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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sobre Gigantes Perdidos & Achados

 Talvez a melhor forma de iniciar esta breve (espero) publicação seja admitir que tenho uma tolerância incomum para com matérias bizarras e, à falta de palavra melhor, estúpidas; e que essa faculdade de, digamos de modo educado, invocar indulgência para com o estrambótico é, ao fim e ao cabo, uma ferramenta útil para os meus estudos e observações do lado mais desengonçado da experiência humana: é, de facto, difícil investigar e examinar, com rigor, certas matérias sem possuir estômago forte para engolir determinadas concepções arvoradas pelos pugnadores dos pseudoconhecimentos. No entanto, existem ideias marginais pertencentes a esses universos que consistem em verdadeiros testes de resistência à minha transigência, doutrinas e fantasias tão disparatadas -- e aborrecidas, o que, às vezes, é ainda pior -- que, com toda a sinceridade, escapa-me totalmente a força atractiva com a qual elas entusiasmam outros indivíduos: uma dessas ideias insensatas é a da pseudo-existência de antepassados gigantescos da espécie humana, um tropo familiar da pseudo-história e da pseudo-arqueologia, frequente em inúmeras teorias das conspirações.

Na Internet existirão milhares de fotomontagens, umas mais bem feitas que outras, sobre falsas escavações arqueológicas, nas quais pode observar-se técnicos minúsculos, ainda com as pás nas mãos, junto de ossadas inteiras de gigantes, desenterradas em perfeito estado de conservação, que nem conjuntos de porcelana Vista Alegre acabados de cobrir de terra. Com efeito, não compreendo, de todo, o fascínio sentido pelo gigantes. A maioria do público não terá um interesse mais profundo por esta ideia e, somente, lhe achará graça ou sentir-se-á entretida, mas, além dessa epiderme, os gigantes são um tema atractivo para muitos campos de pseudoconhecimentos: crentes na verdade literal dos textos bíblicos; evemeristas; crentes nas teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; autores mais ou menos racistas que têm como objectivo transmitir ao grande público a noção de que as culturas autóctones de certos locais, como a América do Norte, por exemplo, seriam incapazes de construir determinados monumentos megalíticos -- o catálogo de admiradores desta ideia, para os mais variados fins, é, na verdade, muito extenso.

Neste momento, o Canal História capitaliza o interesse pelos gigantes numa série televisiva intitulada Gigantes Perdidos: ao longo de seis episódios, o espectador é convidado a acompanhar as desventuras de Jim e Bill Vieira, dois irmãos, pedreiros, que debalde andam pela América do Norte à procura de vestígios e provas da existência dos gigantes de outrora. Quando escrevi que eles são pedreiros, não enfatizei de modo preconceituoso (para os pedreiros) a canhestrice destes pseudo-investigadores: eles são pedreiros de profissão -- são trolhas. Aparentemente, a série apoia-se no facto deles serem pedreiros de profissão para os apresentar como examinadores credíveis de monumentos megalíticos: são opiniões de especialista -- e, pelo que vi, os irmãos Vieira compõem sempre um ar espaventado pelo facto dos monumentos que vão examinando terem sido construídos sem argamassa. (Só gigantes poderiam ter sido capazes dessa heresia.)

É, em todos os sentidos, um paupérrimo espectáculo. É desanimador ver os Vieira armados em arqueólogos, saltitando de local em local, que nem gralhas em busca de ossos brilhantes de gigantes. É puro lixo televisivo, mas, lá está!, haverá quem encontre nestas personagens de pacotilha os seus campeões de charneira contra a grande conspiração engendrada pela academia para suprimir ao público as provas da existência de gigantes. O facto de, logo no primeiro episódio da série, os Vieira acharem que uma rede labiríntica de túneis com pouco mais de sessenta centímetros de altura ser um local sagrado para seres com mais de três metros de altura não consistiu em nenhum obstáculo para as suas indigentes explorações. É tão mau que nem sequer dá vontade de rir.

De um ponto de vista fisiológico, a existência de homens gigantes, como são apresentados pelos cultores dessa ideia -- ou seja, um esqueleto de proporções comuns, mas com um tamanho muito superior ao normal --, é impossível. Em primeiro lugar, os organismos maiores perdem calor lentamente (é por esse motivo que os povos do hemisfério norte, em regra, são mais altos e mais corpulentos que os do hemisfério sul: é uma defesa que a selecção natural encontrou para se conservarem quentes em climas frios), o que implicaria que um hipotético indivíduo gigante com, digamos, três ou quatro metros de altura, iria sobreaquecer e entrar rapidamente em colapso: dando de barato o facto do seu esqueleto gigante, proporcional ao de um tamanho normal, ser capaz de suportar o peso de um corpo desmesurado, sem que os ossos das pernas fossem muito mais espessos (como os dos elefantes) e, claro, que o coração não fosse, também, maior que o esperado, de modo a bombear com velocidade o sangue para todas as partes do organismo. As girafas, por exemplo, não têm corações assim tão grandes, quando comparados com o tamanho dos corpos, mas contornam esse problema possuindo uma tensão arterial altíssima (quase três vezes mais alta que a nossa) e uma pulsação elevada. Um hipotético gigante humano que quisesse manter um truque dessa natureza precisaria de uma dieta riquíssima em sódio (a verdade é que as dietas pobres em sal, tão em voga, provocam hipotensão e podem levar à morte) o que seria um problema, porque quanto maior é um organismo, mais alimento ele precisa ingerir para sobreviver: em suma, o gigante teria de passar o dia inteiro a comer. Os elefantes comem mais de trezentos quilos de alimentos por dia e as baleias ingerem toneladas. Os únicos verdadeiros gigantes na natureza, as árvores, são capazes de atingir alturas maciças, simplesmente porque fabricam o seu próprio alimento -- são autotróficas --, transformando dióxido de carbono em açúcar e oxigénio e não precisam de locomover-se para o efeito.

A testar os limites do crescimento do corpo humano, cite-se o caso do norte-americano Robert Wadlow: o homem mais alto de que há registo, com mais de dois metros e setenta centímetros de altura (e com um peso de duzentos quilos). Wadlow, que podem ver na imagem que ilustra este texto, morreu com vinte e dois anos de idade e, a essa altura, só se conseguia deslocar com o auxílio de bengalas e outros apetrechos similares, além de sofrer de má circulação e problemas neuropáticos nas pernas e nas mãos. À data da morte (15 de Julho de 1940), ainda continuava a crescer, pelo que pode especular-se sobre até que altura iria desenvolver-se sem que a sua vida, já muito limitada pelos problemas derivados do seu tamanho, fosse irremediavelmente prejudicada. Este gigante real prova, definitivamente, a impossibilidade dos cenários sonhados pelos cultistas da ideia dos Antigos Gigantes.
Termino com a curiosidade de Wadlow também ter sido pedreiro, mas pedreiro-livre: foi maçon e chegou ao terceiro grau simbólico de Mestre. Suspeito que este facto tem dado muitíssimo que falar aos teóricos das conspirações.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Neonazismo na cultura popular no aniversário dos setenta anos da libertação de Auschwitz


O boçal Giorgio Tsoukalos, suíço de ascendência grega conhecido pela maioria do público por ser um dos difusores mais fanáticos da Teoria dos Antigos Astronautas e da Teoria da Génese Extraterrestre (conjuntos sincréticos de ideias eveméricas que, desde meados dos anos cinquenta do século passado, têm alastrado das fímbrias recônditas de uma certa cultura marginal para o centro da cultura de entretenimento popular, em injecções de doses desiguais, mas num ritmo constante), apresenta um novo programa televisivo, transmitido nestes dias pelo Canal História, intitulado In Search of Aliens, no qual, em dez episódios, reitera, a título individual, hipóteses e conceitos mostrados colectivamente na anterior série televisiva Ancient Aliens, em que também participou, juntamente com outros defensores desses disparates. Um dos episódios de In Search of Aliens transmitidos ontem, por volta das vinte e duas horas, teve como título Nazi Time Travelers (Viajantes Temporais Nazis).

É com desconforto que evidencio a infelicidade em que consiste o facto deste tipo de lixo televisivo ter sido transmitido na véspera do aniversário dos setenta anos da libertação do campo nazi de extermínio de Auschwitz pelas tropas do exército russo, a 27 de Janeiro de 1945 (hoje, o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto). O problema principal de programas do jaez de Nazi Time Travelers é a ignorância cabal que os seus produtores têm (ou aparentam ter) sobre a origem das ideias recauchutadas que apresentam: neste caso, ideias de repreensível propaganda neonazi, desenvolvidas a partir do final da Segunda Grande Guerra por ficcionistas e ocultistas nacionais-socialistas ou de pendor nacional-socialista, como Savitri Devi (pseudónimo da escritora francesa, de ascendência grega, Maximiani Portas) e o chileno Miguel Serrano, autores de, respectivamente, The Lightning and the Sun (1958) e da trilogia El Cordón Dorado: Hitlerismo Esotérico (1978), Adolf Hitler, el Último Avatara (1984), Manú: "Por el Hombre que Vendra" (1991). Porém, Devi e Serrano são, somente, dois dos mais conhecidos e influentes propagandistas de ficção ocultista neonazi, um género abjecto que mistura esoterismo, ficção científica e pseudo-história e cuja origem pode ser traçada, por exemplo, a partir da publicação dos romances do pseudo-arqueólogo alemão Edmund Kiss, como Das gläserne Meer (O Mar de Vidro), de 1930, ou Die letzte Königin von Atlantis (A Última Rainha da Atlântida), de 1931, e dos contos que o engenheiro suíço Erich Halik publicou na primeira metade dos anos cinquenta do século passado na revista ocultista austríaca Mensch und Schicksal (Homem e Destino), nos quais surge pela primeira vez o mito do "sol negro" aliado à SS, assim como os discos voadores da SS.
A concepção de discos voadores nazis e suas bases secretas nos pólos Norte e Sul influenciaram toda a produção dos autores neonazis ou simpatizantes do nacional-socialismo que, no decurso da segunda metade do século XX, desenvolveram esses mitos em cosmogonias de pacotilha, mistas de messianismo hitleriano, teorias das conspirações e pseudo-história. Uma vez publicadas, as ideias, por mais marginais que sejam, encontram maneiras de alcançar audiências que estão além do público pretendido pelos autores e, perdida a dimensão original que robusteceu as suas criações, tornam-se algoritmos para novas semânticas. É o caso dos condenáveis delírios sobre discos voadores e máquinas do tempo nazis que, hoje, são destiladas pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas em programas de grande audiência, como Ancient Aliens e In Search of Aliens: anunciadas sem contextualização e sem quaisquer alusões quanto às proveniências neonazis, elas adquirirão, certamente, cunhos de credibilidade para muitos espectadores que não estão, como é óbvio, familiarizados com o mundo subterrâneo desta espécie de contracultura e que se deixam fascinar pelo sensacionalismo que lhes serve de Cavalo de Tróia.

O conteúdo de Nazi Time Travelers é, especialmente, lamentável na promoção da noção - errónea - de que a tecnologia nacional-socialista de guerra era mais avançada que a dos Aliados e que somente por um azar indefinido é que o III Reich não ganhou a Segunda Grande Guerra. O facto é que a tecnologia nacional-socialista de guerra e a ciência nacional-socialista eram inferiores às dos Aliados, precisamente porque eram nacionais-socialistas: ou seja, as diversas áreas de conhecimento científico estavam obrigatoriamente subordinadas à ideologia nazi e seus tropos desequilibrados. Depois de extirparem das universidades os conhecimentos ditos "judaicos" ou "contaminados por judaísmo", os arquitectos do nacional-socialismo tiveram de preencher esse vazio com todas as ordens de teorias alternativas e pseudoconhecimentos que, independentemente de serem correctos, válidos ou úteis, tinham de, em principal, reflectir o radicalismo do pensamento político do nacional-socialismo. Por radicalismo, entenda-se a ruptura completa com o conhecimento já estabelecido (que, curiosamente, é também uma característica dos defensores das Teorias dos Antigos Astronautas e da Teoria da Génese Extraterrestre). Assim, a ciência nacional-socialista ficou preenchida pelas ideias absurdas do engenheiro austríaco Hans Hörbiger, que, note-se, já medravam em algumas universidades alemãs e na doutrina oficial dos Camisas Castanhas, sendo observadas como uma alternativa "ariana" às teorias "judaicas" de Einstein, entre outros.
Embora falecido em 1931, Hörbiger foi, com efeito, uma das figuras mais infuentes e importantes do III Reich, por via da sua Teoria do Mundo de Gelo, publicada pela primeira vez em 1913: segundo esse bizarro ponto de vista, toda a matéria do universo seria constituída pelos resultados de choques violentos entre fogo e gelo. Na cosmogonia hörbigeriana, os "arianos", antepassados dos autênticos alemães, teriam criado novas colónias nas Américas Central e do Sul, após o Dilúvio que submergiu a sua pátria na Atlântida. Foi esta ideia que influenciou o já citado pseudo-arqueólogo Edmund Kiss a viajar até à Bolívia e ao Peru, em 1928, para tentar encontrar vestígios de civilização "ariana" nas ruínas de Puma Punku e Tiahuanaco. As conclusões inventadas por Kiss são, presentemente, vendidas com gusto pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas nos seus programas televisivos a um público generalista que, sejamos honestos, desconhece completamente estas ligações nazis e neonazis. Arrisco a hipótese de que também a maioria dos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, entre os quais Tsoukalos, também desconhecerá a proveniência nazi e neonazi do material em que apoia as suas convicções estapafúrdias, mas aquilo que é factual é que alguns deles, como Erich von Däniken, já declararam opiniões racistas e de pendor neonazi em alguns dos seus livros.

Prosseguindo, Die Glocke (o sino), a hipotética tecnologia que permitia aos nazis viajar no tempo, apresentada em Nazi Time Travelers, é uma ficção inventada pelo jornalista polaco de extrema-direita Igor Witkowski no livro Prawda o Wunderwaffe (A Verdade Sobre as Wunderwaffe), de 2000: levada ao colo pelos teoristas das conspirações, consiste numa ideia absurda que alcançou há poucos anos o campo televisivo ocupado pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, que nela desejam ver aplicações efectivas de tecnologia extraterrestre, chegando a afirmar que alguns oficiais nazis escaparam temporalmente através dela.
Sinceramente, é doentio que estes programas reforcem na psique popular uma sensacionalista mitologia neonazi que não se corresponde em nada com a realidade histórica. Programas como Nazi Time Travelers, e filmes como o execrável Iron Sky de Timo Vuorensola (2012), cujo trailer da sequela neste momento em produção (Iron Sky: The Coming Race - um título que remete para o livro The Coming Race, de 1871, do escritor oitocentista inglês Edward Bulwer-Lytton, no qual aparece pela primeira vez o conceito energético-místico da força chamada de Vril, elemento que, posteriormente, influenciou o esoterismo teosófico blavatskiano, o antroposofismo steineriano e o esoterismo neonazi) mostra a elite nacional-socialista refugiada numa cidade agartiana no interior de uma Terra Oca antárctica, respigam elementos do esoterismo e pseudo-história neonazi e transformam o regime nacional-socialista numa camarilha de vilões disneyescos, obcecados pelo oculto.
Será, certamente, pela via do imaginário misterioso do ocultismo e do contorno contracultural com que estas ideias são apresentadas que o público mais jovem, ainda sem referências históricas sólidas, adere emocionalmente a elas, naquilo em que, muitas vezes, significa o primeiro passo para o activismo político dentro dessas balaustradas.

Para combater a ignorância e o pseudoconhecimento, nada como a verdade histórica. Nesse sentido, em memória de todos aqueles que foram assassinados barbaramente por uma ideologia que fetichizou a morte e que, creio, não possui nenhuma análoga com outra sua contemporânea (aqueles que tentam desvalorizar o genocídio projectado pelo nazismo, insistindo nas supostas idêntica ou superior violência do comunismo, em especial o comunismo dito estalinista, simplesmente não sabem do que estão a falar), recomendo a leitura daquele que, na minha opinião, poderá ser o melhor livro sobre o fenómeno de Auschwitz: Auschwitz, de Debórah Dwork e Robert Jan Van Pelt.
Estes autores aproximam-se da interpretação "funcionalista" sobre o Holocausto, embora eu me incline mais para uma interpretação "intencionalista" (simplificando, segundo os "funcionalistas", a Solução Final Para a Questão Judaica foi uma contingência, enquanto que de acordo com os "intencionalistas" o genocídio dos judeus estaria delineado, com menor ou maior detalhe, desde as vésperas da Segunda Grande Guerra).

Para não esquecer o passado e para não esquecer que o futuro não está garantido.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Temas actuais #1: o canguru


A comunicação social, nacional e estrangeira, tem falado e escrito com entusiasmo sobre um suposto canguru desenhado num breviário (que, aparentemente, datará do final do século XVI ou do início do século XVII, entre 1580 e 1620) por uma hipotética freira portuguesa, chamada Caterina de Carvalho, que terá vivido num convento nas Caldas da Rainha. Esse breviário, avaliado em onze mil euros, foi vendido por um alfarrabista português à galeria nova-iorquina Les Enluminures. O conjectural canguru é, apenas, uma das muitas figuras que decoram essas páginas; em outra parte do manuscrito, por exemplo, encontra-se uma personagem de tanga e com penas na cabeça que, à superfície, facilmente pode ser identificada como sendo um indígena, embora sem etnia definida. O intrigante desenho está a servir para que se recupere, de modo mais sensacionalista do que rigoroso, a velha hipótese de que os navegadores portugueses descobriram a Austrália antes dos navegadores holandeses; ideia que, no fundo, não é improvável, mas para a qual falecem as provas. Ora, mesmo que o animal desenhado no breviário seja um canguru (pode ser, somente, um coelho mal desenhado), isso não prova que os portugueses chegaram à Austrália antes dos holandeses.

Está a assumir-se, de modo algo "disneyesco", que chegando à Austrália se verá cangurus por todos os lados - logo, se a freira portuguesa desenhou um deles num breviário cuja data de criação antecederá a da descoberta holandesa da Austrália (26 de Fevereiro de 1606, quando o navegador Willem Janszoon atracou na foz do rio Pennefather, na ponta mais nordeste do território australiano), isso só se explicará pelo facto dos portugueses lá terem chegado primeiro. Este raciocínio não faz sentido, porque, desse modo, poderia argumentar-se que Janszoon não descobriu a Austrália, porque não viu canguru nenhum. De facto, a primeira vez que essa espécie foi mencionada empiricamente por um navegador europeu foi a 12 de Julho de 1770, no diário de Joseph Banks, naturalista inglês que fez parte da expedição do tenente James Cook (ainda não era capitão nessa altura), a primeira a cartografar toda a costa oriental do continente.
O próprio James Cook também o descreveu no diário de bordo, apontando que, no dia 10 de Julho, o tenente John Gore saiu do barco (em reparações na foz do rio Endeavour) para ir à caça e matou um animal bizarro, da cor de um rato, que alguns nativos, que passaram perto numa canoa, chamaram de «Kanguroo». No dia seguinte, o canguru foi o jantar da tripulação e toda a gente o achou delicioso (John Gore também foi o primeiro europeu a matar um indígena Maori, mas não há relatos de que esse tenha servido de jantar).

  
A imagem acima (de fazer água na boca) foi pintada em 1772 pelo artista George Stubbs, de acordo com as descrições de Banks. Durante muito tempo achou-se que o nome canguru, dito pelos nativos na canoa, não denominava o animal, consistindo, antes, numa declaração de ignorância sobre a identidade da espécie: algo como "não sei o que é". Essa teoria relacionou-se com o facto do nome canguru não fazer parte de nenhum dialecto aborígene conhecido. Todavia, em 1971, o antropólogo John Haviland esclareceu o mistério. Os nativos que Cook encontrou na foz do rio Endeavour pertenciam à exclusiva comunidade Guugu Yimithirr: minoria autóctone (cujo nome parece ter sido inventado por J. R. R. Tolkien), ainda existente no nordeste australiano e que fala uma língua baseada em coordenadas geográficas.
Ou seja, em vez de esquerda, direita, cima e abaixo, os falantes de Guugu Yimithirr dizem Este, Oeste, Norte e Sul - "estou a sul de minha casa" ou "dá-me isso que está a norte daquilo". O seu sentido de orientação é tão apurado que crianças de oito anos são capazes de, instintivamente, encontrar o Norte numa sala sem janelas numa casa na qual nunca entraram e para a qual foram levadas de olhos vendados (desde que essa casa se situe na sua província - se forem levados para uma cidade muito distante, esses nativos não conseguem orientar-se; o que acontece frequentemente com etnias que falam línguas desta natureza, por vezes ainda mais complicadas que Guugu Yimithirr, dependentes de indicadores territoriais geográfico-atmosféricos muito particulares).
Em Guugu Yimithirr, a palavra gangurru (que Banks e Cook anotaram como kanguroo) é usada para denominar a espécie de canguru cinzento que vive no lado oriental da Austrália (existe outra espécie de canguru cinzento, mais pequena, endémica do lado ocidental) e que raramente se aproxima da costa. Foi, portanto, um canguru aventureiro que Gore caçou em Julho de 1770.

Em suma, a ser genuíno o breviário, nada nos indica que Caterina de Carvalho desenhou nele um canguru; mas se o fez, tal não siginifica que os portugueses tenham descoberto a Austrália antes dos holandeses, porque chegar à Austrália e ver cangurus são duas coisas diferentes. Os portugueses podem ter visitado a Austrália depois de Janszoon e visto cangurus nessa altura. A hipótese de que os portugueses chegaram primeiro à Austrália permanece por provar.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

«Ancient Aliens»: limpando o lixo


Depois de ter publicado no passado dia 28 de Agosto o artigo Hoje Há Pirâmides, no qual enunciei as essências das teorias pseudo-históricas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, fui surpreendido por descobrir que alguns dos meus contactos olham com credulidade para essas ficções descabeladas. Não demorei muito tempo a perceber que a culpada dessas situações bizarras é, pela medida grande, a série televisiva Ancient Aliens, transmitida actualmente pelo Canal História.
Já vi um punhado de episódios de algumas temporadas desse seriado e o que tenho a dizer sobre ele é que consiste num produto televisivo tóxico que deveria ter um aviso no início do genérico, e depois de cada intervalo, para informar constantemente os espectadores de que estão a assistir a flagrantes manipulações e ocultações de factos históricos e científicos que breves leituras de livros escolares do ensino secundário seriam suficientes para desmistificar. Ancient Aliens não é uma série preocupada com a verdade: é um programa sensacionalista que usa aparências de rigor e de autoridade, emprestadas pela circunstância de ser emitido por um canal chamado Canal História, para disseminar daninhas ideias pseudocientíficas que, de outro modo, nunca chegariam ao grande público, nem tão-pouco seriam olhadas com respeitabilidade.
Os meus contactos de que falei há poucas linhas são indivíduos inteligentes e informados, representativos daquilo a que posso chamar, à falta de designação melhor, de "público normal": não são, de maneira nenhuma, teoristas das conspirações, entusiastas de ovniologia ou crentes no sobrenatural. Contudo, são receptivos à imitação de rigor e autoridade científicas com que a série se mascara e ao formato empolgante com o qual ela passa as suas pseudo-informações. Acredito que esta é a maior deformação conseguida por Ancient Aliens: a popularização, junto de espectadores comuns - num canal que, à partida, lhes parece ser fidedigno -, de ideias irracionais e radicais que eram coutada quase exclusiva de um minoritário segmento de público acrítico e hostil à razão.
Escrevi este texto para os espectadores que estão a ser enganados por lixo como Ancient Aliens: em seguida, de uma forma sucinta, vou esclarecer a origem dessas ideias estúpidas e demonstrar como os teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre vos estão a puxar, paulatina, mas inexoravelmente, para longe da razão e da realidade. Veiculadas como se fossem factos, essas teorias não são inofensivas, porque servem de Cavalo de Tróia para a instituição de um modelo irracional de olhar para o mundo; uma vez instalado esse modelo, os indivíduos tornam-se presas de todo o tipo de charlatanices - algumas muitíssimo dispendiosas, no que concerne ao tempo, dinheiro e relações pessoais. Em suma: o género de aldrabices avançadas por produtos como Ancient Aliens é nóxio, pegue-se por onde calhar.

H. P. Lovecraft
A história sobre a origem das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre não é complexa, mas é pormenorizada; para explaná-la detalhadamente seria necessário introduzir um manancial de informação específica, subordinada aos campos da pseudo-história, do esoterismo ocidental, das sociedades ocultistas que apareceram nos Estados Unidos e na Europa durante o século XIX e da literatura dita fantástica que despontou em inícios do século XX, que, com franqueza, confundiria os leitores que não estão familiarizados com esses assuntos. Como escrevi acima, este texto não é para especialistas, nem para quem já tem umas "luzes" sobre estas teorias tresloucadas, mas para aqueles que apenas ouviram falar delas em séries como Ancient Aliens e outros produtos parecidos. Este é um desmascaramento directo dessas teorias, a partir do qual se poderá investir numa observação aprofundada de todos os detalhes sobre a origem delas, mas, para já, irei concentrar-me no fundamental. E o fundamental é isto: as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, popularizadas como factos por veículos mentirosos como Ancient Aliens, têm origem nos contos de horror do autor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, nascido em 1890, na cidade de Providence, capital do estado de Rhode Island, e falecido em 1937, com um cancro no intestino delgado.

Hoje, a herança literária de Lovecraft é uma das mais influentes (e lucrativas), mas, enquanto viveu, o escritor, que passou fome e foi muito pobre, nunca conheceu o prestígio que as gerações posteriores lhe reconheceram e, infelizmente, morreu convencido de que fracassara. Porém, Lovecraft foi um espantoso epistológrafo, apenas ultrapassado pelo filósofo francês Voltaire na profusão de milhares de cartas que escreveu a amigos e colegas autores com quem manteve constante correspondência. Esse assombroso acervo permite traçar com minúcia o retrato psicológico de uma personalidade imaginativa, artística e intrincada, que, mais do que qualquer outra coisa, se pautou por um conservadorismo severo na juventude, e nos primeiros anos da idade adulta, mas que se tornou muitíssimo mais liberal, tolerante e positiva nas últimas décadas de vida. O perfil de absoluto racista virulento que lhe é traçado pelos detractores não se sustenta diante da documentação existente: Lovecraft desgostava das massas, mas não de raças; o seu preconceito sempre se dirigiu à plebe e nunca aos indivíduos. Se tivesse sido um autêntico xenófobo nunca teria casado com uma emigrante russa de religião judaica que, ainda por cima, era mais velha que ele (depois de se divorciarem, permaneceram amigos). Lovecraft foi uma criança doente que não chegou a terminar o liceu, mas compensou essa lacuna dedicando a vida inteira à leitura e à procura do mais actualizado conhecimento científico: ateu e grande desmistificador das práticas ocultistas do seu tempo (como o espiritismo, a adivinhação, a astrologia, etc.), Lovecraft escreveu histórias de horror em que as personagens fantásticas têm uma origem física, em vez de sobrenatural - e é nesta escolha autoral que reside a origem das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre.
Nas histórias mais representativas de Lovecraft, aquelas que, hoje, se apelidam em conjunto por "mitologia lovecraftiana" (a popular designação Cthulhu Mythos, inventada pelo escritor norte-americano August Derleth - que salvou do esquecimento a obra de Lovecraft - está a ser abandonada pelos especialistas, por culpa do lastro cristão que Derleth imprimiu sobre esse corpo literário ateu e amoral), os deuses antigos, responsáveis pela construção de primitivas cidades e de estruturas enigmáticas que, aparentemente, as civilizações de outrora não poderiam ter sido capazes de levantar sozinhas, são, afinal de contas, entidades extraterrestres que os homens tomaram por deuses.
Esses seres extraterrestres são, em regra, indiferentes às vontades humanas, mas essa indiferença logra, não obstante, o nosso infortúnio. A história basilar da mitologia lovecraftiana, na qual os deuses antigos não passam de criaturas extraterrestres, tão açaimadas pelas leis da física quanto nós, intitula-se The Call of Cthulhu (A Invocação de Cthulhu) e foi publicada pela primeira vez no número de Fevereiro de 1928 da revista bimestral norte-americana Weird Tales.

   The Call of Cthulhu foi uma ficção inovadora - e Lovecraft o primeiro a postular, de modo fictício, que os antigos deuses eram entidades extraterrestres, nas suas histórias de horror -, mas que se arquitecta sobre as ideias pseudo-históricas dos ocultistas e dos pseudo-arqueólogos do século XIX, como o político norte-americano Ignatius Donnelly, que, em 1882, escreveu Atlantis: The Antediluvian World (Atlântida: O Mundo Antidiluviano), livro seminal para a popularização e consolidação da tese atlante sobre as origens da humanidade, pugnada por correntes hiperdifusionistas (o Hiperdifusionismo é uma teoria pseudo-histórica que defende que todas as civilizações existentes descendem de uma primordial civilização-matriz, tecnologicamente avançada e espiritualmente desenvolvida, entretanto desaparecida num cataclismo, como um terramoto, um maremoto ou uma erupção vulcânica). Esse livro de Donnelly iniciou um tsunami de pseudoliteratura sobre antigos continentes perdidos, entre os quais o de Lemúria e o de Mu, e a sua influência sobre Lovecraft e, consequentemente, sobre os teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, está na ideia de que os deuses antigos não foram invenções das mentes dos homens, mas entidades reais que com eles contactaram e, em alguns casos, conviveram (no caso de Donnelly, seriam os patriarcas desaparecidos da extinta Atlântida).
Em 1864, ao observar que existiam lemúres (espécie de primata) na costa oriental de África (Ilha de Madagáscar) e na costa ocidental da Índia, o zoólogo inglês Philip Lutley Sclater teorizou que deveria ter existido, algures numa era vetusta, uma ligação terrestre entre os dois continentes: a esse hipotético estreito deu o nome sugestivo de Lemúria, porque era a passagem dos lemúres. Hoje, achamos ridículo este tipo de ideias, porque conhecemos o modo como os continentes se formaram, por movimento das placas tectónicas, logo continentes afundados só poderão conceber-se no domínio da ficção; porém, na altura, as coisas passaram-se de outro modo. Em 1870, o cientista alemão Ernst Haeckel inventou que a tal Lemúria deveria ser o local onde a espécie humana tinha nascido, teorizando que os símios, como os gorilas, chimpanzés e orangotangos, tinham evoluído dos lemúres e, por conseguinte, disseminado para a África e para a Ásia a partir desse hipotético território. Abreviando: a ideia de Lemúria não vingou na geologia, nem na antropologia, mas o mesmo não pode dizer-se do campo do esoterismo, no qual Lemúria se transformou num continente perdido.

Helena Blavatsky
No seu livro The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta), de 1888, a ocultista russa Helena Blavatsky (criadora, em 1875, da Sociedade Teosófica, em Nova Iorque) alegou ter canalizado espiritualmente os ensinamentos secretos de um misterioso volume, anterior ao nascimento da própria humanidade, intitulado Livro de Dzyan, que lhe fora revelado por entidades superiores (a que chamou Mahatmas): essa narrativa espúria, meio-argolada em textos religiosos indianos, desvenda que os antepassados do homem apareceram na Terra há dezoito milhões de anos, sob a forma de criaturas invertebradas, semivegetais, que, há três milhões de anos (sem se perceber muito bem como), deram origem a uma raça de gigantes andróginos; esses gigantes relacionaram-se sexualmente com animais (?) e deram origem aos híbridos monstruosos da mitologia clássica. (É a versão blavatskiana da queda bíblica da Graça, porque, a partir desse episódio, a reprodução deixou de ser espiritual para passar a ser carnal.) Segundo a "sabedoria secreta" dos Mahatmas, a Lemúria - que, como vimos, foi inventada pelo zoólogo Philip Sclater - era o berço primordial de toda a Criação: um continente perdido onde tinham aparecido as raças antigas e, também, o local onde originou a humanidade. No sistema pseudo-histórico de Blavatsky, que, acredite-se ou não, influenciou muitíssimo diversas correntes do esoterismo ocidental (incluindo a gnose sexual-racista de Lanz von Liebenfels, editor da revista neocristã e anti-semita Ostara), a humanidade contemporânea era, apenas, a quinta "raça" de uma série de Sete Raças que governariam a Terra. (A quarta raça fora, obviamente, a Atlante; entretanto, destruída por forças ocultas que instrumentalizaram magia negra para o efeito.) Mas todas as Sete Raças teriam origem em Lemúria, o berço, que emergiria e submergiria, regularmente, até a sétima raça reinar no mundo.
Contemporâneo de Blavatsky, o ocultista inglês James Churchward agarrou nos "ensinamentos" teosóficos e popularizou o seu próprio continente perdido: Mu, a «Mátria da Humanidade» (apesar disso, Mu fora inventado, uns anos antes, pelo arqueólogo amador anglo-americano Augustus Le Plongeon, que acreditava na ideia muito bizarra de que a Maçonaria tinha sido criada pelos Maias e por eles introduzida no Egipto). Embora tenha passado vários anos a teorizar sobre Mu, somente em 1926 é que Churchward publicou um livro sobre o assunto: The Lost Continent of Mu (O Continente Perdido de Mu), cuja existência e história lhe haviam sido provadas por monges hinduístas, num mosteiro perdido dos Himalaias. Segundo Churchward, Mu tinha sido um continente-ilha do Oceano Pacífico, uma civilização-matriz da qual todas as outras derivaram; incluindo a Atlante e, a partir dessa, a Egípicia. Os vestígios de Mu seriam as ruínas polinésias do Pacífico - as mesmas ruínas que, curiosamente, foram usadas por Lovecraft em The Call of Cthulhu para servirem de ruínas da cidade fictícia de R'Lyeh, em quais subterrâneos dormia a entidade extraterrestre Cthulhu, à espera do momento em que as estrelas se alinhassem correctamente, de maneira a emergir do seu cativeiro (o que acontece no final da história).

Em resumo: H. P. Lovecraft foi ateu, daí ter sentido a necessidade de, nos seus contos de horror, escrever sobre agentes fantásticos que fossem físicos, em vez de sobrenaturais; para o efeito, fundou o seu universo ficcional sobre o cadinho cultural da altura - as pseudo-histórias e narrativas esotéricas sobre continentes perdidos, ruínas e monumentos construídos por deuses antigos -, mas nos papéis desempenhados pelas divindades colocou entidades extraterrestres, oriundas de outros planetas. Até inventou um nono planeta: Yuggoth, um pequeno mundo, habitado pela civilização extraterrena dos Mi-Go, que ficava nas fímbrias do sistema solar - planeta inventado pouco tempo antes da descoberta de Plutão. No entanto, a ficção de Lovecraft, publicada em revistas periódicas de contos, não alcançou grande popularidade nos Estados Unidos nessa altura. A grande influência de Lovecraft sobre as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre ocorreu na Europa, no rescaldo da Segunda Grande Guerra; em principal, na França.
Para entreter os soldados destacados para o estrangeiro, o exército norte-americano criou uma colecção de livros de bolso, na qual incluíu vários títulos de géneros diferentes, como o western, o policial, a ficção científica e o horror; entre os livros de horror contava-se The Dunwich Horror and Other Weird Tales (O Horror de Dunwich e Outros Contos Estranhos), da autoria de um autor, algo obscuro, chamado H. P. Lovecraft. Foi através desses livros de bolso que o público europeu contactou com diversos autores norte-americanos de ficção científica: género que, em pouco tempo, alcançou uma popularidade enorme em França - assim como a obra de Lovecraft, cujas histórias mais volumosas, como The Call of Cthulhu e At the Mountains of Madness (Nas Montanhas da Loucura), foram publicadas, a partir de meados dos anos cinquenta, pelas Éditions Denoël.
At the Mountains of Madness é particularmente importante para a consubstanciação da Teoria da Génese Extraterrestre, porque é a primeira história que apresenta a ideia de que a raça humana foi criada em laboratório por engenheiros genéticos alienígenas. Nesse texto, os astronautas extraterrestres (as Coisas Antigas - de blavatskiana consistência vegetalóide) foram os criadores de toda a vida da Terra, entre a qual se destacam duas importantes espécies antagónicas: a dos Shoggoths, escravos capazes de adquirir qualquer forma e que foram usados pelas Coisas Antigas para construir as cidades e os monumentos de outrora; e a humana, criada por simples curiosidade científica.
Esta noção de uma espécie criada por extraterrestres para servir de escrava foi usada pelo autor azerbeijano-americano Zecharia Sitchin no seu infame sequestro de elementos e destraduções da mitologia suméria, reunidos na amálgama intitulada The Twelfth Planet (O Décimo Segundo Planeta), editado em 1976. Este livro de Sitchin pretende ser uma tradução fidedigna (na realidade, apresenta-se como a "única" tradução fidedigna) de placas de escrita cuneiforme suméria que contam como uma alegada espécie extraterrestre, chamada Anunnaki, veio à Terra, aterrando na região da antiga Mesopotâmia, e criou a espécie humana para ser sua escrava em escavações de ouro, sem o qual os Anunnaki não seriam capazes de regenerar a atmosfera do seu planeta, chamado Nibiru (o título do livro relaciona-se com o "facto", descoberto por Sitchin, de que os antigos sumérios consideravam o Sol e a Lua como planetas, daí que o dos Anunnaki passava a ser o décimo segundo - ou seja, nesta história, sem pés nem cabeça, os antigos sumérios, além do Sol e da Lua, já conheciam os nove planetas do sistema solar).
Em certos círculos de teoristas das conspirações e ovniologistas marginais, os Anunnaki de Sitchin são equivalentes aos Reptilianos: répteis extraterrestres de feitio antropomórfico, ao jeito dos invasores fictícios da série televisiva V: A Batalha Final, que, segundo o doentio David Icke, ex-locutor desportivo inglês, tornado "filho de Deus" e denunciador do plano reptiliano pelo controlo mundial, provêm (adequadamente) da constelação Alfa Draconis e, tal como os Shoggoths de Lovecraft, têm o poder de trasmutar de forma - os seus disfarces preferidos são os de monarcas europeus, líderes políticos mundiais e actores de Hollywood. Talvez não seja coincidência que uma das influências para a construção do mito reptiliano extraterrestre seja a dos homens-serpentes das histórias dos bárbaros Kull e Conan, inventados pelo escritor norte-americano Robert Ervin Howard, grande amigo epistolar de Lovecraft: essas criaturas, de origem enublada nas eras pré-dinossáuricas, têm como objectivo infiltrarem-se entre os homens, assumindo os seus semblantes, de maneira a governarem na sombra para ganhar o controlo do mundo. (À beira de o conseguirem, foram derrotadas por Kull, um sobrevivente da Atlântida.) No entanto, a Teoria da Génese Extraterrestre, popularizada por Sitchin, entre outros, e inventada por Lovecraft, como vimos, foi apresentada pela primeira vez ao público como "factual", em 1960, no livro Le Matin des Magiciens (O Despertar dos Mágicos), de Louis Pauwles e Jacques Bergier.          

Escrito pelos editores da revista de ficção científica Planète, criada no início de 1960 e que publicou muitos contos de Lovecraft, Le Matin des Magiciens pode resumir-se como uma viagem alucinante pela cultura marginal de meados do século passado, desde várias teorias da conspiração, pseudo-arqueologia, piramidologia, misticismo nazi, teorias sobre Antigos Astronautas e Génese Extraterrestre. Aliás, o próprio Lovecraft é referido em Le Matin des Magiciens como tendo sido um observador dos extraterrestres ocultos (em conjunto com o escritor inglês Arthur Machen, que Lovecraft admirou e emulou), por conseguinte a influência lovecraftiana sobre Pauwles e Bergier é inegável. O livro provou ser muito influente, principalmente na Europa, e esteve na origem de outro título, mais influente ainda, que se tornou a Bíblia dos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre. Esse trabalho, publicado em 1968, largamente responsável pelo estado das coisas a que chegámos, foi escrito por um recepcionista suíço de hotel, chamado Erich von Däniken.

Erich von Däniken e Giorgio Tsoukalos
 Menos conhecido por ter sido preso por desfalcar dinheiro ao hotel onde trabalhava, Von Däniken é o Papa dos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; juntamente com Giorgio Tsoukalos, Sitchin e outros chicaneiros, é um convidado regular da série Ancient Aliens. Copiando trechos da edição alemã de Le Matin des Magiciens, editada em 1963, e de livros do francês Robert Charroux - outro pseudo-historiador de que os conhecedores destas matérias deverão lembrar-se; autor de, entre outros, Histoire Inconnue des Hommes Depuis Cent Mille Ans (História Desconhecida dos Homens) -, Von Däniken escreveu o livro mais popular e influente do género: Erinnerungen an die Zukunft, que significa Memórias do Futuro, mas que foi traduzido para inglês com o título Chariots of the Gods? (Carruagens dos Deuses?), pelo qual ficou conhecido internacionalmente. No fundo, Erinnerungen an die Zukunft nada tem de original: é um apanhado de tudo o que foi escrito sobre o tema até à data da sua edição, mas, inversamente a Le Matin des Magiciens e aos livros de Charroux (que só chegaram aos Estados Unidos na década de Setenta), tornou-se, de imediato, um sucesso de vendas norte-americano, com milhões de exemplares vendidos num curto período, beneficiando de uma publicidade televisiva estonteante. Não demorou muito até que o próprio livro fosse adaptado à televisão num "documentário" de três horas de duração, intitulado In Search of Ancient Astronauts (À Procura de Antigos Astronautas), produzido por Alan Landsburg e narrado pelo famoso Rod Serling, criador da série The Twilight Zone (A Quinta-Dimensão) - ambos crentes nas revelações de Von Däniken (Landsburg até escreveu a sua própria imitação de Chariots of the Gods?).
Von Däniken foi, finalmente, desmascarado como o mentiroso que é, quando confessou ter forjado as "provas" da existência de uma subtérrea cidade extraterrestre, escondida numa selva do Equador: foi o próprio Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, que liderou a expedição científica para desmistificar esse dito achado pseudo-arqueológico. Armstrong não encontrou nada, como seria de esperar, e Von Däniken teve de admitir que inventara a história. Ainda assim, a memória do público é de curta duração e ei-lo, novamente, nos ecrãs, a repetir as mesmas charadas e as mesmas aldrabices para ouvidos novos.
 
Em 2011, o cineasta inglês Ridley Scott disse que o seu filme Prometheus, espécie de prequela de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) se debruça sobre algumas ideias de Von Däniken, no que concerne à génese extraterrestre da vida terrena, mas, na verdade, seria mais correcto dizer que se debruça sobre algumas ideias de Lovecraft sobre a génese extraterrestre da vida terrena: aliás, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro foi impedido de seguir com a produção da sua adaptação cinematográfica de At the Mountains of Madness, história onde essa ideia surge pela primeira vez, porque o estúdio Universal Pictures percebeu que o enredo era demasiado parecido com o de Prometheus (com efeito, Prometheus é que é um desgraçado arremedo de At the Mountains of Madness).


No clímax de Prometheus, um dos monstros transmutáveis criado pela negra fórmula líquida dos engenheiros extraterrestres - arma bioquímica que perverte o ADN dos organismos com que contacta - impugna um dos próprios engenheiros, numa evidente colagem à linha narrativa de At the Mountains of Madness que conta como os Shoggoths se revoltaram contra os seus criadores, as Coisas Antigas. Scott até pode achar, por desconhecimento, talvez, que o seu filme vai, de facto, ao encontro de temas dänikianos, mas o resultado final é totalmente lovecraftiano. O problema, porém, não são filmes medíocres como Prometheus (por mais anticiência que sejam), nem histórias intrigantes e provocantes como At the Mountains of Madness (por mais pró-ciência que sejam), porque são apresentados ao público tal qual como são: ficções. Em oposição, produtos pestíferos como Ancient Aliens são apresentados ao público como sendo factuais. Ora, cada um tem direito a ter as suas próprias ficções, sejam elas opiniões ou fantasias, mas não se pode ter factos próprios.

É compreensível que a maioria do público desconheça que as teorias principais de Ancient Aliens provêm da ficção de horror imaginada por H. P. Lovecraft, que, por sua vez, foi inspirada pelas teorias pseudo-históricas dos pseudo-arqueólogos, antiquários e ocultistas do século XIX. Com efeito, haverá bastantes leitores especializados que não fazem ideia destas ligações, porque elas são, na verdade, muito exclusivas. Só quem se dedica, em conjunto, ao estudo do esoterismo ocidental, às origens da literatura fantástica e à história da cultura popular, dita marginal, como as teorias das conspirações e ovniologia, poderá ter capacidade de reunir as ferramentas necessárias para visualizar todo o espectro. No entanto, o que não é compreensível é que os indivíduos ponham de lado o pensamento crítico e sejam tão lestos a acreditar em vendedores de banha-de-cobra (trocadilho não-intencional, no que diz respeito aos Reptilianos) - ou, no mínimo, a dar-lhes atenção - e, ao mesmo tempo, desdenhar ou recusar liminarmente teorias verdadeiramente científicas.
É verdade que os leigos não têm capacidade para acompanhar a linguagem e o ritmo das descobertas científicas se não devotarem muito tempo a essa aprendizagem, mas isso não é desculpa para virar-se costas à ciência e adoptar de braços abertos o pseudoconhecimento por ela rejeitado só porque oferece "respostas" simples (simplórias) e imediatas (falsas). A influência de séries televisivas como Ancient Aliens é muito maior do que eu pensava e isso chocou-me. Este texto nasceu desse choque e procurei que fosse um desmascaramento directo, entendível e, sobretudo, eficaz. Tracei, sem superfluidades, a cronologia principal das origens das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre que suportam o edifício de Ancient Aliens. Indivíduos como Von Däniken, Zecharia Sitchin ou Giorgio Tsoukalos são aldrabões sem vergonha que fazem dinheiro vendendo pseudoconhecimento ao público entusiasta (e ingénuo). Através de parques temáticos, livros, filmes, séries de televisão e palestras, estes bandidos e outros do mesmo jaez, como o abjecto David Icke, deformam o pensamento crítico do público, jovem e adulto, para vender o evangelho da irracionalidade. Não é conhecimento, nem é ciência: é um negócio - vocês estão a ser enganados e colonizados por ideias infectas. Está nas vossas mãos a escolha de aceitá-las ou extirpá-las.

 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Hoje há pirâmides


A imagem que ilustra este artigo é uma alusão humorística ao extremo de irracionalidade a que os seguidores de teorias pseudo-arqueológicas podem chegar, quando, por ennui, ingenuidade ou ignorância, substituem a sua crença numa primordial e tecnologicamente avançada civilização-matriz pela crença na intervenção de Antigos Astronautas no desenvolvimento das sociedades primitivas. Vou descrever em poucas linhas estas crenças de maneira a informar os leitores que não estejam familiarizados com estes universos pseudo-históricos/arqueológicos.

A supra-enunciada primeira crença pode adquirir, em essência, duas formas: a do Difusionismo e a do Hiperdifusionismo. O Difusionismo consiste na crença de que as civilizações antigas, por mais afastadas geograficamente ou cronologicamente que tenham estado umas das outras, mantiveram, de alguma forma, contactos e permutaram comportamentos culturais e importantes segredos tecnológicos; alegadamente, segredos que, hoje, ainda não foram descobertos pelo homem contemporâneo. Por outro lado, o Hiperdifusionismo propõe a existência de uma primordial e tecnologicamente avançada civilização-matriz, da qual difundiram todas as sociedades existentes. Essa conjectural antiquíssima civilização-matriz (Atlântida, Lemúria, etc.) é sempre apresentada pelos pseudo-historiadores como tendo sido uma iluminada cultura superior que, subitamente, desapareceu por culpa de um cataclismo - um terramoto, um maremoto ou uma erupção vulcânica -, mas não sem que um punhado de sobreviventes se tenha dispersado no último momento para, nos milénios seguintes, instruir e guiar as remanescentes, mas grosseiras civilizações (descritas desse modo pelos pseudo-historiadores, porque, segundo eles, seriam civilizações pouco desenvolvidas espiritualmente - seja lá isso o que for, o certo é que a partir daqui está-se no território da pura charlatanice). Para os hiperdifusionistas, os mitos e as religiões existentes conservam, inequivocamente, memórias desses supostos antigos patriarcas desaparecidos, mas sob a forma de deuses e de outras personagens pseudo-epigráficas.
Neste ponto, coincide-se com a supra-enunciada segunda crença: a Teoria dos Antigos Astronautas, que defende que os protagonistas mitológicos das diversas culturas globais são configurações erróneas - ou codificadas - de visitantes extraterrestres que, em algum momento de um passado muitíssimo distante, desceram à Terra para instruir e guiar os povos primitivos. Em acrescento, quando esses fictícios visitantes extraterrestres são apresentados pelos pseudo-historiadores como tendo sido antepassados ou criadores da humanidade fala-se da Teoria da Génese Extraterrestre: crença que defende a criação do Homem em laboratório por engenheiros genéticos extraterrestres. Assim como no caso dos patriarcas desaparecidos, nos quais acreditam os hiperdifusionistas, os geneticistas extraterrestres também foram entendidos como deuses pelos povos primitivos.

Estas ideias (e outras do mesmo jaez) não são recentes - algumas provêm do final do século XVIII -, mas nos últimos anos têm crescido com uma popularidade que não conheciam desde meados dos anos setenta do século passado. Em principal, as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre beneficiam de uma exposição mediática constante que contamina as mentes dos espectadores mais influenciáveis e ingénuos. Séries "documentais" televisivas como Ancient Aliens, transmitida pelo Canal História (cheia de deformações e ocultações de factos para efeitos espectaculares e sensacionalistas), ou os livros e as palestras de chicaneiros como Zecharia Sitchin (autor de, entre outros, The Twelfth Planet) ou David Icke (que muito antes de tornar-se a coqueluche dos adeptos das teorias das conspirações se apresentou ao público como sendo o filho de Deus), são, somente, alguns dos nomes mais populares, mas nem por isso menos danosos, de uma classe de gurus sem vergonha que ganha a vida manipulando emoções e expectativas e espalhando o evangelho da irracionalidade.
A pseudociência e a pseudo-história oferecem soluções simples para problemas intrincados e relacionados com assuntos que a maioria do público não é capaz de avaliar com precisão, porque, desde a segunda metade do século XX, os campos da ciência e da história têm-se especializado e compartimentalizado, enroupando-se em linguagens e preceitos técnicos complexos que os leigos não têm capacidade de acompanhar. Provavelmente, sentindo-se excluídos por uma elite académica que comunica de modo, aparentemente, indecifrável, muitos indivíduos sem conhecimentos científicos, históricos, arqueológicos ou etnológicos voltam-se para o pseudoconhecimento que é rejeitado pelo mundo académico. Esse pseudoconhecimento é sincrético, constituído por retalhos e leituras feitas pela rama de materiais mitológicos e esotéricos, e, muitas vezes, apenas serve de Cavalo de Tróia a doutrinas que se aproximam daquilo a que pode chamar-se novas religiões populares. Com efeito, as supracitadas teorias pseudo-históricas têm em comum a recusa do mundo real, apresentado como sendo um artificial plano de existência dominado pelo cientismo (uma espécie de concepção neognóstica, mas com a academia em jeito de Demiurgo), em benefício de mundos falsos, algo infantis, em que cada um pode ajudar a solucionar alguns dos mistérios. Os leitores não-versados nas temáticas pseudo-históricas ou pseudo-arqueológicas dificilmente terão ideia do superlativo grau de irracionalidade que permeia essas teorias alternativas, mas prometo escrever sobre elas num futuro próximo. Para já, o meu objectivo é, a partir desta introdução, comentar uma notícia recente que me despertou a atenção.

Foi com estupefacção que li a notícia de que se tinha descoberto cento e quarenta pirâmides na Ilha do Pico, no arquipélago dos Açores - construções que, alegadamente, antecedem em muitíssimos anos a chegada dos portugueses à ilha. A descoberta foi anunciada esta semana pelos arqueólogos Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA), que estudaram essas estruturas, feitas de rocha basáltica e a que os populares chamam de maroiços, encontrando indícios de orientação espacial relacionada com as estações do ano e até de ritos funerários. O arqueólogo Romeo Hristov, docente na universidade norte-americana do Novo México e que visitou essas pirâmides do Pico, terá declarado que nelas «há uma orientação astronómica rigorosa, rampas de acesso e escadas associadas ao conceito de estrutura sagrada».


Só estive uma vez na Ilha do Pico, enquanto fazia o transbordo para outro avião que me levaria à Ilha Terceira, e, infelizmente, não tive tempo de deslocar-me ao concelho da Madalena para ver estas pirâmides - aliás, até há poucas horas, nem sabia que elas existiam. No entanto, depois de observar as fotos disponibilizadas na Internet, concluo que essas estruturas não me parecem pirâmides nenhumas, mas simples socalcos, feitos por muros de contenção. Os muros de contenção são erguidos para suster o deslizamento dos solos em terrenos que apresentam um grau elevado de inclinação. (Em relação ao que escrevi no quarto parágrafo, alguns dos mais impressionantes muros de contenção construídos pelos romanos, como o existente nas ruínas da cidade de Heliopólis, no Líbano, são descritos pelos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, como sendo antigas plataformas para a aterragem e descolagem de naves espaciais.) Quando se fala em socalcos, vêm logo à memória os da região vinhateira do Douro - e, nem de propósito, a paisagem da Madalena, na Ilha do Pico, também tem servido para esse fim: aliás, em 2004 até foi considerada Património Mundial pela UNESCO em virtude da viticultura. Segundo a notícia do jornal Expresso, cuja ligação adicionei acima, o já citado Romeo Hristov disse «sinto-me no México» ao observar as pirâmides do Pico. De facto, as pirâmides do México foram todas consideradas Património Mundial pela UNESCO: por que razão é que a região da Madalena na Ilha do Pico foi considerada Património Mundial por mérito da viticultura e não por mérito das suas pirâmides que, segundo Hristov, até fazem lembrar as do México? Será porque não existem pirâmides nenhumas na Madalena, para começar? É uma interrogação que deixo para ser respondida por quem entenda de arqueologia.
 

Quem tiver curiosidade de ler alguns artigos académicos assinados por Hristov, pode fazê-lo através desta ligação. Nesta altura, chamo a atenção para que recordem as definições de Difusionismo e Hiperdifusionismo.

Sobre a tentação de ver-se pirâmides onde elas não existem e de declarar que foram construídas por patriarcas desaparecidos, quiçá de Marte, gostava de recordar o logro das pirâmides bósnias (as do Sol, da Lua e do Dragão) inventado por Semir Osmanagich, arqueólogo "amador" que não só viu pirâmides onde elas nunca existiram, como ainda tentou fabricá-las: «Osmanagich said Visocica's conglomerate blocks were made of concrete that ancient builders had poured on-site. This theory was endorsed by Joseph Davidovits, a French materials scientist who, in 1982, advanced another controversial hypothesis—that the blocks making up the Egyptian pyramids were not carved, as nearly all experts believe, but cast in limestone concrete. Osmanagich dubbed Pljesevica's sandstone plates "paved terraces," and according to Schoch, workers carved the hillside between the layers—to create the impression of stepped sides on the Pyramid of the Moon. Particularly uniform blocks and tile sections were exposed for viewing by dignitaries, journalists and the many tourists who descended on the town».

 
É trágico que o público que diz não ter tempo para aprender ciência, história e arqueologia seja tão listo em decorar listas de desinformação pseudo-histórica e esotérica que, no fundo, o deixam indefeso diante dos perigos do pseudoconhecimento. Poderá não saber como as células metabolizam os hidratos de carbono, nem de que maneira a informação genética codificada no ADN se traduz em proteínas, tão-pouco como a selecção natural funciona, mas saberá que as pirâmides eram câmaras transdimensionais que enviavam os faraós ao encontro dos chefes extraterrestres, que esses extraterrestres criaram o ser humano e que, afinal de contas, tudo começou na Atlântida.