azar, somos nós todos, nos começos das nossas vidas: brutos, informes, impuros, sem o conhecimento das relações sensuais e da morte. Precisamos, por isso, de ser ungidos, purificados e diluídos com vinho – com sexo e deterioração – de modo a crescer, a amadurecer, a salinar. Só então podemos ambicionar a ser completos, adultos, mas Batalha, repudiando a oferta de Caldaça, estaria sempre perdido, como um infante anquilosado ao crisol, ao colo do útero. Conjuctio do macho e da fêmea – estado principal da Grande Obra, na qual toda a gente participa ou assiste – que gera a Luz: fetos incandescentes, sangrantes e vermelhos como o Sol, que choram e, com esse plangente anúncio, dão início à contagem do tempo – dos seus tempos, porque não existem outros.O tempo é apanágio da matéria viva – os mortos não precisam dele.Os mortos não precisam de nada.E, por mais que fingisse estar morto, no interior do profundo buraco acabado de escavar, com a intenção de ser a sua sepultura, Batalha podia sentir a vida que ainda lhe pulsava no pénis turgescente, nas veias urziformes e na língua ressequida.Do que é que precisava?O que é que lhe fazia falta? Pensa, Batalha, pensa…Quem falou?Ninguém.Tu és a minha melhor criação.O mais esplendoroso filho.Alguém.Alguém falava.Sou Deus.Deus?O Deus do padre. Lembras-te de mim? Castiguei os filisteus com ratos e hemorróidas. Sou o Deus dos ratos e dos homens, sou um vórtice para o qual todas as vidas vertem e, vomitivo, devolvo-as à terra, numa girândola que não tem fim nem princípio. Estas volteaduras são a vontade do mundo.Estava desfeito o mistério das misérias da vida.Deus caíra na rotina.Fiz-te à minha imagem, meu Batalha. Hás de morrer e ressuscitar, numa das minhas vomições. Mas tens de acreditar em mim.Acreditar? E se não acreditar?Os ratos e os homens são feitos da mesma carne e dos mesmos ossos. Têm o mesmo sangue. Foi a preguiça: ad hoc fiz tudo da mesma massa.Mas eu não pedi para ser feito, ò Deus.Não te pedi patrocinato.Todos os bichos são meus proletários, porque só estão na terra para procriarem e povoá-la. Valem quantos filhotes têm. Já cumpriste o teu papel? Já procriaste? Já provaste o teu valor?Eu? Eu não valho nada.Não tenho prole, nem proveito.Mas tens falta de qualquer coisa.Se calhar, tenho.Se calhar, podes tê-la. Através de mim. Não queres a salvação?Não sei.É fácil de saber. Não só sou o Deus de todos os homens e de todos os ratos, como o de todos os bichos. E de todas as árvores. Todas as pedras. Até sou o Deus de mim mesmo. Na verdade, tu nem sequer existes: estou a sonhar-te. Quando acordar, deixas de existir.Quando acordar, deixas de existir.Quando acordar, deixas deQuando acordarQuandBatalha acordou, sozinho, dentro do buraco que escavara.Não sabia quanto tempo passara, desde que adormecera, mas percebeu de imediato que o Deus com quem falara tinha sido ele próprio.Não existem deuses nenhuns, pensou Batalha, sacudindo os grãos de terra que lhe polvilhavam o pêlo. Não existem nenhuns pais do mundo. A não ser nas nossas cabeças. São apenas invenções de homens velhos e de ratos velhos. Só existe a carne. A carne que se gera a si mesma, repetidamente.Só existimos nós.Só nós.»
sábado, 9 de março de 2013
Para os meus mortos, com saudade
Na morte, disse Pedranceiro, sensibilizado pela tristeza da criaturinha, todos os bichos são iguais. Não há mais
fortes ou mais rápidos, ou mais tolos ou mais sábios… Todos são iguais, todos silenciosos.
A única voz que resta, capaz de falar por eles, é a nossa, a dos que estão
vivos. Devemos lembrar-nos dos nossos amigos com amor e pensar “Bem feito.”
Porquê “bem feito”,
Pedranceiro?, perguntou Batalha. O que é que “bem feito” significa?
Quando um pedreiro
assenta um bloco entre os outros, disse o homem de
pedra, ele tem de encaixar-se com os restantes:
nem maior, nem mais pequeno. Tem de ser perfeito. Nós, pequena pedra-de-toque,
somos como os blocos, estás a ver? Temos de nos encaixar uns nos outros. Um
amigo, ou um companheiro, como o teu Rifão, é alguém que encaixa connosco e
isso é muito bem feito. Só quem trabalha com a pedra pode perceber o quanto é
difícil esse trabalho de encaixe. Pode correr mal de tantas maneiras
diferentes, as pedras partem-se, inutilizam-se, não servem para nada. É muito
triste não servir para nada. Por isso, pequeno Batalha, deves lembrar-te da tua
amiga e dizer “bem feito”, porque tu e ela encaixaram. Tu e ela serviram. Isso
é uma coisa grandiosa.
Obrigado,
disse Batalha, comovido. Acho que ela
iria gostar muito de te ouvir.
Quem
sabe se não ouvirá?, comentou Pedranceiro, levantando-se. Pousou a mão no
tronco do castanheiro. Sou capaz de ouvir
as pedras… As montanhas e os leitos irregulares dos rios… Nem sempre falam, porque
são muito desconfiados, mas as histórias que já ouvi deles, pequena
pedra-de-toque, são suficientes para preencher muitas vidas. Baixou-se e
bateu com um dedo no chão. Há nobreza na
terra, Batalha. Dignidade. Uma alma. Voltou a levantar-se. Eu sei, porque sou capaz de ouvi-la. Ouço-a
como se fosse um fiozinho de água que tenta escorrer entre as rochas: sempre a
furar, a furar. Por isso, quem sabe se os nossos mortos são capazes de
ouvir-nos, também. Se não fores capaz de escutá-los durante o dia, tenta
escutá-los à noite.
À noite?
Nos teus sonhos, disse Pedranceiro.
Aproximou-se de Batalha e de Rifão e, acocorando-se, declamou:
Morrer, tarde ou cedo,
é uma infelicidade,
mas é nos sonhos que
está a imortalidade.
Neles, os que amamos
não parecem ter partido
e nessa efémera
convivência nada está perdido.
Até à altura, é
certo, de seres tu o seu jazigo,
pois quando morreres,
eles morrerão contigo.
Mas quem sabe se a
morte é uma passagem
e a nossa existência só
uma aprendizagem?
Quem
sabe?, comentou Batalha, coçando os bigodes. Talvez não seja passagem nenhuma e apenas nos sonhos possamos falar com
os nossos mortos.
Mas
e se for, pequena pedra-de-toque?, perguntou Pedranceiro. Achas que seria uma coisa assim tão má?
Batalha não respondeu.
Não, disse Rifão, lembrando-se do mestrinho com afeição. Não seria. Aproximou-se de Pedranceiro e
lambeu os dedos que este lhe ofereceu.(Excerto do meu romance Batalha. A ilustração mostra o cadáver da porca Fraca-Chicha a ser comido pelos corvos e foi desenhada por Daniel Silvestre da Silva. Edições Saída de Emergência, 2011.)
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Morte
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Dez Coisas Que Desconhecem Sobre Aleister Crowley e Fernando Pessoa
O passatempo «Dez Coisas Que Desconhecem Sobre...» que lancei aqui há uns dias foi um sucesso: obrigado a todos pelas vossas sugestões e propostas, todas muitíssimo interessantes, que enviaram por email e por comentários e mensagens de Facebook. A vencedora foi a leitora Helena Teresa que, por Facebook, sugeriu que eu falasse sobre o encontro de Aleister Crowley com Fernando Pessoa. Como sabem, já escrevi sobre esse encontro no meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), mas no momento em que li essa sugestão fiquei com uma vontade enorme de revisitar essas figuras que tanto admiro. De maneira que, em vez de falar sobre o encontro de ambos, na Lisboa de 1930, escolhi dez coisas que, provavelmente, vocês desconhecem sobre eles. Espero que gostem e se surpreendam com...
Dez Coisas Que Desconhecem Sobre Aleister Crowley e Fernando Pessoa
1 - Mussolini expulsou Aleister Crowley de Itália, porque suspeitou que ele fosse um agente comunista
Em Março de 1920, mais encantado pela ideia de concretizar um sonho literário do que tornar-se guru de uma seita religiosa, Aleister Crowley, acompanhado pela companheira Leah Hirsig e por um punhado de amigos, ocupou uma propriedade campesina na comuna italiana de Cefalù, na província de Palermo, na Sicília, e estabeleceu nesse lugar a sua "Abadia de Thelema": espécie de retiro mágico-filosófico, inspirado na Abbaye de Thélème descrita por François Rabelais no Capítulo LVII do livro Gargantua (1534). Apesar de Aleister Crowley sempre se ter sentido atraído pela Itália, em virtude de muitos dos seus ídolos literários terem viajado para esse país, a mudança para Cefalù ocorreu numa etapa da sua vida em que ele quis emular o exemplo do pintor Paul Gauguin que, aos quarenta e três anos de idade, abandonou o emprego, a mulher e os filhos para ir pintar para a ilha do Taiti, na Polinésia Francesa. Quando se mudou para Cefalù, Crowley contava com quarenta e quatro anos de idade (só faria quarenta e cinco em Outubro) e identificava-se totalmente com o percurso de Gauguin, que até transformou em Santo no rito da sua Missa Gnóstica. Nessa ilha, à semelhança de Gauguin no Taiti - que baptizara a sua cabana, decorada com telas de cores vivas, com o nome de "Casa dos Prazeres Carnais" -, Crowley baptizou de "Cela das Putas" o aposento principal da "Abadia de Thelema" e decorou-o com pinturas murais de cores garridas. Por três anos, a rotina de Crowley e seu entourage em Cefalù foi paradisíaca, feita de passeios ao ar livre, mergulhos na praia, sessões de leitura e de meditação. Confundindo os "discípulos" que esperavam um guru tradicional, Aleister Crowley pediu-lhes que mantivessem um diário onde apontassem as suas experiências pessoais de forma a que, individualmente, construíssem o seu próprio percurso "mágico", porque a disciplina de Thelema, por ele criada, arrogava que cada indivíduo tinha um papel particular a desempenhar no mundo e que se cada um o realizasse em pleno nunca entraria em rota de colisão com ninguém: é isso que expressa o mote «Do What Thou Wilt» (também retirado da obra de Rabelais), mais a sentença «Every Man and Every Woman is a Star», redigida no inaugural The Book of the Law, que tem sido muitíssimo mal-interpretada como sendo um convite ao desregramento e egoísmo mais elementares e mesquinhos. Um desses discípulos gregários, Raoul Loveday, que também era o secretário de Crowley, adoeceu em Janeiro de 1923, depois de ter bebido água de uma bica durante um passeio que deu com a mulher, Betty May, pelas imediações de um convento que ficava perto da "Abadia de Thelema"; Crowley já avisara que era perigoso beber dessa bica e o resultado foi que Loveday morreu poucos dias depois, em Fevereiro, com uma fulminante infecção nos intestinos e no fígado: como não era católico, não o deixaram ser sepultado no cemitério e foi enterrado num terreno perto da "Abadia". A morte de Loveday é apontada em algumas fontes como tendo sido o motivo pelo qual Crowley foi expulso de Itália, mas a verdade foi bem diferente.
Pouco tempo depois, Aleister Crowley (acompanhado por Leah Hirsig e Norman Mudd, o novo secretário) foi chamado ao gabinete do comissário da polícia, em Palermo, que lhe deu uma semana para abandonar o país: a ordem de expulsão fora enviada pelo Ministério da Administração Interna e tinha como base a argumentação de que o deboche e a perversão sexual na "Abadia de Thelema" tinham de acabar imediatamente - uma desculpa totalmente esfarrapada, porque somente Crowley teve ordem de expulsão, o que deixaria os seus seguidores à vontade para continuarem com as supostas orgias. Os habitantes de Cefalù chegaram a escrever uma petição para que o Signore Crowley não fosse mandado embora, porque ele e os amigos eram boa gente e, sobretudo, bons para a economia local, posto que gastavam muito dinheiro, mas a iniciativa caiu em ouvidos moucos. A verdade sobre a expulsão de Crowley, como pode constatar-se pela leitura da sua pasta no Arquivo Central do Estado, em Roma - um ficheiro cheio de documentação espectacular sobre maçonaria e comunismo -, é que ele era suspeito de manter relações secretas e subversivas com Giovanni Antonio Colunna, político siciliano anti-fascista que Mussolini também expulsou - Colunna era amigo do cônsul inglês em Palermo, que era maçon - e ainda com um activista sérvio chamado Dimitrije Mitrinović, criador do movimento revolucionário New Europe que advogava uma utopia colectivista e anti-clerical.
As "ligações" entre Crowley e o comunismo, com efeito, não eram novas: quando foi editado em livro, The Book of the Law foi interpretado como sendo propaganda comunista, porque instigava à revolução violenta contra o estado das coisas e defendia que da revolução nasceria uma nova era. O próprio Crowley não ajudou ao esclarecimento, afirmando diversas vezes que The Book of the Law era, de facto, «um livro revolucionário» e que, em breve, a velha ordem seria substítuida por uma nova. Num período fortemente politizado, ninguém percebeu a linguagem alegórica de Crowley, que nunca teve a política em mente, e julgaram que se tratava de propaganda comunista disfarçada.
Acabou dessa forma o sonho da "Abadia de Thelema". Proibido de pôr os pés na Itália, Crowley escreveu vários poemas anti-Mussolini; contudo, inversamente às suspeitas deste, ele nunca foi comunista, nem sequer socialista. Mas, apesar disso, também desprezou fortemente os fascistas: antes de ser expulso de Itália já se referia a eles nos seus escritos como os «banditi».
2 - Inversamente à imagem que foi popularizada, Aleister Crowley nunca foi satanista
Aleister Crowley foi um magneto de controvérsia e a imprensa criou-lhe uma imagem exagerada de indivíduo perigoso e perverso. O jornal inglês John Bull, em especial, criou em 1923, na sequência dos "escândalos" perpetrados na "Abadia de Thelema", a mais colorida sequência de epítetos que Crowley teve: «Wizard of Wickedness» (17 de Março), «Wickedest Man in the World» (24 de Março), «King of Depravity» (11 de Abril) e «The Man we'd Like to Hang» (19 Maio). Quando Betty May abandonou a "Abadia", depois da morte do marido, vendeu ao jornal inglês The Sunday Express, por uma boa quantia de dinheiro, um relato difamatório e delirante, em primeira mão, sobre o sacrifício de um gato num ritual satânico na "Abadia", revelando que o marido tinha morrido por beber o sangue desse gato - mais tarde, arrependida, escreveu várias vezes a Crowley, pedindo-lhe desculpas, mas o mal já estava feito. A verdade é que Crowley nunca foi satânico, nem satanista, pese o facto de muitas correntes que professam estas orientações se dizerem inspiradas na sua figura - na realidade, inspiradas pela imagem "cartoonesca" de Crowley, criada pela imprensa.
No sistema mágico e filosófico de Crowley (Thelema) abundam as referências anti-cristãs e anti-clericais, mas Satanás nem sequer está representado de forma simbólica, quanto mais de maneira preponderante. A disciplina de Thelema faz-se de referências que extravasam completamente o espectro das fontes judaico-cristãs e nem de longe forma um corpo antagónico ao cristianismo por via inversa, como o satanismo teísta cifra. É preciso considerar que Aleister Crowley foi um caso paradigmático no ocultismo ocidental do século XX, em virtude da sua educação clássica e percurso de vida muitíssimo viajado: ele recuperou de fontes díspares ocidentais e orientais - a astrologia, a cabala, a magia enoquiana, os mitos egípcios, a alquimia, o I Ching, o budismo, o taoísmo, o yoga - aquilo que mais lhe interessou para criar uma nova filosofia "mágica", mas iniciática, que, pode dizer-se, começa com a escrita de The Book of the Law, mas foi sendo desenvolvida e modificada quase até ao final da sua vida, como se percebe pela publicação póstuma de Magick Without Tears, um livro muito mais luminoso e positivo que The Book of the Law. Às vezes, até se tem a impressão de que Crowley, na tónica que coloca no rigor científico - no método da experimentação empírica e da repetição de resultados -, numa abordagem racional e pragmática às práticas mágicas, se aproxima mais de um ponto de vista ateu ou agnóstico do que de um ponto de vista crente no sobrenatural. De facto, ele escreveu, diversas vezes, que se se fizer determinada acção (mágica) ocorrerá um determinado resultado (mágico), mas que esses fenómenos mágicos são fenómenos naturais: apenas ainda não se encontram explicados pela ciência. Afirma-o, entre outros textos, no Liber DCCCLX:
O facto de Aleister Crowley se ter intitulado "Besta 666" nada tem a ver com adoração pelo Diabo, porque ele bem sabia que o número 666 nada tem a ver com Satanás ou com satanismo, mas que significa, na cabala, "Espírito do Sol". No livro bíblico Apocalipse (nome que apenas significa «revelação do que está oculto»), é referido que «o número da Besta é o número de um homem e esse número é 666», porque, de facto, esse é mesmo o número do Homem, já que este foi criado por Deus no Sexto Dia da Criação, como pode ler-se no Génesis. As interpretações erróneas que colam este número ao satanismo são completamente espúrias e nada têm a ver com o significado original dessa referência. A prova de que Crowley sabia muito bem destas relações autênticas (ao contrário dos seus epígonos contemporâneos) é que numa sessão de um processo judicial que moveu contra Nina Hamnett por difamação, respondeu desta maneira ao procurador que lhe perguntou qual era o significado do nome "Besta 666": «Significa apenas Luz do Sol. Pode chamar-me Pequeno Raio de Sol».
3 - Aleister Crowley foi fortemente anti-clerical, mas a sua ideia do nascimento do Novo Éon está impregnada de Joaquinismo
No início do século XIII, já a reforma de Císter ia a meio-gás, o movimento milenarista medieval reforça-se inesperadamente com o desenvolvimento do Joaquinismo: corrente criada em volta das ideias do frade cisterciense calabrês Joaquim de Fiore, falecido em 1202 (a Calábria é a biqueira da "bota" italiana e nessa altura fazia parte do reino da Sicília). Em essência, o modelo milenarista joaquimita consiste numa visão macro-histórica das origens e destino da humanidade, formada por Três Idades, à semelhança da Santíssima Trindade: a pretérita Idade do Pai (os eventos narrados no Antigo Testamento), a presente Idade do Filho (os eventos narrados no Novo Testamento e a Era da Igreja) e a vindoura Idade do Espírito Santo (um período emergente de profunda contemplação espiritual, perfeição e paz). Joaquim de Fiore criou esta doutrina através do estudo do livro Apocalipse e calculou que a Idade do Espírito Santo despontaria em 1260. Três anos depois dessa data, no Sínodo de Arles, o Papa Alexandre IV condenou o Joaquinismo como sendo uma perigosa heresia. Por que é que uma Idade do Espírito Santo, plena de profunda contemplação, perfeição e paz, consistia numa perigosa heresia? Embora a profunda contemplação, a perfeição e a paz joaquimitas fossem conceitos com os quais, em princípio, a Igreja não teria grandes dificuldades em lidar, Joaquim de Fiore também profetizou que a Idade do Espírito Santo traria o desmantelamento definitivo de todas as estruturas eclesiásticas - e isso é que a Igreja não podia tolerar; daí a condenação tout court do Joaquinismo (na verdade, o Papa Inocêncio III já o tinha condenado, mas apenas em parte, em 1215, no IV Concílio de Latrão). Independentemente disso, o Joaquinismo fez furor entre os franciscanos, que sempre foram, de certa forma, bastante anti-institucionais e, ao longo dos séculos vindouros, o milenarismo joaquimita provou ser um poderoso algoritmo, capaz de adaptar-se e dar sentido a um florilégio estonteante de ideias milenaristas de várias proveniências. Entre elas, o milenarismo crowleyano.
Não reste dúvidas que a narrativa apocalíptica de The Book of the Law (até este título é o mesmo nome que os judeus dão ao Pentateuco) é, em essência, uma nova versão do velho ideal milenarista, apocalíptico - em maior espessura, do milenarismo de recorte joaquimita. Na visão milenarista de Aleister Crowley, desenvolvida em The Book of the Law, pedra basilar do edifício de Thelema, as Três Idades são as seguintes: a Idade da Mãe (uma idade que simboliza uma hipotética madrugada histórica matriarcal, cujo narradora é Nuit, a deusa egípcia da Noite), a Idade do Pai (a idade das religiões patriarcais e monoteístas, cujo narrador é Hadit, noivo de Nuit) e a Idade do Filho (o Novo Éon, o início de uma nova idade cósmica, narrada por Ra-Hoor-Khuit, jovem deus rebelde e vingativo, identificado com Harpocrates: o deus grego do silêncio, baseado nas representações infantes do deus egípcio Hórus, o Sol recém-nascido). Assim, pode também dizer-se que Nuit é identificada com Ísis e Hadit com Osíris. Neste modelo milenarista contemporâneo, sincrético, a energia iconoclasta e indomável da juventude, representada pela Idade do Filho, combate com violência o poder institucional e autoritário, mas decadente, moribundo, da Idade do Pai. É, de facto, uma narrativa "revolucionária" que instiga uma mudança violenta contra o estado das coisas - daí, na altura, ter sido entendida como propaganda radical de esquerda. Para Crowley, o advento do Novo Éon, do qual ele se apresentou como profeta, na mesma linha dos profetas veterotestamentários e de Cristo, seria uma ruptura violenta acompanhada de terramotos e guerras. Quando os efeitos catastróficos se dissipassem, instalar-se-ia, como esperado e costumeiro nas ideias milenaristas, a iluminação (thelemita) num período solar de progressão espiritual.
4 - Aleister Crowley "democratizou" as práticas mágicas
No ínicio do século XX, Aleister Crowley quebrou laços com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, na qual tinha sido iniciado poucos anos antes. Ele entrou para essa ordem numa altura em que ela estava a ser dividida internamente por culpa de um conflito pela liderança e essa conjuntura atribulada não foi de maneira nenhuma conveniente à sua integração. À parte disso, Crowley hostilizou-se rapidamente, a um nível pessoal, com alguns membros ilustres; entre os quais o poeta William Butler Yeats e o ocultista Arthur Edward Waite, co-criador do baralho de Tarot de Rider-Waite e tradutor para inglês das obras de Eliphas Levi. Em determinado momento, Crowley pôs-se do lado do líder da ordem, Samuel Liddell MacGregor Mathers, na batalha intestina pelo poder, mas não tardou a hostilizar-se com ele e, a partir daí, a saída da ordem tornou-se inevitável. No término de um período subsequente em que se dedicou ao alpinismo (liderou expedições pioneiras às montanhas Kangchenjunga, nos Himalaias, e Chogo-Ri, entre o Paquistão e a China), a viajar pelo Oriente, pelo Egipto e pelo México (onde também fez alpinismo), Crowley voltou a Londres e, a partir de 1907, com a colaboração dos amigos George Cecil Jones (outro dissidente da Ordem Hermética da Aurora Dourada) e John Frederick Charles Fuller, começou a desenvolver a sua própria fraternidade mágica/iniciática: a thelémica Argenteum Astrum (ou, simplesmente, A∴A∴), cujo lema era «The Method of Science, the Aim of Religion». Em pouco tempo, foi criado o órgão oficial de divulgação da ordem, intitulado The Equinox: uma revista corpulenta, bianual, repleta de artigos e ensaios sobre temas esotéricos. O primeiro número foi editado na Primavera de 1909 (o segundo número foi publicado, como é evidente, no Outono - daí o nome da revista). Certamente por despeito para com McGregor Mathers, The Equinox publicou bastante material referente à Ordem Hermética da Aurora Dourada, tornando público um vasto conjunto de referências que, até essa data, era coutada exclusiva dessa sociedade secreta. Na verdade, depois da Primeira Grande Guerra, numa estratégia de escapismo, a Europa devastada virou-se para o oculto e para o fantástico na literatura, nas artes e na vida privada. Toda a gente quis namorar com o oculto e a revista The Equinox foi, nesse aspecto, fundamental, porque havia popularizado, uns anos antes, todo um conjunto de temas e matérias-primas que, já embebidos no caldo cultural, foram instrumentalizados e transformados: a magia e as iniciações deixaram de ser algo mais ou menos aristocrático para, bem ou mal, serem adoptadas pelas massas. Após a Segunda Grande Guerra, o mesmo fenómeno escapista de procura pelo oculto, pelo fabuloso e pelo espiritual fortaleceu-se ainda mais e cristalizou, em definitivo, um pouco por todo o lado, durante o período psicadélico dos Anos 60 e o advento da chamada New Age. Sem a publicação seminal de The Equinox e as restantes obras de Crowley é provável que nada disto tivesse acontecido ou, então, que tivesse acontecido mais lentamente, de forma irregular.
Em Março de 1920, mais encantado pela ideia de concretizar um sonho literário do que tornar-se guru de uma seita religiosa, Aleister Crowley, acompanhado pela companheira Leah Hirsig e por um punhado de amigos, ocupou uma propriedade campesina na comuna italiana de Cefalù, na província de Palermo, na Sicília, e estabeleceu nesse lugar a sua "Abadia de Thelema": espécie de retiro mágico-filosófico, inspirado na Abbaye de Thélème descrita por François Rabelais no Capítulo LVII do livro Gargantua (1534). Apesar de Aleister Crowley sempre se ter sentido atraído pela Itália, em virtude de muitos dos seus ídolos literários terem viajado para esse país, a mudança para Cefalù ocorreu numa etapa da sua vida em que ele quis emular o exemplo do pintor Paul Gauguin que, aos quarenta e três anos de idade, abandonou o emprego, a mulher e os filhos para ir pintar para a ilha do Taiti, na Polinésia Francesa. Quando se mudou para Cefalù, Crowley contava com quarenta e quatro anos de idade (só faria quarenta e cinco em Outubro) e identificava-se totalmente com o percurso de Gauguin, que até transformou em Santo no rito da sua Missa Gnóstica. Nessa ilha, à semelhança de Gauguin no Taiti - que baptizara a sua cabana, decorada com telas de cores vivas, com o nome de "Casa dos Prazeres Carnais" -, Crowley baptizou de "Cela das Putas" o aposento principal da "Abadia de Thelema" e decorou-o com pinturas murais de cores garridas. Por três anos, a rotina de Crowley e seu entourage em Cefalù foi paradisíaca, feita de passeios ao ar livre, mergulhos na praia, sessões de leitura e de meditação. Confundindo os "discípulos" que esperavam um guru tradicional, Aleister Crowley pediu-lhes que mantivessem um diário onde apontassem as suas experiências pessoais de forma a que, individualmente, construíssem o seu próprio percurso "mágico", porque a disciplina de Thelema, por ele criada, arrogava que cada indivíduo tinha um papel particular a desempenhar no mundo e que se cada um o realizasse em pleno nunca entraria em rota de colisão com ninguém: é isso que expressa o mote «Do What Thou Wilt» (também retirado da obra de Rabelais), mais a sentença «Every Man and Every Woman is a Star», redigida no inaugural The Book of the Law, que tem sido muitíssimo mal-interpretada como sendo um convite ao desregramento e egoísmo mais elementares e mesquinhos. Um desses discípulos gregários, Raoul Loveday, que também era o secretário de Crowley, adoeceu em Janeiro de 1923, depois de ter bebido água de uma bica durante um passeio que deu com a mulher, Betty May, pelas imediações de um convento que ficava perto da "Abadia de Thelema"; Crowley já avisara que era perigoso beber dessa bica e o resultado foi que Loveday morreu poucos dias depois, em Fevereiro, com uma fulminante infecção nos intestinos e no fígado: como não era católico, não o deixaram ser sepultado no cemitério e foi enterrado num terreno perto da "Abadia". A morte de Loveday é apontada em algumas fontes como tendo sido o motivo pelo qual Crowley foi expulso de Itália, mas a verdade foi bem diferente.
Pouco tempo depois, Aleister Crowley (acompanhado por Leah Hirsig e Norman Mudd, o novo secretário) foi chamado ao gabinete do comissário da polícia, em Palermo, que lhe deu uma semana para abandonar o país: a ordem de expulsão fora enviada pelo Ministério da Administração Interna e tinha como base a argumentação de que o deboche e a perversão sexual na "Abadia de Thelema" tinham de acabar imediatamente - uma desculpa totalmente esfarrapada, porque somente Crowley teve ordem de expulsão, o que deixaria os seus seguidores à vontade para continuarem com as supostas orgias. Os habitantes de Cefalù chegaram a escrever uma petição para que o Signore Crowley não fosse mandado embora, porque ele e os amigos eram boa gente e, sobretudo, bons para a economia local, posto que gastavam muito dinheiro, mas a iniciativa caiu em ouvidos moucos. A verdade sobre a expulsão de Crowley, como pode constatar-se pela leitura da sua pasta no Arquivo Central do Estado, em Roma - um ficheiro cheio de documentação espectacular sobre maçonaria e comunismo -, é que ele era suspeito de manter relações secretas e subversivas com Giovanni Antonio Colunna, político siciliano anti-fascista que Mussolini também expulsou - Colunna era amigo do cônsul inglês em Palermo, que era maçon - e ainda com um activista sérvio chamado Dimitrije Mitrinović, criador do movimento revolucionário New Europe que advogava uma utopia colectivista e anti-clerical.
As "ligações" entre Crowley e o comunismo, com efeito, não eram novas: quando foi editado em livro, The Book of the Law foi interpretado como sendo propaganda comunista, porque instigava à revolução violenta contra o estado das coisas e defendia que da revolução nasceria uma nova era. O próprio Crowley não ajudou ao esclarecimento, afirmando diversas vezes que The Book of the Law era, de facto, «um livro revolucionário» e que, em breve, a velha ordem seria substítuida por uma nova. Num período fortemente politizado, ninguém percebeu a linguagem alegórica de Crowley, que nunca teve a política em mente, e julgaram que se tratava de propaganda comunista disfarçada.
Acabou dessa forma o sonho da "Abadia de Thelema". Proibido de pôr os pés na Itália, Crowley escreveu vários poemas anti-Mussolini; contudo, inversamente às suspeitas deste, ele nunca foi comunista, nem sequer socialista. Mas, apesar disso, também desprezou fortemente os fascistas: antes de ser expulso de Itália já se referia a eles nos seus escritos como os «banditi».
2 - Inversamente à imagem que foi popularizada, Aleister Crowley nunca foi satanista
Aleister Crowley foi um magneto de controvérsia e a imprensa criou-lhe uma imagem exagerada de indivíduo perigoso e perverso. O jornal inglês John Bull, em especial, criou em 1923, na sequência dos "escândalos" perpetrados na "Abadia de Thelema", a mais colorida sequência de epítetos que Crowley teve: «Wizard of Wickedness» (17 de Março), «Wickedest Man in the World» (24 de Março), «King of Depravity» (11 de Abril) e «The Man we'd Like to Hang» (19 Maio). Quando Betty May abandonou a "Abadia", depois da morte do marido, vendeu ao jornal inglês The Sunday Express, por uma boa quantia de dinheiro, um relato difamatório e delirante, em primeira mão, sobre o sacrifício de um gato num ritual satânico na "Abadia", revelando que o marido tinha morrido por beber o sangue desse gato - mais tarde, arrependida, escreveu várias vezes a Crowley, pedindo-lhe desculpas, mas o mal já estava feito. A verdade é que Crowley nunca foi satânico, nem satanista, pese o facto de muitas correntes que professam estas orientações se dizerem inspiradas na sua figura - na realidade, inspiradas pela imagem "cartoonesca" de Crowley, criada pela imprensa.
No sistema mágico e filosófico de Crowley (Thelema) abundam as referências anti-cristãs e anti-clericais, mas Satanás nem sequer está representado de forma simbólica, quanto mais de maneira preponderante. A disciplina de Thelema faz-se de referências que extravasam completamente o espectro das fontes judaico-cristãs e nem de longe forma um corpo antagónico ao cristianismo por via inversa, como o satanismo teísta cifra. É preciso considerar que Aleister Crowley foi um caso paradigmático no ocultismo ocidental do século XX, em virtude da sua educação clássica e percurso de vida muitíssimo viajado: ele recuperou de fontes díspares ocidentais e orientais - a astrologia, a cabala, a magia enoquiana, os mitos egípcios, a alquimia, o I Ching, o budismo, o taoísmo, o yoga - aquilo que mais lhe interessou para criar uma nova filosofia "mágica", mas iniciática, que, pode dizer-se, começa com a escrita de The Book of the Law, mas foi sendo desenvolvida e modificada quase até ao final da sua vida, como se percebe pela publicação póstuma de Magick Without Tears, um livro muito mais luminoso e positivo que The Book of the Law. Às vezes, até se tem a impressão de que Crowley, na tónica que coloca no rigor científico - no método da experimentação empírica e da repetição de resultados -, numa abordagem racional e pragmática às práticas mágicas, se aproxima mais de um ponto de vista ateu ou agnóstico do que de um ponto de vista crente no sobrenatural. De facto, ele escreveu, diversas vezes, que se se fizer determinada acção (mágica) ocorrerá um determinado resultado (mágico), mas que esses fenómenos mágicos são fenómenos naturais: apenas ainda não se encontram explicados pela ciência. Afirma-o, entre outros textos, no Liber DCCCLX:
«I further take this opportunity of asserting my Atheism. I believe that all these phenomena are as explicable as the formation of hoar-frost or of glacier tables. I believe "Attainment" to be a simple supreme sane state of the human brain. I do not believe in miracles; I do not think that God could cause a monkey, clergyman, or rationalist to attain. I am taking all this trouble of the Record principally in hope that it will show exactly what mental and physical conditions precede, accompany, and follow "attainment" so that others may reproduce, through those conditions, that Result. I believe in the Law of Cause and Effect.» [Sublinhado meu.]De qualquer das formas, na visão de Crowley, a magia não deve servir para alcançar objectivos imediatos, mas servir de caminho, de via iniciática, para alcançar-se um grau, um horizonte, mais elevado, mais nobre, que é o da transformação espiritual do indivíduo; transformação a que ele chamou, a dada altura, de «conversação com o Sagrado Anjo da Guarda»: um elemento mais evoluído que a carne e que está presente em todos os indivíduos. Ao longo da vida, Crowley foi desconstruindo o significado de «Sagrado Anjo da Guarda» e acabou por identificar o seu com a inteligência preternatural que lhe ditara o The Book of the Law, no Cairo, em 1904: a misteriosa presença que baptizou de Aiwass e que, para ele, não era nenhum espírito, mas uma inteligência extra-dimensional, à semelhança dos Chefes Secretos da Ordem Hermética da Aurora Dourada ou os Mahatmas da Teosofia de via blavatskyana.
O facto de Aleister Crowley se ter intitulado "Besta 666" nada tem a ver com adoração pelo Diabo, porque ele bem sabia que o número 666 nada tem a ver com Satanás ou com satanismo, mas que significa, na cabala, "Espírito do Sol". No livro bíblico Apocalipse (nome que apenas significa «revelação do que está oculto»), é referido que «o número da Besta é o número de um homem e esse número é 666», porque, de facto, esse é mesmo o número do Homem, já que este foi criado por Deus no Sexto Dia da Criação, como pode ler-se no Génesis. As interpretações erróneas que colam este número ao satanismo são completamente espúrias e nada têm a ver com o significado original dessa referência. A prova de que Crowley sabia muito bem destas relações autênticas (ao contrário dos seus epígonos contemporâneos) é que numa sessão de um processo judicial que moveu contra Nina Hamnett por difamação, respondeu desta maneira ao procurador que lhe perguntou qual era o significado do nome "Besta 666": «Significa apenas Luz do Sol. Pode chamar-me Pequeno Raio de Sol».
3 - Aleister Crowley foi fortemente anti-clerical, mas a sua ideia do nascimento do Novo Éon está impregnada de Joaquinismo
No início do século XIII, já a reforma de Císter ia a meio-gás, o movimento milenarista medieval reforça-se inesperadamente com o desenvolvimento do Joaquinismo: corrente criada em volta das ideias do frade cisterciense calabrês Joaquim de Fiore, falecido em 1202 (a Calábria é a biqueira da "bota" italiana e nessa altura fazia parte do reino da Sicília). Em essência, o modelo milenarista joaquimita consiste numa visão macro-histórica das origens e destino da humanidade, formada por Três Idades, à semelhança da Santíssima Trindade: a pretérita Idade do Pai (os eventos narrados no Antigo Testamento), a presente Idade do Filho (os eventos narrados no Novo Testamento e a Era da Igreja) e a vindoura Idade do Espírito Santo (um período emergente de profunda contemplação espiritual, perfeição e paz). Joaquim de Fiore criou esta doutrina através do estudo do livro Apocalipse e calculou que a Idade do Espírito Santo despontaria em 1260. Três anos depois dessa data, no Sínodo de Arles, o Papa Alexandre IV condenou o Joaquinismo como sendo uma perigosa heresia. Por que é que uma Idade do Espírito Santo, plena de profunda contemplação, perfeição e paz, consistia numa perigosa heresia? Embora a profunda contemplação, a perfeição e a paz joaquimitas fossem conceitos com os quais, em princípio, a Igreja não teria grandes dificuldades em lidar, Joaquim de Fiore também profetizou que a Idade do Espírito Santo traria o desmantelamento definitivo de todas as estruturas eclesiásticas - e isso é que a Igreja não podia tolerar; daí a condenação tout court do Joaquinismo (na verdade, o Papa Inocêncio III já o tinha condenado, mas apenas em parte, em 1215, no IV Concílio de Latrão). Independentemente disso, o Joaquinismo fez furor entre os franciscanos, que sempre foram, de certa forma, bastante anti-institucionais e, ao longo dos séculos vindouros, o milenarismo joaquimita provou ser um poderoso algoritmo, capaz de adaptar-se e dar sentido a um florilégio estonteante de ideias milenaristas de várias proveniências. Entre elas, o milenarismo crowleyano.
Não reste dúvidas que a narrativa apocalíptica de The Book of the Law (até este título é o mesmo nome que os judeus dão ao Pentateuco) é, em essência, uma nova versão do velho ideal milenarista, apocalíptico - em maior espessura, do milenarismo de recorte joaquimita. Na visão milenarista de Aleister Crowley, desenvolvida em The Book of the Law, pedra basilar do edifício de Thelema, as Três Idades são as seguintes: a Idade da Mãe (uma idade que simboliza uma hipotética madrugada histórica matriarcal, cujo narradora é Nuit, a deusa egípcia da Noite), a Idade do Pai (a idade das religiões patriarcais e monoteístas, cujo narrador é Hadit, noivo de Nuit) e a Idade do Filho (o Novo Éon, o início de uma nova idade cósmica, narrada por Ra-Hoor-Khuit, jovem deus rebelde e vingativo, identificado com Harpocrates: o deus grego do silêncio, baseado nas representações infantes do deus egípcio Hórus, o Sol recém-nascido). Assim, pode também dizer-se que Nuit é identificada com Ísis e Hadit com Osíris. Neste modelo milenarista contemporâneo, sincrético, a energia iconoclasta e indomável da juventude, representada pela Idade do Filho, combate com violência o poder institucional e autoritário, mas decadente, moribundo, da Idade do Pai. É, de facto, uma narrativa "revolucionária" que instiga uma mudança violenta contra o estado das coisas - daí, na altura, ter sido entendida como propaganda radical de esquerda. Para Crowley, o advento do Novo Éon, do qual ele se apresentou como profeta, na mesma linha dos profetas veterotestamentários e de Cristo, seria uma ruptura violenta acompanhada de terramotos e guerras. Quando os efeitos catastróficos se dissipassem, instalar-se-ia, como esperado e costumeiro nas ideias milenaristas, a iluminação (thelemita) num período solar de progressão espiritual.
4 - Aleister Crowley "democratizou" as práticas mágicas
No ínicio do século XX, Aleister Crowley quebrou laços com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, na qual tinha sido iniciado poucos anos antes. Ele entrou para essa ordem numa altura em que ela estava a ser dividida internamente por culpa de um conflito pela liderança e essa conjuntura atribulada não foi de maneira nenhuma conveniente à sua integração. À parte disso, Crowley hostilizou-se rapidamente, a um nível pessoal, com alguns membros ilustres; entre os quais o poeta William Butler Yeats e o ocultista Arthur Edward Waite, co-criador do baralho de Tarot de Rider-Waite e tradutor para inglês das obras de Eliphas Levi. Em determinado momento, Crowley pôs-se do lado do líder da ordem, Samuel Liddell MacGregor Mathers, na batalha intestina pelo poder, mas não tardou a hostilizar-se com ele e, a partir daí, a saída da ordem tornou-se inevitável. No término de um período subsequente em que se dedicou ao alpinismo (liderou expedições pioneiras às montanhas Kangchenjunga, nos Himalaias, e Chogo-Ri, entre o Paquistão e a China), a viajar pelo Oriente, pelo Egipto e pelo México (onde também fez alpinismo), Crowley voltou a Londres e, a partir de 1907, com a colaboração dos amigos George Cecil Jones (outro dissidente da Ordem Hermética da Aurora Dourada) e John Frederick Charles Fuller, começou a desenvolver a sua própria fraternidade mágica/iniciática: a thelémica Argenteum Astrum (ou, simplesmente, A∴A∴), cujo lema era «The Method of Science, the Aim of Religion». Em pouco tempo, foi criado o órgão oficial de divulgação da ordem, intitulado The Equinox: uma revista corpulenta, bianual, repleta de artigos e ensaios sobre temas esotéricos. O primeiro número foi editado na Primavera de 1909 (o segundo número foi publicado, como é evidente, no Outono - daí o nome da revista). Certamente por despeito para com McGregor Mathers, The Equinox publicou bastante material referente à Ordem Hermética da Aurora Dourada, tornando público um vasto conjunto de referências que, até essa data, era coutada exclusiva dessa sociedade secreta. Na verdade, depois da Primeira Grande Guerra, numa estratégia de escapismo, a Europa devastada virou-se para o oculto e para o fantástico na literatura, nas artes e na vida privada. Toda a gente quis namorar com o oculto e a revista The Equinox foi, nesse aspecto, fundamental, porque havia popularizado, uns anos antes, todo um conjunto de temas e matérias-primas que, já embebidos no caldo cultural, foram instrumentalizados e transformados: a magia e as iniciações deixaram de ser algo mais ou menos aristocrático para, bem ou mal, serem adoptadas pelas massas. Após a Segunda Grande Guerra, o mesmo fenómeno escapista de procura pelo oculto, pelo fabuloso e pelo espiritual fortaleceu-se ainda mais e cristalizou, em definitivo, um pouco por todo o lado, durante o período psicadélico dos Anos 60 e o advento da chamada New Age. Sem a publicação seminal de The Equinox e as restantes obras de Crowley é provável que nada disto tivesse acontecido ou, então, que tivesse acontecido mais lentamente, de forma irregular.
5 - O maior elo de ligação entre Aleister Crowley e Fernando Pessoa foi a paixão pela pseudonímia
Surpreendentemente, Fernando Pessoa e Aleister Crowley tinham bastantes coisas em comum: ambos foram criaturas moldadas por um rigído sistema educacional britânico, sob o qual era mal visto os rapazes demonstrarem as suas emoções (um sistema que fez Crowley explodir e Pessoa implodir); e ambos partilharam o mesmo sentido de humor truculento, o interesse pelas letras e pelo oculto. Para Fernando Pessoa, a iniciação era «uma admissão à conversação com os anjos» e a poesia o canal que conduzia a essa iniciação; tal como para Aleister Crowley o canal para a conversação com o Sagrado Anjo da Guarda era a magia. Mas a maior afinidade entre eles foi, certamente, a paixão pela pseudonímia: Fernando Pessoa criou dezenas de «heterónimos», personagens literárias com biografias, personalidades e estilos autorais distintos, com as quais assinava a maioria dos seus escritos; e Aleister Crowley criou dezenas de pseudónimos para assinar os artigos e ensaios que publicou em The Equinox e diversas personagens com as quais escrevia sobre si próprio nos seus livros. Já em criança, Fernando Pessoa criava personalidades fictícias para assinar pequenos versos, composições ou, simplesmente, para vestir essas peles em brincadeiras com os irmãos: Chevalier de Pas, Capitão Thibeaut, Quebranto Oessus ou Adolph Moscow são algumas das personagens da infância pessoana. Já em adulto, em Lisboa, Fernando Pessoa iria assumir uma espécie de metempsicose zoomórfica através da figura do Íbis: ave pernalta que na mitologia egípcia é avatar do Deus Toth, o criador da escrita e da magia. Durante algum tempo, quando saía com a família, costumava parar de repente na rua para assumir a postura do Íbis, recolhendo uma perna e encostando o dedo ao nariz, para enorme embaraço de quem o acompanhava - era uma pantomima quasi-ritualística, à guisa de santo-e-senha de sociedade secreta. Aleister Crowley tinha, também, uma brincadeira de rua com a qual espantava os amigos e que consistia em seguir um indivíduo escolhido aleatoriamente e imitar-lhe na perfeição os movimentos; quando atingia essa sincronia, simulava uma queda, de repente, e divertia-se imenso a ver o fulano a desequilibrar-se, em grande confusão, sem perceber que força misteriosa o tinha feito tropeçar. Com todas estas afinidades é espantoso que Fernando Pessoa e Aleister Crowley não tenham ficado mais amigos, aquando do encontro de ambos na Lisboa de 1930. É que apesar das semelhanças, existia uma enorme diferença: Crowley era um homem do mundo, um viajante, um extrovertido; Pessoa era um cidadão do imaginário e só viajava por algumas ruas da Baixa Pombalina. Nem Pessoa seria capaz de acompanhar Crowley, nem Crowley seria capaz de ficar quieto para fazer companhia a Pessoa. Vejam bem como uma única diferença pode escavar um fosso tão grande entre duas almas tão parecidas.
6 - Fernando Pessoa era vaidoso e vendia livros velhos para comprar roupas novas
A imagem de um Fernando Pessoa farroupilha, divulgada em grande medida pela popular biografia escrita pelo seu amigo João Gaspar Simões, é romântica, mas não corresponde à realidade. É verdade que Fernando Pessoa passou muitas vezes por dificuldades económicas e que acumulou dívidas de grandeza considerável, mas, felizmente, nunca se viu numa situação de miséria. De facto, nos períodos de maior aflição financeira, não teve pudores em vender livros já lidos, de modo a reunir algum dinheiro: grande parte gasto na compra de roupas novas e acessórios diversos nas mais requintadas casas de Lisboa, como a Camisaria Pitta. Os depoimentos de familiares e amigos são unânimes em esclarecer que Fernando Pessoa «andava sempre bem arranjado», «sempre de camisa muito bem engomada» e que «gostava de vestir com um certo rigor». Ele foi aquilo que na gíria da altura se chamava um "janota", mas ser um janota não era nada barato e sabe-se que Fernando Pessoa até teve uma conta muito esticada num dos mais conceituados alfaiates da cidade, a casa Lourenço & Santos, Lda. Aliás, é o próprio Fernando Pessoa que nos revela, às tantas - com humor -, a sua vaidade, numa passagem que deixou no diário, na entrada escrita a 30 de Novembro de 1915: «À noite fiquei satisfeito por ouvir duas referências diferentes (do Côrtes-Rodrigues e do Perdigão) ao facto de eu estar bem vestido (Oh! Eu!)». Acrescente-se nesta altura que, em Março de 1935, Fernando Pessoa recebeu a quantia de 5000$00 pelo prémio literário Antero de Quental, atribuído pelo Secretariado de Propaganda Nacional e concedido à sua obra Mensagem, publicada no ano anterior a 1 de Dezembro. Ora, oito meses depois de receber esse dinheiro, Fernando Pessoa viria a falecer no Hospital São Luís dos Franceses, no Bairro Alto (provavelmente de pancreatite). Seria reconfortante pensarmos, nós que somos seus admiradores, que Fernando Pessoa viveu os seus últimos meses num justíssimo desafogo que nunca conhecera, mas o facto de ele ter morrido sem deixar dívidas demonstra que gastou grande parte do prémio a saldá-las.
7 - Fernando Pessoa foi um inventor amador
Uma das actividades mais ignoradas pelo público a que Fernando Pessoa se dedicou foi a de inventar novidades - algumas surpreendentes - que pretendia patentear e comercializar. A maioria desses inventos, como os inventos de Da Vinci, nunca saíu do papel, mas entre eles contam-se, por exemplo, um projecto para um novíssimo tipo de carreto para máquinas de escrever, uma inovadora pasta para guardar documentos, um inédito anuário comercial, o Anuário Sintético, nova versão de umas Páginas-Amarelas, e até interessantes jogos temáticos de mesa, sobre futebol, críquete e, ainda, astrologia. Porém, um dos inventos que mais galvanizou Fernando Pessoa foi uma espécie de "carta-sobrescrito" que, segundo suas palavras, seria «a morte do envelope». Após várias experiências, chegou a um feitio que o satisfez e que descreveu com minúcia para efeito de registo de patente (que, provavelmente, nunca pediu). Consistia numa folha de papel dividida em seis partes: na primeira, escrever-se-ia o endereço do destinatário da carta; na segunda, o do remetente; e as restantes partes destinar-se-iam à escrita da mensagem. Esta "carta-envelope" inventada por Fernando Pessoa prefigura, de modo estupendo, o célebre aérogramme (aerograma) que seria comercializado poucos anos depois. Com um bordo gomado que, dobrado e colado, permite salvaguardar de olhos alheios aquilo que nele for escrito, o aerograma é uma única folha - carta e envelope, em simultâneo - que, como o nome indica, se envia por correio-aéreo. Foi desenvolvido pelos exércitos, durante a Segunda Grande Guerra, mas, em seguida, popularizou-se com êxito pela sociedade civil. Se Fernando Pessoa tivesse patenteado o seu invento da "carta-envelope", seria conhecido hoje, justamente, como poeta e como inventor - como inventor do aerograma, pelo menos. Então e o seu futebol de mesa?... Segundo a versão oficial, o futebol de mesa (os matraquilhos) foi inventado em 1921 pelo inglês Harold Searles Thornton, mas, na verdade, os nobres europeus já jogavam uma espécie de futebol de mesa nos salões dos seus palácios, desde meados do século XVIII (numa das salas do Convento de Mafra pode ver-se uma dessas mesas setecentistas de matraquilhos, com intrigantes figuras esculpidas em madeira), logo não podemos atribuir esta invenção a Fernando Pessoa, como lhe poderíamos facilmente atribuir a do aerograma. Compreendam que um homem, por mais genial que seja, não pode estar sempre à frente do seu tempo.
8 - Foi o slogan criado por Fernando Pessoa para publicitar a Coca-Cola que fez com que esta bebida fosse proibida em Portugal
Em 1925, o empresário Manuel Martins da Hora fundou a Empresa Nacional de Publicidade (a primeira agência de publicidade portuguesa), com a colaboração de Fernando Pessoa (segundo as suas palavras até foi Pessoa «a tratar disso» - calcula-se que se referia à "papelada") e com capital social da parceira norte-americana General Motors, mas o empreendimento com a empresa automobilística não arrancou e, seguidamente, fundando uma nova parceria, Martins da Hora tornou-se o representante português da agência internacional de publicidade John Walter Thompson (JWT), mantendo Fernando Pessoa como colaborador (uma colaboração que durou até Setembro de 1935). Por alturas de 1928, Carlos Eugénio Moitinho de Almeida, que também era patrão de Fernando Pessoa, tornou-se o agente português da marca Coca-Cola (conta da JWT) e o poeta foi incumbido de criar a propaganda comercial do refrigerante. Para o efeito, inventou o slogan «Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se». Porém, o médico e professor Ricardo Jorge, na altura Director de Saúde de Lisboa, não apreciou a truculência de Fernando Pessoa, que considerou ser uma descrição fidelíssima do modo insidioso como o organismo se viciava em drogas - primeiro estranhava-as, depois ganhava-lhes habituação: em suma, o slogan pessoano expressava «a toxicidade do produto», derivada do infame composto de coca. Por ter-se alarmado com o slogan inventado por Fernando Pessoa, Ricardo Jorge confiscou o produto e mandou-o atirar ao mar, proibindo taxativamente a introdução da Coca-Cola no mercado português. Somente quarenta e nove anos depois, em 1977, é que essa bebida começou a ser comercializada em Portugal - já com o malquisto slogan de Fernando Pessoa completamente esquecido.
9 - O livro Mensagem foi mal recebido pela Esquerda e pela Direita
A publicação do livro de poesia Mensagem, a 1 de Dezembro de 1934, vencedor do prémio Antero de Quental, atribuído pelo Secretariado de Propaganda Nacional, confundiu negativamente os admiradores de Fernando Pessoa e, também, os Situacionistas: estes, por seu lado, não gostaram do "nacionalismo místico" - esquisito - do livro, completamente apartado de substrato e referências políticas, tanto directas como indirectas, achando-o uma fantasia sem pés nem cabeça; e os outros não gostaram que Fernando Pessoa se estreasse em livro com um texto que, a seus olhos, o cunhava como apenas mais um Situacionista (quando morreu, as notícias do óbito nos jornais foram unânimes em descrevê-lo como «grande poeta nacionalista») e, ainda por cima, que era desprovido da inventividade de forma e linguagem já demonstrada nos vários trabalhos assinados com os seus heterónimos. Embora Fernando Pessoa fosse um desconhecido para a generalidade do público e invisível para grande parte da crítica literária, tinha muitos admiradores entre escritores e artistas, que o respeitavam e, em certos casos, o olhavam como um mestre. Este conjunto de seguidores desgostou muitíssimo da obra Mensagem, na qual não reconheceu o vanguardismo tão apreciado na restante obra de Fernando Pessoa. O próprio sentiu-se embaraçado pelas reacções negativas e tentou explicar-se sem grande êxito diante dos amigos: Mensagem não tardou a cair no esquecimento. Todavia, mais tarde, o livro foi recuperado por um público e por uma crítica despoluídos de fantasmas de época e hoje é justamente celebrado, paralelamente a Os Lusíadas de Luís de Camões, às obras de Fernão Lopes, de D. João de Castro e de António Vieira, como sendo o livro que melhor representa, nas suas dimensões históricas e míticas, aquilo que é Portugal - nome que esteve quase para ser o seu título. Obra aparentemente simples, escrita ao longo de duas décadas (começou a ser escrita em 1913), esconde na sua estrutura e ritmos uma enorme complexidade temática e filosófica que demonstra toda a cultura e inteligência pessoanas.
10 - Existe um retrato a óleo de Fernando Pessoa para o qual ele, de facto, posou
Está exposto na Casa Fernando Pessoa, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. É a imagem de Fernando Pessoa que podem ver reproduzida acima neste artigo: trata-se de um quadro a óleo, pintado em 1912 por Adolfo Rodriguez Castañé: artista do círculo de Almada Negreiros e Stuart de Carvalhais, que trabalhou como decorador e como ilustrador para publicidade. Também fez bandas desenhadas para o Pim-Pam-Pum! (suplemento do jornal O Século), colaborou com o Topa a Tudo e com a revista Seara Nova. Em 1912 e 1913, participou no primeiro e no segundo Salões de Humoristas de Lisboa. Pessoa foi seu amigo: encontraram-se muitas vezes nos cáfés de Lisboa que aquele costumava frequentar e também em casa de Almada Negreiros. Nasceu em Madrid, a 6 Fevereiro de 1887, mas veio aos cinco anos com os pais para Portugal: a mãe era soprano e o pai era arquitecto. Fernando Pessoa foi uma figura bastante caricaturada pelos seus amigos artistas, como Almada Negreiros e Alberto Cutileiro. Outro retrato de Fernando Pessoa feito por Castañé, mas caricatural, foi publicado, também em 1912, na primeira página do jornal República.
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