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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Não farás lixo


À semelhança daquilo que acontece em outras cidades europeias, em Lisboa já está a ser aplicada a nova hierarquia de recolha semanal de lixo, segundo a qual cada condomínio é presenteado com dois recipientes para resíduos recicláveis de plástico e de papel (substitutos dos anteriores contentores de rua), enfileirados junto ao caixote de lixo que tinham nos seus rés-do-chão e que, a partir de agora, serve, em exclusivo, de recipiente de lixo doméstico não-reciclável.

Tenho tantas coisas para dizer sobre isto que, sinceramente, nem sei bem por onde começar. Para já, servirá a breve constatação de que quando falo em hierarquia de recolha semanal de lixo, é mesmo essa palavra que desejo empregar, pois subjacente à política europeia de gestão do desperdício doméstico (atenção que a palavra-chave desta designação oficial é desperdício: não é lixo, não é resíduos, mas desperdício, que carrega um mais pesado lastro "moralizante") encontra-se uma criação bem interessante, saída dos campos sempre férteis dos pseudoconhecimentos, chamada hierarquia de desperdícios: uma inovação da velha tríade de «reduzir, reutilizar, reciclar», que foi moda até há bem pouco tempo, e que tem como objectivo alcançar a utopia urbana de desperdício zero. Ou seja: a ideia é que os indivíduos façam menos lixo; neste caso, que não façam nenhum.
Considerando que o ser humano e a maioria dos animais não possuem poderes autotróficos, o que significa que não são capazes de produzir os seus próprios alimentos, tal como as plantas, será muito difícil não produzir, também, algum lixo.

De acordo com o cardápio desanimador da hierarquia de desperdícios, o lixo orgânico passa a ser recolhido pelos serviços camarários de limpeza somente às terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados. Por conseguinte, se tiverem amigos ou família para jantar num sábado à noite, somente na terça-feira seguinte é que poderão deitar fora o lixo produzido no fim de semana. De facto, isto é um problema, porque obriga os indivíduos a pensar num modo de conservar com segurança em casa o lixo orgânico durante quase três dias (porque a recolha de lixo é nocturna). Só na minha área de residência tenho encontrado caixotes a transbordar de lixo não-recolhido, caixotes cheios de lixo que estão "trancados" com as faixas adesivas aplicadas pelos serviços de fiscalização, por terem sido colocados na via pública em dias nos quais não está programada a recolha de lixo orgânico (corrijo, não-reciclável) e, o que é pior, sacos, saquinhos e lixo espalhados pelos passeios - situações que nunca ocorreram no período anterior à aplicação destas novas recolhas hierarquizadas. É óbvio: os indivíduos precisam de deitar fora o seu lixo todos os dias e as cozinhas e as despensas não foram desenhadas para ser lixeiras. Bem sei que em certos países do Norte da Europa não existe o hábito de cozinhar comida fresca todos os dias e que, nesses sítios, a maioria do lixo é composta por embalagens (de comida de micro-ondas, maioritariamente, mas também latas, frascos, pacotes de bolachas, etc.), logo a gestão hierárquica de desperdício será um pouco mais fácil de conseguir; porém, em países como Portugal, que tem hábitos domésticos e alimentares diferentes (ou vai tendo), a medida surge como artificial e impraticável (falando em países do Norte da Europa, a Dinamarca, por exemplo, o caso paradigmático que tantos países tentam emular, em tantos aspectos diferentes, está-se borrifando para esta história e incinera todos os seus resíduos - talvez por ter compreendido que os métodos recorrentes de reciclagem são muitíssimo onerosos, consomem mais energia e acabam por poluir mais do que aquilo que se pensa. Já agora, a reciclagem, esse cavaleiro-branco dos verdes de pacotilha, que transforma não-sei-quantas tampinhas de garrafas de plástico em vinte e cinco elefantes ou qualquer monstruosidade semelhante, figura bem baixo na pirâmide da hierarquia de desperdícios: o ápice é ocupado pela «prevenção», ou seja, por não se fazer lixo de todo).

O mais tragicómico é que a tal hierarquia de desperdícios e a teoria do desperdício zero (é mesmo a sua definição: teoria) são, somente, media darlings, filosofias vápidas embandeiradas em arco por quem acha que iniciativas como a Hora da Terra servem para resolver problemas de contaminação ambiental e de escassez de recursos energéticos, mas continua a trocar de smartphone ou de tablet a cada seis meses, contribuindo vigorosamente para a enchente muito insustentável de metais pesados que são enterrados clandestinamente em certos países africanos, onde envenenam lençóis de água e vão matar mais leões e elefantes que os caçadores parolos que as redes sociais adoram vilipendiar, ou, simplesmente, são deitados no Índico ou no Pacífico. Outra situação bem caricata é a de que o criador e principal pugnador desta fantochada da teoria do desperdício zero é um senhor que aparece pouquíssimo na televisão, chamado Paul Connett, autor do livro «A Solução do Desperdício Zero»: um obcecado por diversas teorias das conspirações, em principal a de que os governos esterilizam os indivíduos e lhes diminuem as capacidades mentais recorrendo ao flúor na água canalizada. Por conseguinte, alguém credível que merece toda a nossa atenção.

Algumas ligações interessantes para quem estiver, minimamente, preocupado em saber de que cabeças vêm determinadas ideias que nos afectam a todos:

- «Towards a circular economy: A zero waste programme for Europe»: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?qid=1415352499863&uri=CELEX:52014DC0398R%2801%29

- Site da organização Zero Waste International Alliance: http://zwia.org/

- Sobre Paul Connett no reputado site Quackwatch: http://www.quackwatch.org/11Ind/connett.html

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Lisboa, a cobaia


Estou habituado a ter opiniões que vão no sentido oposto ao da moda: para o efeito, não existe da minha parte nenhuma inclinação, nem nenhum apetite singular - simplesmente, recuso observar o mundo pelas lentes que o populismo e a transitoriedade impõem.

Hoje é notícia que Lisboa irá proibir no centro da cidade a circulação de veículos automóveis com matrículas anteriores ao ano 2000: medida que prossegue a proibição gradual de circulação automóvel na Baixa e centro da cidade iniciada em 2011 com outras medidas, igualmente restritivas, que, somadas a esta, só poderão ter como objectivo de curto-prazo a proibição completa de circulação automóvel no centro da cidade, excepto transportes públicos. Não deixa de ser curioso ler esta notícia em paralelo com outra, publicada ontem, que anunciou a expansão das coroas da rede de transportes públicos, assim como o aumento dos preços dos passes para os utentes.

Os transportes públicos de Lisboa são caros. Já andei de transportes públicos em diversas capitais europeias, de países do Sul e do Norte, e, provavelmente, Lisboa será aquela que, à luz do valor do salário mínimo nacional e da média dos restantes ordenados, tem os títulos de transportes públicos mais caros - e sublinhe-se que consiste numa rede de transportes públicos de percursos planeados de modo pedestre (trocadilho não-intencional).
Um bilhete de autocarro custa 1,85 euros, um bilhete de eléctrico custa 2,85 euros e um bilhete de ascensor custa 3,60 euros (preços de uma única viagem; ou seja, caso se pretenda efectuar uma viagem de ida e volta, o custo duplica). Um bilhete de metro custa 1,40 euros e tem um prazo de validade de sessenta minutos: caso se pretenda mais tempo de viagem existe a modalidade do bilhete diário, que custa 6,00 euros. Preços nas proximidades dos 3,00 ou dos 4,00 euros poderão parecer baratos, mas, na verdade, são preços turísticos cobrados a utentes que, na maioria, não são nenhuns turistas: são residentes de Lisboa que utilizam diariamente os transportes públicos no decurso das suas habituais rotinas.
Os percursos dos autocarros de Lisboa são demasiado longos - e, em alguns casos, até suburbanos -, logo não causará nenhum espavento que um cidadão prefira deslocar-se no seu automóvel dentro da cidade para ser capaz de chegar com maior rapidez ao seu destino. Aliás, as diferenças entre as médias dos preços dos bilhetes, dos passes e dos parques subterrâneos de estacionamento são tão ténues que mais vale uma deslocação de carro e pagar-se o estacionamento no parque, porque isso poderá corresponder a uma economia de tempo na ordem dos quarenta e cinco minutos a sessenta minutos de viagem - principalmente nas horas de ponta. Quem não entende isto não sabe o que é morar numa grande cidade.

Não me escapa a eventualidade de eu estar errado sobre este assunto e, por ignorância temporária ou limitação intelectual de longa duração, manter-me do lado negro da linha que separa os pragmáticos dos idealistas. Na realidade, não encontro idealismo nenhum na moda de, forçosamente, se querer ser popular sendo "verde", seja lá isso o que for.
A quasi-isotrópica demonização dos automóveis e a conspícua elegia das bicicletas, descritas nas bulas da comunicação social como sendo um remédio saudável e moral (a tónica colocada na moralidade é mais importante do que, à partida, se poderá pensar - andar de bicicleta à solta entre automóveis, sem respeitar o código da estrada, é um modo barato de indivíduos sem imaginação se sentirem superiores aos outros) contra a miríade de malefícios do mundo contemporâneo, irá, espero, estilhaçar-se como o pé de barro que é quando se compreender que as bicicletas são anticomércio e anti-serviços. (Já se levou alguém para o hospital numa bicicleta?)
Se, no que concerne à circulação de veículos automóveis, o objectivo é transformar Lisboa numa cidade como Londres, na qual é inaudito ver-se no centro da cidade um veiculo automóvel que não seja um transporte público (autocarros e táxis), terá de se reformular a totalidade do desenho dos actuais percursos de autocarros de Lisboa, de modo a garantir, tal como em Londres, um fluxo ininterrupto de transportes à disposição, situação que não é aquela que os utentes verificam diariamente. Verifica-se, até, o oposto: a semana passada, por exemplo, estive quase uma hora à espera de um autocarro - numa hora "morta" e numa popular zona da cidade com um volumoso trânsito turístico.

O sangue de uma cidade não são os turistas. São os habitantes e os lisboetas precisam de melhores condições de usufruto dos seus transportes públicos: bilhetes e passes mais baratos - e estacionamentos mais baratos para os automóveis - seria um excelente começo. A alternativa a soluções destas naturezas e à insistência na cristalização de uma Lisboa exclusivamente para turistas poderá ser um êxodo gradual dos jovens lisboetas (principalmente) para as vilas de dormitórios da periferia, agravando ainda mais a desertificação de uma cidade outrora vicejante, mas tornada em sede de escritórios extintos, centros comerciais fantasmas e domicílios devolutos que se erguem como dentes cariados ao lado de renovados blocos de apartamentos de luxo, acessíveis apenas a quem, em última análise, se estará nas tintas para Lisboa enquanto autêntico local de residência.
A Lisboa actual é uma Lisboa deformada: cobaia que, cada vez mais, agoniza em comportamentos absurdos.

Quem quer ser "verde" fará melhor em deixar os veículos automóveis em paz e preocupar-se, antes, com a questão do lixo electrónico, que é o grande flagelo invisível do século XXI, contaminando, a ritmos avassaladores, lagos, rios, oceanos e solos com um espectro assustador de metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio, entre outros) e materiais plásticos muitíssimo resistentes à erosão.
Pensem nisso sempre que, a cada seis meses, mais ou menos, pedalarem de bicicleta até à Baixa para comprar mais um novo modelo de smartphone ou tablet - deixem de ser ridículos e pensem. Bem sei que pensar poderá ser difícil, sobretudo para quem não está habituado, mas, em suma, é como andar de bicicleta: uma vez aprendido como se faz, nunca mais se esquece.