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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre flexões nominais


O escritor norte-americano David Foster Wallace escreveu o seguinte no ensaio "E Unibus Pluram", contido no livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again (1997):

«I'm not saying that television is vulgar and dumb because the people who compose the Audience are vulgar and dumb. Television is the way it is simply because people tend to be extremely similar in their vulgar and prurient and dumb interests and wildly different in their refined and aesthetic and noble interests.»

Na maioria das vezes, os programas televisivos difundem uma versão desidiosa da língua; como flocos liofilizados, ela é servida em porções desenergizadas às quais a falta de tempo e a falta de informação impede que se junte água - uma infra-linguagem indicada para empregar nos rodapés rolantes dos noticiários ou nos palimpsestos contemporâneos da internet, mas demasiado inexacta e inculta para veicular conhecimentos. O lugar-comum da televisão como ama-seca dos espectadores volta a soar acertado quando se pensa sobre a linguagem televisiva como sendo análoga aos arrulhos usados para acalmar crianças - e talvez mais do que em qualquer outra altura, ela arrulhe mais alto no período natalício.

Alguns dos erros mais frequentes que se ouvem na televisão são erros no uso das regras de flexão, que se divide em nominal e verbal. À primeira cabe, entre outras coisas, o tratamento do género e do número dos nomes e dos adjectivos. O género pode ser masculino ou feminino e o número pode ser singular ou plural. Existem línguas, como as da família ugro-finlandesa (finlandês, estónio, húngaro) que se caracterizam pela ausência de género, ou seja o mesmo pronome é usado para designar tanto o género masculino como o feminino (politicamente correcto, não?), mas no caso do português existem regras específicas para o uso do género e do número. No último caso, os erros mais vulgares ocorrem na escrita de palavras compostas ou compostos (nem sempre ligados por hífen).

Por exemplo, nesta altura do ano ouve-se dezenas de vezes "pais natal", mas o plural de Pai Natal é pais natais, porque é um composto formado por um nome e um adjectivo. O mesmo acontece com o plural bolos-reis do composto bolo-rei, formado por dois nomes. Quando o composto é formado por dois adjectivos, ambos se usam no plural.
Nos compostos formados por um verbo e um nome, só o nome muda para plural. Todavia, nos casos em que existe uma preposição entre dois ou mais elementos (são os chamados compostos preposicionais) só o primeiro adquire a forma de plural: é por isso que se diz pães-de-ló e não pão-de-lós ou pães-de-lós (muito menos "pãos-de-ló").

A dada altura, Foster Wallace também escreve:

«Television, from the surface on down, is about desire.
Fictionally speaking, desire is the sugar in human food.»

Qualquer biólogo sério vos poderá esclarecer que estamos programados para procurar alimentos açucarados e que é ingrato lutar contra essa tendência congénita. É por isso que o Natal é particularmente periculosu: por culpa dos tradicionais doces e pontapés no português.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Confusões com (figuras de) estilo

Usar-se a palavra metáfora quando é claro que se quer dizer alegoria.
Uma metáfora, cujo étimo grego significa transposição é o acto de transpor uma palavra para o lugar de outra, com a intenção de operar um efeito literário (positivo ou negativo) que funciona por comparação implícita: por exemplo, «Fulano de tal é burro». Ninguém espera que o sujeito do exemplo seja, de modo literal, representante da espécie asinina, mas que, por comparação implícita, se fique com a ideia de que possui faculdades com as quais os burros são conotados nas tradições populares (raciocínio coriáceo, teimosia, etc.). Por seu mérito, a alegoria (que significa figuração) é que se baseia na comparação de um termo concreto e um abstracto; ou seja: a função da alegoria é evidenciar objectos e mundos abstractos.

Por exemplo, o quadro A Carroça de Feno (De Wooiwagen, 1502) de Hyeronimus Bosch é um belo exemplo de uma alegoria, pois usa uma imagem (ou imagens) concretas para veicular significados abstractos.