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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sobre Gigantes Perdidos & Achados

 Talvez a melhor forma de iniciar esta breve (espero) publicação seja admitir que tenho uma tolerância incomum para com matérias bizarras e, à falta de palavra melhor, estúpidas; e que essa faculdade de, digamos de modo educado, invocar indulgência para com o estrambótico é, ao fim e ao cabo, uma ferramenta útil para os meus estudos e observações do lado mais desengonçado da experiência humana: é, de facto, difícil investigar e examinar, com rigor, certas matérias sem possuir estômago forte para engolir determinadas concepções arvoradas pelos pugnadores dos pseudoconhecimentos. No entanto, existem ideias marginais pertencentes a esses universos que consistem em verdadeiros testes de resistência à minha transigência, doutrinas e fantasias tão disparatadas -- e aborrecidas, o que, às vezes, é ainda pior -- que, com toda a sinceridade, escapa-me totalmente a força atractiva com a qual elas entusiasmam outros indivíduos: uma dessas ideias insensatas é a da pseudo-existência de antepassados gigantescos da espécie humana, um tropo familiar da pseudo-história e da pseudo-arqueologia, frequente em inúmeras teorias das conspirações.

Na Internet existirão milhares de fotomontagens, umas mais bem feitas que outras, sobre falsas escavações arqueológicas, nas quais pode observar-se técnicos minúsculos, ainda com as pás nas mãos, junto de ossadas inteiras de gigantes, desenterradas em perfeito estado de conservação, que nem conjuntos de porcelana Vista Alegre acabados de cobrir de terra. Com efeito, não compreendo, de todo, o fascínio sentido pelo gigantes. A maioria do público não terá um interesse mais profundo por esta ideia e, somente, lhe achará graça ou sentir-se-á entretida, mas, além dessa epiderme, os gigantes são um tema atractivo para muitos campos de pseudoconhecimentos: crentes na verdade literal dos textos bíblicos; evemeristas; crentes nas teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; autores mais ou menos racistas que têm como objectivo transmitir ao grande público a noção de que as culturas autóctones de certos locais, como a América do Norte, por exemplo, seriam incapazes de construir determinados monumentos megalíticos -- o catálogo de admiradores desta ideia, para os mais variados fins, é, na verdade, muito extenso.

Neste momento, o Canal História capitaliza o interesse pelos gigantes numa série televisiva intitulada Gigantes Perdidos: ao longo de seis episódios, o espectador é convidado a acompanhar as desventuras de Jim e Bill Vieira, dois irmãos, pedreiros, que debalde andam pela América do Norte à procura de vestígios e provas da existência dos gigantes de outrora. Quando escrevi que eles são pedreiros, não enfatizei de modo preconceituoso (para os pedreiros) a canhestrice destes pseudo-investigadores: eles são pedreiros de profissão -- são trolhas. Aparentemente, a série apoia-se no facto deles serem pedreiros de profissão para os apresentar como examinadores credíveis de monumentos megalíticos: são opiniões de especialista -- e, pelo que vi, os irmãos Vieira compõem sempre um ar espaventado pelo facto dos monumentos que vão examinando terem sido construídos sem argamassa. (Só gigantes poderiam ter sido capazes dessa heresia.)

É, em todos os sentidos, um paupérrimo espectáculo. É desanimador ver os Vieira armados em arqueólogos, saltitando de local em local, que nem gralhas em busca de ossos brilhantes de gigantes. É puro lixo televisivo, mas, lá está!, haverá quem encontre nestas personagens de pacotilha os seus campeões de charneira contra a grande conspiração engendrada pela academia para suprimir ao público as provas da existência de gigantes. O facto de, logo no primeiro episódio da série, os Vieira acharem que uma rede labiríntica de túneis com pouco mais de sessenta centímetros de altura ser um local sagrado para seres com mais de três metros de altura não consistiu em nenhum obstáculo para as suas indigentes explorações. É tão mau que nem sequer dá vontade de rir.

De um ponto de vista fisiológico, a existência de homens gigantes, como são apresentados pelos cultores dessa ideia -- ou seja, um esqueleto de proporções comuns, mas com um tamanho muito superior ao normal --, é impossível. Em primeiro lugar, os organismos maiores perdem calor lentamente (é por esse motivo que os povos do hemisfério norte, em regra, são mais altos e mais corpulentos que os do hemisfério sul: é uma defesa que a selecção natural encontrou para se conservarem quentes em climas frios), o que implicaria que um hipotético indivíduo gigante com, digamos, três ou quatro metros de altura, iria sobreaquecer e entrar rapidamente em colapso: dando de barato o facto do seu esqueleto gigante, proporcional ao de um tamanho normal, ser capaz de suportar o peso de um corpo desmesurado, sem que os ossos das pernas fossem muito mais espessos (como os dos elefantes) e, claro, que o coração não fosse, também, maior que o esperado, de modo a bombear com velocidade o sangue para todas as partes do organismo. As girafas, por exemplo, não têm corações assim tão grandes, quando comparados com o tamanho dos corpos, mas contornam esse problema possuindo uma tensão arterial altíssima (quase três vezes mais alta que a nossa) e uma pulsação elevada. Um hipotético gigante humano que quisesse manter um truque dessa natureza precisaria de uma dieta riquíssima em sódio (a verdade é que as dietas pobres em sal, tão em voga, provocam hipotensão e podem levar à morte) o que seria um problema, porque quanto maior é um organismo, mais alimento ele precisa ingerir para sobreviver: em suma, o gigante teria de passar o dia inteiro a comer. Os elefantes comem mais de trezentos quilos de alimentos por dia e as baleias ingerem toneladas. Os únicos verdadeiros gigantes na natureza, as árvores, são capazes de atingir alturas maciças, simplesmente porque fabricam o seu próprio alimento -- são autotróficas --, transformando dióxido de carbono em açúcar e oxigénio e não precisam de locomover-se para o efeito.

A testar os limites do crescimento do corpo humano, cite-se o caso do norte-americano Robert Wadlow: o homem mais alto de que há registo, com mais de dois metros e setenta centímetros de altura (e com um peso de duzentos quilos). Wadlow, que podem ver na imagem que ilustra este texto, morreu com vinte e dois anos de idade e, a essa altura, só se conseguia deslocar com o auxílio de bengalas e outros apetrechos similares, além de sofrer de má circulação e problemas neuropáticos nas pernas e nas mãos. À data da morte (15 de Julho de 1940), ainda continuava a crescer, pelo que pode especular-se sobre até que altura iria desenvolver-se sem que a sua vida, já muito limitada pelos problemas derivados do seu tamanho, fosse irremediavelmente prejudicada. Este gigante real prova, definitivamente, a impossibilidade dos cenários sonhados pelos cultistas da ideia dos Antigos Gigantes.
Termino com a curiosidade de Wadlow também ter sido pedreiro, mas pedreiro-livre: foi maçon e chegou ao terceiro grau simbólico de Mestre. Suspeito que este facto tem dado muitíssimo que falar aos teóricos das conspirações.

sábado, 21 de junho de 2014

Nazis e desinformação histórica


Mais desinformação, cortesia do Canal História, desta vez pugnando a velha ideia de que os nazis foram pagãos e obcecados com o oculto, noção totalmente errada, mas cuja integração ideológica no imaginário popular parece ter sido feita a ferro quente. Uma dilucidação exige-se: os nacionais-socialistas - que, para começar, nem sequer se chamavam, entre eles, de nazis, porque nazi era uma alcunha pejorativa, inventada pelas massas, cujo significado pode traduzir-se por campónio ou saloio e que eles, simplesmente, odiavam - nunca foram "pagãos" (designação que, acrescento, é totalmente desprovida de conteúdo e de sentido quando usada fora do restrito contexto dicotómico que existiu entre a religião romana imperial e a paleo-cristã no dealbar mais primitivo do cristianismo), mas cristãos.

Os nacionais-socialistas foram cristãos e, sobretudo, tiveram o objectivo de criar um cristianismo novo, de massas, e por eles "purgado" daquilo que entendiam ser influências judaicas, chamado Cristianismo Positivo. O próprio Hitler foi cristão e considerava que o culto odínico era um embaraço e uma perda de tempo. Apesar de cristão foi anticatólico; no mínimo, não considerava com bons olhos o catolicismo e a sua animosidade contra o catolicismo foi sismográfica consoante os anos. De onde provém, então, a tal ideia que os nacionais-socialistas foram "pagãos"? Provém, pela medida grande, pelas mãos dos plumitivos e poetastros neonazis de meados do século XX em diante - como Savitri Devi ou Miguel Serrano, entre outros - que, pelas mais variadas razões, inventaram histórias sensacionalistas e fantasiosas nas quais os nacionais-socialistas contactam e instrumentalizam, dos mais variados feitios, forças sobrenaturais ou energias de origem extraterrestre. Foi esse caldo cultural marginal e politicamente mefítico que chegou até às décadas mais recentes e influenciou produtos de entretenimento de grande mediatismo, como o primeiro e o terceiro filmes da tetralogia de Indiana Jones, por exemplo. Filmes e livros que apresentam conceitos dessa natureza, ou similar, não possuem nenhuma relação com a verdade histórica daquilo que foi o fenómeno nacional-socialista e, com efeito, reduzir esse fenómeno à caricatura anti-heroística é desvirtuar a memória e extirpar-lhe a componente criminosa - quando não se projectam, de todo, no mais despudorado revisionismo.

A verdade é que de todo o aparelho nacional-socialista só Himmler e Rosenberg, provavelmente, namoraram, à sua maneira, com o oculto, mas, ainda assim, de um modo muito diferente daquele que é apresentado em produtos como o documentário The Nazi Gospels produzido pelo Canal História e por ele transmitido. Himmler não foi "pagão" e não quis criar nenhum culto "pagão" em volta da SS (informo que se diz "a SS" e não "as SS"): o seu flirt ocultista foi, sem dúvida, motivado pelo fascínio pelo bizarro e pelo sensacionalista, sem qualquer programa definido que o suportasse. O seu mentor, Willigut, também chamado de "o Rasputine de Himmler" não teve, ao fim e ao cabo, tanta influência como aquela que lhe imputam e, de qualquer das formas, essa influência operou por via do velho ariosofismo cunhado por Guido von List e por Lanz von Liebenfels: os avôs do chamado "ocultismo nacional-socialista", que acreditavam que Cristo fora ariano e que a Bíblia tinha sido escrita na Alemanha, antes de ser corrompida pelas influências dos antepassados dos judeus modernos.
Aliás, Liebenfels na revista Ostara escreveu várias vezes que era preciso exterminar todos os judeus, porque eles obstaculizavam o verdadeiro Cristianismo Ariano - Liebenfels que, ainda por cima, fingia ter sangue-azul e fingia ser um herdeiro da autêntica tradição templária. Isto porque ele foi monge cisterciense e após ser expulso dessa ordem criou a espúria Ordi Novi Templi, a primeira organização de língua alemã a ter uma bandeira com uma suástica (tinha um fundo amarelo com uma suástica vermelha). Foi, por conseguinte, no espírito da admirada Ordi Novi Templi que Himmler pensou em ritualizar alguns aspectos da SS: dar-lhe um certo ar de ordem cavaleiresca, aristocrática, mas sem a tal tónica "pagã" ou heliólatra que alguns nela querem ver.

Outro mito: a infame Sociedade de Thule, por exemplo, na qual estariam embebidas em ocultismo todas as cabeças do partido nacional-socialista, nunca existiu. Pelo menos nos moldes que é representada, geralmente. Em síntese, a verdade é que nunca passou de um ramo semi-obscuro, em Munique, da, mais conhecida - e, já nessa altura, bafienta - Germanenorden, mas baptizada com um nome individual por Rudolf von Sebottendorff para parecer mais moderna e apelativa a novos membros. Aparentemente, pouca influência - ou nenhuma - teve sobre o partido nacional-socialista, apenas contando com Rudolf Hess e, provavelmente, Hans Frank, como membros. Sebottendorff nunca se filiou no partido nacional-socialista, sequer. A chamada Sociedade Vril, que os fãs do "nazismo oculto" tanto gostam nunca existiu: é uma completa ficção.

Compreender o nacional-socialismo requer muitas e intensas leituras de materiais exigentes e o público comum não está disposto a realizar esse esforço, nem sequer terá, bem vistas as coisas, um conhecimento histórico basilar suficiente para isso, a verdade tem de ser dita. Será, no fundo, mais simples dizer-se que os nacionais-socialistas praticavam ritos de magia negra e que usavam tecnologia extraterrestre e que o genocídio dos judeus foi uma espécie de sacrifício de sangue aos deuses "pagãos" que idolatravam. Essa é a linguagem do comércio sensacionalista e do revisionismo. Não é a linguagem do rigor. É preciso lembrar que num dos infames discursos de Posen, Himmler pediu a Deus - ao deus cristão, não foi a Odin - que desse forças aos nacionais-socialistas para que eles conseguissem terminar o Holocausto («que Deus nos ajude»). O Holocausto foi o culminar tenebroso da velha escalada de violência anti-semita que o cristianismo/catolicismo europeu usou contra os judeus. Como disse o historiador Raul Hilberg, os nacionais-socialistas não inventaram nada: apenas decidiram que não bastava os judeus estarem proibidos de circular entre os cristãos ou confinados a guetos murados em bairros das cidades, como decretou Roma tantas vezes - mais do que apartá-los a todos, era preciso exterminá-los a todos, ponto. O discurso, como escrevi anteriormente, quando falei em Liebenfels, já estava feito: faltava quem tratasse da prática. Foi o que aconteceu, embora no início dos anos cinquenta do século XX começasse logo a aparecer quem dissesse que era tudo mentira, como, entre outros, Paul Rassinier, que escreveu o vergonhoso A Mentira de Ulisses, livro que se tornou muito popular rapidamente nos Estados Unidos e consiste no gérmen dos movimentos que negam a existência do Holocausto.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sobre os Vikings


Em Março, o Canal História vai estrear uma série intitulada Vikings, que, aparentemente, é um misto de história e ficção. O criador de Vikings é Michael Hirst, autor das séries The Tudors e Camelot - dificilmente exemplos de rigor histórico. A série é descrita desta forma: «Vikings will chronicle the adventures of Ragnar Lothbrock, an actual Norse hero from the Viking Age, as he rises to head of the Viking tribes». Mas, para começar, Ragnar Lothbrock, que se dizia descendente de Odin, provavelmente nunca existiu: é uma personagem fictícia, que figura no poema Ragnarsdrápa (final do século IX ou início do século X), inventada a partir de outras personagens que, provavelmente, também não existiram. Os relatos mitológicos dos deuses e heróis nórdicos que chegaram até nós foram quase todos escritos entre os séculos X e XIII (por cronistas islandeses), num período em que os chamados vikings já se tinham convertido ao cristianismo, e encontram-se impregnados de alusões cristãs, como no relato da morte de Odin, pendurado, perfurado por uma lança e ressuscitado poucos dias depois. A influência dos Evangelhos e dos relatos cristãos apócrifos na escrita destes materiais é, pois, um assunto que merece um estudo profundo.

A imagem popularizada por Hollywood (e, adivinha-se, por esta série) não corresponde à verdade histórica e é construída, em grande parte, pelas concepções imaginadas a partir de finais do século XVIII, durante o revivalismo viking que se operou durante o Romantismo (houve vários revivalismos durante o Romantismo: o grego, o romano, o egípcio, etc.). A própria palavra "viking" é altamente ambígua, porque, segundo as fontes mais antigas, apenas significa "viagem". Outra palavra da mesma família, "vikingr", surge em contextos nos quais os indivíduos citados se dedicam à pesca ou à pirataria; portanto, relacionada com o mar. Em suma: a palavra "viking" não é nenhum etnónimo. Existiram famílias e clãs escandinavos (dinamarqueses, suecos, noruegueses) que se dedicaram à pilhagem e à exploração marítima, mas nunca existiu nenhum povo "viking".

E estes escandinavos a que chamamos de vikings foram cristãos: o período das explorações "vikings" começou em Junho de 793, com a pilhagem do mosteiro de Lindisfarne, na costa norte inglesa, mas poucos anos depois, durante a primeira metade do século IX, estes indivíduos foram-se convertendo ao cristianismo. A rapidez com que essa conversão aconteceu indica a forte probabilidade de alguns deles já serem cristãos, para começar. Os escandinavos foram, acima de tudo, politeístas: adoptar mais um deus, cristão ou não, não era nenhum sacrifício - e Cristo, como é sabido, partilha muitas características do arquétipo de um deus solar, o que, sem dúvida, ajudou a uma adopção mais rápida. No século X, a Noruega, a Suécia e a Dinamarca tornaram-se, oficialmente, reinos cristãos. Leif Eriksson, o famoso viking, filho de Erik, o Vermelho, cristianizou a Gronelândia. Não obstante, existiu um povo nórdico - povo, de facto - que recusou o cristianismo até ao século XIX, altura em que foi pressionado pela Noruega a abandonar os seus costumes ancestrais: os Sami (Lapões) - não os vikings.

Mas, enfim, a imagem romântica criada pelos produtos de entretenimento irá sempre ser mais apelativa que a verdade histórica: agricultores escandinavos, de vários clãs e etnias, tornados comerciantes e sobretudo piratas, tanto pela ganância como pela infertilidade dos solos nórdicos. Não foram nenhum povo, nem de bárbaros, nem de nobres "pagãos", mas indivíduos obrigados pelo desespero à diáspora. Nunca usaram capacetes com cornos (quem usou capacetes com cornos foram os gauleses), mas deixaram-nos uma lição que se calhar nesta altura que atravessamos é mais importante ainda: quando se tem fome, a gente adapta-se a tudo - até se adapta a deixar a nossa terra, porque ela não dá pão suficiente.