sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Horror


«Tornar-se lenda é a ambição de todas as histórias.
Mas alguns homens também se tornam lendas. As suas vidas desaparecem e, transformados em lenda, tornam-se em histórias. E a ambição dos homens que se tornam histórias é serem boas histórias.
Todos conheciam a história do corcunda com a gaita.
Chegava de noite, embrulhado em treva como o Diabo que, certamente, adorava. Não falava. Não atacava ninguém. Penava pelos campos cultivados e pelas aldeias, tocando a gaita: um instrumento que assobiava como uma cobra e que chorava como uma criança.
As crianças, ouvindo o som da gaita, levantavam-se das camas e saíam de casa para seguir o músico até ao Inferno. Apenas as que dormiam um sono leve despertavam e as outras, acordando de manhã sem a companhia dos irmãos, sabiam que nunca mais os iriam ver. As famílias envergonhavam-se e mentiam, criando desculpas de doenças e acidentes, mas essas sepulturas eram sempre cenotáfios.
Uma vez, uma mulher encontrou uma flauta enquanto semeava o campo e fugiu. O marido correu para o lugar onde ela achara o objecto e apanhou-o: só podia ser uma das gaitas do corcunda, caída do instrumento quando ele passara ali de noite. Era feita de osso. Não soube explicar de que animal. Pensou em tocá-la, mas uma vertigem impediu-o de plantar os lábios no bocal. Suou. Estava cheio de medo! Partiu a flauta e enterrou os fragmentos no campo. Outros arrogavam que também tinham visto o corcunda desgrenhado; alguns admitiam ter falado com ele. Uma história acaba sempre por gerar outras piores, mas as crianças é que não deixavam de desaparecer.
Aquilo que a lenda conta é que as crianças fogem das casas onde são maltratadas, que são enviadas para viver com os tios na cidade porque os pais pobres não podem garantir-lhe o sustento, que são vendidas para servirem de serventes.
A história verdadeira é diferente.
As crianças desaparecem porque vão ao encontro dos monstros durante a noite. As crianças desaparecem porque são comidas por monstros durante a noite – monstros com fome de crianças. Monstros com fome de crianças e que as comem com presas e garras e esporões. As crianças desaparecem porque acreditam em histórias.»

O texto acima é um excerto do meu novo livro de contos de horror, a ser apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico, numa edição da Saída de Emergência. Fiquem atentos, porque em breve divulgarei o título do livro e outras novidades.

(Imagem: Poika ia Pääkallo de Magnus Enckell. 1893.)