domingo, 14 de junho de 2020

Pequenas Histórias - ep. 3: "Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior)"

Terceiro episódio de Pequenas Histórias: em Bestiário da Alma: o Mistério da Palingénese (freg. Santa Maria Maior), continua a descortinar-se a história das ideias na Época Moderna, desta vez partindo do Terreiro do Paço/Praça do Comércio e Praça D. Pedro IV/Rossio, numa observação sobre o fenómeno do Exótico, reintroduzido na Europa a partir dos Descobrimentos portugueses e da chegada de animais exóticos como o elefante e o rinoceronte à Lisboa Manuelina.

De caracteres pertencentes à gramática do poder real a ícones na linguagem publicitária contemporânea, estes animais exóticos - e outros animais comuns, como o cavalo, reinventados como exóticos - ligam o Homem ao Tempo. Da Roma Antiga à Índia do século XVI, de D. Manuel I a Grandella e Schopenhauer, do rinoceronte ao cavalo, esta é uma viagem pela história das mentalidades e das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Pequenas Histórias. Ep. 2: "O Pânico de Panurgo (freguesias da Ajuda e de Belém)"

Disponível no meu canal de YouTube, o segundo episódio de Pequenas Histórias.

Em "O Pânico de Panurgo (freguesias da Ajuda e de Belém)" observa-se uma contínua correlação entre o desenvolvimento na filosofia de uma moderna mentalidade céptica e o fenómeno do adultério, tantas vezes empregue como metáfora nessas discussões, assim como o recurso a um ideário de humor popular empregue como arsenal crítico ou arma política. Partindo de uma leitura de autores como Gil Vicente, Cervantes e, sobretudo, Rabelais e Molière, olhar-se-á para o episódio do Processo dos Távoras e análogos adultérios aristocráticos como rampa de revoluções no imaginário popular. Uma viagem pela História das Ideias com duas freguesias de Lisboa como pano de fundo.

sábado, 18 de abril de 2020

Pequenas Histórias - ep. 1: "Filhos de Anúbis (freguesia da Misericórdia)"

Este é o primeiro episódio de Pequenas Histórias: série de vídeos sobre a história de Lisboa, que criei para o meu canal de YouTube, contada por freguesias e partindo de personagens e factos ignorados ou desconhecidos, que enfatiza a importância das pequenas histórias no entrecho dos grandes acontecimentos.

Em Filhos de Anúbis (freguesia da Misericórdia), observa-se uma ligação tropológica entre a guerra contra os cães vadios de Lisboa, iniciada a 12 de Abril de 1808 pelo intendente da polícia Pierre Lagarde, e o fixamento dos ideais do Liberalismo. Duas cosmovisões em confronto, num período transitório entre um mundo que acabava e outro que, progressivamente, se instaurava.

domingo, 12 de abril de 2020

Leitura de "O Corvo" de Edgar Allan Poe (trad. Fernando Pessoa)

Leitura minha do poema O Corvo de Edgar Allan Poe (1845), numa tradução de Fernando Pessoa — para todas as gralhas e todos os corvos que flutuem de fugida entre os sopros de uma poesia.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Conta-me como será: ou, Algumas previsões para um mundo pós-Covid-19

 
Sem querer insistir na solidez desta meia-dúzia de previsões (redigidas com base na informação disponível até este instante), afiguram-se-me alguns novos pontos de fuga para o travejamento político pós-Covid-19. Eles são:

1) É plausível uma acelerada ou mesmo abrupta extinção do Liberalismo, nas suas várias facções, concomitante ao reforço de políticas novas que fortaleçam a intervenção dos Estados em áreas que, por tradição, eram do desempenho privado.

2) Políticas que tendam a robustecer a influência dos Estados serão, conjectura-se, muito populares; mas, credivelmente, esse incremento não passará pelo recrudescimento de medidas de Esquerda, porque esta encontra-se comprometida com um projecto Europeu em assinalável moribundez e de baixíssimos níveis de popularidade. Prevê-se, pelo contrário, que essas novas políticas de estribamento dos Estados sejam, efectivamente, de Centro: ideias ditas de Centro serão consideradas as que mais angariam bom-senso e achadas as mais eficazes.

3) O modelo actual de globalização, já flebotomizado até à palidez pela crise de 2008, sofrerá um intenso golpe, porque ficaram ainda mais expostas as fragilidades de um comércio global assente em demasiados intermediários e por sistemas produtivos e económicos demasiado descentralizados. Assim, será provável que os novos Estados fortalecidos adoptem políticas para uma maior auto-suficiência, investindo em áreas de produção já abandonadas e enriquecendo os seus tecidos industriais — em particular Estados que nas últimas décadas se orientaram quase em exclusivo para uma economia de serviços.

4) A reinstituição das antigas lógicas de Estados-Nações não será, pois, acompanhada de um ressurgimento de ideologias nacionalistas novecentistas, pois a auto-suficiência tem limites: situação que poderá acelerar o declínio da União Europeia e nesse seguimento recriar um mundo parcelado em novas-velhas ‘commonwealths’, digamos assim, de interesses comuns, ligadas por laços históricos, geográficos, económicos e culturais (p. ex.: Reino Unido + Estados Unidos; um grupo formado pelos países da Europa do Norte e outro grupo formado pelos países da Europa do Sul).

5) Ainda é cedo para especular como ficarão as preocupações climáticas/ambientalistas que efervesceram de variadas maneiras a opinião pública nos anos mais recentes, mas é provável que o novo ‘milieu’ milenarista pós-Covid-19 sirva de breviário e altar a religiões globais mais adaptáveis à nova moldura política e económica esboçada nas linhas anteriores.

6) Mais do que subsidiar a existência ao espaço digital, a actual experiência de isolamento social demonstrará aos indivíduos que a Internet é apenas uma ferramenta e não a tecnologia utópica que se considerava ser há poucos meses, sendo de prever que esta passe por um período de desencantamento utilitário similar aos de outras tecnologias, como a electricidade — um exemplo: observada nos anos 20 do século passado pelo regime soviético como a tecnologia que faria a revolução socialista global, a electricidade passou pelo seu período de desencanto tecnológico. O mesmo ocorre/ocorrerá com a Internet: ninguém poderá viver sem ela (como com a electricidade), mas perderá as vestes de utopia com que foi enroupada desde a sua concepção.

O heroísmo das pessoas fracas


The Outsider, adaptação de um livro recente de Stephen King, é inscrito pela ingenuidade simultaneamente encantatória e exasperante com que, demasiadas vezes, os autores americanos tentam enxertar as suas criações em mitologias de origem europeia para fazê-las crescer com o viço mítico que alimenta o reservatório folclórico do Velho Mundo; neste caso, a criatura que perambula pelo Bible Belt, metamorfoseando-se em diversas pessoas com quem contacta de molde a predar os fracos sob essas identidades, é descrita como sendo o monstro que, através dos tempos, foi arregimentando relatos e lendas sobre o Papão — ou El Cuco, em expressão espanhola, como é tratado em The Outsider. Com efeito, quando a personagem Holly Gibney, detective contratada para descobrir pistas sobre este estranho caso, navega a páginas tantas num motor de busca de Internet por entre imagens amadoras de avistamentos de El Cuco e as pinturas negras de Goya percebe-se que existe, efectivamente, um distanciamento enorme entre a sensibilidade americana e a europeia, pois se para a primeira essa cena evocará um lastro mitológico longínquo e até desconhecido, para os olhos europeus a mesma cena tem o efeito de um duche de água fria. Quão melhor seria se os criadores de The Outsider tivessem rebuçado o monstro sob o anonimato, numa mitologia endémica, natural desta produção, sem necessidade de alistá-lo no bestiário.

No folclore e no hagiológio de Portugal, a Cuca ou Coca é, muitas vezes, uma criatura saurópside — como o Dragão que é derrotado nas festividades do feriado do Corpo de Deus, em Monção. Nos livros de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, o escritor brasileiro Monteiro Lobato imaginou a sua Cuca como sendo uma jacaré bruxa, prima do Saci-Pererê.

Não obstante a sonoridade patusca, o nome precipita do étimo grego ‘kako”, que significa “mau” ou “maléfico”, e do qual se desprendeu a acepção excrementícia de “caca” e de “cocó”. É, por conseguinte, um nome que tem estado sempre associado ao mal, à sujidade, ao nauseabundo. Aliás, palavras como “cisma”, “consciência” e “ciência” são todas cognatas do étimo em latim “scire”, aparentado de “kako” e do étimo indo-europeu “shkei”, que também significa “excremento”.

Alheias a estas ligações etimológicas, as personagens de
The Outsider caçam El Cuco numa velhíssima gruta de infame historial e conseguem eliminá-lo com relativa facilidade, pois, para sua sorte, a criatura encontrava-se num momento de fraca forma — embora uma coda algo mercenária, martelada já a ficha técnica do último episódio se desenrolava, sugira que poderá ser produzida mais uma temporada.

Não li o livro de King, mas, pelo que conheço do seu estilo,
The Outsider assemelha-se mais a um híbrido eficaz das primeiras temporadas de The X-Files (a sobriedade antártida do tom, da cinematografia e da banda-sonora), os romances de Clive Barker (a caracterização à inglesa da psique perturbada de personagens bizarras) e a matriz narrativa de King (crónica dos medos contemporâneos da sociedade americana, um ambiente cercado pela cultura popular e os ‘underdogs’ contra as forças do Mal).

Na verdade,
The Outsider atenua algumas das características de King que enunciei acima, como as referências à cultura popular da época em que a história se situa, o que favorece o todo, tornando-o mais intemporal. No entanto, no que concerne à crónica pesadelar da actualidade, alia-se no mesmo inimigo o medo da pedofilia e o do roubo da identidade: à semelhança de It, também aqui a criatura transmuta de forma e é uma predadora de crianças — porque «são mais doces», lembrando os fãs de King que o autor tem desenvolvido a ideia de que os seus monstros provêm, em regra, do mesmo local: um abismo inter-dimensional, situado entre mundos, ninho de monstruosidades malévolas, entre o demoníaco e o alienígena. É a influência de Lovecraft, provavelmente, mas se os seus monstros espaciais se caracterizavam pela indiferença face ao humano, os de King estão totalmente interessados em nós. Na verdade, parecem viciados no humano.

É por esta via que eu considero que os monstros de King se comportam como demónios medievais e os seus heróis são representantes de uma espécie de piedade popular de pendor protestante, segundo a qual os “escolhidos” vencerão. Muitas vezes, os heróis de King derrotam o Mal por meios verdadeiramente perfunctórios, o que só pode justificar-se pelo facto de que o actor vale mais que a acção; ou seja: o Mal é derrotado, porque foi enfrentado por determinada personagem e não por outra. No confronto entre o Bem e o Mal é importante escolher o campeão do Bem. No fundo, a Fé vale mais que as Obras, numa lógica determinista puramente protestante — mesmo quando o cunho determinista é atenuado, a tónica assinala-se pela fé nas Escrituras e não na conduta. Assim, os heróis de King (e não só) acabam por ser os indivíduos mais imprevisíveis, os anti-sociais, os marginais, os imperfeitos. Uma lógica que, com efeito, já vinha anunciada na primeira epístola de Paulo aos Coríntios: «Deus escolheu propositadamente as coisas que o mundo considera loucas para envergonhar aqueles que pensam ser sábios e escolheu as pessoas fracas para envergonhar as que têm poder» (Coríntios, 1, 27).

segunda-feira, 30 de março de 2020

Três livros da Europa do Sul: coordenadas culturais e históricas

Observações e leituras minhas de três livros do cânone literário da Europa do Sul: Comédia, de Dante Alighieri (Itália), Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes (Espanha), e Os Lusíadas de Luís de Camóes (Portugal).

Interxtualidades, similitudes e coordenadas geomentais entre estes títulos e as vidas de seus autores desvendam uma mensagem positiva para clarear os dias de incerteza que decorrem neste período em específico — em que, mais uma vez, a arrogância e ignorância setentrionais são projectadas arbitrariamente sobre o espaço meridional.

Uma lembrança da importância cultural e intelectual das obras artísticas da Europa do Sul para o desenvolvimento e consolidação do pensamento europeu contemporâneo.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapa do sofrimento


A Itália é a mãe material e espiritual da Europa.

Foi a partir da Itália que a Europa se desembrulhou, de blástula helenizante para infante império sob égide romana, capilarizando toda uma cultura e uma civilização — cuja matriz ainda nos marca, tal a sua força telúrica e moral. Foi, também, da Itália que a partir do século XIV se operou vitoriante um rejuvenescimento civilizacional que imprimiu novos rumos a uma Europa aleijada pela Peste Negra e por outras calamidades: no dealbar do Renascimento, nenhum outro reino ou entidade política europeia se podia sequer comparar à enorme sofisticação da cultura, da arte e do pensamento italianos — um caveat para alguns políticos setentrionais contemporâneos que têm o péssimo vício de falar com displicência dos países do sul.

Da Itália proveio toda uma linhagem de pensamento sem a qual a sociedade hodierna viveria no bisonho casebre da rudeza mental. Reconhecendo a dívida que temos para com a nossa mãe europeia, publico aqui a cabeça de um velho feita em terracota nos últimos anos do século XV pelo artista renascentista Guido Mazzoni: na sua sulcada expressão cada ruga produzida por diferentes anos de vida podia fazer parte de um mapa do sofrimento que sentiram os milhares de mortos italianos, vítimas da covid-19 — a maioria (ainda) idosos e doentes.

Assim, mais do que arengas de pseudo-solidariedade oriundas das várias cores do espectro político, prefiro olhar para o rosto deste velho e ler nele pistas históricas e transcendentes: políticas e ideologias vêm e vão, tão fátuas e fúteis como o estrume com que se tenta adubar um sáfaro solo — aquilo que de facto importa é inatingível, invisível e interior. Está dentro de nós, nunca desaparecerá e não duvido que nesse incerto futuro que nos aguarda o contributo italiano continuará a ser enriquecedor, incisivo e belo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

"Jabberwocky" ou "A Jibusanoca"


Esta é a minha tradução do poema Jabberwocky, de Lewis Carroll, integrante no segundo livro das aventuras de Alice no País das Maravilhas.

— A Jibusanoca

No acrepantúsculo, viscentes Govancos
geniam, pois, germaiados em gatenhos;
mengoados se sentiam os Licolimancos
e os Gazugapetos ribavam turgimenhos.


“Meu filho, cautela-te da Jibusanoca!
A fauce favola, a garra garrucha!
Evita essa avis, a Papapária, e a toca
da furibumante Bandorrezucha!”

Arrancoandindo o seu gume vergelho,
longimuito buscou a humagem homicidial.
Então, repousou ele sob um Faceirelho,
esvaecedendo-se em brevíssima reverial.

Desabrumado, os cuidados reunira —
eis a Jibusanoca, olhos de fagulha,
maninfestada e bazoflando pela cira,
chegregando com grã burlarabulha.

Um, dois! Um, dois! Desce e sobe!
O gume vergelho foi de Job-a-Job!
Degola a defunta — que ela mereça.
E galofantou, levando-lhe a cabeça.

“Achacinaste tu a Jibusanoca?
Abraça-me, centelhante filhote!
Oh, dia sublimóico! Olarilaroca!
Que rica jóia para meu huchote.”

No acrepantúsculo, viscentes Govancos
geniam, pois, germaiados em gatenhos;
mengoados se sentiam os Licolimancos
e os Gazugapetos ribavam turgimenhos.

(Original: Lewis Carroll; trad.: David Soares.)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Razões pelas quais o Holocausto é singular


Desde inícios do século XIX que as emancipações europeias dos judeus provocaram, em variáveis graus de intensidade, movimentos motivados pelo anti-semitismo, reconstruindo sob um perfil cada vez mais politizado um sentimento social anti-judaico que, em principal na Europa central e de Leste, possuía origens antigas. Nos territórios germânicos, um estilo particular de anti-judaísmo pugnava desde o dealbar da tipografia em folhetos e folhas volantes; alguns de jaez protestante, incluindo os de Lutero, e outros de cariz popular sem assinaláveis vínculos religiosos, mas ambos similares na sua retórica e propostas — inclusive a do extermínio da “raça” judaica.

A ideia de uma maciça matança de todos os judeus fazia, desde essas alturas, parte da cultura das populações desses territórios e já no século XX, a partir de 1905, o ex-cisterciense austríaco Lanz von Liebenfels publicava na sua revista Ostara artigos de campanha para o extermínio dos judeus. Fundador da sociedade cavaleiresca Ordo Novi Templi, von Liebenfels antecipou em décadas o uso nacional-socialista de uma bandeira com uma suástica.

Esta síntese mostra como o anti-judaísmo moderno dos séculos XVI a XVIII se “politizou” ao longo do século XIX após o movimento generalizado das emancipações dos judeus — aliás, nos territórios germânicos esse sentimento anti-semita tornou-se desde logo bastante expressivo, com o caso modelar de Karl Lueger, presidente da câmara de Viena e pioneiro no anti-semitismo de massas, politizado, com a criação do Partido Social Cristão, espécie de mimetismo da coeva Liga Anti-Semita Francesa. Assim, o anti-semitismo nacional-socialista enquadra-se nesta moldura referencial mais alargada de profundo sentimento anti-judaizante grassante há décadas — senão séculos — nos territórios germânicos e de Leste: a legislação anti-semita do regime nazi é em muitos aspectos uma adaptação de velhas proibições anti-judaicas promulgadas por séries de bulas papais e alvarás régios um pouco por toda a Europa. A novidade introduzida pelos nacionais-socialistas no campo do anti-semitismo europeu, como já sinalizou Raul Hilberg em A Destruição dos Judeus Europeus, foi o passo final em direcção ao extermínio — extermínio que, recorde-se, já vinha sendo proposto e teorizado em variadas formas há muito tempo sob a designação “questão judaica”, mas que a máquina de morte nazi implementava de modo industrial.

Não obstante, a singularidade do Holocausto não reside, em exclusivo, na imensidade industrial de horror em que consistiu o extermínio em massa de milhões de indivíduos e a profanação dos seus corpos para retirar-se “matéria-prima”, como cabelos, dentes ou gordura, mas na própria ideologia que orientou esse crime contra a humanidade: o facto de segundo o nazismo o Judeu ser o “inimigo global”. Isto, em suma, significa o seguinte: alguns países europeus cúmplices do nacional-socialismo que, contaminados pelo anti-semitismo, incorreram e participaram no Holocausto, eliminando em massa os seus judeus ou deportando-os dos seus territórios para a Alemanha, tinham como objectivo final a extirpação de judeus dentro das suas fronteiras, numa perspectiva puramente regional; já os nacionais-socialistas, em oposição, queriam, segundo o princípio de o Judeu como “inimigo global”, eliminar os judeus em todo o mundo.

O projecto de engenharia social nacional-socialista foi, pois, genocidário desde o início, evoluindo das para-militares Einsatzgruppen para os campos de concentração e extermínio. O genocídio global de todos os judeus foi um elemento basilar e intrínseco do nacional-socialismo. Mas o futuro do nazismo não ficaria por aqui: em Mein Kampf e, sobretudo, na segunda parte desse livro, publicada postumamente, delineia-se o extermínio dos judeus eslavos, americanos e, ainda, o extermínio no Ocidente de categorias ambíguas de indivíduos designados de inferiores, mestiços ou degenerados. A partir daqui compreende-se que depois de exterminados todos os judeus a identidade genocidária do III Reich pretendia estender o seu venefícuo manto sobre novos elencos de indesejáveis, criados em perpétua sucessão para preencher o lugar vazio deixado pelo “inimigo global” e alimentar a máquina de morte já montada — o Reich de Mil Anos, parúsia hitleriana de pendor milenarista (como milenaristas foram outros totalitarismos novecentistas) construir-se-ia sobre um perpétuo crematório em actividade. A singularidade do Holocausto reside na sua filosofia mortífera de um assassínio humano global e perpétuo. Com efeito, na sua ambição internacional e ininterrupta, não se encontra nada parecido na história: o Holocausto é, de facto, único. Singular.

(Imagem: assassínio de judeus por uma Einsatzgruppe.)

Vida e virtualidade


Ao mesmo ritmo que a Vida é, até prova contrária, endémica deste planeta, ela consiste num fenómeno incidental, contingente de arbitrariedades e coincidências, de infinitesimais ajustes de condições. O mais natural seria que, à semelhança do remanescente cosmos, ela não existisse. 

Surpreende esta conclusão tão óbvia e tão oclusa, a de que a vida é árdua para todas as espécies, em parte porque todas são clandestinas neste mundo que, provavelmente, nunca esperou albergá-las. Na maior parte das vezes, a vida das espécies faz-se contra o próprio mundo: o sucesso delas é a derrota deste.

Quando era criança, vi um documentário sobre a vida selvagem que me chocou e cuja recordação, hoje, ainda me perturba: em África, um punhado de marabus repastava-se em tragar de dentro de dezenas de ninhos feitos nos ramos de uma árvore as crias há pouco tempo saídas dos ovos de um bando de pássaros que, impotentes, prostestavam com ruidoso alarme - num plano filmado em frente ao Sol, via-se distintamente os pássaros bebés a rolarem numa grotesca cambalhota pela goela semi-translúcida dos marabus. Seres com poucos dias ou até horas de existência terminavam a sua efemeridade dissolvidos em bolsas de ácido gástrico, baldando as esperanças dos progenitores que tanto trabalho e desvelo tiveram na edificação dos ninhos. De quem seria a culpa desta circunstância violenta? Dos pássaros que escolheram um mau local para fazerem os ninhos? Dos insensíveis marabus de apetite voraz? Deste mundo padrasto que é perverso e cruel para todos? 

Sem dúvida que a observação deste tipo de ocorrências terá fortalecido a noção de que a vida no mundo é falsa, perversa e injusta. Mais do isso: a ideia de que aquilo que se vive aqui no plano terreno nem vida será, sequer, mas uma paródia marionetada por uma mente doente da qual somente a morte nos libertará. Essa noção platónico-gnóstica encerra a verdade profunda de que a Vida é, de facto, incidental. Este planeta não precisava de ter vida nenhuma. E, como tal, como ainda ninguém lhe disse que ela existia, continua a agir no seu ritmo orocronolento, tão rude e brutal como nos tempos em que lava fundente fluia nas fístulas da Terra. Bactérias, plantas e animais, todos aparentados verticalmente uns com os outros desde que ácidos nucleicos assentaram como escuma na cútis morna do abiogenésico caldo primordial, são superfluidades na arquitectura do planeta, à laia de disformes gongronas nos gerônticos troncos das árvores. 

Radica neste sentimento de revolta o mitema de que a vida verdadeira não é para ser vivida aqui, mas em outro plano não-rebatível com este e somente acessível pela morte do disfarce terreno, como Séneca disse a Lucílio empregando a metáfora de que o corpo era a casca de um novo organismo que nascia com a morte e que se deixava para trás. 

Eu não sei se Séneca estava certo. Sei que, de facto, a ideia de uma vida extra-terrena também teve a sua própria evolução, com recuos, avanços e consolidações. Civilizações existiram que não tinham como horizonte a crença numa vida pós-morte. Com efeito, a percepção de que a Vida é um acidente, e que o Sol não deixaria de brilhar se ela não existisse, parece ter criado dois tipos diferentes de atitudes, cada qual com as suas inflexões contemporâneas: 1) a da cândida aceitação de que esse é o estado das coisas; e 2) a busca da transcendência.

Quando me ponho a reflectir sobre estas matérias muita informação me passa, em rede — no sentido da conexão, mas também no da rede de pesca, com tantos dados ensarilhados uns nos outros — pela cabeça; no entanto, a perturbante imagem dos marabus a devorar pintainhos inteiros pontifica num local elevado da minha catedral de cepticismo. Ao mesmo tempo é também por essa via que compreendo a necessidade do sentimento religioso. Cada criatura, autotrófica ou não, tem de criar para si — não a realidade — um sentido para a realidade, um laço de luz entre o barbarismo das trevas mais interiores e o empíreo salvífico que nos remirá de uma condição incerta, dolorida, por vezes miserável. O Homem é o fruto da verticalidade do barro — como é que se pode desinventar essa roda? O espaço vertical é a coordenada de astros e deuses, de dias e noites, de nuvens e estrelas.

Histórias, mitos, teorias e ideologias, versos, leis e pregões. Onde estão os fósseis das histórias? Onde, entre artropódicas impressões de trilobitas e veneráveis pegadas de dinossauros, se encontra registada a calandragem das ideias? A ficção — a virtualidade — é o elemento natural do ser humano: é tão espantoso assim o sucesso das tecnologias virtuais? Desde que começámos a riscar com cores nas paredes das paleolíticas igrejas que são as grutas que vivemos em completa e total virtualidade.

Efemérides americanas


No passado dia 17 de Janeiro assinalou-se o centenário do National Prohibition Act, mais conhecido por Volstead Act: legislação americana que teve como intenção desbloquear a Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que promulgava a proibição de venda e consumo de bebidas alcoólicas.
 
O enquadramento desta iniciativa de engenharia social foi o chamado Movimento Progressista: espécie de sincrética arena ideológica em que participavam diversos actores, mas onde pontificava gente oriunda do puritanismo protestante, do credo científico eugenista e socialistas de diferentes sensibilidades — todos apostados em aposentar o Homem Velho para indigitar o Homem Novo. Com efeito, acreditava-se que extirpando as bebidas alcoólicas do horizonte dos trabalhadores americanos se iria, entre outros objectivos, fortalecer a consciência de classe desse proletariado e acelerar um devir Socialista. Curiosamente, nesses anos, e em sinal oposto à actualidade, a Esquerda americana era, na maioria, fortemente anti-imigração, pois considerava-a nociva aos interesses dos trabalhadores americanos.
 
Assim, sob essa orientação utópica, entrou-se numa era bizarra de destruição de adegas, detenções em massa de indivíduos apanhados a beber álcool, bares clandestinos, contrabando de zurrapas de qualidade muitas vezes fatal e de recrudescimento do gangsterismo.
 
Sobretudo, não deixa de ser revelador das contradições dessa época paradoxal o facto de o presidente Woodrow Wilson ter mantido para consumo pessoal uma estupenda adega de vinhos, espumantes e licores na Casa Branca — que levou consigo para casa depois de acabado o mandato. Vale a pena reflectir nas consequências sociais de toda a propaganda e iniciativas utópicas desenvolvidas nesse período, pois é provável que algumas das lições a tomar ainda se mantenham no prazo de validade.

A 19 de Janeiro de 1809 nasceu o escritor americano Edgar Allan Poe, que dispensa apresentações. Não obstante, vale a pena iluminar um aspecto de Poe que é pouco conhecido: o facto de no longo poema em prosa Eureka, publicado no turbulento ano de 1848, ele ter descrito de modo literário — e pela primeira vez — algumas realidades cosmológicas somente descobertas no século XX — e algumas apenas há poucos anos.
 
É o caso, por exemplo, do Big Bang, dos buracos negros e até uma solução engenhosa para o problema do Paradoxo de Olbers. Sem formação científica, Poe foi capaz de antecipar muitos aspectos da actual astrofísica, somente pela observação empírica e usando a sua fulgurante imaginação — muito antes da escrita de especulação científica ter sido popularizada por autores como Jules Verne ou Herbert George Wells. A lição a reter desta efeméride é a de que nenhuma tecnologia substitui a analógica imaginação humana, capaz de perscrutar a alma do universo através de ferramentas tão simples quanto lápis, tinta e papel.
 

Somos os vossos pais


O único elemento que persiste intacto depois de uma civilização colapsar é a Imaginação; fossilizada em pedra, osso ou madeira, ela é a recatada rosa-dos-ventos que nos diz que outros Tempos ensaiaram a Vida antes de nós.
Nada do que os antepassados consideraram importante no seu dia-a-dia perdurou; nada daquilo que preencheu as suas preocupações se preservou. Só aquilo que não é material, utilitário, reificado, comunica connosco.
A Imaginação é fluidal, cronófaga, eterna. Só os virtuosos, esplêndidos, trabalhos da imaginação nos dizem “estivemos aqui”, “vivemos aqui”, “somos os vossos pais”.

Votos de Ano Novo



À aproximação de outra transição temporal para um novo ano, encontramo-nos, mais uma vez, na fatal encruzilhada que nos coage à dilucidação de tudo o que se testemunhou nos meses que passaram.

Está-se, pois, na catróptica câmara de reflexão que aumenta todos os detalhes, todas as circunstâncias; nebulosa neuróglia que comunica com todos os instantes em simultâneo, à guisa de acetatos sobrepostos num projector, compondo uma incompreensível e opaca silhueta feita de tudo o que fomos e de tudo o que somos. A cor desapareceu nesta antracítica configuração; emblema ambíguo de um exame a fazer, somente perceptível pelo contorno como os ocos perfis de vítimas traçados a giz ou tinta num pavimento — aí todas as estações do ano estiolam em engelhada decrepitude na forma de um infantil Quantos-Queres em que cada face proto-cristalóide é assinalada não por uma pinta colorida, mas por cheiros, sons e vagas sugestões. Desembrulhe-se esse incipiente origami e descubra-se a verdade sobre nós mesmos.

Somos prisioneiros da percepção linear do tempo, segundo a qual este teve um início e, a ser assim, terá, necessariamente, de ter um fim: esta teleologia é a nossa maldição. Cresce-se num determinado ambiente, alimentado por um determinado discurso, e quando essas coordenadas culturais mudam acha-se sempre que chegou o Fim da História, mas a história não tem fim ou finalidade. A doença da Utopia e da escatologia salvífica tem servido de forragem às mais disparatadas e daninhas ideologias, políticas e cultos, mas, feitos o somatório e a prova, tudo o que os números mostram são indivíduos saponificados em bolhas inter-pessoais de relacionamento. Nada termina, nada se conclui, não existe nenhum desígnio metafísico para o qual flui o rio do tempo.

Somos uma sociedade esquizóide que tão depressa acha que vive no Fim da História como no melhor período possível da história: existem vendilhões e públicos para ambas as sensibilidades. Todos são mestres nas artes do “já ouvi falar”, na bisonha papagueação de chavões repetidos por gente unidimensional que somente lê e ouve outra gente unidimensional, na especulação de conteúdos de livros que se diz ainda pretender ler. A verdade é que somos ignorantes, arrogantes, vaidosos, fúteis e maldosos. Nesse sentido, somos como sempre fomos, desde a pré-história: a natureza humana é exactamente a mesma.

Os meus votos de Ano Novo são os de que se extirpe o pensamento utópico, de que se retorne à realidade e de que se ouça com mais atenção a voz simbólica da imaginação. Foi assim que se inventou a roda, o pão, o livro e a máquina a vapor. O pensamento utópico, escatológico e salvífico só inventou a guilhotina, a câmara de gás e o gulag.

Assim, nesta fatal encruzilhada que nos coage à dilucidação de tudo o que se testemunhou nos meses que passaram, convém perceber que tipo de sociedade se quer ser em 2020: a que constrói o pão e o livro ou a que constrói executórios para quem não se insere na ortodoxia utópica em vigência.


(Texto escrito a 31 de Dezembro de 2019.)