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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Medo do futuro - hoje como ontem


 
O medo é um barómetro social. Por ele são medidas as fronteiras ontológicas de uma determinada comunidade, situada num tempo em específico.

Do ponto de vista nosológico, enquanto plasma de patologias e ansiedades, o medo pouco ou nada se aparenta com aquela emoção bem conhecida, correlacional à sobrevivência, e que é partilhada por um grande conjunto de seres vivos – incluindo as plantas, que, pese não possuírem sistemas nervosos, sentem medo e transmitem-no entre si através de mensagens químicas (o pungente cheiro da relva cortada é enviado pelas folhas mutiladas, de molde a avisar todo o manto verde que está sob ameaça). Não obstante, quando se fala em medo no contexto humano, mormente dirige-se o pensamento a uma peculiar estirpe de construção intelectual, baseada no simbólico; naquilo que, em suma, não existe exteriormente à sua representação alegórica ou espiritual. Pois o homem é, provavelmente, a única criatura capaz de sentir medo de conceitos abstractos; mesmo que na origem desses receios não se excluam imagens, acções ou objectos materiais. Ora, o futuro é por mérito próprio uma abstracção.

Ao dealbar do desenvolvimento da escrita, a concepção do tempo mantida pela civilização mesopotâmica cifrava-se num cunho diametralmente oposto ao actual; pois se para nós é inato imaginar o futuro como estando à nossa frente, para os antigos mesopotâmios ele estava atrás deles. Nessa singular sequenciação temporal, o passado, por ter sido experienciado, podia ser observado através da memorização, podia ser examinado em consciência, estava palpável diante dos olhos; o futuro, invisível porque inconcretizado, situava-se atrás dos olhos. Estava-se de costas para o futuro. Assim, a civilização próximo-oriental de entre o Tigre e o Eufrates era profundamente conservadora, pois quem poderia saber que espécies de perigos e catástrofes traria o futurível que constantemente espreitava sobre o ombro? O futuro era – e é – desconhecido e o medo do desconhecido permanece como uma das mais fortes manifestações dessa emoção.

No entanto, é precipitado encerrar a questão nesse unívoco resultado, pois nesta matéria as fórmulas deixadas em aberto apontam para cálculos mais complexos. Com efeito, não será tanto o desconhecido, em si, que provoca medo, mas o potencial perigoso que trará à guisa de lastro; nesse feitio, o medo do desconhecido amiúde se corporaliza em órbita de imagos – ou mitagos – já familiares e que se consideram adversos, indesejáveis, contaminantes. No modo como uma comunidade se relaciona com o tempo e com o espaço reitera-se um longo movimento de contracção e de dilatação que constantemente absorve e expulsa conceitos e discursos numa profunda iteração identitária: no espaço exterior à comunidade estão bem definidos os monstros. Nos mais perturbantes momentos de ruptura – aqueles em que os monstros vêm de dentro – a comunidade metamorfoseia-se, vaporiza-se e sublima-se numa nova-velha comunidade que procura incessantemente recuperar a configuração originária. Nessa óptica, os contemporâneos romances e filmes de horror são, em simultâneo, galeria e vacina, pois mostram-nos a uma distância segura – a da inexistência de uma ameaça – os géneros de medos dos quais nos queremos inocular. É o barómetro social em funcionamento. Porém, a praxis não é tão contemporânea quanto isso.

Para não recuar mais que a Idade Média, observe-se que os exempla eclesiásticos, os contos morais do hagiológio e as parábolas devocionais executavam o mesmo efeito no seio de uma cristandade milenarista – e que depois do ano Mil persistiu em sê-lo. Contudo, a feição desse sentimento mudou inteiramente ao longo da Modernidade, pois o homem arrogou a tarefa de construir ele próprio o Milénio. Aliás, o género literário das utopias aparece em Quinhentos como um estilo reaccionário de literatura: num momento em que a sociedade europeia construía gradativamente os alicerces do estado moderno, os utopistas propunham o atávico e rápido retorno a uma medievalidade que, muitas vezes, era espúria e só existia nas suas cabeças. Não é à toa que as ditas utopias se situam frequentemente em ilhas inacessíveis ou em recônditas cidades fortificadas, um gesto de territorialização política de fantasias que se querem exclusórias e que reflecte, de maneira inversa, a antropomorfização daquilo que provoca o medo: antropomorfiza-se o agente do terror de molde a aplacá-lo, como se assim fosse possível chamá-lo à razão. Um exemplo cristalino desta atitude foi a criação das múltiplas seitas de flagelantes aquando do grande surto trecentista europeu de Peste Negra: romando por ruas atapetadas de cadáveres, os flagelantes talhavam a carne e vertiam o sangue para pacificar o praeternatural elemento morbígero. Não eram diferentes de nós quando hoje usamos a mesma linguagem antropomorfizante para falar do medo ligado ao clima e ao planeta (“o planeta está doente”, “a natureza está zangada”, “para salvar o ambiente temos de nos sacrificar”). A linguagem é performativa e criadora de realidades.

A importância e a sofisticação de certas obras contemporâneas de literatura e cinema que reflectiram sobre a problemática do medo do futuro são variáveis, mas dois romances de ficção científica pontificam na minha opinião como axiomáticos dos medos que têm dominado nas últimas décadas o Ocidente: The Drowned World, de J. G. Ballard, publicado em 1962, e The Sheep Look Up, de John Brunner, publicado em 1972. No livro de Ballard – que iniciou todo um sub-género da ficção científica rebaptizado recentemente de cli-fi (ficção climática) –, um evento de aquecimento global alterou o ecossistema do planeta para condições análogas às do período Triásico. Com personagens que não querem reverter a catástrofe, mas a abraçam, é a primeira distopia climática de Ballard, à qual se seguiram The Burning World (1964), sobre um mundo em que a água é cada vez mais rara, e o inquietante The Crystal World (1966), sobre uma irreversível pandemia de cristalização que mineraliza todas as formas de vida. Assentando em diferente enunciado, o romance de Brunner, publicado dez anos depois, já não elege o aquecimento global como motor da catástrofe, mas a poluição. Do ponto de vista narrativo, Brunner está menos interessado que Ballard em contar uma história dita tradicional, com início, meio e fim, preferindo uma abordagem mais impressionista, embora com personagens e espinha vertebral comuns. O resultado é uma das mais negríssimas distopias – ambientais, também – já escritas em ficção científica, perpassada por uma frieza perturbante. 

Quanto ao cinema, é admissível que os dois primeiros filmes da série Exterminador Implacável, idealizada pelo cineasta americano James Cameron, consistam nos exemplos de massas mais completos, porque têm a arte de combinar nos tropos dos filmes de acção e de terror dois grandes medos contemporâneos: o de um holocausto nuclear, que ensombrou as gerações que viveram a Guerra Fria (e que estará novamente a erguer a cabeça), e o da projectada automatização do trabalho – sobretudo, o da autonomização da máquina pelo despontar da inteligência artificial. Por este conceito sopra, aliás, um vero perfume a antigos terrores que possuem sábios ou conventículos secretos a entretecer teias maciças de conspiração, capazes de enredar o globo – pois que outra coisa não é essa inteligência artificial tornada diabólica que uma espécie de Velho da Montanha virtual?
Neste aspecto, em particular, não deixa de ser revelador do extremo egocentrismo da mentalidade hodierna que o medo do futuro continue a passar pela antropomorfização de forças ainda invisíveis e incontroláveis.



(Texto publicado originalmente no jornal MEDO: número especial temático, editado por João Paulo Cotrim e Carlos Morais José, do suplemento h do jornal Hoje Macau, por ocasião do FOLIO (Festival Literário de Óbidos), em colaboração com a Editora Abysmo.) 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Fragmento de queijeira da Serra de Monsanto (3000 a.C. a 1000 a.C.): algumas sobreposições históricas




O objecto deste texto, integrado no espólio arqueológico do Museu de Lisboa, convida-nos a pensar na estação arqueológica de Montes Claros, na Serra de Monsanto, porque é aí que começa o seu exame, mas, ainda assim, vamos olhar durante um momento para, literalmente, além Tejo, no sentido da vila de Arronches, da qual à antiga capital da província romana da Lusitânia, Emerita Augusta, ou Mérida, fundada em 25 a.C., se vai num fôlego. Não muito longe dessa vila alentejana, na orla do Parque Natural da Serra de São Mamede – nome que tanto evoca o leão sagrado, que no brasão da antiga freguesia homónima de Lisboa agarra uma palma de martírio, como a batalha vimaranense que espoletou a fundação de Portugal –, alcandora-se um antro mais vezes sobrevoado por abutres que pelos gaivões que lhes estão no nome. Na Lapa dos Gaivões (não confundir com gaviões) pode observar-se um conjunto pictórico datado do terceiro milénio antes de Cristo: pintado a zarcão, plúmbeo pigmento que os monges medievais chamavam minium e que está na origem da palavra miniatura, encontra-se um grotesco grafito que mais parece um borrão feito pelo iluminista António d’Ollanda no trapo de limpar os pincéis. E, no entanto, esse borrão, tão indeciso entre o Neolítico e o Calcolítico quanto um hipnopompo na fronteira entre o sono e o despertar, é uma imagem simultaneamente sacrossanta e vanguardista.

Mais carácter que figura, somente os cornos lhe denunciam a condição totémica à qual ainda está arreigado, mas já é uma forma de transição entre aquilo que se vê e aquilo que se imagina; um tipo de representação gráfica que está a caminho da caligrafia, do alfabeto. Flanqueado por dois antropomorfos acéfalos, esta personagem pertence à linhagem ilustre de imagens que inclui os ideomorfos da gruta francesa de Chauvet, o Homem-Leão de Hohlenstein e os pictogramas da gruta indiana de Bhimbetka, mas, mais do que isso, é um dos símbolos mais desenhados e esculpidos pela humanidade: o Homem-Cornudo. Este glifo da Lapa dos Gaivões, pintado num local adequadíssimo para nos deixarmos devorar pelas ideias, é mais autêntico que o espalhafatoso feiticeiro do santuário cavernícola de Trois-Frères, em França, a mais conhecida imagem do género. Autêntico, porque é despojado de quaisquer ideologias, senão a dos próprios cornos: são eles que interessam, verdadeiramente, estejam numa cabeça humana ou animal. São símbolos de soberania sobrenatural e sexual, instrumentos de revelação, e desde a alvorada da imaginação foram respeitados e reverenciados pelos nossos rupícolas antepassados. Facto que nos conduz de volta à Serra de Monsanto e ao fragmento calcolítico de queijeira.

Não pode assegurar-se por que razão é que nos lembrámos de começar a beber leite, mas no resultado de recentes análises a diversos fragmentos de cerâmica datados do sétimo milénio antes de Cristo, sabe-se que pertenceram a recipientes usados para guardar leite e para fazer queijo, por isso tudo indica que nos tornámos galactófagos – ou seja, capazes de digerir a lactose –, logo que aprendemos a domesticar cabras, ovelhas e vacas. Comparativamente à criação de gado para consumo de carne, as rotinas relacionadas com a produção de leite são muito exigentes; nesta perspectiva, interrogo-me sobre se poderia ter estado envolvido algum sentido simbólico ou religioso nestas práticas. Um novo tropo cultural capaz de conquistar a nossa intolerância inata à lactose para, a partir daí, tornar-se, simplesmente, outro aspecto da vida quotidiana? Se sim, isso poderia dissipar a dúvida sobre por que é que se continuou a tentar beber leite, depois de se ter ficado indisposto nas primeiras vezes. Se sim, qual a natureza da comunhão que desejava cumprir-se mediante a ingestão de leite? Com que espécie de divindades se tentava comunicar?

Perto de 3500 a.C., antes da construção da esfinge e da época das pirâmides, os primitivos agricultores e pastores que habitavam nas margens do fértil delta do Nilo idolatravam uma divindade chamada Bat, representada com um rosto feminino, orelhas de vaca e pulcros cornos curvados; mais tarde, quando essa civilização se converteu numa monarquia, os faraós passaram a ser solenizados à nascença com o epíteto sagrado de “touros de sua mãe Bat” (ou Hathor, como veio a ser chamada nesse período): mitopoesia concebida para transmitir a mensagem de que descendiam da velha vaca deusa. As ossadas de vaca achadas em escavações arqueológicas nesses cenários mostram que os bovinos só eram abatidos quando envelheciam e existe a teoria de que o gado era inicialmente criado não só para se beber o leite, mas principalmente o seu sangue – tal como as tribos subsarianas Batemi e Masai ainda hoje fazem para enriquecer dietas que não se afastam dos moldes em que era constituída a dos avoengos egípcios. Antes da criação e difusão dos suplementos alimentares contemporâneos, foi frequente a prática de equilibrar os regimes cruelty free com a imisção de sangue ou acrescentando tutano à confecção dos pratos; foi neste feitio que a cozinheira austríaca Constanze Manziarly confeccionou as refeições de Hitler – que, apesar de vegetariano, comeu conservas Atum Ramirez enquanto esteve escondido no bunker berlinense.

Todavia é persuasivo considerar que não estamos, somente, a falar de nutricionismo neolítico: sangue e leite sempre foram observados como sendo médiuns da força vital. Se há verdade no pregão que anuncia que se é aquilo que se come, então ser-se uno com o divino, por ingestão, é devoção no seu estado mais primário e impetuoso. A profusão de religiões baseadas na bovinolatria que podem contabilizar-se a partir deste período demonstra a importância que esses animais tiveram no espaço económico e cultural das novas civilizações sedentárias. Escutam-se ecos destas espiritualidades no episódio tauróctono descrito por D. Mariana Vitória, nora de D. João V, à sua mãe, D. Isabel de Farnésio, segundo o qual o rumor de encomendar-se um grande boi para abri-lo e introduzir lá dentro o rei, de maneira a curá-lo da lástima provocada pela apoplexia, era falso, porque o boi não era para ele, mas para o príncipe D. José meter lá dentro o braço e a sanar a mão enferma. Nos antigos cultos solares, como o de Mitra, o tirocínio a que está sujeito o Deus-Sol durante o Inverno é ensaiado sob a forma de um festim no qual os iniciados consomem um touro sacrificado: é uma representação da morte que abre caminho à ressurreição; noção que no cristianismo já encontrava um correlativo na história da crucificação. Em síntese, é uma variação do influente mitema a que se deu o nome de “rei adormecido” ou “encoberto”: após um estágio na entenebridade, o protagonista desperta, transformado em Rei – a origem destes cerimoniais salvíficos é, evidentemente, a vitória da Primavera sobre o Inverno, o ressurgimento radiante do Sol. Os homens têm uma tendência inata para segui-lo – inclusive nos rituais que vão formando para dar luz a um mundo brumoso e adverso. Mas de que espécie teria sido ordenhado o leite com o qual se fez o queijo que fermentou na nossa queijeira da Serra de Monsanto?

A teoria de que os bovídeos domésticos europeus descendem de auroques domesticados na Mesopotâmia entre 7000 a.C. e 6500 a..C. está comprovada por análises de ADN mitocondrial. Foram encontrados ossadas de auroques peninsulares em escavações na Sé de Lisboa, nas camadas referentes aos primórdios da Idade do Ferro, mas não existem provas de que esta espécie tenha contribuído para o genoma dos nossos bois contemporâneos; é uma descoberta que somente comprova a coexistência – não é surpreendente, porque o auroque só se extinguiu no século XVII. Porém, existem raças cujo genoma sugere outras familiaridades, como a ascendência Turdetana da raça bovina alentejana, que chegou já domesticada à Península Ibérica, vinda do Egipto – e, nem de propósito, as comoventes esculturinhas de barro que datam dos tempos pré-faraónicos, figurando bois jugados a pastar, mostram que essa espécie egípcia, de cornos largos e revirados para baixo, talvez descendente de um extinto antepassado africano (1), se assemelha muitíssimo aos touros típicos das regiões que os romanos cognominaram de Tarraconense, Bética e Lusitânia. Apesar de tudo, o gado bovino nunca terá sido abundante nesta altura (2) e é mais provável que os criadores de animais que foram amáveis o suficiente para deixarem-nos os seus restos mortais na estação arqueológica dos Montes Claros fossem simples pastores de caprinos: criaturas capazes de sobreviver com os arbustos alcantilados das mais sáfaras serranias. Por conseguinte, o queijo que nos traz aqui à colação foi, certamente, feito com leite de uma cabra calcolítica.

O nome Calcolítico é formado por duas palavras gregas: calkos, que significa cobre, e lithos, que significa pedra. É um período intermediário entre o Neolítico e a Idade do Bronze, denominada Eneolítico (a palavra grega eneo significa bronze), e assinala o aparecimento de objectos manufacturados em metal (o cobre), ao mesmo tempo que a pedra permanece em uso; logo, estamos na madrugada metalúrgica da humanidade, mas os velhos modos de vida ainda não foram substituídos, como atesta o nosso fragmento de queijeira. Ao mesmo tempo que se fala em cobre, pode falar-se, por exemplo, de estanho ou de chumbo: metais dúcteis e fáceis de fundir a baixas temperaturas, ao contrário do ferro, que precisa de uma temperatura de 2000º para fundir-se. Quando se diz que o cobre é dúctil, isso não significa que seja uma espécie de não-metal: é preciso considerar que os netos dos adoradores de Bat construíram as pirâmides com ferramentas de cobre muito elementares – mas extraordinariamente eficazes –, tornadas ainda mais afiadas em conjugação com o efeito abrasivo da areia. Mas o bronze, que é feito ligando-se cobre com estanho, revolucionou os estilos de vida das civilizações; principalmente, permitiu-lhes investir em algo que já andava a ser adestrado desde que as inaugurais sociedades sedentárias levaram a extremos, até então nunca vistos, as noções de “meu” e “teu”: a arte da guerra. As armas que fazem as delícias dos leitores de A Ilíada, por exemplo, são todas feitas de bronze. Existe uma correlação entre o nosso queijo calcolítico e as armas de bronze: são proveitos de uma economia de mercado. No caso das armas, povos do Mediterrâneo Oriental, como os fenícios, trocavam os seus produtos autóctones por estanho, que iam buscar a litorais longínquos, como o paredão pedregoso da Irlanda ou as enseadas encantadoras da occídua fronte peninsular. Mas no que concerne ao queijo, o segredo é o sal.

Na Ilíada, que mencionei há poucas linhas, Hecamede, capturada por Nestor para ser sua criada, inaugura uma combinação gourmet que ficou famosa até hoje, ao servir um bom queijo de cabra com um bom vinho de Lesbos (o facto dela ter ralado o queijo para dentro da taça de vinho não provou ser nenhum impedimento). Todavia, A Odisseia revela-nos que Polifemo, o ciclope que quer devorar Ulisses, é, apesar da sua imbecilidade ovina, um extraordinário queijeiro: tem a caverna cheia de enormes queijos deixados a curar, cujo cheiro faz crescer água na boca aos companheiros de Ulisses. Sem desconsideração para Homero, é mais provável que o queijo tenha sido descoberto por acidente como consequência do costume de beber leite – e de maneira muito semelhante à forma como se descobriu a cerveja, porque ambos são fruto da fermentação –, do que inventado por um gigante antropófago. Tudo terá começado quando algum antigo pastor se esqueceu de beber o leite que guardou num odre feito de estômago de cabra ou de ovelha: ao permanecer mais tempo em contacto com esse revestimento rico em quimosina – enzima que possui propriedades coagulantes –, o leite, simplesmente, coalhou. Não terá demorado muito tempo até que, por experimentação, se tenha concluído que mergulhando no leite as coalheiras de crias por desmamar se acelerava e aperfeiçoava o processo (a coalheira é a última câmara do estômago dos herbívoros ruminantes: os restantes compartimentos gástricos chamam-se pança, barrete e folhoso). A nossa queijeira calcolítica seria mais ou menos assim: um coador cilíndrico de cerâmica com duas bocas para introduzir a coalhada e paredes perfuradas para que o soro do leite escoasse. Parece ser uma tecnologia muito básica e ineficiente, mas até os queijos industriais continuam a ser feitos segundo estes princípios básicos. Objectos desta natureza assinalam a chamada "Revolução dos Produtos Secundários", na terminologia do arqueólogo inglês Andrew Sherratt.

Os romanos foram, como os gregos, apreciadores de queijo e o nome em latim para este género de queijeiras é forma, do qual derivam os nomes italiano e francês para queijo: formaggio e fromage. A nossa palavra queijo não originou desse nome em latim para queijeira, mas do nome romano para o próprio produto: caseu, que significa amargo. É, de facto, muito parecido com as palavras em latim para choça e infortúnio: casa e casus. A primeira é, como é evidente, a nossa palavra casa, que os romanos nos deixaram quando por aqui passaram. É que, em latim, a palavra domus, popularizada por tantos livros e filmes como sendo a palavra para “casa”, significa uma grande propriedade abastada, mais a familiae (escravos) que lhe está agregada, e relaciona-se com a palavra dominus, que se traduz por amo ou proprietário. Segundo o latim, todos nós vivemos em choças.

Será que existe uma analogia significante entre estes étimos em latim para as nossas palavras “queijo”, “casa” e “infortúnio”?
Em A Anatomia da Melancolia, Robert Burton medita sobre as faculdades morbígeras do queijo e das restantes «viandas de leite», como lhes chamava D. Duarte – o nosso rei mais “burtoniano” –, porque sendo alimentos “frios” têm o poder de estimular o frio humor «merencórico» (outra designação “duartiana”, anotada em O Leal Conselheiro). Que afinidade se aglutina entre o queijo e a amargura? Desfraldo neste instante um parêntesis para pensar sobre a influência que poderão ter tido nesta matéria uns hipotéticos e rústicos queijeiros, trabalhando amargamente em choças de colmo – não dissemelhantes às dos pastores portugueses, que perduraram até ao século XIX – para produzir agres queijos que iriam vender no mercado.

No seu Livro das Grandezas de Lisboa, Frei Nicolau de Brito garante que os queijos do reino de Portugal são «os mais estimados e nomeados que há no mundo». Descontado o pendor que o cronista tinha para o exagero, esse engrandecimento encerra uma pequena verdade: poderão não ser os melhores do mundo, mesmo que o da Serra de Estrela – feito a partir de leite de ovelhas que Gil Vicente chamou de «meirinhas» (que é como quem diz “lanudas”) – e o de Serpa (também de leite de ovelha) mereçam essa distinção, muito cobiçados são, sem dúvida.
Então e o da Serra de Monsanto?

Infelizmente ou felizmente, esse ficou, em rigor, para a história. Aquilo que nos desvendou sobre as incipientes lactoindústrias do Calcolítico, nas suas dimensões mitológicas e práticas, aplanou-nos o degrau cronológico pelo qual ascenderemos a uma Lisboa ainda longe de ser a nossa, mas muito próxima do protótipo cosmopolita, tal como o petroglifo cornuto da Lapa dos Gaivões se declina de desenho para carácter. O sal, como vimos, é o segredo – do queijo e do aplainamento do nosso degrau.

Os caçadores-recolectores nunca trocaram nenhuns objectos por sal, como os agricultores e os pastores fizeram, porque eles encontravam sal, naturalmente, na dieta variada que colhiam e capturavam; em semelhança, os animais selvagens não precisam que lhes dêem sal a engolir, como precisam os domésticos. Para manterem-se vivos, espécies corpulentas como bois e cavalos precisam até dez vezes mais sal do que nós – é indispensável. A falta de sal dá dores de cabeça e tonturas, provocadas por hipotensão arterial, depois vêm os vómitos, porque sem sal não se é capaz de digerir uma simples passa; em seguida, deixa-se de pensar com clareza, num torpor irascível, e é-se derrotado por uma estranha exaustão que, por mais que se repouse, não desaparece. Finalmente, cai-se num coma e morre-se, porque sem sal as células não são capazes de nutrir-se e expiram de desidratação. É uma morte traiçoeira, porque nunca, em momento algum, se sente vontade de comer sal. Hoje, felizmente, os alimentos que consumimos e a água que bebemos das nossas torneiras, cheia de sais e minerais fundamentais, ajudam-nos a manter equilibrado o nível de duzentos e cinquenta gramas de sal que precisamos para sermos saudáveis, mas que os nossos metabolismos gastam com celeridade. Os romanos não foram nenhuns tolos ao preocuparem-se tanto com esta questão, ao ponto de pagarem aos soldados em sal.


(1) No sítio arqueológico Ouede Mathendous, na Líbia, é possível observar várias gravuras de animais, feitas em rochas de arenito, datadas de há oito mil anos; entre elas, a de uma espécie extinta de bovino (auroque ou búfalo) que poderá ser o antepassado dos primitivos bovinos egípcios.

(2) As escavações supramencionadas no início do parágrafo, no estrato referente à Idade do Ferro investigado na Sé de Lisboa, desvendam que o gado bovino continuava a ser pouco consumido, em relação ao ovino e ao caprino.